Sunteți pe pagina 1din 14

Pobreza, Desigualdade de renda e Crescimento

econômico no Brasil nas últimas duas décadas

Regilda da Costa e Silva Menezes


regildamenezes@yahoo.com.br

João Policarpo
jprlima@ufpe.br

RESUMO
A desigualdade no Brasil apresenta uma trajetória de suave queda desde 1993.
Este artigo mostra que o país apresentou uma redução considerável na pobreza,
especialmente nos últimos anos. Percebe-se nesta avaliação que a força para esta redução
está na redução da desigualdade de renda e não no crescimento econômico do país.
Conclui-se que os programas de transferência de renda que se intensificaram a partir de
2003 certamente desempenharam um papel bastante relevante para a redução da pobreza
no Brasil.

PALAVRAS CHAVE. Desigualdade de renda, Pobreza e Crescimento econômico.


1. Introdução

Desde os primórdios do processo de desenvolvimento brasileiro, o


crescimento econômico tem gerado condições extremas de desigualdades sociais, que se
manifestam entre regiões, estados, meio rural e o meio urbano, entre centro e periferia e
entre as raças. Essa disparidade econômica se reflete especialmente sobre a qualidade de
vida da população: expectativa de vida, mortalidade infantil e analfabetismo, dentre
outros aspectos. Anos mais recentes, a desigualdade de renda no Brasil pode ser atribuída
a fatores estruturais sócio-econômicos, como a elevada concentração da riqueza
mobiliária e imobiliária agravada pelo declínio dos salários reais e à persistência dos
altos juros.

Na economia existem relações que levam a exploração do trabalho e a


concentração da riqueza nas mãos de poucos. Na política, a população é excluída das
decisões governamentais. Até 1930, a produção brasileira era predominantemente
agrária, que coexistia com o esquema agrário-exportado, sendo o Brasil exportador de
matéria prima, as indústrias eram pouquíssimas, mesmo tendo ocorrido, neste período,
um verdadeiro “surto industrial”. A industrialização no Brasil, a partir da década de 30,
criou condições para a acumulação capitalista, evidenciado não só pela redefinição do
papel estatal quanto a interferência na economia, mas também pela implantação de
indústrias voltadas para a produção de máquinas, equipamentos, etc. A política
econômica, estando em prática, não se voltava para a criação, e sim para o
desenvolvimento dos setores de produção, que economizam mão-de-obra, resultando
assim em desemprego.

O propósito deste artigo é verificar a relação entre desigualdade de renda, pobreza


e crescimento econômico no Brasil nas últimas duas décadas. O presente artigo está
organizado da seguinte forma: Na segunda seção faz-se uma apresentação dos aspectos
teóricos do crescimento econômico na desigualdade de renda do Brasil. A Terceira seção
apresenta a evolução da desigualdade da renda e da pobreza no Brasil no período
estabelecido. A quarta seção discute a evolução recente da pobreza e da desigualdade. A
quinta seção mostra o comportamento do Brasil em termos de desigualdade de renda e
pobreza durante as crises enfrentadas. Em seguida, apresentam-se as conclusões do
artigo.

2. Aspectos teóricos do crescimento econômico na desigualdade de renda

A relação sistemática mais consistente entre desigualdade de renda e crescimento


econômico foi realizada por Kuznets (1995), o qual encontrou uma relação positiva do
crescimento econômico na distribuição da renda, verificando assim um padrão na forma
de um “U” invertido. Segundo o autor, este comportamento é explicado pela
inevitabilidade de uma maior concentração de renda nos períodos iniciais de crescimento,
acompanhada subseqüentemente por seu declínio.

De uma forma mais detalhada, foi observado pelo o autor que o crescimento
econômico era acompanhado por uma tendência de menor participação do setor agrícola
e uma expansão da industrialização e urbanização. A distribuição de renda da população
total, na sua forma mais simples, poderia ser vista como uma combinação da distribuição
de renda da população do setor rural e urbano com as seguintes características: (1) a
renda per capita média da população rural é usualmente menor que a da população
urbana; (2) a desigualdade nas participações percentuais dentro da distribuição da
população rural é menor que a da população urbana. Assim, tudo mais mantido constante,
um aumento da ponderação da população urbana significa um acréscimo da participação
dos mais desiguais nos dois componentes da distribuição. Por outro lado, a diferença na
renda per capita entre a população rural e a urbana não se reduz necessariamente no
processo de crescimento econômico; pelo contrário, ela tende a aumentar.

Kuznets (1957) baseou suas idéias em ilustrações numéricas. Mais adiante


Robinson (1976) investiga essas idéias realizando algumas suposições mais solidas a
respeito do processo de desenvolvimento econômico. Ele constatou que nos estágios
iniciais de desenvolvimento econômico a desigualdade de renda tende a apresentar uma
relação direta com o crescimento econômico. Isso seria resultado de mudanças na
alocação de recursos de setores menos produtivos para setores mais produtivos,
principalmente em relação à mão-de-obra. Nos últimos estágios de desenvolvimento, a
relação entre desigualdade de renda e crescimento econômico tende a ser inversa, em
razão dos rendimentos decrescentes de escala naqueles setores mais produtivos. Assim, a
relação entre a desigualdade de renda e a taxa de crescimento da renda seria representada
por um “U” invertido.

Outros estudos relacionam o aumento da desigualdade de renda no processo de


crescimento econômico com a tecnologia. Isto porque os setores mais ricos utilizam
técnicas mais recentes enquanto setores mais pobres tendem a usar tecnologias mais
antigas. Neste contexto, inovações tecnológicas tendem inicialmente a aumentar a
desigualdade de renda entre setores que incorporaram novas tecnologias com aqueles que
utilizam tecnologias antigas. Isto ocorre devido, principalmente, ao aumento nos ganhos
de produtividade e rendimentos nos primeiros segmentos. Porém, à medida que mais
pessoas qualificadas se transferem para os setores favorecidos, a desigualdade tende a
diminuir (GALOR & TSIDDON,1997; HELPMAN,1997).

A relação de Kuznets é significante, porém ela explica pouco da variação na


desigualdade entre os países através do tempo (PAPANEK & KYN, 1986). Foi sugerido
que através dos dados em séries de tempo há uma relação fraca (ANAND & KANBUR,
1993). Outros afirmam que a curva de Kuznets se ajusta melhor para amostras de países
de forma pontual (SQUIRI & ZOU, 1998).

No trabalho de BARRO (2000), o autor mostrou que a curva de Kuznets


apresenta certa regularidade empírica, através do tempo, mesmo entre os países. Porém,
há uma semelhança com os resultados anteriores: ela explica relativamente pouco da
variação na desigualdade entre países através do tempo. Barro (2000) argumentou que o
elevado grau de desigualdade incentiva cada vez mais a redistribuição de renda por meio
de políticas públicas. Por outro lado, existe a possibilidade de que tais políticas de
redistribuição causem mais distorções no mercado e contribuam para a diminuição do
investimento. Sendo assim, ele concluiu que a taxa de crescimento da economia poderia
ser atingida negativamente pela desigualdade de renda da população.
3. Evolução da desigualdade de renda e da pobreza no Brasil no período
de 1990 a 2009
3.1 Desigualdade de renda e pobreza

Em uma trajetória de instabilidade econômica aliada a taxas de inflação


crescentes terminou o ciclo de crescimento no início dos anos 80, em um contexto
caracterizado por uma crise internacional e outra relativa ao financiamento externo do
país. A taxa de desemprego elevada dos anos 1981-83 conheceu uma tendência de queda
sistemática a partir de 1994. Se por um lado, o problema da ocupação foi caracterizado pela
maior informalidade, observava-se, por outro, que o baixo crescimento teve implicações
importantes sobre os rendimentos. O movimento explosivo dos preços teve efeitos
diferenciados sobre os rendimentos da população. Os segmentos de renda média e alta
conseguiram proteger seus níveis de renda tanto pelo mercado de trabalho como pelas
oportunidades de preservação do poder de compra dos rendimentos criados pelo mercado
financeiro. Ao contrário, o segmento de baixa renda não teve as mesmas possibilidades,
conhecendo uma perda de renda importante ao longo do período. Assim, na segunda metade
dos 80 se restabeleceu a tendência de deterioração da distribuição de renda conhecida desde a
década de 60.

Os anos 90 estabeleceram uma nova dinâmica para a distribuição de renda,


diferente daquela encontrada para as décadas anteriores. As alterações da distribuição de
renda nos anos 70 se fizeram em um contexto de aumento acelerado do nível de ocupação.
Apesar da crise dos anos 80, o mercado de trabalho conheceu uma recuperação ponderável
do nível de ocupação na segunda metade da década. A situação encontrada para os anos 90
é muito diferente. A política de abertura comercial em uma situação de baixo
crescimento, que preponderou em diversos anos do período, produziu quedas importantes
do nível de emprego formal, fazendo com que o mercado de trabalho passasse a conviver
com uma crescente informalidade e desemprego. Ao mesmo tempo, o movimento
inflacionário explosivo do início da década foi sucedido por outro movimento
estabilidade dos preços. Se a inflação crescente teve um papel importante para a
deterioração da distribuição de renda nos primeiros anos da década, a estabilidade de
preço contribuiu para a reversão desta tendência.

Com o fim da inflação em 1994 houve significativa redução da pobreza e


expansão dos rendimentos, entretanto, o baixo crescimento econômico, a redução
significativa do emprego industrial e a estagnação do emprego formal, impediram que os
efeitos positivos da estabilização dos preços sobre as rendas mais baixas pudessem
perdurar.

Em 2010, o Bird (Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento)


afirmou que o país avançou na redução da pobreza e distribuição de renda. Segundo a
entidade, apesar da desigualdade social ser ainda elevada, conseguiu-se reduzir a taxa de
pobreza de 40% em 1990 para 9,1% em 2006, graças à avanços perpetrados pelos
governos Collor, Itamar, FHC e Lula. Os maiores motivos para a redução teriam sido a
inflação baixa e os programas de transferência de renda.

No mesmo ano, Rocha (2009) mostrou que o porcentual de pobres caiu de


maneira sustentável no Brasil entre 2004 e 2008, durante o governo Lula. O
levantamento, que teve como base os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de
Domicílios (PNAD) do IBGE apontou que a proporção de pobres no País caiu de 33,2%
para 22,9% no período pesquisado.

Os países quanto a sua incidência de pobreza absoluta podem ser classificados em


dois grupos: primeiramente aqueles nos quais a renda nacional é insuficiente para
garantir o mínimo considerado indispensável a cada um de seus cidadãos. Desse modo, a
renda per capita é baixa e a pobreza absoluta inevitável quaisquer que sejam as
condições de sua distribuição. O segundo grupo, aqueles onde a pobreza absoluta ainda
persiste, ou seja, aqueles em que o produto nacional é suficientemente elevado para
garantir o mínimo necessário a todos, de modo que a pobreza resulta da má distribuição
de renda. No segundo grupo está o Brasil, onde sua incidência de pobreza absoluta no
decorre da forte desigualdade na distribuição de rendimentos.

Para a obtenção dos indicadores de pobreza apresentados a seguir foram


utilizadas, a cada ano, 24 linhas de pobreza localmente específicas, com o objetivo de
levar em conta os diferenciais de estrutura de consumo e de preços nas diferentes regiões
e áreas urbanas, rurais e metropolitanas no país. As linhas de pobreza se baseiam no
consumo observado entre populações de baixa renda em cada região e área de residência,
e seus valores são atualizados anualmente de acordo com a variação local de preços por
grupo de produtos.

O indicador de pobreza mais usual é a proporção de pobres na população total.


Observa-se no gráfico 1 que após a queda que se seguiu ao Plano Real, quando declinou
de forma abrupta de 44,1% em 1993, para 33,2% em 1995, a proporção ficou
praticamente no mesmo patamar, apenas oscilando em função dos ciclos de curto prazo
que, devido a determinantes diversos (internos e externos) afetaram a economia. Como
conseqüência, em 2004, a proporção de pobres verificada para o país como um todo se
situava exatamente no mesmo nível de 1995 - 33,2% -, depois de ter atingido um pico em
2003. A partir de então, com a retomada da atividade econômica de forma sustentada, a
proporção de pobres declina todos os anos, atingindo mínimos históricos a cada ano
desde 2005. A proporção de pobres atingida em 2008, 22,7%, corresponde a um declínio
médio de 2,6 pontos percentuais anualmente desde 2004.

É interessante observar que o aumento relativamente forte dos preços alimentares


nos anos de 2007 e 2008 foi incapaz de interromper a tendência de redução da pobreza, já
que estes aumentos foram largamente compensados por ganhos de renda, tanto devido a
melhorias no mercado de trabalho quanto na expansão das transferências previdenciárias
e assistenciais. Ademais, a participação da alimentação no orçamento das famílias
diminui continuamente, sendo que, mesmo dentre as famílias pobres, já deixou há muito
de ser o grupo de despesa mais importante, pelo menos nas áreas urbanas e
metropolitanas.
Gráfico 1: Evolução da pobreza de 1990 a 2008

3.2 Coeficiente de gini

O coeficiente de gini é uma medida utilizada para calcular a desigualdade de


distribuição de renda, mas pode ser usada para qualquer distribuição. Ele consiste em um
número entre 0 e 1, onde 0 corresponde à completa igualdade de renda (onde todos têm a
mesma renda) e 1 corresponde à completa desigualdade (onde uma pessoa tem toda a
renda, e as demais nada têm). O índice de Gini é o coeficiente expresso em pontos
percentuais (é igual ao coeficiente multiplicado por 100).
Enquanto o coeficiente de Gini é majoritariamente usado para mensurar a
desigualdade de renda, pode ser também usado para mensurar a desigualdade de riqueza.
Esse uso requer que ninguém tenha uma riqueza líquida negativa.

onde:
G = coeficiente de Gini
X = proporção acumulada da variável "população"
Y = proporção acumulada da variável "renda"
Coeficiente de gini no período de 1990 a 2009

0.7
0.6
0.5
0.4
0.3
0.2
0.1
0
90

92

96

02

06

08
94

98

00

04
19

19

20

20
19

19

19

20

20

20
Período

Gráfico 2: Coeficiente de gini de 1990 a 2009

Observa-se no gráfico 2 que a desigualdade de renda no Brasil apresenta uma


trajetória de suave queda desde 1993. Porém, a partir de 2001, ela caiu de forma muito
rápida, favorecendo de forma intensa todos os brasileiros mais pobres. É importante
destacar que apesar de ainda ocupar uma posição negativa de destaque entre os países
com maiores índices de desigualdade do mundo, o Brasil atingiu, em 2006, o nível mais
baixo de desigualdade de renda dos últimos 30 anos.

Analisando o coeficiente de gini com o de outros países, percebe-se que poucos


foram os países que reduziram o coeficiente de gini, uma das medidas de desigualdade
mais utilizadas, a uma velocidade superior à brasileira entre 2001 e 2005. Neste período,
o Coeficiente de Gini caiu 4,6%, passando de 0,594 em 2001 para 0,566 em 2005. Essa
queda significativa permite que o ritmo da diminuição da desigualdade brasileira seja
visto como um dos mais acelerados do mundo. Porém, mesmo com essa queda, o Brasil
ultrapassou apenas 5% dos países no ranking mundial de desigualdade. Ainda seriam
necessários mais de 20 anos para que fosse atingido um patamar semelhante à média dos
países com o mesmo nível de desenvolvimento.

Entre 2001 e 2005, ocorreu no Brasil um crescimento anual de 0,9% da renda


nacional. O destaque, porém, foi que os mais ricos tiveram sua renda diminuída. Pelos
dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de crescimento
anual da renda dos 10% e 20% mais ricos foi negativa (-0,3% e -0,1%, respectivamente),
enquanto a taxa de crescimento da renda dos 10% mais pobres atingiu 8% ao ano no
mesmo período.
Além de observarmos uma queda na desigualdade, houve crescimento robusto da
renda domiciliar per capita, que cresceu 5,1% de 2007 para 2008, passando de R$ 563
para R$ 591. Também, houve crescimento ao longo de toda a distribuição de renda. O
Gráfico 3 mostra o crescimento da renda, centésimo a centésimo, em 2008 com relação
aos quatro anos entre 2004 e 2007. A curva preta mostra a taxa de crescimento entre 2007
e 2008. Além de haver crescimento para todos os centésimos, este crescimento foi maior
para os centésimos mais pobres, cuja renda cresceu entre 10% e 24%, que para os
centésimos mais ricos, cuja renda cresceu menos que 4%. Assim, a renda sobe para
todos, mas sobe mais para os que têm menos.

Gráfico 3: Taxa de Crescimento da Renda por Centésimo entre 2008 e 2004, 2005, 2006, e
2007

A curva azul mostra que de 2004 a 2008 o ganho de renda dos centésimos
superiores foi em torno de 20%. Nada desprezível, mas bem inferior aos 40% para os
dois décimos inferiores na distribuição de renda.

4. Evolução recente da pobreza e da desigualdade no Brasil

Analisando o Brasil em termos de desigualdade de renda antes do século 20,


percebe-se que o país apresentou uma elevada desigualdade de renda, sem nenhuma
tendência à queda até o final do século vinte. A vontade de combater a desigualdade não
impediu que a pobreza fosse reduzida de forma significativa, tal como ocorreu na década
de setenta ou durante o Plano Real.
Na ausência de reduções na desigualdade, a pobreza cai devido exclusivamente
ao crescimento econômico e, por isso, cai sempre menos do que se poderia esperar de
episódios que combinam crescimento com redução na desigualdade.

Desde o início do novo milênio, o cenário se alterou. A despeito de flutuações na


taxa de crescimento do país, o grau de desigualdade de renda declinou de forma
acelerada e sistemática.

O período 2001-2005 foi fortemente marcado por duas transformações


apreciáveis na economia e na sociedade, com impactos positivos na distribuição de renda
brasileira. Primeiramente, houve crescimento econômico, ainda que modesto. Em
segundo lugar, a desigualdade diminuiu significativamente. Essas duas transformações
foram responsáveis também pela queda na pobreza e na extrema pobreza. A porcentagem
de pobres e também a de extremamente pobres caíram cerca de 4,5 pontos percentuais,
respectivamente. O fato interessante e novo nesta estatística é que ao contrário de
períodos anteriores da história, a queda nos índices de pobreza foi devido a queda na
desigualdade e não o crescimento econômico.

É importante destacar que estamos assistindo no Brasil a uma excepcional


expansão do acesso da população a uma ampla variedade de oportunidades. Fenômeno
esse particularmente mais acentuado entre os grupos mais vulneráveis. Portanto, não é só
a desigualdade de renda que vem melhorando, mas também a desigualdade em diversos
tipos de oportunidades.

O progresso brasileiro em distribuição de renda alcançado entre 2001 e 2008 é


inegável. A renda per capita de todos os décimos cresceu e entre os mais pobres, o
crescimento foi mais acelerado (veja gráfico 4). Como conseqüência, houve redução na
desigualdade de renda e na pobreza
Gráfico 4 : Taxa de Crescimento médio da renda domiciliar per capita por décimos da
distribuição nos últimos 6 anos

Em 2008, as mudanças foram ainda mais intensas e equalizantes (veja gráfico 5).
De fato, no período 2001-08, enquanto a renda familiar per capita da população como
um todo cresceu 2,8% ao ano, entre os 10% mais pobres cresceu quase três vezes mais
rápido (8,1% ao ano) e entre os 10% mais ricos cresceu à metade (1,4% ao ano). A taxa
de crescimento da renda dos 10% mais pobres foi mais de cinco vezes a dos 10% mais
ricos.

Gráfico 5 : Taxa de Crescimento médio da renda domiciliar per capita por décimos da
distribuição no último ano: Brasil, 2007 e 2008

Os programas de transferência de renda que se intensificaram a partir de 2003


certamente desempenharam um papel bastante relevante para a redução da pobreza no
Brasil. Estimativas do IPEA sugerem que cerca de um quarto da queda na desigualdade
se deve a eles. Esses programas são focalizados, ou seja, orientados para os mais pobres:

a) 52% dos beneficiários dos programas de transferência de renda estão entre os 20%
mais pobres da população, isto é, em famílias de renda per capita abaixo de um terço
de salário mínimo;

b) cerca de 70% dos beneficiários pertencem a famílias cuja renda per capita é inferior
a 25% do salário mínimo;
c) 91% dos beneficiários estão na metade mais pobre da população (abaixo de R$ 208 em
2004);

d) 95% dos beneficiários estão em famílias de renda per capita abaixo de um salário
mínimo.

De todos os programas sociais implementados no Brasil, o mais bem focalizado é


o Bolsa-Família, que nasceu da unificação de quatro programas em 2004, e tem como
base certas condicionalidades, como a manutenção das crianças na escola e a
obrigatoriedade de exames de saúde para as mães. Com esse grau de objetividade, o
Bolsa-Família rompe com uma tradição de dispersão e falso universalismo de inúmeros
programas sociais brasileiros e eleva em muito o grau de sua eficiência, já que atinge
efetivamente os mais pobres.

Através de algumas simulações do IPEA, pode-se concluir que se a desigualdade


entre 2001 e 2005 no Brasil não tivesse se reduzido, a pobreza teria caído apenas 1,2
pontos percentuais ao invés dos 4,5 pontos percentuais realmente registrados no mesmo
período. Ou seja, 73% da queda na pobreza e 85% da queda na extrema pobreza devem-
se à redução na desigualdade.
Por outro lado, se nesse período, o Brasil contasse apenas com o crescimento da
economia para alcançar a mesma redução na pobreza, teria sido necessário aumentar a
renda de todas as famílias em 14,5%. E, para alcançar a mesma queda na extrema
pobreza, seria necessário um crescimento de 22%. Ainda segundo o IPEA, um ponto
percentual de redução na desigualdade praticamente substitui dois pontos percentuais de
crescimento para combater a pobreza.

Percebe-se que estas relações são relevantes para um país como o Brasil, que
vem apresentando um nível de crescimento baixo nas últimas duas décadas. O
crescimento na renda per capita no período 2001-2005 foi muito lento. O PIB cresceu
cerca de 3,5%, ou 0,9% ao ano. Portanto, isso significa que a pobreza não teria diminuído
de forma expressiva se a desigualdade tivesse permanecido inalterada.

Paes de Barros (2007) através de suas simulações, mostra que se a desigualdade


tivesse se mantido, a redução na proporção de pobres teria sido de apenas 1,2 pontos
percentuais e na de extremamente pobres, de 0,6 pontos percentuais. O estudo mostra
ainda que a contribuição da redução no grau de desigualdade é ainda maior para a
extrema pobreza: no caso brasileiro, 85% da queda recente na proporção dos
extremamente pobres deve-se à redução no grau de desigualdade.

5. Comportamento do Brasil em termos de desigualdade de renda e


pobreza durante as crises enfrentadas

Observa-se que o Brasil conseguiu diminuir a pobreza e a desigualdade nas


principais metrópoles, mesmo diante dos reflexos da crise financeira internacional na
economia. A constatação faz parte do estudo Desigualdade e Pobreza no Brasil
Metropolitano Durante a Crise Internacional: Primeiros Resultados, realizado pelo
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Este estudo teve como objetivo avaliar a evolução dos índices de desigualdade e
pobreza no Brasil em seis regiões metropolitanas: Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio
de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. A expectativa de que a queda na produção e no
emprego se repetiria em variáveis sociais, como ocorreu em outros períodos de crise, no
entanto, não se confirmou.

Ao contrário do que aconteceu nos períodos de crise considerados no estudo – 1982


a 1983; 1989 a 1990; e 1998 a 1999, quando a inflexão econômica implicou aumento da
pobreza nas regiões metropolitanas nacionais – não se observou crescimento na taxa de
pobreza nem mesmo após o último trimestre de 2008, período em que os efeitos da crise
internacional começaram a atingir o país.

Após ter aumentado entre agosto de 2002 e abril de 2003, a taxa de pobreza do
Brasil metropolitano apresentou tendência de queda. Em março de 2002, 18,5 milhões de
brasileiros estavam em situação de pobreza. Em junho de 2009 esse número havia
baixado para 14,4 milhões. A diferença, de 4 milhões de pessoas, configura queda de
26,8% da taxa de pobreza, que passou de 42,5% para 31,1% no período.

No período de março de 2002 e junho de 2009, a região metropolitana que registrou


maior queda no número de pobres (1,4 milhão) foi a do Rio de Janeiro, seguida por São
Paulo (1,3 milhão) e Belo Horizonte (600 mil pessoas). Recife e de Salvador, que detêm
as maiores taxas, retiraram da condição de pobreza 100 mil e 200 mil pessoas,
respectivamente.

As regiões metropolitanas que diminuíram mais rapidamente a taxa de pobreza


foram Belo Horizonte (35,5%), Porto Alegre (33,6%) e Rio de Janeiro (31,2%). Quedas
menos intensas do que as da média nacional no período (26,8%) foram registradas em
São Paulo (25,2%), Salvador (23,9%) e Recife (14,1%). Recife, por sinal, foi a região
metropolitana com a mais alta taxa de pobreza em junho de 2009 (51,1%). Na outra
ponta, está Porto Alegre, com a menor taxa (25,7%).

No conjunto das regiões analisadas, a taxa de pobreza caiu 2,8%, passando de


31,9% para 31%, na comparação entre outubro de 2007 a junho de 2008 e outubro de
2008 a junho de 2009. A maior queda ocorreu na região metropolitana de São Paulo (-
3,9%), e a menor, na do Rio de Janeiro (-1,3%).Recife teve queda de 1,9%, Salvador e
Porto Alegre, de 3,3%, e Belo Horizonte, de 3,5%.

De acordo com o Ipea, as trajetórias convergentes de redução da desigualdade


também não foram interrompidas nesse período, para o conjunto das seis regiões
metropolitanas antes e durante a crise internacional. Se for feita uma comparação da
média da desigualdade no período de outubro de 2007 a junho de 2008 com o de outubro
de 2008 a junho de 2009, o índice de Gini apresentou queda de 0,4%, passando de 0,5044
para 0,5026. O índice é adotado pelo Ipea e varia de zero a 1, indicando maior
desigualdade à medida que o valor se aproxima de 1.

Em junho de 2009, o índice de Gini ficou em 0,493, com o menor patamar nas seis
regiões metropolitanas. Entre janeiro (0,514) e junho de 2009, o índice de Gini caiu
4,1%, a mais alta queda registrada desde o ano de 2002. Se o período analisado for de
março de 2002 (0,534) até junho de 2009, a queda foi de 7,6%. Se for considerado o mês
de mais alta medida de desigualdade, que foi dezembro de 2002 (0,545), a queda do
índice até junho de 2009 foi de 9,5%.

6. Considerações finais

Concluí-se que a redução da pobreza e principalmente da extrema pobreza no


Brasil deve-se a redução da desigualdade de renda. Desta análise, pode-se dizer que o
crescimento econômico não contribuiu para a redução da pobreza no período avaliado.
Percebe-se que mesmo o país em períodos de crise não se observou crescimento na taxa
de pobreza nem mesmo após o último trimestre de 2008, período em que os efeitos da
crise internacional começaram a atingir o país.
Em busca de explicação para os fatos concluídos nesta análise, encontra-se que os
programas de transferência de renda que se intensificaram a partir de 2003 certamente
desempenharam um papel bastante relevante para a redução da pobreza no Brasil.
É importante salientar que também não se conclui a partir desta analise que o
crescimento econômico seja irrelevante no combate a pobreza. Sabe-se que o
crescimento de uma economia é e continua sendo uma arma poderosa para superar os
problemas sociais do Brasil.
Portanto, faz-se necessário uma maior reflexão a respeito da qualidade do
crescimento e das políticas sociais do Brasil para que se encontre um ponto de equilíbrio
trazendo assim o bem estar para toda a população.

Referências:

ARNAND, S. e KANBUR, S. M. R. Inequality and development: a critique. Journal of


Development Economics. V. 41, p.19-43, 1993.

BARRETO, F. A.; JORGE NETO, P. M.; TEBALDI, E. Desigualdade de renda e


crescimento econômico no nordeste brasileiro. Texto para Discussão, n. 37.
CAEN/UFC,2001.

BARRO, R. Inequality and Growth in a Panel of Countries. Harvard University. 1999.

BARRO, R. Inequality and growth in a panel of Countries. Journal of Economic


Growth, v. 5, p.5-32, 2000.

BARRO, R e SALA-I-MARTIN, X. Economic Growth. New York: McGraw-Hill, 1999.

FERREIRA, F.; LITCHFIELD, J. Desigualdade, pobreza e bem-estar social


no Brasil
– 1981/95. In: HENRIQUES, R. (Org.). Desigualdade e pobreza no Brasil.
Rio deJaneiro: Ipea, 2000. p. 49-80.
GALEANO, E. e MATA, H. Diferenças regionais no crescimento econômico: uma
análise pela teoria do crescimento endógeno. In: Anais do Congresso da ANPEC. 2008.

HOFFMANN, R. Brasil, 2004: menos pobres e menos ricos. Parcerias


Estratégicas.
Brasília: Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), n. 22, p. 77-
88, 2006a.
Edição especial: análise sobre a Pesquisa Nacional por Amostra de
Domicílios (Pnad
2004)

KUZNETS, S. Economic growth and income inequality. American Economic Review,


v.45, p. 1-28, 1957.

MANKIW, N.; ROMER, D.; WEIL, D.; A Contribution to the Empirics of Economic
Growth. Quarterly Journal of Economics, v.107, p.407-437, May 1992.

MYRDAL, G. Economic theory and under-developed regions. London: Gerald


Duckworth, 1958.

ROBINSON, S. A note on the U-Hypothesis relating income inequality and economic


development, American Economic Review, v. 66(3), p.437-400, 1976.

ROMER, Paul M. Increasing returns and long run growth. Journal of Political
Economy,94, p. 1002-1037, oct. 1986.

SILVA, V. H. O. Crescimento econômico e equidade social nos municípios do Ceará:


uma evidência empírica entre 1991e 2000. Texto para Discussão, n. 32. CAEN/UFC,
2006.

SIMONSEN, M. H.; CYSNE, R. P. Macroeconomia. São Paulo: Editora Atlas, 1995.