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n.

3 Out | 2020

Organizadores
Jean Fernando dos Santos
Rafael Campos de Oliveira Dutra
Revista Psicologia em Movimento

(Revista online do IP.abc – www.ipabc.com.br)

IP.abc - Instituto de Psicologia do Grande ABC


Edição n. 03 / Outubro

Organizadores:
Jean Fernando dos Santos
Rafael Campos de Oliveira Dutra

Projeto Gráfico:
Flávia Fontana
E-mail: flaviafontana.design@gmail.com

Santo André, 2020.

Creative Commons © 2020


Permitida a distribuição e criação a partir da obra, mesmo para
fins comerciais, desde que lhe atribuam o devido crédito pela versão original.
ÍNDICE
APRESENTAÇÃO
IP.abc - Instituto de Psicologia do Grande ABC
Editoral
Homenagem e Carta

1. PROVOCAÇÕES. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1 5
Psicologia Social no cenário de pilhagens e violências do capitalismo 16
Deivis Perez

2. FORMAÇÃO PSI . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2 4
O lugar do pensamento crítico e do compromisso social na formação da Psicologia 25
Marlene Bueno Zola

3. PERSPECTIVAS TEÓRICAS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3 1
Psicologia Sócio-Histórica: contribuições para 32
a construção de uma Psicologia crítica
Elisa Zaneratto Rosa

4. TRABALHO PSI . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4 4
A Psicologia e o trabalho com homens em situação de violência 45
Flávio Urra

5. PSICOLOGIA e POLÍTICAS PÚBLICAS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5 2


Compromisso ético-político da Psicologia e práxis 53
Adriana Eiko Matsumoto

6. PSICOLOGIA e DIREITOS HUMANOS. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 6 5


Psicologia e os Direitos Humanos das Mulheres 66
Flávia Roberta Eugênio
7. COMPROMISSO SOCIAL. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7 2
DA VIOLÊNCIA NEOLIBERAL À REVOLUCIONÁRIA: 73
uma análise do filme O Poço a partir da teoria crítica da sociedade
Thiago Bloss

8. PSICOLOGIA LATINOAMERICANA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8 6
Atenção em saúde mental e a pandemia de COVID 19: 87
a experiência da América Latina
Daniel Scurato

9. CIÊNCIA: PESQUISA EM PSICOLOGIA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9 5


Negritude, infância e gênero: a infância da menina negra, 96
uma visão para uma psicologia antirracista
Denise Barrozo de Paula

10. ENTIDADES PSI ........... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1 0 1


ABRAPEE: 30 anos em ação! 102
Tamiris Lopes Ferreira

11. ESTUDANTES . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1 0 8
Desafios da Formação no Contexto da Pandemia 109
do COVID 19 - a convocação da práxis na categoria estudantil
Julia Thomazetti Paes Barreto

12. MOVIMENTOS SOCIAIS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1 1 3


A necessidade de um olhar interseccional 112
para as relações de trabalho e a emancipação humana
Heloá Suelem Laurentino Martins
Ivani Francisco de Oliveira

13. CONVERSANDO SOBRE . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1 1 9


Entrevista com a psicóloga Maria da Penha Tamburú Ivanchuk Lopes 120
Bem vindas(os) ao IP.abc
Instituto de Psicologia do Grande ABC

O IP.abc - Instituto de Psicologia do Grande ABC é um


antigo projeto que se concretiza em 2019 e que pretende se
tornar um espaço de referência na formação continuada em
Psicologia a partir de dois grandes propósitos: criar espaços
de encontros e partilhas de conhecimentos e práticas críticas
em Psicologia; e criar uma rede de psicólogas/os e estudantes,
com vistas a proporcionar importantes diálogos entre a
diversidade existente na Psicologia e as diferentes demandas
da sociedade contemporânea.

Com o expressivo número de profissionais e estudantes


na região do Grande ABC, é de extrema importância que
tenhamos espaços para (re)pensar constantemente a prática
e a produção de conhecimento em Psicologia à luz de uma
perspectiva que esteja vinculada à realidade brasileira e às
demandas da sociedade, e não apenas atendendo as demandas
do “mercado”.

Conheça mais desse projeto e venha fazer parte da rede


de construção de uma Psicologia comprometida com as
pessoas e com a sociedade brasileira.

facebook.com/face.ipabc instagram.com/ip.abc

ipabc.com.br
A revista

A revista Psicologia em Movimento é uma publicação que


pretende reunir pessoas com autoridade e vivência em seus
respectivos temas, e dar a elas liberdade para desenvolver suas
reflexões e provocações. Não somos e não pretendemos ser uma
revista científica, tão pouco uma revista comercial; somos uma
publicação virtual e gratuita. Nossa publicação recebeu esse nome
em homenagem ao livro que é símbolo de um momento histórico
da Psicologia brasileira, “Psicologia Social: O homem em
movimento”, um livro da década de 80 que marca uma mudança
de perspectiva e uma transformação radical nos caminhos da
Psicologia enquanto ciência e profissão no Brasil.

Com a proposta de fugir do texto duro e da postura estéril de


afetividade do mundo acadêmico-científico mais tradicional,
optamos por convidar pessoas que são autoridades em seus
respectivos temas e que possuem seu lugar de fala, mas deixá-las
livres para escrever sobre o que quisessem e da maneira que lhes
agradassem, até mesmo por isso não há um padrão de texto nas
colunas a seguir.

Nossa publicação pretende ser um espaço para quem quer


entrar em contato com uma perspectiva mais crítica em Psicologia,
e por isso ela é virtual e gratuita, basta baixar o arquivo e ler,
compartilhar com colegas psis e estudantes de Psicologia.
A terceira edição

Nossa revista de n.3 começa compartilhando uma carta às psicólogas que


viralizou nas comemorações do Dia da Psicologia brasileira (27/08) em 2020.
Com a carta, homenageia Dom Pedro Casaldaliga, que se dedicou durante
toda uma vida às lutas sociais do povo brasileiro. Sua carta, escrita às formandas
da Universidade Gama Filho do Rio de Janeiro em 1981, já anunciava grandes
desafios que a Psicologia e as psicólogas enfrentam ainda hoje, quase quatro
décadas depois.

Abrindo as colunas, em “Provocações” contamos com um belíssimo


texto de Deivis Perez, professor da UNESP e presidente da ABRAPSO –
Associação Brasileira de Psicologia Social, para falar sobre a Psicologia frente
ao capitalismo e suas violências. Trazendo reflexões sobre o capitalismo desde
sua gênese até sua expressão na contemporaneidade; Deivis aponta as relações
entre o sistema capitalista, a burguesia e a sua expressão política no Brasil atual
com o exercício profissional das psicólogas.

Além dele, temos Marlene Zola, atual gestora do Curso de Psicologia do


Centro Universitário Fundação Santo André, assinando a coluna sobre
“Formação Psi”, falando sobre o lugar do pensamento crítico e do compromisso
social na formação em Psicologia. Marlene nos presenteou com uma conferência
sobre esse tema no I Simpósio de Psicologia e Crítica Social do Grande ABC
em outubro/2019, e um ano depois sua fala se transforma nesse artigo mais
que necessário para pensar a formação de psicólogas nos tempos que vivemos.

Para falar sobre as “Perspectivas teóricas”, Elisa Zaneratto Rosa,


professora da graduação e da pós-graduação da PUC-SP e membra do Instituto
Silvia Lane de Psicologia e Compromisso Social, nos apresenta uma breve
introdução à Psicologia Sócio-Histórica, apresenta as ideias da obra de Vygotsky
e os fundamentos teórico-metodológicos de uma Psicologia construída a partir
do materialismo histórico-dialético, seu lugar na história da Psicologia brasileira
e suas contribuições para a construção de uma Psicologia crítica.

Flávio Urra, psicólogo e sociólogo coordenador do Programa “E agora,


José?”, assina a coluna “Trabalho Psi”, em que fala sobre o trabalho da
Psicologia com homens em situação de violência, apresentando experiências
no trabalho interdisciplinar em grupos com homens autores de violência.
Ressalta a importância da estratégia na promoção da saúde, enfrentamento do
machismo estrutural e da violência contra as mulheres.

Adriana Eiko, psicóloga e professora da UNIFESP, grande parceira do


IP.abc, traz um importante debate sobre as relações entre questões estruturais
(classe-gênero-raça) que organizam a sociedade, e a urgência histórica de um
compromisso ético-político da Psicologia e sua atuação nas políticas públicas
em um contexto complexo de violência e silenciamento de jovens e mulheres
da periferia.

Na coluna sobre “Direitos Humanos e Psicologia”, Flávia Eugênio,


parceira do IP.abc, psicóloga com grande experiência no trabalho com mulheres
em situação de violência, apresenta suas reflexões sobre “Os Direitos Humanos
das Mulheres”.

Falando sobre “Compromisso social”, Thiago Bloss, psicólogo,


professor e um grande provocador, faz uma análise do filme “O poço” a partir
da teoria crítica e desenvolve uma leitura interessante trabalhando os elementos
do filme para dar visibilidade às condições de violências e tecnologias de
dominação perpetradas historicamente contra as classes populares.

Já na coluna sobre “Psicologia latino-americana”, Daniel Scurato,


nosso veterano e psicólogo do NASF -AB em São Bernardo do Campo - SP,
traz a primeira discussão sobre a pandemia de COVID-19 nessa edição,
abordando a experiência da América Latina na atenção em saúde mental.
Daniel constrói sua reflexão a partir dos diálogos que vem construindo com
colegas latino-americanas em sua participação na RIPEC – Rede Internacional
de Práticas e Experiências de Cuidado em Saúde Mental.
Denise Barrozo, estudante do 8º período de Psicologia da USCS –
Universidade Municipal de São Caetano do Sul, escreve sobre sua Iniciação
Científica na coluna “Ciência: Pesquisa em Psicologia”, apresentando seu
trabalho que foi premiado pelo IX Congresso de Iniciações Científicas da
Universidade Federal do ABC, falando sobre como o racismo constitui
subjetividades desde a infância, contribuindo com uma importante reflexão
para elaboração de uma Psicologia Antirracista.

A ABRAPEE – Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional


é apresentada por Tamiris Lopes Ferreira, sua secretária administrativa
que assina a coluna “Entidades Psi”, e nos apresenta um pouco da história e
das contribuições dessa entidade que completa 30 anos em 2020, em um ano
muito importante devido a aprovação da lei que insere a Psicologia e o Serviço
Social na educação básica da rede pública brasileira, uma conquista que conta
com 20 anos de luta com o protagonismo da ABRAPEE.

Falando sobre os desafios que se colocaram para a formação em Psicologia


nesse ano de enfrentamento da pandemia de covid-19, Julia Thomazetti,
estudante da Universidade Metodista de São Paulo e secretária do Núcleo
Grande ABC da ABEP – Associação Brasileira de Ensino de Psicologia, traz
sua voz e suas reflexões para a coluna “Estudantes”.

Ivani Oliveira, volta a escrever em uma coluna de nossa revista, dessa


vez, em parceria com Heloá Martins, em nome do Coletivo Kilombagem,
assinam a coluna sobre Movimentos Sociais, e trazem reflexões sobre a
necessidade de um olhar interseccional para as relações de trabalho e a
emancipação humana. Psicologia, Sociologia e militância antirracista se somam
nessas reflexões.

Para finalizar, na coluna “Conversando sobre”, entrevistamos Maria


da Penha, psicóloga escolar e professora universitária, colaboradora do
Conselho Regional de Psicologia de São Paulo que teve uma participação
bastante ativa na reta final da aprovação do projeto de lei que insere a Psicologia
e o Serviço Social na educação básica da rede pública brasileira.
Esse é um antigo projeto que em 2019 saiu da gaveta e agora em 2020,
nesse ano um tanto caótico, chega em sua 3ª edição. Optamos por não falar
exclusivamente sobre a Pandemia de COVID-19, mas temos duas colunas que
dialogam sobre essa questão, pensamos por bem ampliar as discussões e trazer
os tantos assuntos e temas que são relevantes para a construção de um olhar
crítico para a Psicologia.

Essa publicação é, também, uma militância em prol da construção


de uma Psicologia que caminhe na lógica da defesa e da promoção
dos Direitos Humanos, que traga a crítica e a afetividade para a sua produção
de conhecimento e para as suas práticas profissionais; uma Psicologia sem medo
de somar sua voz e seus esforços à construção de uma sociedade mais justa,
mais democrática e mais igualitária.

Leiam, compartilhem e aproveitem sem moderação!

Forte Abraço!
Jean Fernando
Rafa Dutra
HOMENAGEM
Dom Pedro Casaldáliga
16/02/1928 -08/08/2020

Casaldáliga foi um bispo espanhol radicado no Brasil


desde 1968, sua trajetória foi marcada pela luta e pela posição
em defesa dos povos indígenas, dos trabalhadores, dos Direitos
Humanos e no enfrentamento das grandes questões sociais
do povo brasileiro. Ele faleceu recentemente, em agosto de
2020, 19 dias antes da Psicologia celebrar seus 58 anos como
profissão regulamentada no Brasil. Nesse ano tão difícil e
complexo para todos, nas comemorações do Dia da Psicologia
brasileira viralizaram sua carta e um vídeo produzido a partir
das palavras escritas para a turma de formandas da
Universidade Gama Filho do Rio de Janeiro em 1981.

A despeito de todo linguajar religioso, próprio de um bispo da


igreja católica, as reflexões, provocações e advertências que
Casaldáliga faz em sua carta ecoam quase 40 anos depois.
Alinhado a toda perspectiva progressista da Psicologia na
década de 80, Dom Pedro consegue evocar ideias que muito
dialogam com a maneira do IP.abc compreender a Psicologia e
o fazer das psicólogas na sociedade; por isso escolhemos
homenagear essa figura ilustre da história das lutas populares,
indígenas e da Terra em nosso país e compartilhar com vocês
suas palavras. É uma carta que vale a pena ler, reler e sempre
voltar a ela pensando sobre nosso fazer enquanto psicólogas
no Brasil e na América Latina.
Carta às formandas
da Universidade Gama Filho
Rio de Janeiro (1981)

São Félix do Araguaia, MT 12/02/1981.

Aos amigos e companheiros formandos de psicologia da Universidade Gama Filho do RJ:


Na impossibilidade de enviar para vocês um discurso e na impossibilidade de estar aí, com vocês – porque
sua colação de grau coincide com a Assembleia Nacional da CNBB -, escrevo esta carta. Com liberdade
familiar. Vocês me elegendo como “patrono”, como “padrinho”, dão-me esse direito.

Elegendo-me vocês pretendiam prestar uma homenagem à igreja do nosso país que a atualmente
paga um alto preço por sua liberdade de ser. V° Igreja de Jesus Cristo, por ser o que deve ser, apenas.
Honestamente a igreja de Jesus não pode deixar de pagar este preço de encarnação comprometida.
De todo jeito, obrigado. Vocês, com isso, nos confortam e nos comprometem a mais.

Agradeço ainda a lição de simplicidade que vocês deram a muitos com o seu convite, simples
folha vestida de terra. Seja ele como um pequeno sacramento da simplicidade ecom que vocês
pretendem ingressar mais comprometidamente no “espaço social brasileiro” e Latino Americano.

Agora é que vocês vão se formar, na luta, com o povo, frente às tentações do Dinheiro, do
Poder, do Prestígio. Frente à grande tentação do Mercado Profissional. Também a Psique virou
matéria de mercado, nesta mercantilista sociedade que o Capitalismo
moderno exacerbou em requintes de desiquilíbrio e necessidades.

Não esqueçam nunca que a psicologia toca a alma


humana, “mercadoria” outra, “matéria prima” nascida
do próprio alento do Deus vivo, transação feita a preço
de sangue – do Sangue do Filho de Deus, do muito sangue
dos muitos filhos dos Homens ...
A maltratada alma humana destes tempos de neuroses e psicoses, na desajustada sociedade do
consumismo e da super técnica; onde o importante é ter mais, ser mais-do-que os-outros, mesmo à
custa de deixar de ser identidade humana.

Não se vendam: nem nas Escolas do Sistema Dominante, nem nas Empresas do Lucro
Capitalista, nem nos Consultórios da Medicina prostituída.

Não acabem sendo funcionários bem pagos, psicólogos dos privilegiados do Mundo, aliados
úteis da Exploração, talvez da Repressão.

Sejam trabalhadores da Ciência, junto aos trabalhadores da enxada ou do


torno ou da panela. Construtores todos do Mundo Novo que
precisamos, que os Pobres da Terra exigem angustiadamente.

Vocês, como psicólogos, têm uma específica missão,


escandalosamente “espiritual”. O Homem não pode ser
máquina. Devolvam ao homem sua condição livre e
luminosa. Reconciliem a Ciência dos gabinetes com a
Sabedoria do Povo. Recuperem para si e para os irmãos
aquela Psicologia Popular, ainda “natural”, humana ainda,
que se expressa em comunhão com a natureza – sobretudo nos
meios indígenas -, em sábia paz interior do dia-a-dia, em
relacionamento familiar ou de vizinhança sem hermetismo e sem
histerismos, na alegria simples dos festejos – sem as sofisticações dos réveillons cariocas -, na
capacidade de falar com Deus...

Descubram e assumam as atitudes básicas do HOMEM NOVO que todos sonhamos, que
Deus programou, pelo qual deveríamos apostar, minuto a minuto, toda a nossa existência, tentando
sermos nós, em irradiação comunitária, Mulheres Novas, Homens Novos, novas Pessoas humanas.

A verdadeira revolução definitivamente transformadora da Sociedade Humana é tanto


“psicológica” como “socio-político-econômica”. Devemos transformar simultaneamente –
sublinhem o advérbio, para evitar escapismos dualistas – tanto as pessoas quanto as estruturas. Um
bom psicólogo seria assim, por definição, um militante.
Vocês estudaram privilegiadamente a Alma Humana, para
agir a partir dela – vocês sendo sempre humanos -, para
agir em torno a ela – entre humanos irmãos -, para agir
sempre em favor dela – síntese vital da Pessoa Humana
que, por sua vez, é a síntese consciente do Universo, sendo
a imagem filial do próprio Deus Criador.

Hoje, aqui. Nesta hora do Brasil e da Pátria Grande


comum, que é esta América Latina. Sejam atuais, não tanto pelos
novos livros que conheçam ou pelas novas técnicas que utilizem, quanto pelo diário engajamento
que se joguem na correnteza viva da História.

“Companheiríssimos”, vocês me chamaram. Sejamos.

Com esta afeição e nesta Esperança, sob a luz e o grito deste desafio, abraço a todos
vocês, companheiro e irmão,

Pedro Casaldáliga
Bispo de São Félix do Araguaia – MT
PROVOCAÇÕES
PROVOCAÇÕES 16

Psicologia Social
no cenário de pilhagens e
violências do capitalismo

Deivis Perez1

Este texto traz apontamentos para um delineamento basilar da Psicologia Social, seu objeto
primário de investigações e de exercício profissional no bojo do quadro conjuntural político,
econômico e sociocultural do Brasil. Inicialmente, buscou-se balizar os aspectos caracterizadores
do capitalismo exteriorizados na sua gênese e preservados até a contemporaneidade e, logo depois,
foram assinalados os nexos entre a burguesia, o sistema capitalista e a sua expressão política
em nosso país correlacionados às incumbências da Psicologia Social enquanto práxis social.

Gênese do capitalismo: pilhagem e violência

Uma delimitação da Psicologia Social como área de trabalho, campo de investigações


e produção de conhecimentos científicos somente pode ser patenteada principiando pela
explicitação e esquadrinhamento dos cenários que criaram as condições para o seu
surgimento e nos quais ela está situada no presente momento, encerrando as dimensões
materiais e simbólicas de (re)produção da vida e a ambiência que assegura o ordenamento
societário político, econômico e cultural nos moldes do capitalismo.

1. Psicólogo e Doutor em Educação pela PUC-SP. Professor no Departamento de Psicologia Social e no Programa de Pós-Graduação
stricto sensu em Psicologia da Universidade Estadual Paulista (UNESP). Líder do Grupo de Pesquisa em Teoria Sócio Histórica
Cultural. Presidente da Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO).

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PROVOCAÇÕES 17

Assim sendo, sustentamos que o mundo experimenta uma etapa que pode ser percebida
como manifestação da nomeada modernidade capitalista, a qual teve, na perspectiva dos povos
latino-americanos, como registro fundante a invasão, investidura brutal de territórios, genocídio
e subjugação dos povos locais pelos europeus a partir do século XVI. Esta interpretação
encontra proximidade com a visão de Enrique Dussel (1993), que localiza em 1492 o nascimento
da modernidade marcada pela ocultação e negação de quaisquer pessoas ou povos não-
europeus, o que justificou concreta e simbolicamente a destruição das populações
geograficamente distantes e desconhecidas dos exploradores e sicários provenientes da Europa.

A começar desta etapa, e com ênfase crescente desde o século XVIII, paulatinamente
a modernidade se consolidou como um modo prevalecente de conceber as sociedades,
tendo resultado na consolidação do capitalismo como sistema produtor de riquezas e na
ascensão da burguesia como classe dominante. Ao longo dos séculos, o capitalismo e sua
classe transitaram por distintos estágios anotados por investigadores de diferentes correntes
do pensamento de acordo com a ênfase identificada nos processos produtivos ou de
acumulação das riquezas num período histórico determinado, donde emergiu um catálogo
qualificativo deste sistema que incluiu epítetos como: capitalismo monopolista, capitalismo
global, capitalismo industrial, capitalismo financeiro, capitalismo informacional, etc.

Para o filósofo alemão Karl Marx, a modernidade se configura como uma etapa
histórica da humanidade intrinsecamente relacionada a todas as formas políticas,
econômico-produtivas, ético-morais e socioculturais engendradas pela burguesia para
garantir a sua hegemonia, a expansão do capitalismo e dos seus empreendimentos. Todos
os aspectos que possam ser situados e reconhecidos como atributos distintivos dos tempos
modernos são associados por Marx ao modo de funcionamento do capitalismo e às
estratégias de dominação e exploração de outras classes sociais aperfeiçoadas pela burguesia
para a sua manutenção como classe imperante. É sob essa ótica que são entendidos os
predicados que balizam o que é ser uma pessoa moderna, como: as condutas individualista
e calculista que marcam a despersonalização das relações sociais burguesas; a atitude de
ojeriza ao tradicionalismo; os sentimentos de repulsa, frieza e indiferença no que concerne
aos pauperizados, bem como hábitos socialmente aceitos tanto de antagonismo e
brutalidade no trato com os despossuídos quanto de piedade dirigida aos miserandos e sua
inevitável solicitação de subserviência e efeitos concretos e simbólicos de rebaixamento de
indivíduos e coletividades; a aquiescência à naturalização das relações de exploração de
cada trabalhador pela burguesia. Estas manifestações, artificialmente geradas, mas tomadas
como ínsitas à forma de agir, sentir e pensar da pessoa moderna são, em Marx, expressões
do modo de vida burguês.

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PROVOCAÇÕES 18

É, ainda, a partir das referências marxianas e daquilo que Dussel denominou negação do
outro enquanto aspecto instituinte da modernidade que é possível interpretar a gradual
edificação, por instituições superestruturais dedicadas a garantir a hegemonia cultural e
simbólica da burguesia, de todo um sistema de valores que permitiu a feitura mítica e a
conformação de grandes contingentes populacionais a um modelo ideal e desejável de pessoa
nas sociedades hodiernas, a saber: homem, branco, cristão, capitalista e originário inicialmente
dos principais países da Europa Ocidental e, numa etapa ulterior, dos Estados Unidos da
América. Nesta perspectiva, as consequências são que o capitalismo além de ser um sistema
destinado a afiançar a acumulação de riquezas por poucos indivíduos e lançar na miséria a
maioria trabalhadora, manifesta-se também como ethos altamente discriminatório,
marcantemente machista e misógino, racista, afeito a todas as variedades de praxes chauvinistas
daqueles que se percebem como centro do capital orientadas para outros grupos ou povos e,
também, intolerante com a descrença na religião, o ateísmo e com quaisquer manifestações de
credulidade que não sejam próprias do cristianismo.

Ainda para mais, é impreterível sinalar outros três atributos inerentes ao capitalismo e
que denotam a natureza e a essência íntimas da burguesia: a pilhagem, a violência e a
polarização. No primeiro livro de O Capital acha-se a arguta e rigorosa verificação feita por
Marx da trajetória e das estratégias que encetaram o processo de acumulação de capitais pela
burguesia e estabeleceram os alicerces para a emergência e consolidação do modo de produção
capitalista. Os fundamentos do capitalismo e das posses concentradas e preservadas até a
atualidade pela burguesia podem ser sumariados por meio dos vocábulos: expropriação, roubo,
rapinagem, despojo. A gatunagem, ocupação exordial e triunfante da burguesia, alcançou,
sem discriminação, o cabedal da igreja, os haveres estatais, as divícias dos senhores feudais e
dos clãs patriarcais, bem como toda sorte de pertences e patrimônios das populações rurais,
dos povos das montanhas, dos habitantes das orlas marítimas, dos aborígines, entre numerosos
outros grupos. De modo conciso:

O roubo dos bens da Igreja, a alienação fraudulenta dos domínios estatais, o


furto da propriedade comunal, a transformação usurpatória, realizada com
inescrupuloso terrorismo, da propriedade feudal e clânica em propriedade
moderna, foram outros métodos idílicos da acumulação primitiva. Tais métodos
conquistaram o campo da agricultura capitalista, incorporaram o solo ao capital
e criaram para a indústria urbana a oferta necessária de um proletariado
inteiramente livre. (MARX, 1867/2017, p. 804)

Neste excerto Marx remete também à gênese do proletariado na Inglaterra, país tomado
como cenário exemplar, constituído por massas de pessoas egressas do mundo feudal, abarcando
aquelas que outrora integraram os grupos de servos, vassalos, aprendizes, oficiais das

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PROVOCAÇÕES 19

corporações, entre outros mais, os quais, abruptamente foram despojados dos seus meios de
produção e violentamente tiveram larapiados os recursos capazes de garantir a sobrevivência
individual e coletiva. Dessa maneira, constata Marx (1867/2017), a exploração dos trabalhadores
promovida pelas sociedades feudais converteu-se em exploração capitalista, na medida em que
a liberação síncrona de servos e vassalos dos seus senhores e dos aprendizes e oficiais das
corporações criou as condições para que se tornassem vendedores de si mesmos. Os capitalistas,
seus ideólogos e historiadores os nomearam homens livres, mas cuidaram de encobrir o real
sentido desta designação que, em fato, referia às pessoas libertas das amarras societárias típicas
do mundo feudal, escorchadas dos seus meios de sustento e por esta razão tornadas disponíveis
para a exploração e a subjugação pelos capitalistas.

O processo supracitado, que forjou o surgimento do proletariado, se desenrolou


e consolidou amparado no emprego de intensa violência contra a classe trabalhadora surgente,
arrimado na gradual conformação aos interesses da burguesia dos dispositivos legais e coercitivos
estatais meticulosamente guiados para a criminalização, perseguição e punição das pessoas
empobrecidas, que devido à conjuntura não encontravam ocupação e compulsoriamente eram
conduzidas à mendicância ou que por ausência de alternativa ou por resistência ao novo
ordenamento social se tornavam delinquentes, assaltantes ou vagabundos. O sortimento
de estratégias punitivas incluía açoitamento, encarceramento, mutilação física, escravização
compulsória da pessoa e da sua prole, agrilhoamento, marcação com ferro em brasa, trabalhos
forçados por tempo determinado, execução sumária. O engajamento dos trabalhadores em
atividades assalariadas, a resignação ao pagamento de salários injustos e a restrição ou interdição
da sua organização coletiva e associação foram garantidos similarmente com uso de coação
e brutalidade autorizadas por lei.

A conjuntura esboçada e que circunscreve os elementos caracterizadores


do capitalismo é completada pela exigência da polarização, primitivamente do mercado
e, depois, de todas as instâncias da coexistência social, a qual coloca fronte por fronte
“[...] de um lado, possuidores de dinheiro, meios de produção e meios de subsistência,
que buscam valorizar a quantia de valor que dispõe por meio da compra de força de
trabalho alheia; de outro, trabalhadores livres, vendedores da própria força de trabalho
e, por conseguinte, vendedores de trabalho” (MARX, 1867/2017, p. 786). Trata-se,
pois, da separação inexorável da classe trabalhadora dos requisitos, dos meios,
da posse e da gestão dos bens e das circunstancias requeridas para a execução da sua
atividade laboral. Estas malvadezas e perversidades do capitalismo associadas ao feitio
flagicioso da burguesia tencionaram perpetrar a apartação entre os trabalhadores e
condições de trabalho e teve como resultado a invenção hodierna do trabalhador como

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PROVOCAÇÕES 20

“pobre laborioso” livre (MARX, 1867/2017), que difere e é opositor do pobre ladravão,
calaceiro, preguiçoso, indolente, trapaceiro, caviloso e velhaco. No decurso histórico
da modernidade as igrejas cristãs, as escolas, as famílias, os veículos da mídia burguesa
cuidaram de ampliar e consolidar os contrastes entre o pobre laborioso e o seu reverso,
por meio de um complexo dialético formativo, educacional, cultural e informativo
dedicado a instruir e subjetivar a classe trabalhadora tendo como guia os padrões
morais, afetivos, comportamentais, sociais e de pensamento proveitosos e úteis ao
capitalismo e à sua classe.

Em meio aos desdobramentos históricos, socioculturais, políticos e econômicos


do cenário aludido e no contexto do capitalismo dependente experimentado no Brasil
é que foram erigidas as bases da Psicologia que divisamos em nosso país, expressamente
sintonizada com o capitalismo e funcional aos interesses da burguesia, o que ocasionou
a elaboração e difusão de desmesurada provisão de abordagens teóricas e práticas
situadas nas esferas da incitação, da exaltação e do entendimento mélico do
individualismo, bem como na idealização e mitificação do indivíduo, concebido como
ser apartado do seu meio e que se constrói para além ou apesar das determinações
sociais. Por esta razão os fazeres em Psicologia se voltaram preferencialmente para o
modelo liberal burguês de atendimento individual e individualizante em consultórios,
clínicas e outros espaços.

A Psicologia Social figura no quadro supramencionado imersa em imprecisões


no seu delineamento, ambiguidades e equívocos teóricos, metodológicos e de ofício.
Genericamente se caracterizou como ciência e campo laboral que investiga, examina
e incide sobre a interação entre pessoas e grupos. No Brasil dos anos 1970 a Psicologia
Social acolheu preferencialmente concepções inspiradas em estudiosos estadunidenses
com pronunciadas inspirações positivistas e centradas no controle, manipulação e ensejo
à adaptação de pessoas ao contexto societário estabelecido. A despeito disso, já em
fins daquela década e princípio dos anos 1980, pessoas dedicadas à pesquisa e ao
trabalho no campo passaram a atuar na construção de uma Psicologia Social Crítica,
eclética teórico-metodologicamente, mas fundamentalmente direcionada para as temáticas
importantes para a população brasileira e implicada com a edificação de uma sociedade
democrática, igualitária e justa (LANE; BOCK, 2003).

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PROVOCAÇÕES 21

O Brasil contemporâneo e as incumbências da Psicologia Social

Nesta quadra histórica do nosso país, a Psicologia Social e a sociedade se deparam com
o desafio de enfrentar a ascensão ao poder de Jair Bolsonaro, líder do que nominamos fascismo
brasilense, que atende em grande parte uma definição stricto sensu desta tendência do capitalismo,
mas manifesta algumas características particulares. Por fascismo compreende-se o movimento
que favorece a radicalização dos processos de exploração dos trabalhadores e acumulação
de riquezas pelos capitalistas “[...] de conteúdo social conservador, que se disfarça sob uma
máscara ‘modernizadora’, guiado pela ideologia de um pragmatismo radical, servindo-se de mitos
irracionalistas e conciliando-os com procedimentos racionalistas-formais de tipo manipulatório.
O fascismo é um movimento chauvinista, antiliberal, antidemocrático, antissocialista,
antioperário [...]“ (KONDER, 1977/2009, p. 56). Algumas especificidades do fascismo
brasilense bolsonarista são: sintonia com o liberalismo econômico e apoio à sua intensificação
por meio do enfraquecimento do Estado; chauvinismo seletivo direcionado aos povos latino-
americanos, chineses e africanos associado a um servilismo prazenteiro em relação às grandes
potências capitalistas; atuação enérgica dirigida à redução da relevância política e econômica
internacional do país.

Em síntese o cenário brasileiro atual foi construído numa conjuntura que articulou
os processos de crise e reordenamento da ordem capitalista mundial a partir de fins dos anos
2000, um golpe de estado, no ano de 2016, contra o povo brasileiro e a sua presidenta eleita,
seguido de um profundo desarranjo societário e político que conduziu à chefia do poder
executivo nacional Bolsonaro, que reiteradamente sinaliza para a suposta necessidade de proteger
a propriedade, a família, a religião e defender a ordem enquanto atua no sentido de assolar
e devastar os movimentos sociais populares, destruir as instituições estatais e as esferas sociais
excessivamente animadas com a democracia supostamente vigorante e seus hipotéticos freios
à vandalização das riquezas do país, das leis e dos direitos protetivos da classe trabalhadora.
Bolsonaro, identicamente a outros governantes fascistas ao longo da história, se faz conveniente
ao capitalismo e à sua classe porque está disponível para praticar as atrocidades sociais,
econômicas e políticas necessárias à consecução dos interesses burgueses, com especial
predileção pelos setores dedicados à especulação financeira.

Diante disso é improtelável que a Psicologia Social expresse o seu compromisso com a classe
trabalhadora e com a multidão de empobrecidos e despossuídos da sociedade por meio
da mobilização de um arcabouço teórico, metodológico e experiencial capaz de concretizar o seu
engajamento com a mobilização das classes trabalhadoras e dos pauperizados em atividades
profissionais e acadêmicas dirigidas às lutas coletivas contra o capital e a configuração política
fascista que assumiu no Brasil.

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PROVOCAÇÕES 22

A tangibilidade desta Psicologia Social inicia por sua delimitação como práxis social
drasticamente distinta da práxis preconizada por pensadores e correntes que representam ou
exprimem a visão de mundo burguesa no bojo da Psicologia e da Filosofia, tanto aquelas
manifestamente sugestionadas quanto as que mantêm abstrusas suas referências no pragmatismo
clássico, no neopragmatismo, na filosofia da linguagem, nas abordagens pós-modernistas, na
tradição neoiluminista, etc. Nestes enfoques a práxis é reduzida a procedimentos mecânicos voltados
para o manejo do real buscando o seu controle com vistas a um entendimento esvaziado da
concretude do mundo e que invariavelmente se acha em congruência com as inclinações
conservadoras burguesas. A nossa perspectiva é de uma Psicologia Social compreendida como
atividade laboral objetiva e permanentemente inacabada, que se movimenta e dinamiza
dialeticamente em meio às antinomias da sociedade e contradições no âmbito das suas próprias
teorias e atividades ocupacionais, as quais objetiva-se superar na direção de maiores e mais complexas
contradições que nos defrontem com a instalação de outros processos de sobrelevação. A Psicologia
Social como práxis é concomitantemente marcada e diferenciada pela conflituosidade, pela
polifonia, pelos desacordos e antagonismos caracterizantes das movimentações dialéticas. Além
disso, assume como finalidade a construção de conhecimentos e práticas, bem como de atuações
políticas voltadas para a transmutação societária no sentido da superação do capitalismo e das suas
formas, da libertação da classe trabalhadora, dos empobrecidos e despossuídos e orientada para a
construção de uma sociedade igualitária e sem classes.

As investigações e esforços para a produção científica em Psicologia Social, bem como da atividade
laboral das psicólogas da área devem ter como objeto o ser social, compreendido em sua unidade
na diversidade, concretude, historicidade e movimentações dialética no quadro do modo de produção
capitalista e suas expressões no Brasil contemporâneo. A examinação do ser social em seu continuum
socializante deve partir do estudo metódico do trabalho e, notadamente, contemplar a atividade
estranhada sob o capitalismo, como o oposto da autoatividade, sendo desefetivação da pessoa na qualidade
de labutador e de pertencente ao gênero humano, já que se caracteriza por ser um “´[...] trabalho que
destitui o sujeito da sua liberdade, autonomia e consciência, em face da realização de uma laboralidade
puramente operacional e mecânica, dispendiosa, e sem sentido subjetivo, somente como um meio
de obtenção de subsistência” (ERCOLANO, PEREZ; 2019, p. 117).

Esta Psicologia Social para ser consubstanciada necessita conceber e medrar métodos
distintos daqueles utilizados correntemente nas múltiplas áreas da Psicologia. Cumpre notar
que não se trata de propositura nova, pois Vigotski (1927/1996), no texto Significado histórico
da crise da Psicologia: uma investigação metodológica, sustentava que os métodos diretos de
acesso ao real limitam o exame e o entendimento das manifestações psíquicas, permitindo
somente o contato com as experiências humanas que são acessíveis diretamente pela observação

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PROVOCAÇÕES 23

de um pesquisador/psicólogo ou pela percepção da própria pessoa que vivencia o fenômeno,


o que ocorreria, por exemplo, por intermédio da introspecção (PEREZ, 2016). O estudioso
russo ponderava que a Psicologia, os seus profissionais e pesquisadores, deveriam considerar
que a “[...] necessidade de sair de uma vez por todas dos limites da experiência direta é assunto
de vida ou morte [...]” (VIGOTSKI, 1927/1996, p. 283). No que concerne à Psicologia Social
é premente mourejar e aplicar ferramentas metodológicas e laborais dedicadas simultaneamente
a garantir, ensejar e mediar: 1) pessoas e grupos nos processos de identificação, compreensão
e tomada de consciência crítica acerca das suas condicionalidades históricas, materiais e
concretas, políticas, sociais, culturais e simbólicas; 2) a organização de coletivos de trabalhadores
e pessoas empobrecidas e despossuídas que lhes permitam protagonizarem e vivenciarem a
possibilidade de transformação da própria realidade.

Em síntese no Brasil contemporâneo cabe à Psicologia Social e as pessoas que nela


atuam focalizar de maneira premente a luta contra o fascismo instalado no país e
perseverantemente produzirem teorias, métodos e estratégias laborais que auxiliem as pessoas
a apropriar a historicidade, a materialidade, as movimentações dialéticas e a totalidade da
sociedade e da trajetória de cada ser humano e cada grupo em sua ambiência social, no intento
de ampliar a potência do agir individual e da atividade coletiva dedicadas a suprimir a burguesia
e as opressões e explorações que promove.

Referências bibliográficas

DUSSEL, E. 1492: o encobrimento do outro - a origem do mito da modernidade: conferências de Frankfurt.


Tradução de Jaime A. Clasen. Petrópolis, RJ: Vozes, 1993.

ERCOLANO, R. S.; PEREZ, D. A essência em função da existência: compreensão do trabalho estranhado e suas
repercussões. In: PEREZ, D.; SILVA, E. P.; PURIN, G. T.; SIMÕES, M. C. D. (Orgs.). Psicologia Social: análises
críticas sobre histórias interditadas e práticas resistentes. Porto Alegre: ABRAPSO Editora, 2019.

KONDER, L. Introdução ao fascismo. São Paulo: Editora Expressão Popular, 2009. (Obra original publicada em 1977)

LANE, S. T. M.; BOCK, A. M. B. ABRAPSO – uma história da Psicologia Social enquanto práxis. In VILELA, A. M. J; ROCHA, M
L; MANCEBO, D. (Orgs.). Psicologia Social: relatos na América Latina. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2003.

MARX, K. O Capital: O processo de produção do capital. Livro 1. Tradução Ruben Enderle, São Paulo: Boitempo
Editorial, 2017. (Obra original publicada em 1867)

PEREZ, D. Produzir saberes sobre o trabalho: um método em Psicologia. Estudos em Psicologia, 21(3), Natal, 2016, p.
305-316.

VIGOTSKI, L. S. O significado histórico da crise da Psicologia: uma investigação metodológica. In: Vigotski, L.S. Teoria e
método em Psicologia. Tradução Claudia Berliner. São Paulo: Martins Fontes, 1996. (Obra original publicada
em 1927)

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FORMAÇÃO PSI
FORMAÇÃO PSI 25

O lugar do
pensamento crítico
e do compromisso social
na formação da Psicologia

Marlene Bueno Zola1

INTRODUÇÃO

Os conhecimentos, competências e habilidades profissionais (teóricos, práticos e institucionais)


representam uma expertise de domínio de determinada profissão que é institucionalizada
e certificada para formação e exercício profissional. Ou seja, trata-se de uma espécie de reserva
de atribuição que, no caso da formação em Psicologia, tem base em Diretrizes Curriculares
Nacionais (DCN) aprovadas pelo Ministério da Educação (MEC) e, para o seu exercício
profissional e proteção do público a quem é dirigido esses conhecimentos, é regulamentada
pelo Sistema Conselhos da categoria2. São condições que regulamentam e legitimam
socialmente a profissão da/o Psicóloga/o.

No ano de 2018, foi coordenado pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP), a Associação
Brasileira de Ensino de Psicologia (ABEP) e a Federação Nacional dos Psicólogos (FENAPSI)
um amplo processo participativo nacional de revisão das DCN para a formação em Psicologia
visando dar respostas à formação e inserção da profissional em várias áreas e demandas da sociedade.
1. Psicóloga, Especializada em Psicologia Social e Administração Hospitalar; Mestra e Doutora com ênfase em Serviço Social,
Políticas Sociais e Movimentos Sociais (PUC-SP); Professora, supervisora de estágio e coordenadora do Curso de Psicologia do
Centro Universitário Fundação Santo André; Possui experiência profissional de 23 anos em gestão pública de políticas sociais, nas
áreas da Saúde, TrabalhoAssistência Social, em órgãos estadual e municipal.
2. O Conselho Federal de Psicologia (CFP) e os Conselhos Regionais de Psicologia (CRPs) formam, juntos, o Sistema Conselhos.

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FORMAÇÃO PSI 26

A formação e a prática profissional da Psicologia, considerada como generalista


e pluralista, fundamentam-se numa diversidade de perspectivas epistemológicas e teórico-
metodológicas explicativas da compreensão do ser humano e dos fenômenos psicológicos,
em grande parte relacionadas às necessidades de delimitação de áreas de atuação e diferenciação
profissional nesses contextos práticos, as quais a/o psicóloga/o se insere (saúde, educação,
organizações, comunidades, esporte, justiça, entre outros). Expressa concepções de tradição,
fincadas na prática profissional liberal e de enfoque clínico individual e de mudanças,
não sem conflitos, que ampliam abordagens ocupacionais e respostas a problemas sociais.

É determinante que exista relação dos projetos profissionais com os


projetos societários, a quem a profissão é concebida, e por isso, os projetos
profissionais devem ser dinâmicos, se renovarem e se modificarem para
responderem às alterações das necessidades sociais sobre as quais a profissão
atua, articulada às conquistas dos conhecimentos científicos e avanços civilizatórios.

Essas considerações preliminares sinalizam como é institucionalizada e ampla a


for mação e a prática profissional, e permitem conduzir para o objeto analítico deste
escrito que direciona o olhar crítico às transformações da profissão decorrente
da objetividade da dinâmica social que também impacta a compreensão de fenômenos
psicológicos e subjetividades, reconhecida a dimensão social da natureza humana.

O desenvolvimento deste texto está organizado em dois blocos dialeticamente


articulados: o primeiro tem como base reconhecer, na formação da Psicologia,
elementos de tradição, de crítica e de mudanças, em muito, conciliados na delimitação
de áreas de atuação profissional; a segunda abordagem coloca em evidência o pensamento
crítico como fundante do compromisso social da Psicologia e insere as Diretrizes
Curriculares para a formação da Psicologia, na atualidade, com ampliação de
demandas voltadas à formação em políticas públicas e garantia de direitos humanos.

1. ELEMENTOS DE TRADIÇÃO, CRÍTICA


E MUDANÇAS NA FORMAÇÃO PROFISSIONAL

A lei nº 4.119, de 27 de agosto de 1962, dispõe sobre os cursos de formação em psicologia


e regulamenta a profissão de psicólogo no Brasil, e, as práticas centradas nas necessidades de
delimitação de áreas de atuação é um marco desde a origem da profissão. Representativa do
praticado à época, reconhece para a atuação profissional o ensino da Psicologia, Psicologia

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FORMAÇÃO PSI 27

Educacional, Clínica e, aplicada ao Trabalho. Institui como função privativa, em seu artigo 13,
a utilização de métodos e técnicas psicológicas voltadas ao “diagnóstico psicológico; orientação
e seleção profissional; orientação psicopedagógica; solução de problemas de ajustamento”3.

Em dados de estudos realizados na década de 1970, a área clínica, na condição de modelo


biomédico e profissional autônomo, era a condição predominante de atuação seguida pelo
ensino de Psicologia e, com menor expressão, a atuação na área industrial e escolar. A crítica
presente era a separação entre ciência e a técnica, esta última com prevalência na formação,
e que era transportada de modelos europeus e norte-americanos, sem o reconhecimento
das características humana e social da realidade local. E, também, sua aplicação era destinada
à pequena parcela da sociedade com maior poder aquisitivo, considerada como uma profissão
de luxo4. Estudos datados de 1977/78, concluíram que no máximo 15% da população tinham
acesso aos serviços de Psicologia5. Demais 85% da população não necessitavam dos serviços?

Mudanças no projeto societário brasileiro impulsionam o debate crítico do projeto


profissional da Psicologia, na década de 1990. A transição democrática brasileira, após o novo
pacto social com a promulgação da Constituição Federal 1988, amplia a cobertura do sistema
de bem-estar social e de direitos humanos à população e traz novas determinações sociais
que impactam os rumos teórico-prático da Psicologia no Brasil, considerada ainda tecnicista
e fragmentada do ponto de vista de sua interface entre fenômenos psicológicos e sociais.

São exemplos, na Psicologia, o debate e a ampliação da atuação profissional


articulados à reforma sanitária com a instituição do Sistema Único de Saúde (SUS), à luta
antimanicomial, aos avanços de direitos de cidadania a segmentos sociais marginalizados e que são
acompanhados de reflexões sobre o compromisso social da Psicologia, a inserção da
subjetividade na análise da desigualdade social e nas políticas públicas, os novos referenciais
teóricos e metodológicos e a revisão de diretrizes curriculares para a formação da Psicologia.

Várias são as produções teóricas6 fundadas na teoria crítica e dialética oriundas da psicologia
social e da análise psicossocial e, na pesquisa-ação decorrente da atuação em diferentes
espaços ocupacionais ligados a políticas sociais que contribuem para alterar paradigmas
como: a convivência familiar e comunitária com a substituição dos hospitais psiquiátricos
3. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/1950-1969/l4119.htm
4. Fonte: Sylvia Lezer de Mello Pereira. Psicologia: características da profissão, Cap. 7. in: Oswaldo H. Yamamoto Ana Ludmila F.
Costa (orgs.) Escritos sobre a profissão de psicólogo no Brasil. Natal, UFRN. 2010.
5. Estudos de Silvio Paulo Batomé (2010). in: Oswaldo H. Yamamoto Ana Ludmila F. Costa (orgs.) Escritos sobre a profissão de
psicólogo no Brasil. Natal, UFRN. 2010.
6. Como referência: LANE, Silvia e CODO, Wanderley (orgs) Psicologia Social: o homem em movimento. SP. Brasiliense, 1989.
SAWAIA, Bader. As Artimanhas da Exclusão: Análise psicossocial e ética da desigualdade social. RJ: Vozes, 8. ed. 2008.

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FORMAÇÃO PSI 28

por uma rede de serviços locais; a substituição do enfoque da doença-cura por existência-
sofrimento; a atenção integral, em vários níveis de atenção à saúde e o reconhecimento da
multicausalidade do processo saúde-doença. Na abordagem técnico-operativa observa-
se o deslocamento de práticas individuais para grupais, interdisciplinares e em redes.

Cabe destacar para as mudanças do enfoque profissional, a contribuição decorrente


da prática na região do Grande ABC, com a realização de concurso público e contratação de
várias/os Psicólogas/os, em 1987, pela Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo (antigo
ERSA 9), para atuação em diferentes níveis de saúde e a implantação de serviços de saúde mental
pela Prefeitura Municipal de Santo André, em 19897. Destaca-se, também, a instituição do
Centro de Referência Técnica em Psicologia e Políticas Públicas (CREPOP), iniciativa criada
no ano de 2006 pelo Sistema de Conselhos de Psicologia (CFP e CRPs) e atualmente com
várias publicações e contribuições sobre a atuação da Psicologia em diferentes políticas públicas.

II. O PENSAMENTO CRÍTICO


E O COMPROMISSO SOCIAL DA PSICOLOGIA

O compromisso social da Psicologia é um tema com centralidade nas reflexões


críticas da Psicologia e, no presente texto, está diretamente imbricado ao tópico
anterior. Frequentemente associado a práticas e serviços oferecidos a segmentos
sociais tradicionalmente sem acesso à Psicologia, em contraposição à crítica do modelo
elitista, são aqui destacados alguns referenciais do pensamento crítico, a necessária
interconexão entre fenômenos psicológicos e sociais, a dimensão ético-política do
sofrimento humano e finalizamos com as mudanças nas DCN do Curso de Psicologia.

Dentre as reflexões analíticas, de natureza crítica, que conduziram para novos referenciais
teórico-metodológicos do trabalho profissional destacam-se: a abordagem sócio-histórica
utilizada para a compreensão de raízes históricas e culturais dos fenômenos psicológicos; o uso
do pensamento crítico e da lógica dialética de totalidade na análise e tratamento de
indivíduos, grupos e comunidades; a crítica a perspectivas naturalizantes de comportamento
e de ajustamento social; o questionamento de interesses ideológicos presentes na neutralidade
científica e o questionamento do determinismo, seja do biologismo ou do sociologismo, em
algumas teorias científicas e suas implicações para a realidade e manutenção de valores moralizantes.

7. Para maior aprofundamento ver aspectos históricos em: Elizabete Henna; Luiz Carlos de Abreu; Marcos Luiz Ferreira Neto;
Alberto Olavo Reis. Rede de atenção à saúde mental de base comunitária: a experiência de Santo André. Rev. bras. crescimento
desenvolv. hum. v.18 n.1 São Paulo abr. 2008

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FORMAÇÃO PSI 29

A crítica às teorias desvinculadas dos contextos históricos e culturais conduz à lógica


da naturalização de valores e sofrimentos, padronização dos comportamentos, manutenção da ordem
social e adaptação dos indivíduos a interesses dominantes e instituídos; por outro lado, o seu
reconhecimento expressa o comprometimento com processos emancipatórios, humanos e sociais
e possibilita a percepção da interrelação dialética da subjetividade-objetividade, posto que o humano
é um sujeito ativo e as subjetividades são constituídas a partir da relação com a objetividade.

As percepções de fenômenos psicológicos e subjetividades em articulação com a objetividade


das situações são desenvolvidos por Bader Sawaia em dimensão ético-política8. O sofrimento humano
é distinto da dor física e decorre de sua relação com a sociedade. Quem sofre é o indivíduo, mas a gênese
não está nele e sim a partir das interações e impactos presentes nas suas relações sociais e de natureza
diversa, objetiva e subjetiva. Dar voz e vez ao sujeito permite reconhecer “subjetividades especificas
que vão desde o sentir-se incluído até o sentir-se discriminado ou revoltado”. Os impactos sofridos
por indivíduos diferentes geram subjetividades diversas. Alguns mecanismos de defesa psicológica
são acionados para seu equilíbrio e, em algumas situações, várias são as rupturas e com demandas
de suporte subjetivo e objetivo. Condição não aprendida com a desarticulação do humano com
o social, esta é a dimensão política que se expressa no cuidado e na ação de políticas públicas.

Os indicadores de mudanças da profissão, o debate teórico-metodológico e


as necessidades dos grupos sociais ampliaram o projeto profissional da psicologia, com
lacunas ainda entre a formação e a prática, entre a universidade e o mercado de trabalho.

As Diretrizes Curriculares para os Cursos de graduação em psicologia de 2004 possibilitaram


avanços na institucionalidade da formação profissional. Priorizam a formação ampla e o respeito à
multiplicidade de concepções teóricas e metodológicas; em destaque, apresenta conceitos ampliados do
reconhecimentodoprocessosaúde-doençacomformaçãoparaaçõesdeprevenção,promoção,proteção
e reabilitação da saúde psicológica e psicossocial, tanto em nível individual quanto coletivo. As DCN
de 2011 reafirmam a institucionalidade de 2004 e inserem o projeto de formação complementar
para o professor de Psicologia. É no ano de 2018 que ocorre um amplo debate e a Formação nas
Políticas Públicas é inclusa nas DCN, com destaque na formação profissional da Psicologia.

Ao lançar o olhar para a formação e a atuação profissional e constatar qual é a psicologia


desenvolvida, é possível reconhecer qual é o compromisso social da Psicologia, como e a quem
serve. Vários são os desafios, mas o projeto profissional da Psicologia torna-se sensível e visível aos
resultados do projeto societário.
8. Para melhor compreensão ver, Bader Sawaia. As Artimanhas da Exclusão: Análise psicossocial e ética da desigualdade social. RJ:
Vozes, 8. ed. 2008, p 9.

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FORMAÇÃO PSI 30

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O o l h a r crí ti co pa r a a i n s titu ciona liza çã o e certif ica çã o d a for m aç ão


d o s s ab eres psicológicos e do exercício profissional, ao longo do tempo e conforme
contexto social, permitem entender a tradição e as mudanças da Psicologia, ainda em suas
várias expressões, tendo por objeto majoritário, a adequação às necessidades de delimitação
de áreas de atuação profissional, e menos como a unidade de resposta a sua capacidade
ampla de intervenção ao bem estar humano e social.

Observa-se, apesar de desafios da articulação teoria-prática-sociedade, importantes


avanços da relação do projeto profissional com o projeto societário da psicologia, enquanto
ciência e profissão.

As breves considerações buscam contribuir para o debate em torno das articulações


entre formação, prática profissional e compromisso social da Psicologia voltada para o bem
estar de indivíduos, grupos, organizações e comunidades.

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PERSPECTIVAS
TEÓRICAS
PERSPECTIVAS TEÓRICAS 32

Psicologia Sócio-Histórica:
contribuições para
a construção de uma
Psicologia crítica

Elisa Zaneratto Rosa1

A Psicologia Sócio-Histórica fundamenta-se teórica e metodologicamente no materialismo


histórico dialético. Tem sua origem referenciada na obra de L. S. Vygotsky (1896-1934), o qual
construiu uma Psicologia na União Soviética, durante a primeira metade do século XX, com o
intuito de oferecer uma reconstrução à ciência psicológica a partir do referencial marxista. Vygotsky
e sua obra respondem, em conjunto com outros autores, à repressão stalinista à psicologia, trazendo
a público suas pesquisas e teorias baseadas em uma epistemologia materialista histórica e dialética.
Sobre o contexto da psicologia russa do início do século XX, afirma Molon (2003):

A psicologia na Rússia estava se consolidando, ao mesmo tempo em que tentava


se reconstituir, pela mudança dos seus pressupostos epistemológicos, pois
estava inexoravelmente vinculada ao momento sócio-histórico e político da
revolução socialista, que engendrou mudanças significativas em diversas áreas,
como poesia, arte, cinema, teatro, lingüística, pintura... A psicologia não ficou à
margem deste movimento revolucionário, que propiciou a aceleração do
desenvolvimento que vinha acontecendo, oferecendo condições materiais por
meio da criação de vários institutos e instituições, como também influenciou na
definição dos paradigmas científicos (MOLON, 2003, p.24).

1. Psicóloga, doutora em Psicologia Social pela PUC-SP. Professora da graduação em Psicologia e do Programa de Estudos Pós-
Graduados em Psicologia Social da PUC-SP. Membra do Instituto Silvia Lane de Psicologia e Compromisso Social.

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PERSPECTIVAS TEÓRICAS 33

A obra de Vygotsky é introduzida na Psicologia Social brasileira no final da década de 1970


por Silvia Lane (SAWAIA, 2002; LANE, 1984), fornecendo subsídios para uma nova perspectiva
que se desenvolvia nessa área. Naquele momento, intensificavam-se os questionamentos em relação
à Psicologia Social até então hegemônica: “(...) sua eficácia começa a ser questionada em meados
da década de 60, quando as análises críticas apontavam para uma ‘crise’ do conhecimento
psicossocial que não conseguia intervir nem explicar, muito menos prever comportamentos sociais”
(LANE, 1984, pp. 10-11). Nos países da América Latina, a crise da Psicologia Social, para além de
seu caráter teórico e epistemológico assumiu um caráter político. Nas palavras de Lane:

As ditaduras militares, com seu poder repressivo, as injustiças sociais, a


opressão sob a qual a maioria dos povos vivia nas décadas de 60 e 70, faziam-
nos questionar não só o nosso papel de pesquisadores como a própria Psicologia
Social, Ela, que se apresentava na década de 50 como o ramo da Psicologia que
contribuiria para resolver os grandes problemas da humanidade, parecia a nós,
neste período, que apenas subsidiava a opressão, a manipulação política, a
manutenção do status quo. Diante deste quadro, o nosso cotidiano não nos
permitia ficar em “torres de marfim” pesquisando neutramente... (LANE, 1995,
p.67, 68)

A partir dessa inserção, no Brasil, tal leitura ganha consistência enquanto abordagem
teórica da Psicologia. Esse movimento culminou, nos últimos anos da década de 1970,
com a concretização, por parte de psicólogas brasileiras lideradas por Silvia Lane (Sawaia,
2002), de propostas para a construção de uma Psicologia Social com bases materialista-
históricas e direcionada a trabalhos comunitários. Estão assim abertos os caminhos para o
desenvolvimento e fortalecimento no Brasil de uma Psicologia Social inspirada nesta
perspectiva, que veio a se denominar Sócio-Histórica, e que passou a tomar o psiquismo
humano como constituído na materialidade histórica da sociedade e da cultura,
abandonando efetivamente a ideia de que a subjetividade humana pudesse ser regida por
leis naturais.

A perspectiva Sócio-Histórica, introduzida pela Psicologia Social, representa para toda


a Psicologia uma leitura que, afastando-se das fragmentações próprias da concepção de universo
instituída pela racionalidade moderna, busca a mediação entre tudo o que há e procura ler os
fenômenos subjetivos a partir dessa premissa. Nas formulações de Vygotsky encontramos uma
Psicologia que supera as dicotomias que caracterizam as teorias e concepções construídas no
campo da Psicologia desde a sua constituição, as quais expressam contradições que se colocam
no contexto em que essa ciência emerge e tem seu objeto definido. Nas diversas perspectivas
teóricas da Psicologia vemos diferenças que “(...) ocorrem no balanço do pêndulo: interno /
externo; psíquico / orgânico, comportamento / vivências subjetivas; natural / social; autonomia
/ determinação” (BOCK, 2001, p.17). Desde uma perspectiva materialista histórica dialética,

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PERSPECTIVAS TEÓRICAS 34

na perspectiva Sócio-Histórica cada um desses polos é constitutivo da totalidade e a expressa


como tal, contendo sua polaridade oposta, sem sê-la exatamente, e vice-versa.

Epistemologicamente, cumpre destacar algumas referências e aportes da abordagem:

Fundamenta-se no marxismo e adota o materialismo histórico dialético como


filosofia, teoria e método. Nesse sentido, concebe o homem como ativo, social e
histórico. A sociedade, como produção histórica dos homens que, através do
trabalho, produzem sua vida material. As ideias, como representações da
realidade material. A realidade material, como fundada em contradições que se
expressam nas ideias. E a história, como o movimento contraditório constante
do fazer humano, no qual, a partir da base material, deve ser compreendida
toda produção de ideias, incluindo a ciência e a psicologia. (BOCK, 2001, p. 17-18)

Segundo Bock (2001), esses fundamentos epistemológicos e teóricos conferem à Psicologia


Sócio-Histórica a possibilidade da crítica. Temos aprofundado, nos últimos anos, o debate em
torno da crítica no campo da Psicologia. A discussão crítica sobre a Psicologia e sua trajetória
como ciência e profissão na sociedade brasileira nos apontou a necessidade de construção de
uma Psicologia crítica. Produzimos uma crítica em relação aos conceitos e ferramentas com
que atuamos no campo da Psicologia, assim como ao projeto ético-político que acompanhou
a história da Psicologia no Brasil e os compromissos e pactos assumidos com determinados
projetos de sociedade nessa trajetória. Essa crítica hoje nos mobiliza e nos desloca em relação
a referências epistemológicas, teóricas e práticas instituídas na Psicologia, caracterizando-se
um momento de potente e forte indagação da Psicologia em relação a si própria, às referências
de sua prática profissional, aos conceitos com que trabalha e às diretrizes para o fazer profissional.

Furtado (2003) aponta para o caráter recente da presença do pensamento crítico na


Psicologia, localizando na segunda metade do século XX contribuições de autores como
Deleuze e Guatarri, Moscovici, Foucault, Fals-Borda, Paulo Freire, Maritza Montero, Silvia
Lane, Martin-Baró, incluindo portanto contribuições do Brasil e da América Latina para a
construção de perspectivas críticas. O autor aponta como desafio para a Psicologia constituir-
se referência para o pensamento crítico e identifica nas discussões sobre subjetividade e
constituição do sujeito essa possibilidade. O autor destaca o ser humano como único animal
capaz de transformar sua própria história. Ao fazê-lo, afirma o sujeito histórico, o sujeito da
transformação e seu caráter revolucionário e convoca a Psicologia a esta compreensão como
condição para a produção de um conhecimento revolucionário. “Trata-se de buscarmos
referências que definam esse ser da transformação, que estudem sua subjetividade e que
relacionem tal subjetividade dialeticamente a condições objetivas de transformação social.
Nesse momento teremos, de fato, uma Psicologia Crítica” (FURTADO, 2003, p.254).

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PERSPECTIVAS TEÓRICAS 35

Esse texto compromete-se com a continuidade e aprofundamento da discussão crítica no


campo da Psicologia, ofertando como contribuição para a construção de uma Psicologia crítica a
perspectiva Sócio-Histórica. Apresenta alguns marcos teórico-metodológicos da Psicologia Sócio-
Histórica para, ao final, tecer uma reflexão sobre a crítica na Psicologia, Nela, identifica-se na
história da Psicologia como ciência e também como profissão no Brasil concepções e perspectivas
que, por seu caráter conservador, foram opostas à crítica, ou ao menos dificultaram a possibilidade
de leituras e formulações críticas. Não se trata de uma história passada ou encerrada, até porque
essa condição não define a história. Trata-se, isso sim, de uma história que se atualiza e constitui o
momento atual da Psicologia, expressando-se nos problemas que enfrentamos diante dos desafios
que a sociedade brasileira apresenta para esse campo de conhecimento e prática. Nesse momento
do texto, destacaremos três grandes concepções ou prerrogativas que acompanham o percurso da
Psicologia, operando como empecilhos ao pensamento crítico. Elas podem ser assim sintetizadas: a
dicotomia indivíduo-sociedade, a naturalização da realidade e do fenômeno psicológico e o
pensamento colonizado. Em relação a cada uma delas oferecemos, a partir da Psicologia Sócio-
Histórica, uma outra abordagem, comprometida com a construção de uma perspectiva crítica e
com formulações e recursos teórico-epistemológicos para caminhos e saídas na direção de uma
outra história da Psicologia.

Sobre a Psicologia Sócio-Histórica: fundamentos teórico-metodológicos

Tendo como fundamento epistemológico o materialismo histórico e dialético, para a


Psicologia Sócio-Histórica é pela atividade social, por meio da qual os seres humanos atuam
na transformação da natureza em busca da satisfação de suas necessidades, que se produz a sua
existência. Segundo Marx e Engels (2009), a produção dos meios para a satisfação das
necessidades da vida material é o primeiro ato histórico e a condição fundamental de toda a
história. Dele deriva a produção de novas necessidades e, como produto das relações entre os
homens na sua atividade, a própria consciência. Isso implica reconhecer que o conteúdo
humano da existência dos homens constitui-se como um produto histórico e somente a partir
dessa dimensão histórica pode ser conhecido. Ao longo da história, os homens dão continuidade,
em circunstâncias modificadas, à atividade que lhe fora transmitida, ao mesmo tempo em que
transformam as velhas circunstâncias com uma atividade mudada. Assim opera o movimento
da realidade social e histórica, sendo que nesse processo a humanidade se produz e é
transformada pela atividade dos homens em sociedade.

Essa concepção da história assenta, portanto, no desenvolvimento do processo


real da produção, partindo logo da produção material da vida imediata, e na
concepção da forma de intercâmbio intimamente ligada a esse modo de
produção e por ele produzida, ou seja, a sociedade civil nos seus diversos

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PERSPECTIVAS TEÓRICAS 36

estágios, como base de toda história, e bem assim na representação da sua ação
como Estado, explicando a partir dela todos os diferentes produtos teóricos e
formas de consciência – a religião, a filosofia, a moral etc., etc. – e estudando a
partir destas o seu nascimento; desse modo, naturalmente, a coisa pode
também ser apresentada na sua totalidade (e por isso também a ação recíproca
dessas diferentes facetas umas sobre as outras) (MARX e ENGELS, 2009, pp.
57- 58).

A partir da noção de historicidade, a perspectiva Sócio-Histórica em Psicologia apreende a


subjetividade pela relação entre a base material e a produção de ideias no movimento histórico.
Segundo Gonçalves (2001), a subjetividade se modifica e aparece de diferentes formas ao longo
da história humana. Desde essa perspectiva, sujeito e subjetividade foram tomados como
produções históricas, sendo a subjetividade constituída através de mediações sociais. A categoria
historicidade é, portanto, central para a Psicologia Sócio-Histórica. “Em vez de naturalizar,
este método aponta para a necessidade de se conhecer a gênese e o processo histórico dos
fenômenos estudados” (Gonçalves e Bock, 2003:49).

Vygotski (1995) propõe que o desenvolvimento do psiquismo se produz através da


conversão de relações sociais em funções psíquicas, processo no qual a linguagem desempenha
papel fundamental. Os homens apropriam-se da produção cultural acumulada historicamente
pela humanidade por meio da utilização de instrumentos e das relações sociais e intersubjetivas
nas quais ela encontra-se cristalizada. A linguagem permite que esse patrimônio seja
internalizado e reconstruído por meio de significados e sentidos subjetivos que constituem as
configurações subjetivas correspondentes ao plano psicológico do sujeito.

Assim, compreendemos que o indivíduo está inscrito nas determinações sócio-históricas


e se constitui enquanto tal a partir de uma relação dialética. Segundo Vygotsky (apud LURIA,
1987, p.21) a origem e compreensão da vida consciente e do comportamento humano só
podem ser encontradas na vida social, “nas formas histórico-sociais da existência do homem”.
O plano psicológico, a subjetividade, é expressão da atividade e das relações desenvolvidas pelo
homem ao longo de sua história, história esta que contém uma história maior. Vygotsky (1995)
aponta que a natureza psíquica do homem corresponde a um conjunto de relações sociais que
são interiorizadas e convertidas em funções da personalidade e em formas de sua estrutura, ou
seja, no plano subjetivo do sujeito. É neste processo que o indivíduo se torna humano,
apropriando-se da construção cultural acumulada por sua espécie, através da utilização dos
instrumentos produzidos pelos homens e das relações sociais. Os instrumentos cristalizam a
história da humanidade e a partir de sua apropriação no campo intersubjetivo, isto é, no
campo das relações sociais, o homem se apropria de toda a história neles cristalizada, internaliza
a construção cultural humana e a reconstrói (VYGOTSKY, 1998).
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PERSPECTIVAS TEÓRICAS 37

Nesse movimento e através de sua ação na realidade, o homem transforma a natureza, a


sociedade e, deste modo, transforma a si próprio. Este processo de construção do interno e do
externo não é mecânico, e sim dialético. O mundo interno, ou a subjetividade, não é mera reprodução
do mundo externo, da realidade social e da história no indivíduo, porque este processo é mediado
pelos significados e sentidos que constituem o plano subjetivo do sujeito e possibilitam a configuração
do novo, do particular, que é também e ao mesmo tempo social e histórico, até porque os signos se
produziram a partir da ação do homem na realidade. Do mesmo modo, o mundo social não é
correspondente à soma dos indivíduos que o compõem.

Portanto, não há que se falar em indivíduo se não na relação com a sociedade e a história
sobre as quais ele atua, criando-as, transformando-as e assim, transformando a si próprio. Essa
Psicologia considera a mediação entre o individual e o social, reconhecendo a dimensão social
como constitutiva da subjetividade e a dimensão subjetiva como constitutiva dos fenômenos sociais.
O sujeito individual e os fenômenos sociais constituem-se mutuamente, sendo que a dimensão
subjetiva da realidade estabelece a síntese entre as condições materiais e a sua apropriação subjetiva
pelos sujeitos. Entendida como construções individuais e coletivas, que se constituem mutuamente
e que são constitutivas dos fenômenos, a dimensão subjetiva da realidade refere-se a “produtos
subjetivos ‘sociais’” (GONÇALVES e BOCK, 2009, p. 144)

Entende-se dimensão subjetiva da realidade como construções da subjetividade


que também são constitutivas dos fenômenos. São construções individuais e
coletivas, que se imbricam, em um processo de constituição mútua e que
resultam em determinados produtos que podem ser reconhecidos como
subjetivos (GONÇALVES e BOCK, 2009, p. 143).

Essa perspectiva recoloca o sujeito em relação ao debate epistemológico da Modernidade.


Reconhece o sujeito, sem que este fique perdido na análise das questões sociais de seu tempo ou
ainda desvinculado das mesmas. O sujeito é ativo, histórico e social. Isso permite uma leitura da
subjetividade e do campo psicológico capaz de escapar de armadilhas que muitas vezes levam a
Psicologia a pactuar e legitimar formas de controle, normatização e exclusão. Também permite
uma leitura capaz de não eliminar o sujeito ao contrapor-se à perspectiva iluminista da liberdade
individual e aos processos normatizadores do projeto moderno. Caminha, isso sim, na direção de
historicizar o sujeito e de reconhecer sua singularidade a partir da relação entre subjetividade e
atividade, fortalecendo ambas as dimensões (ROSA, 2005).

Acompanhando esses fundamentos, do ponto de vista metodológico, na perspectiva do


materialismo histórico e dialético sujeito e objeto estão dialética e contraditoriamente ligados,
porque um constitui o outro, sem sê-lo exatamente. O sujeito contém o objeto, como parte da

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PERSPECTIVAS TEÓRICAS 38

realidade que o constitui, ao mesmo tempo em que exerce uma ação sobre ele, transformando-o e
transformando, assim, a si próprio. O objeto, esfera da realidade investigada pelo pesquisador,
contém este como seu elemento constitutivo, se transforma enquanto realidade a partir da ação
desse sujeito e do próprio conhecimento produzido, o qual, enquanto práxis, se materializa na
forma de ação na realidade. Sujeito e objeto transformam-se nessa relação, assim como a realidade
transforma-se historicamente. Assim, em contraposição à noção de que conhecer é apreender uma
realidade regida por leis naturais sem interferir na mesma, o conhecimento é visto sempre,
necessariamente, como ação sobre o objeto e esta ação transforma também o próprio sujeito (ROSA,
2005). Dessa forma, ficam superados os embates acerca da neutralidade da ciência psicológica e da
dificuldade resultante da coincidência entre sujeito e objeto. Portanto, a noção de práxis representa
uma possibilidade de superação à dicotomia sujeito-objeto no âmbito do materialismo histórico
dialético (LOWY, 1987).

Compreendendo a realidade constituída por multideterminações e em constante


movimento, a dialética singular-particular-universal orienta epistemologicamente a Psicologia
Sócio-Histórica, sendo referência para o processo de produção de conhecimento que pretende
apreender essa realidade em seu movimento (ROSA, 2016).

A relação dialética singular-particular-universal é fundamental e, enquanto tal,


indispensável para que se possa compreender essa complexidade da
universalidade que se concretiza na singularidade, numa dinâmica
multifacetada, através das mediações sociais – a particularidade (OLIVEIRA,
2005, p. 26).

Concebendo a singularidade do objeto como síntese complexa em que a universalidade


se concretiza mediada por condições sociais e históricas particulares, procuramos apreender
no processo de produção de conhecimento esse movimento constitutivo do real. A produção
de conhecimento deve apreender as determinações e o movimento constante de transformação
e constituição dos fenômenos investigados. Portanto, parte-se do empírico, da aparência
imediata, recorrendo-se a categorias teóricas e metodológicas para, por meio do abstrato,
ampliar o alcance das determinações, contradições e transformações constitutivas da realidade
ou do fenômeno em investigação, o que quer dizer, de sua concretude (KAHHALE e ROSA, 2009).

O método está orientado por uma questão ético-política: conhecer a realidade humana para
transformá-la (OLIVEIRA, 2005). A práxis é, nessa perspectiva, noção fundamental. Conceber
conhecimento como práxis significa reconhecer a união indissolúvel entre teoria e prática, entre
pensamento e ação; significa reconhecer que todo o conhecimento se dá na e pela relação com a
realidade e que, ao mesmo tempo, atua sobre esta e dialeticamente passa a constituir a totalidade,

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PERSPECTIVAS TEÓRICAS 39

modificando-a de alguma forma (FRIGOTTO, 1989). Pensar o conhecimento como práxis nos
leva a concebê-lo como ação pensada e refletida na realidade. É a partir deste princípio que Lane
(1984, p.18) afirma: “(...) consciente ou não, sempre a pesquisa implica intervenção, ação de uns
sobre os outros”.

Conceber conhecimento como práxis nos obriga a refletir acerca do compromisso social
e político da pesquisa, assim como nos obriga a relacionar a estes o compromisso ético. Falamos
de ciência como ação na realidade, falamos de ciência posicionada e isto nos coloca
obrigatoriamente a pensar a relação entre ciência e ética, no sentido de ética que lhe traz a
dimensão de compromisso com a humanidade do outro. Concordamos com a proposição de
Heller (1989), segundo a qual deve-se derrubar o mito da neutralidade da ciência. Para esta
autora, a ciência é sempre interessada, de modo que existem interesses tanto facilitadores,
como dificultadores em relação à sua tarefa e seu compromisso em desvelar a realidade social.
É também neste sentido que Santos (2000) nos fala de um conhecimento-emancipação.
A respeito disso, Sawaia (2000) traz uma reflexão valiosa:

Vivemos um momento histórico de transformação do paradigma científico, que


questiona o postulado de que o rigor científico por si só é ético por ser neutro
(...) À medida que o mito da neutralidade científica é questionado, reaviva-se o
debate saudável entre ciência e virtude. Aos critérios clássicos de avaliação de
uma pesquisa, ao referencial teórico-metodológico, à definição dos objetivos, à
coerência interna e ao procedimento, somam-se os pressupostos éticos e
políticos que estão inscritos nos anteriores e nos motivos que levaram o
pesquisador a definir determinado objetivo, a escolher determinados sujeitos
para a sua pesquisa (Sawaia, 2000, p.14).

Colocados esses fundamentos, passamos, finalmente, a refletir sobre sua possibilidade de


contribuição ao avanço de uma perspectiva crítica em Psicologia, considerando os embaraços
de seu percurso.

Construindo uma Psicologia crítica

Na produção histórica da Psicologia, a concepção de homem ou concepção de sujeito,


central em função da própria definição de seu objeto, forjou-se a partir das condições de
emergência e consolidação da sociedade ocidental moderna, caracterizando uma concepção
liberal, que constitui ponto fundamental do olhar crítico a essa produção (GONÇALVES,
2010). A concepção liberal de homem está fundada na noção de indivíduo livre, responsável
pelo seu destino, fundamentando na trajetória individual dos sujeitos, possível a partir de sua
condição de liberdade, as desigualdades próprias da sociedade de classes. Essa concepção

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PERSPECTIVAS TEÓRICAS 40

liberal fundamentou a constituição da Psicologia, expressando-se em suas teorias e práticas


profissionais (BOCK, 1999). Em sua tradição, a Psicologia apreendeu o indivíduo por ele
mesmo, apartado das condições sociais e históricas que estão relacionadas à constituição da
subjetividade. Superar a concepção liberal é um desafio para a construção de uma Psicologia
crítica e isso implica, necessariamente, superar a dicotomia indivíduo-sociedade, que permite
sua sustentação. Reconhecer o sujeito como constituído a partir de condições sociais e históricas
e construtor dessa realidade permite superar uma noção de indivíduo encerrado em si mesmo,
buscando compreensões e transformações que não ignorem as condições de sua realidade.

A questão da relação indivíduo-sociedade acompanha a história da Psicologia, em suas


diversas formulações teóricas, mas resta o desafio de uma formulação que enfrente a dicotomia pela
qual essa relação é formulada. Vimos, na perspectiva Sócio-Histórica, uma concepção segundo a
qual indivíduo e sociedade são constitutivos um do outro, identificando aí uma condição para a
formulação de conceitos e práticas em Psicologia comprometidos com a crítica.

O segundo desafio necessário ao pensamento crítico na Psicologia, diretamente relacionado


ao primeiro, é o enfrentamento da naturalização da realidade, portanto, do fenômeno psicológico.
O objeto da Psicologia é naturalizado pelas perspectivas subjetivistas, que pretendem resgatar uma
individualidade autônoma e irredutível a qualquer forma de objetivação, mas é naturalizado
também pelas perspectivas objetivistas, que o definem a partir de leis mecânicas, naturais e imutáveis,
que o formatam a partir de um modelo pré-definido de universo e de sociedade, tal como
empreendido pela ciência moderna positiva (ROSA, 2005). A naturalização significa o abandono
da perspectiva histórica no estudo dos processos, o abandono do reconhecimento do papel ativo do
sujeito na história constitutiva de tais processos, portanto, a desconsideração da mediação essencial
entre o sujeito com o qual trabalhamos e a história. Pior que isto, ela também não reconhece a si
como produção social e histórica. Por isso, um dos grandes avanços oferecido pela perspectiva
Sócio-Histórica no campo teórico e epistemológico da Psicologia tem sido sua possibilidade de
desnaturalizar o objeto da Psicologia a partir do recurso à historicidade. Reconhecer a constituição
histórica dos processos que investigamos e com os quais trabalhamos é essencial para superar
perspectivas patologizantes, que servem a mecanismos de controle e manutenção social. Isso é
especialmente importante no Brasil, país que tem na desigualdade social questão central, em relação
à qual a Psicologia assume uma posição de manutenção ao deixar de reconhecer mecanismos
históricos de opressão e exploração como constitutivos da subjetividade. Assim, a produção de uma
psicologia anticapitalista, antiracista e antipatriarcal requer o recurso à historicidade e isso se
constitui como urgência da Psicologia, considerado o horizonte de compromisso ético-político com
a transformação da realidade brasileira.

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PERSPECTIVAS TEÓRICAS 41

Isso nos conduz ao terceiro ponto ou à terceira condição à crítica em psicologia: a


superação da colonização do pensamento psicológico, em suas teorias, fundamentos e práticas.
Trabalhamos na Psicologia, desde a sua constituição no Brasil, com referenciais oriundos do
norte. Nossas teorias são construídas a partir da Europa ocidental e tem nas bases da constituição
da sociedade moderna as condições para sua formulação. O eurocentrismo na Psicologia
brasileira e latino-americana, e o epistemicídio que ele carrega, como expressão do genocídio
próprio dos processos de colonização (SANTOS, 2009), é um elemento fundamental de nossa
história e um componente fundamental da crítica que fazemos hoje à Psicologia. A dialética
indivíduo-sociedade e a categoria historicidade nos permitem o reconhecimento de que a
concepção sobre a subjetividade do povo brasileiro ou latino-americano requer a leitura crítica
de nossos referenciais, na direção de abordagens que permitam o resgate da produção histórica
dessas subjetividades. Reconhecemos modos de relação, de existência, de sociabilidade e de
constituição da subjetividade que, embora desconheçamos, ignoremos ou não alcancemos com
nossos referenciais, constituem a história e a memória de nosso povo. A descolonização nos
desafia a uma reconstrução teórica, comprometida com nossa realidade social e histórica, que
deve nos levar à ampliação de práticas, na direção da legitimação e do diálogo com saberes
populares como condição para o diálogo e a interação com a população que atendemos e trabalhos.

Para encerrar, cabe uma breve reflexão sobre as condições que possibilitaram a formulação
dessa perspectiva de compromisso com a crítica na Psicologia brasileira que, se tem na Psicologia
Sócio-Histórica um referencial teórico possível de sustentação, não se reduz a ele e, tampouco,
emana de uma teoria. O compromisso e a provocação para uma perspectiva crítica na Psicologia
resultaram, em grande parte, da realidade por ela encontrada por meio da presença de muitas
psicólogas em diferentes contextos, a partir do processo de ampliação dos campos de inserção da
Psicologia no Brasil, que acompanharam sua história recente de democratização. Em grande parte,
a ampliação de nossa presença na sociedade brasileira se deu pela composição na luta por direitos
sociais e direitos humanos. A Psicologia se transformou pelo processo de democratização da
sociedade, ao mesmo tempo em que seu envolvimento com as urgências da sociedade brasileira
ampliou o reconhecimento social da profissão e a possibilidade de sua inserção em diversas políticas
públicas e em novos territórios. Esse movimento foi essencial para o impulsionamento da crítica em
relação às teorias e práticas da Psicologia, formuladas, em grande parte, pelas próprias psicólogas
e/ou pesquisadoras em Psicologia, à medida em que incorporavam referências conceituais e técnicas
do campo das políticas públicas, resultantes dos processos de participação social. Como exemplo,
podemos citar o conceito de território, de atenção psicossocial, de projeto terapêutico singular, e
muitos outros. Portanto, o projeto do compromisso social da psicologia (FURTADO, BRAMBILLA
e ROSA, 2018) nos levou à exigência da construção de uma psicologia crítica e nos desafia a fazer
uma crítica à Psicologia para fazer essa Psicologia crítica.

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PERSPECTIVAS TEÓRICAS 42

Por isso, a articulação entre ciência e profissão é tão importante. Ela é condição, no âmbito
da Psicologia, para uma práxis revolucionária e é necessária à elaboração da crítica. O conhecimento
crítico só avança porque provocado e desafiado pela realidade. No caso dessa realidade, os desafios
a que hoje somos chamados são muitos e nos deslocam na direção do encontro com os movimentos
populares que lutam pela vida, resistindo às políticas em curso nesse momento em nosso país. É
desse campo e desse encontro que serão dadas, na conjuntura atual, as melhores condições para
provocarmos uma produção crítica na Psicologia.

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TRABALHO PSI
TRABALHO PSI 45

A Psicologia
e o trabalho com homens
em situação de violência
Flávio Urra1

Nos últimos anos as discussões sobre as masculinidades têm tomado destaque na sociedade
brasileira, tanto no meio acadêmico, quanto na sociedade civil e nas políticas públicas.
Creio que isso se deve ao impacto do feminismo e das lutas das mulheres dos últimos 50 anos.
Afinal, se as chamadas relações de gênero se baseiam nas performances estabelecidas entre homens
e mulheres, entre mulheres e mulheres e entre homens e homens, qualquer mudança em um dos agentes
afeta e transforma os demais agentes.

E a sociedade contemporânea foi intensamente influenciada pelo discurso feminista. Hoje


ouvimos propagandas midiáticas, novelas e reportagens utilizando ideias defendidas pelo feminismo
(sem dar o crédito, certamente). Os pressupostos das teorias feministas adentraram as pesquisas
acadêmicas e às políticas públicas, no assim chamado Feminismo de Estado e Feminismo Acadêmico.
Mesmo Prefeituras e Estados conservadores têm adotado políticas de enfrentamento a violência
contra a mulher preconizadas pelo movimento de mulheres.

Dessa forma, os discursos do movimento feminista têm tencionado os homens a uma mudança
em seus discursos e práticas. Filhas tem chamado seus pais de machistas, companheiras ameaçam

1. Flávio Urra, Psicólogo e Sociólogo, Mestre em Psicologia Social pela PUC-SP especialização em Violência Doméstica pelo Lacri-
Usp, coordenador do Programa “E Agora, José? Pelo fim da violência contra a mulher”.

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TRABALHO PSI 46

abandonar seus parceiros por terem práticas machistas, homens têm sido condenados pelas leis
jurídicas pelo exercício de violência doméstica, abuso sexual e assédio.

Antigos comportamentos machistas, aceitos e legitimados pela sociedade e o Estado passam


a ser reprimidos e discriminados. Basta observarmos piadas de programas humorísticos de 10 anos
atrás, para percebermos como antigas piadas já não nos fazem sorrir.

Certamente existem resistências a essas mudanças, movimentos conservadores se unem


em busca do poder perdido. Movimentos machistas esbravejam para que as mulheres voltem
a fazer o trabalho doméstico e a cuidar das crianças, como a 50 anos atrás. Muitos homens reclamam
da Lei Maria da Penha por considerar crime suas práticas cotidianas de violência. Muitos invertem
o discurso e acreditam que são as mulheres quem estão no poder e oprimem os “pobrezinhos”
e indefesos homens.

E é nesse complexo panorama que surgem homens e mulheres querendo discutir


as masculinidades. Temas como a masculinidade tóxica, relacionamentos abusivos e a cultura
do estupro se destacam na pauta, por afetarem diretamente a vida e a liberdade das mulheres.
O feminicídio e os índices de violência contra a mulher demostram com dados estarrecedores
o quão brutal e desigual é essa guerra.

Homens também têm procurado se aproximar dos discursos sobre masculinidades, muitos
para se distanciarem desse perfil do homem agressor e feminicida e não serem confundidos com eles.
Outros por sentirem na pele as violências praticadas por outros homens no transcorrer de suas
vidas. Alguns querendo se tornarem heróis para “salvar as indefesas mulheres”. Ainda outros para
se entenderem e se tornarem pessoas melhores. Tem também aqueles que pensam em unir
os homens para enfrentar as mulheres. E aqueles que querem encontrar o “macho sagrado” que
existe em cada um.

E seja por qual motivo for, os estudos sobre masculinidades chegaram na agenda de políticas
públicas, nas pesquisas acadêmicas, na grande mídia e nos discursos sociais. Assim, como Psicólogo,
mas também Sociólogo, acredito ser importante pensar na contribuição da Psicologia para esse
campo de estudos, mas também para o campo de atuação nos grupos de homens.

O Psicólogo e a Psicóloga na atuação dos grupos de homens.

No Programa “E Agora, José? Pelo fim da violência contra a mulher” existe uma equipe
multidisciplinar que atua em grupos de homens que foram condenados por crimes de gênero.

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TRABALHO PSI 47

Nessa equipe, atualmente temos 3 psicólogos, um estagiário de psicologia, 2 sociólogos,


1 matemático, 1 economista, 1 administrador de empresas e 1 educador social. Nessa equipe
não existe papéis estabelecidos para cada formação, todos atuamos como facilitadores
dos grupos socioeducativos.

Mas, certamente, ter uma formação em psicologia propicia ao profissional um conjunto


de ferramentas que podem contribuir de forma significativa para sua atuação e no desenvolvimento
de um efeito terapêutico nos homens que participam dos grupos. Assim, os grupos também podem
ser considerados psicoeducativos. Pois atuam na subjetividade dos sujeitos, tencionando-os à
mudança. Afinal, o machismo enquanto estrutura social afeta a subjetividade dos homens, que por sua
vez, podem afetar a estrutura social, para mantê-la e reproduzi-la ou para resistir e transformá-la.

Ferramentas essenciais da psicologia como a noção de vínculo, de escuta ativa, de influência


do grupo, de mecanismos de defesa e de aceitação incondicional, dentre outros, permeiam
na atuação do psicólogo e da psicóloga em grupos de homens. Instrumentos que certamente
auxiliam no disparo de transformações dos sujeitos participantes e na própria equipe multidisciplinar.

Para além disso, foi na Psicologia Social que encontrei as teorias necessárias para o
embasamento da prática, ou seja, o exercício da “práxis”. Foi no NEGRI - Núcleo de Gênero,
Raça e Idade da PUC – SP que encontrei estes estudos, recebendo a orientação da Professora
Fúlvia Rosemberg (1942-2014), precursora nos estudos de masculinidades no Brasil.

Teorias e estudos que embasam o trabalho nos grupos de homens

Para atuar em grupos de homens utilizamos três principais referências teóricas: A teoria
de Gênero, os estudos de masculinidades e o conceito de Ideologia. O termo “gênero” foi
cunhado pelo feminismo, nas décadas de 60 e 70, como um termo que pretendia marcar uma
rejeição aos termos biológicos “sexo” ou “diferença sexual”, muitas vezes utilizado como
justificativa à sujeição ao poder (SCOTT, 1995). E, para além da compreensão da identidade
de gênero, ou da aprendizagem de papéis masculinos e femininos, emergiu a percepção da cultura
e da sociedade “generificada” nas suas múltiplas instâncias (LOURO, 1996).

Assim, gênero refere-se às diferenças construídas socialmente nas relações entre homens
e mulheres que variam por contexto e situação. Penso em gênero como relacional e não como
complementariedade e antagonismo. A definição de masculino está em relação direta com
a definição de feminino, tanto no plano abstrato como no concreto, não se esgotando em ser
homem ou mulher (SCOTT, 1995).

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TRABALHO PSI 48

A historiadora estadunidense Joan Scott é uma das referências da teoria feminista


de gênero, com sua proposta pós-estruturalista, apontando esquemas sociais de poder machistas
ou patriarcais que dão sentido à dominação de um sexo sobre outro, ou, podemos afirmar
também, de uma masculinidade sobre outras masculinidades. Scott formula gênero como
categoria analítica, vendo como as identidades são construídas historicamente através dos
discursos e como diferentes sentidos são atribuídos à diferença sexual.

O surgimento ou formulação do gênero como categoria analítica possibilitou não só


uma renovação no campo da história feminista como influenciou todo o estudo recente sobre
a masculinidade. Na verdade, o discurso atual sobre a masculinidade ou a “crise da masculinidade”
se deu a partir dessa mudança de enfoque teórico (MORT, 1994).

Relações de gênero são relações de poder e tanto gênero, quanto masculinidade são
noções fluidas e situacionais, que variam dependendo da forma como as relações se estabelecem
em determinada situação e, também, em como a interação em sociedade vai definindo
os papéis dos sujeitos.

Autores tem demonstrado que as diferenças psicológicas e sociais não são frutos da herança
biológica, parecem ser mais um resultado da forma como a cultura interpreta, molda e modifica
as suas heranças. Pode-se nascer com pênis ou clitóris, mas tornamo-nos homens ou mulheres
de acordo com um contexto cultural estabelecido (KIMMEL, 1995).

As diferenças usualmente encontradas em termos intelectuais, temperamentais, entre


outros traços pessoais, entre homens e mulheres, são pouco significativas comparadas com as
variações que ocorrem dentro da diversidade sexual (CONNELL, 1995).

Em cada sociedade, em cada região, cada cultura ou religião aponta caminhos de ser
homem ou mulher que são referendados pelos homens e mulheres de seus grupos
sociais e outros modos de ser que são punidos e rechaçados.

Portando existem vários modos e formas de exercer a masculinidade num mesmo espaço
e tempo, e estas formas se transformam de acordo com a sociedade e no decorrer da história.
Assim, é preciso que abordemos e analisemos as questões de gênero e masculinidade de uma forma
não reducionista e estanque, como identidades de gênero ou identidades sexuais, mas sim em sua
singularidade, construída na diversidade histórica, social e cultural. Rompendo com posições
essencialistas, já que no atual contexto em que vivemos nada tem essência, todas as coisas são
estruturadas no jogo dinâmico das significações (GIDDENS, 1992; LAQUEUR, 1989).

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TRABALHO PSI 49

Mas, alguns discursos ideológicos buscam fazer da masculinidade uma norma, como
se houvesse apenas um jeito de ser homem, sem perceber que as diferenças essenciais entre
o homem e a mulher são socialmente construídas e, portanto, sujeitas à alteração.

E para pensarmos nestes discursos ideológicos, utilizaremos o conceito de ideologia


de Thompson (2002), como o sentido recebido que serve para sustentar e produzir relações
de dominação.

Em seu livro “Ideologia e cultura moderna” (2002), em que analisa o papel da mídia
na produção, transmissão e recebimento das formas simbólicas, o autor apresenta várias
conceituações existentes para se referir ao termo ideologia. Em sua classificação separa os conceitos
em neutros e críticos. Neutros seriam aqueles onde a concepção do autor sobre ideologia está
ligada a definir o termo ideologia como um conjunto de ideias. Sem implicar que estes
fenômenos sejam enganadores, ilusórios ou ligados a algum interesse de grupos particulares.
As concepções críticas seriam aquelas que têm um sentido crítico, que criticam o estabelecido,
usadas num contexto de análise crítica. Após discorrer sobre várias concepções de ideologia
o autor faz sua própria conceituação.

Ideologia para Thompson se refere às maneiras como o sentido, mobilizado pelas formas
simbólicas, serve para estabelecer e sustentar relações de dominação: estabelecer querendo significar que o
sentido pode criar ativamente e instituir relações de dominação; sustentar querendo significar que o sentido
pode criar e reproduzir relações de dominação através de um contínuo processo de produção e recepção de
formas simbólicas, (THOMPSON, 2002).

O que Thompson (2002) chama de formas simbólicas são um amplo espectro de


ações e falas, imagens e textos, que são produzidos por sujeitos e reconhecidos por eles e outros
como construtos significativos. Sendo a forma simbólica sempre contingencial a certa
condição sócio-histórica particular.

Para o autor a dimensão simbólica constrói a realidade tanto quanto a materialidade,


dessa forma elas podem tanto sustentar relações de dominação, quanto estabelecê-las.
Assim, relações de poder e dominação podem ser criadas e mantidas tanto por condições
materiais quanto por formas simbólicas, que nesse caso são ideológicas.

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TRABALHO PSI 50

A Atuação da Psicóloga
e do Psicólogo em Grupos de Homens
Em nossa experiência nos Grupos de Homens do Programa “E Agora, José? Pelo fim da
violência contra a Mulher” procuramos receber os homens sem pré-julgamento ou olhar
reprovador, sem procuramos um justiciamento ou punição vingativa. Mas, ao mesmo tempo,
cientes de que esses homens em suas construções sociais não reconhecem o exercício de suas
violências e ignoram a estrutura de dominação social/política/econômica dos homens sobre
as mulheres. Um instrumento da Psicologia, esse tipo de abordagem centrada na pessoa é usual
em alguns processos psicoterapêuticos, consiste na aceitação positiva incondicional do cliente.

Outro recurso utilizado da Psicologia é a noção de vínculo. Com os homens apenados


procuramos construir um vínculo com o Programa, estabelecido desde os primeiros contatos,
com duas entrevistas pré-grupo, depois nos grupos e finalmente nos últimos encontros pós-
grupo, num total de 26 encontros. Essa atenção positiva é feita pelos diferentes facilitadores,
por meio de respeito a individualidade de cada participante, permeado por afeto e solidariedade
pelas dores de cada um. Construindo relações horizontais, sem recorrer a mecanismos
autoritários, com regras transparentes e consensuadas.

Em cada encontro grupal utilizamos técnicas de dinâmicas de grupo, técnicas


vivenciais, jogos dramáticos, técnicas de verbalização, brincadeiras, exercícios relacionais,
seguidos por exposição de cada participante, debate grupal e interpretação dos facilitadores.
São 20 temas diferentes, em cada encontro de duas horas é abordado um tema, colocando
questões estruturais do machismo, como o que é ser homem, tarefas masculinas e femininas,
profissões masculinas e femininas, violência contra a mulher, violência sexual, honra
masculina, diversidade sexual, entre outros.

O grupo é permanente e aberto, assim, convivem homens recém-chegados com


aqueles que estão encerrando o processo. Os depoimentos daqueles que estão terminando
a sua participação no grupo propiciam que os mais novos se espelhem, resolvendo boa
parte da ansiedade de estar iniciando sua jornada. Ao término da participação dos 20
encontros grupais, cada um faz um relato e depoimento sobre o grupo e sua participação,
geralmente causando impacto positivo em todos os que permanecem.

Nos 3 encontros finais, realizados em 3 datas fixas, nas primeiras quartas-feiras de


fevereiro, junho e outubro, é realizado um processo de acompanhamento desses homens,
para verificar a permanência do discurso construído no Programa. Também para realizar
um desligamento longitudinal e verificar avanços ou retrocessos em suas posições.

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TRABALHO PSI 51

O Programa “E Agora, José?” não é um grupo psicoterapêutico e não é um grupo


operativo, embora tenha efeito terapêutico em muitos participantes e os facilitadores
utilizem tarefas e posturas semelhantes aos coordenadores de grupos de Pichon-Rivière
(1986). Mas, há tensões. No Programa “E Agora, José? Atuamos com foco no objetivo
fundamental: o enfrentamento a violência contra a Mulher. Não existe uma posição de
neutralidade nas questões das relações de gênero, homens e mulheres não são considerados
como estando em igualdade de poder, privilégios e direitos.

O objetivo do Programa não é construir homens menos machistas, embora isso por
vezes aconteça. O objetivo é atuar na redução de danos na vida de mulheres e homens e pela
interrupção do ciclo da violência.

Não discutimos masculinidades para que os homens se tornem pessoas melhores, isso é
um ganho secundário. Mas ao final de cada participação ouvimos relatos de homens que se
consideram melhorados. Mesmo nós, facilitadores, ao final dos encontros, nos sentimos homens
melhores, não melhores que os outros, não melhores que ninguém, mas melhores que nós
mesmos, melhores do que erámos antes de participar desse trabalho.

Referências Bibliográficas
CONNELL, Raewyn. (1995) Masculinities. Berkeley: University of California Press

GIDDENS, Anthony. (1992) As conseqüências da modernidade. Trad. Fernando Luis Machado e Maria Manuela Rocha.
Oeiras: Celta Editora LTDA.

LAQUEUR. (1989) Identité sexuelle/sexuée/ de sexe. Trois modes de conceptualisation du rapport entre sexe et genre.
In: GOMES, Sergio. Masculinidade na História: a construção cultural da diferença entre os sexos. 2003.

LOURO, G. (1996). Nas redes do conceito de gênero. In: JIMENEZ, L. Efeitos do desemprego na representação social
de masculinidade e conseqüências para a saúde entre moradores da região do ABC Paulista. Projeto de
Pesquisa apresentado ao Departamento de Serviços de Saúde Pública da Faculdade de Saúde Pública da
Universidade de São Paulo, 2001.

KIMMEL, Michael & Michael Messner (org.) (1995). Men’s Lives. Boston: Allyn and Bacon. 1995. In: CECCARELLI,
Paulo R. A Masculinidade e seus Avatares, Catharsis, ano IV, 19, 1O-11, maio/junho, São Paulo, 1998.

MORT, Frank. (1994) Crisis Points: Masculinities. In: History and Social Theory in Gender and History, vol. 6 in MONTEIRO,
Marko. Resenha - Michel Foucault, Frank Mort e Jonathan Walters, artigo in Antropologia, Gênero e
Masculinidades, Campinas, 1997.

PICHON-RIVIÈRE, Enrique (1986). O Processo Grupal, Psicologia e Pedagogia, Tradução de Marco Surélio Fernandes
Velloso, Editora Martins Fontes.

SCOTT, J. W. (1995). Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação & Realidade, Porto Alegre, v 20, n° 2,
p. 71-99,jul/dez.

THOMPSON, John B. (2002) Ideologia e cultura moderna: teoria social crítica na era de meios de comunicação de massa.
6ª edição, Petrópolis: Ed. Vozes.

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PSICOLOGIA
E POLÍTICAS PÚBLICAS
PSICOLOGIA E POLÍTICAS PÚBLICAS 53

Compromisso
ético-político da
Psicologia e práxis
Adriana Eiko Matsumoto1

Para podermos qualificar uma breve reflexão, que não se pretende esgotar nesse ensaio,
sobre a práxis e possível contribuição da Psicologia frente aos fenômenos psicossociais
produzidos a partir do acirramento do modo de produção capitalista, é fundamental se ter em vista
as vicissitudes postas pelas relações de sexo/gênero e raça/etnia enquanto constitutivas do processo
de exploração a que está submetida a classe trabalhadora. Assim, partiremos da concepção de que
a categoria classe não é monolítica, na medida em que racismo, etnocídio, sexismo e patriarcado
constituem distintos eixos da realidade concreta e que operam por determinações que não
se encerram com a superação do modo de produção capitalista – embora se complexifiquem nele
e constituam características próprias da forma do antagonismo de classe se dar.

Nesse sentido, desde uma análise materialista histórico-dialética, sustentarei a tese de


que a consubstancialidade Classe, Raça/Etnia e Sexo/Gênero são fundamentais para compreensão
crítica e construção de um compromisso ético-político da Psicologia, principalmente no que diz
respeito à inserção nas políticas públicas. Ao final, buscarei trazer alguns apontamentos sobre
o desdobramento disso para a intervenção e pesquisa em Psicologia (práxis), a partir da construção
de compromisso ético-político da profissão relacionado às ações de cuidado e de enfrentamento às
violências e sofrimentos relativos à condição de classe, sexo/gênero e raça/etnia.

1. Professora Adjunta UNIFESP, Campus Baixada Santista. E-mail: adriana.eiko@unifesp.br

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1. A dialética exploração-opressão

Muito se fala na controvérsia das assim chamadas “pautas identitárias” no contexto das lutas
sociais da classe trabalhadora, apontando um suposto sentido de fragmentação e de perda de foco
na estratégia de luta contra o capital. Partindo-se dessa posição, que poderíamos chamar de mais
“ortodoxa”, não há que se perder tempo discutindo os “nós” raça/etnia e sexo/gênero no campo
marxista, pois a exploração do trabalho e a questão de classe tomada como universal e genérica é
que deveriam ser foco das análises e dos enfrentamentos.

Contudo, há que se superar o mecanicismo típico de uma leitura economicista do marxismo,


inclusive, sendo fidedignos ao próprio método materialista histórico-dialético, compreendendo
as opressões oriundas pelas questões de raça/etnia e de sexo/gênero em sua relação dialética
com a exploração do trabalho, ou seja, partir da noção de unidade de contrários na dialética
“opressão-exploração” nos contextos de territórios que foram alvos de processos de colonização,
marcadamente (mas não somente) o continente americano e africano.

Ademais, considera-se também a necessária crítica à nomeação de “pauta identitária”,


pois são formas ideológicas de se rotular as lutas da “classe que vive do trabalho”
(ANTUNES, 2002) em suas vicissitudes concretas de raça/etnia e sexo/gênero, já que não se
trata de questão meramente identitária, ao menos nas agendas políticas mais combativas, mas
sim de enfrentamentos para a manutenção da vida, luta por “re-existências”. O que está em
jogo e que deve compor nossa análise é a crítica à perspectiva liberal e neoliberal das apropriações
sobre tais expressões de lutas sociais. Pois, “se existir é uma conquista, afirmamos nossa
existência, há que re-existirmos”! (SANTOS, 2017).

De acordo com HIRSCH (2010), o conflito entre capital e trabalho assalariado não
é o único existente na sociedade capitalista, pois há outros que se articulam com as relações
de dominação e exploração que não se originam nas relações de classe e tampouco
“desapareceriam com ela”: são os conflitos raciais, étnicos, sexuais, religiosos, culturais e regionais
que acabam conformando uma configuração especificamente capitalista.

Tratamos aqui da categoria da totalidade (LUKÁCS, 2010), pois os fenômenos sociais


devem ser analisados inseridos na totalidade que compreende o modo de produção capitalista.
Contudo, é fundamental partir da perspectiva de que tais fenômenos sociais guardam entre si
uma relação de unidade, mas não de identidade, dentro de uma relação em que o momento
predominante é o da produção. Nesse sentido, há uma unidade classe, raça/etnia e sexo/gênero,
e tais questões não estão indiferenciadas, nem tampouco são idênticas: estão postas numa

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PSICOLOGIA E POLÍTICAS PÚBLICAS 55

relação dialética de unidade na diferença. Elas cumprem um papel no capitalismo e são cruciais
para compreendermos os fenômenos psicossociais da precarização, da violência e do sofrimento
psíquico nesse contexto, bem como para analisarmos perspectivas para a práxis.

Partimos das reflexões das autoras feministas marxistas como Heleieth SAFIOTTI
(1992, 2001, 2015), Angela DAVIS (2016) e de autoras que partem das reflexões epistemológicas
críticas do materialismo, como como Danièle KERGOAT (2010), Helena HIRATA (2014),
entre outras, que nos ensinam que a unidade dialética entre opressão e exploração se dá na
medida em que a opressão é uma condição para a exploração, constituindo uma unidade de
substância entre as contradições postas entre classe, raça/etnia e sexo/gênero. Assim, não há
como hierarquizar, nem como negar qualquer uma dessas contradições, pois elas são
coextensivas e consubstanciais.

Desde os anos de 1970-1980 mobilizo os conceitos de consubstancialidade


e coextensividade para procurar compreender de maneira não mecânica
as práticas sociais de homens e mulheres frente à divisão social do
trabalho em sua tripla dimensão: de classe, de genero e origem (Norte/
Sul). Tais práticas não se deixam apreender por noções geométricas
como imbricação, adição, intersecção e multiposicionalidade — elas
são móveis, ambíguas e ambivalentes. (KERGOAT, 2010, p. 96)

Compreende-se, para efeitos de nossa discussão, a concepção de gênero enquanto um


sistema sexo-gênero (IZQUERDO, 2001), caracterizado como um complexo jogo de relações
de poder baseadas em pressupostos patriarcais, que é social e historicamente constituído, mas
que no atual contexto, deve ser analisado a partir do acirramento dessas relações sob a ordem
do capital. As expressões da desigualdade postas em movimento na divisão sexual do trabalho
pelo sistema sexo-gênero se encontram imbrincadas com o processo de constituição do ser
social, produzindo efeitos na organização social, na política, na vida pública e privada (inclusive
determinando as searas de circulação a partir do marcador de sexo/gênero) e, consequentemente,
no desenvolvimento de subjetividades (SOUZA, 2006, p. 128-129).

SAFIOTTI (2001, 2015) conceitua o regime do patriarcado, afirmando que os homens


não só exploram as mulheres na divisão sexual do trabalho, mas as dominam, sendo, portanto,
uma relação de dominação-exploração. Assim, a categoria sexo/gênero pode ser compreendida
como o conjunto de determinações sociais postas violenta e autoritariamente sobre os corpos
plásticos dos seres sociais.

O patriarcado e o sexismo servem ao capital na medida em que entram na dinâmica de


controle da reprodução social da força de trabalho, a partir da geração de novos seres pelas

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pessoas que têm útero, na atividade de mediação da socialização primária das crianças e
adolescentes da classe trabalhadora e pelo trabalho doméstico não remunerado – este último,
parte constitutiva da reposição da força de trabalho explorada. Tais atividades de reprodução
social da força de trabalho mormente são realizadas pela ação das pessoas que são identificadas
e constituídas, num padrão dominante e opressor de socialização de relações de sexo/gênero,
a partir da condição concreta da vida das mulheres.

Ora, o capital precisa da reprodução da força de trabalho para que ele continue a se efetivar
e, nesse sentido, a manutenção de estruturas patriarcais, machistas e sexistas servem para
a continuidade da própria dinâmica da exploração. Assim como a escravização dos povos
africanos, dizimação dos povos originários e a colonização foram meios para a constituição de uma
realidade em que a acumulação de excedentes pudesse gerar as bases para o surgimento
do modo de produção capitalista, a exploração do trabalho livre a partir dos nós raça/etnia e gênero
se configuram como características morfológicas da dominação da colonialidade contemporânea
e contribuem para a garantia da manutenção do capitalismo.

A respeito das relações sociais de raça/etnia, temos que pontuar algumas questões
preliminares. Conforme Kabenguele MUNANGA(2004) nos ensina, a etimologia da palavra
“raça” remete ao latim ratio, que significa, dentre outros verbetes, categoria e espécie. Do ponto
de vista científico, a partir do século XX não há como sustentar atributos biológicos que
justifiquem a categoria raça, contudo, esta se constitui como importante ferramenta ideológica
de dominação na contemporaneidade.

A ideia de raça é, pois, uma categoria da modernidade, sendo que seu sentido atual foi
formulado no desenvolvimento da colonização da América pela Europa e constitui poderosa
ideologia no controle social da classe trabalhadora. As nações dominadas pelo colonialismo
europeu no século XVI, quando da conformação e objetivação do capitalismo em seus
territórios, tiveram na ideologia do racismo um importante dispositivo que regulou as relações
sociais assimétricas. De acordo com Aníbal QUIJANO (2005):

A idéia de raça, em seu sentido moderno, não tem história conhecida antes da
América. Talvez se tenha originado como referência às diferenças fenotípicas
entre conquistadores e conquistados, mas o que importa é que desde muito
cedo foi construída como referência a supostas estruturas biológicas diferenciais
entre esses grupos. A formação de relações sociais fundadas nessa ideia,
produziu na América identidades sociais historicamente novas: índios, negros e
mestiços, e redefiniu outras. Assim, termos com espanhol e português, e mais
tarde europeu, que até então indicavam apenas procedência geográfica ou país
de origem, desde então adquiriram também, em relação às novas identidades,

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PSICOLOGIA E POLÍTICAS PÚBLICAS 57

uma conotação racial. E na medida em que as relações sociais que se estavam


configurando eram relações de dominação, tais identidades foram associadas
às hierarquias, lugares e papéis sociais correspondentes, com constitutivas
delas, e, consequentemente, ao padrão de dominação que se impunha. Em
outras palavras, raça e identidade racial foram estabelecidas como instrumentos
de classificação social básica da população. (p. 117)

O racismo é, portanto, um dinamizador da luta de classes e se mundializa conforme suas


crises e reorganizações do modo de produção capitalista ao longo dos séculos. Nesse sentido, o
medo branco da revolta dos escravizados de outrora, hoje é atualizado no medo da insurgência
contra a superexploração do trabalho que se impõem também a partir da raça como legitimação
para o estabelecimento de um tipo específico de capitalismo nos contornos latino-americanos.

De acordo com Ruy Mauro MARINI (2000) em sua Teoria Marxista da Dependência,
temos que nos contornos do capitalismo periférico encontramos outra forma da exploração se
dar, pela via da superexploração do trabalho. A superexploração se caracteriza por três
mecanismos: a intensificação do trabalho, a prolongação da jornada de trabalho e a expropriação
de parte do trabalho necessário ao operário para repor sua força de trabalho, não havendo
nenhum investimento no desenvolvimento de sua capacidade produtiva.

É necessário observar além disso que, nos três mecanismos considerados, a


característica essencial está dada pelo fato de que se nega ao trabalhador as
condições necessárias para repor o desgaste de sua força de trabalho: nos dois
primeiros casos, porque ele é obrigado a um dispêndio de força de trabalho
superior ao que deveria proporcionar normalmente, provocando-se assim seu
esgotamento prematuro; no último, porque se retira dele inclusive a
possibilidade de consumir o estritamente indispensável para conservar sua
força de trabalho em estado normal. Em termos capitalistas, estes mecanismos
(que além disso se podem dar e normalmmente se dão, de forma combinada)
significam que o trabalho se remunera por baixo de seu valor e correspondem,
então, a uma superexploração do trabalho. (MARINI, 2000, p. 126)

Nesse sentido, encontramos na expressão da superexploração do trabalho e contextos


de precarização um eixo importante para analisarmos os nós Classe, Raça e Sexo/Gênero
na atualidade. Outra dimensão para essa análise é também encontrada na forma atual de retirada
de direitos e aviltamento dos direitos humanos no contexto brasileiro, tema que discutiremos
melhor no próximo item, ao abordar a dialética emancipação política-emancipação humana.

Isso significa dizer que, além da intensificação do trabalho e sua expressão na superexploração,
os retrocessos nos direitos sociais e a falta de acesso às políticas públicas, as estatísticas
de criminalização e de encarceramento em massa, de psiquiatrização e de internação

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PSICOLOGIA E POLÍTICAS PÚBLICAS 58

involuntária, de letalidade policial, de taxas de homicídios, de morte por causas externas,


de aumento de suicídio, de feminicídio, de balas perdidas encontradas geralmente em corpos
humanos negros, todas essas notícias que estão nos bombardeados cotidianamente, estão nos
gritando, a cada momento, que o alvo é o povo negro, que o alvo são as mulheres, e principalmente
as mulheres negras. Em resumo, existe pele alva e pele alvo (EMICIDA, Amar-elo, 2019).

Em outras palavras, as bases concretas nas quais se constituem as relações sociais e a dimensão
subjetiva da realidade, a partir da dialética exploração-opressão devem ser consideradas nas
análises e nas práticas frente aos efeitos psicossociais gerados nesses processos, sob pena de
naturalizarmos e mistificarmos os fenômenos psicológicos.

2. A dialética emancipação política-emancipação humana

Há um caráter ideológico que conforma a superestrutura jurídica a partir da forma jurídica


“sujeito de direitos”, a qual é base para a racionalização da exploração do trabalho (contrato entre
“iguais”: o detentor dos meios de produção contrata a força de trabalho do proletário).
Contraditoriamente, tal forma jurídica é também convocada como artífice na luta contra os efeitos
nefastos da exploração e superexploração do trabalho pelo capital. Nesse sentido, os Direitos
Humanos nada mais seriam que os direitos dos singulares seres humanos burgueses, direitos que
estariam restritos à particularidade, ou seja, aos limites da própria lógica do capital – é o que MARX
(1991) chama de emancipação política.

Sabemos que não há igualdade concreta se há desigualdade no momento da produção,


ou seja, numa sociedade em que os meios de produção estão sob a propriedade de poucos,
notadamente a “classe que vive do próprio trabalho” (ANTUNES, 2002) não efetiva nenhuma
condição de igualdade com a elite burguesa e o manto ideológico da igualdade jurídica cai por
terra numa análise mais cuidadosa da história.

Contudo, a história social dos direitos também aponta para a construção de perspectivas
que visam alargar o horizonte da emancipação política da classe trabalhadora frente aos
ditames da lógica do capital. Tendo como pressuposto a dialética exploração-opressão e toda
sorte de violações e processos de dominação que esta lógica imprime, é fundamental que
possamos compreender a relação entre emancipação política e emancipação humana não
como polos opostos de uma díade, mas como componentes contraditórios em seu movimento
dialético, em uma espiral dialética emancipação política-humana.
É nesse contexto que se inscrevem as lutas contra os retrocessos nas garantias individuais
(direitos civis), nos direitos sociais, econômicos e culturais (como a “de-forma” trabalhista e a

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PSICOLOGIA E POLÍTICAS PÚBLICAS 59

“de-forma” da Previdência), os cortes na Educação, Saúde e Assistência Social, pela discussão


crítica de gênero nas escolas, pelo direito das mulheres, pelos direitos sexuais e direitos
reprodutivos, pela luta contra o encarceramento em massa, contra o armamento da população,
pela legalização das drogas (entendendo aqui a “guerra às drogas” como artífice para a guerra
contra os jovens negros periféricos da classe trabalhadora), só para citar alguns exemplos.

A experiência brasileira da pandemia pelo novo coronavírus pode ser considerada, na atualidade,
como um analisador sobre como a conflitiva social capital-trabalho se constitui na consubstancialidade
Classe Raça/Etnia e Sexo/Gênero, a partir da relação entre as formas políticas de resistências e lutas por
emancipação política e humana. Mesmo num contexto de pandemia e de distanciamento social, ao qual
a humanidade se encontra a partir de 2020, e de acordo com o Atlas da Violência 20202, o Brasil
apresentou aumento do número de homicídios e de feminicídios, sendo que a violência contra a mulher
encontrou um aumento exponencial (uma mulher é morta a cada duas horas no Brasil, sendo que 68%
das vítimas fatais são mulheres negras), além de uma subnotificação das violências de gênero ainda maior
na quarentena devido ao novo coronavírus. Importante destacar que entre 2008 e 2018, os homicídios
contra não-negros diminuíram 12,9% e aumentaram 11,5% contra os negros, e 75,7% das vítimas dos
homicídios em geral eram pessoas negras.

Aliado a isso está o processo de uberização do trabalho, a falta de acesso à saúde, transporte,
educação (que tem se dado na modalidade remota em 2020, o que já exclui o acesso de pessoas
periféricas que não tem equipamentos necessários e rede de banda larga de internet), só para citar
alguns exemplos. O “breque”3 dos entregadores de alimentos e compras, dos trabalhadores
plataformizados a partir dos aplicativos de “delivery”, suas reivindicações por equipamentos de
proteção individual (máscaras, álcool em gel etc.) e por alimentação, expressam bem essa luta por
garantias mínimas de reprodução da própria força de trabalho, para que ela continue sendo
explorada, talvez com menos barbárie.

Ainda em relação aos dados específicos sobre os efeitos nefastos do COVID-19, embora no
início os dados não estivessem sendo gerados pelo Ministério da Saúde a partir dos quesitos raça/
cor, a partir de abril de 2020 temos a informação de que a maioria das mortes se concentra nas
pessoas negras e pobres. Em um estudo realizado por pesquisadores da PUC/RJ4, revelou-se que
pretos e partos sem escolaridade morrem quatro vezes mais pelo novo coronavírus do que brancos
com nível superior.

2. Disponível em: https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/


3. Greve dos entregadores de aplicativos realizada em 2020 durante a pandemia pelo novo coronavírus.
4. Disponível em: http://www.ctc.puc-rio.br/diferencas-sociais-confirmam-que-pretos-e-pardos-morrem-mais-de-covid-19-do-
que-brancos-segundo-nt11-do-nois/

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Assim, a assertiva “direitos humanos para humanos direitos”, veiculada por setores
conservadores e até reacionários da política nacional brasileira e amplificada pelos
indivíduos identificados com a moralização do discurso político e perpetradores de preconceitos
de classe, sexo/gênero e raça/etnia arraigados nas relações sociais, é um dos exemplos
mais atuais da expressão da contradição da forma-jurídica sujeito de direitos em tempos
de acirramento da luta de classes na contemporaneidade.

Dessa forma, discutir e agir no enfrentamento ao genocídio negro e indígena, e também


em relação ao feminicídio e formas machistas de dominação de gênero, articuladas com o nó
da exploração do trabalho pelo capital, é atuar visando emancipação política, o que, nesse
contexto, significa também ponto de partida para qualquer intervenção no campo que se
propõe voltada à emancipação humana. Os dados estatísticos sobre acesso à saúde, educação,
seguridade social, encarceramento, homicídios etc. já demonstram qual a luta que se deve
enfrentar para garantir a permanência da vida desses sujeitos que, potencialmente, têm todo
interesse em poder superar as condições que determinam seu sofrimento.

Em uma análise que relaciona estrutura e conjuntura, também temos que ter em conta
os efeitos da colonização presentes em nossas práticas e leituras sobre a realidade, os ditames
do patriarcado, da estrutura racista e eugenista presentes na sociabilidade tipicamente brasileira,
e compreender que, embora nossa práxis se presentifique nos contornos da particularidade
calcada na reprodução da barbárie, ela deve estar prenhe de condições de superação visando
à emancipação humana.

Ou seja, ainda que a forma política dominante das lutas sociais da classe trabalhadora,
consubstanciada pelas relações socias de raça/etnia e sexo/gênero, esteja na expressão da luta
por direitos (emancipação política), temos que tais lutas, potencialmente e em uma relação
dialética, carregam condições para construção da práxis ao enfrentamento da superexploração
do trabalho no contexto brasileiro e latino-americano, na medida em que visam garantir a vida
e a “re-xistência” dos seres humanos da classe que vive do trabalho e que são ainda mais
aviltados em sua condição de vida. Eis uma seara em que a Psicologia, como ciência e profissão,
pode contribuir em seu compromisso ético-político.

3. O compromisso ético-político da psicologia em tempos de barbárie

MARTÍN-BARÓ (1990), em Psicología social de la guerra, apontava para as características


psicossociais de contextos de conflitos declarados, ao analisar a condição de El Salvador.
Embora não estejamos sob estado de declarada guerra no nosso país, mas tendo em vista todos

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os dados de mortes e interrupções de vida da nossa juventude negra, bem como do feminicídio,
podemos articular os apontamentos de MARTÍN-BARÓ com as questões aqui apresentadas
ao analisar o contexto de barbárie em que nos encontramos e ao buscar pistas sobre quais são
nossas tarefas enquanto psicólogas(os) nesse contexto.

MARTÍN-BARÓ (1990) comenta que, em condições de conflitos declarados, se observam


três processos que podem ser alvo de intervenção psi junto à população atendida: processos
de militarização da vida cotidiana e “das mentes”, a veiculação de mentiras institucionalizadas
a partir das expressões midiáticas da ideologia dominante, e a cristalização das relações sociais,
redundando numa polarização social, a qual determina, por exemplo, quais são os sujeitos que
devem ser encarcerados, exterminados, aniquilados da sociedade.

Tendo em vista o poder manipulatório dos usos indevidos das redes sociais e dos dados
capturados por estas ferramentas, postos à serviço da disseminação das chamadas “fake news”
nas eleições majoritárias do Brasil em 2019 (assim como em outros países do mundo,
notadamente Inglaterra e EUA), sabemos que a Psicologia pode contribuir com análises críticas
e discussões acerca da democratização da comunicação, do desvelamento das mentiras
institucionalizadas e das intervenções psicossociais junto a coletivos, grupos, movimentos
no intuito de fortalecer suas ações de base junto à população.

A banalização da violência, principalmente a de manifestação estatal como a letalidade


policial e operações de guerra nas favelas, bem como seus efeitos psicossociais (tanto naqueles
que são alvos dessa violência, como junto aos que disseminam uma autorização social para tal
violência), estão, cada vez mais, sendo incorporados como questões relevantes para Psicologia
como ciência e profissão. Contudo, no contexto da prática nas políticas públicas, debates sobre
a reparação psicossocial frente a tais violências e sobre os processos de desumanização a que
estão submetidos estes sujeitos alvos da violência de Estado, ou como MARTÍN-BARÓ nomeia:
os “traumas psicossociais”, ainda estão longe de serem incorporados como dispositivos
de intervenção psicológica.

Para o ator, os traumas psicossociais são a “cristalização traumática nas pessoas e nos
grupos das relações desumanizadas” (MARTÍN-BARÓ, 1984, p. 123). Ainda de acordo com
o autor, alguns componentes destes traumas psicossociais são encontrados em várias
das histórias de vida que chegam aos equipamentos das políticas públicas (sejam da Saúde,
Assistência Social, Educação, Justiça), a saber: sua heterogeneidade (se manifesta de maneira
diversa no corpo social, de maneira multideterminada e histórica), opera-se a partir de uma
sequencialidade (diferentes experiências de violências e traumas vão se complexificando e se

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acumulando em sequência), e o seu caráter de transgeracionalidade (os efeitos das violências


atingem diferentes gerações, com diferentes matizes).

No lugar da produção de diagnósticos nosológicos e intervenções de caráter medicalizantes


e manicomiais, no lugar das intervenções que reproduzem relação de tutela e subalternização
dos sujeitos que são beneficiários de direitos sociais, no lugar da hierarquização do saber
a partir de uma direção social do conhecimento que privilegia a elite e retira da classe
trabalhadora o direito a uma educação pública e de qualidade, no lugar da falta de acesso à
justiça e aos direitos arduamente conquistados pela classe trabalhadora na história de suas
lutas emancipatórias, no lugar da individualização e naturalização das contradições sociais
a partir da leitura de um fenômeno psicológico apriorístico e destacado das relações sociais - a
psicologia precisa urgentemente se inscrever com proposições que visem superar a lógica
de controle, objetificação e desumanização que seguem instituídas.

Em outro texto, MARTÍN-BARÓ (1997) ao discutir o papel do psicólogo, pontua que é


fundamental que partamos de uma crítica que ponha a própria psicologia em análise, em sua
história e formas de responder às demandas sociais, para que se possa, a partir disso, assumir
a posição das maiorias populares e de suas lutas, nos contornos mesmo de uma Psicologia
(Popular) da Libertação. De acordo com o autor:

Não se trata de abandonar a psicologia; trata-se de colocar o saber psicológico


a serviço da construção de uma sociedade em que o bem estar dos menos não
se faça sobre o mal estar dos mais, em que a realização de alguns não requeira
a negação dos outros, em que o interesse de poucos não exija a desumanização
de todos. (MARTÍN-BARÓ, 1997, p. 23)

Resgatamos aqui o sentido do compromisso ético-político de nossa profissão, calcado


na radicalidade da compreensão dos determinantes histórico-sociais a que estão submetidos
os povos latino-americanos, a partir da especificidade de como isso se desdobra em nosso
país. Nesse sentido, há que se partir das vozes das resistências, dos enfrentamentos e das
transformações realizadas no interior de nossa prática profissional em diálogo com os coletivos
e grupos atendidos em sua história de lutas, confrontos, e insurgências... Cabe-nos apontar,
nesse contexto, para uma psicologia que se pretenda “indisciplinar” e “indisciplinada”,
uma psicologia popular de libertação/emancipação humana.

A articulação orgânica entre Psicologia e Direitos Humanos, bem como a atuação na garantia
por direitos por meio das políticas públicas, precisa se inscrever nessa dimensão que compreende
as dialéticas exploração-opressão e emancipação política-humana, sob pena de reproduzir

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uma posição e uma apropriação liberal (por vezes progressista, em outras, conservadora)
do projeto do compromisso social da psicologia, o qual trago aqui sob a insígnia do Compromisso
Ético-Político da profissão.

Outro dado importante e que deve constar em nossa reflexão, é o fato de sermos
uma categoria predominantemente feminina (89% de mulheres, de acordo com publicação do Conselho
Federal de Psicologia, 20125), que predominantemente atua em 2 ou mais locais de trabalho
para garantir renda, que está empregada, em sua maioria, em trabalhos vinculados às políticas
públicas (SUS, SUAS, entre outros – ou seja, atendendo a parcela da classe trabalhadora que
é superexplorada). Categoria de mulheres em que 38% alegou já ter perdido oportunidade
de trabalho pelo fato de terem filhos, que dedica o dobro do tempo para o trabalho doméstico,
em comparação com os psicólogos homens, que 26% referiu ter sofrido violência de gênero
(como agressões verbais, físicas, morais e sexuais), sendo que 73% avalia que o impacto dessa
violência é grave ou muito grave e que 13% localiza sendo o chefe ou superior hierárquico
o autor dessa violência (apenas para ficar dos dados relativos ao ambiente de trabalho).

Também de acordo com a mesma publicação do Conselho Federal de Psicologia (2012),


a maioria das psicólogas se autodeclara branca (67%), e, tendo em vista a ausência de espaços
na formação acadêmica que discutam as relações raciais e étnicas, é fundamental que
a branquitude da Psicologia seja posta em análise (tanto no momento da formação em
graduação, como nos espaços de orientação profissional, ou de pós-graduação), para que se
possa, concretamente, construir processos de intervenções e pesquisas a partir das demandas
concretas da população por meio da análise crítica e implicada da categoria frente aos efeitos
do racismo que é estruturante para a constituição das subjetividades.

Somos muitas(os) e diferentes psicólogas(os) e para conseguirmos avançar nesse projeto


de construção de nossa profissão, que é contínuo e que deve incorporar por superação
as conquistas já realizadas no decorrer de sua história, tendo em vista a demanda concreta de nossa
população atendida, temos que também discutir a constituição subjetiva de nossa própria
categoria, atuando ao lado da classe que vive do trabalho em suas lutas, com toda a potência e força
necessária para estes enfrentamentos.

Não há fórmulas ou síntese conclusiva possível para a consecução desses objetivos, mas
quero terminar deixando mais uma pista, trazida pelo movimento de pessoas com deficiência,
que nos ensina: “nada sobre nós, sem nós”. Se queremos fortalecer essa psicologia que trabalha
para a superação das opressões e da exploração, ao cuidar dos seus efeitos nefastos nos sujeitos
5. Disponível em: https://site.cfp.org.br/publicacao/quem-e-a-psicologa-brasileira/

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e grupos atendidos e ao buscar potencializar suas qualidades e força política de vida, que
façamos isso “com” e não “para”.

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Tese (Doutorado em Psicologia Social) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo.

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PSICOLOGIA
E DIREITOS HUMANOS
PSICOLOGIA E DIREITOS HUMANOS 66

Psicologia e os Direitos
Humanos das Mulheres

Flávia Roberta Eugênio1

Quando se pretende abordar os Direitos Humanos das Mulheres, é frequente


surgir o seguinte questionamento: Mas, se todos são iguais em direitos, por que falar de
Direitos Humanos das Mulheres?

Podemos iniciar esta resposta com o entendimento de que direitos são


conquistas resultantes de lutas e ações políticas, assim, possível apresentar avanços
e retrocessos de acordo com o contexto social, conjuntura política e organização
da sociedade civil.

Destaca-se a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 2 como


um marco histórico e propulsor para avanços na perspectiva de direitos. Contudo,
o entendimento de que o padrão legal (perante a lei) não se faz suficiente para
garantir a efetivação dos direitos, movimentou que a sociedade civil organizada
pressionasse que os Estados criassem mecanismos políticos em busca desta execução.
1. Flavia Roberta Eugenio, Psicóloga Clínica, formada pela Universidade Metodista, Especialista em Psicologia Política pela
Universidade de São Paulo. Trabalhou nas redes de atendimento a mulher em situação de violência doméstica em São Paulo e Grande
ABC e foi membra do núcleo sexualidade e gênero do CRP SP por três gestões, é Promotora Legal Popular.
2. Declaração Universal dos Direitos Humanos. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/resources/publications. Acesso em agosto
de 2020.

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PSICOLOGIA E DIREITOS HUMANOS 67

Segundo Pitanguy (2020)3 os direitos civis e políticos básicos foram os primeiros


a serem assegurados em legislações nacionais e internacionais. Em um segundo
momento, a busca se deu em alcançar direitos sociais. A autora acrescenta que o conceito
de direitos humanos está em ampliação para incorporar questões de sexualidade e
gênero, raça e etnia, meio ambiente e território, entre outros, além de que, os direitos
políticos e sociais também estão sendo reformulados, incorporando novas dimensões.

Esta ampliação mostra considerar as questões históricas relativas aos diferentes papéis
sociais atribuídos aos homens e mulheres, as quais têm imposto a essas últimas a naturalização
das desigualdades existentes entre os gêneros, acarretando a sua sub-representação nos espaços
de poder e a imposição de inúmeras limitações ao exercício pleno de seus direitos. É possível
ver que, se por um lado, aos homens historicamente foi reservado o espaço público, das relações
políticas e do coletivo, às mulheres coube o espaço privado do cuidado com os filhos e a casa sob a
tutela do homem, numa relação em que se configura sempre como objeto e não sujeito de direitos.

Notável que o sistema social em que nos inserimos permanece um sistema patriarcal
embasado na hegemonia masculina e no seu poder sobre o feminino, sendo também
sobre essas bases estruturadas as instituições e o Estado, garantindo a perpetuação
deste estado de coisas e a manutenção das desigualdades sociais baseadas no gênero.

Alguns dados extraídos da plataforma online do Instituto Patrícia Galvão permitem


exemplificar algumas dessas desigualdades.

Homens brancos com ensino superior têm um salário médio 159% maior do que o
das mulheres negras que também cursaram faculdade, segundo levantamento realizado pelo
INSPER – Instituto de Ensino e Pesquisa com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra
de Domicílios (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre 2016 e 20184.

Quanto a representação das mulheres na política, no ranking de 11 países


latino-americanos, o Brasil se posiciona em nono lugar, acima apenas do Chile e do
Panamá, o que apresenta o quanto ainda é necessário avançar para garantir igualdade
de gênero na política, segundo levantamento do Programa das Nações Unidas para o
Desenvolvimento (PNUD) e ONU Mulheres em relação ao Índice de Paridade Política (IPP)5.
3. PITANGUY, J. Os Direitos Humanos das Mulheres. Disponível em: https://www.fundobrasil.org.br/downloads/artigo_mulheres_
jacpit.pdf. Acesso em agosto de 2020.
4. Na mesma profissão, homem branco chega a ganhar mais que o dobro que mulher negra. Agência Patrícia Galvão. Disponível em
https://agenciapatriciagalvao.org.br/mulheres-de-olho/trabalho/na-mesma-profissao-homem-branco-chega-a-ganhar-mais-que-o-
dobro-que-mulher-negra-diz-estudo/ Acesso em setembro de 2020.
5. Porque ONU colocou Brasil entre piores em direitos políticos das Mulheres. Agência Patrícia Galvão. Disponível em https://
agenciapatriciagalvao.org.br/mulheres-de-olho/politica/dados-e-pesquisas-politica/por-que-onu-colocou-brasil-entre-piores-em-
direitos-politicos-das-mulheres/ Acesso em setembro de 2020.

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Podemos associar diretamente os dados apresentados com a divisão sexual


do trabalho doméstico. Segundo a Pnad, a jornada da mulher nos serviços feitos
em casa é 10h24m superior à do homem por semana, dados relativos a 2019.6

A Violência Contra a Mulher


e os Marcos Legais de Enfrentamento

Mesmo existindo várias tendências dentro do movimento feminista, que podemos


nomear como feminismos, há uma pauta unanime entre todos que é o enfrentamento da
violência contra a mulher. Os dados apresentam um cenário cada vez mais urgente.

A pesquisa Visível e Invisível – A Vitimização de Mulheres no Brasil, realizada pelo


Datafolha e Fórum Brasileiro de Segurança Pública7, traz números sobre as diversas violências
sofridas por mulheres em 2018 e seus contextos. De acordo com os dados apresentados, a cada
minuto, 9 mulheres foram vítimas de algum tipo de agressão no Brasil. Possível somar a estes
dados, que uma mulher é vítima de estupro a cada nove minutos; três mulheres são vítimas de
feminicídio (assassinato de mulheres) a cada um dia e 61% delas são negras.8

E, acrescenta-se a esta pauta, o entendimento que violência contra mulher deve-se


considerar os recortes sociais existentes e discriminatórios, como mulheres negras, mulheres
lésbicas, mulheres trans, mulheres com deficiência e a questão econômica que atravessa todos
esses recortes.

Ante a esse quadro, ao qual se somam outras disparidades criadas a partir da relação
estabelecida nos âmbitos privado e público, o movimento feminista e de mulheres (aqui tratados
como sinônimos, apesar de existir autoras que os distinguem) organiza-se em busca de promover
os direitos das mulheres numa perspectiva de direitos humanos, ou seja, tendo como princípio
a garantia da sua dignidade e a necessidade de se combater as desigualdades socialmente
construídas, dando às mulheres não apenas subsídios para garantir o cumprimento das leis já
criadas a partir da sua luta, como também questionar o sistema que as julga, seus princípios e
definições, reconhecendo o seu caráter cultural, político, econômico e social.

6. Aumentou diferença na carga de trabalho doméstico entre homens e mulheres. Agência Patrícia Galvão. Disponível em: https://
agenciapatriciagalvao.org.br/destaques/aumenta-diferenca-na-carga-de-trabalho-domestico-entre-homens-e-mulheres/ Acesso em
setembro de 2020.
7. Nove mulheres foram vítimas de agressão por minuto em 2018. Agência Patrícia Galvão. Disponível em: https://dossies.
agenciapatriciagalvao.org.br/violencia-em-dados/por-minuto-9-mulheres-foram-vitimas-de-agressao-em-2018/ Acessado em
setembro de 2020
8. Violência contra as mulheres em dados. Agência Patrícia Galvão. Disponível em: https://dossies.agenciapatriciagalvao.org.br/
violencia-em-dados/ Acesso em setembro de 2020.

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PSICOLOGIA E DIREITOS HUMANOS 69

Como mencionado anteriormente, a sociedade civil, os movimentos sociais e movimentos


feministas se mostram como imprescindíveis para a construção dos mecanismos de execução
dos direitos. Tanto no que diz respeito a convenções e tratados entre Estados, muitas vezes
decorrentes da pressão social, quanto na construção de políticas públicas que implementam
estes acordos e compromissos políticos.

De acordo com Pitanguy (2020), no âmbito internacional, destaca-se a Convenção contra


Todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher (CEDAW) de 1979 como o principal
instrumento de direitos humanos que dispõem as mulheres. Embora seja de 1979, o Brasil só a
ratificou em 1984 e ainda com reservas a alguns dispositivos. Posteriormente, em 1994, tendo
em vista o reconhecimento pela Constituição Federal Brasileira de 1988 da igualdade entre
homens e mulheres, o governo brasileiro retirou as reservas, ratificando plenamente o texto.

Na constituinte de 1988, as mulheres eleitas formaram a bancada feminina, que mesmo


que não estivesse diretamente associada ao feminismo, incorporou as reinvindicações do
movimento e apresentou 30 propostas de emendas constitucionais relativas aos direitos das
mulheres, apresentadas na Carta das Mulheres. Muitas propostas de emenda foram incorporadas
à Constituição Federal de 1988. Destaca-se o artigo 5.º Homens e mulheres são iguais em direitos
e deveres, nos termos desta Constituição. (GONÇALVES; COELHO, 2014)9

Na década de 1990 existiram novos avanços importantes. Realizou-se a Convenção


Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher – conhecida
como “Convenção de Belém do Pará”. Essa Convenção foi adotada pela Assembleia Geral da
Organização dos Estados Americanos - OEA, em 6 de junho de 1994, e ratificada pelo Brasil em
27 de novembro de 1995. O tratado complementa a CEDAW e reconhece que a violência contra
a mulher constitui uma violação aos direitos humanos e às liberdades fundamentais, de forma
a limitar total ou parcialmente o reconhecimento, gozo e exercício de tais direitos e liberdades.
(GONÇALVES; COELHO, 2014)10

E foi neste contexto que as mulheres se organizaram para a IV Conferência Mundial da


Mulher em 1995 em Beijing, capital da China. Esta conferência foi um marco para as políticas
internacionais referentes a igualdade, justiça e direitos humanos das mulheres. Este evento deu
origem à Declaração de Beijing, na qual países foram signatários e se comprometeram com a
igualdade de direitos entre homens e mulheres. (GONÇALVES; COELHO, 2014)11
9. GONÇALVES, B. D; COELHO, C.M.S. Movimento de Mulheres: história, política e teoria. In SANDOVAL, S.A.M.; HUR, D.U.;
DANTAS, B.S.A. Psicologia Política: Temas atuais de investigação. Editora Alínea, 2014
10. Idem 9
11. Idem 9

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PSICOLOGIA E DIREITOS HUMANOS 70

Este cenário proporcionou que, em 2006, uma mudança categórica acontecesse na legislação
Brasileira, com a criação da Lei Maria da Penha (Lei 11.340/06), a qual cria mecanismos para
coibir a violência doméstica e familiar contra as mulheres. Esta lei direcionou as políticas públicas
de combate à violência conta as mulheres até o presente momento.

O Compromisso Ético - Político da Psicologia


na Garantia de Direitos Humanos das Mulheres

Atualmente, possível encontrar psicólogas em atuação profissional nas mais diversas


áreas das políticas públicas para mulheres, na rede de atendimento do sistema de saúde, na rede
socioassistencial, na rede de atendimento às mulheres em situação de violência, nas políticas de
geração de trabalho e renda e nas políticas de educação. Desde o trabalho de gestão, até nas ações
preventivas e no atendimento/acolhimento após episódios de violência e violações de direitos.

No Brasil, a psicologia registra compromisso com os direitos humanos já no primeiro


parágrafo dos Princípios Fundamentais do Código de Ética da Profissão:

O psicólogo baseará o seu trabalho no respeito e na promoção da liberdade,


da dignidade, da igualdade e da integridade do ser humano, apoiado nos valores
que embasam a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Entretanto, assim como as legislações mencionadas anteriormente, o desafio se evidencia na


execução da garantia de direitos. Assim, em 2013, o Centro de Referência Técnica em Psicologia
e Políticas Públicas do Conselho Federal de Psicologia publica o caderno de Referências Técnicas
para a atuação de psicólogas em Programas de Atenção à Mulher em situação de Violência12.
O qual apresenta a premissa de que o atendimento da crise não é suficiente, sendo o papel da
psicóloga promover reflexões de processos de conscientização das mulheres e da sociedade no
âmbito das desigualdades de gênero, assim como, compreender o contexto histórico e social
destas desigualdades.

Neste ano de 2020, o Conselho Federal de Psicologia publicou a Resolução 08/202013,


a qual Estabelece normas de exercício profissional da psicologia em relação às violências de
gênero. A resolução traz importante ampliação e diversidade no que diz respeito às mulheres,
possibilitando que sejam cisgênero, transexual, travesti ou pessoa com expressões não binárias
12. Referências Técnicas para a atuação de psicólogas em Programas de Atenção à Mulher em situação de Violência. Conselho
Federal de Psicologia. Disponível em: http://crepop.pol.org.br/wp-content/uploads/2013/05/2013-05-02b-MULHER.pdf Acesso em
setembro de 2020.
13. CFP lança resolução sobre exercício profissional em casos de violência de gênero. Conselho Federal de Psicologia. Disponível em:
https://site.cfp.org.br/cfp-lanca-resolucao-sobre-exercicio-profissional-em-casos-de-violencia-de-genero/ Acessado em setembro
de 2020

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PSICOLOGIA E DIREITOS HUMANOS 71

de gênero, dentre outras, além da consideração dos aspectos de raça, etnia, orientação sexual,
deficiência. A resolução também aponta para a importância de não intensificar processos de
medicalização, patologização, discriminação e estigmatização.

Uma psicologia de compromisso ético político pode contribuir de maneira significativa


para a superação das desigualdades de gênero. Não basta só tratar os sintomas das violências,
desigualdades e opressões. É importante tratá-los, mas não é o suficiente. É necessário que a
própria Psicologia supere o modo tradicional e hegemônico, que esteja consciente dos processos
históricos, buscando superar a dicotomia indivíduo - sociedade para a garantia dos Direitos
Humanos das Mulheres. Uma psicologia posicionada politicamente é imprescindível para este
processo, além da contribuição na organização autônoma das mulheres, com movimentos sociais
e na construção de políticas públicas.

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COMPROMISSO
SOCIAL
COMPROMISSO SOCIAL 73

DA VIOLÊNCIA NEOLIBERAL
À REVOLUCIONÁRIA:
uma análise do filme
O Poço a partir da teoria
crítica da sociedade

Thiago Bloss1

Introdução
O objetivo deste ensaio é refletir sobre algumas determinações objetivas e subjetivas
que constituem as distintas formas de violência presentes no filme espanhol O Poço (2019),
de Gutierrez Urrutia, a partir do referencial da Teoria Crítica da Sociedade. A análise será
orientada segundo três manifestações da violência presentes na obra: a violência estrutural, o
autoritarismo social e a violência contra a barbárie ou revolucionária.

O filme O Poço apresenta um enredo embasado no absurdo e que flerta com a estética
gore, sendo possível entendê-lo, em sua forma e conteúdo, como uma alegoria da sociedade
neoliberal. Resumidamente, a história gira em torno de seu protagonista, Goreng, que decide
se internar em uma espécie de prisão vertical, cuja estrutura se assemelha a um poço, no
intuito de se livrar do vício em cigarros.

O poço, nomeado pelos seus administradores como “Centro Vertical de Autogestão”,


é dividido em 333 andares em que residem duas pessoas por andar. Cada dupla de presos
muda mensalmente de andar de maneira aleatória, podendo ficar em algum piso acima ou
1. Psicólogo (USP), mestre em Psicologia Social (USP), doutorando pela UNIFESP, membro da coordenação da ABRAPSO
(Associação Brasileira de Psicologia Social - Regional São Paulo), docente do curso de Psicologia da Uninove e professor do curso de
formação em Suicidologia do Instituto Vita Alere de Prevenção e Posvenção ao Suicídio.

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COMPROMISSO SOCIAL 74

abaixo. Todos os andares são vazados no meio, por onde desce uma plataforma com um
banquete composto por alimentos milimetricamente bem feitos. A partir disto, a problemática
do funcionamento do poço se põe: os alimentos consumidos não são repostos conforme a
descida da plataforma aos demais andares. Aqueles que estão em andares inferiores, deverão
se alimentar das sobras dos alimentos daqueles que estão acima. Sem uma racionalização da
comida – que, aliás, não ocorre no filme - os andares a partir do quinquagésimo primeiro ficam
sem qualquer tipo de alimento, o que obriga os indivíduos a tomarem medidas extremas, tais
como o canibalismo, o assassinato e o suicídio. Ao chegar no último andar, a plataforma retorna
imediatamente ao primeiro, onde o banquete será reposto, dando-se assim continuidade ao
funcionamento cíclico do poço no dia seguinte.

VIOLÊNCIA ESTRUTURAL,
VIOLÊNCIA DO CAPITAL

Certamente, O Poço representa uma alegoria da sociedade capitalista, sobretudo, em


sua nova vestimenta neoliberal. São vários os elementos que justificam essa hipótese: uma
sociedade rigidamente verticalizada; a divisão profunda entre as esferas da necessidade e da
liberdade; a vida reduzida a autoconservação; o fetichismo da mercadoria.

A estrutura vertical do poço, tal como a de uma sociedade de classes, divide os presos
privilegiados que estão nos andares superiores e que dispõem da abundância de alimentos
requintados, daqueles que estão localizados nos andares inferiores e em situação de total
escassez e miséria, sem acesso ao que se alimentar. A divisão é bem clara: não se conhece quem
está no topo do poder e detém o controle da produção, assim como não se sabe quem habita
os últimos andares, seu extremo oposto. O filme mostra pouquíssimo desses extremos.

Desta maneira, o espectador não entra em contato com os representantes dos pólos
opostos e fixos da sociedade de classes, tais como a burguesia e o lumpenproletariado, mas
tão somente com sua classe média, cuja vida é caracterizada pelo consumo desenfreado e pela
constante ameaça de rebaixamento social. Esta seria justamente a característica essencial do
capitalismo oligopolista neoliberal: uma sociedade cujos representantes do capital se tornam
cada vez mais reduzidos, impessoais e abstratos, com uma camada subterrânea de excluídos
invisibilizados e miseráveis, e o vasto mundo da sociedade de massas cujas necessidades se
voltam exclusivamente para o consumo (e não mais para a produção).

Em sua estrutura e função, o poço reproduz o tipo de vida imposto pelo capitalismo,
que, como apontado por Marx (2010), reduz o ser humano a suas funções animais e à mera

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COMPROMISSO SOCIAL 75

conservação de seu corpo biológico, tal como comer, beber e procriar. Esta condição sequer
é escamoteada pelos prisioneiros. Ao ser perguntado pelo protagonista (Goreng) sobre como
funcionava o poço, Trimagasi, seu companheiro de andar, sintetizou em uma palavra: “comer”.
Além disso, todos nomeavam os alimentos como “ração”.

Entretanto, além do consumo desenfreado destinado à mera autoconservação, o filme


sinaliza constantemente o estatuto de fetiche assumido pela mercadoria no capitalismo. Seus
personagens se confundem com suas mercadorias e, por vezes, tomam o lugar delas. Talvez
o exemplo principal nesse sentido seja o próprio Trimagasi, um senhor idoso, ressentido, que
cumpria pena no poço após arremessar sua televisão pela janela e matar um imigrante ilegal
que andava na rua.

A justificativa da fúria que o fez arremessar o eletrodoméstico é exemplar: Trimagasi


é o típico cidadão médio consumidor, seduzido por programas de televisão especializados na
venda de novas mercadorias disponíveis no mercado. No passado, seu encantamento com um
afiador de facas extremamente potente o fez comprar o produto mesmo sem precisar (pois
apenas comprava alimentos cortados), com a justificativa de que aquela mercadoria poderia
dar sentido à sua existência: “E se minha vida for horrível porque não amolo minhas facas?”,
disse o velho. Entretanto, no dia seguinte, o anúncio de uma faca que nunca perderia o fio o fez
entrar em fúria e arremessar seu televisor pela janela, atingindo um imigrante na rua. Apesar
do assassinato não intencional daquele imigrante que, segundo suas palavras carregadas de
xenofobia, “não deveria estar lá”, Trimagasi decidiu mesmo assim comprar a faca.

Um adendo: qualquer indivíduo que entrasse no poço poderia escolher uma mercadoria
para levar consigo. Trimagasi escolheu justamente aquela faca, cuja nota promissória de gozo
ofertada em sua propaganda o levou a matar um ser humano. Algo então se torna muito
evidente: a morte de seres humanos e o consumo de mercadorias se igualaram, na medida em
que se tornaram dois objetos descartáveis na sociedade capitalista.

Outro personagem que se reduziu à própria mercadoria de desejo foi Goreng. Antes de
entrar no poço, o protagonista passou por uma rigorosa entrevista muito semelhante a uma
seleção de emprego, com inúmeras perguntas, dentre as quais, o seu prato favorito. Goreng
elegeu um prato pouco nutritivo, contudo, muito fetichizado por seu status: scargot. Noutro
momento do filme, ao acordar em um andar inferior em que certamente não chegaria mais
alimento, Goreng estava amarrado. Trimagasi o amarrou na cama, com o intuito de devorá-lo
quando a fome se tornasse insuportável. O velho disse que precisaria esperar a “maturação”
de Goreng para então comer sua carne, tal como a de um caramujo, de um scargot, que

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COMPROMISSO SOCIAL 76

em breve se tornaria uma iguaria pronta para o consumo. Nesse sentido, naquela situação
de extrema concorrência pela autoconservação de si, Goreng sintetizou sobre sua figura o
ápice da alienação do trabalhador e do fetichismo da mercadoria sob o capitalismo, em que a
mercadoria decifra aquilo que ele mesmo (o trabalhador) se tornou (ADORNO, 2006).

A referência ao fetiche da mercadoria aparece noutros momentos do filme. Um exemplo


é quando Goreng e Baharat descem às profundezas daquela prisão e encontram um preso
vestindo uma peruca colorida (tal como um fetichista), o qual protegia dezenas de notas
de dólares sob sua cama. Outro exemplo está na obsessão de Trimagasi por conseguir um
“certificado de conclusão” de sua estadia naquela instituição, independentemente do tipo de
vida que viveu ali dentro. O certificado se torna um fim a ser conquistado, não importante o
meio utilizado para sua obtenção. A forma se torna mais importante que o conteúdo. Trata-se,
pois, de uma característica típica da sociedade dominada pela técnica.

Deste modo, delineia-se em O Poço as principais expressões da violência estrutural


produzida pela sociedade cuja essência é a mercadoria: rígida hierarquia e desigualdade social;
abundância de recursos para poucos e ampla escassez para a maioria; redução da existência à
pura reprodução das necessidades básicas; reificação das relações entre os seres humanos com
a correspondente “sociabilidade” entre as coisas, ou seja, a coisificação do que é humano e a
humanização do que é coisa (MARX, 2013).

AUTORITARISMO SOCIAL

Toda essa estrutura rigidamente verticalizada, desigual e desumana do poço


não se sustentaria sem a mediação das relações autoritárias naturalizadas entre seus
membros. A mobilidade social forçada pelo funcionamento daquela instituição reforçava
a reprodução das relações de hierarquia e mando-obediência, daqueles que por curto
período de tempo estariam em posições superiores.

Contudo, a partir da perspectiva teórico-metodológica deste ensaio, torna-se insuficiente


uma leitura psicologizante dessas relações. Estas devem ser entendidas, antes, como o produto
de uma sociedade materialmente violenta, portanto, como uma das principais mediações dos
indivíduos com as forças sociais mais amplas que constituem a violência estrutural da sociedade
como um todo.

Nesse sentido, por sua estrutura e função, o poço reproduz de forma alegórica tanto a
sociedade capitalista neoliberal, quanto as relações intersubjetivas constituídas sob seu modo

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COMPROMISSO SOCIAL 77

de produção, a saber: indivíduos individualistas, não solidários, cuja vida é organizada a partir
da lógica da microempresa, orientada pelo princípio da concorrência, da gestão de riscos, da
eficácia e da maximização dos lucros.

Conforme aponta Adorno e Horkheimer (1973), o indivíduo da sociedade burguesa se


constituiu pela mediação da livre concorrência de mercado, como aquele que venderia a sua
força no mercado de trabalho de maneira isolada. Nesse sentido, o self made man burguês não
se formou indivíduo enquanto tal, pois a ele lhe foi negada a liberdade e autonomia, ou seja,
a possibilidade de ser universal. Este seria antes um individualista, o qual, reflete justamente
a falência do indivíduo: “Quanto menos são os indivíduos, tanto maior é o individualismo”
(ADORNO; HORKHEIMER, 1973, p. 53)

Cabe refletir que os sujeitos que vivem no poço foram constituídos em um tipo de
sociedade cujo funcionamento é mimetizado naquela instituição. Nesse sentido, afirmar que
o poço é violento daquela maneira por uma questão moral e individual de cada prisioneiro
se torna ideológico. Com efeito, Horkheimer aponta como o individualismo é, antes, o tipo
de subjetividade necessária para a reprodução do sistema capitalista; ou seja, trata-se de uma
questão mais objetiva do que subjetiva:

A produção não está dirigida à vida da coletividade nem satisfaz às exigências


dos indivíduos, mas está orientada à exigência de poder de indivíduos e se
encarrega também da penúria na vida da coletividade. Isso resultou
inevitavelmente da aplicação do sistema de propriedade dominante,
do princípio progressista de que é suficiente que os indivíduos se preocupem
apenas consigo mesmos (HORKHEIMER, 1937/1983. p. 134).

Pierre Dardot e Christian Laval partem da mesma hipótese, apesar de diferente


perspectiva teórica dos frankfurtianos, para pensar os sujeitos constituídos sob a lógica
neoliberal como aqueles “sujeitos a funcionar de acordo com os termos do jogo imposto
a eles” (DARDOT; LAVAL, 2016, p. 353). Segundo os autores, o sujeito neoliberal,
ou o neossujeito, seria aquele cuja subjetividade e racionalidade se constitui enquanto
“empresa de si mesmo”, em que os predicados associados à empresa são tomados como
seus. Qualquer dimensão da sua vida, seja na produção, seja no consumo ou no lazer,
precisa ser orientado segundo os predicados da maximização de recursos, da concorrência e do
mais-valor. Não é à toa que aquela prisão é nomeada como Centro Vertical de Autogestão.
Não se esconde que ali é um lugar de gestão de seres humanos.

Esse tipo de relação subjetiva e, consequentemente, intersubjetiva já se explicita


no início do filme. Logo ao acordar em sua cela, Goreng se apresenta a Trimagasi,

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COMPROMISSO SOCIAL 78

oferecendo sua mão para cumprimentá-lo. O velho recusa o cumprimento e diz: “é


melhor você ficar no seu canto”. Goreng então lhe faz perguntas sobre o funcionamento
do poço e recebe de seu parceiro a seguinte resposta: “te darei quantas informações
você me der”. Opera-se assim, desde o primeiro contato, a relação mercantil de troca
e concorrência entre pequenas empresas-de-si. Uma relação entre sujeitos atomizados,
pouco solidários e que seguem à risca o primeiro mandamento da ética neoliberal:
“ajuda-te a ti mesmo” (DARDOT; LAVAL, p. 332).

Contudo, esse tipo de relação individualista opera tanto no nível horizontal,


entre colegas de cela, quanto na relação verticalizada entre os indivíduos de cada
andar. É justamente nesta que os traços de autoritarismo se apresentam mais evidentes.

Como já mencionado, no poço os indivíduos estariam ora em situação de privilégio,


ora em situação de completa escassez, conforme sua posição naquela hierarquia
forçada e móvel. A situação temporária de estar nos primeiros andares, sob uma
ampla e abundante oferta de alimentos, tornava-se condição para a emergência
de características específicas do autoritarismo, tais como, relações de mando-
obediência, humilhação social e objetificação do outro.

Trimagasi revelou estes comportamentos para Goreng na primeira vez em que a


plataforma desceu em seu andar. Logo ao se alimentar, o velho fez questão de cuspir na
comida que seria destinada aos que estão abaixo. Noutro momento, Baharat, homem
negro que posteriormente seria colega de cela de Goreng, ao tentar subir para o andar
superior utilizando uma corda, sofreu um ataque racista daqueles que ali estavam, os
quais defecaram sobre seu corpo e o xingaram.

A rígida verticalização, que necessariamente reforçava as relações autoritárias


de quem ocupava os postos mais altos, tornara-se algo um tanto trivial. Questionado
por Goreng sobre a importância de racionalizar o alimento para os demais, um
preso exclamou: “estou no nível 7, tenho o direito de me esbanjar”. Para as classes
mais abastadas, o privilégio e a abundância (cujo condição é a miséria de muitos)
são entendidos como direitos naturais dados à sua posição social. Confunde-se a
particularidade do privilégio com a universalidade dos direitos. Faz-se a apologia da
lógica privatista em detrimento da esfera pública.

Tal situação de abundância de recursos, acumulação e maximização de lucros


(e de gozo!) é tipicamente o telos do sujeito cujo modelo de subjetividade é a empresa.

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Conforme aponta Dardot e Laval (2016), o sujeito neoliberal torna o “sucesso” um fim
em si mesmo, um valor supremo a ser alcançado. Nesse sentido, ele luta a qualquer
custo para ser um sujeito “bem-sucedido”, mesmo que por um curto período de sua
vida. Quem ocupava temporariamente os andares superiores do poço reproduzia tal
desejo fetichista.

Entretanto, esse ímpeto que empurra os indivíduos para o mundo da competição


e do sucesso é condicionado por um afeto específico: o medo. Theodor Adorno (2015)
aponta como o medo se tornou um afeto político central para a conformação social
às regras do capitalismo, que se insinua ao indivíduo sob a constante ameaça de
rebaixamento econômico e exclusão.

Dardot e Laval (2016) partem de uma premissa semelhante, ao entenderem que a


vida reduzida a uma “gestão de risco” permanente sob o neoliberalismo é atravessada
pelo medo social. Deste modo, a administração desse afeto político é responsável pela
implantação da chamada neogestão e, consequentemente, da constituição do sujeito
neoliberal dócil e resiliente ao inseguro mundo do trabalho.

A corrosão progressiva dos direitos ligados ao status de trabalhador, a


insegurança instilada pouco a pouco em todos os assalariados pelas “novas
formas de emprego” precárias, provisórias e temporárias, as facilidades cada
vez maiores para demitir e a diminuição do poder de compra até o
empobrecimento de frações inteiras das classes populares são elementos
que produziram um aumento considerável do grau de dependência dos
trabalhadores com relação aos empregadores. Foi esse contexto de medo social
que facilitou a implantação da neogestão nas empresas (DARDOT; LAVAL, 2016, p. 329).

O contexto de medo social é o terreno fértil para o autoritarismo e para a indiferença com o
outro. Quando estava amarrado em sua cama, pouco antes de ter um pedaço de seu corpo extirpado
por Trimagasi, Goreng o acusou de ser assassino por ter matado seu antigo colega de cela também para
devorá-lo. O velho então responde ao protagonista: “não sou assassino, só tenho medo”.

Cenas antes, logo ao conhecer Goreng, Trimagasi afirmou que no poço havia três tipos de
pessoas: “as de cima, as de baixo e as que caem”. Nesse sentido, seu medo era de “cair”, ou seja, de ser
assassinado ou de se suicidar devido a fome. Ao mesmo tempo em que temia aquele sistema, Trimagasi,
tal como um trabalhador dócil, defendia a ideologia de que “no poço todos são livres para escolher”.
Deste modo, representava o trabalhador ideal do capitalismo: aquele que justifica a sua própria condição
de dominado a partir das palavras de seu dominador. Com efeito, Adorno (2006) afirma que:

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COMPROMISSO SOCIAL 80

A produção capitalista (...) mantém [os trabalhadores] tão bem presos em


corpo e alma que eles sucumbem sem resistência ao que lhes é oferecido. Assim
como os dominados sempre levaram mais a sério que os dominadores a moral
que deles recebiam, hoje as massas logradas sucumbem mais facilmente ao
mito do sucesso que os bem-sucedidos. Elas têm os desejos deles.
Obstinadamente, insistem na ideologia que as escraviza (ADORNO, 2006, p.110).

Algo se torna então evidente: o neoliberalismo não se sustenta sem o autoritarismo.


O autoritarismo social que fundamenta a moderna sociedade capitalista se torna então uma
mediação fundamental na constituição da personalidade dos sujeitos com a totalidade social
irracional, fato que orienta as relações dos indivíduos entre si de maneira global. Nesse sentido,
o filme é muito preciso ao apontar como segmentos estruturalmente vulnerabilizados pela
violência neoliberal também não escapam do comportamento autoritário.

Um exemplo é o de Imoguiri, mulher transgênera responsável por entrevistar os


futuros prisioneiros daquela instituição. Por mais que justificasse não saber o que ali ocorria,
sua função se assemelhava a de um algoz nazista, que encaminhava seres humanos para os
campos de concentração.

Outro exemplo nessa perspectiva está no encontro de Goreng com um garoto com
Síndrome de Down, que estava em um andar inferior e desejava matar seu colega de cela
para saciar sua fome. Apesar da oferta de alimento disponibilizada pelo protagonista, o garoto
mesmo assim afirmou: “vou matar ele de qualquer modo”. A lógica da concorrência e da
descartabilidade humana em nome da autopreservação prova ser total, constituindo o íntimo
e a personalidade de qualquer pessoa. Mesmo que anacrônica, por conta do avanço das forças
produtivas, a luta pela sobrevivência nos é forçada pela manutenção das relações de produção
embasadas em uma espécie de violência gratuita, ou seja, de uma violência pela violência.
Na sociedade capitalista, trabalha-se por trabalhar, violenta-se por violentar. A obrigação de
trabalhar frente ao atual avanço tecnológico, em que o trabalho humano não é mais necessário,
é transformar o sacrifício e a violência em um fim em si mesmo.

Por fim, as relações autoritárias incidiram também sobre Miharu, mulher considerada
“louca” que constantemente descia através da plataforma em busca de seu filho perdido
“imaginário”, conforme afirmavam os presos. Sob sua figura, via-se a imposição de uma
característica específica do autoritarismo: a redução das diferenças em desigualdades. Enquanto
mulher, seu corpo e suas ideias foram constantemente objetificados na película. Seu corpo era
atrativo sexual de homens. Suas ideias, taxadas como destituídas de razão, enlouquecidas.
Apenas no final do filme sabemos da real existência de sua filha (mulher!), cuja existência desde
o início foi negada.

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COMPROMISSO SOCIAL 81

Segundo Adorno (2019), a personalidade do indivíduo não é algo dado de antemão,


inato, mas “se desenvolve sob o impacto do ambiente social e nunca pode ser isolada da
totalidade social dentro da qual ela existe” (ADORNO, 2019, p.80). Mesmo que determinada
personalidade se projete contra as forças massificadoras da sociedade, cabe entender que os
elementos que permitem a sua emancipação são encontrados nessa mesma sociedade.

O poço, enquanto uma imensa estrutura tecnológica, irracional, impessoal e


extremamente desigual, reproduz a sociedade burguesa livre de qualquer obstáculo; noutras
palavras, reproduz o que é o fascismo. Para se estabelecer, o fascismo necessita de personalidades
potencialmente prontas e adaptadas aos seus imperativos de violência e acumulação de capital.
Compõe esse quadro a grande parcela da população formada sob a injustiça da vida reduzida
ao trabalho e ao consumo, tolhidos de sua liberdade e espontaneidade, cujo pensamento não
mais se desvincula do dado imediato e que, portanto, não pensa. Trata-se de um indivíduo
autoritário forjado pela violência estrutural do capital, amedrontado e coisificado.

Certamente Trimagasi, um idoso ressentido por sua vida mesquinha, é o exemplo melhor
acabado desse tipo de indivíduo autoritário e pseudoformado. Sua fixação com programas da
indústria cultural que oferecem o gozo perdido através do consumo de mercadorias novas do
mercado; seu ódio a imigrantes; sua necessidade de exercer poder e humilhar quem está abaixo
de si sob determinada circunstância de privilégio; além de sua incapacidade de imaginar um
mundo diferente daquele que está constituem alguns dos elementos desse tipo de personalidade
produzida por uma totalidade desvinculada de fins humanos e racionais.

Como aponta Adorno (2010), o indivíduo pseudoformado se relaciona com a realidade


enquanto uma eterno presente, como um constante “é isto” que não pode ser de outra maneira,
senão aquela que lhe é apresentada naquele instante. Não é à toa que Trimagasi toma como
propriedade sua a palavra “óbvio” e questiona Goreng quando este usa essa palavra. Trimagasi,
tal como o cidadão médio da sociedade capitalista, joga conforme o jogo, responde conforme o
estímulo e não consegue pensar para além do imediato; deste modo, sua vida, livre de qualquer
mediação, lhe é “óbvia”.

No início do filme, quando Goreng tenta organizar coletivamente os demais prisioneiros


para que diminuíssem o consumo de alimentos, com o intuito de democratizá-los, Trimagasi logo
o questiona: Você é comunista? Goreng, como bom leitor de Dom Quixote, o responde: “Não, sou
razoável”. Se, por um lado, o velho não enxerga outra realidade senão aquela da dominação, o
protagonista, por outro, entende que uma sociedade justa é essencialmente racional, ou seja, uma
sociedade que imagina, pensa e deseja a liberdade para todos. É esse justamente o fundamento de

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COMPROMISSO SOCIAL 82

sua utopia, cuja realização só é possível com o uso de uma violência orientada racionalmente, para
fins coletivos e humanos. É esse o fundamento de sua violência revolucionária.

VIOLÊNCIA CONTRA A BARBÁRIE,


VIOLÊNCIA REVOLUCIONÁRIA

Algo até então não mencionado neste ensaio foi o objeto escolhido por Goreng para entrar
no poço: o romance Dom Quixote de Miguel de Cervantes Saavedra. Trata-se do romance
que inaugura a era burguesa e que, segundo Walter Benjamin (2012), expressa uma importante
característica de nosso tempo: a crise da narrativa e da nossa incapacidade de experienciar o
mundo. Tal condição tomou proporções imensuráveis frente à realidade do capitalismo oligopolista
e da indústria cultural.

Dom Quixote, personagem conhecido por seu um louco rematado era, antes, um dos
poucos representantes dos princípios racionais de seu tempo, ao defender valores como justiça e
solidariedade. Não é à toa que costuma ser taxado de utópico. Goreng, tal como o personagem de
Cervantes, também era utópico ao acreditar na efetiva possibilidade de uma sociedade justa. Deste
modo, era razoável, ou seja, visava fins racionais. Conforme aponta Marcuse (1997) a utopia, longe
de ser algo absurdo e impossível, seria antes a verdade que ainda não pôde se realizar na ordem
social existente. Sua irrealização, entretanto, não tira o seu estatuto de verdade.

A utopia de Goreng era certamente mais racional e verdadeira do que o idealismo de Imoguiri,
a qual apostava na solidariedade espontânea dos presos pelo convencimento e apelo moral. Pasmo
com aquele apelo impotente e idealista de Imoguiri, Goreng expressa a vida fantasiosa da colega de
cela através de uma simples pergunta: “Você é real?”. Parecia-lhe, antes, um delírio.

A vida radicalmente reduzida a autoconservação, à constante luta pela sobrevivência, não


permitia o pensamento e, muito menos, a solidariedade naquele lugar. Seria algo impensável.
Com efeito, Imoguiri alerta Goreng de que ali não era “lugar para um amante de livros”, ou seja,
para alguém que pretende transcender a realidade imediata imposta. No poço, a necessidade se
sobrepunha à liberdade, a sobrevivência à transcendência. Talvez a cena mais emblemática deste
totalitarismo foi quando Goreng se alimentou das páginas de seu livro, diante da fome extrema.

Contudo, os poucos momentos de liberdade concedidos temporariamente aos bem


alimentados dos andares superiores tinha o seu saldo. Por um lado, tal liberdade abria espaço para
o lazer, inclusive para relações sexuais. Por outro, permitia a alguns pensar, o que se tornava algo
perigoso. No início de sua jornada no poço, Goreng presenciou a queda de um preso alocado em

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COMPROMISSO SOCIAL 83

algum andar superior, ou seja, de um representante daqueles “que caem”. Mas por que aquele
homem caiu? Qual o motivo de sua queda? Não seria justamente por ter pensado demais sobre a
realidade irracional que vivia e, assim, abdicado da própria vida? Nunca saberemos.

Todavia, o pensamento revoltado pode se direcionar tanto para a destruição de si, para o
suicídio, quanto para a ordem social existente, ou seja, para a revolução. Foi o caso de Goreng, que
aliou seu espírito de vanguarda com a revolta de um oprimido: Baharat, homem negro vítima de
racismo, que tomou consciência da impossível liberdade naquela prisão.

Nesse sentido, o protagonista compreendeu que a violência estrutural do poço, que reforçava
e era reforçada pelas relações autoritárias e inumanas que ali se naturalizaram, seria unicamente
superada através da força, por uma violência orientada racionalmente para fins humanos, uma
violência revolucionária.

Goreng percebeu que a aposta de Imoguiri na solidariedade espontânea era tão absurda
quanto as aventuras do Barão de Münchhausen que, atolado com seu cavalo sobre uma lama
profunda e movediça, encontrou como saída puxar-se pelos cabelos. Com efeito, esse personagem
dos contos populares alemães nos aponta o absurdo que é o apelo moral para a autonomia e para
a solidariedade em um tipo de sociedade que, em sua própria estrutura, não permite a autonomia,
a solidariedade e, muito menos, a liberdade de seus indivíduos. O apelo moral seria o mesmo que
puxar-se pelos cabelos.

A ideia de uma violência que visa pôr fim a outra violência parece absurda para o senso
comum, pois este naturalizou a violência estrutural, trata-a como normal e esperada devido a
“lei do mais forte”, sendo justificada desde a fase industrial do capitalismo no século XIX. Tal
como Imoguiri, o senso comum acredita na transformação a longo prazo dos indivíduos através
da apologia moral, sem qualquer mudança estrutural, enquanto naturaliza as mortes presentes e as
que ainda virão (neste longo prazo) por conta da miséria social.

A violência estrutural que resulta em mortes diárias pela fome e pelo desespero se torna banal,
“não violenta”, enquanto que a violência contra esse tipo de violência é condenada, é julgada como
“violenta” e irracional. Como apontou o mestre de Baharat em determinado momento do filme:
“a administração não tem consciência”; ou seja, tornou-se uma força fora de controle, alienada, tal
como o capital, que se reproduz através de uma violência também fora de controle.

Goreng e Baharat decidem descer sob a plataforma e forçar os indivíduos dos andares
superiores a racionalizar os alimentos, para que então realizassem uma distribuição justa aos demais

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COMPROMISSO SOCIAL 84

andares. Ambos sabiam que não seria possível apelar para a solidariedade espontânea em uma
sociedade que forma os indivíduos justamente para a competição e para a frieza com o outro. O uso
racional da força e da violência seria necessário diante de subjetividades que não se formaram para
a alteridade. Nesse sentido, como aponta Marcuse (1998), os fins humanos são os únicos que podem
justificar meios que se utilizam da violência: uma violência racional contra a violência estrutural,
contra a barbárie. Este seria o caráter ético da revolução:

A relação entre meios e fins constitui o problema ético da revolução. Num certo
sentido, os fins justificam os meios, a saber, quando estes promovem claramente
o progresso humano na liberdade. Esse fim legítimo, o único fim legítimo, exige
a criação de condições que facilitem e favoreçam sua realização. E a criação
dessas condições pode justificar sacrifícios, tal como toda a história justificou
sacrifícios. Mas essa relação entre meios e fins é dialética. O fim precisa estar
operando nos meios repressivos para atingi-lo. Também aqui os sacrifícios
pressupõem violência – a sociedade não-violenta permanece como possibilidade
de um estágio histórico pelo qual há que lutar antes (MARCUSE, 1998, p. 151).

No final, os dois revolucionários do poço atingem o objetivo de distribuir alimentos para


todos os andares. Goreng, como a alegoria de tantas figuras revolucionárias messiânicas, chega
literalmente ao fundo do poço e lá morre. Antes, deixa sob a plataforma uma “mensagem” para a
administração, uma criança, a filha de Miharu, que habitava as regiões abissais daquela prisão.

Se a mensagem chegará a quem deve, não saberemos. Se a violência racional utilizada para
fins humanos se converterá em nova barbárie ou em alguma forma de poder soberano burocrático,
também não saberemos. A questão em jogo, tal como apontada por Marcuse (1977), é garantir
minimamente a reflexão sobre a nossa humanidade pela eliminação da necessidade imediata de
sobrevivência, tornar o pensamento negativo e sair da eterna consciência reificada e pragmática,
sobrepor a liberdade à necessidade. O que isso significa? O próprio Marcuse responde:

E há uma resposta para a pergunta que perturba os espíritos de tantos homens


de boa vontade: o que é que as pessoas de uma sociedade livre vão fazer? A
resposta que, creio eu, acerta em cheio, foi dada por uma jovem negra: “Pela
primeira vez na nossa vida seremos livres para pensar o que vamos fazer”
(MARCUSE, 1977, p.122)

Em conclusão, O Poço nos assusta não porque revela aquilo que podemos nos tornar
em condições extremas, mas por escancarar aquilo que já nos tornamos. Seu absurdo não
representa o nosso “vir-a-ser”, o destino ao qual estamos condenados enquanto sociedade; mas
justamente o ponto de partida, a premissa, o funcionamento básico, da estrutura e da dinâmica
do sistema social violento e compulsivo que (re)produzimos cotidianamente. O Poço é o presente
do capitalismo neoliberal pandêmico.

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COMPROMISSO SOCIAL 85

Referências bibliográficas

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cultura. (Obras Escolhidas vol. I) São Paulo: Editora Brasiliense, 2012, p. 213-240.

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MARX, Karl. O capital: crítica da economia política – Livro I: o processo de produção do capital. Trad. R. Enderle. São Paulo:
Boitempo, 2013.

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PSICOLOGIA
LATINOAMERICANA
PSICOLOGIA LATINOAMERICANA 87

Atenção em saúde
mental e a pandemia
de COVID 19: a experiência
da América Latina

Daniel Scurato1
Manifiesto Zapatista
Al pueblo de México:
A los pueblos y gobiernos del mundo:
Hermanos:
Hermanos nosotros nacimos de la noche
en ella vivimos
y moriremos en ella
pero la luz será mañana para los más,
para todos aquellos que hoy lloran la noche,
para quienes se niega el día.
Para todos la luz,
para todos todo.
Nuestra lucha es por hacernos escuchar y el mal gobierno
grita soberbia y tapa con cañones sus oídos,
nuestra lucha es por un trabajo justo y digno y el mal gobierno compra y vende cuerpos y vergüenza,
nuestra lucha es por la vida y el mal gobierno oferta muerte como futuro,
nuestra lucha es por la justicia y el mal gobierno se llena de criminales y asesinos,
nuestra lucha es por la paz y el mal gobierno anuncia guerra y destrucción.
Techo, tierra, trabajo, pan, salud, educación, independencia, democracia, libertad,
estas fueran nuestras demandas en la larga noche de los 500 años,
estas son hoy nuestras exigencias
(El general en jefe del ejercito libertador del sur Emiliano Zapata)
1. Daniel Scurato - Psicólogo NASF-AB em São Bernardo do Campo, Especialista em Gestão em Saúde - FioCruz, Facilitador do
programa “E agora, José?” Homens pelo fim da violência contra mulher e participante da Rede Internacional de Praticas e Experiências
de Cuidado em Saúde Mental - RIPEC.

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PSICOLOGIA LATINOAMERICANA 88

Breve Histórico e Marcos Legais da Atenção2


em Saúde Mental na América Latina

Os países da América Latina possuem histórias muito parecidas. Desde a descoberta do


continente até os dias de hoje. Colonização, exploração e extinção de povos e culturas. Tradições
que ainda permanecem vivas e acredito que seja nossa obrigação, enquanto latino americanos,
sermos defensores destas culturas, que são memória de nossos ancestrais e que atualmente
acabam por ser marginalizadas ou menosprezadas por governos e pessoas que se alinham a um
tipo de pensamento excludente e arrogante.

Nesta reflexão sobre as semelhanças históricas que existem entre os países latino
americanos, façamos um recorte para as questões referentes à saúde mental. Assim como no
Brasil, os demais países da América latina e Central possuem vivências de intervenções cruéis
e desumanas direcionadas às pessoas acometidas por alguma questão que as desviasse do
“normal”, incluindo os transtornos psiquiátricos, deficiências, “vadiagem”, etc., que ocorreram
principalmente no final do século XIX até quase o final do século XX. Neste período,
principalmente a partir da metade do século passado, movimentos sociais começam a ganhar
força e notoriedade, culminando posteriormente em propostas de cuidado que visam à um
tratamento mais condizente com direitos humanos e convivência comunitária. No final do
século XX e início do XXI, tais tratamentos evoluem para leis que, enfim, passam a garantir
dignidade às pessoas portadoras de transtornos mentais graves e persistentes. Destacamos o
que Isabel Victoria Marazina escreve em sua tese de doutorado, na qual a autora faz um
estudo comparativo dos sistemas de saúde mental de Brasil e Argentina, a respeito do aconteceu
na Argentina e que se assemelha a todos os demais países:

“Esse período histórico é um dos mais ricos, fecundos e apaixonantes, também


um dos mais complexos, violentos e polêmicos de nossa história recente. Com
o golpe de 1976, instalava-se uma ditadura militar que impôs o terrorismo de
Estado. Nessa época a destruição do que foi construído no campo da Saúde
Mental foi uma constante. A fragmentação e a morte circulavam, levando a
separações e rompimentos de instituições e de grupos. Muitos “Trabalhadores
da Saúde Mental” desapareceram, tais como o Secretário Sindical da Federação
Argentina de Psiquiatras e a Presidenta da Associação de Psicólogos de Buenos
Aires. Muitos outros tiveram que se exilar e desde o exterior continuaram
desenvolvendo suas atividades e denunciando o genocídio realizado pela
ditadura militar. Em nosso país as instituições se fecharam e isolaram”. (p. 15)

2. Costa-Rosa em seu Ensaio Ética e Clínica da Atenção Psicossocial propõe a utilização do termo Atenção, com inicial maiúscula:
“para referir o conjunto de ações realizadas no campo da Saúde Mental.

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PSICOLOGIA LATINOAMERICANA 89

Sem exceção, todos os países da América Central e América do Sul viveram seus períodos
obscuros de ditaduras militares, algumas com duração de muitas décadas, outras menos, mas todos
com um objetivo comum: explorar as riquezas e o povo destes países, excluir quem se manifestava
contra e marginalizar aqueles que não se enquadram ao modelo capitalista de produção
e venda de sua força de trabalho. É neste período que, ao mesmo tempo em que se aumentava
exponencialmente as instituições asilares, as forças contrárias, de resistência, também ganhavam corpo.

Marazina cita também que, particularmente na América Latina, a saída de vários países
dos períodos de regimes ditatoriais, que suspenderam o estado de direito, sustenta um renascimento
da temática do cuidado e atenção à saúde mental e, portanto, de critérios de inclusão das minorias,
entre as quais figuram os afetados por enfermidades mentais.

Neste sentido de reabertura democrática, um marco importante relacionado à Atenção


em Saúde Mental na América Latina é a Declaração de Caracas3, de 14 de Novembro de 1970,
produzida na Conferência Regional para Reestruturação da Assistência Psiquiátrica na América
Latina, organizada pela OMS conjuntamente com a OPAS e co-patrocinada pela Comissão
Interamericana de Direitos Humanos, a qual aponta para uma nova maneira de entender a Atenção
Psicossocial. A partir de então os países Latino Americanos passam a identificar essas diretrizes
como objetivos para reformularem as intervenções e suas leis.

Outro marco importante se refere a Recomendações da Comissão Interamericana de Direitos


Humanos sobre a Promoção e Proteção dos Direitos das Pessoas com incapacidade mental, em Santiago
Chile 4 de Abril de 2001, que consolida diversas intervenções já existentes, direcionando
e viabilizando sua utilização.

Em território brasileiro tais insurgências tomaram proporções relevantes gerando um movimento


social que, em 1987, no II Congresso Nacional do Movimento dos Trabalhadores em Saúde
Mental (MTSM), ocorrido na cidade de Bauru, no Estado de São Paulo, passou a ser conhecido
como a Luta Antimanicomial, cujo lema é “Por uma Sociedade sem Manicômios” e tem o dia
18 de maio como data de comemoração no calendário nacional brasileiro.

Somente mais de 20 anos depois, em 06/04/2001, é aprovada a lei 10.216, que dispõe
sobre o direito e proteção às pessoas portadoras de transtornos mentais.

Para contextualizar, na Argentina as leis referentes aos direitos e proteção das pessoas
portadoras de transtornos mentais variam entre as províncias do país, como em Córdoba
3. http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/declaracao_caracas.pdf

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PSICOLOGIA LATINOAMERICANA 90

e Santa Fé, onde desde 1991 já existem tais leis, porém uma lei federal surge somente em 2001
através da Lei Nacional nº 25.421.

O Chile foi um dos países que mais estudaram, pesquisaram e investiram no que tange
ao cuidado em saúde mental. Neste país, em 1960 muitos avanços já haviam sido conquistados,
mas por falta de interesse político, nenhuma lei foi sancionada, permanecendo aquelas que
instituem a internação (asilamento) como o principal recurso para o tratamento dos transtornos
mentais. De 1973 a 1990, tempo de duração do regime militar chileno, registra-se apenas
a resistência e a militância, sem avanços políticos, seguindo-se a esse período uma intensa
produção acerca de cuidados em saúde mental que priorizam os direitos humanos,
a desinstitucionalização e o cuidado de base comunitária. Atualmente, há mudanças em
leis de saúde geral que incluem a questão da saúde mental, como a AUGE (Acesso Universal
com Garantias Explícitas), sancionada em 2004, que inclui 56 enfermidades prioritárias e entre elas
algumas relacionadas a transtornos mentais.

Já na Colômbia, desde 1963 há uma apropriação do termo saúde mental que orienta
as intervenções e estudos para um movimento não asilar, de base comunitária e pautado em
ações em atenção primária e secundária. Ao longo dos anos, o tratamento em saúde mental vai
amadurecendo, não havendo registro de retrocessos relacionados diretamente ao regime
militar, mas sim em relação a um desinvestimento estatal que abriu precedente para intervenções
e instituições particulares que remontam os anos de 1996 a 2011. Datam desse período
dificuldades inclusive nos registros sobre o cuidado em saúde mental.

Mais recentemente, em janeiro de 2013, é promulgada a lei 1616 de saúde mental


baseada nos propósitos da Convenção de Caracas4.
Em outros países do cone Sul e América Central o contexto não é muito diferente.
Diferem-se apenas os anos nos quais as leis foram promulgadas ou que ainda estão com
dificuldade em serem implementadas. Existe um investimento referente ao cuidado em saúde
mental mais próximo daquilo que objetiva a Declaração dos Direitos Humanos e depois de
avanços, retrocessos, militâncias, ditaduras, reabertura do estado democrático e novas
convenções internacionais estamos vivenciando uma nova etapa em relação a este cuidado.

Importância da Atenção em Saúde Mental


e a Pandemia Covid-19

Recentemente, a Atenção em Saúde Mental tem ganhado cada vez mais espaço no cotidiano
das pessoas, seja de uma forma ainda carregada com certo preconceito e próxima do
4. Leyes de Salud Mental y reformas psiquiátricas en América Latina: múltiples caminos en su implementación (VERTEX Rev. Arg.
de Psiquiat. 2018, Vol. XXIX: 334-345)

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PSICOLOGIA LATINOAMERICANA 91

senso comum, seja com mais responsabilidade e cuidado, ao se perceber a necessidade e


importância deste tema nos tempos atuais. A era moderna, com seu modelo consumista,
imediatista e das relações virtuais e superficiais, inserida em países nos quais dentro de
seu Espaço Geopolítico são denominados como países emergentes caracterizando-se pela
subordinação econômica aos interesses dos países capitalistas centrais, aumenta
exponencialmente a produção do sofrimento e transtornos mentais e, consequentemente, a
necessidade de cuidado às pessoas diante deste cenário.

Nesta roda viva do tempo, chegamos aos dias atuais e, mais uma vez, a maioria
dos países da América Latina estão com suas trajetórias se assemelhando, novamente de forma
negativa, com governos que priorizam o capital, sustentam a marginalização dos que não
podem produzir e provocam situações de violação de direitos humanos. Portanto, é importante
citar e resgatar os marcos, convenções e lutas citados anteriormente, pois é por estas
conquistas que atualmente existem bases que sustentam com mais segurança os avanços
alcançados em relação à Atenção ao sofrimento emocional.

Mais atual ainda é apontar para questão da Saúde Mental neste período em que
uma pandemia assola a humanidade novamente, rememorando outras experiências
parecidas, como a tão citada gripe espanhola na década de 30 do século passado ou outras
mais recentes como a gripe aviária, H1N1, etc.

A pandemia da Covid-19 trará possíveis consequências psicológicas negativas,


principalmente em decorrência às medidas adotadas para a quebra da cadeia de infecção
do vírus, no caso a separação física, isolamento, quarentena e distanciamento social.
Estudos apontam para uma estimativa que entre um terço a metade da população mundial
irá apresentar algum tipo de manifestação psicopatológica ligada principalmente à ansiedade,
evoluindo ou não para algum transtorno, como síndrome do pânico ou estresse pós-traumático.
Esse agravo dependerá do grau de vulnerabilidade que a pessoa ou grupo se encontra e também
das intervenções específicas voltadas a esse cuidado. (FIOCRUZ, 2020)5.

A intervenção psicossocial é fundamental nesse momento para que esses agravos


sejam atenuados, como os primeiros cuidados psicológicos6, que são apontados pela OMS
como uma estratégia essencial em situações de catástrofe ou tragédias de grandes
proporções, como nos exemplos recentes do terremoto no Haiti, da epidemia de ebola
no Congo e do rompimento das barragens de Brumadinho e Mariana no território
5. Saúde Mental e Atenção Psicossocial na Pandemia COVID-19 - Caderno “Recomendações Gerais” (FIOCRUZ, 2020).
6. Pirâmide de intervenções do IASC que varia desde estratégias amplas de intervenção com a população em geral, até a garantia de
cuidados especializados para pessoas em severas condições.

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brasileiro, etc. Todas essas situações e dezenas de outras que já aconteceram no mundo
têm por característica em comum consequências desastrosas para milhares de vidas,
que necessitam de apoio para as questões mais básicas da vida, como morar, comer, vestir
e, claro, de apoio emocional/psicológico, uma vez que vivenciam lutos, traumas e incertezas
com enorme intensidade.

No contexto da pandemia, os transtornos psíquicos imediatos mais frequentes são a depressão


e reações agudas ao estresse. Os efeitos tardios estão mais ligados ao luto por uma
vida e uma rotina que perdemos, na qual certa previsibilidade trazia segurança. A depressão
decorre de uma cultura da escassez, principalmente afetiva, onde a proximidade física
deve ser evitada, impossibilitando o toque, abraços e beijos, comportamentos comuns
e característicos na cultura latina. Sonhos adiados ou mesmo perdidos por não se ter mais a perspectiva
do amanhã diante da ameaça invisível e tão poderosa que afetou o mundo todo, sem distinção
de país, etnias, classes sociais, etc.

Encontro e União Inevitáveis da Resistência


e Militância Latino Americana

Em outro sentido, esta pandemia também nos mostra que, ao contrário de pessoas
que estão paralisadas, esperando esse momento passar para voltar a uma vida que antes
lhes dava segurança - o que será muito difícil pois já estamos vivendo um “novo normal”-
outras pessoas buscaram estudar, se aperfeiçoar e aproveitar o momento para intensificar
suas lutas para cuidar do outro, para trazer um sentimento de pertença, mudanças, propor
intervenção psicológica para trazer conforto emocional e minimizar os impactos
negativos citados acima.

Podemos evidenciar essa afirmação através das intervenções realizadas em prol


do cuidado em saúde mental que estão ocorrendo no presente momento, em todos
os países da América Latina, compartilhadas através da Rede Internacional de Práticas
e Experiências de Cuidado em Saúde Mental no Contexto da Covid-19 (RIPEC) 7 .
Este coletivo emerge diante da necessidade de aproximação, troca de experiências,
valorização das ações para enfrentar o desafio de manter o bem estar e promover a proteção
da saúde mental da população. Tratam-se de expressões de resistência e luta pela vida,
tão necessárias neste tempo de pandemia e retirada ou violações de direito.
Galende(1997, pg.37) diz que “o objeto da saúde mental não é de forma exclusiva
o indivíduo, ou os conjuntos sociais, mas as relações que permitem pensar
conjuntamente esse indivíduo e sua comunidade”.
7. https://practicasyexperienciasdecuidadosm.udc.edu.ar/

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Abaixo citamos algumas experiências compartilhadas no site da RIPEC que ilustram


o que foi exposto até aqui. Os agravos provocados pela pandemia são mitigados através
da oferta destas ações:

• “Dale una Mano a tu Hermano”. Asociación sin Fines de Lucro. Costa Rica.

• “Sujetos de Derecho: Nunca más de tratamiento, rehabilitación ni menos de caridad“.


Área de salud COMUDEF / Cooperativa Inclusiva Resistiré. Chile.

• “Atención psicosocial a víctimas de tortura exiliadas en Costa Rica”. Colectivo de


derechos humanos Nicaragua Nunca+, Costa Rica.

• “Sosteniendo la red en tiempos de pandemia”. Centro Comunitario Libremente, Programa


de Rehabilitación y Externación Asistida (Prea), Argentina.

• “Campanha do Caps Tauá pela prevenção e redução dos agravos psicossociais


decorrentes da pandemia de Covid 19”. Caps Tauá, Brasil.

• “Acompañamiento y atención en Cali a víctimas del conflicto armado del Suroccidente


colombiano desde los territorios”. SOLIVIDA, Colombia.

• “Prácticas de cuidados comunitarias y diálogos con lo psicosocial más allá de la


pandemia“. Equipo de estudios comunitarios y acción psicosocial. Guatemala.

• “Comunicación y Salud Mental: experiencias en contexto Covid-19”. De-mentes. Perú.

• “El Horno esta para bollos” Dirección de Salud Mental, Ministerio de Salud. Argentina

• “Intervenciones psicológicas en el marco de la emergencia sanitaria”. Universidad de la


República. Uruguay.

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PSICOLOGIA LATINOAMERICANA 94

É interessante destacar que estas ações acontecem por iniciativa dos profissionais
que atuam nas instituições e não através do interesse ou direcionamento governamental
para estas intervenções.

A sen si bi li da de, o s en s o de coletivo, a lu ta p or d ig nid a d e, a s s im c om o


a i n s tru m en tali z aç ão técnica oriunda das pesquisas e estudos ao longo dos anos
permitem que aqueles que estão sujeitos a sofrer um impacto maior em sua saúde
mental por conta de sua vulnerabilidade estão sendo acolhidos e cuidados,
recebendo a oferta de um sentimento de pertencimento que gera o conforto psíquico
tão necessário neste momento de crise. Ao mesmo tempo os cuidadores, profissionais
das instituições, ao se encontrarem nesta rede percebem o quanto são próximos,
tanto na constituição histórica negativa, mas também na resistência, na militância
e na união que busca promover saúde, bem-estar e cuidado às pessoas, assim como
nas apostas em sonhos, em pessoas, na vida e na felicidade.

A larga noite de mais de 500 anos ainda permanece em toda América Latina.
Denúncias de violações de diretos, censura, desmonte de políticas públicas,
desinvestimento na saúde e educação e outras atrocidades que vivemos em nosso
país atualmente, também são vividos por nossos vizinhos, em alguns casos até com
mais intensidade. A ferramenta que possuímos enquanto psicólogos é fundamental
nesse momento: cuidar da saúde mental das pessoas, para instigar transformações,
promover mudanças e, assim, poder atravessar esse deserto com leveza.

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CIÊNCIA: PESQUISA
EM PSICOLOGIA
CIÊNCIA: PESQUISA EM PSICOLOGIA 96

Negritude, infância
e gênero: a infância
da menina negra,
uma visão para uma
psicologia antirracista

Denise Barrozo de Paula1

“É preciso imagem para recuperar a identidade,


tem que tornar-se visível, porque o rosto de um é o reflexo do outro,
o corpo de um é o reflexo do outro e em cada um o reflexo de todos os corpos.
A invisibilidade está na raiz da perda da identidade.”

(NASCIMENTO, Beatriz)

Consideramos a infância um período crucial no desenvolvimento do indivíduo, na medida em


que é a fase na qual as primeiras relações são estabelecidas, marcando o começo do desenvolvimento
de uma identidade. Sendo desenvolvida com a família e nas vivências sociais. É justamente
na interação social que a criança observa suas semelhanças e diferenças entre ela e seu grupo.

A escola é um dos espaços que propicia o desenvolvimento da identidade: um espaço


sociocultural de crucial importância para esta dinâmica. Dentro de uma escola que não ocorre
a valorização da alteridade, existe a ausência da representatividade positiva do outro. Afinal, a escola
1. Estudante de Psicologia do oitavo período na USCS - Universidade Municipal de São Caetano do Sul. Teve seu trabalho premiado
no IX Congresso de Iniciações Científicas da Universidade Federal do ABC, primeiro lugar no eixo de humanidades com a pesquisa
“Representações, sentidos e valores da menina negra na literatura infanto-juvenil: um estudo a partir da obra a cor da ternura
de Geni Guimarães”. Se dedica a projetos e pesquisas que envolvam saúde mental, gênero, raça, infância e violência de gênero.
Atualmente coordena o coletivo de Psicologia Antirracista do IP.abc e é membra do coletivo negro, Alaye, na USCS.

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CIÊNCIA: PESQUISA EM PSICOLOGIA 97

também interioriza, produz e reproduz o sinônimo de que ser branco é ser belo e ser aceito
socialmente, enquanto as diversas manifestações culturais não possuem o mesmo espaço.

As crianças por participarem desse modelo de educação também incorporam valores


que interferem diretamente nos comportamentos que geram conflitos de segregação, exclusão,
preconceito e isolamentos que levam a solidão da criança negra. No caso da menina negra, temos
uma intersecção entre gênero e raça, que geram uma dupla opressão da sociedade brasileira.
É possível perceber que os padrões de dominação masculina têm contribuído para a reprodução
de estereótipos, marginalização das mulheres e na determinação das formas de estar e ser
mulheres. Os modelos tradicionais tendem a colocar as mulheres nos papéis de frágeis, emocionais,
inferiores e submissas enquanto os homens são vistos como fortes, viris e racionais (LOPES, 2012).

A partir do momento que a criança assimila em seu mundo simbólico valores,


crenças, comportamentos e falas estigmatizadas, favorece-se a crença de que a criança
pertence a um grupo denominado como fracassado, formado por um grupo de pessoas
que possuem características inferiores e desqualificadoras, no caso pessoas que possuem
feições e características fenotípicas negras, muito similares a realidade do corpo da criança
negra, a sua trajetória familiar e étnica. Em meio disso, a criança negra pode acabar
criando uma “máscara branca”, em que o negro para se enquadrar tenta se incorporar
à cultura branca, como Fanon (1983) descreve em sua obra Peles negras, máscaras brancas.

Se há uma discrepância entre a imagem real da criança e a imagem virtual por


conta dos comentários externos e do que sociedade dita que seja o ideal, como pensar sua
condição no campo de debates na saúde mental? A política de saúde integral da população
negra e o Ministério da Saúde reconhecem que o racismo e a discriminação interferem
diretamente na saúde mental. Sendo assim, o exterior tem plena influência em como essa
criança irá lidar com o mundo interno, e vice-versa. Portanto, o entorno social da criança e a
maneira como este ambiente interage com os recursos psicológicos e atitudes de adaptação,
vão influenciar na determinação de sua situação de saúde física e mental (SILVA, 2005).

O experimento doll test exemplifica os efeitos dos estereótipos nas crianças. Durante o
experimento crianças brancas e negras escolhem entre duas bonecas e atribuem definições
de boa, de má, de bonita e de feia, assim como indicam qual das bonecas se identificam
mais. Observa-se que as próprias crianças negras consideram que bonecas negras são
mais feias e más mesmo se achando parecidas com elas (MUNANGA, 2008). Esse estudo
destaca como negros tem encontrado dificuldades na formação de uma identidade
positiva, afinal ao se deparar com um padrão de beleza branco o negro passa a embarcar

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CIÊNCIA: PESQUISA EM PSICOLOGIA 98

em uma violência que o obriga a encarnar o corpo e os valores de um ideal branco


que não conduz com a sua realidade, passando a anular e rejeitar a presença de um
corpo negro. Diante do que foi exposta, a criança negra, com seu cabelo crespo, sua cor
escura e seu nariz largo, vê seu corpo diferente. A falta de representação ao seu redor nos
diversos meios sociais faz com que a menina negra perceba que seu corpo é diferente dos
outros e repudie seus próprios traços, influenciando em sua autoestima e autoimagem.

Ao se deparar com um corpo diferente do que a sociedade espera, instala-se


um sentimento de inferioridade, causando constrangimento em relação as pessoas
ao seu redor, desencadeando processos desorganizadores de comportamentos
e emoções e favorecendo o aparecimento de comportamentos de isolamento, timidez
ou agressividade. Silva (2005), comenta que os negros por estarem expostos a uma
dinâmica muito complexa, na qual se sentem ora perseguidos, ora perseguidores,
vivem em um estado de tensão emocional permanente, de angústia e de ansiedade, o que
os inquieta e os faz sentir culpa. Essa situação pode culminar em diversos transtornos
físicos e psíquicos tais como: taquicardia, ansiedade, transtorno de pânico, depressão,
ataques de raiva violenta, alcoolismo, hipertensão, úlcera gástrica, entre outros.

No Brasil não existem dados precisos sobre a prevalência de transtornos mentais


na população negra, e isso se deve a dois fatores: a ausência por parte dos profissionais no quesito
de cor na ficha dos usuários e quando ocorre a coleta desses dados eles não são tratados
pelo Ministério da Saúde através do DATASUS, plataforma onde se encontram disponíveis
todos os dados do SUS. Fato este que interfere diretamente no alinhamento de pesquisas e
medidas eficazes nas vulnerabilidades da população negra, especialmente se pensarmos em
como gênero, cor e faixa etária podem indicar dados importantes na saúde da população.

Um estudo realizado nos Estados Unidos entrevistou 325 adultos de diferentes


etnias, níveis de formação e regiões diferentes, chegando na conclusão de que a maioria
dessas pessoas acreditavam que as meninas negras são menos inocentes, precisam de menos
proteção e cuidado, são mais independentes e sabem mais sobre sexo do que meninas
brancas (EPSTEIN et al, 2017). A influência da combinação entre racismo e sexismo
culminaram na construção de estereótipos sobres as mulheres negras, principalmente no campo
da hiperssexualização. Esses estereótipos se dissolveram no imaginário coletivo e geram
cobranças e expectativas transportas no corpo da mulher negra e consequentemente
na menina negra. Tal distorção pode influenciar diretamente no desenvolvimento infantil,
em suas características, personalidade e suas relações intra e interpessoais com a sociedade.

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CIÊNCIA: PESQUISA EM PSICOLOGIA 99

Em relação ao olhar na temática infantil, por muito tempo foi invisibilizado,


poucas pesquisas focavam na temática da infância, antes não se existia um olhar
especializado na criança, que era enxergada apenas como miniatura do adulto.
Com as modificações da sociedade diversos estudos visaram focar na infância
percebendo-se a importância deste período no desenvolvimento do indivíduo.
De fato, a psicologia desenvolveu grandes teorias que proporcionaram uma visão mais
abrangente do desenvolvimento da infância. Porém, quando nos questionamos quais
crianças são investigadas nessas pesquisas, apenas um tipo de infância foi abordado, as múltiplas
infâncias existentes são apagadas diante dessas teorizações. Hegemonicamente a Psicologia
ainda tende a pensar que o fenômeno psicológico é um fenômeno natural e universal
de todos os humanos e que podemos aplicar qualquer teoria psicológica em qualquer
ser humano. O pensamento liberal fundamentado nas teorias acaba criando a ideia
de que todos são iguais e que todos são dotados de potencialidades iguais permitindo
que a Psicologia possa aplicar a mesma técnica para todo o mundo (BOCK, 2010).

A Psicologia constantemente se fundamenta em um único tipo de criança: homem-


branco-burguês-ocidental. Os estudos, em sua maioria, são feitos a partir da aplicação
de experimentos e observações dessas crianças, não se buscando outros grupos para
completar os estudos e obter novas informações. A infância é tomada como universal
e natural com base em características de crianças que nada há de comum com a menina
negra que está presente nesta pesquisa (SANTOS, 1996). A questão de gênero e raça
passam a ser invisibilizadas pela Psicologia, principalmente pela Psicologia Brasileira que
ao importar teorias europeias e americanas esquecem das particularidades presentes
no cenário brasileiro. Se afinal 54% da população brasileira se declara como negra, como
questões tão particulares podem ser compreendidas da mesma forma que as europeias?

Assim, as diversas formas de manifestações psicológicas presentes em populações


africanas e indígenas, que geralmente são populações de baixa renda e de pouco acesso
a serviços gerais e de saúde, podem ser vistas como patológicas, e as expressividades
dos comportamentos podem ser vistos como inadequadas ao se diferenciarem de
comportamentos padrões as crianças escolhidas como universais (FERREIRA, 2015).

Os aspectos sócio-históricos da criança negra ainda parecem apagados,


quando não embranquecidos. Somente nos últimos dez anos começamos a observar
guinadas importantes vindas tanto da academia – certamente influenciadas pelos
legados dos pesquisadores acima mencionados – quanto dos nossos próprios

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CIÊNCIA: PESQUISA EM PSICOLOGIA 100

órgãos reguladores e representativos, como o Conselho Federal e os Regionais


de Psicologia. Contudo, ainda assim, o ensino do desenvolvimento infantil
ainda não contempla satisfatoriamente tal ponto, como Bock (2010) comenta:
Há muita coisa escondida por detrás de nossos conceitos, porque ainda não
fomos capazes de dar visibilidade, de enxergar com clareza que,
em nossos conceitos, em nossas técnicas, está embutido um padrão de
branco, masculino, europeu, e que, nas nossas teorias de desenvolvimento, ainda
estamos presos a conceitos e construções que têm como modelo crianças
americanas ou suíças (BOCK, 2010, p.252).

Mas apesar das crescentes pesquisas voltadas a raça, a reflexão teórica sobre os processos
de exclusão racial na construção da identidade das meninas negras no Brasil ainda é escassa.
Historicamente a questão do racismo na psicologia vem sido tratada de forma intrapessoal,
ignorando que o racismo se trata de um processo interpessoal e determinado por uma
construção sócio-histórica.

Refletindo sobre esses pontos faz-se necessário pensar em uma psicologia crítica
e antirracista tanto quanto profissão quanto ciência, ainda que o código de ética
explicita o dever da profissão em ser contra todas as formas de discriminação e violência
e valorização de uma ética pautada nos Direitos Humanos. Porém, ainda existe uma
formação com um grande déficit de aprendizado em relação ao tema, o que valorizamos
e o que deixamos de valorizar enquanto categoria profissional e enquanto sociedade.

Referências
BOCK, Ana. “A Psicologia no Brasil”. Psicol. cienc. prof., Brasília, v. 30, n. spe, p. 246271, Dez. 2010.

EPSTEIN, Rebecca; BLAKE, Jamilia J.; GONZÁLES, Thalia. Girlhood Interrupted: The Erasure of Black Girls’ Childhood.
Georgetown Law Center on Poverty and Inequality, 2016.

FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas.: Salvador: Ed. UFBA, 2008.

FRANÇA, Dalila. Discriminação de crianças negras na escola. Sergipe, n.45, p.151-171, 2017.

FERREIRA, Amanda Crispim. Recordar é preciso: Considerações sobre a figura do Griot e a importância de suas
narrativas na formação da memória coletiva afro-brasileira. Revista em Tese, Belo Horizonte, v. 18, n. 2,
p. 141-155, 2012.

LOPES, Jussara de Cassia. A vivência do racismo e do sexismo na infância e na adolescência e a construção da


identidade das meninas negras, João pessoa, 2012

MUNANGA, Kabengele Rediscutindo a Mestiçagem no Brasil: Identidade Nacional Versus Identidade Negra. 3. ed.
Belo Horizonte: Autêntica, 2008.

SANTOS, Benedito Rodrigues dos. Emergência da concepção moderna de infância e adolescência: mapeamento,
documentação e reflexão sobre as principais teorias. Dissertação de mestrado, Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo, São Paulo, 1996.

SILVA, Maria Lucia da. Racismo e os efeitos na saúde mental. In: L. E. Batista, S. Kalckmann (Orgs.), Seminário
saúde da população negra do Estado de São Paulo 2004 (pp. 129-132). São Paulo, SP: Instituto de Saúde, 2005

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ENTIDADES PSI
ENTIDADES PSI 102

ABRAPEE:
30 anos em ação!
Tamiris Lopes Ferreira1

“Não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros. Estão taciturnos mas nutrem
grandes esperanças. Entre eles, considero a enorme realidade. O presente é tão
grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.”

(Carlos Drummond de Andrade)

Em 2020 a Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional (ABRAPEE)


está completando 30 anos de existência. São três décadas incentivando o crescimento da ciência
e da profissão de psicóloga(o) escolar e educacional, como um meio de promover
o desenvolvimento humano, enfocando para isso o processo educacional no seu sentido
mais amplo, acompanhando ativa e continuamente as políticas públicas em educação para
que esse direito inalienável à educação de qualidade para todos e todas seja observado.

Iniciamos nosso texto com a preciosa poesia de Drummond com o intuito de registrar
a essência de coletividade e parceria que marca a história da ABRAPEE desde sua constituição,
1. Psicóloga, mestranda de Psicologia pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e secretária administrativa da
Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional (ABRAPEE).

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ENTIDADES PSI 103

relembrando que, conforme apontado nos relatos das colegas fundadoras, buscava-se com a
criação da ABRAPEE a construção não somente de um espaço político, mas também
de um espaço de congregação dos profissionais da área de Psicologia Escolar e Educacional.

Ao longo desses 30 anos de história, a ABRAPEE tem caminhado através da ação


e da parceria de muitas mãos. São 16 gestões de Diretoria e Conselho Fiscal, apoiadas por 7
Representações Estaduais (Goiás, Minas Gerais, Paraná, Piauí, Rio Grande do Sul, Rondônia
e São Paulo), presentes em todas as regiões de nosso país e que, por sua vez, contam com inúmeros
profissionais, pesquisadores, docentes e estudantes que atuam no campo da psicologia escolar,
produzindo conhecimentos, posicionando-se na defesa e garantia de uma educação integral
e emancipadora e auxiliando-nos na realização dos encontros regionais e congressos nacionais,
além de uma participação ativa no processo eleitoral da entidade, que ocorre bianualmente.

O surgimento da ABRAPEE se dá a partir de um contexto de intensas transformações em


nosso país, porém, vale destacar que o enlace entre a Psicologia e a Educação já se fazia presente
antes mesmo da regulamentação da profissão de psicólogo no Brasil, no ano de 1962. Em
entrevista publicada pela Revista Ciência e Profissão, em 1992, Antônio Marcos Chaves
(Presidente do Conselho Federal de Psicologia no período da publicação) destacou que nos
períodos anteriores à regulamentação, “a Psicologia era exercida principalmente por médicos
e profissionais ligados à educação.” (p.4). Ainda a partir dessa entrevista, relembramos que os
primeiros anos após a regulamentação foram marcados por importantes movimentos na busca por
espaços de atuação das psicólogas(os), contudo, a partir do golpe militar, em 1964, os impedimentos
e empasses vivenciados no período do regime também atravessaram o campo da Psicologia.

Foi então a partir da década de 70 e na passagem para os anos 80, em meio a intensidade
da transição democrática, que muitos psicólogos e psicólogas, engajados(as) na luta contra a ditadura
militar, repensaram sobre o seu papel no processo de reconstrução civil brasileira. Neste mesmo
período surgiu em nosso país, um importante movimento de crítica a uma Psicologia escolar
conservadora e tradicional, buscando o rompimento com o modelo médico, patologizante
e psicometrista. Tal movimento foi marcado por trabalhos de importantes pesquisadores,
como por exemplo os estudos de Maria Helena Souza Patto, denunciando uma Psicologia
que, historicamente, contribuía para um projeto de Educação excludente e discriminatório.

Neste contexto, no final dos anos 80, um grupo de psicólogas(os) e pesquisadoras(es),


reunidas(os) em uma mesa-redonda da Reunião Anual da Sociedade Brasileira de
Psicologia de Ribeirão Preto (atualmente Sociedade Brasileira de Psicologia – SBP),

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ENTIDADES PSI 104

construíram as primeiras ideias para a constituição de uma entidade que, naquele


momento, significava a consolidação de um crescente envolvimento de profissionais com a
área Escolar e Educacional, representado pelo aumento da produção científica específica
e a participação dos pesquisadores em congressos, produzindo e apresentando
diversas pesquisas pautadas no campo da Psicologia e da Educação.

Foi então, ao encontro dos movimentos para a construção de uma nova Psicologia,
comprometida com a transformação social, que no dia 26 de junho de 1990, reuniu-se em
Campinas/SP um grupo de psicólogas com a finalidade de fundarem a Associação Brasileira
de Psicologia Escolar e Educacional (ABRAPEE). Neste dia, foi discutido e aprovado o seu
Estatuto e, ainda eleita, em caráter provisório, a primeira Diretoria e Conselho Fiscal da entidade.

Desde o início, cabe ressaltar que a ABRAPEE tem organizado suas


gestões com base no modelo apresentado no Estatuto da International School
Psychology Association (ISPA), em que os grupos de Diretoria são formados
por 3 Presidentes (Anterior, Atual e Eleita), 2 Secretárias e 2 Tesoureiras. Tal
formato tem garantido a continuidade das políticas e das ações pautadas pela
entidade e a manutenção de sua história ao longo de seus 30 anos de trabalho.

Neste caminho de importantes parcerias, ações e conquistas, consideramos


que nossos esforços têm se direcionado para dois importantes caminhos: o científico e
o político. No campo científico, temos buscado difundir os conhecimentos produzidos
no campo da Pós-Graduação no Brasil, ampliando as discussões das políticas públicas
em Educação e divulgando as práticas dos psicólogos e psicólogas que atuam no campo
da Psicologia Escolar e Educacional. Essa difusão de conhecimentos ocorre através de
diversas frentes. Uma delas é a Revista Psicologia Escolar e Educacional (PEE), que nos
últimos 24 anos tem ocupado um importante espaço na produção científica da área e
que, atualmente, possui Qualis A1, a maior classificação existente no Sistema Qualis,
elaborado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).

Além da Revista PEE, caminhamos para a organização da 15ª edição do Congresso


Nacional de Psicologia Escolar e Educacional (CONPE), que em decorrência da situação
de Pandemia ocasionada pelo Coronavírus, tem previsão de ocorrer no ano de 2022.
Em todas as edições dos congressos, bem como nos Encontros Regionais, organizados pelas
Representações Estaduais, temos percebido não somente a construção de um espaço de trocas
e experiências profissionais e acadêmicas, através das apresentações de trabalhos, conferências
e simpósios, como também um momento de fortalecimento das parcerias de afeto e amizade.

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ENTIDADES PSI 105

Já no campo político, a ABRAPEE tem se articulado e se posicionado frente


aos projetos de lei no campo da Psicologia e da Educação nos diferentes âmbitos,
defendendo uma Educação integral, humana e de qualidade para todos e todas. Sua principal
ação, neste campo, tem sido a luta pela inserção das(os) psicólogas(s) na Educação
Básica. Após 19 anos de tramitação do Projeto de Lei nº 3688/2000, tivemos em 11 de
dezembro de 2019, a aprovação da Lei nº 13.935/2019, que dispõe sobre a prestação
de serviços de psicologia e de serviço social nas redes públicas de educação básica.

A partir da aprovação da Lei, a ABRAPEE, juntamente com o Conselho


Federal de Psicologia (CFP), o Conselho Federal de Serviço Social (CFESS), a
Federação Nacional dos Psicólogos (FENAPSI), a Associação Brasileira de Ensino de
Psicologia (ABEP) e a Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social
(ABPESS), têm construído alguns materiais e documentos de apoio, como também
têm promovido importantes espaços de discussão a fim de subsidiar e orientar
os profissionais e os sistemas educacionais da federação, estados e municípios.

Baseando-se nos marcos legais e documentos referentes aos campos da Psicologia,


Serviço Social, Educação e Direitos Humanos, temos apontado algumas contribuições
no que se refere às atribuições dos profissionais da Psicologia e do Serviço Social nas
redes públicas de Educação Básica, além de tecermos importantes recomendações
sobre a formação, o processo seletivo e as condições de trabalho desses profissionais.

Dentre nossas considerações, entendemos que a presença da(o) Psicóloga(o) na Educação


pode, contribuir para assegurar o direito de acesso e de permanência na escola, pois conforme
aponta Saviani (2003), a escola tem como finalidade a socialização dos conhecimentos
socialmente produzidos, visando o processo de humanização e emancipação humana.
Compreendemos também que nossa atuação no processo de ensino-aprendizagem é uma
atuação política, pois trabalhamos em defesa das crianças, adolescentes, familiares e de toda a
comunidade, considerando sobretudo a importância dessas parcerias na formulação de projetos
e ações coletivas. Outro ponto relevante na atuação da(o) psicóloga(o) na Educação Básica está
relacionado ao trabalho de valorização dos professores e profissionais que atuam na escola,
especialmente no rompimento dos processos de patologização e medicalização do adoecimento
docente, resultante das condições precárias de trabalho em que se encontram a maior parte dos
profissionais da educação em nosso país, especialmente no contexto da Pandemia de Coronavírus.

Destacamos ainda que, entre as diversas frentes de trabalho para a implementação da Lei,
no último mês de agosto, tivemos a aprovação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da

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ENTIDADES PSI 106

Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (FUNDEB), garantindo


os recursos para a manutenção e ampliação da educação básica brasileira e contribuindo
para o processo de implementação da Lei nº13.935/2019, já que, desta forma,
estados e municípios poderão pagar as(os) profissionais da Psicologia e do Serviço
Social com a verba destinada ao pagamento de profissionais da educação básica.

A aprovação da Lei nº13.935/2019 representa uma conquista histórica


para a ABRAPEE, para a Psicologia brasileira e para todas e todos aqueles
que lutam por uma Educação de qualidade, visando a promoção dos
processos de ensino-aprendizagem e o desenvolvimento integral dos sujeitos
em uma perspectiva inclusiva, rompendo com uma prática individualizante
e patologizante, buscando, sobretudo, a promoção da emancipação humana.

Neste processo, aproveitamos para reafirmar a importância de nossas parcerias


e estendemos nossos agradecimentos pelas conexões e redes de trabalho construídas
entre a ABRAPEE, as entidades da psicologia e outras entidades voltadas para o
desenvolvimento científico, tecnológico, educacional e cultural do Brasil e do mundo.

Através da participação e representação junto a entidades como a International


School Psychology Association (ISPA), o Fórum de Entidades Nacionais da Psicologia
Brasileira (FENPB), a Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência (SBPC), o Fórum
sobre Medicalização da Educação e da Sociedade, o Fórum Municipal de Educação de São
Paulo (FME), o Fórum de Ciências Humanas, Sociais, Sociais Aplicadas, Línguas, Letras
e Artes (FCHSSALLA), o Sindicato dos Psicólogos do Estado de São Paulo (SINPSI/SP),
a Associação Brasileira de Ensino de PsIcologia (ABEP), a União Latino-Americana de
Entidades de Psicologia (ULAPSI), o Grupo Interinstitucional Queixa Escolar (GIQE),
o Sistema Conselhos de Psicologia, entre outros importantes coletivos, temos trabalhado
ativamente na defesa pela Educação e pela Ciência, entendendo que este deve ser o principal,
se não o único caminho viável para o enfrentamento dos problemas existentes na sociedade.

Comemoramos os 30 anos da ABRAPEE em um ano marcado por grandes desafios,


decorrentes especialmente pela gravidade da situação gerada pela Pandemia de
Coronavírus. Com a suspensão dos eventos e encontros presenciais, temos insistido e nos
lançado zaos desafios de mantermo-nos unidas(os) através das telas e máscaras. Com o
apoio de nossos parceiros, temos fortalecido nossas redes de comunicação, construindo
textos, documentos e vídeos, celebrado nossas conquistas e, por meio de encontros online,
contribuído para o diálogo das temáticas que nos atravessam neste momento, como o apoio

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ENTIDADES PSI 107

ao adiamento do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), o debate sobre o retorno as aulas
presenciais na Educação Básica, o uso das Tecnologias da Informação nos sistemas de ensino,
entre outros assuntos, fortalecendo o compromisso social para com a Psicologia e a Educação.

Ao alcançar seus 30 anos, a ABRAPEE revela a força de uma área de atuação e de um


campo de conhecimento, marcando a sua maturidade através de um trabalho construído
a partir da luta por uma atuação da Psicologia Escolar crítica, comprometida com a
transformação social, por uma sociedade justa, igualitária e radicalmente democrática.

Brindamos a ABRAPEE agradecendo imensamente a parceria da Revista Psicologia


em Movimento, que tem se tornado um espaço de trocas, experiências e afetos, bem como um
importante veículo de produção de conhecimentos da ciência psicológica nos seus mais diversos
campos de atuação, reafirmando o compromisso ético-político de nossa profissão, e fortalecendo as
lutas em defesa dos direitos humanos de forma aguerrida, respeitosa e afetuosa. Viva a ABRAPEE!

Referências

30 anos de regular. Psicol. cienc. prof. , Brasília, v. 12, n. 2, pág. 4-9, 1992. Disponível em
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98931992000200002&lng=en
&nrm=iso>. acesso em 12 de setembro de 2020. http://dx.doi.org/10.1590/S1414-98931992000200002.

SAVIANI, Dermeval. Pedagogia histórico-crítica: primeiras aproximações. 8ª ed. Campinas, SP: Autores associados, 2003.

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ESTUDANTES
ESTUDANTES 109

Desafios da
Formação no Contexto
da Pandemia do COVID 19 -
a convocação da práxis
na categoria estudantil

Julia Thomazetti Paes Barreto1

Em dezembro de 2019 a cidade de Wuhan, na China, notificou os primeiros


casos de uma particular pneumonia em moradores da cidade, anunciando o que foi
compreendida como a mutação do vírus SARS-CoV-2, o Novo Coronavírus. Noticiários
mundiais informavam a rápida contaminação do vírus em diversos países da Europa e Ásia.
Em 26 de Fevereiro de 2020 o Brasil registrou seus primeiros casos de contaminação de recém
chegados no país (SANAR, 2020). Ao completar um mês desde a primeira notificação, o Governo
do Estado de São Paulo decretou quarentena em todas as cidades do Estado (ALESSI, 2020).

Numa evolução exponencial da doença, o discurso negacionista do atual Presidente


da República nos levou ao pior cenário que poderíamos imaginar. Em 8 de Agosto
registrou-se 100.000 óbitos decorrentes à doença e o marco de 85 dias sem Ministro Titular
da Saúde. Seriam estes números confiáveis? São ao menos cento e doze mil quatrocentos
e vinte e três vidas – escrevo os números atualizados em 20 de Agosto por extenso, é
necessário (G1, 2020). Como estão os que vivem, em quais condições nos encontramos?
Quantes psicólogues são necessáries para o devido acolhimento de uma nação em luto?
1. Estudante do 8º semestre de Psicologia da Universidade Metodista de São Paulo, estagiária do CRP Subsede Grande ABC, secretária
da Comissão Gestora do Núcleo ABEP | Grande ABC e membra do Coletivo de Estudantes ABEP | Grande ABC.

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ESTUDANTES 110

O medo de contaminação não é a única angústia comum entre a população, o luto do


trabalho, da fome, da moradia, dos planos e sonhos é mais palpável que o inimigo invisível, uma
agenda de governo omissa e mal intencionada dá conta da aceleração de um genocídio premeditado.

Por debaixo dos panos, “passa-se a boiada”, governadores realizam compras


fraudulentas de ventiladores pulmonares, comunidades inteiras são despejadas em ações de
reintegração de posse e noticia-se a previsão de corte de investimentos em R$ 4,2 bilhões
na educação (OLIVEIRA, 2020). Países fervilham em manifestações contra a necropolítica
que assassinou George Floyd – os brasileiros também estão em chamas. Os nomes de nossas
crianças assassinadas pela polícia e pela sinhazinha ecoam em manifestações. Entregadores,
torcedores e coletivos negros marcham contra o fascismo (JIMÉNEZ; ARROYO; RUPP, 2020).

De volta à educação, sob pressão potente dos movimento sociais e da oposição, o ENEM
é adiado numa tentativa de contenção de uma política que visava a exclusão da maior parte
des alunes brasileires, baseando sua defesa em slogans que diziam que “a vida não pode parar”
– a pressão popular demonstrou que diversas vidas foram e continuam sendo interrompidas
devido às ideologias como essa disseminada em veículos midiáticos nacionais (BBC, 2020).

Quanto às Universidades, o Ministério da Educação lança a Portaria


Nº 544 de 16 de Junho de 2020, o qual dispõe possibilidade para realização
de práticas de estágio remotas para todos os cursos de Ensino Superior.

Assim como todas demais instituições, a formação em Psicologia precisou voltar-


se para um processo de reflexão coletiva sobre as necessidades e possibilidades de atuação
neste período inédito vivenciado. Mediante o conteúdo contido na portaria supracitada, o
Conselho Federal de Psicologia e a Associação Brasileira do Ensino da Psicologia iniciam
um árduo trabalho para elaboração de diretrizes que garantam um serviço de formação
embasada nos valores éticos do compromisso social da Psicologia. Para tanto, ocorreu
uma série de eventos denominados Seminários Regionais de Formação em Psicologia no
Contexto da Pandemia do Covid 19 em articulação dos Conselhos Regionais de Psicologia
inscritos no Sistema Conselhos (CONSELHO REGIONAL DE PSICOLOGIA SP, 2020)

Compreendendo o fundamental papel da Psicologia para a saúde da sociedade e de


suas gentes, a formação ganha novos contornos que escancaram ainda mais a necessidade
de análise crítica do contexto sócio-econômico-político atual. Sob as sombras tenebrosas
de uma crise mundial sanitária revela-se os traços mais cruéis da desigualdade, onde as
opressões de raça, gênero e classe delimitam, hoje tanto quanto, quem vive e quem morre.

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ESTUDANTES 111

É dentro deste cenário que pautam-se os principais desafios. Sob a urgência de medidas
efetivas, a construção lenta e primordial dos diálogos democráticos torna-se cada vez mais
acelerada e virtual – os nomes sem rostos ganham força para proferir ideologias de ganhos
subjetivos, mesmo que para isso revele-se a necessidade de negação de direitos da maioria.

Os desafios enfrentados por este contexto são inúmeros e amplamente discutidos neste período,
por este motivo viso, por meio deste artigo, um breve recorte reflexivo e subjetivo sobre a necessária
contribuição da categoria estudantil na construção de um debate democrático sobre a formação.

A formação em Psicologia se vê em risco. Esta não é uma novidade. A agenda de desmonte


da educação básica e da formação profissional e científica vem cumprindo de maneira efetiva
sua proposta para muito antes do que nossa memória virtual momentânea é capaz de narrar.

A previsão ardilosa de um projeto de ensino totalmente a distância de cursos vinculados


à área da saúde, entendida como distópica para alguns, é realidade que bate em nossa porta
desde 2016 sob o anúncio de intensão do Ministério da Educação. Uma linha de frente
impercebível e onipresente aos olhos menos atentos, formada pelas entidades de defesa da
Psicologia como ciência e profissão, cria um verdadeiro escudo de proteção e invisibilidade
desta trincheira para a maioria des estudantes. Todavia, os efeitos são sentidos de maneira
lenta e gradual, as consequências são compreendidas com a confusão sintomática e necessária
num projeto que conta com alienação como garantia de silenciamento. Os próprios interesses
mercantis cada vez mais presentes na esfera da Psicologia garantem a fórmula quase
perfeita para o sucateamento do ensino. A defesa do compromisso ético-político e científico
ganha novos desafios nesta luta incessante promovida pelo sistema econômico neoliberal.

Compreendo que, sem o diálogo com aqueles que ingressam esperançosos


na Psicologia, torna-se impossível vencer. Hoje em 2020, a própria configuração
limitante - necessária para segurança de toda sociedade -, fornece uma aproximação
do horizonte paradoxalmente ingrata ao conceito da utopia de Eduardo Galeano2.

Nem mesmo o olhar crítico e atento de quem sempre pautou a militância seria
capaz de prever todos os impactos gerados, e é neste momento que a categoria estudantil
é convocada, num rompante, a pautar-se por si todos os diversos temas que precisam
ser abarcados neste debate. Os resultados desta troca no espaço de Seminário Formação
em Psicologia no Contexto da Pandemia da COVID 19 nos demonstram a potente e
crítica contribuição daqueles que chegam. Ao questionarmos as possibilidades de uma
2. Galeano, Eduardo.‘Las palabras andantes?’ Siglo XXI, 1994.

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ESTUDANTES 112

formação e atuação em estágios obrigatórios em sistema EAD, o compromisso inadiável


de uma Psicologia que não corrobore para o acirramento das desigualdades e a defesa
por uma formação não elitista entoou-se o questionamento “Psicologia para quem?”

Percebo, neste contexto, a fundamental consonância entre a teoria política perpassada


pela imposição prática. O contexto aqui apresentado comprova a necessidade da práxis.
Conforme descrito por Paulo Freire² “a práxis, porém, é reflexão e ação dos homens sobre
o mundo para transformá-lo”. A cara lição do atual cenário nos fornece percepção da
importância do engajamento e articulações coletivas do movimento estudantil, nos convoca
a esta emancipação dos braços maternais des coordenadores e professores para uma
contribuição pujante que aqui existe, precisamos fazer juntes! Que possamos promover novos
espaços e articulações, que estes sejam ocupados na luta por uma Psicologia democrática,
plural, antirracista, anticapacitista e antiCIStêmica para além da fala. Que compreendamos,
de uma vez por todas, que a Psicologia em Movimento surge numa Formação em Movimento.

Referências
ALESSI, G. Com 15 mortos por coronavírus, Governo de São Paulo decreta quarentena a partir de terça-feira.
El País, 2020a. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2020-03-21/com-15-mortos-por-coronavirus-
governo-de-sao-paulo-decreta-quarentena-a-partir-de-terca-feira.html. Acesso em: 11 ago 2020.

________. Salles vê “oportunidade” com coronavírus para “passar de boiada” desregulação da proteção ao meio
ambiente. EL PAÍS BRASIL, 2020b. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2020-05-22/salles-ve-
oportunidade-com-coronavirus-para-passar-de-boiada-desregulacao-da-protecao-ao-meio-ambiente.
html. Acesso em: 20 ago 2020.

BBC. Enem: adiado por causa da pandemia, exame será realizado em Janeiro. BBC, 2020. Disponível em: https://
www.bbc.com/portuguese/brasil-52748042. Acesso em: 11 ago 2020.

CONSELHO REGIONAL DE PSICOLOGIA SP. Relatório Estadual do Seminário Formação em Psicologia no Contexto da
Pandemia da COVID 10: impactos da Portaria MEC nº 544. São Paulo, 2020. Disponível em: https://www.
crpsp.org/uploads/impresso/21615/_SME9CpKuNzK578L0MaNIRrUctXhUc7W.pdf. Acesso em: 11 ago 2020.

CONSULTOR JURÍDICO. ONU cobra governo brasileiro sobre despejos durante a pandemia. Revista Consultor
Jurídico, 2020. Disponível em: https://www.conjur.com.br/2020-jul-10/onu-cobra-governo-brasileiro-
despejos-durante-pandemia. Acesso em: 11 ago 2020

G1. Brasil registra 1.234 mortes pelo novo coronavírus em 24 horas e passa de 112 mil; são mais de 3,5 milhões de
infectados. Portal G1 Globo, 2020. Disponível em: https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/
noticia/2020/08/20/casos-e-mortes-por-coronavirus-no-brasil-em-20-de-agosto-segundo-consorcio-
de-veiculos-de-imprensa.ghtml. Acesso em: 20 ago 2020.

JIMÉNEZ, C; ARROYO, P; RUPP, I. Atos pela democracia elevam tom contra o racismo no Brasil. EL PAÍS BRASIL,
2020. https://brasil.elpais.com/brasil/2020-06-08/atos-pela-democracia-elevam-tom-contra-o-racismo-
no-brasil.html

OLIVEIRA, E. MEC prevê corte de R$ 4,2 bilhões no orçamento para 2021. G1, 2020. Disponível em: https://g1.globo.
com/educacao/noticia/2020/08/10/orcamento-do-mec-preve-corte-de-r-42-bilhoes-para-2021.ghtml.
Acesso em: 11 ago 2020.

SANAR. Linha do tempo: a evolução do novo coronavírus no Brasil. Sanar, 2020. Disponível em: https://www.
sanarsaude.com/blog/linha-do-tempo-do-coronavirus-no-brasil. Acesso em: 11 ago 2020.

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MOVIMENTOS SOCIAIS
MOVIMENTOS SOCIAIS 114

A necessidade de um
olhar interseccional para
as relações de trabalho e a
emancipação humana.

Heloá Suelem Laurentino Martins1


Ivani Francisco de Oliveira2

Mulheres negras, sempre atuantes na história de resistência negra brasileira,


participaram de diversas organizações fato que possibilitou a sobrevivência das pessoas
negras diante das situações desumanas impostas desde os primórdios da colonização
durante a escravização de africanas e africanos nas américas até os dias atuais. Clóvis
Moura afirmou que observamos o negro se organizando, ao longo de toda a nossa
história social, “procurando um reencontro com as suas origens étnicas ou lutando,
através dessas organizações para não ser destruído social, cultural e biologicamente”.

As autoras deste artigo são militantes da organização negra Kilombagem que procura
desenvolver estudos e ações de combate ao racismo em uma perspectiva de esquerda e feminista.
Realizando atividades ligadas às questões de raça, classe e gênero, estimulando a criação de
grupos de estudos, cursos de formação e ações diversas de intervenção social antirracista por
reconhecerem que a tarefa histórica da organização é a produção e difusão de conhecimento.
1. Socióloga, educadora social, escritora e modista atualmente como educadora social o SESF SETA CAMPINAS coordenadora do
Programa de Educação, Cultura e arte (Ponto território de dos Raios de Oya). Representa o coletivo Kilombagem em redes e fóruns
da sociedade civil que atuam pelo direito educação e saúde pública de qualidade.
2. Psicóloga – CRP 06/121139 - Mestra em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP); Conselheira
Vice Presidenta do CRP SP e integrante da organização negra Kilombagem.

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MOVIMENTOS SOCIAIS 115

Nesta perspectiva, consideram as relações de trabalho


fonte de mudança material e objetiva das condições
de produção da vida. As relações humanas guardam em
seus diversos níveis uma série de complexidade de fatores
que as estruturam. Assim aquelas/es que se debruçam
para analisar tais relações multidimensionais e suas
perspectivas, devem fundamentar suas análises
estrategicamente com objetivo de provocar a reflexão
sobre a importância das categorias estruturantes
e considerando o conceito da interseccionalidade
no contexto atual das interações entre outros meios.

Trazendo a luta pela igualdade de gênero nas questões salariais e trabalhistas. Porém há
que se perguntar de que lutas estamos falando, para que mulheres? Em que contexto social?

Para nos auxiliar e enriquecer o debate posto, é necessário trazer referências


importantes como Angela Davis no que tange a questão interseccional dos pilares
gênero, classe e raça, da problematização do feminismo. Outra abordagem que
também tomará forma são os caminhos encontrados pelas/os que estão a margem para
reagir às opressões e se emancipar das amarras através de uma lógica mercadológica.

O Legado de Angela Davis

Filósofa e professora departamento de estudos feministas da Universidade da Califórnia,


em uma das suas principais obras Mulheres, raça e classe, Davis explícita como é primordial
convergir as esferas gênero, raça e classe para compreender as desigualdades presentes
nas sociedades contemporâneas.

A autora, para construir seu raciocínio, resgata as bases do sistema escravocrata,


onde os negras/os, vistos apenas como unidades de trabalho lucrativo, coisificados,
violentados de todas as formas possíveis, criam formas de resistência e de luta primordiais
para a manutenção da consciência e ancestralidade.

Após a abolição, a reconfiguração das opressões (de classe, sexismo e raça) para a continuidade
da manutenção da hierarquia, legitimando a dominação de classe capitalista pelo homem
branco rico, e colocando na base da pirâmide a mulher negra pobre. Assim, é destinado à estas
o trabalho na agricultura e no serviço doméstico, em uma espécie de manutenção do que elas

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MOVIMENTOS SOCIAIS 116

antes já eram submetidas em tempos de escravidão. As mulheres brancas pobres, destinadas ao


setor fabril, enquanto para as mulheres burguesas tarefa de cumprirem o papel de Esposa e Mãe.

Importante pontuar o quando se ignora, quando falamos de movimento feminista


e luta pelo direito das mulheres ao mercado de trabalho, o quanto as mulheres pobres e,
principalmente, a mulher negra já estava inserida nessa realidade laboral muito antes da mulher
branca, chefiando casas sem a presença masculina e provendo o sustento de seus familiares, a elas
não é negado o “direito” a pertencer ao mundo do trabalho à mulher negra, pelo contrário,
a ela o mundo laboral é imposto, apresentado como realidade desde cedo na história e na sua
trajetória pessoal.

Ao longo do curso da história do Brasil, as opressões foram modificadas, mas de uma maneira
cruel para que exista a manutenção das hierarquias de poder, legitimando a dominação do homem
branco rico. Assim, o abismo intencional entre as realidades, Davis escancara o racismo que
existe inclusive nos movimentos de emancipação Feminina desde o movimento sufragista até
as ondas feministas dos anos 70 chegando e podemos, por analogia interpretativa, reportar
aos levantes emancipatórios atuais onde várias autoras contemporâneas atuais sinalizam a
necessidade de falar de uma interface de um movimento feminista branco e outro negro.

Considerando essas importantes ponderações, retomando o raciocínio de Davis, o mercado


de trabalho em uma sociedade igual e racista, apresenta-se muito antes para a mulher negra,
dentro da lógica escravocrata e pós era abolicionista o trabalho doméstico tornou o principal
meio de trabalho e destino da maioria dessas mulheres, mantendo a lógica de servidão na era
escravocrata. As trabalhadoras domésticas foram as primeiras a trabalhar e uma das últimas
a se organizarem juridicamente (ou serem permitidas a tal feito). Grande parte da sociedade
brasileira segue sem reconhecer privilégios, sustentando silêncios históricos estrategicamente
para a manutenção da estrutura racista, sexista e burguesa que não se compromete com uma
análise responsável e emancipadora.

Emancipação e o Black Money

É perceptível que na última década, no Brasil e no mundo, o crescimento e a visibilidade


do movimento negro (em toda sua pluralidade de vertentes e atores) têm mobilizado denúncias
contra desigualdades socioeconômicas e raciais, práticas e atividades racistas em vários níveis,
celebrado e revisitado trajetórias históricas e com isso fornecido a grande parte dessa população
um novo olhar sobre si mesma.

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MOVIMENTOS SOCIAIS 117

Porém é ingênuo acreditar que esses avanços foram o bastante para superar a complexidade
e as barreiras que o racismo, o sexismo e o capitalismo impõem para essa população. A realidade
da exclusão, a problemática pungente do genocídio da população negra, em especial da juventude
negra, e o racismo estrutural no país impedem que a efetivação de direitos como o do mercado
de trabalho formal e o acesso aos bens de consumo.

Com a retomada de sua história, o acesso à educação e uma emancipação empoderada


forneceu a grande parte dos homens e mulheres negros a buscar novas alternativas dentro
do mercado de trabalho e consumo que se apresentava racista e limitador. A migração para o
trabalho informal não é novidade, porém o diferencial nos últimos anos é o empreendedorismo
e a valorização de mercados e nichos exclusivamente afro.

“Se não me vejo, não compro” e “Escolho adquirir de empreendedores negros para
circular o dinheiro entre nós afrodescendentes” são a espinha dorsal para entender o que se
trata o movimento Black Money nas palavras da idealizadora do movimento Nina Silva.

É o conceito de consumo consciente em sua forma mais refinada, considerando a história


das feiras e os empreendedores não estão preocupados em vendas em larga escala e manutenção
de um sistema selvagem de consumo. O grande refinamento é fazer com que o consumidor se
veja e se perceba no produto, compre uma ideia de empoderamento e autoestima, de confiança
e auto preservação dos seus iguais tendo a certeza que nessa lógica a empresa de quem
ele consome não perpetua nem corrobora com práticas racistas.

Profundamente marcadas pela condição de mulher negra

A narrativa apresentada abriu uma série de possibilidades de reflexões propositalmente, pois


ao fecharmos o raciocínio com o panorama diferenciado do empoderamento negro na busca de
estratégias inovadoras para administrar, resistir e sobreviver ao mundo em especial ao mercado
de trabalho e consumo evidenciamos a importância da análise multifacetada de Angela Davis.

A divisão da sociedade brasileira está relacionada a opressão e sua racialização, isso aponta
para a estrutura socioeconômica e política como foi e como tem sido em sua atualidade, perder de
vista os pilares estruturantes de raça, gênero e classe permite a perpetuação das opressões.

Só quem vive no Brasil pode pensar o movimento negro de sua perspectiva mais plural
na construção de identidades negras no país, neste processo a teoria e a prática precisam estar
unidas na perspetiva de ferramentas políticas de conscientização, é importante a construção

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MOVIMENTOS SOCIAIS 118

de espaços de debate e conscientização para a emancipação humana tal qual foram os


quilombos - Kilombo é uma palavra que teve origem nos povos Bantus que habitam a região
de Angola designava um lugar de pouso ou passagem, no Brasil virou Quilombo dando sentido
às comunidades autônomas criadas por escravizadas/os fugidas/as - além de construir uma
perspectiva que garanta a valorização de existir sendo negro/a, e principalmente viver, para
assim, materializar um novo tecido social brasileiro e, consequentemente, novas pessoas.

A Kilombagem continua...

Angela Davis é uma inspiração como


ativista política e dos direitos civis.
Nesta pintura intitulada “Angela Davis
Understands” [Angela Davis Entende]
de Andrew Murray, um artista plástico
negro e norte-americano, você pode ver
retratos de vítimas recentes de racismo
no Afro de Angela. Quando as pessoas
dizem que Vidas Negras Importam,
Angela Davis entende.

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CONVERSANDO
SOBRE...
120

Conversando
sobre...

Nessa terceira edição da Revista Psicologia em Movimento, tivemos a


satisfação de conversar com a psicóloga e professora Maria da Penha Tamburú
Ivanchuk Lopes, a querida Penha, que nos concedeu uma excelente entrevista
sobre a Psicologia Escolar e o processo de aprovação da lei 13.935/2019 que
insere a atuação da Psicologia e do Serviço Social nas escolas públicas brasileiras.

PSICOLOGIA EM MOVIMENTO: Conte um pouco sobre a história de sua


trajetória na Psicologia.

PENHA: Me formei em Psicologia na Universidade de Guarulhos (UNG) em 1995. Durante


o período da graduação trabalhava em RH com seleção de pessoal, mas não gostava muito da área.
Quando me formei, pedi demissão. Foi uma alegria. Nesta mesma época, iniciei a pós-graduação
em Psicopedagogia e logo consegui um emprego como psicóloga em uma Instituição na Zona
Norte de SP que tinha um convênio com a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo e
atendia crianças de todas as regiões do município. Foi uma experiência incrível e ali já entrei na área
escolar, pois além de atender as crianças, íamos para as escolas dar orientação e supervisão para
professores da rede. Foram vários cursos em todo o município para professores, coordenadores em
que eu estava à frente conduzindo as atividades. Fiquei nesta instituição por 7 anos, saí por 2 anos e
depois voltei e fiquei mais 3 anos lá. Durante esse período sempre fui estudando e aprimorando os
conhecimentos. Fiz também uma segunda especialização em Terapia Familiar Sistêmica na PUC-
SP, pois ao atender várias crianças, pude perceber a importância das famílias em suas demandas e
fui buscar conhecimentos também nesta área.

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CONVERSANDO SOBRE... 121

PSICOLOGIA EM MOVIMENTO: Como era o trabalho realizado nessa instituição


que ficou por 10 anos?

PENHA: Quando iniciei na instituição, estava começando minha vida profissional e


dentre outras atividades, realizava avaliações psicológicas e isso era o que mais me angustiava,
pois era um olhar individualizado e em alguns momentos patologizante e medicalizante; sendo que
na época as crianças frequentavam as famosas “classes especiais”. Isso me trouxe muitas
angústias, mas também, necessidades de buscar novas formas de atendimentos que fugisse
daquela postura e foi assim que encontrei o Curso de Aprimoramento em Orientação à Queixa
Escolar na USP e que foi um divisor de águas para meu olhar na Psicologia Escolar.

Nesta época, a instituição também foi sofrendo modificações e novas orientações de


trabalho foram se construindo na perspectiva de um novo olhar para a criança, as avaliações
foram deixando de ser importantes e quando aconteciam já eram realizadas por equipes
multidisciplinares e os contatos com professores e escolas foram aumentando e qualificando o
trabalho com os estudantes.

Durante os dois anos que fiquei fora dessa instituição, coordenei uma escola especial
que também atuava até então na visão excludente das pessoas com deficiência e meu trabalho
lá se deu a fim de levar esses estudantes a se socializarem e buscarem apoio escolar na Rede
de Educação pública, já como inclusão nas escolas regulares. Foi uma experiência importante
onde pude acompanhar (ainda bem!) o fim de escolas especiais e a importância da inclusão
escolar e social.

Voltei e fiquei mais três anos nessa instituição, que havia se tornado uma ONG, porém,
nesse segundo momento de minha passagem por lá, realizei um trabalho mais voltado para a
inclusão, socialização e com atividades mais efetivas de orientação e supervisão de professores.
O foco já era a escola e não o estudante. Saí de lá em 2007, quando entrei na docência.

PSICOLOGIA EM MOVIMENTO: Como foi sua trajetória acadêmica?

PENHA: Eu fiz essas duas especializações que já citei acima, em Psicopedagogia e Terapia
Familiar, o aperfeiçoamento na USP que foi meu divisor de águas na Educação, vários outros
cursos na área clínica e ou educacional e em 2013 iniciei o mestrado em que discuti o adolescente
em conflito com a lei, sendo também enfatizada a área escolar e a social, minha dissertação foi
em torno dos desafios da inclusão dos adolescentes em conflito com a lei nas escolas de São Paulo,
encerrei o mestrado em 2015 e desde então me aproximei das questões sociais e escolares do ACL.

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CONVERSANDO SOBRE... 122

Dessa maneira, meu caminho na Educação segue se construindo até o momento. Já são 25 anos de
atuação clínica e escolar, esse ano completo as bodas de prata!

Quando fui contrata em 2007 pela IES em que estou até o momento, foi com o propósito
de trazer às estudantes novas formas de atendimento, pois primeiramente assumi a coordenação
da Clínica-Escola e ali pude já iniciar a supervisão em Psicologia Escolar e com isso iniciamos os
atendimentos em Orientação à Queixa Escolar na clínica. Foram 10 anos atuando na coordenação
da clínica e supervisionando atendimentos direcionados a área educacional, além de ministrar a
disciplina de Psicologia Escolar, entre outras. Atualmente continuo na mesma Universidade, porém
estou apenas na docência ministrando várias disciplinas e nas supervisões de estágios. E este ano
tive a oportunidade de iniciar como docente em uma Instituição de Ensino de Pós Graduação e lá
estou atuando diretamente nos cursos ligados a Educação.

PSICOLOGIA EM MOVIMENTO: Há algo mais a nos contar sobre sua vida


profissional?

PENHA: É importante dizer que desde 2000 atuo na área clínica em consultório particular
e com isso estabeleci vínculos profissionais com algumas escolas da Zona Oeste de SP. Desde então,
tenho atuado na orientação de professores e como psicóloga escolar em algumas outras escolas,
sendo profissional autônoma.

PSICOLOGIA EM MOVIMENTO: Em qual momento dessa trajetória que você se


aproximou do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo e das discussões sobre
Educação e Psicologia Escolar que lá aconteciam?

PENHA: Minha aproximação com o CRP se deu quando o Rafa Dutra começou a organizar
o Núcleo de Educação do CRP-SP – Subsede do Grande ABC, como eu já participava das reunião
do Núcleo Grande ABC da ABEP que aconteciam na subsede, fui convidada a fazer parte do
Núcleo de Educação, e fui me aproximando dos trabalhos e grupos existentes ali.

De 2015 para cá foram vários trabalhos, seminários, rodas de conversas, reuniões e discussões
com profissionais da área (Educação e Psicologia Escolar) onde pude fazer parte e com isso contribuir
com minha experiência e também ganhar com as trocas entre os pares. Na gestão passada (2016-2019)
estava como colaboradora da comissão gestora e coordenava o Núcleo de Educação e Medicalização da
Subsede Grande ABC, foi quando realizamos um evento em parceria com a ABRAPEE – Associação
Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional sobre Psicologia Escolar na nossa região e em 2019 me
envolvi bastante nas ações relacionadas ao processo de aprovação do projeto de lei que insere a Psicologia
e o Serviço Social na Educação básica.

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CONVERSANDO SOBRE... 123

PSICOLOGIA EM MOVIMENTO: Conte um pouco sobre o processo de militância em


prol da aprovação dessa lei que inclui a Psicologia e o Serviço Social nas escolas, como
foram as discussões dentro das entidades da Psicologia e suas idas à Brasília conversar
com deputados.

PENHA: Esse processo de militância já vinha ocorrendo nas reuniões que eu participava com
todos os coordenadores de Núcleos de Educação das Subsedes da Regional SP. Quando em agosto
de 2019 surgiu o convite para participar de uma representação do CRP 06 (São Paulo) no Conselho
Federal de Psicologia em Brasília, a fim de dialogar com os deputados federais e participar da
audiência de apresentação do Projeto de Lei.

Este PL estava em tramitação desde 2000 e naqueles dias havia entrado em pauta e
seguiria para votação. Foi assim que se iniciou uma representação muito mais ativa e pautada na
aprovação do, até então, PL 3688/19. Esta representação se deu no dia 27 de agosto de 2019 (Dia
da Psicologia) e lá em Brasília, junto com representantes de todos os outros Estados, pude dialogar
com alguns deputados, mais precisamente os da região sudeste (por eu ser de SP) e conversar sobre
a importância da Psicologia e do Serviço Social nas redes educacionais solicitando apoio ao voto
de aprovação ao PL. Porém, por orientações de alguns deputados que apoiavam a causa, o texto
inicial sofreu modificação de que ao invés de ter um psicólogo por escola, deveria constar que seria
um profissional por rede de ensino, pois desta forma a aprovação por questões orçamentárias ficaria
mais fácil. A redação do texto foi modificada e no dia 12 de setembro obtivemos a primeira vitória,
o PL foi aprovado e encaminhado para sanção do presidente da República. Infelizmente, dia 08 de
outubro essa proposta foi vetada integralmente pelo presidente alegando que a propositura criaria
despesas obrigatórias ao Poder Executivo sem que se tivesse indicado a respectiva fonte de custeio.

Desta forma, o CFP solicitou que os representantes dos Conselhos Regionais voltassem à
Brasília para realizar uma nova mobilização junto às/aos parlamentares pela derrubada do Veto n°
37/2019 e no dia 22 de outubro eu estava novamente em uma representação do CRP SP visitando
os parlamentares na Câmara dos Deputados e no Senado a fim de conversar novamente sobre a
importância destes profissionais na rede de educação e explicando que no novo texto do FUNDEB
(que também estava para ser votado), constava em sua redação sobre a previsão orçamentária
possível para a contratação desses profissionais e desta forma tornava viável a derrubada do veto
do presidente. Com isso, solicitávamos o apoio no voto pela derrubada do veto. E pela terceira vez,
no dia 26 de novembro fui convocada a comparecer, representando o CRP SP para uma última
mobilização junto às/aos parlamentares pela derrubada do Veto n° 37/2019 pois a votação estava
na pauta do dia.

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CONVERSANDO SOBRE... 124

Novamente fizemos a conversa e a solicitação de apoio e acompanhamos a votação na


Câmara dos Deputados, tendo como resultado final a vitória pela derrubada do veto! Enfim, dia 11
de dezembro de 2019, o que era um PL se transformou na lei 13.935/19 e tem um prazo de 1 ano
para ser implementada pelos municípios de todo o país, já que a redação final da lei ficou que seria
uma psicóloga e uma assistente social na rede de educação básica e são os municípios responsáveis
por esta demanda.

PSICOLOGIA EM MOVIMENTO: Após a aprovação, quais os desafios que temos


para as entidades e para a categoria de psicólogas para a implementação do
projeto? Quais receios? Quais alertas? O que é importante nesse trabalho? Como
você pensa que esse trabalho deve acontecer?

PENHA: Após a aprovação da lei os desafios não terminaram, pelo contrário, temos novos
desafios pela frente e eles são muito importantes agora. Cada município precisará implementar
essa lei, para isso precisaremos ficar atentos como estão reagindo, o que pensam e como estão se
organizando para implementar e contratar os profissionais. Sabemos que muitos municípios já
possuem psicólogas nas redes, mas nem sempre o suficiente. Cabe às entidades, principalmente
às representantes de classe, como CFP, CRP, FENAPSI, SINPSI e também ABRAPEE estar
atentas às formas como as Secretarias Municipais de Educação estão se mobilizando e desta
forma oferecer apoio, suporte, orientações e principalmente materiais informativos adequados
no que se refere ao trabalho da psicóloga nas redes de educação básica.

Digo isso, pois não devemos entrar em retrocesso e permitir que essas psicólogas
voltem a realizar trabalhos que levem a exclusão dos estudantes, que sejam trabalhos que
individualizem as queixas e com isso a lógica da patologização volte às escolas, como nos
tempos iniciais da Psicologia Escolar. Precisamos estar atentas na orientação das profissionais
contratadas, oferecer material atualizado para realização das provas dos concursos e nos
aproximar enquanto CRP, ABRAPEE desses profissionais a fim de procurar garantir um
melhor desempenho destes nas redes que atuarão. Mas vale ressaltar que a contratação só
será possível se o município regulamentar a lei e para isso o CFP recentemente publicou um
material sobre orientações para a regulamentação da lei e já está mobilizando regionais para
o início dos trabalhos, inclusive estou junto com outros colegas de outras subsedes de SP e de
outras entidades acompanhando e interagindo nesse processo.

PSICOLOGIA EM MOVIMENTO: E como você está vendo tudo isso acontecendo


em um cenário de Pandemia? Como percebe que a Pandemia afetou as escolas e como
será a chegada das psicólogas nesse cenário de Pandemia ou de pós-pandemia?

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PENHA: A pandemia acarretou uma perda mundial em todos os setores, e não poderia
ser diferente quando falamos das escolas e da comunidade escolar. As escolas estão ainda
fechadas, os estudantes em casa e o ensino remoto acontece de forma bem tumultuada e nem
sempre satisfatório. Professores sendo cobrados para se adaptarem ao uso de tecnologias e
sendo culpabilizados em alguns momentos pelas dificuldades de aprendizagem que o momento
produz. Isto é, um caos, principalmente para crianças de educação básica, no ensino público e
com dificuldades no acesso ao ensino remoto.

As Psicólogas e assistentes sociais que serão inseridas no pós-pandemia nas redes,


encontrarão um cenário bem caótico, poderemos ter ou já temos adoecimentos psicológicos
significativos na rede e isso trará uma visão da psicologia na escola como um profissional que
cuidará de todos. Temos que tomar cuidado com essa visão, pois a demanda da psicologia na
escola é o olhar para a comunidade escolar e como se dão os adoecimentos, evitando o olhar
individualizante e focando os trabalhos no grupo. No geral, vale ressaltar que esse profissional
ocupará um espaço privilegiado na escola, pois a aprovação da lei foi a garantia deste lugar
ocupado e com isso é recomendado utilizar esse espaço seguindo as orientações do documento
do CREPOP sobre Referências Técnicas para atuação de psicólogas na educação básica.

PSICOLOGIA EM MOVIMENTO: Para finalizar nossa conversa, sabemos que a


história da Psicologia Escolar se confunde com a história da Psicologia no Brasil,
tanto nos erros, quanto nos acertos, nas críticas e nas novas propostas. O que você
pensa que a Psicologia Escolar tem a contribuir para o avanço da Psicologia como
um todo nesse momento que vivemos?

PENHA: Acredito que a Psicologia escolar necessita ocupar um espaço agora garantido
por lei nas redes públicas de educação básica, baseando-se, também, na ética profissional, no
respeito ao indivíduo e no caso, o cuidado com a rede educacional. A profissional precisará
realizar um trabalho que demonstre seu conhecimento adequado do que é ser uma psicóloga
escolar e para isso deve buscar as orientações do CFP já disponíveis, além de muitos materiais
já elaborados anteriormente e também disponíveis nos sites CFP e CRP.
É importante, em primeiro lugar, que a psicóloga escolar saiba o espaço que ocupa nesta
rede, tenha conhecimentos adequados e atue em parceria com os demais pares. Sendo assim,
acredito que estará mostrando a atuação da Psicologia e contribuindo para o avanço dela neste
momento tão difícil. Sabemos que a História da Psicologia tem tido muitos avanços e sendo
assim a Psicologia Escolar tem o dever em contribuir nesse caminho.

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