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WEN TZU

A COMPREENSÃO DOS MISTÉRIOS

Lao Tzu (1)

(Traduzido do chinês por Thomas Cleary)

(Apresentamos aqui os dez primeiros capítulos do livro Wen-tzu, A Compreensão dos


Mistérios, de Lao Tzu, editado pela Editora Teosófica, de Brasília-DF, em 2002)

1
Lao-tzu disse:

Há algo, um todo indiferenciado, que nasceu antes do céu e da terra. Ele não
tem forma concreta, apenas imagens abstratas. Ele é profundo, escuro, silencioso,
indefinido, e não escutamos sua voz. Atribuindo um nome a ele, eu o chamarei de
Caminho. (2)

O Caminho é infinitamente elevado, insondavelmente profundo. Incluindo céu


e terra, recebendo daquilo que não tem forma, ele produz uma corrente que flui
ampla e profundamente sem transbordar. Opaco, ele usa a clarificação gradual
através da imobilidade. Quando é aplicado, ele é infinito e não tem dia ou noite; no
entanto, quando é representado, nem sequer enche uma mão.

Ele é restrito mas pode expandir-se, é escuro mas pode iluminar, é flexível
mas pode ser firme. Ele absorve o negativo e emite o positivo, mostrando assim as
luzes do sol, da lua e das estrelas.

As montanhas são altas por causa dele, os oceanos são profundos por causa
dele, os animais correm por causa dele, os pássaros voam por sua causa. Os
unicórnios (3) passeiam por causa dele, as aves fênix erguem seu vôo por causa
dele, e as estrelas seguem suas trajetórias por causa dele.

Ele garante a sobrevivência através da destruição, a nobreza através da


baixeza, o avanço através da retirada. Na antigüidade, os Três Veneráveis
alcançaram a ordem unificadora do Caminho e permaneceram no centro, os seus
espíritos avançaram com a Criação, e assim eles confortaram a todos nos quatro
cantos.

Assim o Caminho realiza o movimento dos céus e a estabilidade da terra,


girando interminavelmente como uma roda, fluindo incessantemente como água. Ele
está presente no início e no final das coisas: quando o vento se ergue, quando as
nuvens se condensam, quando o trovão soa e a chuva cai, ele responde em harmonia
e infinitamente.

Ele devolve à simplicidade o que é esculpido e polido. Ele não se esforça para
fazer isso, mas se une à vida e à morte. Ele não se esforça para expressar isso, mas
transmite virtude. Ele implica uma felicidade pacífica que não tem orgulho, e assim
alcança a harmonia.
Há miríades de diferenças à medida que o Caminho facilita a vida: ele
harmoniza a escuridão e a luz, regula as quatro estações e sintoniza as forças da
natureza. Umedece o mundo vegetal e permeia o mundo mineral. Os animais
crescem, os seus pêlos ficam lustrosos, os ovos dos pássaros não se rompem, os
animais não morrem nos ventres maternos. Os pais não sofrem a dor de perder seus
filhos, os pequenos não têm a tristeza de perder uns aos outros. As crianças não
ficam órfãs, as mulheres não ficam viúvas. Os sinais atmosféricos de mau agouro não
são vistos, assaltos e banditismo não ocorrem. Tudo isso é provocado pela virtude
interior.

O Caminho natural e constante faz os seres nascerem mas não os possui, ele
produz a evolução mas não a governa. Todos os seres nascem dependendo dele,
porém nenhum sabe agradecer-lhe; todos morrem por causa dele, porém nenhum
pode ter ressentimento contra ele. Ele não é enriquecido pelo estoque e pela
acumulação, e tampouco empobrece por desembolsar e aproveitar.

Ele é tão incompreensível e indefinível que não pode ser imaginado, porém,
enquanto é incompreensível e indefinível, a sua função é ilimitada. Profundo e
misterioso, ele responde à evolução sem forma; bem-sucedido e eficiente, ele não
age em vão. Ele se enrola e se desenrola com firmeza e flexibilidade, se contrai e se
expande com escuridão e luz.

2
Lao-tzu disse:

As pessoas grandes são pacíficas e não têm desejos; são calmas e não têm
preocupações. Elas fazem do céu o seu teto e da terra a sua carruagem; fazem das
quatro estações os seus cavalos e a escuridão e a luz são os seus cocheiros. Viajam
onde não há estrada; passeiam por onde não há cansaço, e não partem de portão
algum.

Com o céu como seu teto, nada está sem cobrir; com a terra como sua
carruagem, nada fica sem carregar. Com as quatro estações como seus cavalos, não
há nada que não seja empregado; com a escuridão e a luz como seus cavalos, não há
nada que não esteja incluído. Por isso estas pessoas são rápidas sem hesitação,
viajam longe sem cansar. Com seus corpos imperturbados, seus intelectos não ficam
diminuídos e elas vêem todo o mundo claramente. Isso é manter-se em contato com
a essência do Caminho e observar a ilimitada terra.

Portanto os assuntos do mundo não devem ser planejados artificialmente,


mas promovidos de acordo com sua própria natureza. Nada pode ser feito em relação
às mudanças das miríades de seres, exceto perceber o essencial e voltar a ele.
Portanto os sábios cultivam a base interior e não se adornam externamente com
superficialidades. Eles ativam o seu espírito vital e deixam em repouso as suas
opiniões eruditas. Assim, eles são abertos e livres de artificialidade, porém não há
nada que eles não façam; eles não têm governo, porém não há desgoverno.

Estar livre de artifícios significa não agir antes dos outros. Não ter governo
significa não alterar a natureza. Ausência de desgoverno significa que eles se guiam
pela ajuda mútua dos seres.
3
Lao-tzu disse:

Aqueles que se mantêm no Caminho para guiar as pessoas enfrentam as


questões à medida que elas surgem e agem de acordo com o que as pessoas fazem.
Eles agem conforme a evolução de cada ser e se harmonizam com as mudanças em
todos os acontecimentos.

Assim, o Caminho é vazio e não é coisificado, é equânime e fácil, claro e


calmo, flexível e tolerante, não-adulterado e puro, pleno e simples. Essas são
imagens concretas do Caminho.

A não-coisificação vazia é a moradia do Caminho. O sossego equânime é a


base do Caminho. A calma clara é o espelho do Caminho. A tolerância flexível é a
função do Caminho. A reversão é normal para o Caminho: a flexibilidade é a firmeza
do Caminho; a tolerância é a força do Caminho. A pureza não-adulterada e a plena
simplicidade são o tronco do Caminho.

Ser vazio significa que não há fardo no interior. Ser equânime significa que a
mente está desbloqueada. Quando desejos habituais não são um fardo para você,
essa é a realização do ser vazio. Quando você não tem apegos ou rejeições, essa é a
realização da equanimidade. Quando você está integrado e imutável, essa é a
realização da calma. Quando você não se confunde com as coisas, essa é a realização
da pureza. Quando você não se lamenta nem se delicia, essa é a realização da
virtude.

A orientação das pessoas completas abandona o intelectualismo e afasta o


embelezamento exibicionista. Apoiado no Caminho, ele rejeita a astúcia. Ele emerge
da imparcialidade, em harmonia com as pessoas. Ele limita o que é guardado e
minimiza o que se busca. Ele se livra de desejos sedutores, afasta o desejo por coisas
materiais e diminui a ruminação.

Limitar o que é guardado resulta em clareza, minimizar o que se busca resulta


na obtenção. Portanto, quando o externo é controlado pelo interno, nada é
negligenciado. Se você pode alcançar o centro, também pode governar o externo.

Alcançando o centro, os órgãos internos ficam calmos, os pensamentos são


equilibrados, os tendões e os ossos são fortes, os ouvidos e os olhos têm clareza.

O Grande Caminho é equânime e não está longe de nós. Aqueles que o


buscam longe vão e depois voltam.

4
Lao-tzu disse:

A sabedoria nada tem a ver com governar os outros, mas é uma questão de
ordenar a si mesmo. A nobreza nada tem a ver com poder e posição social, mas é
uma questão de auto-realização; obtenha a auto-realização e o mundo inteiro poderá
ser encontrado dentro de você. A felicidade nada tem a ver com riqueza e posição
social, mas é uma questão de harmonia.
Aqueles que sabem o suficiente para considerar o ser interior como
importante e o mundo como secundário estão perto do Caminho (4). Portanto eu
digo: “Alcançando o extremo do vazio, mantendo-me totalmente imóvel enquanto
miríades de seres agem em concerto, assim eu observo o retorno”.

O Caminho molda miríades de seres, mas é sempre sem forma. Silencioso e


imóvel, ele inclui totalmente o desconhecido indiferenciado. Nenhuma vastidão é
suficientemente grande para estar fora dele, nenhuma pequeneza é suficiente
pequena para estar dentro dele. Ele não tem casa mas dá origem a todos os nomes
do que existe e do que não existe.

As pessoas verdadeiras corporificam isso através de uma vacuidade aberta,


de um sossego equânime, uma clara limpeza, uma tolerância flexível, uma pureza
não-adulterada e uma plena simplicidade, sem confundir-se com as coisas. A sua
perfeita virtude é o Caminho do céu e da terra, por isso elas são chamadas de
pessoas verdadeiras.

As pessoas verdadeiras sabem de que modo considerar o ser interior como


grande e o mundo como pequeno. Elas preferem o autogoverno e desprezam o ato de
governar os outros. Elas não deixam que as coisas perturbem a sua harmonia, e não
permitem que desejos desorganizem os seus sentimentos. Ocultando seus nomes,
elas se escondem quando o Caminho é acatado e aparecem quando ele não o é. Elas
agem sem artifícios, trabalham sem esforço e sabem sem intelectualizar.

Apreciando o Caminho do céu, aceitando o coração do céu, as pessoas


verdadeiras respiram escuridão e luz, exalando o velho e inalando o novo. Elas se
fecham com a escuridão e se abrem com a luz. Elas se enrolam e se desenrolam
junto com a firmeza e a flexibilidade, se contraem e se expandem junto com a
escuridão e a luz. Elas têm a mesma mente que o céu, o mesmo corpo que o
Caminho.

Nada as agrada, nada é penoso para elas, nada as delicia e nada as irrita.
Todas as coisas são misteriosamente iguais, não há nem certo nem errado.

Aqueles que são fisicamente feridos pela tortura das condições climáticas
extremas percebem que o espírito é sufocado quando o corpo fica exausto. Aqueles
que são psicologicamente feridos pela aflição das emoções e dos pensamentos
percebem que o corpo é abandonado quando o espírito fica exausto. Portanto, as
pessoas verdadeiras retornam deliberadamente à essência, confiam no apoio do
espírito, e assim alcançam a plenitude. Deste modo elas dormem sem sonhos e
despertam sem preocupações.

5
Quando Confúcio perguntou-lhe sobre o Caminho, Lao-tzu disse:

Endireite seu corpo, unifique sua visão, e a harmonia do céu chegará.


Concentre seu conhecimento, corrija sua capacidade de avaliar, e o espírito virá para
ficar. A virtude será receptiva para você, o Caminho estará à sua disposição.

Olhe diretamente para a frente como um bezerro recém-nascido, sem


procurar as razões; deixe que o seu corpo seja como uma árvore seca e sua mente
como cinzas de um fogo morto. Compreenda o conhecimento autêntico, e não use
raciocínio distorcido. Mantenha-se aberto, despreocupado, e você poderá alcançar
clareza e uma maestria diante de tudo. Como isso poderia ser considerado não-
saber?

6
Lao-tzu disse:

Aqueles que servem à vida se adaptam às mudanças enquanto agem. As


mudanças surgem dos tempos; aqueles que conhecem os tempos não agem de
maneiras fixas. Portanto eu digo: “Os caminhos podem ser guias, mas não trilhas
fixas; os nomes podem servir para designar, mas sem rótulos fixos.”

Os escritos são produzidos por palavras, e as palavras vêm do conhecimento;


os intelectuais não sabem que elas não constituem um caminho fixo. Os termos que
podem ser usados não fazem os livros que são apreciados. Os eruditos chegam a um
impasse uma e outra vez, e isso não é tão bom quanto permanecer centrado. Ponha
um fim ao exagero da teorização e não haverá preocupações, acabe com a astúcia,
abandone o conhecimento e o povo se beneficiará cem vezes mais.

Os seres humanos são tranqüilos por nascimento; essa é a natureza celestial.


Percebendo as coisas, eles agem; assim é o desejo natural. Quando as coisas vêm a
eles, eles respondem; essa é a ação do conhecimento. Quando o conhecimento e as
coisas interagem, surgem as preferências e as aversões. Quando se formam as
preferências e as aversões, o conhecimento vai para as coisas externas e não pode
voltar ao ser interior, e assim o plano celestial desaparece.

Portanto os sábios não substituem o que é celestial pelo que é humano.


Externamente eles evoluem junto com as coisas, porém, internamente eles não
perdem sua verdadeira condição. Assim, aqueles que compreendem o Caminho
retornam à clara tranqüilidade. Aqueles que compreendem as coisas se afastam dos
artifícios. Eles alimentam a inteligência através da calma, unificam o espírito através
da abstração e avançam para o portão do nada.

Aqueles que seguem o céu viajam com o Caminho, aqueles que seguem os
humanos se misturam com o que é vulgar. Portanto os sábios não deixam que o
trabalho perturbe o mundo e não deixam que os desejos confundam os sentimentos.
Eles fazem o que é adequado sem produzir esquemas, eles inspiram confiança sem
falar. Eles têm êxito sem pensar sobre isso, e vencem sem torcer as coisas para
obtê-lo.

Portanto, quando eles estão acima, o povo não vê o fato como uma ameaça, e
quando estão à frente os outros não os atacam. O mundo todo recorre a eles, e o
traidor os teme. Pelo fato de que não brigam com ninguém, ninguém se atreve a
brigar com eles.

7
Lao-tzu disse:
Quando as pessoas perdem sua natureza essencial por seguir desejos, as
suas ações nunca são corretas. Governar uma nação dessa maneira resulta em caos;
governar a si mesmo deste modo resulta em decadência.

Portanto aqueles que não ouvem o Caminho não têm meios de retornar à sua
natureza essencial. Aqueles que não compreendem as coisas não podem ser claros e
calmos.

A natureza essencial do ser humano original não tem perversão ou


degeneração, mas depois de uma longa imersão em coisas ela muda facilmente;
assim nós esquecemos nossas raízes e nos adaptamos à natureza aparente.

A natureza essencial da água gosta de claridade, mas o cascalho a polui. A


natureza essencial da humanidade gosta de paz, mas os desejos habituais a
danificam. Só os sábios podem deixar as coisas e voltar ao ser interior.

Portanto os sábios não usam o conhecimento para explorar as coisas e não


deixam os desejos romperem a harmonia. Quando estão felizes não ficam eufóricos,
e quando sofrem não ficam irremediavelmente abalados. Assim, eles não estão em
perigo mesmo quando em posições elevadas; estão seguros e estáveis.

Desse modo o planejamento imediato ao ouvir boas palavras é algo que


mesmo o ignorante sabe o suficiente para admirar; a ação elevada de acordo com as
virtudes dos sábios é algo que mesmo aquele que não é digno conhece o suficiente
para olhar com satisfação.

Mas enquanto aqueles que admiram isso são muitos, os que o aplicam são
poucos; e enquanto aqueles que olham isso com satisfação são numerosos, os que o
põem em prática são raros. A razão disso é que eles se agarram às coisas e estão
atados ao que é mundano.

Por isso se diz: “Quando eu não planifico nada, as pessoas evoluem por si.
Quando eu não me esforço por nada, as pessoas prosperam por si. Quando eu gozo
de tranqüilidade, as pessoas corrigem a si mesmas. Quando não tenho desejos, as
pessoas são naturalmente sinceras.”

A clara serenidade é a realização da virtude. A tolerância flexível é a função


do Caminho. A calma vazia é o ancestral de todos os seres. Quando esses três são
postos em prática, você entra na condição do que não tem forma. A condição do que
não tem forma significa unidade; unidade significa unir-se com o mundo sem
preocupações.

A prática da virtude não é agressiva; o seu uso não é forçado. Você não vê a
virtude quando a olha, e não a ouve quando tenta escutá-la. Ela não tem forma, mas
as formas nascem nela. Ela não tem som, porém todos os sons são produzidos nela.
Não tem sabor, no entanto todos os sabores se formam nela. Não tem cor, entretanto
todas as cores são feitas nela.

Assim, o ser nasce do não-ser, a realização nasce do vazio. Há apenas cinco


notas musicais, no entanto as variações daquelas cinco notas são tantas que ouvi-las
está além do nosso alcance. Há apenas cinco sabores, mas as variações desses cinco
sabores são tantas que experimentá-las está fora do nosso alcance. Há apenas cinco
cores, mas as variações dessas cinco cores são tantas que vê-las está além do nosso
alcance.

Em relação ao som, quando se estabelece a primeira nota as cinco notas são


definidas. Em relação ao sabor, quando se estabelece a doçura os cinco sabores são
formados. Em relação à cor, quando se estabelece o branco as cinco cores se
formam. Em relação ao Caminho, quando o Uno se estabelece, todas as coisas
nascem.

Portanto, o princípio da unidade é válido em todas as partes. A vastidão do


uno é evidente em todo o céu e em toda a terra. A sua totalidade é sólida como um
bloco não-esculpido. A sua dispersão é total, como no processo da suspensão.
Embora esteja em suspensão, a unidade gradualmente se torna clara; embora seja
vazia, ela gradualmente preenche. Ela é profunda como um oceano, ampla como as
nuvens flutuantes. Ela se parece ao nada, no entanto, existe; ela parece ausente,
porém, está presente.

8
Lao-tzu disse:

A totalidade dos seres passa por uma só abertura; as raízes de todas as


coisas surgem de um só portão. Portanto, os sábios medem uma trilha a seguir uma
só vez e não mudam o que é original nem se alteram em relação ao que é perene. A
liberdade se baseia em seguir a orientação, o tato se baseia na honestidade, a
honestidade se baseia na normalidade.

Contentamento e raiva são desvios do Caminho, ansiedade e lamento são


perdas de virtude, preferências e aversões são excessos da mente, desejos habituais
são pesos para a vida. Quando as pessoas se tornam muito irritadas, isso destrói a
tranqüilidade; quando as pessoas ficam muito contentes, isso elimina a ação
positiva. Com a energia diminuída, as pessoas perdem a fala, ficam espantadas e
assustadas, enlouquecem. A ansiedade e o lamento queimam o coração, e assim a
doença cresce. Se as pessoas puderem libertar-se de tudo isso, poderão unificar-se
com a luz espiritual.

A luz espiritual é a realização do que é interior. Quando as pessoas alcançam


o que é interior, os seus órgãos internos estão calmos, os seus pensamentos são
equânimes, os seus olhos e ouvidos funcionam com nitidez, e seus tendões e ossos
são fortes. Elas são poderosas mas não agressivas, são firmes e fortes porém nunca
se exaurem. Não cometem excesso em nada, e tampouco são inadequadas em coisa
alguma.

Nada no mundo é mais suave do que a água. O caminho da água é


infinitamente largo e incalculavelmente profundo; ele se estende indefinidamente e
flui ilimitadamente longe. O aumento e a diminuição passam sem ser notados. No
alto do céu a água se transforma em chuva e em orvalho; embaixo, na terra, ela se
transforma em umidade e em áreas inundáveis. Os seres não podem viver sem ela, e
os trabalhos não podem ser realizados sem ela. Ela abrange toda a vida, sem
preferências pessoais. A sua umidade alcança até os seres que se arrastam, e ela não
busca recompensa. Sua riqueza torna todo o mundo mais rico, sem que se esgote. As
suas virtudes são usadas pelos agricultores, sem que sejam desperdiçadas. Não há
um final para suas ações. A sua sutileza não pode ser captada. Bata nela, e ela não
fica prejudicada; perfure-a, e não fica ferida; atravesse-a com uma faca, e ela não é
cortada; queime-a, e ela não faz fumaça. Suave e fluida, não pode ser dispersada. Ela
é suficientemente penetrante para perfurar metais e pedras, suficientemente forte
para submergir todo o mundo. Haja excesso ou falta, ela permite que o mundo
receba e dê. Ela é distribuída a todos os seres sem ordem de preferência; não é
privada nem pública, é inseparável do céu e da terra. Isso se chama suprema
virtude.
A razão pela qual a água pode corporificar essa virtude suprema é que ela é
suave e escorregadia. Por isso eu digo que o que é mais suave no mundo dirige
aquilo que é mais duro no mundo, o não-ser não entra em espaço algum.

O que não tem forma é o grande ancestral dos seres, o que não tem som é a
grande fonte das espécies. As pessoas verdadeiras podem comunicar-se com o
diretório espiritual, aqueles que participam da evolução como seres humanos levam
a virtude mística em seus corações e a empregam criativamente como um espírito.

Assim, o Caminho não-falado é de fato grandioso. Ele muda os hábitos e


costumes sem que quaisquer ordens sejam dadas. Ele é só ação mental: todas as
coisas têm resultados, mas ele só vai à raiz; todos os assuntos têm conseqüências,
mas ele só fica pelo portão. Desse modo é possível encontrar o fim do que não tem
fim e o supremo do infinito, perceber

9
Lao-tzu disse:

Aqueles que alcançam o Caminho são fracos em ambição mas fortes no


trabalho, as suas mentes são abertas e suas respostas adequadas. Os que são fracos
em ambição são flexíveis e tolerantes, pacíficos e quietos; eles se escondem na
ausência de possessividade e fingem ser inábeis. Tranqüilos e sem artificialidades,
quando agem, eles não perdem o sentido de tempo.

Portanto a nobreza deve estar enraizada na humildade, o que é elevado deve


estar baseado no que é inferior. Use o pequeno para conter o grande, permaneça no
centro para controlar o externo. Comporte-se com flexibilidade, mas seja firme, e
não haverá poder que você não possa vencer, nenhum inimigo acima do qual você
não possa erguer-se. Responda aos fatos novos, avalie o momento, e ninguém
poderá prejudicá-lo.

Aqueles que quiserem ser firmes devem preservar a firmeza com


flexibilidade; aqueles que quiserem ser fortes devem proteger a força com fraqueza.
Acumule flexibilidade e você será firme, acumule fraqueza e você será forte. Observe
o que os outros acumulam e você saberá quem sobreviverá e quem perecerá.

Aqueles que vencem os que são menores pela força chegam a um impasse
quando encontram outros cuja força é igual à sua. Aqueles que vencem os que são
maiores pela flexibilidade têm um poder que não pode ser medido. Portanto, quando
um exército é forte ele é derrotado, quando uma árvore é forte ela se quebra, quando
o couro é forte ele se rasga; os dentes são mais fortes que a língua, mas são os
primeiros a morrer.

Assim a flexibilidade e a tolerância são os administradores da vida, a dureza e


a força são os soldados da morte. Abrir caminho é a estrada que leva à exaustão,
agir mais tarde é a fonte de êxito.

Manter-se em estreito contato com o Caminho para ser um parceiro da


evolução implica liderar para regular os que seguem, e seguir para regular os que
lideram. O que é isso? Isso significa não perder os meios de regular as pessoas que
não podem controlar a si.
Seguir significa combinar os elementos dos acontecimentos de modo que eles
se harmonizem com o momento. As mudanças no momento não permitem descansar
nos intervalos: se você agir antecipadamente, irá demasiado longe; se agir tarde
demais, não poderá acompanhar os fatos.

À medida que os dias passam e os meses se sucedem, o tempo não se demora


com as pessoas. É por isso que os sábios dão mais valor a um pequeno intervalo de
tempo do que a uma enorme pedra preciosa. O tempo é difícil de achar e fácil de
perder.

Por isso os sábios realizam seus objetivos de acordo com o tempo e levam
adiante suas obras de acordo com os recursos disponíveis. Eles se mantêm no
caminho da pureza e são fiéis à disciplina do feminino. À medida que avançam e
respondem às mudanças, eles sempre seguem e nunca precedem. Flexíveis e
tolerantes, eles são, por isso, calmos. Pacíficos e despreocupados, eles estão, por
isso, em segurança. Aqueles que atacam os grandes e derrubam os poderosos não
podem entrar em conflito com eles.

10
Lao-tzu disse:

Quando uma mente mecânica está oculta no interior, a pura inocência é


adulterada. Quanto àqueles em quem as qualidades espirituais não estão completas,
quem sabe até onde pode ir a destrutividade? Quanto àqueles em cujos corações
todos ao sentimentos maliciosos estão completamente esquecidos, eles poderiam
pegar até um tigre faminto pela cauda, para não falar de outras pessoas.

Aqueles que corporificam o caminho são livres e nunca chegam a um beco


sem saída. Aqueles que se deixam orientar por estratagemas trabalham muito, mas
sem vitórias. As leis rígidas e as punições rigorosas não são obra de grandes líderes;
bater excessivamente no cavalo não é a maneira de chegar a uma longa distância.

Quando as preferências e aversões proliferam, os problemas correm atrás.


Por isso, as leis dos monarcas antigos não eram algo montado artificialmente, mas
estabeleciam aquilo em que todos confiavam; suas proibições e punições não eram
improvisadas, mas estabeleciam aquilo que era obedecido.

Por isso a capacidade de prosseguir com o que já existe leva à grandeza,


enquanto que o artifício leva às coisas pequenas; a capacidade de observar o que já
está estabelecido leva à segurança, enquanto que o artifício leva à derrota.

Aqueles que deixam seus olhos e ouvidos verem e escutarem toda e qualquer
coisa cansam dessa maneira as suas mentes, e assim perdem clareza. Aqueles que
usam a especulação intelectual para exercer controle causam dessa maneira dor às
suas mentes e não realizam nada.

Se você confiar nos talentos de uma só pessoa, será difícil ter êxito; se você
cultivar o talento de uma só pessoa, isso não será suficiente para governar uma casa
e um jardim. Se você seguir a lógica da razão verdadeira e a naturalidade do céu e da
terra, nem o universo inteiro poderá contrariá-lo. Os ouvidos se perdem pelo repúdio
e pelo elogio, os olhos se tornam licenciosos através da cor e da forma. As boas
maneiras são de fato insuficientes para evitar o apego, mas uma mente sincera pode
abarcar o que é largo e o que está longe.
Portanto, nenhuma arma é mais eficiente que a vontade, nenhum bandido é
maior que yin e yang (5). O grande bandido está escondido dentro do corpo e não
fala ponderadamente; o bandido médio se esconde nas montanhas e o pequeno
bandido vive no meio da população. Por isso se diz que quando as pessoas têm muita
astúcia e esperteza acontece grande quantidade de coisas estranhas; quando muitas
leis e decretos são promulgados, há muitos ladrões e bandidos. Liberte-se de tudo
isso e as calamidades não ocorrerão. Assim, governar uma nação através da astúcia
prejudica a nação, e não governar a nação através da astúcia é benéfico para ela.

Aquilo que não tem forma é grande, o que tem forma é pequeno; o que não
tem forma é muito, o que tem forma é pouco. O que não tem forma é poderoso, o que
possui forma é fraco; o que não tem forma é substancial, o que tem forma é vazio. O
que tem forma realiza os trabalhos, o que não tem forma inicia os começos. Aquilo
que realiza os trabalhos produz instrumentos, aquilo que inicia os começos é
imaculado. O que possui forma tem som, o que não possui forma não tem som. O que
tem forma nasce do que não tem forma, assim, o que não tem forma é o começo do
que tem forma.

A amplidão e a riqueza são famosas; o que é famoso é considerado nobre e


completo. A frugalidade e a austeridade não têm nome; o que não tem nome é
considerado baixo e insignificante. A riqueza é famosa, e o que é famoso é honrado e
favorecido. A pobreza não tem nome; o que não tem nome é desprezado e
considerado sem valor. O masculino tem fama, o que é famoso é exaltado. O
feminino não tem nome, o que não tem nome é oculto. A abundância é famosa, e
aquilo que é afamado recebe posição de destaque. A escassez não tem nome, e o que
não tem nome recebe posição sem destaque. O que tem mérito possui um nome; o
que não tem mérito não possui um nome.

O que tem nome nasce do que não tem nome; o que não tem nome é a mãe do
que tem nome. No Caminho, a existência e a não-existência produzem uma à outra, a
dificuldade e a facilidade criam uma à outra. Por isso os sábios se mantêm ligados à
calma aberta e à sutileza do Caminho, e desse modo aperfeiçoam as suas virtudes.
Assim, quando alguém tem o Caminho, tem a virtude; quando alguém tem a virtude,
tem o mérito; quando alguém tem o mérito, tem fama; quando alguém tem fama,
retorna ao Caminho, e então o mérito e a fama duram para sempre, e nunca haverá
culpa em toda a vida.

Os reis e os senhores têm fama por suas obras; os órfãos e os pobres não têm
fama por suas obras, por isso os sábios referem a si mesmos como solitários e
pobres, e retornam à raiz. As suas obras são realizadas sem possessividade, de modo
que a não-vitória é considerada benéfica, enquanto que a ausência de um nome é
considerada útil.

Nos tempos antigos as pessoas eram inocentes e não sabiam distinguir o


oriente do ocidente. Não havia disparidade entre suas aparências e seus
sentimentos, ou entre suas palavras e suas ações. As ações delas surgiam sem
ornamentação, o que diziam não era embelezado. As suas roupas eram quentes mas
não coloridas, as suas armas eram cegas, sem fio. Seus movimentos eram lentos, seu
olhar era vago. Elas cavavam poços para beber, aravam as terras para comer. Não
distribuíam mercadorias e não buscavam recompensas. Os mais elevados e os
inferiores não derrubavam uns aos outros, os longos e os curtos não definiam uns
aos outros.

Os costumes que são equivalentes no uso comum podem ser seguidos, o


trabalho que é possível para todos pode ser realizado facilmente. As artificialidades
pretensiosas que enganam a sociedade e o comportamento perigoso que ilude as
massas não são empregados pelos sábios para popularizar os bons costumes.
(1) Lao-tzu, o mesmo que Lao-tsé. “Lao-tzu” é a transliteração adotada mais
recentemente para o nome do fundador do taoísmo. (N. ed. bras.) Voltar.

(2) O Caminho, o Tao, o princípio supremo. (N. ed. bras.) Voltar.

(3) Unicórnio: criatura mítica, com corpo de cavalo e um único chifre situado no
centro da testa, que freqüentemente simboliza a pureza e a castidade. (N. ed. bras.)
Voltar.

(4) Isto é, estão perto do Tao, o princípio supremo. (N. ed. bras.) Voltar.

(5) O grande par dialético da tradição chinesa, yin e yang, significa a dualidade
dinâmica do negativo e do positivo, da contração e da expansão, do oculto e do
manifesto, da capacidade de ceder e da capacidade de afirmar. (N. ed. bras.) Voltar.

(Traduzido para o português por Carlos Cardoso Aveline)

FIM