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CADERNO DE PESQUISA CEAPOG-IMES N. 2 - 1. semestre de 2000 1
CADERNO DE PESQUISA CEAPOG-IMES
N. 2 - 1. semestre de 2000
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CADERNO DE PESQUISA CEAPOG-IMES
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EXPEDIENTE

CADERNO DE PESQUISA CEAPOG/IMES

Programa de Mestrado em Administração CEAPOG – Centro de Estudos de Aperfeiçoamento e Pós-Graduação do IMES - Centro Universitário Municipal de São Caetano do Sul

Ano 1 N. 2 1. semestre de 2000 ISSN 1517-820X

Diretor da Mantenedora Prof. Marco Antonio Santos Silva

Reitor do Centro Universitário Prof. Laércio Baptista da Silva

Pró-reitores Prof. Carlos Alberto de Macedo (Graduação), Prof. Dr. Sílvio Minciotti (Pós-Graduação e Pesquisa) e Prof. Joaquim Celso Freire Silva (Comunitária e Extensão)

CEAPOG

Coordenador Geral Prof. Dr. Silvio Minciotti

Coordenador do Laboratório de Gestão da Sociedade Regional Prof. Dr. Luiz Roberto Alves

Editor Prof. Dr. Roberto Elísio dos Santos (MTb – 15.637)

Secretárias Roseli Tamiazi, Neusa Aparecida Marques e Marlene Forestiere de Melo

Estagiárias do Laboratório de Gestão da Sociedade Regional Telma Tania V. F. de Carvalho, Lígia Roza e Leticia Lopez

Revisão

Simone Zaccarias

Correspondência IMES – Instituto Municipal de Ensino Superior de São Caetano do Sul A/C Caderno de Pesquisa CEAPOG-IMES Avenida Goiás, 3400 São Caetano do Sul – São Paulo – Brasil CEP 09550-051 E-mail: labgest@imes.com.br

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SUMÁRIO

Crônica

Cotidianíssimo (Prof. Joaquim Celso Freire Silva)

4

 

Introdução

Prof. Dr. Luiz Roberto Alves

5

Normas para apresentação de trabalhos

6

 

Artigos

1. Grande ABC: regionalidade e história cultural em questão (Prof. Dr. Luiz Roberto Alves)

7

2. Megacidades: uma proposta para o eixo Tamanduatehi (Prof. Angélica Benatti Alvim/

Prof. Enio Moro Junior/Prof. Mario Figueroa)

14

3.

Reinventando o planejamento regional em um contexto de reestruturação econômica

local: o caso da Região do Grande ABC (Prof. Dr. Jeroen Klink)

22

4.

Comunicação nas organizações voltadas para a qualidade (Prof. David Garcia Penof)

28

Seminários

II Seminário Interno

32

1.

Planejamento econômico regional (Claudia Polo Denadai Gonçalves/Carlos Rogério Prado/

Francisco F. da Silva)

33

2.

Inclusão social e cidadania no século XXI (Maria Aparecida R. Belezi/

Carlos Eduardo Ferrari)

40

3.

Políticas públicas de Cultura (Telma Tania V. F. de Carvalho)

48

Resenha

COMPANS, Rose. “O paradigma das global cities nas estratégias de desenvolvimento local” (Telma Tania V. F. de Carvalho)

55

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Cotidianíssimo

CRÔNICA

Prof. JOAQUIM CELSO FREIRE SILVA*

Subindo uma ladeira de pés no chão Correndo atrás de uma bola de pano (feita com uma meia que já deixava

nu o calcanhar

Descendo de terno do décimo andar Enfrentando o trânsito letárgico de todo dia Fazendo o “B.O.” do último assalto Comprando um presente no shopping- center Recebendo e enviando precisos “e- mails” Marcando ofegante o eletrônico ponto Vivendo aventuras num videogame Saindo de casa apressado e ao celular Pagando alguma prestação vencida Esperando numa fila de escasso emprego Analisando o relatório das vendas do mês Fechando os vidros em um cruzamento Lendo as últimas notícias do dia Maldizendo o voto da última eleição Construindo prédios e vendendo miçangas Discutindo economia, competitividade, e globalização Apertando botões na sessão de montagem Criando modernas tecnologias e sistemas Fazendo apressado um trabalho escolar Esperando o domingo pra nada fazer Bebendo um bom vinho português “Speaking in English” e “hablando en Español”…

“Speaking in English” e “hablando en Español”… do pai) Tecendo os fios do algodão colhido ano

do pai)

Tecendo os fios do algodão colhido ano passado Preparando a terra para quando a chuva chegar Sentado ou em pé numa sala de aula Abrindo o armazém numa rua qualquer Jogando conversa numa janela ou num bar Tocando boiada pra outra invernada Escrevendo uma carta pro filho de longe Amassando o barro e construindo esperança Ouvindo prosa de gente mais velha Rezando novena em comunhão de fé Cantando modinhas e riscando violas Fazendo quitutes pro café da manhã Regando angélicas ao entardecer Pulando num rio de águas (ainda) cristalinas Tomando uma pura caninha de engenho Ligando o rádio na “Voz do Brasil”…

Vive uma gente que ama e faz o seu lugar.

Vive uma gente que faz e ama o seu lugar.

* Professor do IMES e da FSA; coordenador de Comunicação do IMES, poeta e aluno do PMA do CEAPOG-IMES. Ilustração: Rodrigo Dias Arraya, desenhista e publicitário e aluno do curso de Publicidade e Propaganda do IMES.

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INTRODUÇÃO

AS MEGACIDADES E A COMPLEXA TAREFA DE CONSTRUÍ-LAS

Prof. Dr. LUIZ ROBERTO ALVES*

A tarefa que consiste na revitalização das cidades e regiões será muito complexa. Apesar do

bombardeio de informações áudio-visuais que nos anunciam a vida facilitada. Ora, como seria fácil combinar a mudança de sistemas administrativos e tecnológicos com a conquista de uma nova atitude diante da cidade? Fica evidente, pois, que a vida virtual glamurizada pela mídia e pelos outdoors não

resiste a três dias de falta d’água, a um assalto ou à fila de hospital. Parece que convivemos com o céu e inferno, diariamente. Mas não é assim. A vida nas megacidades, nas metrópoles, escapará das dicotomias tradicionais por uma nova consciência superadora do cômodo ou incômodo, do bem/mal, da felicidade e seu contrário. No lugar dessa sensação de vida dividida (que para a maioria dos segmentos sociais significa pouquíssima alegria e muito enfado) o que se espera de nós, megacidadãos e megacidadãs, é a amplia- ção dos sentidos que nos educaram e nos treinaram a viver nesses espaços em contínua construção. Um novo sentido para o uso dos equipamentos coletivos, a melhor compreensão do fim das fronteiras entre urbes, a avaliação adequada dos investimentos na construção das coisas públicas e a criação de critérios para compatibilizar (e esclarecer!) o que é privado e o que é público. Quando participamos do congresso de Hong Kong denominado Megacities (fevereiro de 2000), ouvimos sistematicamente o discurso da consciência da cidade, do resgate da pessoa na metrópole, de como conciliar o desenvolvimento “com a criação de passarinhos e a plantação de verduras na casa”. Que fiquem de fora os mitos que nos embalaram, ou seja, que as tecnologias necessariamente facilitariam a vida, que a democratização do todo social traria governos melhores às cidades, que as intervenções dos especialistas resolveriam os problemas dos centros e dos bairros em que vivemos e por onde passamos. Ninguém e nada nos salvará fora da criação de novas formas de participação e consciência. Mais vigilância e melhor inteligência sobre a cidade plural e complexa que nos abriga. Consciência de que a ação política que vige sobre as cidades ainda é medíocre.

O presente caderno de pesquisa do IMES, agora Centro Universitário, trata da nossa grande

cidade sem fronteiras físicas, mas repleta de fronteiras de conhecimento, éticas, políticas. Elas se tornam laboratórios para inovações técnicas e sociais, mas acima de tudo ainda devem ser o nosso lugar de viver e conviver. E aí residem as grandes questões. Devemos acompanhar os projetos de mudança com atitude crítica, pautada por valores coletivos e a melhor capacidade avaliadora. Assumir a complexidade, considerar que vivemos na cidade multicultural, exigir direitos pes- soais, avaliar cada projeto e cada processo, demandar políticas públicas prioritárias, produzir memória da história metropolitana. Fazer história. Não obstante diversos e diferentes, os textos básicos deste caderno sugerem a criação de nova sensibilidade para com a cidade, condição para que as intervenções técnicas e políticas, mais a memó- ria acumulada, não nos alienem das responsabilidades, direitos e deveres, mas ao contrário, os tornem

inadiáveis. Assumir a cidade, ser cidadão da polis, é tarefa para já.

* Professor e pesquisador da USP e do IMES; coordenador do Laboratório de Gestão da Sociedade Regional do CEAPOG/IMES, e autor de, entre outras publicações, Culturas do Trabalho – comunica- ção para a cidadania (Santo André: Alpharrabio Edições, 1999).

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NORMAS PARA APRESENTAÇÃO DE TRABALHOS

Os artigos acadêmicos enviados à Comissão Editorial do Caderno de Pesquisa do CEAPOG-IMES devem seguir às seguintes normas:

1. Ser entregues em disquete (Word 6.0), com cópia impressa anexa;

2. Ser digitados em corpo 12, espaço duplo (com endentação de 12,4 mm na primeira linha de cada parágrafo), fonte Times New Roman, alinhamento justificado;

3. Conter: Resumo e 3 palavras-chave, em português e inglês (Abstract e Key words);

4. Indicar as citações: os autores referidos no corpo do texto (nome do autor, ano de publicação e página da citação) devem ter obrigatoriamente referência completa na bibliografia básica, no final do texto. O autor deve conferir as informações das citações com as da bibliografia.

5. Conter bibliografia, com a seguinte padronização:

SOBRENOME DO AUTOR, nome. Título da obra, n. da edição. Local: editora, ano de publicação.

6. Registrar o(s) nome(s) do(s) autor(es) do artigo, assim como seu(s) cargo(s), titulação e vinculação com o CEAPOG- IMES.

O Editor

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GRANDE ABC: REGIONALIDADE E HISTÓRIA CULTURAL EM QUESTÃO

1

Prof. Dr. LUIZ ROBERTO ALVES*

RESUMO: Trabalho realizado na perspectiva dos estudos culturais, que busca mostrar como a memória cultural colabora para a criação de um senso agudo de microrregionalidade na sociedade que sofre profundas transformações em seus modos de produção social e econômica. Noutras palavras, como o processo de comunicação se organiza como epistemologia no movimento histórico da cidade sujeita à tensão entre globalização e regionalização. Localizado na microrregião brasileira do Grande ABC, maior parque industrial do Brasil a partir dos anos 50, evidencia os avanços sociais e o desenvolvimento de consciência política sobre a intensa urbanização desse conjunto de sete cidades e os graves problemas sofridos nos anos 80 pela ocorrência da globalização dos processos de trabalho e da internacionalização dos capitais. A despeito da gravidade das novas situações, faz ver o modo como a memória coletiva migrante e imigrante foi capaz de atualizar-se no contexto das novas situações e, no meio da tensão, produzir respostas sob a forma de novos modos de representação social e da criação de instrumentos de produção e disseminação de informação capazes de realizar nova sinergia social, novos consensos e conseqüentes acordos políticos prenunciadores de superação de problemas. Exemplifica com a formação de consórcio de cidades, câmara regional, agência de desenvolvimento e fórum da cidadania, abrindo perspectivas para uma nova visibilidade regional e sua influência na mudança da cultura política tradicional.

ABSTRACT: This paper should be seen within the perspective of cultural studies. Its main objective is to show how cultural memory is conducive in creating a clear sense of belonging to a microregion within a society that is undergoing profound transformations in its social and economic mode of production. In other words, how the communications process organizes itself as an epistemology within the historical movement of the city, itself subject to the tension between

globalization and regionalization. Located within the Brazilian micro-region of the Greater ABC region, the biggest industrial complex in Brazil from the 1950 onwards, the region has both gone through a phase of social advance and the development of its political

awareness regarding the intense urbanization of the seven cities. The latter includes an increasing awareness about the severe problems the region is facing from the 1980s onwards which are related to the impact of globalization of the labor processes and the internationalization of the capital markets. Despite of the severe nature of these new situations, the paper shows how the collective memory of migrants and immigrants was able to update itself within the context of these new situations. That is, in the middle of a situation of tension, it created answers through new forms of representation and through the elaboration of new instruments of production and dissemination of information capable of realizing a new social synergy,

a new consensus and, consequently, political agreements

with a potentially problem solving character. Examples are given on the formation of a consorcio among cities,

a Regional Chamber, a Regional Development Agency,

and a Forum for Issues on Citizenship, all opening up perspectives for a new regional visibility and an influence capable of changing the traditional political culture.

PALAVRAS-CHAVE: regionalidade; cultura política; globalização; exclusão; consensos coletivos.

KEY WORDS: new regionalism; political culture; globalization; social exclusion; collective consensus.

1 Trabalho apresentado ao evento internacional “Megacities 2000”, realizado em Hong Kong, de 8 a 10 de fevereiro de 2000.

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1. INTRODUÇÃO

A presente reflexão realiza-se no campo da história cultural aplicada à periferia metropolitana, precisamente à microrregião sudeste de São Paulo, denominada Grande ABC. Considera que a história da cultura provê equipamentos simbólicos ao grupo social que se defronta com mudanças significativas em seus modos de produção social. Cultura, aqui, é entendida como criação e circulação de símbolos de coesão social. Como parte dos estudos culturais aplicados à vida da megacidade, considera uma microrregião, no caso a mais industrializada do Brasil a partir dos anos 50. Destaca os seus diversos impactos originados no processo de globalização, quer as mudanças dos processos de trabalho, quer o movimento de mundialização dos capitais. Observa que a acumulação simbólica dos grupos sociais imigrantes e migrantes, chegados à região entre fins do século passado e os anos 60 deste século, acompanhou tais processos, respondendo a eles na medida da necessidade de produção de identificação e organização social, notadamente a partir do início desta década. Noutras palavras, na história cultural aqui analisada, produziu-se um senso agudo de microrregionalização no interior da metrópole, no qual os novos modos de reorganização social e política não respondem somente à exigência do mercado e do capital internacionalizados, mas também a uma posição epistemológica elaborada pelas culturas do trabalho, cujos valores acumulados e intensamente veiculados exigem, hoje, repensar sentidos para o território na era da desterritorialização, identificações sociais no tempo da perda de identidades, inclusão na sociedade que dispersa ações e segrega grupos empobrecidos, que sugere fluxos de participação social diante do evento dos fluxos virtuais. Se não mais podem fazer, tais culturas do trabalho, criadas pelos fluxos de imigrantes e migrantes na sociedade intensamente industrializada, pelo menos têm conseguido produzir consensos sociais mínimos, novos modos de organização da sociedade civil, crescimento da participação social, agenda de ações e políticas urbanas para a inclusão social e um questionamento sobre os modos como podemos e devemos nos orientar para a inserção da grande cidade nos fluxos globais. Internamente, esse processo cultural questiona os velhos modos de produção da política e da administração das cidades, abrindo perspectiva de mudança da cultura política. Uma narrativa dos novos fluxos da organização da polis microrregional mostra os

avanços, os desafios e as dificuldades do projeto coletivo em curso. Nessas periferias metropolitanas, a modernidade se nutre da tradição, veiculada pela memória coletiva de trabalhadores que tiveram de conquistar salário, espaço social e liberdade desde os tempos de substituição da mão-de-obra escrava do final do século passado. Qualquer novo projeto e condição social é questionado e sentido por esta base cultural comum.

2. HISTÓRIA, CULTURA E CONTEXTO URBANO

A microrregião sudeste do espaço metropolitano de São Paulo ocupa área de 742 km e distribui seus dois milhões e trezentos mil habitantes por sete cidades, estabelecendo a ocupação de quase quatro mil pessoas por quilômetro quadrado. Colocada na rota de passagem entre o litoral e o planalto, a região somente é descoberta como lugar auxiliar ao projeto de desenvolvimento de São Paulo a partir do fluxo de imigrantes de 1877 e do estabelecimento da linha ferroviária pelos ingleses, na mesma época, ligando São Paulo ao porto marítimo de Santos. Em 1920 sua população era de 25.215 habitantes, que chegam a 90.726 durante a Segunda Guerra Mundial, 300 mil na época da segunda revolução industrial, década de 60 e hoje quase dois milhões e meio de pessoas, no contexto dos 17 milhões da megacidade de São Paulo. Enquanto os imigrantes, notadamente italianos, espanhóis, eslavos e depois japoneses, constituem-se na base profissional e cultural de sua população até os anos 30, a explosão do projeto capitalista de base industrial na seqüência da Segunda Guerra Mundial atrai milhares de brasileiros das regiões mais empobrecidas do país. Ergue-se nos anos 50 o pólo industrial de empresas com tendência globalizadora, destacando-se os ramos químico, petroquímico, de auto-peças eletro-mecânicas e montadoras de automóveis. Esse pólo substitui as antigas formas pioneiras e de base cooperativa da indústria oriunda da primeira revolução industrial do início do século:

moveleira e têxtil. Hoje, a região conta com 4.768 indústrias, mais vinte mil estabelecimentos comerciais e prestadores de serviços, sendo 46% dos empregos ainda oferecidos nas grandes indústrias de transformação. Da força de trabalho de cerca de um

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milhão e duzentas mil pessoas, 22% encontram-se desempregadas. Acresce-se o fato de que 56% da área total de 742 km são protegidos como reserva ambiental da Mata Atläntica e sofrem especulação imobiliária e invasões dos que reclamam moradia. A renda per capita

regional é de 12 mil dólares anuais, enquanto a do Brasil

é de 5 mil. O país tem a taxa de 19% de analfabetos e

a região do Grande ABC alcança 10%. 40 milhões dos

160 milhões de brasileiros vivem na miséria, mas na região a taxa dos mais empobrecidos, que habitam cortiços e favelas, é de 11%. No entanto, o rendimento médio dos trabalhadores caiu 40% nos últimos oito anos e na região metropolitana de São Paulo a economia informal já atinge 55% das pessoas ocupadas com o

processo produtivo. Pela ótica de sua história cultural,

a região cruzou três ciclos e se encontra, hoje, no quarto

período histórico-cultural. O primeiro ciclo foi o das passagens, pois foi caminho das mercadorias e produtos naturais para o primeiro ciclo importador-exportador do século XIX. Nesse período se materializa a importância estratégica da região, que começa a atrair imigrantes. O segundo ciclo pode ser denominado de construção da identidade industrial, associada à autonomia política, concluída nos anos 50 deste século. Consolida- se nesse ciclo a simbolização do espaço inquieto, reivindicador, berço de movimentos sociais e políticos, que ajudarão sobremaneira a garantir a redemocratização do Brasil nos anos 70 e 80, na saída da ditadura militar. O terceiro ciclo foi o do conflito agudo entre capital e trabalho, concluído no início dos anos 90,

que ajudou o Brasil a construir sentidos para a cidadania e a participação social e acumulou valores

2

para a criação dos novos consensos da sociedade regional

em processo acelerado de

globalização, com suas conhecidas conseqüências para

o terceiro mundo.

O estudo etnográfico, a leitura dos documentos históricos e o o trabalho de ouvir descendentes dos antigos trabalhadores, representantes populares, líderes sindicais e patrões da indústria revelam lições significativas para a história social de aglomerações auxiliares às metrópoles. A melhor imagem para o processo histórico-cultural dessa microrregião é a figura metonímica da contigüidade, pela qual a forte tensão social produzida pela parte globalizadora do Brasil – desde o início do século – exigiu das formações étnico- históricas concentradas nesse espaço de passagem e em meio à falta de raízes um alto esforço capaz de superar

inserida no quarto ciclo,

a alienação e o silêncio da contigüidade periférica.

Esse esforço engendrou atos de conhecimento que interpenetraram dois sistemas de comunicação historicamente acumulados, o imigrante e o migrante, produzindo a metáfora dos consensos coletivos em torno da cidadania. A memória cultural imigrante,

educada para a associatividade e para a coesão cultural

– que precisa superar o trauma da quase-forçada

emigração européia para o Novo Mundo – encontra- se com a memória de grupos sociais nordestinos cansados da migração de seus ancestrais e exigente do enraizamento social e familiar. O fato é que a perigosa

contigüidade de uma extensa mão-de-obra habitando periferias faz-se alta comunicabilidade pela experiência da memória histórica tecida em torno do valor maior do trabalho e do enraizamento que finaliza o processo migratório. O que se observa é que a comunicação social, historicamente acumulada, torna-se epistemologia, sucessão de atos de conhecimento ampliadores da educatividade social para a participação na vida da polis. Sader lembrou-nos que os projetos e práticas dessas populações organizadas da periferia sinalizam a vitória sobre a desintegração física e simbólica, a conquista de direitos em meio à tensão crítica, a intercomunicação de segmentos a produzir a condição de pessoa dentro da associatividade de trabalhadores e o aproveitamento da riqueza das cidades para efetuar uma melhor distribuição de renda. Um projeto de humanidade, no qual diminuem as distâncias entre o saber e o fazer. Assim, essas culturas organizadas em torno do trabalho apresentam, desde

o início do século, provas e exemplos de organização

social, criação partidária, associatividade de moradores e bairros para a exigência de infra-estrutura de serviços

públicos, cooperativas de trabalho e crédito, reivindicações sindicais. A despeito de nichos de precariedade e de contradições, sempre denunciadas,

o fato é que os indicadores de qualidade de vida da

região do Grande ABC são amplamente superiores à média nacional. Três das nossas sete cidades encontram-se entre as cinqüenta com melhor qualidade de vida do Brasil, no universo de 5.500 municípios. Prova-se, pois, que esse lugar já globalizante há várias

2

2 SADER, Eder. Quando novos personagens entraram em

cena. Experiências e lutas dos trabalhadores da Grande São Paulo, 1970-1980. 2.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra,

1988.

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décadas, embora de modo de produção fordista e hoje quase obsoleto, de fato foi construtor de um modelo que posso denominar “culturas do trabalho”, capaz de combinar a simbolização histórico-cultural com a diversidade étnica, a favor da melhor qualidade de vida, que a região tem ostentado nos últimos trinta anos. Tais valores acumulam sentidos e forças para o novo momento histórico.

3. GLOBALIZAR TAMBÉM A

INTELIGÊNCIA

REGIONAL

Uma região como o Grande ABC jamais poderia ter negado os avanços da globalização de processos de

produção e difusão e da internacionalização dos capitais, pois os conhece e vive desde décadas. Não somente vê acontecer dentro de si as novas estratégias de mercado,

a flexibilização dos modos do trabalho, as mutações

dos modos de produção, circulação e consumo de bens e valores. Sofre o drama das exclusões sociais crescentes

e do empobrecimento, tanto pela submissão dos

governos ao esquema monetarista quanto pela diminuição das políticas públicas e pela precarização do trabalho. Sofre também a perda do emprego

industrial: em agosto de 1990 era de 51% da força de

trabalho regional e, em 1999, de 30%. Cresce o emprego nos serviços e no comércio, mas com salários inferiores e precariedade na forma de contratação. Em agosto de 1990 tínhamos desemprego de 9,9%. Em outubro de 1999, o desemprego chegava a 22% de trabalhadores disponíveis.

A memória cultural criada em torno do trabalho incumbiu-se de questionar o modo da globalização nesse lugar altamente industrializado, principalmente o seu caráter não-inclusivo, a descontinuidade das políticas, a fragmentação do conhecimento, a alta integração de partes privilegiadas e o abandono de amplos setores e seus contingentes humanos. Às novas marcas da urbanidade em processo de globalização: alta tecnologia, sofisticação das finanças e ampliação dos serviços, essa história cultural aduziu a exigência de repensar identificações sociais, uso tecnológico para novos projetos educativos e revitalização do habitat urbano, ampliação da capacidade associativa para o encontro de soluções baseadas em consensos coletivos. Isto é, o que sempre foi tendência historicamente atualizada,

refaz-se nos últimos nove anos. Não somente para adaptar a sociedade regional ao imperativo das novas redes urbanas globalizadas, mas para analisar e interpretar seus processos de desenvolvimento, atitude epistemológica, e para fortalecer suas instituições locais e regionais, educando-se e produzindo estratégias culturais como política de inserção crítica nas redes. Questionar os modos e lugares da concentração dos capitais, destacar a tendência humanista de apontar para pessoas concretas, inseguras em processo de mudança cultural e não somente nós de uma cadeia produtiva virtual. Produzir comunicação, no contexto dessa memória cultural, vai muito além de submeter-se a novos processos de informação; ao contrário, exige o entendimento coletivo da informação e sua interpretação, como contribuintes, cidadãos e

consumidores. Como seres culturais. Mais que nunca, fazer ver as crescentes exclusões dos mais periféricos e exigir políticas públicas adequadas de parte das diversas instâncias dos governos. Essa região, que conviveu com os sentidos de periferia e os superou, tem dificuldade de aceitar novas e mais cruéis formas de periferização econômica, política e cultural.

Para alcançar esses objetivos e aprofundar esses temas, a sociedade civil da região e as administrações públicas das sete cidades têm criado novas instituições, novos objetivos e métodos de articulação social e nova agenda política. Com base em experiências européias e americanas, debatidas em seminários internacionais realizados no Brasil e no exterior, criaram-se nos últimos nove anos três instituições produtoras, veiculadoras e negociadoras de informação e serviço: o Consórcio Regional de Prefeitos, a Câmara Regional e a Agência de Desenvolvimento. O Consórcio, formado pelos sete prefeitos e assessores especializados nas políticas regionais prioritárias, é o lugar onde se geram os estudos iniciais em torno de programas e políticas. Formado em 1991, tem se preocupado especialmente com o desenvolvimento sustentado, a destinação final dos resíduos, a revitalização das cadeias produtivas, a criação de estrutura para o turismo de negócios e ecológico e a priorização das crianças e adolescentes em situação de risco, bem como o combate ao analfabetismo. A Câmara Regional, composta pelos prefeitos, assessores, deputados, funcionários do governo de São Paulo e representantes da sociedade civil, iniciou suas atividades em 1997 e buscou organizar as prioridades, ampliar estudos por meio de dez grupos de trabalho, aprovar

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consensualmente 31 exigências básicas da região e

negociar com o governo do Estado acordos e processos de implantação das políticas negociadas. Os principais acordos já assinados e em processo de implantação, acompanhados pelos representantes da sociedade, priorizam a implementação de um pólo tecnológico na região, o aumento da competitividade das cadeias produtivas, a criação de novos sistemas de drenagem

e efluentes industriais, a implantação de um hospital

regional, o aumento da oferta de habitação popular, a

qualificação da mão-de-obra, a revitalização de processos industriais, por exemplo a indústria de móveis,

a melhoria do transporte coletivo e o fortalecimento do movimento em favor de crianças e adolescentes empobrecidos. De seu lado, a Agência de

Desenvolvimento é produto das instituições anteriores

e um misto de banco de dados e instrumento de

marketing regional. Concentra informações sócio- econômicas, produz pesquisas, apóia e fomenta o desenvolvimento de empresas, com vistas ao desenvolvimento sustentado. Constitui-se como uma ONG, enquanto a Câmara Regional é um instrumento político de parceria entre poderes e o Consórcio um núcleo oficial de geração de projetos e necessidades. No entanto, foi de fundamental importância para a criação da Câmara e a Agência a formação do Fórum da Cidadania, órgão exclusivo da sociedade civil criado em 1994 por algumas dezenas de associações, escolas, sindicatos e clubes de serviço. Teve ele a função de

ombudsman de todo o processo, estimulando, criticando

e analisando as ações do Consórcio, da Câmara e da

Agência. O Fórum da Cidadania tem representantes em todas as demais instituições. Efetivamente, esse novo mecanismo de ação da sociedade organizada criou-se pela consciência das profundas transformações dessa

sociedade periférica antigamente industrial. A partir de 1990 ficou evidente que um novo modo de representação social teria de contar com problemas ampliados pelo processo de globalização e internacionalização de capitais. São eles: a evasão de indústrias e sua implantação em outros centros do país

e do exterior; os desafios do velho analfabetismo,

ampliado pelo analfabetismo diante das novas tecnologias; as novas atribuições do município para com

a saúde e a educação; o crescimento acelerado do desemprego e a dificuldade de requalificação

a

profissional; a ruptura das cadeias produtivas;

crescente degradação ecológica e a falta de planos e

estratégias de desenvolvimento baseados na agenda 21; a falta de sintonia entre os poderes públicos e as instituições de ensino superior, ainda voltadas para o modo de produção do conhecimento anterior ao processo de globalização.

Conhecida a agenda, vários estímulos vindos do

Vale do Ruhr, de Detroit, da Grande Leipzig, de Roterdã, da periferia de Milão, mais os projetos de inclusão social latino-americanos, animaram as pessoas e instituições a fortalecer a tendência já iniciada nos anos 50 de criar nesse espaço regional movimentos associativos, reivindicatórios e políticos capazes de garantir o equilíbrio social e a relativamente melhor qualidade de vida. Um intenso processo comunicacional e uma nova rede política levou à criação das novas instituições organizadas em torno de consensos progressivos. Um grande jornal regional,

o Diário do Grande ABC, abraçou plenamente o projeto

e foi veiculador cotidiano de todas as ações, críticas e propostas. Duas instituições ainda não se envolveram plenamente: as universidades e as câmaras de vereadores. As primeiras somente agora começam a pensar a nova dinâmica regional e a sua necessidade de insumos científicos para o fortalecimento dos projetos negociados e as câmaras, com exceções, ainda respondem a um modo tradicional, mesmo arcaico, de fazer política. Por isso mesmo, a Agência de Desenvolvimento busca alternativas para a implantação regional de pólos tecnológicos (como se dá na região italiana da Emilia Romagna), enquanto o Fórum da Cidadania cria novos modos de representação popular e institucional, não como substituição de um poder ou de uma função social, mas como estímulo para o seu crescimento. O que se deve destacar desse processo de interlocução, de criação de comunicação e

de novos mediadores sociais é que o estigma da exclusão, conhecido nos processos imigratórios e migratórios, combatido nos movimentos de urbanização de favelas

e amplamente veiculado pelos fortes sindicatos

regionais, foi reconhecido em toda a sua amplitude no final dos anos 80. Tratou-se, pois, de dar respostas intensamente dialogadas como combate e superação daquele estigma. A despeito da difícil situação do trabalho e da empregabilidade, dos riscos de perda das identidades urbanas das sete cidades em mudança, dos lentos progressos da educação da juventude e sua profissionalização e das crises dos antigos “clusters” regionais, os acordos atingidos já saem do papel, a

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sociedade organizada está vigilante, novos instrumentos para apoio ao trabalho e à renda familiar já foram implementados (exemplo: os denominados Bancos do Povo), algumas cidades descobrem sua vocação turística, outras reorganizam seus espaços por meio de eixos de urbanização de vocação múltipla,

aceleramse projetos de renda mínima das famílias

associados à freqüência escolar das crianças. Alteram- se estruturas de atendimento ao público nas prefeituras

e os conselhos de vigilância sobre o meio ambiente

funcionam com eficiência. Acima de tudo, amplia-se a consciência crítica da população, o que fica provado pelo debate público de idéias, pela interlocução através da mídia regional, pela crítica às velhas práticas políticas.

CONCLUSÃO

Estamos diante de uma forma de regionalização nascida a partir da consciência local e regional, sem uma estrutura oficial do Estado brasileiro. No entanto, cremos que não cabe ao Estado ser o autor da descentralização microrregional, pois tal experiência, já conhecida em nossa história política e administrativa, resultou em clientelismo, divisão de poderes entre as elites e ampliação de privilégios em poucas mãos. Nosso feudalismo agrário projeta-se simbolicamente na consciência política das elites que hegemonizam continuamente o poder. Sabemos, porém, que na ampliação das relações interregionais e das regiões com experiências internacionais, poder-se-á criar não um modelo, mas modos ainda não conhecidos de experiência de governos da polis, e estes modos novos, resultados da memória atualizada em consciência de

novas representações sociais, poderão sugerir novas

relações entre cidades metropolitanas, quer internamente ao Brasil, quer no contexto do Mercosul

e talvez mais amplamente. Hoje são fortes as relações do Grande ABC com a Emilia Romagna, Itália, e com regiões da Holanda e da Alemanha. Temos bastante a aprender e talvez algo a oferecer, notadamente na

3

3 PUTNAM, Robert. Comunidade e Democracia. A experiência da Itália Moderna. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1996.

construção de nova cultura política. Esperamos que as relações entre cidades signifiquem amplamente encontros de cultura e não somente encontros de mercado.

É claro que algumas experiências européias foram

induzidas por uma estruturação legal, como nos mostrou a pesquisa de Putnam na Itália moderna. No Brasil, os projetos regionais precisam modelizar-se, alçar-se à condição de excelência por si mesmos, produzindo-se pela consciência de que o dilema pode não ser maior do que as forças coletivas. Deve dar-se um amplo processo de comunicação capaz de educar

as comunidades cívicas e remetê-las às práticas.

A região trabalha, hoje, no desenvolvimento de

um plano estratégico, por meio de grupos ampliados de participantes. Buscam-se novos consensos na

constituição de políticas públicas que formulem alternativas concretas para estas prioridades: educação

e tecnologia, sustentabilidade dos mananciais, infra-

estrutura, diversificação e fortalecimento das cadeias produtivas, qualidade ambiental, identidade regional e suas estruturas institucionais. A grande questão, hoje, é garantir a futura governabilidade das propostas coletivas

e ter a certeza de que elas podem propiciar a reversão

do quadro de precariedade regional revelado no final dos anos 80.

Não se pode ignorar que tal processo encontra-

se no meio do caminho, às vezes no purgatório político.

Depende das respostas governamentais às reformas tributária e política, ora em discussão nacional. Depende do comportamento do governo perante as dívidas

externa e interna, a primeira causadora da dependência internacional e a segunda, secular, evidencia o Brasil como um dos países mais injustos do mundo em distribuição de renda e atendimento a crianças e adolescentes. Depende, também, de alternativas às dívidas dos municípios junto ao tesouro nacional. Por

isso, alguns projetos avançam lentamente; por exemplo

o de requalificação profissional, que pretendia capacitar

duzentos mil trabalhadores no domínio de novas tecnologias até o ano 2000, mas não chegará à metade, por falta de recursos. No entanto, a região prefere afirmar a negar. Propor no lugar de somente conjecturar. Organizar-se politicamente em vez de exorcizar as transformações internacionais. Ela aprendeu isso em seu movimento processo de histórico identificação de comunicação, de vocações em para seu a mudança. Deste modo, afirma-se o fim da condição de

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periferia e se constitui parte do coração metropolitano, anunciando claramente a necessidade de consolidar culturas democráticas regionalizadas, capazes de visibilizar-se nacional e internacionalmente; capazes também de mudar a nossa cultura política, ainda muito distante da experiência que se gesta em alguns desses espaços regionais.

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MEGACIDADES: UMA PROPOSTA PARA O EIXO TAMANDUATEHY

1

Prof. ANGÉLICA BENATTI ALVIM/Prof. ENIO MORO JUNIOR/ Prof. MARIO FIGUEROA*

RESUMO: A região metropolitana da Grande São Paulo atravessa um de seus momentos mais importantes. Em função de um intenso processo de reconversão econômica, sua principal base produtiva, o setor industrial, transforma-se em um importante pólo de comércio e serviços. Esta situação gera novas necessidades de espaços na cidade, solicitando soluções urbanas que possibilitem sua implantação e desenvolvimento. A análise, a discussão e as propostas de intervenção para o Eixo Tamanduatehi são objetivos deste artigo.

ABSTRACTS: The Greater São Paulo metropolitain region is the main industrial complex in Brazil, and its economy is diversifying with new enterprises in the areas of commerce, services, tourism and enterteinament. The region needs of new urban spaces and this article intends discussing about the possibilities for programs and projects to Eixo Tamanduatehi, a new development region in this special area.

PALAVRAS-CHAVE: urbanização; região metro- politana; Região do ABC.

KEY WORDS: urbanization; metropolitain region; ABC Region.

1. INTRODUÇÃO

No evento “São Paulo MEGACIDADES 2000”, exposto na 4 ª Bienal Internacional de Arquitetura, realizada em São Paulo de novembro de 1999 a janeiro de 2000, e no Seminário “Megacities 2000”, realizado em Hong Kong, China, em fevereiro de 2000, a equipe do curso de Arquitetura e Urbanismo

da UniABC – Universidade do Grande ABC – pesquisou uma recente problemática da metrópole contemporânea: a súbita transformação de seus espaços, não se configurando como ambiente urbano de qualidade, mas vazios urbanos gerados pela evasão industrial ao longo do antigo sistema de transporte ferroviário.

Nestas áreas, a paisagem metropolitana altera- se radicalmente. A fase atual de urbanização transforma-se em uma contra-urbanização, na qual inúmeros vazios são substituídos por grandes estruturas terciárias isoladas.

área 2 de estudo escolhida envolve um trecho

linear da metrópole (14 km de extensão – cerca de 10,5 milhões m ), limitada, por um lado, pelo binômio Rio Tamanduateí/Avenida dos Estados e, por outro, pela antiga Estrada de Ferro Santos-Jundiaí, entre as Estações Moóca e Santo André. Sua área de influência compreende parte do município-sede e da sub-região sudeste da Região Metropolitana de São Paulo: São Paulo (distritos Moóca, Ipiranga e Vila Prudente); São Caetano do Sul e Santo André, abrangendo um total de 1,23 milhões de habitantes.

A proposta é não encará-la como fragmentos

urbanos de vários municípios autônomos, mas como um espaço a ser tratado integradamente, com caracte-

rísticas próprias, parte do espaço metropolitano.

A

1 Equipe Megacidades:

Coordenação do projeto: Professores Angélica Benatti Alvim, Carlos Leite de Souza e Mario Figueroa; alunos:

José Gilberto Pires, Norberto Martins, Vitório Ultremari, Leonardo Garcia e Leonard Grava; colaboração: Jaime Vega e Luciana Brasil.

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2. “DESCONCENTRAÇÃO INDUSTRIAL” DA METRÓPOLE

No Brasil, o Estado de São Paulo mantém há décadas privilegiada posição econômica e demográfica em relação aos demais estados do país. Segundos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, em 1996 São Paulo concentrava cerca de 38% do Produto Interno Bruto (PIB) do país e 22% da população bra- sileira.

A Região Metropolitana de São Paulo (RMSP),

considerada a maior metrópole nacional, é composta por 39 municípios que juntos abrigam 16,6 milhões de habitantes, cerca de 48,6% da população estadual e 10,5% população nacional. Seus municípios estão distribuídos em sete sub-regiões com níveis de desenvol- vimento e vocações distintas: norte, leste, oeste, sudoeste, nordeste, sudeste e centro.

É “ainda” líder econômica dentro de um Estado

considerado o mais desenvolvido no país. Entretanto, vem perdendo ano a ano sua posição para o interior do Estado e outras regiões do país que crescem rapidamente, atraindo diversos empreendedores, além de uma significativa parcela da população que está à procura de “cidades sustentáveis”.

“A metrópole paulista, que na década de 70 atraiu cerca de 2 milhões de pessoas de diversos locais do Brasil, vem vivenciando, desde os anos 80, uma

inversão da tendência histórica de concentração populacional, onde sua taxa de crescimento populacional reduziu-se de 4,46% no período 70/80 para 1,76% ao

ano no período 80/91 (

A redução do ritmo de crescimento demográfico

na RMSP é acompanhada por importantes mudanças no mercado de trabalho. Desde o final dos anos 70, a metrópole vem enfrentando os efeitos perversos da globalização que atuam principalmente na sua reestruturação produtiva, implicando na desconcentração industrial, aliada ao crescimento do setor terciário. Os dados da Fundação Seade (1999) demonstram que no período 1986/1996 houve redução da participação da RMSP no Valor Adicionado na indústria estadual de 59,6% em 1986 para 51,96% em 1996, sendo a percentagem de pessoal, ocupado no setor secundário da metrópole paulistana reduzida de 32,8% a 21,1%, no mesmo período, enquanto no setor de

)”

(ALVIM, 1996).

serviços o aumento verificado foi de 40,7% a 50,2% e, no comércio, de 14,1% a 16,9%.

Como causas internas da desconcentração industrial ocorrida na RMSP podem ser apontados: a ausência de terrenos baratos, restrições legais, elevado custo salarial e a pressão dos sindicatos. As externas estão relacionadas à mundialização da economia, à expansão do mercado nacional, à melhoria de infra- estrutura em outras regiões, além das vantagens fiscais oferecidas por outros estados e municípios.

Existe uma grande interrelação entre o nível de atividades industriais e o crescimento do terciário metropolitano. O setor terciário, desde os anos 70, vem sendo estruturado em forte articulação com as demandas geradas pelo secundário: demanda intensiva por serviços especializados de produção, ligada à expansão e diversificação industrial; demanda de serviços pessoais ligada à expansão das ocupações de alta qualificação e renda; centralização de serviços especializados com alto grau de sofisticação; exigência de desenvolvimento de novos segmentos de apoio, a partir dos ajustes promovidos pela indústria nos anos 80, quando a terciarização de vários serviços torna-se fundamental (EMPLASA, 1994).

O setor terciário torna-se então o principal res- ponsável pela geração de novos empregos, mudando a tendência dos anos 70, fase em que o setor secundário exercia esse papel. Ou seja, a desconcentração industrial da metrópole passa a ser entendida em função de uma tendência de desaparecimento da indústria como unida- de principal de produção substituída pelo setor terciário. Esse, por sua vez, está ligado principalmente às novas tendências mundiais de informatização das empresas e terciarização das relações de trabalho, além do aumento de mão-de-obra alocada na economia informal.

3. A ATUAL SITUAÇÃO DA ÁREA DE ESTUDO

Inicialmente, a industrialização da Grande São Paulo estava diretamente associada à linha férrea. A ferrovia consistia até a década de 40 no melhor meio para o transporte de carga. O transporte de cargas dos estabelecimentos industriais se fazia pelos desvios ferroviários que muitas empresas construíam. A suburbanização residencial das faixas ferroviárias na metrópole paulista se relaciona com a

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industrialização da orla ferroviária e a localização das estações. Tanto o processo de suburbanização residencial como o de suburbanização industrial eram norteados pela linha ferroviária. Nas principais zonas industriais da Grande São Paulo, as fábricas antecederam as residências, constituindo uma reserva potencial de mão-de-obra de imediata utilização.

A primeira ferrovia a cortar o planalto paulistano

foi a Estrada de Ferro Santos-Jundiaí. O chamado “trinômio ferrovia/terreno grande e plano/curso d’água” caracterizou a implantação de várias indústrias

importantes na faixa entre a Moóca e Santo André:

Rhodia, Antarctica, Pirelli, Moinho São Jorge, etc. “Era conveniente implantar estabelecimentos industriais junto

à ferrovia que unia Santos a São Paulo, além dos

benefícios que os rios Tamanduateí e dos Meninos ofereciam, de transporte a curta distância e água.”

(LANGENBUCH, 1971).

Nos anos 40, a rodovia entra em cena e atrai inúmeros estabelecimentos industriais ao longo de seu percurso. A inauguração da Via Anchieta em 1947 foi fundamental para mudar o eixo de industrialização dos municípios do ABC, que antes concentrava-se ao longo do rio Tamanduateí e linha férrea, entre os municípios de São Caetano e Santo André, passando a localizar-se em São Bernardo. No domínio da auto-estrada houve um verdadeira pulverização de empresas, ao passo que no domínio ferroviário a polarização verificava-se em torno das estações.

A partir dos anos 50, a indústria automobilística

ganha vulto e tanto as áreas situadas ao longo da ferrovia como ao longo da rodovia, no sentido São Paulo-Santos, recebem instalações produtivas do setor ou ligadas a este.

A sub-região Sudeste, onde se localiza grande parte de nossa área de estudo, sempre foi considerada a segunda maior concentração econômica da RMSP (depois do município-sede), distinguindo-se por conter um amplo mercado de trabalho especializado, com a coexistência de dois ramos industriais predominantes:

automobilístico e químico, além de elevada renda per

capita de seus habitantes. Entretanto, recentemente, “sob efeitos da saturação da Região Metropolitana de São Paulo, do explícito incentivo dos governos estaduais

à interiorização do desenvolvimento e dos constantes

entreversos sindicais” (LIMA & MARCOCCIA, 1997), observa-se um esvaziamento industrial aliado a vazios urbanos, áreas deterioradas e conseqüente desemprego.

Na nossa área de estudo, apesar do predomínio da atividade industrial (90% de indústrias contra 10% de residências e atividades terciárias) inúmeros estabelecimentos estão sendo desativados e transferidos para outras localizações que oferecem melhores vantagens fiscais, terra e mão-de-obra mais barata, além de não sofrerem a pressão dos sindicatos. Outras empresas estão simplesmente reduzindo sua capacidade produtiva e seu pessoal como forma de superar a crise e ou entrar no mundo da automação, gerando inúmeros espaços ociosos em suas unidades.

De acordo com levantamento de campo realizado pela equipe Megacidades da UniABC, do total de 136 empresas existentes no trecho, cerca de 51% estão em pleno funcionamento, 5% em funcionamento parcial e 44% desativadas, sendo a maioria das indústrias desa- tivadas de grande e médio porte.

É interessante notar que as indústrias localizadas dentro do limite do município de São Paulo encontram- se com nível superior de atividades quando comparadas Às empresas situadas nos municípios do ABC. Provavelmente, esse fato deve-se à diversificação de atividades existentes neste trecho, diferente das atividades das empresas do ABC, ligadas em geral ao setor automobilístico.

Outra tendência que se observa ao longo da área é o processo de substituição das unidades industriais por grandes estruturas comerciais tais como hipermercados, concessionárias de automóveis, shopping-centers, etc., o que está longe de configurar- se em um novo padrão urbano consolidado.

Decorrente dessas rápidas transformações, a pai- sagem deste trecho da metrópole alterou-se radicalmente. Observa-se a presença de muitos vazios urbanos e em alguns casos a substituição destas unidades por grandes estruturas terciárias isoladas do entorno urbano.

Aliados às transformações produtivas e espaciais ocorridas destacam-se, também, sérios problemas urbanos decorrentes da falta de infra-estrutura relativa a transporte, saneamento básico, habitação, segurança, saúde, educação, áreas livres, entre outros, os quais refletem diretamente no declínio da qualidade de vida do habitante metropolitano.

Outro dado relevante é a limitação da acessibilidade na área de estudo se considerarmos os padrões de locomoção: menor tempo, menor custo,

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maior segurança, maior conforto e maior número de viagens no modo individual. Na sub-região sudeste, segundo a Pesquisa Origem-Destino da Companhia do Metrô – OD/97 – o aumento da taxa de motorização da população registrada foi a mais alta da RMSP: de 142 automóveis a cada mil habitantes em 1987, para 197 em 1997. Isso significa que a população opta cada vez mais pelo uso do automóvel em função da baixa e precária oferta de transporte coletivo.

Atualmente, o transporte ferroviário de passageiros é operado pela Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). O número de viagens no sistema ferroviário metropolitano vem diminuindo ano

a ano. Em 1987 esse modo de transporte representava

4,38% do total de viagens motorizadas da metrópole, contra 7,68% de metrô, 42,83% de ônibus e 42,50% de autos; em 1997 o trem reduziu sua pequena participação para 3,15%, contra 8,23% de metrô, 38,44% de ônibus

e 47,24% de autos (Fonte: OD/97)

Apesar da falta de dados específicos sobre a operação do sistema ferroviário no trecho estudado, a pesquisa confirmou que o serviço ofertado está aquém do desejado: acessibilidade precária às estações, pouca integração entre outros modos de transporte, falta de segurança, conforto, confiabilidade no horário etc.

O sistema viário da sub-região sudeste apresenta várias deficiências, principalmente a incapacidade de absorver o tráfego de autos e cargas que disputam o

mesmo espaço. As duas portas de entrada dos municípios do conhecido ABC paulista (onde se insere parte da área de estudo), a Av. dos Estados e a via Anchie- ta, desafiam a paciência dos motoristas que trafegam ali diariamente. Na área de estudo, a Av. dos Estados “é uma sucessão de pistas mal conservadas que se estreitam

à medida que se alarga o leito do rio Tamanduateí. Suas

enchentes em época de chuvas provocam inúmeros prejuízos e em épocas de seca, ela vive em obras” (LIMA

& MARCOCCIA, 1997).

O Plano Integrado de Transportes Urbanos (PITU 2020), elaborado pelo Governo do Estado, prevê

a ampliação de infra-estrutura de transportes da RMSP,

com propostas de redes de alta, média e baixa capacidade integrando os modos de transportes: sistemas sobre trilhos e sobre pneus. Conforme a proposta, a rede futura de transportes metropolitanos prevista terá, no ano 2020, cerca de 446 Km de extensão, contra 79 Km existentes atualmente. Para a linha sudeste de trem metropolitano

está prevista a sua modernização e transformação em metrô de superfície, fato que, se concretizado, solucionaria, em parte, vários problemas da área.

4. TENDÊNCIAS E VOCAÇÕES

A área de estudo escolhida reflete de modo bastante claro tendências da metrópole paulista. Por um lado, observa-se a desconcentração industrial em pleno andamento, conseqüência de diversos fatores internos

e externos à metrópole: preço da terra, acessibilidade

reduzida, plantas compactas, aliados a informatização

e terciarização de serviços, custo da mão-de-obra e

pressão dos sindicatos, fortemente organizados nas áreas urbanas de maior porte. Por outro lado, grandes vazios urbanos, resultantes da própria transformação produtiva da metrópole, são apropriados, em alguns casos, por ocupações irregulares ou aleatoriamente pelo setor terciário. Outros ficam simplesmente abandonados, deteriorando ainda mais a paisagem metropolitana. Aliadas a essas constatações, observam-se vocações da área que são consideradas no decorrer do trabalho: importante e estratégica localização – entre o centro da metrópole e o caminho para a metrópole Santista (área portuária); fácil acessibilidade a ser melhorada pela implantação da rede de transporte coletivo integrada; a presença do Rio Tamanduateí, que hoje representa problemas e no futuro, se recuperado, um elemento de renovação; grandes terrenos disponíveis, que facilitam a implantação de novas edificações com usos diversos, integradas a espaços públicos; população lindeira carente e emergente de uma nova centralidade urbana, além da proximidade a centros urbanos equipados e com nível de renda per capita elevado (São Caetano, Santo André).

Essas e outras tendências nos levam a pensar na urgência de requalificação desse espaço. As disfunções urbanas, contidas atualmente nessa área, não são únicas

e nem exclusivas da metrópole paulista; por isso, devem ser tratadas tanto em sua essência como parte de uma metrópole mundial: São Paulo.

5. A PROPOSTA

O objetivo principal da intervenção é a constituição de um novo eixo metropolitano que refaça a

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cidade a partir de suas infra-estruturas e anule seus resíduos urbanos, reconstruindo uma nova centralidade multifuncional, integrante de uma metrópole mais justa e sustentável.

A equipe propõe uma Estratégia de

Ocupação, a qual deve orientar um projeto urbano para a área de estudo. Dois conjuntos de diretrizes foram definidos: Diretrizes Estruturais, ou seja, orientações de caráter metropolitano, as quais são fundamentais para a requalificação não somente deste trecho, mas de outras áreas com tais características na metrópole. Diretrizes Articuladoras, de caráter interno, são orientações importantes para a real reinserção desta área em seu entorno.

As propostas ligadas a estas diretrizes são

discriminadas a seguir:

5.1. Diretrizes Estruturais

Aprimoramento da infra-estrutura existente

Ações:

– Recuperação e modernização do sistema ferroviário (metrô de superfície) e integração com demais sistemas de transportes metropolitanos conferindo à região a acessibilidade necessária para a sua dinamização;

– Implantação de novas estações a cada 800m em média de modo a facilitar o acesso de pedestres à área. Associação das estações a novos equipamentos urbanos (comércioserviços/instituições) que funcionarão como elementos catalisadores de transformações do espaço urbano.

– Recuperação do Rio Tamanduateí/utilização como meio de transporte de curta distância (cargas e lixo). Recuperar o Rio Tamanduateí e outros rios metropolitanos é condição básica para a sustentabilidade da metrópole. Além de serem nossos mananciais, contribuem, em muito, para a qualificação do ar e da paisagem urbana, como elemento contemplativo e atenuante dos conflitos urbanos. O alargamento de seu leito e recuperação de seu percurso original, em trechos possíveis, poderá amenizar suas enchentes e conferir ao entorno uma paisagem mais qualificada. A sua utilização como

meio de transporte para cargas intra-urbanas e parte do lixo urbano é outra possibilidade a ser explorada

e que contribuiria para a redução da circulação de

cargas na área de estudo.

– Implantação da via perimetral metropolitana: traçado intra-urbano. Propõe-se a adoção do traçado intra- urbano do anel viário metropolitano, conforme proposta preliminar apresentada pelo arquiteto espanhol Eduardo Leira no seu projeto para o “Eixo Tamanduathey” (Prefeitura de Santo André). Trata- se de uma revisão crítica do Rodoanel, propondo-se que este passe internamente à mancha urbana consolidada – na sua borda periférica –, atuando assim como nova possibilidade de conexão.

5.2. Diretrizes Articuladoras

Melhoria da acessibilidade interna

Ações:

– Alterações de circulação no sistema viário principal

– implantação de um novo binômio Avenida dos

Estados/ferrovia – Avenida dos Estados/rio. Deslocamento de uma pista da Av. dos Estados para junto do eixo da ferrovia, de forma a amenizar o problema de sua transposição. Desta forma a área fica limitada por dois binômios de melhor absorção junto à estruturação urbana lindeira: de um lado o binômio rio-avenida (apenas uma pista) e de outro, o binômio ferrovia-avenida (apenas uma pista), agora inseridos junto a um eixo verde (parque linear).

– Continuidade do tecido urbano – hierarquização de

vias internas coletoras e de distribuição. Estabelecer

a continuidade do tecido urbano do entorno através

da extensão ou correção do sistema viário coletor e de distribuição; desenho de novas morfologias internas à área. A idéia é proporcionar a apropriação da área pelo pedestre e integrá-la ao entorno.

– Estímulo às novas transposições das barreiras físicas (veículos, pedestres, áreas edificadas). Passarelas, viadutos, edifícios-ponte programáticos e as novas estações poderão ser distribuídos ao longo de todo

o eixo, em pontos estratégicos, gerando um conjunto

de novas possibilidades de transposição transversal

da área, atualmente separadas pelas barreiras físicas

– rio e ferrovia.

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Recuperação ambiental

Ações:

– Implantação de um eixo verde linear ao longo do vale do rio de forma a recuperar a permeabilidade das áreas da várzea e integrar as diversas sub-áreas propostas.

– Implantação de três bolsões de parques urbanos. Articulado ao parque linear, um conjunto de parques urbanos é proposto em pontos que se apropriam dos vazios mais significativos e articulam-se com equipamentos já existentes na área lindeira. Nestes trechos, o rio deverá voltar ao seu percurso original onde o elemento água conferirá ao entorno uma paisagem mais qualificada, recuperando as várzeas e reduzindo significativamente suas enchentes.

Estímulo a uma nova ocupação urbana

Ações:

– Eliminação das áreas residuais (vazios urbanos) através de novo parcelamento do solo e requalificação dos vazios como espaços geradores de urbanidade, incentivando a implantação de novos edifícios ou reciclagem de antigos aliados a espaços públicos/semi-públicos necessários à vitalidade urbana.

– Dinamização e criação de novos sub-centros aliados à ocupação diversificada – mix de usos. Novos sub- centros integrados a edifícios plurifuncionais devem ser implantados, nos quais um mix de usos coexista em um mesmo espaço de forma equilibrada:

habitação; comércio, serviço, lazer e cultura – favorecendo a sinergia da metrópole.

– Incentivo à reconfiguração do parque industrial existente. Estímulo à transformação da capacitação gerencial interna da iniciativa privada à parceria do poder público e do próprio setor privado na requalificação da área através de parcerias e formação de cooperativas. Internamente, a redução da planta industrial, associada à modernização das bases produtivas, gera espaços ociosos, que devem ser aproveitados para outros fins pelos próprios empresários, que atualmente querem diversificar seus negócios: áreas culturais, prestação de serviços, atividades comerciais. Externamente, podem ser desenvolvidas parcerias entre as próprias empresas e

entre empresas e poder público, visando à redução de seus custos internos e à possibilidade de usufruírem de vantagens coletivas: implantação de novos usos ligados à terciarização dos serviços sociais internos às empresas e de serviços de apoio às empresas e de equipamentos urbanos que beneficiem a comunidade como forma de garantir a qualidade do espaço e valorizá-lo.

– Estímulo à formação de eixo industrial tecnológico (tecnopólo metropolitano) e parcerias com centros de pesquisas universitários. Paralelamente à reconfiguração e manutenção das indústrias existentes, é necessário estimular a formação de novas unidades produtivas, ligadas à indústria limpa e de ponta atuando como requalificadora do estoque industrial existente. Também é preciso estabelecer parcerias entre as novas empresas, universidades e poder público, no intuito de desenvolver centros de pesquisa que contribuirão para formação de pessoal qualificado e mudança do padrão cultural da população.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

“O sucesso de uma cidade depende de algum modo de seus habitantes e governo, mas prioritariamente de ambos, para sustentar um ambiente urbano e humano.” (Richard Rogers, Cities for a small planet, 1997).

A redução da planta industrial devido ao novo padrão produtivo contemporâneo, por um lado, e a efetiva saída das indústrias da Região Metropolitana, por outro, têm gerado enormes estoques urbanos – áreas desqualificadas, normalmente situadas ao longo do antigo eixo de infra-estrutura que lhe dava suporte – a ferrovia. Essa áreas atualmente configuram-se em resíduos urbanos, “terrain vague”, dentro da cidade contemporânea. Este não é um problema absolutamente novo e nem mesmo localizado. Trata-se de uma verdadeira tendência de quase todas as áreas metropolitanas contemporâneas.

Se as conseqüências advindas da globalização impõem de imediato estas disfunções urbanas, num segundo momento, no qual a metrópole se projeta como nova, reequipada, é obrigada a concorrer com suas vizinhas – por vezes nem tão próximas geogra- ficamente. As cidades mundiais concorrem entre si e disputam acirradamente o mesmo mercado. Não é por

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acaso que há, desde o início da década de 80, vários projetos urbanos, em todo o mundo, destinados à revita- lização urbana de áreas degradadas, requalificação de cen- tros urbanos, reutilização de áreas residuais industriais.

É extremamente necessário reconfigurar áreas metropolitanas dentro das novas demandas impostas pe- la globalização, mas sem ignorar suas fragilidades, confli- tos e potencialidades locais, além do cotidiano de seus habitantes. Pensar globalmente, agir localmente. Ou seja, requalificar suas áreas “doentes”, dotá-las de suporte físico para serem competitivas mundialmente e, ao mes- mo tempo, proporcionar qualidade de vida a seus habitantes.

Acredita-se que áreas como estas necessitem de um projeto urbano que mostre seu potencial físico, rein- serindo-as no tecido urbano do entorno conferindo ur- banidade, e da concepção de um plano estratégico que corrija suas atuais disfunções urbanas e reintegre-as ao espaço metropolitano. Entretanto, cabe dizer, o sucesso de projetos como este depende de todos os atores envol- vidos, responsáveis pela construção de uma nova cidade.

As disfunções urbanas, contidas atualmente nessa área, não são únicas e nem exclusivas da metrópole paulista; por isso devem ser tratadas tanto em sua essência como parte de uma metrópole mundial – São Paulo. A metrópole deve, ao mesmo tempo, equipar-se para as novas demandas de uma cidade mundial e conferir aos seus usuários espaços qualificados dentro de uma cidade justa e sustentável.

BIBLIOGRAFIA

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* Professores da UniABC.

CADERNO DE PESQUISA CEAPOG-IMES

REINVENTANDO O PLANEJAMENTO REGIONAL EM UM

CON-

TEXTO DE REESTRUTURAÇÃO ECONÔMICA LOCAL:

O

CASO DA REGIÃO DO GRANDE ABC*

Prof. Dr. JEROEN KLINK**

RESUMO: O dramático impacto da reestruturação econômica local na Região do Grande ABC.

ABSTRACT: The dramatic impact of local economic restruturing on the Greater ABC region.

PALAVRAS-CHAVE: Economia regional; Novo Re- gionalismo; Grande ABC.

KEY WORDS: Regional economy; New Regionalism; Greater ABC.

1. INTRODUÇÃO

A Região do Grande ABC, composta de sete municípios localizados nos arredores da região metropolitana de São Paulo, tem sofrido um processo de reestruturação econômica que se intensificou nos últimos anos. Primeiramente, e como parte de um processo que começou já na década de 70, diversas de suas indústrias mais importantes vinham implementando investimentos fora da região, manifestamente por causa dos elevados níveis de deseconomias de aglomeração na área de São Paulo, associados ao congestionamento viário, aos problemas ambientais, à falta de espaço, à forte pressão sindical e à baixa qualidade de vida generalizada (CANO, 1995). Em segundo lugar, tornou- se evidente que o modelo de desenvolvimento brasileiro, baseado na substituição de importações, chegara a seu limite. Conseqüentemente, e também como resultado da abertura da economia brasileira, os setores industriais domésticos estão sendo forçados a se modernizar e a introduzir novas técnicas de produção e gerenciamento com o objetivo de aumentar o nível de produtividade.

As conseqüências das tendências acima citadas

têm repercutido no aumento dos níveis de desemprego

e na redução do valor agregado gerado na Região do

Grande ABC. A evolução do valor agregado nesta região

e sua participação na economia geral do Estado de São

Paulo são mostradas na Tabela 1 (ver p. 24), enquanto

o desenvolvimento dos níveis de empregos formais é

descrito na Tabela 2 (ver p. 25). Como pode ser visto, a

diminuição do emprego industrial tem sido dramática, particularmente naqueles setores altamente relevantes para a região, a exemplo das montadoras de automóveis

dos setores metalúrgicos e mecânicos. O que dizer das iniciativas políticas que têm se apresentado até o momento? De fato, um número crescente de municípios brasileiros tem começado a implementar frentes de trabalho locais e projetos de geração de renda (KLINK, 1999). De certa forma,

esta tendência pode ser vista como uma conseqüência lógica do caráter do federalismo brasileiro, no qual os municípios possuem uma vasta autonomia em uma grande variedade de atribuições. Contudo, percebe-se normalmente que esses esforços municipais ainda falham no que tange à escala e à coordenação, sem mencionar a dramática falta de recursos financeiros que sustentam essas políticas (ARRETCHE, 1996).

O objetivo deste artigo é mostrar que

administrações locais, ao unir forças e formar parcerias com os investidores do setor privado, da sociedade civil

e do Governo do Estado, podem prosperar tanto na

escala como na efetividade de suas políticas de revitalização. Além disso, argumentamos que trata-se de

uma promissora proposta complementar aos modelos

e

1

1 Exemplo claro desta tendência é a criação de pro- gramas de micro-crédito, a implementação de frentes de trabalho e a manutenção e elaboração de programas para incubadores de empresas e cooperativas.

CADERNO DE PESQUISA CEAPOG-IMES

de planejamento metropolitano rígidos e autoritários, que, também no Brasil, provaram-se pouco eficientes na coordenação do planejamento local.

2. INICIATIVAS DE DESENVOLVIMENTO REGIONAL NO GRANDE ABC

No início da década de 90, um processo começou

a ser estabelecido, pelo qual a região passou a dar ênfase

a sua própria identidade econômica, política e cultural.

Há uma crescente percepção de que o número de problemas e de potencialidades da região excede a totalidade daqueles que existem nos sete municípios. No que concerne ao setor público, por exemplo, esta consciência levou à criação, em dezembro de 1990, do Consórcio Intermunicipal da Região do Grande ABC, cujo foco principal residia na coordenação das políticas municipais, uma vez que estas têm consideráveis implicações sobre as decisões tomadas. Inicialmente, os esforços foram concentrados nas questões do armazenamento de resíduos sólidos e do controle hídrico. Um ano depois, um Fórum de Desenvolvimento Econômico Regional foi criado em Santo André, por causa da ativa participação dos líderes públicos, empresariais, sindicais e comunitários. O Fórum, ao lado do Consórcio Intermunicipal, organizou, no segundo semestre de 1992, um seminário regional com o tema “Fórum ABC para o ano 2000”, que levou a um acordo, fixado entre os mais relevantes participantes do processo decisório regional, sobre os elementos essenciais que

seriam necessários para uma estratégia regional de revitalização. O processo de coordenação regional de políticas municipais passou por uma crise profunda de 1993 a 1996 devido ao enfraquecimento do Consórcio. Nesse meio tempo, porém, a comunidade local estava tomando iniciativas complementares relevantes por conta própria, refletindo o despertar da identidade regional e a consciência dos problemas comuns que as prefeituras da região estavam compartilhando. Sem sombra de dúvida, uma das iniciativas mais importantes nesse sentido foi a criação do Fórum da Cidadania, composto por mais de cem Organizações Não-Governamentais (ONGs) da sociedade civil, a exemplo de associações empresariais, sindicatos, movimentos ecológicos, grupos ambientalistas, entre outros. A pauta do Fórum deu ênfase às demandas regionais.

3. A CRIAÇÃO DA CÂMARA REGIONAL DO GRANDE ABC

Em 1996, o Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia, lançou uma proposta concernente a uma câmara para a Região do ABC, com o propósito de discutir questões de desenvolvimento econômico local. A Câmara seria composta por representantes da comunidade local. Em seguida, a proposta foi discutida pelo Fórum da Cidadania do Grande ABC. Com a posse de sete novos prefeitos, em janeiro de 1997, todos eles dedicados às

Tabela 1: Valor Agregado no Estado de São Paulo, na cidade de São Paulo e na Região do Grande ABC Paulista (valores em reais*)

 

1980

Part em v. a. estad.

1993

Par t em v. a. estad.

Estado de São Paulo Cidade de São Paulo Grande ABC Paulista Diadema Santo André São Bernardo do Campo São Caetano do Sul Mauá Ribeirão Pires Rio Grande da Serra

177.673.825.528

100,00%

161.077.074.122

100,00%

65.735.919.984

37,00%

47.829.088.692

29,69%

24.750.125.208

13,93%

18.917.049.688

11,74%

2.501.744.322

1,41%

2.239.479.605

1,39%

6.401. 190.267

3,40%

3.177.451.443

1,97%

9.519.790.567

5,36%

7.697.892.340

4,78%

3.529.187.903

1,99%

2.521.567.823

1,57%

2.749.670.416

1,55%

2.867.750.905

1,78%

372.755.688

0,21%

369.297.161

0,23%

35.786.045

0,02%

43.610.411

0,03%

Fonte: Fundação SEADE (Sistema Estadual de Análise de Dados, Perfil Municipal) * Em 25 de agosto de 1999, 1 US $ = R$ 1,92.

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Tabela 2: Evolução do emprego formal de 1986 a 1996. Confronto entre a Região do ABC e o Estado de São Paulo

 

Região do ABC

Estado de São Paulo

Subsetor IBGE

1986

1996

1986

1996

 

Total

Total

Total

Total

Extração mineral Produtos minerais não metálicos Indústria metalúrgica Indústria mecânica Eletrônicos e Comunicações Transportes e montadoras de veículos Processamento de madeira e mobiliário Indústria gráfica, de papel e editorial Borracha, plásticos, couro etc. Químico, farmacêutico etc. Têxtil Calçados Processamento de alimentos Serviços industriais Construção civil Comércio varejista Comércio atacadista Bancos e seguros Imobiliário Serviços de Transporte e Comunicação Serviços hoteleiros, de alimentação, de reparos, conserto de eletrodomésticos etc. Serviços médicos Educação Administração Pública Agricultura Outros/Ignorado

546

184

23.579

21.143

21.233

9.980

192.706

120.990

78.493

42.847

504.969

313.311

46.073

23.283

379.112

221.749

28.834

13.250

328.347

155.468

155.914

89.406

409.764

262.882

19.172

8.577

186.260

107.255

13.175

12.393

229.03 1

207.648

39.671

17.666

320.849

151.951

69.104

53.928

440.972

361.326

26.831

20.037

684.510

393.072

1.258

294

137.246

70.354

18.579

19.654

467.724

500.742

750

3.352

67.989

118.663

21.298

32.738

643.896

710.771

75.724

83.739

1.208.959

1.385.436

16.692

15.917

343.331

357.266

18.473

10.406

453.895

308.116

48.467

105.088

1.213.89

1.414. 461

40.726

45.148

550.304

608.021

55.424

41.806

1.127.140

940.750

13.889

22.283

156.278

345.633

5.581

17.733

79.459

316.355

32.997

36.291

1.330.356

1.336.514

193

3.983

253.012

634.601

2.381

1.102

65.025

20.088

Total

851.478

751.085

11.798.610

11.384.566

Fontes: Ministério do Trabalho, RAIS, Arquivos administrativos, Base Estatística 1986 e 1996.

questões regionais, foi dado um decisivo passo em direção a uma nova forma de regionalidade. Em 12 de março daquele ano, na presença dos mais importantes líderes regionais e do Governo estadual, a Câmara foi oficialmente criada. Existem três tipos de atores envolvidos na Câmara, advindos da sociedade civil, do setor público e da economia local (sindicatos de trabalhadores e associações empresariais). Na prática, evidentemente, a participação de tais atores não é homogênea. Em relação à participação do nível estadual, por exemplo, pode ser percebido que, além do consciente embora genérico envolvimento do governador, há um papel ativo para

seu secretário de Ciência e Tecnologia. Os governos locais, por meio do envolvimento direto dos prefeitos, complementados por uma ativa participação de um grande número de planejadores nos grupos de trabalho, podem ser considerados a espinha dorsal da Câmara. Em uma região conhecida pelo grau de organização de seus sindicatos de trabalhadores, é um fato significativo que os trabalhadores estão sendo representados pelos mais poderosos sindicatos da região do ABC. Estas representações de trabalhadores estão se tornando conscientes do fato de que uma aproximação mais coordenada com outros participantes é necessária com o fito de manter e aumentar os níveis de emprego. A

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participação empresarial foi diferente no começo, mas tem crescido significativamente após a fase inicial. Por outro lado, há uma confiável e estável participação do comércio local e dos setores industriais menores, representados por suas associações comerciais e pelas delegações da CIESP – Centro de Indústrias do Estado de São Paulo. Além disso, importantes segmentos da economia regional (isto é, montadoras de automóveis, assim como seus fornecedores, e o setor petroquímico) também confirmaram sua participação na Câmara no início de 1998. Finalmente, as instituições da sociedade civil têm participado de uma forma consistente, reforçando seu papel pelo envolvimento ativo no Fórum em questões de cidadania.

4. OS PRIMEIROS ACORDOS REGIONAIS

Desde o primeiro instante, em março de 1997, os chamados grupos de trabalho temáticos foram criados e começaram suas discussões. Esses debates levaram a propostas para a elaboração de acordos regionais, definindo também atores e fontes de recursos. O desafio inicial com o qual a Câmara se deparou foi definir as prioridades dessas propostas e organizá-las a fim de manter suas consistências internas. Por conseguinte, um

seminário de trabalho foi organizado, em julho de 1997,

o qual teve por conseqüência a aprovação de uma

primeira lista composta por 31 propostas para acordos

regionais específicos para o desenvolvimento social, econômico e territorial. Um esforço seletivo foi feito com a intenção de transformar as recomendações mais viáveis nos primeiros nove acordos regionais, firmados em novembro de 1997. Nesse ínterim, a participação de novos parceiros, do setor de montadoras de veículos, de seus fornecedores e da indústria petroquímica, já mencionados, representou um importante passo adiante para a conquista de doze acordos complementares, em agosto de 1998. Os 21 acordos estabelecidos até 1999 estão resumidos na Tabela 3. Deve-se enfatizar que,

dependendo do caráter desses acordos, os participantes

e as fontes de recursos definidos serão diferentes. Os

acordos sobre a semana de trabalho (no comércio regional), por exemplo, foram arquitetados pelos sindicatos e as entidades patronais. Outro exemplo refere-se ao movimento de erradicação do analfabetismo, elaborado pelos prefeitos, pelo Governo do Estado e por organizações comunitárias. Fica além do escopo deste artigo descrever em detalhes o conteúdo dos 21 acordos. Ao invés disso,

Tabela 3: Evolução dos acordos regionais

 

Grupos Temáticos Agência de Desenvolvimento Regional

Novembro/1997

Agosto/1998

Desenvolvimento

 

econômico

Competitividade de cadeias produtivas

   

Comércio local

   

Pólos tecnológicos

Montadoras de automóveis

 

Indústria moveleira

   

Indústria petroquímica

Investimentos no sistema viário

   

Desenvolvimento

Microdrenagem

 

físico

Transporte público regional

 

Sistema viário e trânsito regional

Habitação

Rejeitos líquidos industriais

Turismo regional

   

Revisão da legislação ambiental do Estado

Desenvolvimento

Crianças de rua

 

social

Saúde

 

Campanha contra o analfabetismo

   

Fonte: Conselho da Região do Grande ABC (1999)

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eles serão analisados a partir dos resultados concretos já auferidos. No que diz respeito ao componente de desenvol- vimento econômico, por exemplo, a Agência Regional de Desenvolvimento foi criada em outubro de 1998. Sua diretoria é composta pelo setor privado (associações em- presariais, sindicatos de trabalhadores, SEBRAE; juntos possuem 51% dos membros) e o Consórcio In- termunicipal (com uma participação de 49%). Entre outros, está atualmente desenvolvendo um sistema regional de dados e indicadores sócio-econômicos, uma estratégia de renda e emprego para pequenas e médias empresas e uma estratégia de marketing que tem por objetivo reverter a imagem negativa que a Região ainda acredita possuir. O trabalho de competitividade das prin- cipais cadeias produtivas tem conduzido a resultados concretos para as empresas manufaturadoras de plástico. As empresas de pequeno e médio portes deste setor co- meçaram a adotar práticas mais cooperativas entre si, por meio, por exemplo, da implementação de procedi- mentos centralizados de compra e de exportação. É importante mencionar, ainda, o programa para um fundo de crédito em nível estadual que está em um estágio muito avançado de elaboração e negociação com o Governo do Estado de São Paulo. Este fundo será crucial para facilitar o acesso de pequenas e médias empresas a linhas de créditos, imensamente necessários para sua modernização tecnológica e gerencial. Finalmente, um ambicioso plano para treinar cerca de doze mil trabalhadores a partir do ano 2000 já foi iniciado no pólo petroquímico, beneficiando principalmente trabalhadores recém-demitidos pelo setor de plásticos.

No que se refere aos acordos para o desenvol- vimento físico e territorial, progresso concreto tem sido feito em pouco tempo. Primeiramente, concluíram-se as melhorias físicas nas vias expressas “Anchieta” e “Avenida dos Estados”, estradas que ligam a Região do ABC à cidade de São Paulo. Foram aplicados recursos dos três municípios afetados e do Governo do Estado. Vários investimentos complementares ao longo do sistema rodoviário “Anchieta” foram concluídos em 1999, envolvendo o município de São Bernardo e o Governo do Estado. Em segundo lugar, enchentes têm causado progressivamente mais danos ao sistema viário da região metropolitana. Como parte de uma estratégia de prevenção às enchentes, cinco reservatórios de con- tenção estão sendo implementados. A construção de reservatórios adicionais foi iniciada em 1999. Em terceiro

lugar, a Câmara está ativamente envolvida nas discussões para criar condições, por meio da revisão da legislação ambiental do Estado, para a implementação de atividades industriais não poluentes compatíveis com a preservação das áreas de mananciais. Os participantes destas discussões são o Estado, os poderes locais, indústrias e sociedade civil. O envolvimento da Câmara não pode ser superestimado considerando-se o fato de que diversas cidades da Região do ABC têm mais da metade de suas superfícies em zonas sensíveis do ponto de vista ambiental, as quais se encontram sob uma rígida legislação estadual restritiva a quase toda atividade econômica. Ao memo tempo, a Câmara, por meio de um grupo de trabalho específico, está elaborando um plano regional voltado à exploração do potencial para o eco-turismo nas vastas áreas verdes próximas e ao redor dos mananciais.

CONCLUSÃO

A primeira avaliação das atividades da Câmara demonstra que há, ainda, muito trabalho pela frente. Alguns dos acordos inerentes a temas físicos ou econômicos precisam ser aperfeiçoados, e outros, particularmente os que se referem a moradia e transporte, estão esperando implementação efetiva. Portanto, como uma decisão consciente de melhorar sistematicamente as questões acima descritas, quase que totalmente como um mecanismo informal de planejamento, no começo de 1999, a Câmara deu início aos trabalhos para um processo formal de planejamento estratégico que está sendo apoiado por um subsídio do BID (para a Agência de Desenvolvimento Regional, sua parte legalmente estabelecida). Em conseqüência, em julho de 1999, o documento “Cenário desejado do futuro”, que inclui seus projetos prioritários, foi aprovado pelo Comitê Executivo da Câmara Regional. Este é o primeiro passo para um plano estratégico inteligível aprovado no final daquele ano, abarcando ações prioritárias e investimentos, atores responsáveis por sua implementação e pelos recursos financeiros. De acordo com Daniel (1997), a Câmara pode ser considerada como um novo modelo de governance em nível regional. Sua primeira dimensão é seu foco na democracia participativa. De fato, a Câmara do Grande ABC representa a fundação de uma ampla esfera democrática, ao mesmo tempo pública e “não estatal”. Este fato facilita um processo de planejamento que

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contempla participantes com interesses conflitantes, onde, de maneira transparente, negociações de interesses específicos são transformadas em decisões consensuais. Em segundo lugar, a Câmara possui mecanismos sutis

para a coordenação horizontal e vertical. A proposta de trabalhar com vistas a acordos regionais está sintonizada com a tendência mundial de enfatizar a importância da negociação entre os parceiros, em lugar de mecanismos decisórios hierarquizados. A presença do Governo do Estado significa que a coordenação não ocorre apenas horizontalmente. Ao contrário, a coordenação da Câmara

é mais complexa, é horizontal e vertical. Em terceiro

lugar, e em direta relação com o prévio argumento sobre

a coordenação, a estrutura institucional da Câmara é

muito flexível – em contraste com a rigidez institucional

que caracteriza o modelo formal de planejamento

metropolitano de vários países, inclusive o do Brasil. O modelo de planejamento metropolitano do Brasil, engendrado na década de 60, durante a vigência do regime militar, prova-se inviável. Assim, considerando

o vácuo institucional vigente e o cenário de rápida

transformações, esta flexibilidade institucional é uma importante vantagem da Câmara. Deve-se enfatizar, contudo, que a Câmara não pode ser vista como uma panacéia para todos os problemas de desenvolvimento urbano e regional. Mais particularmente, uma de suas principais fraquezas, sua inabilidade de gerar sistematicamente seus próprios recursos financeiros, relaciona-se à falta de definição na legislação a respeito dessas novas formas de governabilidade regional. Ironicamente, porém, a maior força da Câmara, sua flexibilidade, está intrinsecamente ligada a sua fraqueza, a falta de fluxo contínuo de recursos para a Região.

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* Tradução do original em inglês: Prof. Dr. Roberto Elísio dos Santos. ** Assessor especial de Relações Internacionais e de Captação de Recursos da Prefeitura de Santo André, doutor em Economia Urbana pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo e professor do PMA do CEAPOG-IMES.

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COMUNICAÇÃO NAS ORGANIZAÇÕES VOLTADAS PARA A QUALIDADE

Prof. DAVID GARCIA PENOF*

RESUMO: O texto tem por objetivo evidenciar o forte relacionamento existente entre a comunicação e a qualidade nas organizações. A comunicação exerce um grande e expressivo poder, legitimando outros poderes existentes, como o poder coercitivo, de recompensa e técnico. A comunicação deve ser praticada como um processo que ocorre entre pessoas, muito além da idéia simplória de emissor, mensagem e receptor; ela é também uma ferramenta de gestão empresarial.

ABSTRACT: This article has as objective to demonstrate the strong relationship between communication and quality in organizations. Communication has a great and expressive power, which puts in evidence other existing powers, like coercitive, rewarding and technical ones. Communication must be practiced like a process that occurs among people, beyond the simple idea of emissor, message and receptor; and it is a management tool.

PALAVRAS-CHAVE: comunicação; qualidade; poder; gestão empresarial.

KEY WORDS: communication; quality; power; management.

1. INTRODUÇÃO

O extraordinário progresso experimentado pelas técnicas de comunicação nas últimas décadas representa para a Humanidade uma conquista e um desafio. Conquista, na medida em que propicia possibilidades de difusão de conhecimentos e de informações numa escala antes inimaginável. Desafio, na medida em que o avanço tecnológico impõe uma séria revisão e reestruturação dos pressupostos teóricos de tudo o que se entende por comunicação. Neste artigo, procuro fazer uso dos resultados obtidos em diversas experiências pelas quais passei como

consultor em Implantação de Sistemas da Qualidade.

O objetivo deste trabalho é permitir um delineamento

de como os sistemas comunicacionais interferem no gerenciamento da qualidade nas organizações.

2. A COMUNICAÇÃO COMO PODER NAS ORGANIZAÇÕES

Podemos caracterizar uma empresa, como sendo uma unidade sócio-econômica voltada para a produção

de um determinado produto – bem ou serviço. A empresa reúne os recursos econômicos capital e trabalho,

e ainda normas e procedimentos de natureza técnica que

permitem a operacionalização dos demais. Uma empresa não apenas objetiva gerar bens econômicos, para uma relação de troca entre produtor e consumidor, mas procura também desempenhar papel

significativo no tecido social, missão que deve cumprir qualquer que seja o contexto político. Se entendermos por organização o ordenamento, a disposição das partes que compõem um todo, ou, no dizer de TALCOTT PARSONS (1974), a unidade social direcionada à consecução de suas metas específicas, vamos constatar na extensão do conceito,

os fundamentos dos princípios sistêmicos. Na visão de WALTER BUCKLEY (1971), o sistema é uma entidade

concreta ou abstrata, que reúne componentes que se relacionam mutuamente. Vale ressaltar uma característica fundamental do sistema que permite inferir que o todo, pela Teoria de Sistemas, é maior que a soma de suas partes, evidenciando-se o caráter organizacional que constitui o elemento comprobatório do conceito. Segundo REGO (1986), a comunicação é um sistema aberto, semelhante à empresa; e como tal, a comunicação é organizada pelos elementos – fonte, codificador, canal, mensagem, decodificador, receptor

e ingredientes que revitalizam o processo.

É importante identificar nos elementos que formam o processo comunicacional os condicionantes sociológicos e antropológicos que envolvem as fontes,

os codificadores, os decodificadores e os receptores. São estes fatores que estão à disposição das organizações

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para o ordenamento e cumprimento de metas e objetivos. De nada vale uma palestra sobre a situação econômico-financeira da empresa, aos operadores de máquinas de uma área de usinagem de blocos de motor se os mesmos não tiverem como relacionar o tema com sua condição social na estrutura , e ainda não perceberem onde se inserem no contexto da palestra. Muitas vezes

tais palestras são insinuantes de desequilíbrio financeiro

e buscam minimizar insatisfações e prováveis alterações

de grupos nas organizações. Tais atos comunicacionais são desprovidos de corpo e seus resultados, altamente questionáveis. Podemos afirmar que tal procedimento não se trata de um processo comunicacional. Para atingir seus objetivos, uma organização deve perseguir um equilíbrio entre as partes que a formam. Tal equilíbrio é resultante da disposição ordenada entre as partes. Essa disposição é obtida graças ao processo comunicacional. Pode-se afirmar, em conseqüência, que, ao se organizar uma empresa, como bem lembra LEE THAYER (1979), na verdade está se organizando o processo de comunicação entre suas partes. A comunicação exerce um grande poder, conforme lembra DEUTSCH (1979), que mostra o poder como possibilidade de uma pessoa ou uma entidade gerar influência sobre outrem. A comunicação exerce, em sua plenitude, um poder que Rego coloca como sendo um poder expressivo, legitimando outros poderes existentes na organização, como o poder coercitivo, de recompensa e técnico, entre outros. Um exemplo clássico de poder de recompensa

é o fato de a empresa constantemente expor aos seus colaboradores suas metas e objetivos de produção e faturamento e, alavancado por esses dois, um programa de remuneração variável. Quanto melhor a comunicação de tais metas e objetivos, maior será o empenho por parte dos colaboradores em atingir tais resultados. Em

muitos outros casos, o não alcance dos objetivos provocará a demissão de funcionários diversos, envolvendo o poder coercitivo e a respectiva comunicação para tal.

Atualmente, as empresas perseguem exaustivamente metas, tais como: compromisso em torno dos objetivos da empresa, perdas zero, flexibilidade e capacidade de reação rápida e positiva às mudanças, envolvimento efetivo de pessoas com as inovações e melhorias dos sistemas gerenciais e produtividade dos trabalhos em equipe. A comunicação enquadra-se na

estrutura dos sistemas de gestão, propiciando um conjunto de procedimentos fundamentais: o desenvolvimento das pessoas para uma conduta comunicacional voltada para a ação e a construção de sistemas de comunicação. Segundo AMORIM (1999), a proposta de desenvolvimento pessoal consiste em sensibilizar as

pessoas para um certo grupo de conceitos básicos e de distinções lingüísticas , apresentando em seguida, a partir da estrutura dos atos ilocucionários, as ferramentas para

a comunicação eficaz. O sistema de comunicação, por

sua vez, deve ser elaborado de modo a fazer fluir o conjunto dos atos de fala da instituição. Observamos, ainda, em muitas empresas, formas de gerenciamento tradicionais inspiradas no modelo Fordista, pelo qual a comunicação submete-se ao marketing, referente à dimensão externa da empresa e ao endomarketing quando interna (em que pesem as

críticas quanto ao uso da palavra) ou, em última instância,

a comunicação submete-se à atuação do profissional de

Relações Públicas. Algumas empresas têm ainda suas próprias publicações, porém não passam de ações fragmentadas e evidentemente mostram o desperdício do potencial da comunicação efetiva. Quando uma empresa necessita implementar projetos para melhoria da qualidade organizacional, por exemplo o Sistema da Qualidade NBR ISO 9000, costuma lançar mão de campanhas pontuais. Tais campanhas pontuais têm no seu conteúdo, por exemplo,

a elaboração de slogan, bottons, palestras isoladas etc. Em muitas dessas empresas fordistas, os perfis autoritários de seus gestores, geralmente avessos à transparência e à participação, buscam por esconder e manipular informações, procurando, em última instância, que as pessoas saibam o menos possível. Desnecessário dizer que além da provável ineficácia, as estratégias centralizadoras desperdiçam energia e desrespeitam as pessoas. Observa-se tal procedimento nos treinamentos realizados para que os funcionários de determinada organização gravem em suas mentes a política da qualidade como um fato isolado, apenas para atender ao provável questionamento de um auditor externo. O funcionário não sabe sequer o porquê daquele treinamento.

O fenômeno da comunicação deve ser algo que ocorre entre as pessoas, muito além da idéia simplória de emissor, mensagem, receptor. A comunicação tem de ser usada como ferramenta de gestão, melhorando a

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relação entre as pessoas e a relação entre pessoas e instituição. A unidade básica da comunicação é a linguagem,

importante é informar o sistema das mudanças no

ambiente, informar que a situação não está se repetindo, estando inviabilizadas as velhas estratégias, vitoriosas no

e

à

qual adiciona-se a noção de compromisso e de escutar,

passado, mas obsoletas e inadequadas no presente. A

de

inspiração heideggeriana. A linguagem pode estar

dificuldade reside em que a percepção da informação e,

adequada para obter a ação ou, ao contrário, para dificultá-la. Um grupo de distinções lingüísticas é a base para a organização posterior das ferramentas para a

sobretudo, seu aprendizado não é um processo isento de resistências tanto no que se refere ao indivíduo, quanto à organização. As instituições empenhadas em mudanças

comunicação. As distinções são: juízo; aprender; escutar

organizacionais ou na adoção de quaisquer novas

e

conversar.

técnicas se deparam, em maior ou menor grau, com a

O juízo expressa a subjetividade, os valores de uma pessoa. Frases do tipo ‘ele é competente’, ou ‘ele é imaturo’ ilustram um juízo, não sendo possível

resistência das pessoas ao novo. Parte dessa resistência decorre da experiência do aprendizado enquanto perda,

determinar se são verdadeiras ou falsas, certas ou erradas.

 

não enquanto adição de um outro ‘saber’. Um exemplo é a necessidade de se documentar

A

primeira lição para o trabalho em grupo é que,

o

procedimento operacional de uma máquina qualquer.

literalmente, não se perde tempo discutindo a veracidade

O

operador não aceita a possibilidade de que existe um

de

um juízo. A formação de um juízo origina-se em um

modo melhor de operação além daquele que ele executa

ou

mais fatos anteriores; portanto, apresentar os fatos

há 10 anos. Nesse caso, a dificuldade de implementação

que escuta os fundamentos

nos quais se originou o juízo.

As auditorias para certificação dos Sistemas da

Qualidade anteriormente descritos trazem consigo alguns juízos elaborados pelos auditores externos e que normalmente, se inseridos no contexto da auditoria e apoiados em normas e procedimentos documentados (conforme exigido pelos sistemas), são aceitos pelos auditados sem grandes questionamentos. Porém, apenas um juízo externalizado sem base e/ou fundamentação teórica (suporte documentado) pode provocar uma séria discussão e até mesmo o abandono da auditoria, que

e contexto é oferecer àquele

em muitos casos tem valor expressivo. O juízo é um veredicto, fecha ou abre possibilidades de ação comunicativa.

O fenômeno da aprendizagem respeita as

particularidades de organizações complexas ou criativas. Pode ocorrer por meio da tentativa e erro, por ganhos e

perdas, dado o ambiente e a necessidade de adaptação. Este é o processo biológico imposto aos seres vivos, lento e incômodo. Uma organização precisa aprender

muito mais rapidamente, sendo instada a dar respostas céleres. Essa dinâmica é possível através da avaliação de seu comportamento na cadeia, evitando alternativas malsucedidas e repetindo aquelas bem-sucedidas no passado (BEER,1969).Tal mecanismo de aprendizado,

se,

de um lado, reduz o tempo de respostas às demandas

da

adaptação, por outro, torna o sistema relativamente

resistente às mudanças, alimentando a tendência à perpetuar procedimentos. Entende-se, portanto, que o

do procedimento é imensa. Por outro lado, o fato de chamar o operador a participar da elaboração de um novo procedimento para melhoria da sua condição de trabalho poderá motivá-lo a aprender mais e até mesmo reduzir sua resistência à mudança. Objetivando apreender o pano de fundo presente na comunicação e na articulação de compromissos, define-se primeiramente o estado de ânimo, apresentado como o modo particular de cada um situar-se no mundo, algo que o indivíduo é, criado a partir da própria presença. Seguindo a tradição de Heidegger, o estado de ânimo é um fenômeno fundamentalmente unido ao entendimento, um certo sintonizar-se com nossa situação, o que nos abre certas possibilidades e, simultaneamente, nos fecha outras (Heidegger, apud FLORES, 1989).

À estrutura unificada de entendimento e estado

de ânimo dá-se o nome de escutar (FLORES,1989). Desenvolver a habilidade de escutar é empenhar-se em aguçar a percepção do contexto e do mundo particular do outro. Quanto às pessoas, a escuta faz-se a partir de todas as evidências possíveis, tais como tom de voz, expressão corporal, etc.

À conveniência dos objetivos voltados à gestão

organizacional, propõe-se conteúdos diferentes às expressões convencer e conversar. Convencer destaca o

termo vencer – a aproximação visando ao convencimento é um gesto de imposição. No conversar,

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destaca-se o termo versar (aprender) – a aproximação visando conversar é um gesto de apresentar os meus juízos ao outro, dispondo-me a abrigar também os seus

mundo. juízos, mantendo-me interessado e aberto ao seu

Resumidamente, as reflexões levadas a efeito pela ontologia da linguagem e pela cibernética ensinam a perceber que as instituições são também fenômenos

lingüísticos, de modo que a comunicação deveria fazer parte dos procedimentos organizacionais fundamentais,

o que permitiria avançar na descentralização

administrativa sem perda de coerência, com maior eficácia na realização das tarefas e na construção de espaços profissionais pautados também pelo respeito às pessoas e suas condutas individuais. A comunicação organizacional deve ser conduzida por um centro de coordenação responsável por pesquisas, estratégias., táticas, políticas, normas, métodos, processos, canais, fluxos, níveis, programas, planos, projetos, tudo isso apoiado por técnicas que denotem uma cultura e uma identidade organizacional. Rego finaliza seu texto enfatizando a idéia de um mundo que se renova e a de um mundo em relações, onde o sistema empresa não pode ser dissociado do conjunto de variáveis e fatores que integram a célula social.

O que se deseja, enfim, é a aproximação entre

os valores reais do trinômio sociedade – empresa –

comunicação. De acordo com GUIMARÃES (1995), “em artigo intitulado ‘A hora e a vez dos empresários do

saber’, escrito para Ícaro – Revista de Bordo da Varig, o sociólogo e consultor educacional em São Paulo, Alberto

de Oliveira, descreve brilhantemente as virtudes da

empresa enquanto uma comunidade de aprendizagem.

Ele diz: ‘

a

empresa é um organismo vivo, em mutação:

uma unidade humana dependente de interações. Mais que desenvolver o espírito corporativo, o que se pretende é que cada um perceba com clareza no contexto da organização, e perceba a organização no contexto da sociedade.’”

BIBLIOGRAFIA

AMORIM, Maria Cristina Sanches. Comunicação planejada, recurso fundamental para a eficácia da gestão organizacional. Caderno de pesquisas em administração. São Paulo, v.1, n.9, 2. trimestre/99.

BUCKLEY, Walter. A sociologia e a moderna teoria dos sistemas. São Paulo: Cultrix, 1971.

DEUTSCH, Karl W. Política e governo. Trad. Maria José da Costa e Félix Matoso Miranda Mendes. Brasília:

Universidade de Brasília, 1979.

GUIMARÃES, Jorge Lessa. Qualidade competitiva no Brasil. Salvador: Casa da Qualidade,1995.

PARSONS, Talcott. O sistema das sociedades modernas. São Paulo: Pioneira, 1974.

REGO, Francisco Gaudêncio Torquato do. Comunicação empresarial, comunicação institucional: conceitos, estratégias, sistemas, estrutura, planejamento e técnicas. São Paulo:

Summus, 1986.

THAYER, Lee. Comunicação: fundamentos e processos; na organização, na administração, nas relações interpessoais. São Paulo: Atlas, 1979.

* Professor do IMES e aluno do PMA do CEAPOG-IMES.

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Mercado”Alves/“LivreFabianoFotos:

II SEMINÁRIO INTERNO

O Laboratório de Gestão da Sociedade Regional do IMES e a disciplina “Políticas Sociais para a Administração da Cidade”, com o objetivo de refletir sobre as políticas públicas desenvolvidas e implementadas na região do Grande ABC, promoveram o II Seminário Interno nos dias 20 e 27 de outubro e 10 de novembro de 1999, quando foram discutidos, respectivamente, os temas “Políticas de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC”, “Políticas de Inclusão Social e Cidadania” e “Políticas Públicas de Cultura”, com ênfase ao processo de regionalização do ABC.

o debate sobre “Políticas de Desenvolvimento

Econômico do Grande ABC promoveu o encontro entre três prefeituras, com a participação de Ayrton Cardoso (da Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Santo André), Evaristo Peroni (diretor do Fomento do Comércio e Serviços de São Bernado do Campo) e Jerson Ourives (secretário do Desenvolvimento Econômico de São Caetano do Sul), além de Jorge Hereda (do Consórcio Intermunicipal) e José L. Pechtol (do Fórum da Cidadania).

O debate sobre “Políticas Públicas de Inclusão Social e Cidadania”, realizado em 27 de outubro de 1999, contou com a participação de Marlene Zola (da Secretaria do Desenvolvimento Social e Cidadania de São Bernardo do Campo), Gil Gonçalves (da Secretaria da Criança, Família e Bem Estar Social de Mauá), Cormarie G. Perez (assistente social da Secretaria de Assuntos Jurídicos e Cidadania de Ribeirão Pires), Olivier Negri Filho (vereador de Mauá), Marcos Gonçalves (da AVAPE) e Wagner Barbato (do Procon de São Caetano do Sul). Seu objetivo foi o de levantar as questões da inclusão social e cidadania (condição da criança e do adolescente em situação de risco, desemprego, violência e a implantação da “Loas”), buscando verificar o que foi realizado até o presente momento e qual a visão dos convidados em relação às abordagens destes temas dentro de um modelo de Gestão Regional.

Participaram do debate sobre “Políticas Públicas de Cultura” Altair José Moreira (da Secretaria de Cultura de Santo André), Martha de Bethânia (da Secretaria de Cultura de Diadema), Júlio Mendonça (da Secretaria de Cultura de São Bernardo do Campo) e José Aparecido Barbosa (da Secretaria de Cul-tura de Mauá). Todos os municípios caminham para a implementação de políticas que visam à parceria entre comunidade e município, procurando dessa maneira atender de forma mais completa a demanda da população e viabilizando seu desenvolvimento sociocultural.

Realizado

em 20 de outubro de 1999,

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PLANEJAMENTO ECONÔMICO REGIONAL

CLAUDIA POLO DENADAI GONÇALVES/ CARLOS ROGÉRIO PRADO/ FRANCISCO F. DA SILVA*

1.

INTRODUÇÃO

O papel do governo local varia em cada época e

circunstância, segundo os atores que participam da definição da cena política e as funções exercidas pelo Estado no qual aquele governo local está inscrito. Tocqueville é um dos primeiros a defender o fortalecimento do governo local como modo de enfrentamento do poder absolutista e desenvolvimento da democracia. Também em Montesquieu encontra-se

a defesa da divisão de poderes e da fragmentação do

Estado em vários níveis, como modo de assegurar o controle democrático do Estado. Durante o período do fordismo os governos locais tiveram papéis bastante definidos. Nesse período os Estados Nacionais têm um papel claro em relação às empresas monopolistas e intervêm no mercado através de renda e preços. Os principais atores políticos – sindicatos, partidos políticos – estão organizados nacionalmente. As atividades ligadas às guerras também colaboraram para uma maior centralização e fortalecimento dos Estados Nacionais. O papel do governo local dentro do Estado de Bem- Estar é o de prestar serviços tais como educação,

habitação, transportes e outros serviços sociais. Em outras palavras, produzir os serviços de consumo coletivo. São essas as condições para manter a demanda

e a produção em massa.

A crise do fordismo provoca o aumento do

desemprego, das ocupações temporárias, a fragmentação da classe trabalhadora e o conseqüente enfraquecimento dos sindicatos. As negociações deixam de ser nacionais para se darem no âmbito das empresas. O mercado de trabalho passa a ter um caráter mais acentuadamente local, flexibilizando-se.

O fortalecimento da localidade como centro

impulsionador de políticas tem gerado, tanto nos Estados Unidos, como na Europa Ocidental, estratégias de desenvolvimento econômico local. A busca de eficiência não é

politicamente neutra. Implica, na realidade, rearticulação de interesses e realocação de recursos. Pareto havia desenvolvido um conceito mais amplo de eficiência, onde ninguém melhora às custas da piora de alguém. Tiebout usou o conceito de Pareto para desenvolver a definição do que seria um governo local eficiente: todos recebem os serviços para os quais há demanda econômica e ninguém recebe serviços não- desejados. Ao aproximar-se desse ideal, os governos locais alcançam uma relação muito favorável entre nível de impostos cobrados e volume e qualidade de serviços prestados; assim, a localidade se torna atraente. Na atual fase da economia mundial, é precisamente a combinação da dispersão global das atividades econômicas e da integração global, mediante uma concentração contínua do controle econômico e da propriedade, que tem contribuído para o papel estratégico desempenhado por certas grandes cidades,

denominadas cidades globais [global cities] (SASSEN, 1998). Algumas têm sido centros do comércio mundial e da atividade bancária durante séculos, mas, além dessas funções de longa duração, as cidades globais da atualidade são:

1. pontos de comando na organização da economia mundial;

2. lugares e mercados fundamentais para as indústrias de destaque do atual período, isto é, as finanças e os serviços especializados destinados às empresas;

3. lugares de produção fundamentais para essas indústrias, incluindo a produção de inovações.

Várias cidades também preenchem funções equivalentes em escalas geográficas menores, no que se refere a regiões transnacionais e subnacionais. O rápido crescimento da indústria financeira e de serviços altamente especializados gera não apenas empregos técnicos e administrativos de alto nível, como também empregos que não exigem qualificação e que apresentam baixa remuneração, além de novas

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desigualdades econômicas nas cidades, sobretudo nas cidades globais e em suas contrapartidas regionais. (SASSEN, 1998).

As cidades globais são os lugares-chaves para os serviços avançados e para as telecomunicações necessárias à implantação e ao gerenciamento das operações econômicas globais. Segundo SASSEN (1998, p.47) “o surgimento de um novo tipo de sistema urbano opera em níveis regionais, globais e transnacionais. Trata- se de um sistema no qual as cidades são pontos centrais fundamentais para a coordenação internacional e para a prestação de serviços das empresas, mercados e até mesmo de economias inteiras que, cada vez mais, são transnacionais. Essas cidades despontam como lugares estratégicos na economia global. A maioria delas, porém, incluindo a maior parte das grandes cidades, não faz parte desses novos sistemas urbanos transnacionais. Os sistemas urbanos são co-extensivos com os Estados- Nação”.

Talvez estejamos presenciando um processo de recentralização em certas cidades que, de certo modo, têm sido periféricas. Algumas das cidades menores da Europa, América e Ásia provavelmente se beneficiarão do mercado à medida que puderem expandir suas atividades e funcionarem como pontos de conexão com regiões mais amplas. Enquanto a política interna continua a reger-se pelas questões locais e paroquiais, o mundo – queiramos

ou não – está entrando na era planetária, o que não implica, pelo menos a curto prazo, a redução das tensões

e conflitos e um grau mais elevado de governabilidade;

não se trata, apenas, de interesses econômicos. Estão em jogo os símbolos e valores que conferem significado

à existência humana, individual e coletivamente. Na

impossibilidade de retornar ao passado ou mesmo de manter o status quo, cumpre-nos desenvolver e postular

um paradigma alternativo, com parâmetros diferentes do Estado-Nação tradicional. À medida que o sistema econômico se torna globalizante, tendem a surgir

pressões sobre as identidades culturais, cuja diversidade

e riqueza constituem um dos pilares de uma sociedade

democrática e sustentável. “Governar tornou-se a arte de relações públicas, de marketing e de administração de recursos financeiros, muito distante da preocupação de gerar uma cultura política democrática em sociedades crescentemente heterogêneas, complexas e dinâmicas e onde todos estão em busca de seus rumos e destinos.”

2. DESCRIÇÃO

O seminário sobre Desenvolvimento Econômico Regional, realizado no dia 20 de outubro de 1999, buscou chamar a atenção dos atores então presentes para a relevância dos aspectos político- institucionais do Grande ABC, que, num âmbito geral, encontram-se ainda negligenciados, e portanto deixando de facilitar o desenvolvimento regional. Nesse sentido descrevermos a seguir as estratégias adotadas pelos atores individualmente, que participaram efetivamente deste seminário, procurando identificar as políticas regionais relevantes para o desenvolvimento econômico da Região do Grande ABC.

São Caetano do Sul – O representante do município de São Caetano do Sul, Jerson Ourives, mostrou a preocupação em elaborar um plano de trabalho que se coloque regionalmente por meio das ações do Consórcio, da Câmara Regional do ABC e a Agência de Desenvolvimento Econômico. O trabalho desenvolvido no município prioriza a micro e a pequena empresa, buscandosubstituir a grande empresa pelas menores. Isto se deve às mudanças ocorridas nos 10 últimos anos na região do Grande ABC, com o esvaziamento de grandes parques industriais, e São Caetano está inserido neste contexto. Sobre esse plano de trabalho, o município partiu para a formação de parcerias e de campos de trabalhos. Como parcerias foram procurados o SEBRAE e a ACISCS, e compuseram um plano de trabalho, que já fazia parte das idéias do SEBRAE, a EPC – Empresa de Participação Comunitária. O objetivo deste trabalho é captar pequenas economias, gerando mais empregos e novos empreendedores para o município. Segundo Jerson Ourives, a função do órgão público é justamente criar novas ações e novas oportunidades a esses empreendedores que estavam à margem do processo.

Santo André – O representante do município de Santo André, Ayrton Cardoso, chamou a atenção às raízes culturais da região, que andam esquecidas e precisam ser resgatadas; ao mesmo tempo, é preciso repensar algumas posições mais regionais e menos individualizadas. Para Ayrton, o planejamento é um trabalho de pesquisar, analisar, divulgar informações para depois se tomar decisões seguras na execução de ações futuras. A Região está passando por grandes mudanças cujo naipe é a prestação de serviços, principalmente industriais.

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Foi levantada a questão do zoneamento urbano, pois é preciso se preocupar com o uso certo do solo e das águas, evitando mais poluição. Portanto, serviços industriais devem ser fixados em pólos industriais, e comerciais, em zonas comerciais. Com base nesta questão, deve-se pensar numa melhor maneira de se executar a cadeia produtiva da cidade. É preciso identificar as falhas de mercado existentes para então gerar incentivos e, assim, supri-las, com isso gerando novos empregos, novos postos de trabalhos e novas comunidades sem falhas de planejamento. O município possui um programa de formação de novos empreendedores, as micro-empresas abertas com recursos originados de uma demissão. Segundo índices do próprio SEBRAE, as micro-empresas apresentam dificuldades econômicas no prazo de apenas 2 anos, devido principalmente à falta de preparo desses novos empreendedores. Nesse sentido, o município, em conjunto com o SEBRAE e o BID, elaborou um programa de treinamento e desenvolvimento desses empresários, para que suas empresas tenham uma sobrevida maior. O município apresenta também programas de formação de cooperativismo entre os micro e pequenos empresários para identificar novos seguimentos de mercado, mercados onde tais empresas não conseguem atuar sozinhas por falta de demanda na produção, o que faz com que elas atuem juntas na forma de associação. Essa foi a forma encontrada pelo município para que as empresas obtivessem sucesso na busca de novos mercados. Criou-se um conselho de desenvolvimento econômico, com a participação de um conselho partidário, tendo na sua composição 18 integrantes, sendo nove da sociedade civil para a discussão do fortalecimento do desempenho em geral das empresas e programas ligados ao turismo. Pensa-se no turismo voltado para a vocação da região, o turismo cultural, realização de eventos e o turismo empresarial. Em complemento a esses programas, Santo André está desenvolvendo um programa chamado Santo André Cidade Futuro, que visa a discutir o encaminhamento de projetos relativos a melhora no urbanismo, no caso o eixo Tamanduatei e a Cidade Pirelli.

São Bernardo do Campo – Evaristo Peroni, representante do município de São Bernardo do Campo, abriu seu discurso conceituando desenvolvimento econômico. Segundo Evaristo, desenvolvimento

econômico nada mais é do que a plena utilização dos recursos para produzir o bem estar da humanidade, da população. Esse conceito vem mudando com o passar do tempo; antigamente, o que provocava o desenvolvimento econômico eram basicamente três fatores: a terra, o capital e o trabalho, mais tarde se inserindo na terra os recursos naturais e mais recentemente, com a revolução industrial, a tecnologia. Na década de 80, porém, identificou-se a existência de capitais tangíveis e intangíveis, sendo que, somados, geram o novo conceito de desenvolvimento econômico. Os capitais tangíveis são a terra, capital, trabalho e tecnologia e os capitais intangíveis são os recursos que podem ser materiais, humanos, psicossociais e investimentos na sociedade. As molas mestras para essa nova visão, para esse novo conceito de desenvolvimento econômico são o conhecimento científico, o consenso social e o poder político coletivo. É preciso que haja na sociedade um consenso social e maior participação. Hoje, o conceito de desenvolvimento é sinergético, diferentemente do conceito que provinha da utilização dos benefícios gerados pelos recursos. O importante, atualmente, é o índice de desenvolvimento humano, não interessando, por exemplo, quantas escolas existem, mas se toda a população tem acesso a elas. Em relação ao município de São Bernardo do Campo, dentro da Câmara foi criado um grupo para recuperar o setor moveleiro não só da cidade como também da região. Este grupo conseguiu importantes adesões, como a do SEBRAE, de prefeituras interessadas no projeto e do sindicato moveleiro de São Bernardo do Campo. Foram traçadas algumas políticas, que vão desde a planta da fábrica até o empresário. Outro fator importante no setor moveleiro é a reciclagem de resíduo sólido; quanto a isso, foi feito um acordo com a FEI – SBC, segundo o qual alunos orientados pelos professores desenvolveram novas técnicas para tornar esse material economicamente viável; nesse sentido, estão procurando parceiros para construir uma mini-usina para processar esse material. Outra política que nasceu de reuniões na Câmara foi a de homogeneização das alíquotas de ISS, a qual tem atraído empresas de serviços para a região e para os municípios, não pela guerra fiscal, mas sim de acordo com a vocação de cada uma.

Como última política, foi mencionada a rede de merco-cidades, que é a reunião de cidades do Mercosul

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com 500 mil habitantes ou até menos, mas que se destacam de alguma forma em sua região. Essa rede de merco-cidades é a troca de experiências e acordos entre essas cidades.

Fórum da Cidadania – O representante do Fórum da Cidadania, José L. Pechtool, destacou a preocupação do Fórum com as políticas voltadas ao desenvolvimento econômico regional. O Fórum não as

executa, mas as formula, estuda, analisa e encaminha para as prefeituras, para a Câmara Regional, para quem de direito possa executar essas políticas.

A preocupação inicial era a geração de emprego

e de renda, pois achava-se que, dentro desta questão, poderia se dar a cidadania. Outra preocupação do Fórum

no momento é: será que realmente haverá um desenvolvimento se nós trouxermos mais grandes supermercados para a região? Como ficam os pequenos comerciantes? O grande desafio é trazer grandes mercados sem matar os já existentes. Outra visão dentro do grupo de

desenvolvimento econômico do Fórum é a noção de sustentabilidade que está por trás desse desenvolvimento econômico, que implica numa necessária interrelação entre qualidade de vida, equilíbrio ambiental e essa necessidade de desenvolvimento.

O Fórum também se preocupa com a auto-

gestão, no sentido de recuperação de empresas antes que elas quebrem, tornando os empregados também donos participantes nos rumos da empresa. Como exemplo de sucesso, Auto Forja e Cobertores Paraíba.

Consórcio – O representante do Consórcio, Jorge Fontes Hereda, mostrou a preocupação do órgâo em como chegar à sociedade mais fortemente. O planejamento estratégico na região não está relacionado com planejamento dos planos plurianuais, socialismo real e similares. Seria até impossível fazer isso, pois não existe o controle dos meios de produção. Com a globalização, na qual os governos do mundo estão envolvidos, até a ONU se descaracterizou para descobrir soluções locais. É neste momento que aparece no mundo o fato dos municípios começam a assumir novos tarefas, preocupando-se com o desenvolvimento econômico, desemprego e outros fatores que se concentravam em outros níveis de governo. Para Hereda, é preciso impor um mínimo de regras para haja um processo de globalização que não seja tão desordenado.

A região do grande ABC há algum tempo vem perdendo a interlocução com o Estado que mantinha nas décadas de 60 e 70; assim, os municípios tiveram que assumir certas atribuições. Foi através deste consenso que o Consórcio e a Câmara foram criados, para dar maior autonomia à Região perante o Estado e maior interlocução junto a todos os atores e agentes que buscam minorar a crise ou até reverter seus efeitos. O que está se fazendo é buscar um consenso entre governo, entidades representativas e a sociedade. Desde 1997/1998, estão sendo firmados acordos

e protocolos de intenções, totalizando 21 acordos de planejamento estratégico. Elaborou-se uma avaliação que proporcionou uma visão mais completa da Região, chegando a um cenário ideal para o ABC. Foi feito um documento para ser discutida a situação da Região, cuja leitura revelou que o ABC sempre foi considerado periferia da capital, porém com uma potência econômica muito grande. Para reverter a lógica da periferia urbana, realizou-se uma reunião no qual foram estabelecidos sete eixos estruturantes, que formam um conjunto de metas

a se traçar para se chegar ao cenário desejado para a

Região. Definiram-se quais os eixos seriam trabalhados

a curto, médio e longo prazos até o ano de 2010,

aproximadamente. Entende-se por fatores fundamentais educação

e tecnologia, seja com o intuito de melhorar o nível

educacional do trabalhador ou de qualificar a população como um todo. Quanto à tecnologia, é preciso criar

pólos de tecnologia e pesquisa (eixo 1). Outra questão importante é que há 56% de área de preservação de mananciais, ou seja, áreas que nunca foram preocupação quanto ao desenvolvimento, e que agora exigem planos para a sua sustentabilidade, em busca de alternativas para que se desenvolvam de forma ordenada, porque hoje são consideradas regiões que atrapalham a vida das pessoas.

Deve-se ressaltar, ainda, na análise da pesquisa,

a sensibilidade e a infra-estrutura. Um eixo que mereceu

destaque diz respeito à diversificação e ao fortalecimento dos meios e cadeias produtivas. A estrutura da região é vertical, fordista. A própria pesquisa do SEADE, encomendada pelo Consórcio, aponta um perfil diferente do resto de São Paulo. A grande indústria no ABC é a que mais contrata e mais gera recursos, ao contrário de outras partes de São Paulo. As grandes indústrias do ABC empregam 46% da população economicamente ativa.

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Não se deseja acabar com o que o ABC tem de diferente, mas fortalecer e desenvolver adequadamente, manter essa cadeia de produção, criar sinergia dentro dessa cadeia e conseguir uma lógica com a criação de novas cadeias produtivas. Outros eixos de discussão muito importantes são

os de caráter institucional, pois qualquer lugar que obteve um crescimento endógeno teve de considerar esta questão. Curitiba, por exemplo, conseguiu formar o consenso da importância do verde na cidade. Por fim, uma questão que não é só regional, mas também mundial: a da inclusão social.

3. VISÃO ANALÍTICA E CRÍTICA

Pode-se analisar os representantes municipais

de São Caetano do Sul, Santo André e São Bernardo

do Campo, que trabalham na política pública de desenvolvimento econômico em conjunto com o Consórcio Intermunicipal do Grande ABC e a Câmara Regional, como bem intencionados, transformando a intenção em seqüências de ações que buscam informar e formar para o crescimento local e regional. Quando ouvimos os responsáveis por tais

políticas econômicas, percebemos terem conhecimento

da

realidade dos problemas econômicos locais, a questão

da

informalidade, dos conflitos da municipalidade com

o

governo do Estado e dos próprios erros

administrativos ligados à burocracia, precária comunicação e a duplicação de esforços em nível regional. Isto posto, sucedem-se várias práticas de sucesso, como o fato de cada cidade contar com o seu mix, não havendo confronto umas com as outras, a viabilização da formalidade dos empreendedores, a formação de cooperativas e o apoio das Associações Comerciais e do SEBRAE. Para continuar nossa análise, devemos refletir sobre uma falha comum aos sete municípios que compõem a Região em sua capacidade de interlocução

para a queda de fronteiras municipais e a consecução

de programas que enfrentem os problemas, com a

eleição das políticas sociais como início das estratégias

regionais. Percebemos a pouca integração entre os secretários e diretores municipais da região num todo, não realizando estudos em profundidade, transferindo

ou esperando que as lideranças regionais realizem as

políticas regionalizadas, aguardando que o Fórum da Cidade, a Câmara Regional, o Consórcio Intermunicipal

e a Agência de Desenvolvimento produzam programas

de trabalho. A região necessita de uma resposta.

Não é sem razão que os temas ligados a essas políticas públicas estão representados no Planejamento Estratégico Regional, os famosos eixos estruturantes, que aqui merecem uma definição: a concepção estratégica compreende a realidade em permanente mudança, resultado do desenvolvimento dos conflitos

e das disputas que o animam. O adjetivo estratégico

qualifica, então, algo que é orientador e estruturante de

um conjunto de ações intencionais e articuladas, voltadas ao alcance de objetivos de médio e longo prazo, em meio a ações e reações de iniciativa externa; a formulação,

a decisão e a execução geralmente são exercidas por

diferentes atores. Nos parecem frágeis, desconectados,

sem uma visão global da conjuntura a ser enfrentada.

Em vez de nos espelharmos nas experiências regionais de sucesso pelo mundo afora e tirarmos delas lições para melhor desenvolver a região, ficamos muitas vezes admirando como algumas áreas degradadas e ultrapassadas tecnologicamente estão conseguindo despontar como alternativas econômicas para o próximo século, e com isso permanecer num seleto grupo de regiões vencedoras. Não podemos admitir a possibilidade de sermos periferia econômica da cidade de São Paulo, produzindo aproximadamente 45% da riqueza industrial do Estado de São Paulo.

Não existem receitas econômicas para o despreparo administrativo público como precatórios, déficit orçamentário e outras políticas públicas equivocadas entre outras. Nem especialistas como Allen Scott, Tomas Grohé, Jodi Borja, entre outros, podem dar respostas para a nossa regionalidade, se entre nós isto não for aprofundado e expandido para mais interlocutores locais. Não podemos crescer endogenamente sem quebrar estas barreiras municipais. Muitas vezes estamos repetindo para nós mesmos as ações realizadas; temos que avaliar que estas ações propostas têm a dimensão de 2,5 milhões de habitantes

à espera de soluções ou de atitudes que vislumbrem uma possível solução.

CONCLUSÃO

Um novo “espaço de fluxos” precisa substituir o “espaço dos lugares”. O elemento central da

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produtividade no novo modo de desenvolvimento informacional, que sucede ao industrial, baseia-se agora na qualidade do conhecimento e no processamento da informação, convertida ao mesmo tempo em matéria- prima e produto, e não mais nas fontes de energia e na qualidade do seu uso como no modelo anterior, de acordo com CASTELLS (1995). Os aspectos da acessibilidade e da qualidade de vida oferecidos são igualmente cruciais para a escolha da localização das sedes empresariais e dos centros de produção chaves. Um bom exemplo é o fenômeno da “Terceira Via”, considerado uma experiência bem-sucedida de “desenvolvimento local endógeno”, ou seja, devido essencialmente à sua dinâmica interna, cujas características fundamentais poderiam ser também encontradas nas grandes metrópoles, como nos distritos de alta tecnologia, eletrônica e aeronáutica, de confecção, de cinema e televisão, além do distrito comercial e financeiro central, existentes na cidade de Los Angeles, como observa SCOTT (1994). Destaque para a contribuição de Scott é o caráter ainda tipicamente industrial que pode assumir o desenvolvimento urbano, negligenciado nas análises anteriores que pareciam sugerir uma especialização financeira e de serviços avançados das economias metropolitanas. O novo papel das cidades no quadro de reestruturação produtiva e da globalização, descoladas dos contextos nos quais foram formuladas, e, assim, reproduzidas como leis positivas cuja validade dispensa mediações e relativizações temporais e históricas, uma vez tendo sido comprovadas empiricamente. A articulação entre o local e o global, o núcleo duro do paradigma que sugere a não pertinência do espaço, Estado e economia nacionais para o desenvolvimento econômico das cidades, bastando para tanto estratégias endógenas de atratividade e inserção nas redes de fluxos econômicos globais, não corresponde à lógica do investimento estrangeiro que segue obedecendo as antigas relações entre centro e periferia (LEVY, 1998). Borja & Castells consideram que é na articulação entre o local e o global que se encontra, em última instância, “a fonte dos novos processos de transformação urbana, e, portanto, os pontos de incidência de políticas urbanas, locais e globais, capazes de inverter o processo de deterioração da qualidade de vida nas cidades” (1998, p .35).

Desde os anos 90, no Brasil, ou desde a década de 80, nos Estados Unidos e Europa, os municípios devem responder a uma agenda ampla de desafios. “Temas como o desenvolvimento econômico, a formação e reciclagem de mão-de-obra ou a articulação supramunicipal, que antes implicavam apenas a responsabilidade de governos regionais ou nacionais,

entraram na agenda municipal, somando-se a outros que demandam esforços permanentes dos governos locais – saúde, educação, proteção a grupos desfavorecidos” (PACHECO, 1999, p. 39).

A mudança nas estratégias de localização das

empresas, que acompanhou a superação do paradigma fordista de produção e os efeitos da globalização sobre

a produção e os serviços trouxeram à tona um aparente

paradoxo: a mundialização dos fluxos é acompanhada pela emergência da localidade. Nesse contexto, cabe aos

municípios um novo desafio: serem mais competitivos, por meio de estratégias que não se baseiem na guerra fiscal, pois esta leva a um jogo de soma zero (HARVEY,

1996). O que se precisa é de um jogo virtuoso cuja soma seja positiva: competição e colaboração entre municípios

e atores sociais têm sido a chave de estratégias locais

bem-sucedidas. Na administração das cidades, não há ponto de equilíbrio ou movimento sem aceleração. Em decorrência de ameaças externas ou de problemas próprios, a gestão de uma cidade tende a se deparar com novos desafios. Uma atitude passiva em relação ao futuro que se desenha deixa poucas alternativas ao administrador municipal, sendo a mais usual o aumento dos gastos públicos para superar dificuldades decorrentes da falta de planejamento. É o caminho para ampliação do endividamento e o aumento de taxas e impostos. A falta de planejamento está associada a uma má administração financeira. Outro elemento de destaque na nova realidade mundial globalizada é a crescente concorrência entre as cidades. Os municípios competem entre si na atração

de investimentos e de visitantes. Segundo Philip Kotler,

a atratividade de uma cidade é resultado da composição

de três capacidades: investibilidade, habitabilidade e

visitabilidade. Essas três capacidades reforçam-se mutuamente, concorrendo para a melhoria contínua da situação das cidades. Em outras palavras, quem quer investir busca cidades bem administradas e com boa qualidade de vida.

interessante notar que o descobrimento do

papel a ser exercido pelo município no campo social

É

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ocorreu tanto pelo lado dos que advogam os princípios econômicos neoliberais, como daqueles que, apesar da crise financeira do Estado, do tamanho do desemprego e da competitividade internacional provocada pelo aprofundamento da mundialização do capital, ainda defendem a manutenção da proteção social concedida pelo Welfare State. Dessa forma, hoje é possível se encontrar, discutindo a mesma agenda, políticos, administradores e pesquisadores de origem ideológica diferente. Embora com motivações diferentes, todos buscam a melhor maneira de o município assumir o papel de organizador e ou executor de diferentes políticas sociais. Todos acreditam que o município tem vocação para fazer uma política social mais integrada, mais eficiente, mais participativa e mais eqüitativa. Com todas essas nuances, os processos de municipalização, democratização e, agora, de globalização, deram maior legitimidade aos governos locais e fizeram emergir a cidade, no Brasil, como ator político capaz de assumir acordos e associações, passando a representar o papel de pólo central na articulação entre a sociedade civil, a iniciativa privada e as diferentes instâncias do Estado (CASTELLS & BORJA, apud VIANNA, 1998). Percebe-se que os representantes das prefeituras reunidos no IMES não conseguiram disfarçar a dificuldade de não gozarem de autonomia funcional para desenvolver políticas públicas que satisfaçam as necessidades regionais, pois as secretarias ou diretorias da área econômica passaram a integrar as preocupações municipais a partir de 1997 e, em nível regional, a partir de 1998, com a Agência de Desenvolvimento Econômico. Nota-se que a estrutura atual é insuficiente para atender à demanda existente, concentrando os esforços somente em seus municípios. Os administradores públicos da região ainda não perceberam que o temário regional vai além de questões econômicas e socioculturais, que se desdobram nos chamados sete eixos estruturantes da Câmara do Grande ABC.

BIBLIOGRAFIA

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RATTER, Henrique. Liderança para uma sociedade sustentável. São Paulo: Studio Nobel, 1998.

* Alunos do PMA do CEAPOG-IMES.

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INCLUSÃO SOCIAL E CIDADANIA NO SÉCULO XXI

ouro.”

RESUMO: Este artigo tem como objetivo abordar as políticas públicas de Inclusão Social e Cidadania, na região do grande ABC, e o que se tem feito para minimizar essa problemática, que a cada dia ocupa mais espaço no meio social.

O texto é embasado nos depoimentos de

representantes das prefeituras e ONGs, responsáveis por essas políticas, durante o 2º Seminário realizado pelo Laboratório de Gestão da Sociedade Regional, no curso de Mestrado do IMES, realizado em outubro de 1999, e complementado com referencial teórico.

O que se pode observar é que as políticas de

Inclusão Social e Cidadania são trabalhadas localmente, sem a preocupação de se criar um plano mais abrangente, para facilitar as ações de Inclusão Social e a prática da Cidadania regionalmente.

ABSTRACT: This article has the purpose of approaching the public politics of Social and Citizenship Inclusion, in the Greater ABC region, and what has been done for reducing this problem, which day by day is increasing in the social atmosphere. The text is based in the ONGs and Town halls delegates’ depositions, responsables by these politics, during the 2 nd Seminar accomplished by the Regional Society Administration Laboratory, in the IMES mastership course, which had taken place in October 1999, and was complemented by the theorical reference. It can be observed that the politcs of Social Citizenship Inclusion are worked on the premises, without the concern to produce a plan of inclusion to make easy the Social Inclusion and the practice of the Citizenship regionally.

PALAVRAS-CHAVE:

social; cidadania.

políticas públicas; inclusão

“ Cada pessoa equivale a um grão de areia, mas uma multidão é como uma pedra de Provérbio chinês

KEY WORDS: public politics; social inclusion; citizenship.

1. INTRODUÇÃO

Os alunos do curso de Mestrado em Administração do IMES, dentro da linha temática “Gestão da Sociedade Regional”, e orientados pelos professores Luiz Roberto Alves e Jeroen Klink, promoveram em outubro de 1999 o 2º Seminário sobre Políticas Públicas, destacando as políticas de Planejamento Estratégico, Inclusão Social e Cidadania e Políticas de Culturas. No encontro estiveram presentes Marcos Antônio Gonçalves, diretor da AVAPE (Associação para Valorização e Promoção de Excepcionais); Cormarie G.

Perez, assistente social da prefeitura de Ribeirão Pires, Marlene B. Zola, representante da Secretaria de Desenvolvimento Social e Cidadania de São Bernardo do Campo; Gil Gonçalves Júnior, Secretário do Bem- estar Social de Mauá; Olivier Negri Filho, vereador de Mauá, e Wagner Barbato, diretor do Procon de São Caetano do Sul.

O presente artigo abordará as políticas públicas

de Inclusão Social e Cidadania, e se estas políticas estão

conseguindo equacionar problemas relacionados ao

desemprego, geração de renda, desigualdade social, portadores de deficiência física e direitos à Cidadania.

A exclusão social é crescente em todos os

segmentos sociais, principalmente após o início dos anos 90, com a globalização, quando regiões e países mais desenvolvidos usufruem de riqueza, progresso, melhores condições de vida, e os demais são condenados à exclusão, à marginalizacão e à miséria.

Na América Latina, com o perde-ganha da abertura ao comércio e aos investimentos externos,

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formado, de um lado, por polarização social e deterioração das condições de emprego e, de outro, por sofisticação da produção e amadurecimento da relação empregado-empregador, há um movimento multi- direcional de inclusão e exclusão social. Segundo Gilberto Dupas, há uma dialética da inclusão e da exclusão social em países periféricos como o Brasil: a primeira se dá por meio do trabalho flexível e informal, enquanto a segunda consiste na eliminação do emprego formal. No Brasil, há dez anos havia um milhão de bancários empregados, hoje são 450 mil. No Grande ABC, em 1995, as empresas metalúrgicas empregavam 150 mil, hoje são 35 mil. Entre 1991 e 1998, o número de empregos formais caiu 27%, enquanto os informais aumentaram 32%. Há uma fragmentação da cadeia produtiva, que busca fatores mais favoráveis como mão-de-obra mais barata, trabalho infantil ou leis ambientais mais flexíveis. Em São Paulo, atualmente existem 8,4 milhões de pessoas abaixo da linha de pobreza, com renda per capita mensal de R$ 149,00, segundo pesquisa realizada pelo IPEA. Um dos problemas sociais que preocupam as sociedades do mundo todo neste fim de século é a exclusão social, contingente de excluídos que coloca em risco cada vez mais o menor número de incluídos. Segundo Dom Helder Câmara, ex- arcebispo do Recife, os excluídos são os analfabetos, os desempregados, vítimas da globalização e da automação, quando o mercado passou a exigir um menor número de empregados e profissionais mais qualificados. São os pobres que têm fome e sede de justiça, que desejam estudar e não encontram vagas, os que pre- cisam de saúde e o Estado não oferece; os aposentados, deficientes físicos, que não são respeitados em seus direitos mais legítimos. Diante desse quadro, uma questão pode ser formulada: como será o próximo século? Segundo um estudo sobre os cenários futuros, visto por um observador no ano de 2010, realizado pela Forward Studies Unit (órgão da Comissão Européia), citado por Gilberto Dupas, a Terceira Revolução Industrial será acompanhada por uma explosão da capacidade empresarial ligada à tecnologia da informação, inovação tecnológica e capacidade de organização, com grande ênfase na iniciativa e na autoconfiança. O consumismo será exacerbado e a exclusão social aceita como inevitável. Crescerão o crime

organizado, a agressão ao meio ambiente e a desigualdade social. Explodirão operações pessoais via redes eletrônicas, a crença na solidariedade , na auto-ajuda e a adesão às tecnologias de informação. Várias cidades se rebelarão contra governos centrais, provocando grandes crises nos Estados-nação. Haverá grande aumento da participação comunitária, os setores públicos e privados sem fins lucrativos intensificarão as parcerias com ONGs ativas, promovendo a educação e a assistência social. Hoje, os principais países estão se preocupando com os gastos de bem-estar social, que crescerão nas próximas décadas. Uma das razões para isso é o rápido aumento do número de idosos em todos os países, inclusive o Brasil. As necessidades sociais ocorrerão de duas formas: por caridade, por meio de ajuda aos pobres, incapacitados, desamparados e vítimas, e por mudanças na comunidade decorrentes da força de trabalho e nas pessoas pela demanda por aptidões e conhecimento, devido à exigência do mercado de trabalho por qualificação da mão-de-obra. O estudo faz um alerta para reflexões sobre as políticas públicas implementadas hoje no mundo.

2. REFLEXÃO SOBRE POLÍTICAS

PÚBLICAS

E DE INCLUSÃO SOCIAL

“Políticas Públicas são ações dos governos destinadas a distribuir e alocar valores para a comunidade” (FINGERMANN, 1992).

Políticas Públicas também podem ser entendidas como ações de atores políticos, visando a uma melhor qualidade de vida cultural e social, e ao desenvolvimento da cidadania e das necessidades básicas de seus cidadãos, como educação, saúde, emprego e lazer. Segundo Luiz Roberto Alves, Políticas Públicas devem constituir-se em um processo de trabalho onde os objetivos e metodologias são fundamentados na participação grupal ou coletiva. As ações e procedimentos capazes de produzir a interação e os objetivos devem considerar a criação simbólica das pessoas e instituições envolvidas e ser abrangentes, quanto à difusão e ao consumo de bens socioculturais.

Em um processo de Políticas Públicas, é necessária a participação de três atores. O gerador é

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aquele que implementa a Política Pública. O transmissor

é aquele que a executa, difunde e desenvolve. Já o

receptor se beneficia dela e fornece feedback ao agente

gerador, de forma que permita uma avaliação constante da Política Pública implementada, bem como de seus resultados.

políticas públicas são ações geradas

Portanto,

por discurso e produção de atores envolvidos num processo de trabalho político, visando à melhoria na qualidade de vida, ao desenvolvimento da cidadania e ao atendimento de outras necessidades e desejos sociais. Segundo Shahif Yusuf, assessor do Banco Mundial de Desenvolvimento (BIRD), o último relatório do BIRD sobre a globalização no século XXI destaca quatro pontos essenciais para o sucesso de políticas públicas nesse próximo milênio:

– a estabilidade macroeconômica é essencial para

o crescimento e indispensável para o desenvolvimento;

– as políticas públicas devem priorizar as necessidades humanas;

– nenhuma política isolada promoverá o

desenvolvimento, é necessária uma abordagem

abrangente;

– o desenvolvimento sustentado precisa ser

socialmente inclusivo e flexível para adaptar-se à evolução das circunstâncias.

3. POLÍTICAS DE INCLUSÃO SOCIAL E CIDADANIA

Dentre as Políticas Públicas, a de Inclusão Social

e Cidadania, tema desse artigo, constitui a prática mais

recente de que se tem notícia no campo das necessidades especiais, tanto no Brasil como em outros países.

A Inclusão Social vem aos poucos substituindo

a prática da integração social, que há quatro décadas

ocupa o lugar da segregação e da exclusão de pessoas

consideradas diferentes da maioria da população de qualquer sociedade.

Conceitua-se a inclusão social como o processo pelo qual a sociedade se adapta para poder incluir, em seus sistemas sociais gerais, pessoas com necessidades especiais que, simultaneamente, preparam-se para assumir seus papéis na sociedade.

A inclusão social constitui, então, um processo

bilateral no qual as pessoas (ainda excluídas) e a sociedade

buscam, em parceria, equacionar problemas, decidir

sobre soluções e efetivar a equiparação de oportunidades para todos (SASSAKI, 1997, p.3). Em várias partes do mundo, já é realidade a prática da inclusão, tendo as primeiras tentativas

começado há cerca de 10 anos nos Estados Unidos e na Europa. O processo de inclusão vem sendo aplicado em cada sistema social; quanto mais sistemas comuns da sociedade adotarem a inclusão, mais cedo se completará a construção de uma verdadeira sociedade para todos, “a sociedade inclusiva”.

A ONU (Organização das Nações Unidas) foi

provavelmente a primeira entidade a cunhar explicita- mente a expressão “sociedade para todos”, que está regis- trada na resolução 45/91 da Assembléia Geral das Na- ções Unidas, ocorrida em 1990. Desde então, seus docu- mentos vêm relembrando constantemente a meta de uma

sociedade para todos em torno do ano 2010. Em outras palavras, foi dado ao processo de consecução da meta

de uma sociedade inclusiva o prazo de cerca de 20 anos

(1991-2010).

Para apoiar ações concretas nesse sentido, existe

o Fundo Voluntário das Nações Unidas sobre

Deficiência, aprovado pela Assembléia Geral por meio

da resolução 40/31 (UNITED NATIONS, 1997, p. 5). Os governos têm responsabilidade direta de

criar ações para minimizar esse problema, por meio da promoção do crescimento econômico sustentado, com

a adoção de políticas corretas. Devem promover

programas em parceria com o setor privado destinados

ao treinamento dos trabalhadores dispensados e reciclar aqueles que ainda se encontram empregados. Estimular

a flexibilização de regras relativas às relações de trabalho,

de

modo a preservar o número de empregos, e facilitar

as

negociações entre empresas e trabalhadores. Por fim,

viabilizar a concessão de créditos pelos bancos estatais

e a inclusão de incentivos na legislação tributária (CARDOSO, 1996). “A sociedade para todos, consciente da

diversidade da raça humana, é aquela que estaria estruturada para atender às necessidades de cada cidadão, das maiorias às minorias, dos privilegiados aos marginalizados” (WERNECK, 1997, p. 21).

A prática da inclusão social repousa em

princípios até então considerados incomuns, tais como:

a aceitação das diferenças individuais, a valorização de

cada pessoa, a convivência dentro da diversidade humana, a aprendizagem por meio da cooperação. A diversidade humana é representada, principalmente, por origem, nacionalidade, opção sexual,

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religião, gênero, cor, idade, raça e deficiência. Para incluir pessoas, a sociedade deve ser modi- ficada, a partir do entendimento de que ela é que precisa ser capaz de atender às necessidades de seus membros. A inclusão social, portanto, é um processo que contribui para a construção de um novo tipo de sociedade por meio de transformações, pequenas e grandes, nos ambientes físicos (espaços internos e externos, equipamentos, aparelhos e utensílios, mobiliário e meios de transporte), nos procedimentos técnicos e na mentalidade de todas as pessoas, portanto também do próprio portador de necessidades especiais.

4. POLÍTICAS DE INCLUSÃO SOCIAL E

O DEFICIENTE FÍSICO

Os praticantes da inclusão social de deficientes físicos se baseiam no modelo social da deficiência, no qual os problemas das pessoas com necessidades espe-

ciais não estão nelas, mas na sociedade em que elas vivem. Para WESTMACOTT (1996), “o modelo social

da deficiência diz que são as atitudes da sociedade e o

nosso ambiente que necessitam mudar”. FLETCHER (1996, p. 7) explica que o modelo social da deficiência “focaliza os ambientes e barreiras

incapaci-tantes da sociedade e não as pessoas deficientes.

O modelo social foi formulado por pessoas com

deficiência e agora vem sendo aceito também por profissionais não-deficientes. Ele enfatiza os direitos hu-

manos e a equiparação de oportunidades”. Em meados da década de 80, CLEMENTE FILHO (1985, p. 21-22) já afirmava que a comunidade como um todo deveria aprender a ajustar-se às necessidades especiais de seus cidadãos portadores de deficiência. Para este autor, o desenvolvimento (por meio da educação, reabilitação, qualificação profissional etc.) das pessoas deficientes deve ocorrer dentro do processo de inclu-são e não como um pré-requisito para que possam fazer parte da sociedade, como se elas “precisassem pagar ‘ingressos’ para integrar a comunidade” (1996, p. 4).

Cabe, portanto, à sociedade eliminar todas as barreiras físicas, programáticas e atitudinais para que as pessoas com necessidades especiais possam ter acesso aos serviços, lugares, informações e bens necessários

ao seu desenvolvimento pessoal, social, educacional e profissional.

Assim, a sociedade é chamada a ver os problemas que ela cria para as pessoas portadoras de necessidades especiais, causando-lhes incapacidade (ou desvantagem) no desempenho de papéis sociais em virtude de: seus ambientes restritos; suas políticas discriminatórias e suas atitudes preconceituosas que rejeitam a minoria e todas as formas de diferenças; seus discutíveis padrões de normalidade; seus objetos e outros bens inacessíveis do ponto de vista físico; seus pré-requisitos atingíveis apenas pela maioria aparentemente homogênea; sua quase total desinformação sobre necessidades especiais e sobre direitos das pessoas que têm essas necessidades; suas práticas discriminatórias em muitos setores da atividade humana. Atualmente, vem crescendo muito a parceria entre setores públicos e privados, ONGs em projetos sociais, buscando a inclusão na sociedade de pessoas menos favorecidas. O incentivo às organizações comunitárias autônomas no setor social é um passo importante na reformulação do governo para que ele recupere seu desempenho. Assim, a inclusão social pode ocorrer no mercado de trabalho, na educação, no esportes e lazer, etc. Quando isso acontece, pode-se falar em:

Empresa

inclusiva

Diz-se que a empresa é inclusiva quando não exclui funcionários ou candidatos a emprego em razão de qualquer atributo individual do tipo: nacionalidade (país de nascimento), naturalidade (cidade de

nascimento), sexo, cor (etnias diversas), deficiência (física, mental, visual, auditiva ou múltipla), compleição anatômica (gordas, magras, altas, baixas), idade etc. Todos os funcionários, com ou sem alguns desses atributos individuais, trabalham juntos. Empresas que investem na implementação de uma filosofia de inclusão social, no ambiente de trabalho, preocupam-se em:

– adaptar alguns postos de trabalho bem como ferramentas e procedimentos;

– revisar a política de admissão e desen-

volvimento de recursos humanos; – capacitar seu quadro de pessoal a respeito de abordagens inclusivas na empresa. Buscam, assim, melhoria nas relações de

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trabalho; aumento da produtividade com qualidade e criatividade; maior satisfação de empregados e dirigentes, e melhoria da imagem da empresa perante a

comunidade local e internacional. Educação inclusiva

Na área da educação, escolas que implementam políticas de inclusão social não excluem alunos, sejam eles crianças ou jovens candidatos à matrícula em razão de: sexo, cor (etnias diversas), deficiência (física, mental, visual, auditiva ou múltipla), classe social (situação sócio- econômica), condições de saúde (vírus HIV, epilepsia, síndrome de Tourette, transtorno mental etc.) e outros. Todos estudam juntos nas mesmas classes. Tomam algumas medidas simples e econômicas

como:

– investir no capital humano;

didáticas e adaptar atividades recintos de aprendizagem; da escola bem como técnicas

– revisar a política de contratação e treinamento de professores e funcionários; para professores de educação especial e do ensino regular, adotar esquemas de apoio e treinamento, para trabalhar com decorrentes alunos ou que não apresentem da deficiência; necessidades especiais,

– capacitar seu quadro de pessoal a respeito de abordagens inclusivas na escola.

A implementação de uma filosofia de inclusão

social no ambiente educacional poderá proporcionar melhoria nas relações entre os estudantes e professores, na qualidade de ensino e no desempenho escolar de todos os alunos; maior satisfação de alunos e professores, e melhoria da imagem da escola perante as famílias e a comunidade local e internacional.

A educação promove uma força de trabalho me- lhor em constante preparada transformação para enfrentar os e desafios é fundamental de um mundo para o exercício da cidadania.

Esporte e lazer inclusivos

As áreas de lazer e esportes públicas ou privadas

que se preocupam com a inclusão social não excluem de suas atividades pessoas em razão de qualquer atributo

individual. Todos os participantes, com ou sem alguns atributos individuais, participam juntos no lazer e nos esportes. Tomam algumas medidas simples e econômicas como:

. adaptar regras bem como procedimentos e

recursos físicos para cada atividade;

– capacitar monitores de lazer, esporte e re-

creação a respeito de abordagens e técnicas inclusivas;

esporte e recreação.

pesquisar experiências de inclusão no lazer,

O empenho desses centros de recreação e de

seus atores na implementação da filosofia de inclusão

social no lazer e nos esportes poderá proporcionar um aumento e melhoria na da competência variedade de física modelos e social, e sociais crescimento pela

diversidade do senso de dos ‘pertencer participantes; à comunidade’. aumento da auto-estima

Cidadania

Cidadania é a disposição de contribuir para o país. Significa compromisso ativo, responsabilidade, país. fazer Sem diferença cidadania na comunidade, a política se esvazia, na sociedade, o nacionalismo no seu se degenera (DRUKER, 1999, p. 159, 161,162).

É promover uma mudança de consciência nas

pessoas, mostrando a elas a necessidade de se reconhece-rem como agentes de transformação no meio em de que que é vivem. preciso Para agir isso, localmente, é necessário fazendo divulgar o que a idéia for

possível, pen-sando que a mudança de atitudes em nível local irá se refletir como um exemplo a ser seguido em nível global.

É mudança da mentalidade comum de que não

mundo. é possível É se a fazer busca nada das em semelhanças favor do melhoramento ao invés de foco do

nas diferenças. É a divulgação de idéias que possam contribuir para o melhoramento da comunidade e do mundo, por meio da cooperação entre as pessoas.

A educação é um fator primordial para formar

atores o bem-estar multiplicadores de todos, pois de ações a educação coletivas, possibilita voltadas ao para ci-

dadão uma capacidade melhor de reflexão, quanto aos seus direitos e deveres, dentro da sociedade em que vive.

A sobrevivência na sociedade depende cada vez

mais de conhecimento, pois diante da complexidade da interpretar organização informações social, a falta impede de recursos a participação para efetiva obter e e

a tomada de decisões em relação as problemas sociais.

Impede, ainda, o acesso ao conhecimento mais elaborado

e dificulta o acesso ao trabalho.

5. O LOCAL E A INCLUSÃO SOCIAL

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O século XXI está criando uma nova realidade parareal. asEcidades,as cidades,o localemborainteragenemcom sempreo global emde tempoforma satisfatória, devido a seus restritos recursos para investir na área social, ainda acabam sendo mais eficientes e eficazes do que o governo central.

As cidades que entenderem que são o centro de gravidade de atividades econômicas sociais, políticas, culturais e lugar de identificação poderão criar modelos e políticas adequadas, contribuindo para o bem estar de seus munícipes (FACHIN e CHANLAT, 1998). Borja & Castells consideram que é na articulação novosentre oprocessoslocal e odeglobaltransformaçãoque se encontraurbana“ae,fonteportanto,dos os pontos de incidência de políticas urbanas, locais e globais, capazes de inverter o processo de deterioração da qualidade de vida nas cidades” (1998, p. 35).

As cidades têm encontrado certa dificuldade para atender às necessidades sociais, pois as despesas têm crescido muito mais que as receitas nesse setor, devido ao aumento da demanda por serviços públicos, da população mais carente. No Planejamento Regional Estratégico do ABC, aprovado em 02 ago. 1999, no Eixo Estruturante nº 7,

que trata da Inclusão Social, foram destacados programas

e ações para serem desenvolvidos nos próximos 10 anos,

como: programa de renda mínima; frentes de trabalho; estímulo a cooperativas de trabalhadores; amparo à criança; campanha de orientação para prevenção de drogas;urbanizaçãoapoiodeàfavelas;pessoa ampliaçãoportadora dadeofertadeficiênciade moradiafísica; pelo CDHU; redução dos índices de violência e criminalidade; implantação de policiamento comunitário, entre outros.

Na região do Grande ABC, os governos locais,

o Fórum da Cidadania, a Câmara Regional e ONGs, já

estão desenvolvendo alguns desses projetos relacionados com a geração de emprego e renda, saúde, violência contra mulheres e adolescentes, alfabetização de adultos,

programas voltados à criança, segurança pública, habitação, saúde e outros.

Esses projetos foram relatados pelos secretários

das prefeituras dos municípios que compareceram ao 2º Seminário sobre Políticas Públicas, ONGs e sociedade civil dos municípios da Região do Grande ABC.

6. RELATÓRIO DO SEMINÁRIO Estes representantes abordaram projetos de inclusão social que estão sendo desenvolvidos em seus municípios, bem como seus pontos de vista em relação a essa problemática. Procuramos elencar de maneira sintética as idéias e propostas de cada expositor. Marcos Antônio Gonçalves, diretor da AVAPE,

(Associação para Valorização e Promoção de Excepcionais), sediada em São Bernardo do Campo, representante do terceiro setor, iniciou sua apresentação falando sobre a importância das ONGs no atual contexto nacional e mundial.

O terceiro setor no mundo, segundo ele, é um

dos setores que mais movimentam capitais e geram 8%

dos entidades. empregos: É o só setor no que Brasil vem temos empregando cerca de 200.000 mais e

crescendo de forma violenta (70% das entidades surgiram a partir de 1982). Seus integrantes são voluntários, portanto quem está salvando o país quanto aos trabalhos de caráter social é o terceiro setor.

A AVAPE é uma entidade filantrópica sem fins

lucrativos, sete mil pessoas a primeira portadoras a ter ISO de 9002, deficiência. que atende, Emprega, hoje,

em média, 1.300 por ano, e tem mais de 40 unidades. Seu foco principal está em São Paulo, Grande ABC e Vale do Paraíba e sua filosofia é desenvolver trabalho junto com a sociedade.

O projeto Avape Verde envolve produtos

cultiva-dos sem agrotóxico, que serão comercializados no mer-cado. O Pão de Açúcar emprega idosos,

presidiários e portadores de deficiência.

Um acordo com o SEBRAE envolve pequenas entidades, pois são essas pequenas entidades que atendem à grande demanda de excluídos.

Marcos Antônio Gonçalves critica a ausência de políticas públicas específicas, o uso inadequado de verbas e a postura do Estado que, em alguns momentos, segundo ele, não atua como parceiro do terceiro setor, mas como oponente. Ressalta a importância de se iniciar trabalhos em nível local, e destaca órgãos como Câmara Regional, Fórum da Cidadania e Agência de Desenvolvimento, para o fortalecimento do Grande ABC como região. Lembra da necessidade de trabalhar polí-ticas de inclusão, voltadas não só ao PPD, mas também às minorias como negros, mulheres e idosos. A soma de todas estas minorias constitui uma grande maioria.

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Cormarie G. Perez, assistente social da

Prefeitura de Ribeirão Pires, destacou programas que norteiam a condução dessas políticas; o enfrentamento

à pobreza tendo como eixo a família; extensão aos

direitos de cidadania; mobilização social, e fortalecimento permanente dos mecanismos de gestão. O projeto de complementação de renda, em parceria com o Governo do Estado de São Paulo, atende atualmente 54 famílias com renda de até 2 salários mínimos, e que tenham filhos menores de 18 anos. A família recebe 50 reais por criança que estiver na escola, sendo o valor pago proporcional ao número de crianças que freqüentam a escola. O Integrar, criado em parceira com a CUT, visa

à qualificação profissional de trabalhadores desem-

pregados para o mercado de trabalho, formando mão- de-obra mais especializada.

Quanto ao direito à Cidadania, a sessão de

assuntos jurídicos dá assistência à criança e ao adolescente e encaminha menores infratores julgados pelo Poder Judiciário a prestar serviços à comunidade como reparação do mal causado à sociedade.

No que concerne aos portadores de deficiência,

há somente a APAE. O município também conta com a Casa da Juventude, o Centro de Referência do Idoso, a

Casa da Cidadania, onde funciona o Procon e o Conselho Tutelar do Menor e é feito o atendimento e orientação ao munícipe, quanto a suas necessidades básicas.

No que se refere aos migrantes e moradores de

rua de Ribeirão Pires, ainda não existe programa algum sendo desenvolvido.

Segundo Cormarie G. Perez, os menores infratores e os direitos da criança e do adolescente devem ser tratados regionalmente.

Em sua exposição, Cormarie G. Perez salientou

as dificuldades na aplicação de recursos financeiros, em virtude das limitações do município.

representante da Secretaria

de Desenvolvimento Social e Cidadania de São Bernardo do Campo, destacou que a reordenação de políticas públicas (até então muito diversificadas e segmentadas) e a criação da Secretaria de Desenvolvimento Social e Cidadania foram grandes vitórias da atual administração.

A transformação da Fubem em Fundação

Criança deu uma nova lógica de funcionamento e proporcionou o repensar da instituição e suas diretrizes.

Também foi colocado o interesse do município em

Marlene B. Zola,

trabalhar políticas dentro de um contexto regional. Hoje, São Bernardo do Campo, em parceria com a Câmara Regional do ABC, trabalha o projeto “Criança Prioridade 1”, voltado para políticas públicas de cultura, educação e trabalho. Os cursos de iniciação profissional, que preparam jovens para o mercado de trabalho, já prepararam mais de 2.500 jovens em 4 meses.

Marlene B. Zola citou uma cooperativa de costureiras (onde se trabalha a cultura de associativismo),

o programa de qualificação profissional a vários

segmentos da sociedade, e o programa de complementação de renda que atende a cerca de 200 famílias carentes. A Secretaria de Desenvolvimento Social e Cidadania vem desenvolvendo programas que possam construir a base de uma sociedade que prioriza a questão da cidadania e do desenvolvimento humano. Gil Gonçalves Júnior, secretário do Bem-estar Social da Prefeitura de Mauá, diz que a assistência social do ponto de vista de políticas públicas é muito recente, começou a partir de 1993. Ele destaca a importância de pensarmos regionalmente, lembrando problemas comuns à região como desemprego, habitação, educação etc. Para Gil Gonçalves Júnior, um dos grandes fatores para que o trabalho regional seja fortalecido é o desenvolvimento de parcerias com Organizações Não-Governamentais, criando-se assim uma rede de trabalho com qualidade. Para ele, o problema dos moradores de rua deve ser resolvido regionalmente, já que se deslocam com

facilidade.

tano doWagnerSul, enfatizouBarbato,a importânciadiretor do Proconda conscientizaçãode São Cae- da população quanto aos seus direitos sociais. Destacou

o Procon, que a cada ano atende a um maior número

de reclamações de serviços públicos e privados, o que

contribuiu para uma melhoria na qualidade dos serviços

e produtos, bons indícios de que a sociedade está valorizando seus direitos de cidadão.

Ele destacou também os programas sociais da prefeitura que dão muita importância à criança e ao adolescente na área de esporte, educação, e os

programas voltados à terceira idade, os quais proporcionam aos idosos uma vida mais saudável e participativa.

Segundo Olivier Negri Filho, vereador de Mauá,

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há excelentes leis, mas não colocadas em prática, o que dificulta a evolução e a condução das políticas públicas. Sendo assim, para que ocorram mudanças é fundamental que as pessoas adquiram consciência crítica e cidadania.

7. ANÁLISE CRÍTICA

A necessidade de se pensar em Políticas Públicas em âmbito regional ficou evidente na fala de todos os participantes. Pode-se observar que esta necessidade, em grande parte das colocações, está atrelada a questões pontuais. Não se fala em um

planejamento de Políticas Públicas regionais de maneira mais ampla, falta comunicação e troca de informação entre os representantes dos sete municípios.

Hoje, o Grande ABC passa por um momento de transição. Verifica-se redução nos postos de trabalho, em função do esvaziamento do setor industrial na região

e um crescimento das demandas sociais. Com isso tem-

se um número cada vez maior de excluídos, e por conseqüência a necessidade de uma quebra de fronteiras

municipais e de paradigmas na concepção de Políticas Públicas de Inclusão e Cidadania.

Algumas ações práticas, como a criação dos centros de referência do idoso, mulher, juventude e

deficiente, bem como os esforços em capacitar e recapacitar mão-de-obra, são indícios de que o Grande ABC começa a caminhar para um processo de

problemas mudanças, que mas a ainda região é enfrenta. muito pouco, diante dos

CONCLUSÃO O objetivo deste Seminário foi promover o

debate entre os mestrandos, representantes dos municípios e instituições da Região do Grande ABC, levantando as questões que dificultam a inclusão social bem como o desenvolvimento da cidadania, buscando verificar o que já foi realizado até o presente momento

e qual a visão dos convidados em relação à abordagem

desses temas. Observa-se que há um consenso entre os palestrantes dos municípios presentes nesse seminário quanto à necessidade de se discutir determinados problemas sociais regionalmente e não localmente.

Urge criar massa crítica, abrir polêmicas e expectativas de soluções para os problemas em conjunto com a sociedade local e regional; estimular a participação de representantes dos sete municípios em

encontros de interesses comuns, para equacionar problemas sociais, de meio ambiente, que afetam toda a região; facilitar a troca de informações entre secretarias e órgãos competentes sobre projetos que sejam de interesse comum, e que propiciem o aumento da inclusão social; despertar na sociedade o compromisso com a região, pois é o lugar em que se vive, local do seu cotidiano, de sua sobrevivência e desenvolvimento. A Região do Grande ABC é muito importante no contexto social, tem uma das melhores renda per capita do país é considerada o maior pólo industrial de

São para Paulo, outras e poderá regiões. se tornar um modelo de gestão social

curso de mestrado de Gestão da Sociedade

ALVES, Luiz Roberto. Políticas Sociais; como localizá-las,

Regional tem como objetivo criar um banco de dados

ceder a sua avaliação e superar deficiências em

sua prática social. Apostilado. São Paulo: ECA/USP,

O

pro

1998.

CAMPANS, Rose. O paradigma das global cities nas es tratégias de desenvolvimento local. O local e o global. Revista de Estudos Urbanos e Regionais n. 1. São Paulo:

USP, maio 1999.

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globalização.[Conferência] Nova Delhi, Índia, 27 jan.

1996.

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DUPAS, Gilberto. Onde está o poder econômico no sé culo 21, O Estado de São Paulo, 17 set.1999, Ca derno A13.

FACHIN, Roberto e CHANLAT, Alain. Governo municipal

sobre na América toda a Região Latina: Inovações do Grande e ABC, perplexidades.Porto e desenvolver

trabalhos Alegre: e Sulina/UFRGS, dissertações que 1998. possam contribuir para o

levantamento dos problemas da região, propor soluções, promover encontros entre as universidades locais e a

sociedade para discutir políticas públicas e o fortalecimento da cidadania.

*Alunos do PMA BIBLIOGRAFIA do CEAPOG-IMES.

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POLÍTICAS PÚBLICAS DE CULTURA

TELMA TANIA V. F. DE CARVALHO*

A globalização da economia mundial impõe

novos desafios para as sociedades/cidades. A velocidade

e a abrangência das comunicações invadem limites

territoriais de forma devastadora e impositiva, ditando novas tendências e formas de organização social que

acontecem em todos os cantos do mundo. Outras culturas e costumes coletivos entram em nossas mentes através dos mais diversos meios de comunicação e parecem ser comuns às nossas sociedades.

Aloísio Magalhães, citado por

GONÇALVES (1995), “um dos problemas com que se defrontam os países no mundo moderno é a perda da identidade cultural, isto é, a progressiva redução de

valores que lhes são próprios de peculiaridades que lhes diferenciam as culturas”.

A reflexão que passa do global e vai para o

regional tem que enfocar como as cidades estão enfrentando esta quantidade de informação oriunda de todas as partes do planeta e seus efeitos quanto à identificação local das cidades por seus habitantes.

Preservar a identidade local é criar símbolos de

ligação entre a cidade e seus cidadãos; é criar uma relação de parceria entre a comunidade e seus representantes; é desenvolver o sentimento de cidadania. GLAUCIA VILLAS BÔAS (1995) afirma que estas ações são fundamentais para evidenciar as diferenças entre grupos humanos e acentuar as relações de solidariedade e coesão. Com o objetivo de conhecer e discutir as políticas públicas de cultura da Região do Grande ABC,

o Laboratório de Gestão da Sociedade Regional e a

disciplina de Políticas Sociais para a Administração da Cidade realizaram, em 10 de novembro de 1999, o II

Seminário Interno “ Políticas Públicas de Cultura”, onde

se verificou como os municípios do Grande ABC estão

articulando esses novos desafios e que propostas têm para a identificação da comunidade/cidade e desenvolvimento da cidadania através dos elementos de

Segundo

cultura. Participaram deste seminário os representantes das Secretarias das Prefeituras de Diadema, Martha de Bethânia; de Mauá, José Aparecido Barbosa, de Santo André, Altair José Moreira e de São Bernardo do Campo,

Júlio Mendonça; produtores culturais regionais como Daniel Lima (Livre Mercado) e Rosana Costa (Diário do Grande ABC), Roberto Elísio dos Santos e Jeroen Klink (professores do IMES), Alexandre Takara (professor da UMESP), Dilma de Melo Silva (professora da ECA/ USP), escritores e alunos do curso de mestrado do IMES. A coordenação coube ao prof. Luiz Roberto Alves, que agradeceu aos participantes a oportunidade de debater e refletir sobre políticas públicas de cultura e educação, e propôs uma análise de como estas políticas acompanham as demais políticas regionais ligadas a desenvolvimento, economia etc., por acreditar serem os elementos de cultura e educação os sinais para onde caminha a região.

EXPOSITORES

Diadema – Para Martha de Bethânia, as políticas públicas de cultura de Diadema têm como prioridade as políticas de formação. A compreensão destas políticas está fundada na efetiva participação da comunidade. É através do processo de formação, ou seja, existência de oportunidades e acesso aos instrumentos culturais, que se criam os mecanismos mais eficientes de inclusão

social. Os elementos de cultura são os melhores instrumentos de inclusão social e se o Brasil tivesse investido em Educação e Cultura, a situação estaria bem menos trágica. O ensino público passa por muitas dificuldades. O investimento em educação e cultura deveria ser em torno de 60% do orçamento, mas isso não acontece. Diadema trabalha políticas da periferia para o centro, e não o inverso, como geralmente ocorre. Desde as artes plásticas até teatro e outras linguagens culturais, são oferecidas 6000 vagas nas oficinas. A percepção é que não basta trabalhar, oferecendo políticas voltadas para oficinas culturais, sem que haja a preocupação com as condições sócio-econômicas das pessoas.

Diadema conta hoje com 10 centros culturais, 12 bibliotecas que atendem qualitativamente seus clientes, cerca de 300 mil pessoas da cidade e região.

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Existe também um espaço chamado Casa da Música, um espaço de diagnóstico e sensibilização da comunidade, por meio de seu centro de atendimento integral, que contempla mais de 1.000 pessoas com aulas que vão desde piano, técnica vocal e quase todos os naipes de linguagem musical, com o acompanhamento da vida escolar do aluno. Para atender à demanda de pessoas oriundas de oficinas, que tenham passado pelo processo de sensibilização e não possam continuar com as aulas de piano, violino, teatro etc., surgiu, nesta gestão, a idéia de criar centros permanentes de formação para os alunos que optarem por qualquer uma das linguagens artísticas. Entre os vários grupos que fazem parte desse processo de formação, há também uma videoteca, um centro de memórias, a companhia de dança (que é profissional), uma orquestra sinfônica e o centro da fotografia, onde foi montado um laboratório de ampliação de fotos e revelação. Portanto, a pedra fundamental é essa política de formação com ênfase à cultura e à literatura.

Santo André – Altair José Moreira enfatiza que a formação é, num sentido mais amplo, a oportunidade de as pessoas terem acesso às linguagens artísticas e ao mesmo tempo saírem com subsídio, capacitadas para lerem sua realidade e reconstruir, através disso, uma nova perspectiva e alternativa de vida. Portanto, este trabalho de formação tem o sentido de não apenas saber manusear ou terminar a leitura, mas é a referência que o aprendizado produz para o desenvolvimento não só individual como coletivamente. Nesse sentido, foi criada a Escola Municipal de Iniciação Artística (EMIA). Estas escolas trabalham com crianças na faixa de 5 a 16 anos e funcionam com módulos de acordo com a faixa etária. Existem os módulos de artes plásticas, dança, teatro até serralheria, por exemplo. A estratégia de formação começa com a sensibilização das crianças, das pessoas na EMIA. No segundo momento, na Casa do Olhar (artes plásticas), na Casa da Palavra (letras) e na Escola Livre (teatro), espaços mais específicos, as pessoas teriam aprofundamento cultural. Cerca de 46% do orçamento da prefeitura são destinados à formação. Existem 22 centros comunitários de médio e grande porte. Esses centros, em sua criação,

tinham a perspectiva esportiva. A partir da gestão de 1989 e 1993, percebeu-se que eles eram locais privilegiados para a processo de descentralização e promoção do acesso às linguagens artísticas.

A grande discussão no processo educativo

baseia-se em culturalizar a educação, olhar a criança ou

pessoa como detentora de um conhecimento. Não tratar os indivíduos de forma autônoma, mecânica. A maior

agressão na escola de educação é sua forma impositiva.

O princípio desta política de formação é a

questão de como reforçar e projetar uma identidade local em virtude dos processos globalizantes. Através da formação e difusão, garante-se que a população tenha acesso à informação e às mudanças tecnológicas.

A escola de formação não precisa se preocupar em formar um artista, o objetivo é sensibilizar o

indivíduo com relação à questão cultural, criar a identidade cultural com o local. É lógico que este acesso propicia a algumas pessoas a profissionalização, o aprofundamento desta linguagem.

O Cine Teatro Carlos Gomes é um bem cultural

da cidade extremamente importante, tombado pelo

prefeito Celso Daniel como patrimônio cultural da

cidade, cuja

expectativa é tornar-se um centro de

formação audiovisual. Existe, ainda, uma biblioteca central, outra regional e dez bibliotecas em centros comunitários. Está em desenvolvimento o programa de leitura voluntária, no qual as pessoas dedicam algumas horas para contar histórias etc., e formam-se leitores voluntários nos centros comunitários. É impressionante como as pessoas da sociedade civil são sensíveis a este chamamento. As pessoas doam seu tempo com um prazer enorme, e já existem crianças de 8 e 9 anos envolvidas neste projeto. Há um fundo de cultura que dá apoio à produção local. Este fundo começou em 1991, timidamente. Na atual administração, o fundo começou a ser usado. Os recursos estão na ordem de 383 mil reais, porque não foram utilizados nas gestões de 1994 a 1997, e são oriundos da arrecadação das bilheterias do teatro e venda de qualquer produto do departamento de cultura pela administração. Os conselheiros de cultura escolhem os projetos que serão beneficiados pelo fundo.

São Bernardo do Campo – Para Júlio Mendonça, São Bernardo e Santo André têm, sob alguns aspectos, uma situação um pouco diferente das demais cidades no

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ABC, por terem já uma tradição anterior, uma política de investimentos em eventos culturais com espaços culturais e teatros voltados para uma programação cultural. Nos últimos anos, Diadema teve uma política cultural bastante voltada para eventos culturais ou pelo menos em parte, sendo importante na formação de público. No caso de Santo André e São Bernardo, mais particularmente neste último, se criam alguns impasses e dificuldades. A Administração de 1989 a 1992 procurou descentralizar alguns programas da secretaria de cultura. Uma das formas, bandeira da administração de 1992,

foi a questão da integração. Luiz Roberto Alves, em seu livro Culturas do Trabalho – comunicação para a cidadania, fala da necessidade

de superar a fragmentação das ações. De 1993 a 1996

ocorreu um refluxo das ações desenvolvidas em São Bernardo do Campo de 1989 a 1992. Ainda assim, alguns avanços feitos na descentralização da atuação da Secretaria foram em parte mantidos, como é o caso do projeto da terceira idade que foi criado durante a administração de 1989 a 1992 e teve continuidade na gestão posterior. O grupo Viver Bem a Idade permanece atuante até hoje. Uma linha de atuação estabelecida durante aquela administração é a questão da articulação, da difusão, da formação e da informação. O objetivo é estender esta linha norteadora de difusão, informação e formação a projetos especiais como, por exemplo, o projeto Terceira Idade, a programação de oficinas e palestras no Espaço

Henfil.

A Mostra do Cinema Brasileiro,um evento tradicional em São Bernardo do Campo com mais de 20 anos de existência, a partir do ano passado recebeu mais investimentos para contemplar a difusão da produção crescente do Cinema Brasileiro. Com a ampliação do foco, passou-se a investir também na formação de oficinas. Já na amostra deste ano, nas regiões menos centralizadas, os bairros são beneficiados pelo projeto Cine Mambembe. Atualmente, os trabalhos estão sendo

desenvolvidos com o envolvimento de várias secretarias, como é o caso do lixão do Alvarenga, uma região muito extensa, carente, violenta e onde se concentra muita vegetação. As ações foram pactuadas conjuntamente com

anos de experiência comprovam um avanço sobretudo qualitativo, principalmente na área de teatro.

As oficinas de teatro estão mais desenvolvidas;

os grupos que delas surgiram têm se mantido como grupos autônomos, utilizando o espaço da prefeitura para desenvolver seus trabalhos. São Bernardo do Campo tem uma tradição de oferecer espaços para grupos de teatro, não só da cidade, como também da região, pretendendo, no último ano da atual gestão, criar uma política de temporadas de apresentação de teatro com grupos da região, como o circuito de teatro do ABC, que mostrou produções de qualidade na região. Enfim, as experiências e ações que deram maior notoriedade foram a criação de espaços culturais no município, o Cine Teatro Carlos Gomes, a Câmara de Cultura e outros. Houve uma prioridade, nos dois primeiros anos da administração, na reforma do patrimônio, espaços e equipamentos.

Mauá – Na opinião de José Aparecido Barbosa, Mauá

se encontra numa situação caótica em todos os sentidos.

A cidade ficou durante dez anos sem cinema e ainda

não possui teatro. A ênfase do trabalho está em reabilitar, criar uma base para que possamos começar a implantar políticas culturais na cidade.

A gestão da Secretaria da Cultura estava

vinculada à de Educação, que, posteriormente, foi

desmembrada, e as ações estavam mais direcionadas para o esporte.

A Prefeitura não dispõe de espaços e implantou

um programa de recuperação de áreas públicas.

O processo de formação busca, por meio de

oficinas, possibilitar o acesso da juventude à cultura, coisa que não existia. Infelizmente, algumas políticas implementadas

por certos governos têm caráter predatório, o que acaba comprometendo governos futuros, como é o caso de Mauá. As ações estão voltadas para a recuperação de

espaços e criação de alternativas de utilização destas áreas.

A proposta é a construção de um “espaço”, no

sentido de poder sediar alguns eventos, para que a população local tenha acesso a uma diversificação de cultura

a

Secretaria do Meio Ambiente. São Bernardo do Campo compromete um terço

Independente disso, alguns resultados foram obtidos com outros programas. Entre eles, o mais forte

de

seu orçamento com projetos de formação. Hoje existe

é o teatro. Podemos citar, por exemplo, a montagem da

basicamente uma grade de programação e informação que deu início a esse processo de formação. Os nove

peça Auto da Compadecida, encenada e produzida pelos próprios alunos. Como não existe um teatro, o

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Educandário sediou uma temporada e, agora com a descentralização, as apresentações acontecem ao ar livre; desta forma é feita a divulgação das oficinas já existentes. Um dos objetivos deste programa, além de dar acesso à cultura, é tornar os projetos independentes da vontade do governo e sensibilizar a população quanto à importância da cultura.A participação da comunidade é

o eixo de todos os projetos. Mauá conta com uma biblioteca central e três ramais, com acervo estimado em 23.000 livros. Dentro

da biblioteca, foi criado um espaço para debates, onde há palestras e discussões mensalmente.

O Museu, que é a casa da cultura, tem o papel

de resgatar a identidade local, recuperar a história da cidade, preservar o espaço e o patrimônio, e ser o palco

de atividades que possibilitem essa manifestação e criação de novos valores e expectativas culturais.

mostras de teatro. O

teatro é, de fato, um segmento, com tendência a manifestação e ampliação da participação da população. Essa é a linha prioritária na questão da formação: o envolvimento da comunidade nos projetos que estão em desenvolvimento para garantir a continuidade política.

Anualmente, acontecem

DEBATE

O professor Alexandre Takara comentou a

importância que os parâmetros curriculares nacionais dão às humanidades, focalizando a estética da

sensibilidade, política de igualdade e ética de identidade. Na primeira questão, indagou se as Secretarias de Cultura

e Educação, já que ambas constituem interface do

mesmo processo de ensino e aprendizagem, estão sendo administradas de forma integrada.

A segunda questão colocada diz respeito a tempo

e espaço. Considerando o fator tempo e ação cultural,

quais os projetos culturais para o futuro levando-se em conta as descontinuidades políticas administrativas que acontecem de quatro em quatro anos após as eleições?

A terceira pergunta refere-se à sociedade

brasileira. Sendo a sociedade brasileira uma sociedade de classes e portanto uma sociedade de desigualdades

sociais, de que maneira a política cultural visa a atender, ao mesmo tempo, a classe média dos centros das cidades

e população da periferia?

A quarta questão contempla o problema crucial

no século XX: a questão da violência. Há uma

preocupação muito grande com a estetização da

violência, mas não se pensou ainda na cultura como solução do problema. O que se pretende fazer para gerar oportunidade cultural e conseqüentemente propiciar a inclusão social?

A quinta questão tem como preocupação o

preconceito dos habitantes das cidades e da região em

relação aos produtos culturais locais. Até que ponto a profissionalização dos grupos da região é o caminho para acabar ou não com o preconceito?

O circuito do teatro do grande ABC percorreu

os seis municípios, menos Rio Grande da Serra. As realidades culturais variam muito nas cidades. Quando se pensa na gestão pública da cultura em termos de região, observa-se que Diadema não cobra ingressos, e que, por outro lado, Rio Grande da Serra, um município pobre, que não tem recursos para projetos culturais. Em vista disso, a sexta e última questão é: o que fazer para atender as necessidades destes municípios considerando suas realidades e como pensar em termos de uma identidade cultural regional?

Os expositores fizeram as seguintes reflexões sobre as questões levantadas :

Martha de Bethânia – Em relação ao preconceito à produção cultural da região, levanto dúvidas se ele existe ou se existe na verdade uma ausência de um espaço, onde a região possa agir mais. Parece ser mais a falta de mapeamento, de diagnóstico. A região não está mobilizada para ter uma grande agenda que contemple

a produção regional. Não existe o preconceito; é a falta

de articulação, organização e identificação desses talentos, o que significa que a região poderia estar propondo, a exemplo de Diadema, que está lançando um guia, um senso cultural pelo qual a população poderia ter ciência de todos os produtos, os artistas, produtores, equipamentos, manifestações, ou seja, uma radiografia completa das atividades culturais. O profissionalismo não

é a solução, via de regra. Diadema tem contratado grupos de São Bernardo do Campo e de outros municípios que são produtos de oficinas e com bom desempenho.

A questão das desigualdades, Diadema responde

através da gratuidade absoluta, quer seja da difusão, seja

nos equipamentos, ou na divulgação dos produtos culturais. Quanto à descentralização, os grandes eventos que são desenvolvidos nas áreas mais centrais estão sendo levados para as periferias e vice-versa, havendo desta forma uma troca de experiências dos grandes

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produtores com aqueles que estão iniciando agora, o que tem produzido grandes resultados. Quanto à descontinuidade política,

desenvolvem-se estudos para formatar legalmente alguns dos projetos de Diadema, que estão referendados e consolidados com a comunidade: as companhias de dança e teatro, por exemplo, podem ser transformadas em fundações, tendo assim vida própria e independência

de vontade política, ou não podendo ser inativadas com

o término de mandato de governos.

Altair José Moreira – A municipalização pode propiciar

a criação de uma cultura e educação com o jeito de cada

cidade. As administrações e a cultura possuem tempos diferentes. Uma gestão acaba e a cultura permanece, pois sua velocidade de desenvolvimento é bem mais lenta. As administrações não devem implementar políticas de cultura imediatista, ainda mais quando se considera o processo de formação, que deve ser constante.

Educação e Cultura municipalizadas podem, com maior facilidade, desenvolver as identidades das cidades e conseqüentemente das regiões, construindo caminhos que atendam à demanda local independentemente da vontade do governo estatal.

Julio Mendonça – Com base no que foi exposto por Altair José Moreira, a municipalização da Cultura e Educação viabiliza os projetos culturais da região. Por exemplo, em São Bernardo do Campo era muito difícil consolidar um projeto integralmente, pois havia dependência da vontade e disponibilidade estatal.Com

a municipalização, a cultura está mais próxima e inserida

dentro da realidade e identidade local. O trabalho de formação não pode considerar apenas as quatro linhas tradicionais de cultura. Consideremos o exemplo de Diadema, com o hip hop, que surtiu efeitos satisfatórios, mostrando a capacidade dos jovens de reinventar a realidade que vivenciam e de perceber as raízes de seus problemas.

Daniel Lima argumenta que o poder público e

o empresariado em geral não possuem senso

cooperativo: o grande ABC ainda existe só na forma metafórica, pois são sete cidades com realidades e políticas distintas. Com interesse nas articulações de políticas regionais, as questões formuladas por Daniel

Lima foram direcionadas para cada expositor, como segue:

Mauá – Por que os setores de cultura não estabelecem temas-eixo e os transformam em planejamento estratégico dentro das especificidades de cada município, trabalhando conjuntamente de forma empresarial, como, por exemplo, desenvolvendo programas de marketing regionais?

José Aparecido Barbosa – Com relação ao estabelecimento de eixos para trabalhar em conjunto, isso já é feito pela Câmara Regional e pelo Consórcio Intermunicipal. É uma situação nova, como este seminário aqui no IMES, o que possibilita a formação de políticas conjuntas entre os municípios. A orientação tanto do governo, quanto do prefeito, é de estabelecer eixos que possam ser trabalhados regionalmente, salvo as diferenças pertinentes a cada cidade. Talvez, a partir deste seminário, surja uma base para a integração regional. Os eixos pragmáticos são aspectos pensados em conjunto pelos orgãos como Câmara Regional, Agência de Desenvolvimento e Consórcio Intermunicipal. Se as prefeituras desenvolverem políticas distintamente, estarão competindo com estes órgãos. Cabe ao governo municipal executar e implementar as políticas estudadas e desenvolvidas por estes orgãos regionais.

São Bernardo do Campo – Por que não se trabalha mais no sentido da sinergia, de haver integração entre as escolas particulares e empresas de grande, médio e pequeno porte para estarem mais próximos da comunidade na formação desses projetos culturais?

Júlio Mendonça – Em relação à integração do Setor Público, no caso do Departamento de Cultura junto ao empresariado, como primeira dificuldade temos a formação no funcionalismo. A maioria dos funcionários é formada na área humanística, não há muita ligação com marketing. Estamos procurando fazer cursos, entender melhor as leis de incentivo à cultura, etc; mas quanto à questão da regionalização, eu gostaria de trazer novamente à tona que os municípios, por mais que se

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preparem para enfrentar essa questão, tenho a impressão de que não teriam muito sucesso. Os problemas que os municípios estão enfrentando são mais ou menos comuns, de forma regional, mas é como José Aparecido comentou: Mauá não tem o parque industrial igual ao de São Bernardo do Campo, mas a realidade é que grandes empresas, sejam nacionais ou multinacionais, apóiam projetos culturais; a maioria das vezes, porém, são projetos de grande valor e custo, o que infelizmente está longe da realidade local. Como exemplo, temos o projeto Nova Vera Cruz, cujos incentivos são bem modestos; até a Volkswagen, que fica sediada na cidade, vem diminuindo o seu incentivo ao projeto. A saída está no diálogo para se achar novas soluçoes regionais, traçar metas e executá-las da melhor forma possível. Gostaria de aproveitar para elogiar novamente essa iniciativa do IMES.

Santo André – Quais os efeitos da globalização cultural para a nossa região, historicamente fragmentada pelos imigrantes que aqui se instalaram e que, salvo algumas exceções, não contribuiram muito com a região quanto ao aspecto de cidadania e não corporativismo nas fábricas?

Altair José Moreira – Os efeitos da globalização em Santo André, que acompanham a evolução e os efeitos do capital, trouxeram um desafio: pensar em políticas públicas para o futuro. As indústrias de automóveis não são mais as grandes promotoras de empregos no Grande ABC, o setor de serviços e o de entretenimento são as novas formas. As cidades foram surpreendidas pela globalização. Podemos apontar o êxodo industrial decorrente da guerra fiscal, os produtos importados mais baratos que os nacionais e o fechamento de empreendimentos/ empresas scom muita facilidade. Hoje, existem identidades com características locais que podem ser mundiais. O sentimento que se tem numa região pode ser o mesmo no mundo inteiro, há mais agilidade na comunicação e circulação de valores, mas um dado é muito animador: o Brasil é o terceiro mercado mundial que consome sua própria cultura.

Diadema – O que seria de Diadema sem o aporte da cultura, no tocante à violência, considerando que a cultura

é um elemento fundamental para a consolidação do equilíbrio social?

Martha de Bethânia – As políticas culturais, em todas

as suas formas, têm contribuído bastante para melhorar os índices de violência. Juntamente com outros

programas das demais Secretarias, estas políticas fazem parte da sinergia dessa gestão, a exemplo da urbanização de favelas, entre outras. Diadema, sem essas políticas culturais e outras que vêm sendo desenvolvidas, estaria pior do que antes.

A população sempre tende a crescer gerando uma

demanda de serviços.

CONCLUSÕES/PROPOSTAS

As Secretarias de Cultura demonstraram grande

preocupação e empenho no desenvolvimento de ações que promovam a Cultura em seus municípios. Todos os municípios caminham para a implementação de políticas que visam à parceria entre comunidade e município, procurando desta maneira atender de forma mais completa a demanda da população e viabilizando seu desenvolvimento sociocultural. Nesse sentido, JORGE ANDRADE (1999) descreve que é fundamental conhecer profundamente a realidade da população a ser atingida, definindo sua situação sócio-econômica-cultural para planejar ações culturais direcionadas, capazes de atender às necessidades humanas e culturais destes grupos.

Para tanto, a cultura de cada local/cidade deve ser minuciosamente estudada, a ponto de identificar quais os anseios e alternativas para a inserção cultural destes indivíduos. JORGE ANDRADE (1999) afirma ocorrer neste processo a transformação do homem, “dar cultura

é fazer crescer, é, conseqüentemente, dar visão, é libertar

a criatividade que existe latente em cada ser”.

O indivíduo inserido promove o processo de

transformação e fortalecimento cultural da sociedade,

onde passa a interagir e otimizar os elementos de comunicação que são indispensáveis na formação da identidade cultural.

No Grande ABC, observa-se portanto uma grande diversificação cultural em decorrência dos