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Paula Beiguelman

A CRISE DO
ESCRAVISMO E A
GRANDE IMIGRAÇÃO
Indice
Abolicionismo e imigrantismo ........................................................ 7
Apogeu e declínio do imigrantismo.............................................. 30
Indicações para leitura................................................................. 61
ABOLICIONISMO E
IMIGRANTISMO
Na historiografia referente ao binômio abolido- nismo-imigrantismo. a noção
de Oeste paulista assume, como ê sabido, importância capital.
A designação de Oeste, quando se trata dessa etapa histórica da
cafeicultura, tem como referencia notória o Vale do Paraíba. Observando o mapa
da Província (depois Estado) verificamos que a lavoura que se expande a partir
de Campinas sc localiza na verdade na regiüo Leste, orientando-se a seguir no
sentido Norte. Ou seja, o Oeste histórico corresponde. grosso modo, ao Leste e
Nordeste geográfico. Da mesma forma, O Vale do Paraíba, localizado no
Sudeste, era chamado dc Norte, também em função do direcionamento do cafc,
cm marcha progressiva no sentido Sul, a partir da Província do Rio de Janeiro,
para depois contornar para o Oeste.
São extremamente abundantes as evidências de uma discrepância do Oeste com
respeito a um modelo rigorosamente escravista, decorrente de fatores diversos
que. inclusive, aliaram os fazendeiros dessa área a um incipiente processo de
urbanização nas fímbrias da lavoura.
Isso, é claro, não interferia no processo de estmturação do quadro de
trabalho da própria lavoura, essencialmente escravista. Sem dúvida, tendo
iniciado sua expansão depois da extinção do tráfico
— portanto numa etapa já adversa à especulação em escravos — a lavoura do
Oeste passa a desenvolver uma tendência a reservar o braço escravo para as
funçòes essenciais, empregando o trabalho nacional livre nas tarefas supletivas
ou perigosas. Igualmente, multiplicam-se as tentativas para introduzir colores
europeus, o pagamento de cujas passagens era adiantado pelos fazendeiros.
Colocados, porém, em fazendas já organizadas em base escravista, onde
recebiam uma remuneração pautada pela rentabilidade do trabalho escravo,
originavam-se freqüentes conflitos entre proprietários e colonos, que tornavam
desvantajoso o sistema.
Em vista disso, a nova lavoura passa a insistir numa solução que lhe permitisse
ao mesmo tempo poupar o investimento em escravos c garantir-sc um braço
barato: a entrada do trabalho semi-servil de culcs (coo lies, trabalhadores
indianos c chineses) à custa dos cofres públicos.
Mas. enquanto fracassam essas tentativas, prossegue no Oeste o sistemático
suprimento de braço escravo, vindo cie outras províncias. Por isso, durante a
passagem da lei emancipadora de 1871. que encontra a oposição generalizada da
lavoura de todo o país, é exponencial a resistência do Centro-Sul em geral e
especialmente do Oeste paulista.
Uma vez promulgada a Lei do Ventre Livre, porém, tendo sido o próprio
investimento servil ferido pela depreciação, começam a se esboçar tentativas
para dificultar a corrente de tráfico interpro- vincial, ao mesmo tempo que a
administração passa a promover um programa de auxílio à introdução de
imigrantes.
A abertura de uma terceira frente cafeeira provoca uma substancial mudança
qualitativa na situação. conduzindo ao rompimento dos quadros restritos dessa
política imigrantista. Com efeito, a lavoura mais nova do Oeste da Província de
São Paulo, desenvolvida depois da lei de 1871 (quando decresce o interesse pelo
investimento em escravos), tendia a se organizar na base do trabalho imigrante,
e sc voltava para as possibilidades propiciadas pelo surto imigratório ituliano.
O colono, até então localizado supletivamcme em lavouras já constituídas,
passaria a scr empregado no cafezal em formação, vendo o seu salário acrescido
com o usufruto cias ternas intercafccinas. A introdução de imigrantes cm
famílias permitiria ao fazendeiro obter um suprimento de trabalho supJcmcntar
barato, fornecido peios membros femininos e infantis, enquanto ao colono se
tomava possível, através da cooperação da unidade familiar, um melhor
aproveitamento das oportunidades de ganho.
Para o sistema funcionar a contento era, entretanto. necessário respeitar a
mobilidade do colono, seja entre as fazendas, seja na direção dos núcleos
urbanos. Esse fator, obrigando a uma contínua introdução de novos imigrantes,
tornaria impraticável o esquema no caso do financiamento das passagens
continuar cabendo aos fazendeiros. Além disso, a transferência dessa despesa
para os cofres públicos devia influir favoravelmente sobre a oferta dc braços,
uma vez que o imigrante estaria liberto da necessidade de reembolsar o preço da
passagem, vendo acrescida, portanto, a sua remuneração.
Com o sistema do imigrantismo em grande escala. subvencionado pelos cofres
públicos, alterava - se radicalmente o enfoque corrente da matéria. Enquanto as
administrações provincial e nacional encaravam o problema cm termos de uma
concessão de auxílios pecuniários aos fazendeiros para a introdução de colonos, a
nova lavoura, ao invés, passava a interpretara imigração subvencionada como
alicerce dc um abundante mercado dc trabalho estrangeiro, que caberia aos
poderes públicos proporcionar.
É à área responsável por essa proposta (área essa correspondente à Alta
Mojiana), e cujo porta-voz era o líder imigrantista Maninho Prado Júnior, que
chamamos de Oeste novo.
Em carta de outubro de 1877. registra Martinho Prado Júnior seu
entusiasmo por Sâo Simão c Ribeirão Preto. Â vista da terra roxa. exclama:
“Campinas, Limeira. Rio Claro. Araras, Dcscalvado. Casa Branca, tudo é pequeno,
raquítico, insignificante, diante desse incomparável colosso”.
E, de fato. a região constitui-se em novo centro de atração. a ela afluindo,
além de fazendeiros de outros pontos da Província, grande número dc
proprietários provenientes de Minas Gerais. O distrito que Martinho Prado
Júnior representa na Assembléia Legislativa Provincial, em 1882, inclui Pinhal,
São João da Boa Vista, Casa Branca, Ribeirão Preto, São Simào, Cajuru, Batatais.
Franca. Casa Branca seria uma espécie de limite entre o Oeste antigo (Campinas,
Limeira. Rio Claro, etc.) e o Oeste mais novo, o primeiro centrado em Campinas e
o segundo em Ribeirão Preto.
Com os dois Oestes e mais o Vale. configura-se perfeitamente na Província
uma constelação constituída de três áreas sócio-economicas nitidamente
distintas.
Como o abastecimento dc escravos aumenta com o tempo de ocupação da
terra — por sua vez fator de decréscimo da produtividade da lavoura tropical —.
verifica-se uma relação inversa entre o suprimento dc mão-de-obra cm cada área
e a produtividade da lavoura. Ou seja, o Vale do Paraíba, de cultura velha,
constitui a área proporcionalmente mais abastecida de escravos em termos de
suas necessidades produti va s. e a menos rentável em termos relativos; o Oeste
mais novo apresenta atributos opostos; e o Oeste campineiro situa-se
intermediariamente.
A dinâmica do escravismo conduziria, a longo prazo, a uma progressiva
transferência de braço, da lavoura mais antiga para os setores novos. Mas
ocorre que o processo se interrompe — e justamente por iniciativa do setor dc
vanguarda que, embora faminto de mão-de-obra. propõe a obstaculização do
tráfico interprovincial (que introduzia escravos procedentes do Norte
agropecuário e dos setores mais antigos do Nordeste açucareiro), como passo
tático para impor a solução imigrantista, que afinal acabará prevalecendo.
Essa tomada de posição, por sua vez, envolve uma implicação fundamental.
Com efeito, com o escravismo já ferido em duas etapas — em 1850. com o
encerramento da especulação em escravos; em 1871, quando o próprio sentido
do investimento escravista se vê condenado a longo prazo — o desinteresse do
setor de vanguarda peio suprimento em escravos torna evidente para a
consciência nacional a perspectiva da viabilidade de um movimento visando o
golpe final nu iníqua instituição.
Em fevereiro de 1878. Mortinho Prado promove na Assembléia Legislativa
Provincial o encaminhamento de uma proposta criando o imposto proibitivo dc
1:000$000 sobre cada novo escravo averbado na Província. Desse tributo
procurará excetuar os escravos que acompanhassem os senhores vindos de fora
da Província para abrir fazendas — obviamente no Oeste mais novo; a aparente
condescendência com o escravismo apenas redundaria, porém, em contribuir para
avoiumar. a curto prazo, a pressão imigran- tista, ima vez formadas as fazendas.
Aj^ovado pela aliança dos representantes dos distritos mais novos e mais
antigos (estes últimos já abastecidos) da lavoura cafeeira paulista, o projeto,
entretajito, não se transforma em lei: o Clube da Lavoura de Campinas, que
congrega os importantes interesses do café do Oesic mais velho, obtém do
Executivo provincial, com a cobertura do ministério Sinimbu, a recusa de sanção
à lei aprovada pela Assembléia. Manifestando ainda sua afinidade com a lavoura
do Oeste antigo, esse gabinete liberal promove. em âmbito nacional, a defesa da
reivindicação dela quanto à introdução de braço asiático.
Além disso, no terreno da legislação penal sobre escravos, o governo,
argumentando com a frcqüência dos crimes de assassinato de senhores,
apresenta à Câmara dos Deputados, cm fevereiro dc 1879, uma proposta
determinando que. para o caso desses delitos. se substituísse a pena de galés,
que o escravo teria a cumprir, pela de prisão celular. Um projeto nesse sentido
já fora apresentado cm outra ocasião, fundamentado com a alegação de que a
pena de galés era ineficaz, visto scr o serviço da lavoura mais pesado...
A ordem escravista vivia assombrada, dc forma permanente, pela ameaça de
manifestações de rebeldia. representadas pelos quilombos. levantes, fugas
individuais e crimes contra a vida dos fazendeiros. Mas. na conjuntura particular
em que se discutia a proposta, acrescia o incremento do tráfico Interpro-
vincial, que **desenraizava” escravos das áreas nas quais haviam sido criados c
em que se sentiam como “servos da gleba”, como se comentou na Câmara (sessão
de 22 de março dc 1879), para transplantá-los a uma área estranha onde. além
do mais. seriam sujeitos a uma supercxploração, à qual reagiam conflituosamente.
A resposta a esse contexto é a emergência de uma liderança parlamentar
abolicionista, que. além de questionar o tráfico interprovincial em que o problema
criminal em apreço se inseria, passa a apontar a necessidade dc se resolver de
vez o problema escravista. Ao mesmo tempo que combate as tentativas da
Escravidão para melhorar seus recursos de segurança penal, o abolicionismo se
contrapõe ao intuito dela de sc reorganizar através do trabalho se mi- servil
asiático. Assim. pois. o interesse tático do setor dc vanguarda cm ferir o
escravismo configura uma crise nacional dentro da qual o abolicionismo emerge,
passando a evoluir com dinâmica própria.
P evidente que abolicionismo e imigrantismo nào sc identificam
subjetivamente. Aliás, Joaquim Nabuco foi um severo crítico do imigrantismo.
identificando pcrfcitamcntc a intenção da grande lavoura dc pressionar o
trabalho nacional livre e liberto c. prindpalmcntc, de perpetuar o sistema
territorial e agrícola em que a escravidão se inseria, sistema em última análise
lesivo também para o próprio imigrante. Enquanto o abolicionismo sc referia ao
escravo como trabalhador escravizado, advogando a incorporação econômica da
população nacional livre e liberta num outro sistema, os ideólogos do imi-
grantismo. como Louis Couty (L esclavage au Brésil c Le Brésil *n 1884)
difundem uma noção dc trabalho escravo associado a um atributo de
incompetência, extensivo ao liberto.
Contudo, o imigrantismo capitalizava a instauração do contexto cataclísmico,
criado pela agitação abolicionista, indispensável para abalar uma constelação
gerai que. sem isso, se revelaria, dado o equilíbrio natural de forças, favorável à
escravidão.
Num determinado momento do contraponto imigrantismo-aholicionismo. ao
fim da segunda gestão Dantas (1884-85). quando se discutia o projeto de lei
relativo aos sexagenários, os deputados paulistas Campos Salles e Prudente de
Morais, eleitos com o auxílio do chefe conservador Antônio Prado, proeminente
líder do setor imigrantista. declaram-se indiferentes à escravidão c
interessados exclusiva- mente na imigração, projetando assim, em âmbito
nacional, o ponto de vista da lavoura cafecira mais próspera.
Incumbindo-se da passagem do projeto dos sexagenários, o líder liberal
Saraiva, em vista do iminente revezamento partidário, estabelece negociações
com os conservadores. Delas sc encarregando, o conservador Antônio Prado, ao
mesmo tempo que apresentava várias sugestões tendentes a captar a confiança
da lavoura escravista, declara considerar fora do terreno partidário três
questões: a do demento servil, a financeira e. last bui not least, a imigração.
No ministério Cotegipe, Antônio Prado ocupará a pasta da agricultura,
sustentando ante o Senado. juntameme com Saraiva, a passagem da lei de 1885.
Em s-eguida. passa, a ostentar uma plena identificação com a política
escravocrata de Cptegipe, dessa forma se recomendando ao agrarismo. Com
esses títulos. Antônio Prado obtém o controle do Executivo provincial de São
Paulo, através da Presidência João Alfredo, seu amigo político. A 24 de junho de
1886, João Alfredo transmitia o cargo ao Vice-presidente Queiroz Telles;
simultaneamente, a 2 de julho de 1886. constituía-se, sob a liderança de
Martinho Prado Júnior, a Sociedade Promotora de Imigração, para a qual seriam
praticamente canalizadas as verbas destinadas ao pagamento de passagens a
imigrantes.
Uma vez conseguido o poder administrativo necessário ao encaminhamento da
imigração subvencionada. Antônio Prado se dissocia da política repressiva de
Cotogipc. através de um incidente que culmina com sua retirada do ministério.
Por sua vez, a defecção de uma figura da importância do ex-Mi- nistro da
Agricultura define uma conjuntura favorável ao recrudescimento da campanha
abolicionista. E, de fato. intensifica-se a agitação na Província de Sàu Paulo, onde
Antônio Bento e seus cai fazes solapam a segurança da propriedade escrava, ao
mesmo tempo que abalam a opinião pública revelando provas dos maus-tratos
sofridos pelos cativos. A /te* dtnção, folha de Antônio Bento, começa a ser
publicada no ano de 1887.
Agora, Antônio Prado o o imigrantismo espeTavam da agitação abolicionista,
uma vez rompidas as comportas que a haviam represado durante a primeira fase
da administração Cotegipe, a quebra da resistência do escravismo, localizada no
próspero reduto campineiro, o mais importante setor quanto à riqueza realizada.
Uma representação dos fazendeiros de Campinas à Câmara, protestando
contra a indiferença do Executivo provincial (controlado pelo imigrantismo) ante
a fuga de escravos das fazendas e solicitando ao governo imperial medidas
enérgicas, corretivas e repressivas. leva Antônio Prado 4 tribuna do Senado,
onde toma a defesa do Presidente da Província em termos francamente
abolicionistas. Com efeito, encaminhado o imigrantismo, o almejado
restabelecimento da ordem tinha, agora, como premissa essencial. a abolição.
No curso desse processo, ficara determinada ta- xalivamenle a composição
familiar dó grupo imigrante a ser introduzido com passagens pagas pelo governo,
sendo, pois, atendida a proposta do setor dc vanguarda. E. uma vez. fundada, a
Sociedade Promotora da Imigração celebra imediatamente um contrato com a
Província, para promover a entrada de cerca de 30000 imigrantes no ano dc
1887. Um decreto de 3 dc fevereiro de 1888 autorizará o presidente da
Província a contratar com a Promotora a introdução dc 100000 imigrantes.
Em suma. a orientação imigrantista do setor de vanguarda, provocando urna
crise fundamenta! deniro do escravismo, cria as condições objetivas para a
emergência do movimento abolicionista, circunscrevendo. porem, seu triunfo.
Com efeito, a fase ascendente da campanha abolicionista, que culmina na
liquidação do uefando instituto, encerra-se brusca- mente. sem propiciar as
mudanças estruturais almejadas pelo grande teórico do movimento. Joaquim
Nabuco.
*s*
O conflito entre o Oeste antigo e o novo é manifesto durante todo o processo
de crise.
Na sessão de 16 de março de 1882. na Assembléia Legislativa Provincial,
Martinho Prado investe contra o Clube da Lavoura de Campinas, considerando-o
"tudo o que há de mais anacrônico cm matéria de lavoura”, pela posição assumida
primeiro contra 'a proibição do tráfico intcrprovincial c depois pela insistente
opção (fracassada) pela imigração de co o lies.
Dc qualquer maneira, identificam-sc trés áreas (o Vale o mais os dois Oestes)
que assumem posições distintas, num contexto em que o Oeste mais novo busca a
aliança tática de uma ou outra, de acordo com seus próprios propósitos.
Por outro lado, o progresso da agitação abolicionista podia unir os dois
Oestes na reivindicação imigrantista, ante o protesto do Vale do Paraíba, que nào
se beneficiaria dos recursos empenhados para esse fim. Nesse caso, o Oeste
como um todo desenvolve uma auto-representação progressista, em
contraposição ao "emperramento” do Norte (o Vale).
Ressalte-se que nos estamos referindo a uma constelação político constituída
de três elementos, dois dos quais costumavam ser englobados na categoria geral
Oeste, que dissociamos em Oeste antigo e Oeste novo. Para quem focaliza um
período posterior ao que estamos examinando, quando emergem novas frentes
pioneiras e de expansão, esse Oeste aparece como o “velho Oeste“ de São Paulo.
Tal expressão, porém, é insidiosa, visto prestar-se a uma confusão semântica que
levaria a se considerar num mesmo bloco duas áreas distintas, que têm como
centros respectivamente Campinas e Ribeirão Preto — num evidente retrocesso
anaLítico. Com efeito, quando se emprega, sem maior preocupação de rigor, a
expressão “velho Oeste” cm sentido genérico, englobando Campinas e Ribeirão
Preto, o leitor pode supor que a explanação sc refere ao Oeste antigo, dada a
sino- nímia da adjetivaçào, ou então estender ao Oeste novo imputações válidas
apenas para o antigo. Por isso, a fim de preservar a distinção entre Oeste antigo
e Oeste novo, tal como a formulamos, preferimos, nos casos referidos acima, a
expressão Oeste histórico ou qualquer outra que não se preste a mal-cntcndidos.
Cumpre ainda lembrar que o Oeste novo corresponde. nrvsso modo. à Alta
Mojiana c, portanto, constitui apenas uma pequena parte da área que Samuel H.
Lowrie chama de Mojiana-Paulista (“0 Elçjriçnto Negro na População de São
Paulo”. in Revista do Arquivo Municipal, ano IV. vol. XLVIII, junho dc 1938, São
Paulo, pp. 5-56).
Lowrie divide a Província em quatro áreas: Litoral, Norte, Centro e Mojiana-
Paulista, servindo-se de um critério estritamente geográfico, que lhe pareceu
pertinente tendo cm vista seu objeto de interesse. Deixando de lado o Litoral,
de fato pouco expressivo com respeito à nossa questão, restariam três regiões
significativas: Norte, Centro e Mojiana-Paulista. Na região Norte (na designação
da época, como já vimos) estão arrolados por Lowrie realmente os municípios do
Vale do Paraíba. Mas a área central e a Mojiana- Paulista não correspondem ao
que chamamos de Oeste antigo e Oeste novo. Assim, o Centro compreende
Campinas. Bragança. Itatiba. Itu, bem como municípios da área sorocabana. Por
outro lado. sob a designação de Mojiana-Paulista, são na verdade englobados os
Oestes antigo (com exceção de Campinas) e o novo. A classificação dc Lowrie não
apresenta, pois, qualquer equivalência com o nosso esquema analítico Oeste
antigo—Oeste novo, baseado numa divisão que tem como marco aproximado Casa
Branca — enquanto a Mojiana-Paulista, a que se refere Lowrie. engloba
municípios importantes do Oeste antigo, como Limeira, Rio Claro, etc.
Dada a enorme importância do Oeste antigo em termos de riqueza realizada,
não é de admirar que estatisticamente a Mojiana-Paulista (mesmo excluindo
Campinas, mas incluindo Limeira, Rio Claro, e tc.) situe-se em primeiro lugar
quanto ao número de escravos. Mas tal constatação nada tem a ver com nossa
assertiva sobre o obviamente escasso abastecimento de escravos cm que ainda
se encontrava o Oeste novo, propulsor do imigrantismo.
Em termos tanto da evidência histórica como da p ópria lógica do escravismo,
foi-nos possível levar em conta, em nosso esquema: o Vale. saturado de escravos
c já tendo, portanto, passado o apogeu eco- nômicor o Oeste antigo, com um
quadro de trabalho em avançado estado de organização; e um setor dc
vanguarda, iniciando o suprimento de braço c percebendo a possibilidade de
fazê-lo cm novas bases.
Nessas condições, nada mais natural que o Oes- lc antigo, cm pleno apogeu
sócio-econõmico. sc constituísse. como realmente ocorreu, no centro da
resistência política, primeiro à proibição do tráfico inter- provincial e depois à
própria abolição.
Quanto ao Oeste mais novo, a peculiaridade do seu comportamento merece
especial atenção. Com efeito, ele toma a iniciativa dc obstaculizar o tráfico
interprovincial. Ou seja. não apenas as possibilidades de suprimento por essa via
não estavam ainda esgotadas (embora, é claro, se restringissem gradativamente)
como, ao contrário, a nova lavoura ca- feeira tinha que sc empenhar para evitar o
fluxo dc escravos para a Província. E não se tratava de mera recusa à
imobilização de capitais no investimento escravista, ligada, por exemplo, à
reivindicação geral de um braço barato e abundante, desembaraçado de tais
ônus. O Oeste mais novo insistia numa opção entre tipos de braço não escravo,
opondo-se tenazmente à imigração asiática e exigindo a imigração européia,
introduzida em unidades familiares.
Pelo exposto, percebe-se a ineficácia da proposição corrente com respeito ao
binômio abolido- nismo-imigrantismo. Nela se enfatiza o estrangulamento na
oferta de braços, impelindo à busca de uma solução — que “casualmente” teria
conduzido à introdução do imigrante europeu, com as decorrentes consequências
no âmbito da renda agrária inclusive através do usufruto das terras
intercafeeiras. Ora, como vimos, a grande imigração resultou de uma opçào
definida nesse sentido.
Não que os fazendeiros do Oeste novo fossem dotados de uma "mentalidade”
espeçialmente racional e “progressista”. O caso 6 que a lavoura de vanguarda se
encontrava em condições privilegiadas para operar com um tipo de trabalho sóeio-
economicamente incentivado, que lhe evitaria o investimento cm escravos c até
mesmo o recurso a um quadro coativo.
Enquanto o elemento semi-servil (cules) se teria jpçalizaclo indiícrciitcuicnlc
em qualquer área, u capacidade seletiva do braço nitidamente assalariado
propiciava ao setor cafeeiro mais próspero a utilização preferencial dos
recursos despendidos com a imigração, partilhados apenas com o segundo setor
mais produtivo. E, na solução que defendeu c acabou prevalecendo, passou a
contar com dois tipos de trabalho: o europeu, de tipo nitidamente assalariado; e
o nacional. livre e liberto, para as tarefas rejeitadas pelo primeiro.
Nas condições peculiares de sua lavoura, da disponibilidade de verbas
governamentais e da conjuntura escravista nacional e internacional, o setor
cafeeiro de vanguarda reivindicou a forma mais ponve- nie-nte de suprimento de
mão-de-obra, capaz cie privilegiá-lo quanto ao direcionamento dela — e, além
disso, manifestamente de molde a propiciar a dinamização do circuito global da
economia.1
Para interpretar esse crescimento econômico, vinculando à emergente
industrialização, associada ao fim do escravismo e à injeção de um elevado
contingente imigrante, tem sido aventada uma explicação. de certa forma
corrente, mas cujo significado. como veremos, é antes metafórico que heurístico.

1
I •) O leitor que assim o preferir pode passar, desde já. ao próximo capitulo. "Apogeu c
Dcelinio do Imi«rnn«ismo", deixando para o fim a apreciação cio debate teórico que
desenvolvemos nesta pi)úna c nas cinco xeguinl
Nesse esquema, 6 levada basicamente em conta a introdução de uma massa
proletária, desenraizada dc suas origens (européias) c destituída de bens dc
produção, vendo-se limitada unicamente à posse de sua força dc trabalho. É
visível a intenção de estabelcccr uma analogia com o proletariado fornecido ao
capitalismo manufatureiro inglês, em decorrência da expulsão dos camponeses
das terras que ocupavam, transformadas em pastagens. Sem aprofundar a
discussão metodológica sobre a inadequação desse tipo de aproximações (em que
se retraça uma espécie dc nova gênese do capitalismo industrial nas dimensões
de nossas plagas...), basta observar que a foca- Lização do aparecimento de um
proletariado dispondo unicamente de sua força de trabalho tem em vista, em
termos de história econômica, explicar a paisagem do artesanato à indústria
capitalista, na sua etapa manufaturcira. Não se trata, evidentemente. de uma
chave pronta a ser extrapolada para a análise dos processos particulares de
industrialização.
De qualquer forma, no caso do complexo cafeeiro paulista, o referencial
analítico a ser elaborado ê especialmente diverso e peculiar. Com efeito, consi-
derando-sc que a destruição do escravismo geral- mente se esgota na criação dc
um trabalhador formalmente livre mas destituído de capacidade aquisitiva. e que
o setor cafeeiro de vanguarda optou pela introdução de mão-de-obra de tipo
diverso, temos, já de início, a dissociação do braço não escravo em duas
categorias, compondo, com o escravo, três tipos — ao invés da mera antinomia
escravo-livre. 0 atributo do despojamento dos meios dc produção c da venda da
força de trabalho está. a rigor, presente em ambos os tipos dc trabalho não
escravo, c por isso nos é de pouca serventia analítica. O que os distingue (e isto
é o verdadeiramente relevante no caso) é o fato de o trabalhador que aqui
designamos como nitidamente assalariado conjugar ao braço uma tendência à
capacidade de consumo — o que lhe permitirá atuar dinamicamente sobre uma
economia que já havia gerado um embrião de mercado interno.
Com efeito, a própria cafeicultura do antigo Oeste, tornada próspera depois
de encerrada a espe- culação cm escravos (com a extinção do tráfico) tendia: a
poupar o braço escravo, reservando-o para as funções essenciais; a empregar
excedentes disponíveis na valorização da terra, cedida em parte à agricultura de
alimentação. E. desenvolvendo ainda formas diversas de redistribuiçào da renda
gerada na lavoura, aliou-se a um incipiente processo de urbanização que incluiria
o estabelecimento de pequenas atividades fabris diversas, nos anos 70.
Estas considerações nos convidam a comentar os limites da importância da
quebra da auto-suficiência do latifúndio como fator de criação de um mercado
de consumo pura a indústria emergente.
Como acabamos de observar, o processo de superação da estrutura
autonômica na fazenda pau lista aliás, anterior mesmo à Lei do Ventre Livre —
opcra-sc dc fato dentro dc um esquema dc aliança com a incipiente urbanização,
num contexto de estímulo à emergência dc uma economia mais complexa.
Encarado isoladamente, porém, esse fenômeno seria menos relevante como fator
responsável pelas características assumidas pelo complexo cafeeiro. A quebra da
auto-suficiência poderia, por exemplo, limitar-se à mera disposição de
concentrar na atividade da lavoura o quadro de trabalho escravo, reduzido ao
mínimo indispensável — sem envolver quaisquer outras implicações ou
conseqüências transformadoras, seria esse o caso se o abastecimento externo
fosse feito com o recurso a importações para a área. Em outras palavras, é
possível, teoricamente, ao mesmo tempo suprimir a estrutura auto-suficiente da
fazenda pela utilização intensiva dos trabalhadores apenas na lavoura tropical, e
adotar formas dc abastecimento externo tais que não favoreçam o aparecimento
de um mercado local de consumo ou de uma população circunvizinha consumidora.
Assim, para realmente compreendermos a dinamização do circuito abrangente
em que o estímulo à industrialização se insere, temos que levar cm conta: as
premissas já estabelecidas na economia como um todo: a característica peculiar
do trabalho dc tipo nitidamente assalariado, que conjuga ao braço a capacidade
tendencial ao consumo; t as condições especiais cm que o setor de vanguarda da
cafeicultura logrou promover a grande imigração subvencionada européia.
Complcmentarmente, ao interpretar a imigração, há que levar em conta: a
conjuntura global em que se insere a absorção do trabalho assalariado,
combinada com a definição especifica do problema de mão-de-obra adotada pelo
setor de vanguarda, em sua opção pelo trabalho imigrante.2

APOGEU E DECLÍNIO
DO IMIGRANTISMO
Na primeira etapa das tentativas de introdução de imigrantes (inicialmente
alemàes do norte, depois alemães do sul c suíços), que se abre com a iniciativa de
Nicolau Vergueiro ainda nos anos 40. fora adotado o sistema dc trabalho cm
parceira. Consistia, em tese. na divisão do lucro líquido, após a venda do café.
cabendo metade ao colono. Quanto às dívidas contraídas com o fazendeiro
(passagens, sustento nos primeiros tempos), metade no mínimo da renda líquida
anual dos imigrantes seria destinada a compensá-las. O colono só entrava no
cafezal depois dc derrubado o mato. plantado o café e tratado por quatro anos.
Essa organização, na verdade, privava-o de uma oportunidade econômica da qual
se beneficiará, quando, mais tarde, lhe for entregue o trato dc cafezais em
formação — ou seja. o usufruto das ternu> mtercafeeiras, que ele explorará
simultaneamente com o trabalho do cafezal, sem a dispersão que o cultivo de
pequenos lotes afastados (e frequentemente de terras já impróprias para a
cultura) acarretava.
O sistema era de molde a gerar atritos entre fazendeiros c colonos.
Com efeito, estes últimos começavam a trabalhar já onerados de dividas e.
dada a organização do trabalho cafeeiro em que eram enquadrados, não
contavam com oportunidades certas de ganhos suplementares. Desapontados
com o escasso rendimento pecuniário do seu serviço, na execução de um contrato
cujo funcionamento efetivo não tinham podido prever, atribuíam-no à fraude ou
então reivindicavam a alteração dos termos do ajuste. São freqüentes as
revoltas ocorridas nesse período, das quais a mais célebre é a de Ibicaba.
Por sua vez. o fazendeiro solicitava do góvemo meios para obrigar os colonos
ao cumprimento do contrato, defendendo-o inclusive do risco de perder os
capitais que tinha adiantado (pagamento de passagens. ctc.) c que. segundo o
ajuste, reaveria dos colonos.
De qualquer forma, os tfa/.endciros se desinteressavam da introdução de
imigrantes, continuando a se ater ao braço escravo, mais compensador, apesar do
grande investimento inicial, c cuja rentabilidade dava a medida do que se
esperava do trabalho livre, nacional ou estrangeiro.
No período de grande prosperidade c extrema demanda que a década de 70

2
(•) Na irdaçAo deste capítulo aproveitamos, com os pertinentes acréscimos e cortes, o texto
por nós publicado na revista Almanaque, &, SltoPmilo, Rra«lien«e, 107$. pp 10l-lt)t>.
inaugura, a lavoura toma a se voltar para o imigrante estrangeiro, agora, porém,
buscando sanar uma das fontes de insucesso: a responsabilidade dos fazendeiros
e colonos no pagamento das passagens. Nos termos de uma proposta de José
Vergueiro ao Ministro da Agricultura, em 1870, o governo promoveria de pronto
a entrada de 100 a 200000 imigrantes com passagens integralmente pagas,
fornecendo, pois, aos fazendeiros trabalho abundante e barato, dc acordo com
"o princípio inquestionável: os trabalhadores devem procurar os- proprietários e
não os proprietários os trabalhadores”.
Tal esquema, obviamente, não possuía ainda condições de receptividade na
esfera administrativa. Entretanto, com o golpeamenlo do escravismo face ao
encaminhamento e subscqüente promulgação da lei de libertação dos nascituros,
tanto o governo imperial como o provincial passam a desenvolver um programa de
auxílios, visando a compensar a dívida dos colonos para com os fazendeiros e
destes para com os introdutores, no concernente ao pagamento das passagens.
Estimulados por esses auxílios governamentais, vários fazendeiros se
interessam pelo emprego do trabalho imigrante.
No entanto, a situaçSo do colono dentro da cafeicultura não se alterara
ainda, uma vez que ele continuava tendo a seu cargo cafezais já constituídos. o
que, como vimos, reduzia ou eliminava as oportunidades de ganho suplementar,
essenciais para a eventual formação de um pecúlio — c os conflitos continuam
freqüentes.
Além disso, como, apesar dos auxílios do governo, os fazendeiros não apenas
pagavam comissões aos introdutores, como faziam adiantamentos aos colonos. a
operação envolvia efetivamente algumas despesas de que pretendiam indenizar-
se. Embora, em tese, se pudesse considerar vantajosa a introdução de trabalho
livre em quaisquer condições, dado o alto preço do escravo, contudo só a garantia
de uma relativa estabilidade, que não obrigasse a renovar continuamente essas
despesas (proibindo-se. na verdade, a mobilidade do colono entre as fazendas c
na direção dos núcleos urbanos), é que permitiria ao lavrador (que podia apelar
para a alternativa do braço escravo) encarar o trabalho imigrante como
comparativamente interessante, na competição entre ambos os tipos.
Substituído gcralmcntc o sistema de parceria pelo de salário quanto à cultura
de café. acrescido do pagamento da colheita por alqueire, será cm torno dos
contratos de locação de serviços que passarão a centrar-se os conflitos.
Todavia, a essa época, os fazendeiros da área mais nova, cm plena expansão,
tirando partido do surto emigratório italiano, já vinham ensaiando organizar sua
lavoura com base nesse tipo de mão-de- obra. desenvolvendo uma interação
conveniente ambas as partes.
Do ponto de vista do imigrante, tratava-se basicamente da perspectiva de
formação de um pequeno pecúlio, através da atividade intensa da família colona,
remunerada na base de um salário fixo anual, acrescido dc quota por alqueire de
café colhido e, principalmente, com a permissão do usufruto das terras
intercafeeiras onde eram plantados gêneros alimentícios. Essa última maneira de
remunerar o trabalho era. na verdade, exclusiva do setor em expansão, e, pois,
em processo cie abertura de cafezais: ele tratava ainda de constituir o próprio
quadro de trabalho — e na conjuntura cxcepcional- mente favorável em que se
descobria a área da terra roxa.
Dessa forma, entregue às famílias colonas o trato dos cafezais novos (com o
conseqüente usufruto das terras intercafeeiras), as características do elemento
imigrante, que anteriormente lhe haviam sido desfavoráveis no confronto com o
escravo, agora permitiam o ajustamento recíproco dos interesses do colono c
fazendeiro, ambas as partes voltadas para a expansão do cafezal.
Na nova conjuntura, o trabalho assalariado passava a competir
vantajosamente com o trabalho escravo. não obstante a maior rentabilidade
deste em valor absoluto. De fato. nas condições de ajustamento estabelecido, o
trabalho incentivado não era menos intenso que o servil: e. num sistema de
recrutamento que permitia superar o quadro de trabalho fixo, abria-se a
possibilidade de elasticizar o número de braços e, portanto, ampliar também o
lucro global.
Essas vantagens, porém, se anulariam caso coubesse aos fazendeiros o ônus
(despesa com a introdução contínua c renovada) acarretado pela mobilidade dos
colonos. A solução proposta pelo Oeste mais novo consistirá em despreocupar o
fazendeiro do problema do transporte da mão-de-obra imigrante, chamando o
governo a si. exclusivamentc, todas
as despesas com a imigração. Os colonos seriam trazidos do país de origem e
colocados à disposição dos fazendeiros — tudo por conta do governo; e essa
operação sc repetiria quantas vezes fosse necessário, dispostas para ela as
verbas competentes. Desapareceria para o fazendeiro o interesse em garantir a
estabilidade do colono através de contratos longos e. para o imigrante, que sairia
da Europa livre de dívidas e compromissos e podendo contratar livremente,
aumentaria o interesse pela imigração.
Na luta pela implantação desse sistema, a área mais nova combaterá as outras
alternativas propostas. Com efeito, o imigrante asiático, idealizado como scmi-
scrvil, além dc não representar um tipo de braço como o que se requeria
(interessado na expansão do cafezal) e não dispensar o quadro coativo, afluiria
indiferentemente para qualquer área que o solicitasse — enquanto o imigrante
europeu reivindicado representava uma garantia de suprimento preferencial para
o Oeste mais novo. A vitória das proposições dessa área significará, assim, um
quase monopólio dela no concernente às verbas que seriam destinadas à
imigração; de fato, o Oeste mais novo, a partir de meados da penúltima década
do século, tornou-se o sorvedouro das levas de braços estrangeiros de que
necessitava, atraídas pelo estado da cultura e fertilidade do solo. O contingente
imigratório era apenas partilhado com o Oeste mais antigo, sendo rejeitada, até
com o recurso à rebeldia, a área mais velha (Vale do Paraiba).
A introdução de imigrantes, de que se encarregava a Sociedade Promotora dc
Imigração, fundada a 2 de julho de 1886. fazia-se essencialmente, conforme já
assinalamos, na base de unidades familiares: as mulheres e os menores forneciam
considerável soma de trabalho módico suplementar c garantiam o abastecimento
de braços durante as colheitas.
Quanto ao regime de trabalho, Antônio Prado negava, em 1889, que o colono
ainda estivesse sujeito ao regime dos contratos de locação de serviços. Refutava
também o argumento de que haveria oscilações na remuneração: um desfalque na
renda, no caso dc escassez da colheita, seria compensado, em grande parte, pela
cultura dc cereais. As excelências do sistema se demonstrariam, ainda, pelo fato
de estar a propriedade do solo, nas circunvizinhanças das cidades e vilas.
fracionaudo*se entre os imigrantes.
A base do estabelecimento da grande corrente imigratória italiana — dentro
das novas condições de enquadramento na cafeicultura, e respeitada a
mobilidade do colono — era o pagamento integral das passagens à mão-de-obra
destinada à lavoura.
Os próceres imigrantistas supervisionavam pessoalmente a operação, tendo
em vista prevenir atritos futuros: assim, não apenas davam preferência ao
campesino, habituado a condições penosas de existência (evitando, na medida do
possível, a entrada de artesãos e do elemento urbano em geral), como
procuravam limitar-se a parentes e amigos dos colonos já aqui estabelecidos,
através do recurso às famosas
“cartas de chamada". A imigração espontânea, não controlada pela Promotora,
era rejeitada, bem como a de indivíduos isolados.
A propaganda era organizada, e a entidade publicara c fizera circular na
Itália um folheto intitulado A Província de São Paulo. Contudo, o imi- grantismo
se defendia da acusação de recrutamento, levantada seja pelos interesses
italianos contrariados devido à evasão de mão-de-obra, seja por uma opinião
sinccramente preocupada com a situação dc seus compatriotas na lavoura
tropical.
Não obstante os óbices, que fazem as cifras de imigração cair
consideravelmente cm 1889 e 1890 (tornando, porém, a subir em 1891), o
período que sc estende até 1897 representa a fase áurea da imigração italiana.
Todo esse sistema, embora baseado na contínua c renovada introdução em massa
de imigrantes, à custa dos cofres públicos, e em grande parte para substituir os
que deixavam a lavoura, parecia justi ficar-se plenamente na etapa de
prosperidade, Era até considerado abonador que o imigrante se deslocasse para
as cidades, imputando-se a presunção de que o fizesse já de posse de um
pequeno pecúlio.
Ano Total Italianos

188? 32110 27000


1888 92086 80749
1889 27694 19925
1890 38291 20991
1891 108688 84486
1892 42061 ...

1893 81745 H •

1894 48497 M*

1895 139998 105526


18% 99010 ...

1897 98134 ...

(Apud: Boletim do Departamento Estadual do Trabalho, ano IX, n?s 34 e 35 — 1? c 2? trimestres de


1920; Revista de Imigração e Colo- nnação, ano I. n? 2. abril de 1940 e Boletim do Serviço de Imigração
e Colonização. n° 3. março de 1941.)
Depois da superprodução, entretanto, embora essa forma dc suprimento dc
braço continuasse mantida. já passará a ser encarada de maneira mais crítica,
conforme veremos mais adiante.
***
Antes, porém, examinemos, em contraponto, a situação do trabalhador
nacional.
No sistema escravista, esse elemento vira-se inserido num contexto no qual a
alternativa do suprimento servil permanecia sempre presente, sendo a medida da
rentabilidade do trabalho livre dada pela do trabalho escravo; e, no caso de
rendimento inferior. o trabalho livre era substituído pelo escravo, ao qual tendia
a ser assimilado.
Efetivamente, nos casos em que o braço nacional livre se empregou em
fazendas novas, ainda sem nenhum investimento senil, era considerado mã.ç>- de-
obra provisória para acumulação inicial, substituída depois de um certo tempo
pelo escravo.
É nesse contexto de rejeição da categoria “trabalho livre” e de uma tentativa
de o assimilar ao trabalho escravo, que passa a ser solicitado o concurso
supletivo do demento nacional, livre e liberto, pressionado, de formas diversas, a
deixar sua cultura dc subsistência, nos interstícios da grande lavoura.
A atitude desta com respeito à população pobTe para a qual esporadicamente
se voltava 6 de extremo aborrecimento. Recrimina-lhe a indolência porque cia sc
lhe furta c, por fim, ao conseguir atraí-la em parte, desiste de empregá-la na
cultura, depois de lhe lançar o labeu do ócio e inércia, porque não se subordina à
atividade intensa e sistemática exigida pela grande empresa escravista.
O sentido da inserção do elemento nacional no sistema e o seu não reconhecimento pela
ordem estabelecida, enquanto pequeno agricultor, manifestam- se na natureza das
obrigaçoes militares c paramilitares com que era gravado: recrutamento para o
Exército e serviço da Guarda Nacional. Em suma. o demento livre sc veria
perturbado nas suas atividades de pequeno produtor de gêneros ou se
transformaria em mão-de-obra para a grande lavoura.
Integrado gradativamente à órbita desta, que ia ocupando a terra e inclusive
expropriando-o, a localização do elemento nacional se fazia atendendo a um duplo
ângulo: sua repugnância por um trabalho identificado com o servil; e o interesse
do fazendeiro cm evitar ao quadro escravo, de que era proprietário, tarefas que
envolvessem riscos de vida ou alheias à atividade sistemática no trato do
cafezal.
O trabalh. livre nacional se empregará, por exemplo, cm boa escala c com
grande êxito, no serviço arriscado e difícil das derrubadas. Aliás, os camaradas
(caboclos) eram considerados excelentes para tal atividade, e também para a
formação dc lavouras novas. Cabia-lhes ainda o cuidado de valas e cercas, e
serviços diversos do gênero. Às vésperas da abolição, um contingente numeroso
dessa população cra constituído de agregados, vivendo em terras que não eram
suas, lavrando os piores solos da fazenda, sem qualquer segurança, c morando cm
míseras choupanas, precariamente levantadas.
À época em que o Oeste novo inicia a incorporação do imigrante europeu, sua
lavoura operava com três tipos de braço: o livre nacional, para as tarefas de
derrubadas de matas; o escravo, para a formação das lavouras novas: e o
imigrante, para o trato do cafezal em formação. Por isso. ao mesmo tempo que
obstaculiza o tráfico imerprovincial, o novo Oeste abre exceção para a entrada
de escravos acompanhados de seus senhores — isto é, fazendeiros que vinham
abrir lavouras nessa área e que imediatamente adeririam ao imigrantismo, com
vista às atividades da etapa seguinte. Com a abolição, também o serviço inicial da
formaçào dos cafezais passa a ser atribuído ao caboclo.
Estabelecida a corrente imigratória, o trato sistemático do cafezal novo, com
as oportunidades decorrentes do usufruto das terras intercafeeiras. é entregue
à família colona. Ao trabalho nacional, livre e liberto, ficarão afetas as tarefas
ainda mais penosas e menos remuneradoras, rejeitadas pelo imigrante.
O enquadramento básico do elemento local ocorre na área mais velha,
processando-se o ajustamento entre as condições de menor produtividade
dessa região e o ritmo de atividade inerente a uma mão-de-obra que acedia em
se engajar no setor menos capaz de remunerar o trabalho na cafeicultura, sendo,
por isso mesmo, rejeitado pelo imigrante. Tornou-se comum a opinião,
obviamente infundada, que atribuía a decadência da lavoura do Vaie do Paraíba
ao braço que ela justamente empregou porque já se encontrava cm declínio.
Quanto às áreas mais novas, ocorre uma procura intensiva de mao-de-obra
nacional para as tarefas de derrubadas das matas virgens e do preparo da terra,
às quais o imigrante (ao qual é reservado o colonato) não se sujeitaria,
preferindo a repatriação. Ou seja, a expectativa do imigrante e a situação em
que se encontrava previamente o elemento brasileiro estereotipam a distribuição
dos papéis na lavoura nova: o demento nacional simplesmente continuava a ocupar
a posição, de certa forma complementar e dc reserva, que sempre lhe coubera,
já com respeito ao trabalho escravo.
A solicitação de um trabalho sócio-economica- mente motivado, capaz de se
beneficiar da expansão do cafezal, traduzira-se em reivindicação de braço
imigrante, sem que se acenasse ao elemento nacional com proposta análoga,
abrindo-lhe novas perspectivas. Hm outras palavras, a rápida injeção de uma
massa de mão-de-obra já sócio-economicamente motivada (a ponto de atravessar
o oceano) pressionava o elemento local, antes que sua atitude psico-ecunò- mica
tivesse tempo de sc reformular — e evitando mesmo que isso ocorresse. Em
consequência, a lavoura nova pôde contar eom um braço ao qual incumbiriam as
tarefas rejeitadas pelo trabalhador propriamente assalariado, tendencialmentc
voltado para a formação de um pecúlio. E a cultura das áreas mais velhas teve
garantida a disponibilidade de uma massa de trabalho barato. Donde se conclui
que a atitude psico-cconômica característica do caboclo não decorre de mera
“persistência dos padrões sócio- culturais herdados da escravidão”, mas se
insere funcionalmcntc no contexto pós-cscravista e imigran- tista.
Quanto ao liberto, sua atitude sócio-econômica sc assimilará à da camada
livre nacional que passa a integrar, e se define, como a desta, num quadro
marcado. após a abolição, pela presença efetiva e potencial da massa imigrante.
Passado o período de desorganização do trabalho de base semi e da intensa
mobilidade dos ex-escravos dentro da Província, apenas na zona velha assiste-se
a um reenquadra- mento deles na atividade essencial da cafeicultura.
O sobrepujamento do liberto (tendo sido o escravo o factótum na lavoura) e
do caboclo (considerado “hábil como nenhum outro para todo serviço“) pelo
imigrante, permite perceber que a preferencia por este não se deveu a qualquer
atributo ligado à qualificação profissional; e, com efeito, era notório que os
imigrantes “desconheciam e estranhavam os serviços”.
Esse “fator, porém, era irrelevante para a lavoura do Oe*ste mais novo, uma
vez que o aprendizado dos rudimentares trabalhos da cafeicultura fazia-se
rapidamente. Assim, o fazendeiro dessas áreas selecionou seu braço menos na
base de uma experiência agrícola específica que na disposição de trabalhar
intensamente no cafezal.
A referência a essa questão nos conduz a algumas considerações, no que
concerne ao confronto entre o elemento nacional t: o estrangeiro, no âmbito
do trabalho urbano.
Como observava Picrrc Denis (O Brasil no Século X X ) , todos os anos a
colheita marcava um novo movimento de concentração da população rural na
direção dos centros urbanos. Nas cidades, os ex-co- lonos empregavam as noções
aríesanais que porventura já trouxessem ou adquirissem, para se apropriar, num
ritmo de atividade intensa, conjugado a um padrão de vida ínfimo, das eventuais
oportunidades de acumulação preexistentes ou que se criavam em virtude de sua
própria presença. Psico-eco- nomicamente equipado para aproveitar as brechas
ainda não exploradas da economia urbana, mesmo
em atividades não qualificadas, o imigrante, como um todo. se apresentava, com
respeito ao elemento local, como um açambarcador das novas oportunidades.
mais ou menos vantajosas, que dispensassem capital inicial — alem dc penetrar
nos setores tradicionais.
A população nacional passou a demonstrar seu ressentimento contra o
estrangeiro, que não só tornava mais agudos os problemas urbanos com sua
mobilidade acelerada para as cidades, como a frustrava com a utilização
intensiva dos canais dc asccn- sào sócio-económica. Hm correspondência a essa
xenofobia, dcsenvolveu-sc entre as massas imigrantes um sentimento de
hostilidade contra o meio. Nos anos dc 1892 c 1896, por exemplo, o antagonismo
entre os grupos brasileiro e italiano na Capital, que
refletia as insatisfatórias condições dc vida de ambos, tomou a forma de sérios
conflitos de rua.
A competição pelos empregos urbanos se fazia, pois. praticamente dentro do
grupo imigrante, ao ponto de ser essencialmente estrangeira mesmo a oíerta dt
mãu-dc-obra barata para o nascente parque fabril.
Essa quase ausência do elemento nacional na indústria de São Paulo, no
período de sua formação, chegou a conduzir alguns autores a concluir por uma
habilitação maior do operário estrangeiro, suposta superioridade essa elevada,
inclusive, à categoria de fator favorável ao desenvolvimento de uma atividade
econômica para cujo desempenho o braço nacional não teria revelado a
necessária competência.
Todavia, é perfeitamente sabido que o artesanato nacional independente
exerceu com habilidade profissional as tarefas para as quais era solicitado. E, de
qualquer maneira, a massa estrangeira que afluía ao trabalho fabril — massa
praticamente rccém- egressa da lavoura (cujo serviço também desconhecia à
época cm que o buscara) — não possuía especial habilitação no setor. Aliás, a
própria composição do
pessoal dos estabelecimentos têxteis, que absorviam uma mão-de-obra que incluía
moças e menores a partir de cinco anos, afasta a hipótese de não se encontrar o
brasileiro livre ou egresso da escravidão consideravelmente representado na
indústria por quaisquer motivos relacionados com a habilitação profissional.3
***
A essa cpoca. é reelaborado o estereótipo Com respeito ao imigrante italiano,
que ganhara consistência durante o apogeu do imigraniismo.
De fato. alteradas as condições de ajustamento recíproco entre fazendeiros
e colonos, succdiam-se os conflitos e o abandono das fazendas antes de
cumprido o ajuste de um ano, como resposta (embora não articulada) dos colonos,
face às expectativas frustradas. As medidas restritivas à plantação de cafés
novos (1903) terminam por dissociar os interesses das partes, uma vez que os
imigrantes viam no usufruto das terras iiitercaíeeiras uma fonte essenciaJ de
remuneração — o que pressupunha a expansão do cafezal: apenas em tais
condições o colono, ao mesmo tempo que contava com terra ainda não exaurida
para o cultivo dos gêneros alimentícios comercializados por sua conta, podia
conjugar o trato dos pés de café com o trabalho em suas próprias culturas.
Nessas circunstâncias, o comportamento sócio- e-conõmico do imigrante
italiano, sua disposição em tentar a formação de um pecúlio através da atividade
intensa no cafezal cm expujisao (atributos que o haviam tornado o colono ideal a
partir do último quartel do século XIX) passam a scr alvos de critica, na medida
em que O afugentavam do trabalho nos cafezais já formados. O Dr. Carlos
Botelho, que se tornaria Secretário da Agricultura do Estado, chega mesmo a
culpar, cm 1902, o imigrante italiano de ter propiciado a superprodução: o colono
imporia o plantio de novos cafezais como condição de permanência na fazenda,
mesmo num contexto em que u operação já se tomava financeiramente
desvantajosa para os fazendeiros...
Em contrapartida, a deterioração das condições de remuneração no Brasil
faciiita a promulgação do decreto Princiti. de 1902. pelo qual o Comissariado
Geral da Emigração na Itália proibia a emigração subvencionada que o Brasil
promovia. E bem verdade que a proibição estabelecida no decreto Princtli seria
burlada através da distribuição direta das passagens entre os interessados.
3
(*) Na rcduv&o deste Capitulo vicmvmt nus baseando fundaincutalmcutc cm
nosso “Os lislratos Populares na Formaç&O do Complexo Cafe
Contudo, era passada a época das "cartas que despovoavam aldeias’’ italianas em
benefício do café. Na conjuntura que se abre. a lavoura volta sua expectativa
para outros centros emigratórios. principalmcnte Espanha e Portugal. Do
contingente imigratório no período 1902-1911 participam: 139228 italianos,
110923 espanhóis e 78 140 portugueses {apud Boletim do Departamento do
Trabalho, 1916). Ou seja, a imigração de espanhóis e portugueses,
conjuntamente considerada, sobrepuja dc longe a italiana, embora o total dc
imigrantes italianos entrados no período seja superior ao dessas outras
nacionalidades consideradas isoladamente. No período imediatamente seguinte, a
imigração italiana passará para o terceiro lugar, depois das duas mencionadas.
Dc qualquer forma, tendo cm vista manter o equilíbrio que lhe convinha entre
os componentes do mercado dc mão-de-obra, a cafeicultura defendeu
veementemente a imigração subvencionada (que prosseguiria até 1927),
justificando-a mesmo quando destinada apenas a cobrir os claros decorrentes
das sucessivas repatriações. E até abriu mão do princípio da introdução em
grupos familiares, concedendo o pagamento de passagens também a imigrantes
avulsos.
Face aos conflitos freqüentes entre fazendeiros e colonos, cuja repercussão
prejudicava o pretendido afluxo, são promulgados os decretos n?s 1150, de 5-1-
1904, e 1607, de 29-12-1906, regulamentados pelo decreto n? 6437, de 27-3-
1907. que privilegiava a dívida decorrente dos salários de operários agrícolas —
embora essa disposição necessariamente não encontrasse recursos judiciais dc
cumprimento. Pelo decreto n? 2071, de 5-7-1911, era criado o Departamento
Estadual do Trabalho. A lei n? 1 299-A, de 27-12-1911. criava o Patronato
Agrícola para defender os "direitos e interesses dos operários agrícolas” (artigo
1?), no sentido de "resolver, por meios suasórios, quaisquer dúvidas que
porventura surjam entre os operários agrícolas e seus patrões" (artigo 39, I). O
decreto n? 2400, de 9-7-1913, consolidava as leis. decretos e decisões sobre a
imigração, colonização e patronato agrícola.
Com todo esse empenho, a cafeicultura logrou promover uma entrada de 364
834 imigrantes entre 1900 e 1909. e 446582 entre 1910-1919, para 734985
no período áureo dc 1890-1899. Contudo, o significado dessa intensa injeção de
um contingente estrangeiro já se havia reformulado.
A introdução maciça de mão-de-obra imigrante promovida entre 1886 e 1897
dizia respeito ao setor de vanguarda da cafeicultura que então se expandia, e
onde se geravam capitais que. sob seu comando, impulsionavam a economia
inclusiva, diversificando- ae tornando-a mais complexa. Correspondia a uma
opção por um tipo de trabalho nitidamente assalariado. capa/ de ser absorvido
por esse embrião de economia cm crescimento, e de ao mesmo tempo dinamizá-
lo.
Já o imigrantismo do período que tem como marco o início da superprodução
vincula-se simplesmente ao objetivo da lavoura de, pela continuação do sistema,
garantir-se o rápido e contínuo suprimento de uma massa de mào-de-obra, de
maneira a evitar o desequilíbrio do s tatus quo. Pelas suas características de
trabalho assalariado, o elemento introduzido estava fadado necessariamente a
uma frustração no âmbito rural — restando-lhe a eventualidade de uma
integração (também tomada menos compensadora) no urbano. Ou seja, u questão
em pauta se relacionava essencialmente com o suprimento dc mao- de-obra (dc
qualquer tipo), uma vez que, dadas as bases estreitas da economia, o impulso
para a absorção maciça de um trabalhador-consumidor, numa conjuntura
ascensional, pratica mente se esgotara. A abertura de novas frentes pioneiras,
como a alta araraquarense, embora se opere, é verdade, durante o
prosseguimento do imigrantismo. não altera esse quadro, não obstante algumas
semelhanças formais no concernente às oportunidades e incentivos ao
trabalhador agrícola, inerentes à etapa de formação de cafezais. Mas o
prosseguimento do imigrantismo decorria, íundamentalmentc, da inexistência de
outras soluções quanto ao- abastecimento de braços e se fazia num contexto em
que a própria impiemen- taçào do Convcnio de Taubaté, de 1906, indicava o
caráter cada vez mais gravoso de que se revestia a cafeicultura.
Em contrapartida, o estágio da economia como um todo devia permitir a
viabilização de uma alternativa, com base no estabelecimento dc colônias
voltadas para a agricultura de alimentação.
Esse aspecto já fora levantado no contexto da critica à resposta do
imigrante italiano à conjuntura da superproduçüo. Com efeito, alteradas as
condições gerais, a mobilidade do colono, vista antes com indiferença, passava a
ser ressaltada como característica extremamente negativa Nesse sentido, tendo
cm vista a constituição dc uma reserva dc mào-de- obra (e também para
valorizar a terra, cm vista da situação pcrieliUmte do produto), passa-sc a
aventar a hipótese do parcelamento e venda de terras nas orlas da grande
propriedade, ou seja: a transformação do imigrante em elemento
simultaneamente proprietário e trabalhador agrícola, que forneceria o braço
necessário, principalmente no periodo das colheitas, desobrigando o fazendeiro
de sua manuten- çào durante o resto do tempo.
Concomitantemcnie, reformulava-sc o conceito corrente sobre o imigrante
italiano, passando a ser qualificada como negativa rnna disposição psico-eeo-
nômica antes elogiada; c se propunha sua substituição por um elemento menos
‘‘ambicioso" ou “exigente".
A essa época, c visto que o Japão procurava colocar seu excedente
populacional em várias partes do mundo, é firmado, durante a gestão Carlos
Botelho na Secretaria da Agricultura, um contrato com a Companhia Imperial de
Emigração de Tóquio, para introduzir 3 000 japoneses, em levas de 1000 cada
ano. Pela cláusula XI desse contrato, os imigrantes nao poderiam obter lotes em
núcleos coloniais, enquanto não tivessem feito pelo menos a primeira colheita nas
fazendas em que tivessem sido colocados à sua chegada, e enquanto não
estivessem quites nas mesmas fazendas, ou outras cm que sc tivessem
empregado. Como já vinham contratados para determinadas propriedades,
cumpria aos fazendeiros beneficiados o pagamento de uma parcela do preço das
passagens, a ser descontada dos salários, sendo todos os membros das famílias
dos imigrantes coletiva- mente responsáveis pelo débito dos respectivos chefes.
O primeiro grupo, que chega a 19 de junho de 1908, era constituído dc 793
pessoas, quase todas contratadas para fazendas da Alta Mojiana.
Por outro lado. a proposta administrativa não deixava de parecer no mínimo
“extravagante" para uma lavoura que, no seu conjunto, podia contar com um
braço provindo de centros emigratórios europeus (Itália, Espanha e Portugal),
dispensando-se. pois, dos esforços especiais dc adaptação recíproca que a
presença do novo contingente imigratório previsivelmente requereria.
A Mensagem enviada ao Congresso Legislativo a 14 de julho de 1909 refere
não ter a imigração japonesa produzido os resultados esperados, por terem sido
introduzidos, em sua maioria, indivíduos solteiros. Contudo, teriam permanecido
nas fazendas algumas famílias ‘‘constituídas por verdadeiros agricultores que
trabalham muito a contento” dos proprietários. Ã vista de tais circunstâncias,
modificara- se o contrato com a Companhia Imperial de Emigração de Tóquio,
"ficando estabelecido que as levas não excederiam de 650 indivíduos cada uma, e
reduzindo-se os preços das passagens e os fretes para o café”. Com essa
redução, o colono começaria a trabalhar menos onerado de dívidas. Determinava-
se ainda que o contingente devia ser constituído de famílias. com pelo menos três
pessoas aptas, com idades entre 12 c 45 anos.
A persistência num experimento cujo êxito era duvidoso mesmo na área
considerada próspera não podia deixar de ser interpretada em termos dc
incorreta alocação dos recursos públicos. Na verdade, as tentativas dc inserção
dos japoneses na lavoura ca- fccira continuavam frustradas pelo entrechoque
das expectativas recíprocas, suas e dos fazendeiros.
Os adversários dessa imigração se congratulavam com a "notícia dc haver
falhado, em parte, a colonização amarela na gleba roxa da lavoura paulista'. E
invocavam, como argumento, a eventualidade contrária que, dada a fertilidade
dos casais japoneses, acabaria "inundando São Paulo. Minas e Paraná”... {Correio
Paulistano, 12-10-1915).
Não obstante, os japoneses estão presentes na araraquarense, no trato dos
cafezais em expansão. E no período da guerra, a Sociedade Promotora da Defesa
do Café representa ao Presidente da República pedindo a “introdução de
trabalhadores asiáticos para suprimento de braços à lavoura". Apoiando essa
representação. Antônio Prado afirma estarem localizados nas fazendas, como
colonos, 17 735 japoneses, formando 5000 famílias (O Estado de S. Paulo. 10-2-
1918).
Tratava-se. porém, simplesmente de recurso a um expediente circunstancial,
tendo em vista a dificuldade de suprimento de braços durante a guerra, e
estando os “cafeeiros não colonizados necessitados de gente". A incorporação
típica do elemento japonês no emergente complexo cafeeiro sc fará fora da
cafeicultura, c em outras bases — num setor que praticamente se torna
monopólio seu.
Já cm 1913 obtinha autorização para funcionar no pais uma companhia dc
colonização japonesa
que. a partir da pretendida fundação de uma cidade-base, próxima a Iguape,
onde seriam conservados os "costumes e hábitos japoneses", fundaria novos
núcleos no interior do Estado. Essas colônias sc dedicariam a atividades tais
como a criação do bieho-da-seda. o plantio e comércio de frutas e arroz, e a
companhia esperava obter o concurso dc mais dc 10000 famílias para povoar, em
cinco anos. a cidade- base {Correio Paulistano., 10-6-1913). Na verdade, o
estágio da economia global devia permitir a diversificação da agricultura —
inclusive no sentido de uma agricultura de alimentação —. viabilizando o
estabelecimento de colônias de imigrantes japoneses assim orientadas. Para
garantir o êxito desses empreendimentos, tal colonização era dirctamcntc
supervisionada pelas entidades patrocinadoras da localização, uni São Paulo, do
excedente populacional da terra de origem. Depois de uma retração no período
20-24. entram no Estado 50573 japoneses no período 25-29. {Boletim do
Departamento Agrícola, Ano XXI. n? 72. São Paulo, 1932.)
No concernente ao braço para a lavoura, desde que .sc tratava
esscncialmentc dc prover ao suprimento, ocorria que a questão passava a se
colocar em lermos quantitativos, sendo menos relevante a opção
por tipos definidos de trabalho, e bastando a oferta abundante dc braço barato.
Nas novas frentes pioneiras (Noroeste e na direção do Paraná),
provavelmente se selecionaria, dentro do grosso dessa massa, a parcela
requerida para o trabalho psico-economicamente motivado, disposta a cooperar
arduamente na expansão dos cafezais, pelo incentivo de formar um pecúlio c
ascender sócio-eco- nomicametite. Mas nâo se tratava mais de injetar, rápida e
abruptamente, como durante o apogeu do imigrantismo. um contingente avultado,
já previa- mente dotado de tal orientação.
A situação precária da economia em outras áreas do pais era dc molde a
propiciar, progressi- vameiUc, a reserva de mao-de-obra requerida pela
cafeicultura nas novas circunstâncias. Assim, já em 1919, a Sociedade Rural
Brasileira, referindo-sc "à Sorte ingrata de milhares c milhares dc brasileiros"
c, complementarmente. “à séria situação em que so acha 3 lavoura deste Estado,
a braços com a mais perniciosa e acentuada das crises de colonos e operários
rurais”, propunha, para minorar as agruras da população atingida "pelo fenômeno
das secas”, a canalização do seu fluxo para as fazendas paulistas (O Estado de
S. Paulo. 30-11-1919).
Entrementes, não afluindo ainda o elemento nordestino na proporção
requerida, a cafeicultura esperava que a crise européia do pós-guerra lhe
propiciasse o contingente que. com o atrativo da passagem paga, concordasse cm
complementar o abastecimento de braços. Quando, em 1927, o sistema da
imigração subvencionada é abolido, o número de brasileiros de outros estados já
sobrepujava de longe o dos de cada nacionalidade estrangeira, isoladamente
considerada. A imigração subvencionada substituía-se progressivamente pela
espontânea, sem compromisso com a lavoura e precipuamente dirigida para a
atividade urbana; c. de qualquer forma, o número de migrantes já se tornara
maior que o dc imigrantes introduzidos com passagens pagas.
A migração interna sucedia ao imigrantísmo no âmbito da cafeicultura.
INDICAÇÕES PARA
LEITURA
À guisa de complementação bibliográfica, remetemos o leitor aos seguintes
estudos de nossa autoria:
1 — "A Destruição do Escravismo Moderno, como Questão Teórica” —
2 — “A Organização Política do Império Transformando-se em Objeto
Teórico” —
3 — “Considerações Complementares sobre o Problema da Gênese da
Economia de Mercado Interno no Brasil” — in: Pequenos Esiudos de Ciência Política.
2? ed. ampliada. São Paulo, Pioneira. 1973.
4* — ”A Destruição do Escravismo Capitalista” — ii»: Formação Política do
Brasil, 2? ed. revista, Sào Paulo. Pioneira. 197b. pp. 12-27.
S** — “Os Estratos Populares na Constituição do Complexo Cafeeiro” — in: A
Formação do Povo no Complexo Cafeeiro, 2? ed. revista c ampliada.
Sào Paulo, Pioneira, 197b,

Sobre a Autora
Paula BciRudman c Livre-Docéate do Departamento dc Ciência:» Socúm da USP. e publicou:
— Pequenos Estudas de Ciência Política, 2? ed. ampliada. Suo Paulo. Pioneira, 107.1.
— Formação Política do Brasil. 2? cd. revista. Sào Paulo. Pioneira, 1976.
A Formação do Pow no Complexo Cafeeiro, 2.* ed. revista e ampliada. São Paulo, Pioneira. 1978
(Prêmio "Visconde de Cairu").
— 0 Encaminhamento Político do Problema da Escravidão no Império ln História Geral dtl Civilização
Brasileira, tomo 11. vol. 3. Difusão Kuropfiu do Livro, SSo Paulo.
O Pmçr jso Político ■Partidário Brasileiro dc !0J5 uo Plebiscito In Brasil cm Perspectiva, Difusio
Europeia do Livro, SSo Paulo.
— Viagem Sentimental a Doms Guidinha (lo Poçv (contendo doim ensaios literárias: um sobre o
Teatro dr Martins Pena e outro sobre o romance dc Manoel de Oliveira Paiva) — SHo Paulo.
— Os Companheiros de São Paulo — Sio Paulo. Ediçtes Símbolo, 1977.
— £ responsável pela introduçáo. seleção e organização dos textos dn •dira Joaquim Nahueo. u ver
publicada pela Ed. Atica.

Caro leitor:
As opiniões expressas neste livro são as do autor, podem núo ser as suas. Caso
você ache que va le a pena escrever um outro livro sobre o mesmo lema, nós
©stamos dispostos a estudar sua publicação com o mesmo titulo como "segundo
visão".
Eram 30 (XX) em 18SP. Dois anos depois, 133 0ÜÜ. Italianos, espanhóis e
portugueses. Com suas passagens pagas, eles chegavam aos milhares. Da Europa
diretamente para as lavouras de café do Oeste jiaulismi Vinham substituir a .nâc-de-
oha escrava, escassa desde o fim do tráfico negreiro, em 1850. Um conungoirc
numeroso, empreendedor c disposto a tudo para vímcér nas terras roxas do Brasil.