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ISSN 1413-389X Temas em Psicologia - 2013, Vol.

21, nº 1, 105 – 120


DOI: 10.9788/TP2013.1-08

Desempenho Empreendedor nas Indústrias Criativas:


Propondo um Modelo Teórico

Pedro F. Bendassolli1
Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, Brasil
Jairo Eduardo Borges-Andrade
Departamento de Psicologia Social e do Trabalho da Universidade de Brasília,
Brasília, Brasil

Resumo
Nas últimas décadas, cresceu o interesse de governos e instituições de pesquisa com o desenvolvimento
das indústrias criativas. Tratam-se de setores nos quais se produzem bens, produtos e serviços de natu-
reza simbólica e que aliam valor econômico e cultural. No Brasil, já respondem por, aproximadamente,
10% do Produto Interno Bruto, e são importantes empregadores de mão de obra. O papel dos profissio-
nais atuando nestes setores é estratégico, pois são eles que inovam, transformam a criatividade em obras
e serviços de valor, e protagonizam o desenvolvimento desses setores. O objetivo deste artigo é propor
e fundamentar um modelo teórico-preditivo para desempenho empreendedor de profissionais criativos.
O referido modelo baseia-se em uma lógica hipotético-dedutiva e integra, como variáveis antecedentes,
mediadoras ou moderadoras, os constructos: individualismo e coletivismo, centralidade do trabalho,
autorregulação, competências empreendedoras, setor de atividade e variáveis demográficas. Além de
detalhar, teórica e operacionalmente, cada um desses constructos, o artigo traz recomendações para os
pesquisadores interessados no teste empírico do modelo proposto.
Palavras-chaves: Indústrias criativas, desempenho, empreendedorismo, profissionais criativos.

Entrepreneurial Performance in Creative Industries:


Proposing a Theoretical Model

Abstract
In recent decades, governments and research institutes have shown growing interest in the development
of creative industries. These are industries that produce goods, products and services of a symbolic na-
ture endowed with both economic and cultural value. In Brazil, they already answer for approximately
10 percent of the Gross Domestic Product GDP and are important employers. Professionals active in
these industries play an strategic role as they innovate, transform creativity into valuable works and ser-
vices, and lead the industries’ development. This paper aims to provide the fundamentals of a theoretical
model of the entrepreneurial performance of creative professionals. The model is based on hypothetical-
deductive logic and uses the following constructs as antecedent, mediating or moderating variables:
individualism and collectivism, centrality of work, self-regulation, entrepreneurial skills, activity sector,
and demographic variables. In addition to theoretically and operationally discussing these constructs,
the paper offers recommendations for researchers interested in empirically testing the proposed model.
Keywords: Creative industries, performance, entrepreneurship, creative professionals.

1
Endereço para correspondência: Departamento de Psicologia, Centro de Ciências Humanas Letras e Artes,
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Av. Senador Salgado Filho, s/n, Campus Universitário, Lagoa
Nova, Natal, RN, Brasil 59078-970. E-mail: pbendassolli@gmail.com e jairo.borges@gmail.com
106 Bendassolli, P. F., Borges-Andrade, J. E.

Desempeño Emprendedor en las Industrias Creativas: Proponiendo


un Modelo Teórico

Resumen
En las últimas décadas, hubo un aumento del interés por parte de gobiernos e instituciones de inves-
tigación con el desarrollo de las industrias creativas. Estos son sectores en los que se producen bienes
y servicios con un carácter simbólico, y que combinan el valor económico y cultural. En Brasil, estos
sectores representan aproximadamente 10% del PIB, y son importantes empleadores. El papel de los
profesionales que trabajan en estos sectores es de gran importancia, ya que son ellos los que, a través de
su desempeño, innovan, transforman la creatividad en obras y servicios de valor, siendo los protagonis-
tas del desarrollo de estos sectores. El objetivo de este trabajo es proponer y justificar un modelo teórico
de lo desempeño de los profesionales creativos. El modelo se basa en una lógica hipotético-deductivo y
integra, como variables independientes, de mediación y moderación, los constructos: individualismo y
el colectivismo, centralidad del trabajo, autorregulación, habilidades emprendedoras, lo sector de activi-
dades y variables demográficas. El artículo presenta recomendaciones para los investigadores interesa-
dos en la prueba empírica del modelo propuesto.
Palabras clave: Industrias creativas, rendimiento, la iniciativa empresarial, los profesionales creativos.

O objetivo deste artigo é propor um modelo samente de inovação e do desenvolvimento de


teórico sobre desempenho empreendedor para novas obras, bens e serviços criativos (Caves,
profissionais atuando no contexto das indústrias 2000). Segundo, esse mesmo contexto de atu-
criativas. Ao fazê-lo, o artigo espera disponibili- ação leva o profissional a arranjos dependentes
zar hipóteses para pesquisas empíricas sobre este do trabalho autônomo. Na literatura, ambas es-
tema por pesquisadores da administração ou da sas características, inovação e trabalho autôno-
psicologia. mo, são apontadas como importantes caracte-
A utilização do termo empreendedor, con- rísticas de empreendedorismo (Baron & Shane,
juntamente a desempenho, remete ao fato de que 2008; Schumpeter, 1934; Shane, 2003; Shane &
os profissionais atuando nas indústrias criativas Venkataraman, 2000). Em terceiro lugar, o tra-
são convocados a assumirem uma orientação balho autônomo pode igualmente ser observado
empreendedora em sua atuação (Beugelsdijk & quando o profissional lança-se à abertura de uma
Maseland, 2011; Ellmeier, 2003; Hartley, 2005; nova empresa, sendo este outro aspecto utilizado
Poettschacher, 2005; Welsch & Kickul, 2001). para se definir empreendedorismo, embora não
Ser empreendedor, no contexto em questão, inexoravelmente, pois, em vez de abrir uma em-
envolve a ação de combinar duas ordens de re- presa, o empreendedor pode fazer uso de meca-
cursos: de um lado, o recurso criativo; de outro, nismos de mercado, como licenças ou copyright
o recurso econômico (Caves, 2000; De Bruin, (Davidsson, 2005; Shane, 2003; Towse, 2010).
2005; Eikhof & Haunschild, 2007; Towse, 2010, Pensando na Psicologia Organizacional e do
2011). O primeiro diz respeito à geração de Trabalho (POT), o desempenho é um constructo
ideias, à concepção de obras, bens ou serviços multinível e multicausal complexo que respon-
de valor estético; o segundo envolve processos de pelos resultados esperados de um profissional
de adição de valor a estas mesmas obras, bens e (Coelho, 2009; Sonnentag & Frese, 2002; Son-
serviços. nentag, Volmer, & Spychala, 2008). No nível
O profissional criativo é também convocado micro, o desempenho é uma das mais importan-
a ser empreendedor em função de outros aspec- tes variáveis de comportamento individual nos
tos. Primeiro, ele atua em um setor que, apesar contextos de trabalho. Consiste em ações do in-
de sua ampla heterogeneidade, depende exten- divíduo com vistas à realização de tarefas e ao
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alcance de objetivos. Por esse motivo, a litera- do empreendedor. Características/traços de per-


tura recente da POT tem tratado o desempenho sonalidade (Envick & Langford, 2003; Kets de
com base em teorias da ação e da regulação do Vries, 1977), lócus de controle (Korunka, 2003;
self (Frese & Zapf, 1994), sendo esta a linha ado- Rauch & Frese, 2000), necessidade de realiza-
tada neste artigo. ção (McClelland, 1961), auto-eficácia (Bandura,
Do ponto de vista teórico, o uso de teorias 1997); atitude empreendedora (Ajzen, 2002; Lo-
da regulação do self parte da premissa de que pez & Souza, 2006), processos cognitivos (Ba-
o desempenho está sob controle do indivíduo ron, 2000), intenção empreendedora (Krueger,
(Campbell, McCloy, Oppler, & Sager, 1993), Reilly, & Carsrud, 2000), capacidade de iden-
sendo este a agência que identifica oportunida- tificar oportunidades (Gaglio & Winters, 2009),
des, organiza (organizing), conecta (enactment) entre diversos outros preditores, estão entre os
recursos e pessoas, corre riscos, inova (Frese, investigados e podem ser associados a classes
2007, 2009; Shane, 2003). Isso, obviamente, não de variáveis de nível individual. Mais recente-
implica em negar a influência de variáveis con- mente, a área tem ampliado seu foco, incluindo
textuais, mas em assumir que o self é o agente outras classes de variáveis, como transculturais
causal que age e considera as reações que seus (Mitchell, Smith, Seawright, & Morse, 2000) e
comportamentos provocam no ambiente. Tam- redes sociais (Acs & Audretsch, 2010; Aldrich
bém implica em diferenciar, na conceituação de & Whetten, 1981). Esta ampliação reconhece o
desempenho, processo e resultado (Campbell empreendedorismo como fenômeno multinível
et al., 1993; Sonnentag & Frese, 2002; Toro, (Davidsson & Wiklund, 2007).
1992). Como processo, desempenho diz respeito Como consequência dessa ênfase sobre o
às condições de produção e manutenção do com- indivíduo empreendedor pela POT, sabemos
portamento; como resultado, está relacionado à hoje muito sobre a psicologia individual do em-
avaliação das consequências desses comporta- preendedor e conhecemos diversos preditores
mentos com base em determinados parâmetros para seu comportamento potencial em diversas
de valor. situações e cenários. Porém, estudos voltados
Em geral, quando se considera a literatura para análise de práticas concretas ou compor-
sobre empreendedorismo, desempenho é ope- tamentos empreendedores são menos comuns
racionalizado em função de parâmetros eco- quando comparados à perspectiva mais “menta-
nômicos: abertura de novas empresas (venture lista” presente nos estudos tradicionais da área,
capital); crescimento da empresa ao longo do expressos em constructos como disposições,
tempo; perenidade dessas empresas; número de crenças, representações, atitudes (Bhave, 1994;
empregados; características de trabalho autôno- König, Steinmetz, Frese, Rauch, & Wang, 2007).
mo; lucratividade; introdução de novos produ- Levando em consideração a existência de supor-
tos e tecnologias; aberturas de novos mercados te para esse diagnóstico, tal como se pode con-
(Bjerke, 2007; Carland, Hoy, Boulton, & Car- ferir em revisão recente sobre comportamento
land, 1984; Casson, 2010; Cuervo, Ribeiro, & empreendedor feita por Bird e Schjoedt (2009),
Roig, 2007; Baum, Frese, Baron, & Katz, 2007; pensamos existir uma justificativa para estudar o
Krueger, 2002). Nestes exemplos, o desempe- desempenho empreendedor de um ponto de vista
nho é considerado, às vezes até mesmo con- comportamental, sendo esta a proposta do mode-
fundido, como resultado e sua análise parte de lo a ser aqui desenvolvido.
níveis mais agregados: a empresa, um mercado, O artigo está estruturado em três partes,
uma região, o país. além desta introdução. Na primeira, são apre-
Explicações do desempenho empreendedor sentadas as premissas gerais e os fundamentos
partindo de níveis ou classes de variáveis mais do modelo de desempenho empreendedor pro-
agregadas são de indiscutível importância. Con- posto; na segunda, as definições operacionais
tudo, historicamente, a POT marcou-se sobre- para cada um dos principais constructos que
tudo pelo desenvolvimento de uma psicologia compõem o modelo. O pano de fundo são, a
108 Bendassolli, P. F., Borges-Andrade, J. E.

princípio, as indústrias criativas, mas o modelo nho, tal como se observa nos interesses da subá-
proposto pode aplicar-se a outros setores eco- rea da POT mais próxima da gestão de pessoas,
nômicos. O artigo é finalizado com recomenda- com grande influência nos estudos de desem-
ções concernentes à investigação empírica do penho como resultado (Campbell et al., 1993;
modelo teórico proposto. Sonnentag & Frese, 2002). O modelo pressupõe
a análise de processos cognitivos envolvidos na
Premissas Gerais do Modelo autoavaliação do indivíduo sobre seu próprio
desempenho, o que leva à terceira premissa: de
Estudar o desempenho empreendedor, da que o desempenho tem um valor autorregula-
forma como acaba de ser sugerida, implica em tório para a ação do sujeito (Frese, 2007, 2009;
adotar algumas premissas. Em primeiro lugar, de Frese & Zapf, 1994). Como consequência, no
que são os comportamentos que compõem a base modelo aqui proposto (Figura 1), o desempenho
do desempenho, especificamente o desempenho empreendedor é relacionado a mecanismos de
de tarefa (Campbell et al., 1993; Sonnentag & autorregulação, especificamente os envolvidos
Frese, 2002). Em outras palavras, a atividade na regulação self-tarefa. Serão apresentados, ao
criativa depende da ação de profissionais que se- longo do artigo, argumentos para fundamentar
jam capazes de realizar tarefas que possam ser esta escolha. Porém, devido à amplitude da self
consideradas como empreendedoras. psychology, o escopo se restringirá ao subcon-
Uma segunda premissa é de que, ao estudar junto desta literatura mais diretamente envolvido
os comportamentos que compõem o desempe- com a autorregulação cognitiva do self, sobretu-
nho, não necessariamente isto precisa ser feito do porque há evidências que parecem justificar
com base em medidas de avaliação de desempe- essa opção (Frese, 2007, 2009; Hacker, 2003).

Fatores ambientais

Setor de atividade

Fatores culturais

Individualismo e coletivismo
Centralidade do trabalho Competências
empreendedoras Desempenho
Autorregulação
empreendedor
Fatores demográficos

Experiência na área
Idade
Gênero

Figura 1. Modelo conceitual sobre desempenho empreendedor nas indústrias criativas.

A quarta premissa do modelo é que o me- dicam sugestões sobre como o sujeito deve agir
canismo de autorregulação é influenciado por com relação a si mesmo, aos outros, ao trabalho
fatores de natureza cultural. De fato, é extensa a e à sociedade em seu sentido mais amplo. Em
literatura que dá suporte à associação entre self e específico, o modelo utiliza dois elementos cul-
cultura, como se verá mais adiante. O self, ape- turais: individualismo/coletivismo e centralida-
sar de depender de mecanismos intrapsíquicos, é de do trabalho.
construído em processos de interação, os quais Por fim, o modelo inclui a variável compe-
são mediados pela cultura, entendida como um tências empreendedoras (T. W. Y. Man & Lau,
conjunto de marcadores ou canalizadores que in- 2000; W. T. Man, 2001), assumindo que ela faz
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a mediação entre o mecanismo de autorregula- Coelho, 2009). Segundo, trata-se de um fenôme-


ção e o desempenho empreendedor. Tal papel no com distintas classes de preditores. Em par-
atribuído às competências na predição do de- ticular, três linhas serão aqui destacadas: a das
sempenho possui respaldo na literatura da POT, diferenças individuais; a situacional; e a linha da
como será detalhado adiante. Por fim, setor de regulação da ação.
atividade é suposto como variável moderadora A linha das diferenças individuais estipula
de desempenho empreendedor, sendo um ele- que o desempenho varia em função das diferen-
mento do ambiente, cujas configurações ao nível ças entre preditores intraindividuais, sendo os
da organização da atividade influenciam na pro- principais: personalidade, experiência, habilida-
dução e comercialização de obras, bens e servi- des cognitivas, motivação e autoeficácia (Coe-
ços criativos. lho, 2009; Sonnentag & Frese, 2002). A segunda
linha de resposta sugere que fatores situacionais
Componentes Teóricos do Modelo são decisivos para a variabilidade do desempe-
nho. Atenção é aqui direcionada para fatores do
Nesta seção serão apresentados, respecti- ambiente, tais como qualidade de relacionamen-
vamente, o constructo desempenho empreen- tos, clareza de papéis, disponibilidade de recur-
dedor; self, autorregulação e fatores culturais sos, cultura organizacional e nacional. Resulta-
(individualismo/coletivismo e centralidade do dos empíricos de pesquisas apresentam relações
trabalho); e o constructo competências empre- que variam de fraca a moderada intensidade en-
endedoras. Além de desenvolver tais construc- tre níveis de desempenho e variáveis sugeridas
tos e de propor definições operacionais para nessa linha (Sonnentag & Frese, 2002; Sonnen-
cada um, também são sugeridas hipóteses ou re- tag et al., 2008). Na literatura brasileira, estudos
lações esperadas entre eles no modelo proposto. mostram relações entre suporte à aprendizagem e
suporte à transferência de treinamento e desem-
Desempenho Empreendedor penho, tratando-os como preditores relacionais
Para facilitar sua apresentação, o constructo (Abbad, Freitas, & Pilati, 2006; Coelho, 2009).
desempenho empreendedor será, didaticamente, A terceira linha associa o desempenho à cadeia
desdobrado em dois de seus componentes: de- de ações intencionais do sujeito, submetidas a
sempenho propriamente dito e empreendedoris- processos de autorregulação. A particularidade
mo. Ambos são contextualizados no ambiente desta linha é enfatizar os processos de regulação
das indústrias criativas. e controle, emocional, energético, perceptivo,
Desempenho refere-se ao conjunto de com- acionados no nível individual por ocasião do de-
portamentos ou ações necessário à realização de sempenho (Frese & Zapf, 1994; Roe, 1999).
tarefas, sendo aqui considerado do ponto de vista No que diz respeito ao empreendedorismo,
do processo, diferenciando-se de resultado. Essa tentativas de definição podem ser encontradas
descrição é compatível e coerente com a litera- na literatura, embora não sejam consensuais
tura atual da área (Borman & Motowidlo, 1997; (eg.: Baum et al., 2007; Davidsson, 2005; Gar-
Campbell et al., 1993; Griffin, Neal, & Parker, tner, Shaver, Gatewood, & Katz, 1994; Low &
2007; Ramos, Gracia, & Peiró, 2002; Roe, 1999; MacMillan, 1988). Empreendedorismo é asso-
Sonnentag & Frese, 2002; Sonnentag et al., ciado à inovação (Schumpeter, 1934), incerteza
2008; Toro, 1992). (Cantillon, 1755; Knight, 1921; Say, 2003) e ris-
O desempenho como processo possui duas co (Mill, 1898). Por sua vez, o empreendedor é
principais características (Sonnentag & Frese, destacado como alguém capaz de tomar decisões
2002). Primeiro, é um constructo multideter- e, uma vez tomadas, de saber implementá-las
minado, dinâmico e multicausal, levando à ne- por meio de organização de pessoas e recursos
cessidade de explicações a partir de classes de (Casson, 2010). Na Escola Austríaca, o empre-
variáveis individuais, relacionais, grupais e or- endedor é compreendido como alguém capaz de
ganizacionais (Abbad, Lima, & Veiga, 1996; identificar oportunidades ainda não exploradas
110 Bendassolli, P. F., Borges-Andrade, J. E.

(Kirzner, 1979). Nesse último sentido, o empre- De fato, nas indústrias criativas, empre-
endedorismo diz respeito à atividade de desco- endedorismo é objeto de investigações (e.g.:
berta, avaliação e exploração de oportunidades Beugelsdijk & Maselard, 2011; Caves, 2000;
existentes, sendo a tarefa dos pesquisadores es- Ellmeier, 2003; Hartley, 2005; Henry, 2007; Po-
tudar as fontes dessas oportunidades, seu proces- ettschacher, 2005; Towse, 2010; Welsch & Ki-
so de descoberta e exploração e as características ckul, 2001). O empreendedor cultural é definido
dos indivíduos responsáveis por isso (Baron & como alguém que desenvolve novas formas de
Shane, 2008; Shane, 2003; Shane & Venkata- trabalhar, novas combinações de recursos, novas
raman, 2000). A POT, como dissemos na intro- ideias e soluções. De Bruin (2005) define o em-
dução, tradicionalmente ocupou-se desta última preendedorismo nas indústrias criativas como o
linha, ou seja, do estudo das características ou da processo de adicionar valor aos inputs criativos,
psicologia do empreendedor (Baum et al., 2007; o qual depende da combinação de duas lógicas:
Frese, 2007, 2009). econômica e cultural (Beugelsdijk & Mase-
Um aspecto que talvez contribua para a land, 2011; Eikhof & Haunschild, 2007; Towse,
falta de consenso supramencionada é a escolha 2010). Atuando em um ambiente de incerteza e
de critérios para a identificação do empreende- risco (Caves, 2000; Menger, 2009), o empreen-
dor e dos indicadores de resultados da atividade dedor criativo é quem identifica oportunidades
empreendedora. Empreendedor é distinguido do de introduzir novas obras, produtos e serviços
pequeno proprietário e do capitalista com base que tenham valor econômico e cultural. Contu-
em capacidade inovadora ou características de do, conforme nos adverte De Bruin (2005), nem
personalidade, levando Carland et al. (1984) e sempre um artista é um empreendedor. Para sê-
Miner (2000) a falarem de contínuo de empre- -lo, é preciso que ele vá além da criação de novas
endedorismo. A utilização de parâmetros eco- ideias, algo frequentemente atribuído ao artista:
nômicos é frequente para se avaliar o resultado é preciso que ele saiba explorar o valor econômi-
obtido pelo desempenho do empreendedor, tais co, social e cultural dessas ideias.
como abertura da uma nova empresa ou entra- Em conjunto, os estudos sobre empreende-
da em novo mercado, lucratividade, número de dorismo nas indústrias criativas reproduzem a
patentes, novas formas de usar matérias-pri- definição de empreendedor encontrada na lite-
mas, introdução de novas tecnologias (Baron ratura sobre empreendedorismo mais ampla, tal
& Shane, 2008; Baum et al., 2007; Vesper, como a consideração do empreendedor como um
1980). Para Davidsson (2005) e Gartner et al. ator social ativo, como a agência que, por meio
(1994), a análise dos resultados da atividade de seu desempenho, contribui para o desenvol-
empreendedora deveria levar em conta, além vimento de novas formas de combinar recursos
de parâmetros econômicos, as ações realizadas culturais e econômicos. Nesse sentido, os auto-
pelos indivíduos que induzem à emergência res deste artigo compartilham da definição de Fi-
de novos produtos, serviços ou formas de or- lion (1999), para quem o empreendedor é a pes-
ganizar recurso. Similarmente, Shane (2003), soa capaz de estabelecer e atingir objetivos e de
Shane e Venkataraman (2000) observam que manter um alto nível de consciência do ambiente
o empreendedorismo não deveria ser associa- em que atua. O desempenho empreendedor, na
do, exclusivamente, à abertura de novas em- medida em que é distinguido de resultados em-
presas, mas à exploração de oportunidades preendedores (novas obras, produtos e serviços
de forma inovadora e à proposição de novas culturais), depende de um agente que estabele-
combinações meios-fins, cujo valor comercial ça objetivos a partir da leitura do ambiente e de
dependeria do uso de mecanismos de mercado suas oportunidades, automonitore e autorregule
tais como patentes ou licenças (e não apenas seu desempenho com o intuito de alcançar esses
de uma nova firma). Isso parece especialmente objetivos. Isto leva ao segundo constructo central
oportuno quando pensamos no contexto das in- do modelo da Figura 1: a autorregulação do self e
dústrias criativas. sua relação com desempenho empreendedor.
Desempenho Empreendedor nas Indústrias Criativas: Propondo um Modelo Teórico 111

Autorregulação, Cultura e Desempenho pulsos e de comportamentos indesejáveis, e a


Empreendedor otimização do próprio desempenho (Baumeister
& Finkel, 2010). As raízes desse constructo re-
A tradição de estudos sobre o self é antiga
montam às teorias da aprendizagem (por exem-
na psicologia, em particular na psicologia so-
plo, da aprendizagem social – Bandura, 1986).
cial. Historicamente, James (1890) foi um dos
A manifestação do comportamento, definido
primeiros a utilizar este conceito, distinguindo o
como autodirecionado e volitivo, pressupõe a
eu [I] e o mim [me]. Enquanto o primeiro é o
existência de um agente capaz de automonito-
agente ativo que conhece, o segundo (o mim) é
ramento e autodesenvolvimento. Tal constructo
produto de socialização, corporificado em diver-
é também influenciado pela teoria cibernética,
sos atributos internalizados e reconhecidos pelo
especificamente pela importação do conceito de
eu [self] como seus. Distinção similar é realizada
ciclo fechado de feedback, pelo qual o indivíduo
por Mead (1934), no curso do desenvolvimen-
compara estados correntes do self com padrões
to da teoria do interacionismo simbólico, para a
internalizados, obrigações e ideais. Caso essa
qual o self é construído nas interações que o in-
comparação ou teste produza um resultado insa-
divíduo estabelece com outros significativos, no
tisfatório, inicia-se uma fase de correção e mo-
marco de significados culturais compartilhados.
nitoramento.
Para Mead, o self é um agente reflexivo capaz
A hipótese assumida no modelo ilustrado
de observar, planejar e responder a seu próprio
na Figura 1 é de que o mecanismo de autorre-
comportamento. Ao mesmo tempo, o self (mais
gulação desempenha um papel no desempenho
especificamente, o mim) envolve papéis sociais,
empreendedor, especificamente no desempenho
o processo de internalização de normas, valores
de tarefa. Assume-se que a autorregulação é
e expectativas sociais.
antecedida por fatores culturais e demográficos
A literatura sobre o self apresenta uma pro-
e mediada por competências empreendedoras.
fusão de abordagens e conceitos. Não obstante,
No restante desta seção, atenção é dedicada à
parece haver consenso em torno da premissa de
apresentação do que se entende aqui por fatores
que o self é uma estrutura ativa, responsável pela
culturais.
ação individual, sendo associado a conteúdos e
estruturas cognitivas, à personalidade, volição/
motivação e a processos operatórios (Baumeis- Self, Autorregulação e Cultura
ter, 1995; Baumeister & Finkel, 2010; Carver, O self, constituído por mecanismos intrap-
2001; Ellmers, Spears, & Doosje, 2002; Mischel síquicos como automonitoramento, autoconcei-
& Morf, 2003; Vohs & Baumeister, 2004). Seu to, esquemas, memória de trabalho, representa-
estudo floresceu nas últimas três décadas, tanto ções e autoconhecimento, também depende de
na psicologia social, como na clínica e na social processos socioculturais. Historicamente, como
(Carver, 2011; Cross, Hardin, & Swing, 2009; já sinalizado, a natureza social do self já havia
Hofmann, Friese, Schmeichel, & Baddeley, sido destacada por Mead (1934) – e também por
2011; Karoly, 1993, 2010; Swann & Bosson, outros pesquisadores filiados ao interacionismo
2010; Vohs & Baumeister, 2004). simbólico (exemplo: Cooley, 1902). Nas últimas
De particular interesse neste artigo são os décadas, muitas investigações se debruçaram so-
mecanismos de autorregulação (Bandura, 1991; bre as relações entre o self e a cultura (Fernández,
Carver & Scheier, 1990, 1999; Frese & Zapf, Paex, & Gonzáles, 2005; Kitayama, Markus,
1994; Higgins & Kruglanski, 1996; Kanfer, Matsumoto, & Norasakkunkit, 1997; Markus &
1970; Kanfer & Hogerman, 1981; Mezo, 2009). Kitayama, 1991a, 1991b; Menon, Morris, Chiu,
A autorregulação refere-se à capacidade do self & Hong, 1999; Triandis, 1989, 1995).
de mudar a si próprio e a seus estados a fim de De um modo bem abrangente, cultura con-
torná-los coerentes com padrões definidos por siste de um conjunto de significados comparti-
normas, objetivos, ideais e regras. Envolve áreas lhados e atualizados nas interações sociais, de
de controle de emoções e pensamentos, de im- valores, normas e expectativas de comporta-
112 Bendassolli, P. F., Borges-Andrade, J. E.

mentos incorporados nas instituições e estrutu- por sua vez, influencia no desempenho empre-
ras sociais. Ela age fornecendo sugestões, com endedor.
maior ou menor grau de normatividade, acerca
de como as pessoas devem se comportar uma em Cultura, Centralidade do Trabalho
relação às outras e pensar e tratar a si próprias. e Autorregulação
O processo de desenvolvimento do self, nessa Por fim, o modelo proposto na Figura 1 tam-
perspectiva, envolve permanente internalização bém sugere a hipótese de centralidade do traba-
dos modelos culturais disponíveis e valorizados, lho e autorregulação estarem relacionadas. Em
os quais se insinuam muito profundamente nos primeiro lugar, define-se centralidade psicoló-
sistemas psicológicos de controle da ação (Ki- gica do trabalho como a importância atribuída
tayama & Uchida, 2005; Markus & Hamedani, a este último pelos indivíduos (Kanungo, 1982;
2007). Meaning of Work International Research Team
Em específico, autorregulação do self está [MOW], 1987). Quanto maior a centralidade
associada à cultura. Nesse sentido, Markus e dessa esfera de vida em relação a outras, mais
Kitayama (1991a, 1991b, 2004) sugerem que a se pode esperar que as pessoas se engajem com
maior diferença entre culturas individualistas e o trabalho e façam deste uma área de interesse
coletivistas (Triandis, 1989, 1995) diz respeito privilegiada – alocando, portanto, partes impor-
ao modo como as pessoas pensam o self. Enquan- tantes dos processamentos cognitivos e afetivos
to membros de culturas individualistas tendem a do self.
ver o self como autônomo e único, independente, Em segundo lugar, parte-se da hipótese de
membros de culturas coletivistas tendem a vê-lo que o empreendedorismo, na medida em que
como incorporado em redes sociais – como um diz respeito à criação de novos bens e serviços,
self interdependente. No primeiro caso, o indi- está ligado ao trabalho. Portanto, parece plau-
víduo valoriza características que o distinguem sível supor alta centralidade do trabalho para
dos outros, colocando em primeiro plano a rea- empreendedores, embora não haja estudos na
lização pessoal, o autoconhecimento, a singula- literatura oferecendo evidência empírica para tal
ridade e a competição (Singelis, 1994; Singelis, associação. O que existe, até o momento, são es-
Triandis, Bhawuk, & Gelfand, 1995). No caso tudos apontando relação entre individualismo e
do self interdependente, as pessoas se definem alta centralidade (eg.: Hattrup, Ghorpade, & La-
em concordância com seus relacionamentos, ckritz, 2007; Misumi & Yamori, 1991). Basea-
sendo mais sensíveis ao contexto e às normas dos nestes argumentos, consideramos pertinente
culturais, valorizando obrigações e responsabili- incluir a hipótese da relação centralidade do tra-
dades e colocando em segundo plano os desejos balho e autorregulação no modelo proposto.
ou benefícios pessoais (Lee & Semin, 2009).
Estudos dão suporte empírico à hipótese de Competências Empreendedoras
que alto individualismo está associado a maior Nesta seção, discute-se o terceiro cons-
autoregulação (eg.: Cross et al., 2009; Erez & tructo central do modelo proposto na Figura
Earley, 1993; Fernández et al., 2005), bem como 1: competências empreendedoras. O tema das
a desempenho empreendedor (Freytag & Thurik, competências é discutido na POT brasileira, es-
2010; König et al., 2007). No primeiro caso, o pecificamente no campo de treinamento e desen-
fato se explicaria pelas estruturas de incentivo volvimento de pessoas (para um exemplo, ver
da sociedade, bem como pelos valores e expec- Borges-Andrade, Abbad, & Mourão, 2006). O
tativas sociais, que tendem a realçar os atributos mesmo se verifica na literatura sobre desempe-
individuais e esperar que seus membros se en- nho, na qual competências são consideradas pre-
gajem em estratégias de autodesenvolvimento. ditores individuais (para uma extensa revisão,
Embasados nisto, propõe-se a hipótese de que ver Coelho, 2009). No campo dos estudos sobre
individualismo e coletivismo, como facetas da empreendedorismo, competências são apresen-
cultura, predizem o nível de autorregulação que, tadas como recursos cognitivos, afetivos e com-
Desempenho Empreendedor nas Indústrias Criativas: Propondo um Modelo Teórico 113

portamentais a serviço do desempenho empreen- pessoas, marketing, finanças, estratégia. Assim,


dedor (Bird, 1995; Carvalho, Zerbini, & Abbad, competência e desempenho são dois constructos
2005; T. W. Y. Man & Lau, 2000; Markman, teorizados como interdependentes.
2007; Mello, Leão, & Paiva, 2006). Porém, se, de um lado, competências e de-
Dentre as diversas definições de compe- sempenho são interdependentes, por outro há
tência, opta-se aqui pela definição que envolve, que se reconhecer que ambos pertencem a níveis
especificamente, as relações entre competências de análise diferentes. Numa perspectiva proces-
e desempenho empreendedor. Hoffmann (1999) sual, competências se tornam concretas quando
observa que competências são, em geral, defini- se incorporam no desempenho (T. W. Y. Man
das de três formas: como desempenho observá- & Lau, 2000). Ao mesmo tempo, constituem as
vel ou resultado; como o padrão esperado desse capacidades totais do indivíduo para agir (se-
resultado (parâmetro de julgamento); e como os melhante a potencial). Neste artigo, para evitar
atributos das pessoas, tais como conhecimentos, sobreposição, assume-se que competências são
habilidades e atitudes. O mesmo autor afirma preditoras de desempenho. Por esse motivo, elas
que este último sentido é o mais disseminado são antecedentes deste, sendo aqui definidas
na literatura, e na literatura sobre empreendedo- como recursos individuais (cognitivos, afetivos,
rismo em particular – também conhecido como operatórios) necessários, embora não suficientes,
modelo dos CHAs. Para Le Boterf (1995), com- para o alcance de resultados empreendedores.
petência está relacionada à ação de assumir res-
ponsabilidades frente a situações de trabalho Considerações Finais
complexas, buscando lidar com eventos inéditos
e surpreendentes – uma definição potencialmen- Nesta seção final, serão propostas algumas
te apropriada quando se pensa em empreende- recomendações e alguns cuidados para o teste
dorismo. Similarmente, Bird (1995) define com- empírico do modelo aqui proposto. Em primei-
petências empreendedoras como características ro lugar, tal modelo integra níveis distintos de
subjacentes dos indivíduos, as quais incluem mensuração. Enquanto que desempenho empre-
conhecimentos específicos e genéricos, motivos, endedor, autorregulação e competências empre-
traços, autoconceito, papéis sociais e habilidades endedoras estão associados a variáveis de níveis
que resultam na criação de novos negócios, sua individuais, setor de atividade, embora possa
sobrevivência e crescimento. ser mensurado ao nível individual, faz menção
Com o intuito facilitar a operacionalização a classes de variáveis de níveis mais agregados.
e a investigação das competências empreende- Portanto, para a validação empírica do modelo,
doras, autores têm proposto o uso de taxonomias é importante considerar o caráter multinível de
(para uma revisão, ver Ahmad, 2007; T. W. Y. alguns de seus componentes.
Man & Lau, 2000). Em uma destas taxonomias, A lógica do modelo da Figura 1 é susten-
proposta por T. W. Y. Man e Lau (2000), estes tar que o desempenho empreendedor, ao nível
distinguem seis domínios de competências em- do indivíduo, fornece o suporte comportamental
preendedoras: competências de oportunidade; para o alcance de resultados empreendedores.
de organização; de relacionamento; estratégicas; Esse desempenho, por sua vez, é suposto expli-
de comprometimento; e competências concei- cado por outras variáveis de nível individual, tais
tuais. Para W. T. Man (2001), não é suficiente como idade, experiência e gênero; capacidade
definir e operacionalizar competências apenas ou nível de autorregulação cognitiva; compe-
em termos internos – repertório de traços, per- tências empreendedoras. E, ao nível contextual,
sonalidade, conhecimentos, habilidades, moti- por variáveis culturais e pelas características do
vos/motivação. Também é necessário organizar setor de atividade. Em termos metodológicos, o
essas competências em função do desempenho alcance do teste do modelo, e das consequências
comportamentalmente observado e exigido pelo dos achados, será provavelmente condicionado
papel de empreendedor em suas diversas fun- pela possibilidade de o pesquisador conseguir
ções – por exemplo, em gestão de recursos e combinar distintos níveis de explicação para o
114 Bendassolli, P. F., Borges-Andrade, J. E.

fenômeno investigado. Na proposição aqui fei- petências empreendedoras são uma condição
ta, setor de atividade é uma variável de contro- necessária, porém não suficiente, para sustentar
le, hipoteticamente capaz de moderar o efeito o desempenho empreendedor. A referida insu-
de competências sobre o desempenho empre- ficiência ocorre pois outros fatores também são
endedor. Em particular, talvez seja interessante necessários para a manifestação do desempenho,
considerar, em setor de atividade, aspectos re- tais como os fatores contextuais (setor de ativida-
lacionados à organização e ao contexto de rea- de) incluídos no modelo multinível da Figura 1.
lização das atividades criativas. Se desempenho Outra recomendação relaciona-se a um as-
refere-se a conjunto de comportamentos neces- pecto vital do modelo proposto: a definição e
sários para a realização de atividades, é preciso identificação de práticas ou atividades consi-
entender quais são os principais requisitos ou deradas como empreendedoras. Desempenho
exigências que recaem sobre elas, como uso de empreendedor foi aqui definido como conjunto
tecnologias, elos da cadeia produtiva, interação de comportamentos ou ações necessárias, embo-
entre diversos atores sociais, regras, normas e ra não suficientes, para o alcance de resultados
procedimentos, entre outros passíveis de serem empreendedores nas indústrias criativas. Esses
operacionalizados e mensurados. Recomenda-se resultados são, em geral, parametrizados em
que seja feita uma seleção criteriosa, dentre os termos de indicadores como número de novas
possíveis indicadores da atividade, dos mais pro- obras, produtos ou serviços criativos; criação
ximais em relação a desempenho, notadamente o de novas empresas; autoemprego; abertura de
desempenho de tarefa, o qual diz respeito à rea- novas frentes em mercados aparentemente em
lização propriamente dita da atividade e depende equilíbrio. Esses indicadores, em sua maioria,
da conjunção de fatores cognitivos, operatórios e são utilizados na pesquisa sobre empreendedo-
autorregulatórios. rismo e baseiam-se em níveis mais agregados
Quanto a desempenho empreendedor, va- de análise (mercado, região, país). Portanto, um
riável-critério do modelo exposto na Figura 1, desafio do pesquisador interessado em testar o
destacam-se algumas recomendações. Primei- modelo da Figura 1 é escolher e definir critérios
ro, como já aludido em outro momento, seria para seleção e classificação de atividades empre-
interessante desenvolver um instrumento que endedoras coerentes com as indústrias criativas,
mensurasse comportamentos empreendedores, e com suas atividades, padrões de valor e resul-
não intenções, orientações ou potencial empre- tados esperados (Caves, 2000; Towse, 2010,
endedor. Isto conduz à necessidade de se desen- 2011).
volverem taxonomias de comportamentos/ações Uma última recomendação concerne à es-
associados às atividades criativas empreendedo- colha dos instrumentos de mensuração para os
ras – por exemplo, de criação de novas obras, constructos propostos, especificamente para a
produtos e serviços no contexto das indústrias autorregulação, individualismo e coletivismo,
criativas. centralidade do trabalho e competências empre-
A segunda recomendação, relacionada à endedoras. Obviamente, os instrumentos devem
anterior, consiste em separar, conceitual e ope- ser escolhidos de forma coerente com o deline-
racionalmente, competências de desempenho. amento teórico de cada constructo, tal como se
Como foi observado na seção anterior, compe- apresentou neste texto. Nesse sentido, o instru-
tências são, às vezes, tratadas como sinônimo de mento proposto por Mezo (2009) para avaliar
desempenho, ou então de resultado. Contudo, autorregulação é um exemplo, pois é baseado no
no modelo aqui proposto, e coerente com certa conceito de ciclo fechado de feedback. Porém,
tradição de pesquisas em POT (ver Borges-An- outros instrumentos estão disponíveis (para uma
drade et al., 2006), elas são apresentadas como revisão, ver Hoyle & Davisson, 2011). Coleti-
fatores antecedentes do primeiro e consideradas vismo e individualismo apresentam uma situa-
como recursos internos dos indivíduos que os ção bem mais favorável, quando comparado aos
permitem agir nos contextos de trabalho. Com- demais constructos: não só há diversos instru-
Desempenho Empreendedor nas Indústrias Criativas: Propondo um Modelo Teórico 115

mentos disponíveis, como também já existem Acs, Z. J., & Audretsch, D. B. (2010). Handbook of
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