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LITERATURA – WAGNER LEMOS


holandês Vincent Van Gogh (1853-1890), (auto-
retrato ao lado), criador de obras de pinceladas
marcadas, cores fortes, traços expressivos, formas
AS VANGUARDAS EUROPÉIAS contorcidas e dramaticidade. É justamente numa
Entre os inúmeros movimentos inovadores, surgidos nas referência de um crítico à sua obra que, em 1911, o
primeiras décadas do século XX, e que contribuíram movimento ganha o nome de expressionismo.
decisivamente para a constituição da chamada modernidade
artística, devemos destacar:
GRUPOS EXPRESSIONISTAS –
Futurismo O movimento vive seu auge a partir da fundação de dois
Movimento artístico e literário iniciado oficialmente em grupos em duas cidades alemãs: o Die Brücke (A Ponte),
1909 com a publicação do Manifesto Futurista do poeta de Dresden, que faz sua primeira exposição em 1905 e
italiano Filippo Marinetti (1876-1944) no jornal francês Le dura até 1913, e o Der Blaue Reiter (O Cavaleiro Azul),
Figaro. O texto rejeita o moralismo e o passado, exalta a de Munique, ativo de 1911 a 1914. Os artistas do
violência e propõe um novo tipo de beleza, baseada na primeiro grupo, entre eles os alemães Ernst Kirchner
velocidade. A obstinação do futurismo pelo novo é (1880-1938) e Emil Nolde (1867-1956), são agressivos,
tamanha que chega a defender a destruição de museus e atormentados e politizados. Têm por objetivo reunir
cidades antigas. Agressivo e extravagante, encara a revolucionários insatisfeitos com a arte acadêmica. Com
guerra como forma de “higienizar” o mundo. Trata-se do cores quentes, produzem cenas místicas e paisagens
primeiro grande movimento artístico de vanguarda do nuas de atmosfera pesada.
século XX. Já os ‘’cavaleiros’’ do segundo grupo, entre eles o russo
O futurismo produz mais manifestos – cerca de 30, de estabelecido em Munique Vassily Kandinsky (1866-
1909 a 1916 – do que obras, embora esses textos 1944), o alemão August Macke (1887-1914) e o suíço
também possam ser vistos como manifestação artística. Paul Klee (1879-1940) se voltam para a espiritualidade.
O movimento tem grande repercussão, principalmente na Livres de muitas obsessões de seus contemporâneos e
França e na Itália, onde muitos artistas, entre eles sob influência do cubismo e futurismo eles deixam as
Marinetti, se identificam com o fascismo nascente. formas figurativas que representam o real e rumam para
a abstração.
A violência concreta da 1ª Guerra Mundial (1914-1918) é
uma prova de que a violência, defendida pelos futuristas, Na América Latina, o expressionismo é principalmente
não é solução para o mundo e o movimento entra em uma via de protesto político. No Brasil, os artistas mais
decadência. Seu espírito de destruição influencia a importantes são Candido Portinari (1903-1962), que
concepção do movimento dadá. retrata o êxodo do Nordeste, Anita Malfatti (1896-1964) e
Lasar Segall (1891-1957).
No Brasil, o futurismo colabora para o desencadeamento
do modernismo, que dominou as artes a partir da A última grande manifestação de protesto expressionista
Semana de Arte Moderna de 1922. Os modernistas usam é Guernica (1937), do espanhol Pablo Picasso (1881-
algumas das técnicas e discutem as idéias do futurismo, 1973). Pintado em dois meses, é um enorme painel
mas rejeitam o rótulo, identificado com o fascista retratando o bombardeio da cidade basca de Guernica
Marinetti. por aviões alemães, fiéis às tropas de Francisco Franco,
durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939). Mostra
Expressionismo sua visão particular da angústia do ataque, com a
Nas artes plásticas propõe ruptura com o academismo e sobreposição de figuras como um cavalo morrendo, uma
o impressionismo. É uma forma de ‘‘recriar’’ o mundo, em mulher presa em um edifício em chamas, uma mãe com
vez de simplesmente captá-lo ou moldá-lo de acordo com uma criança morta e uma lâmpada no plano central.
as leis da arte tradicional. As principais características Surrealismo
são: distanciamento da pintura acadêmica, ruptura com a
ilusão de tridimensionalidade, resgate das artes A pintura pode ser considerada a principal manifestação
primitivas e uso arbitrário de cores fortes. Os artística do surrealismo. Rejeitada como meio de
expressionistas usam também formas mais sintéticas e representação do mundo concreto ou da emoção do
produzem uma pintura áspera devido à grande artista, ela deve expressar o inconsciente.
quantidade de tinta nas telas. Muitas retratam seres O movimento divide-se em duas vertentes. Uma mantém
humanos solitários e sofredores. Com intenção de captar o caráter figurativo, mas produz formas inusitadas a partir
estados mentais, vários quadros exibem personagens da distorção ou justaposição de imagens conhecidas. É
fisicamente deformados, como o ser humano comum figuras que “flutuam” no quadro ou que
desesperado sobre uma ponte, que se vê no estabelecem uma nova proporção entre objetos e
óleo O Grito (1893), do norueguês Edvard pessoas. Um exemplo é A Persistência da Memória, de
Munch (1863-1944), um dos expoentes do Salvador Dali, um dos expoentes do movimento. Num
movimento. espaço representado convencionalmente, relógios
parecem “derreter”. Também são exemplos as telas de
René Magritte, como Magia Negra, onde representa sua
O principal precursor do movimento é o mulher metade estátua, metade humana. Em Golconde,

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gotas de chuva ganham forma de homens de chapéu e O movimento surge em Paris, em 1907, com o espanhol
capote. Pablo Picasso (1881-1973), um dos expoentes da pintura
Os artistas da outra vertente radicalizam o automatismo do século XX. Em sua tela Les Demoiselles d’Avignon
psíquico, para que o inconsciente se expresse (As Senhoritas de Avignon), na qual se percebe clara
livremente, sem controle da razão. Entre os expoentes influência da arte africana, os corpos das mulheres nuas
estão Juan Miró e Max Ernst. As telas do primeiro se não exibem os traços da pintura convencional.
caracterizam por composições repletas de formas O cubismo é influenciado pelo pós-impressionista francês
coloridas construídas com linhas fluidas e curvas. O Paul Cézanne (1839-1906), que começa a representar a
Carnaval de Arlequim e A Cantora Melancólica são duas natureza a partir de formas semelhantes às geométricas.
de suas principais obras. Max Ernst explora a colagem O outro representante do movimento é o ex-fauvista
de papéis variados, como gravuras antigas e revistas, francês Georges Braque (1882-1963), também
para criar universos fantásticos. influenciado pela arte africana, que em 1908, após ver
O surrealismo atrai alguns escultores. Um dos principais Les Demoiselles d’Avignon, pinta Casas em l’Estaque.
é o suíço Alberto Giacometti (1901-1966), autor da peça Essa primeira fase do movimento, chamada de
de madeira, arame, fios e vidro O Palácio às Quatro da cézanniana ou protocubista, termina em 1910. Começa
Manhã. então o cubismo propriamente dito, conhecido como
No Brasil, há traços surrealistas em algumas obras de analítico. Nesse momento radical, a forma do objeto é
Tarsila do Amaral (1886-1973), como na tela Abaporu, submetida à superfície bidimensional da tela. O resultado
(figura abaixo), final se aproxima da abstração. Na terceira e última
etapa, de 1912 a 1914, o cubismo sintético ou de
Ismael Nery (1900- colagem constrói quadros com jornais, tecidos e objetos,
1934), cuja tela Nu além da tinta. Os artistas procuram tornar as formas
mostra uma mulher novamente reconhecíveis.
que é branca de um
lado e negra do outro, Com o início da 1ª Guerra Mundial, em 1914, Braque e
e Cícero Dias (1908-). Picasso se afastam e o cubismo perde força. Picasso
No início da carreira, passa então por uma fase de retorno à tradição. O
Dias pinta Eu Vi o espanhol Juan Gris (1887-1927) e outros artistas menos
Mundo, Ele Começava significativos tentam dar continuidade ao movimento.
no Recife, obra que Mas, em 1918, o arquiteto e pintor francês de origem
apresenta todas as suíça Le Corbusier (1887-1965) e o pintor francês
características Ozenfant (1886-1966) decretam seu fim, com a
surrealistas. Entre os publicação do manifesto Depois do Cubismo. Apesar de
escultores o negado por várias tendências que o sucedem, o cubismo
movimento influencia continua na base de movimentos como o purismo
(composto por Le Corbusier e Ozenfant) e o grupo De
Stijl (O Estilo), formado em 1917 pelo holandês Piet
Maria Martins (1900-1973). Suas peças têm caráter Mondrian (1872-1944).
fantástico, como o bronze O Impossível, em que bustos O cubismo se manifesta ainda na arquitetura,
humanos têm lanças no lugar da cabeça. especialmente na obra de Corbusier, e na escultura. No
teatro, restringe-se à pintura de cenários de peças e
Cubismo balés feita por Picasso, como é o caso do balé Parade,
com roteiro de Jean Cocteau (1889-1963) e música de
Movimento em princípio das artes plásticas, sobretudo da
Erik Satie (1866-1925).
pintura, que, a partir da primeira década do século XX,
rompe com a perspectiva adotada pela arte ocidental No Brasil, ele só repercute após a Semana de Arte
desde a Renascença. Entre todos os movimentos deste Moderna de 1922. Pintar como os cubistas é considerado
século, é o que tem influência mais ampla. apenas um exercício técnico. Não há, portanto, cubistas
brasileiros, mas em quase todos os modernistas se vêem
Ao pintar, os artistas achatam os objetos e com isso
influências do movimento.
eliminam a ilusão de tridimensionalidade. Mostram,
porém, vários ângulos da figura ao mesmo tempo. Eles É o caso de Tarsila do Amaral (1897-1973), Anita
retratam as formas geométricas, como cones, cubos, Malfatti (1896-1964) e Di Cavalcanti (1886-1976).
esferas e cilindros, que fazem parte da estrutura de
figuras humanas, instrumentos musicais, garrafas e todos PRÉ-MODERNISMO
os outros objetos que pintam. Por isso, o movimento
ganha ironicamente o nome de cubismo. ORIGENS
Figura e fundo tendem a se confundir devido ao propósito As duas primeiras décadas do século XX não registram, no
dos artistas de eliminar a ilusão de profundidade. Com o Brasil, convulsões semelhantes às ocorridas na Europa. A
mesmo objetivo, as cores em geral se limitam ao preto, abolição da escravatura e o golpe republicano pouco haviam
cinza, marrom e ocre. alterado as estruturas básicas do país. A economia - ainda

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voltada para as necessidades dos países europeus - o primeiro da linguagem, o segundo da estrutura do romance
assentava-se na dependência externa e no domínio interno - para questionar a realidade brasileira e debater o seu
dos cafeicultores. futuro. Estão muito próximos do ensaio e o livro Os sertões
se tornará o maior divisor de águas em nossa cultura,
Porém, algumas mudanças iam se desenhando. A durante todo o século XX.
urbanização, o crescimento industrial e a imigração
modificam a fisionomia da sociedade brasileira. Nas cidades, Ou seja, pré-modernista propriamente dito, no sentido de
começa a se formar uma classe média reformista. usar recursos técnicos ou temas inovadores, antes da
Simultaneamente, emerge uma massa popular insatisfeita e eclosão da Semana de Arte Moderna, somente (e até certo
propensa a revoltas irracionais como, por exemplo, a ponto) o poeta Augusto dos Anjos. Em sua obra, apesar da
rebelião contra a vacina obrigatória. mistura de influências cientificistas, parnasianas e
simbolistas, há, de quando em quando, um inesperado gosto
Na zona rural, produzem-se confrontos de maior ou menor pelo coloquial e pela "sujeira da vida", que a coloca como
intensidade dentro das classes dominantes, das violentas precursora de uma das vertentes da poesia modernista.
mas restritas lutas entre coronéis em determinadas regiões
até a verdadeira guerra civil - que se trava no Rio Grande do A DESIGNAÇÃO DO PERÍODO LITERÁRIO
Sul - entre republicanos e maragatos. Não esqueçamos
também que, nesse período, irrompem as revoluções Por causa do ecletismo* da época - em que várias correntes
camponesas de Canudos (1896-1897) e do Contestado e estilos se chocam e confundem, e vários autores
(1912). apresentam uma mescla de academicismo e inovação -
torna-se quase impossível rotular o período, enfeixá-lo
CARACTERÍSTICAS dentro de um conceito abrangente e único. A necessidade
pedagógica de uma designação para estas duas décadas
O movimento pendular da sociedade brasileira entre que antecedem a Semana, levou o crítico Alceu de Amoroso
imobilismo e modernização seria transferido para a literatura. Lima - já nos anos de 1950 - à criação do termo pré-
Com efeito, os primeiros vinte anos do século são marcados modernismo.
tanto pela presença de resíduos culturais do século XIX
como pela busca de novas formas de expressão. E, acima Trata-se de um conceito que não abarca a complexidade
de tudo, por um desejo individual - e nem sempre explícito - estética e ideológica das obras produzidas então. Contudo,
de redescoberta crítica do Brasil. De um Brasil esquecido, exigências didáticas e ausência de outra classificação
ignorado e, por vezes, doente, mas que precisa ser satisfatória terminaram cristalizando a proposta daquele
mostrado, discutido, interpretado. A grosso modo, podemos historiador literário. E assim, pré-modernismo passou a
delimitar quatro tendências no período: indicar todos os textos neo-realistas, as interpretações do
Brasil e a poesia anunciadora da rebelião vanguardista.
Parnasianos: ainda imperantes, com suas idéias Ecletismo: mistura de tendências, estilos e visões.
formalistas, sua concepção da literatura como "sorriso da
sociedade", sua linguagem retórica e bacharelesca. Olavo
Bilac, na poesia, e Coelho Neto, na prosa, são os "príncipes"
idolatrados. Coelho Neto escreve um sem-número de
romances que obtêm grande sucesso, menos pela qualidade
narrativa, e mais pelos intoleráveis artifícios verborrágicos de AUTORES PRÉ-MODERNISTAS
seu estilo.
Simbolistas: grupo relativamente inexpressivo que ainda 1. EUCLIDES DA CUNHA
sonha com neves e neblinas e escuta os doces violinos de
Verlaine. Nas décadas posteriores, alguns jovens poetas VIDA: Nasceu no estado do Rio de Janeiro
talentosos como Manuel Bandeira, Cecília Meireles e Mário e freqüentou a Escola Militar, de onde seria
Quintana iniciarão suas carreiras, demonstrando uma forte expulso ainda como cadete por afrontar o
dívida para com estes simbolistas retardatários. ministro da Guerra do Império. Proclamada a
Realistas ou neo-realistas: prosadores cujos República, voltou ao Exército, formando-se
procedimentos literários são tipicamente realistas ( em engenharia. Por problemas políticos e
objetividade, verossimilhança, crítica social, análise pessoais, acabou se desligando
psicológica, etc.) Destacam-se, dentro desta linha, Monteiro voluntariamente da força militar. Em 1897 é enviado por O
Lobato, com o resgate do caboclo paulista; Lima Barreto, Estado de São Paulo a Canudos, como correspondente de
com a fixação do universo suburbano carioca; e Simões guerra, tendo assistido à derrota dos sertanejos. Durante
Lopes Neto, que incorpora à ficção brasileira o vaqueano do quatro anos escreveria um documento amargurado sobre o
pampa rio-grandense, além de registrar-lhe a fala regional. conflito: Os sertões, que viria à luz em 1902. Alguns anos
Estes narradores exerceriam poderosa influência sobre a depois - em plena glória pública e literária - foi assassinado
geração dos romancistas de 1930. por questões de honra.

Intérpretes do Brasil: Compõem-se de dois representantes, OBRAS PRNCIPAIS: Os sertões (1902), Contrastes e
Euclides da Cunha e Graça Aranha. Valem-se da literatura - confrontos (1907), À margem da história (1909)

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justas e brilhantes; as teorias, nem sempre. Nelson Werneck
Antes de acompanhar a quarta e última expedição das Sodré explicita a ambigüidade:
Forças Armadas contra os rebeldes de Canudos - vistos até Existe em Euclides da Cunha um dualismo singular:
ali como monarquistas ferozes, desejosos de minar as bases enquanto observa, testemunha, assiste, conhece por si
republicanas através de uma ação restauradora - Euclides mesmo, tem uma veracidade, uma importância, uma
da Cunha escreve um veemente artigo: A nossa Vendéia. profundidade e uma grandeza insuperáveis; enquanto
Nele, compara os fanáticos de Antônio Conselheiro aos transmite a ciência alheia, ainda sobre o que ele mesmo viu,
camponeses reacionários que, sob o comando de conheceu, descai para o teorismo vazio, para a digressão
aristocratas, procuraram destruir a República francesa, logo subjetiva, para a ênfase científica, para a tese desprovida de
após a Revolução. demonstração.
O artigo traduzia a opinião geral da população litorânea a Dentro do esquema determinista e positivista, a obra se
respeito dos acontecimentos. E é preparado para se deparar divide em três partes, delimitadas com rigor:
com esta horda anti-republicana que Euclides parte para o
sertão baiano. Seus artigos jornalísticos, escritos no calor da
hora, ainda traduzem tal perspectiva. Porém, ao retornar A terra - O homem - A luta
para o núcleo de poder do país - após a vitória do Exército -
suas certezas começam a se desfazer. Na primeira parte temos a visão cientificista do Naturalismo:
Escrever Os sertões passa a ser uma necessidade vital de o meio geográfico opressor, com sua vegetação pobre, o
compreensão da guerra. Mais ainda, de compreensão do chão calcinado, a imobilidade e repetição da paisagem árida.
país que possibilitara a eclosão de evento tão terrível. Na segunda, a questão racial avulta, interpenetrando-se com
Perseguido pelas imagens do confronto, atormentado pela influências mesológicas. Aí, a duplicidade de Euclides
busca de uma explicação racional para o mesmo, ele manifesta-se diretamente. Existe o sertanejo "sub-raça":
passará vários anos produzindo a obra que mudaria para O sertanejo do Norte é, inegavelmente, o tipo de uma
sempre a visão que os brasileiros tinham de si mesmos, subcategoria étnica já constituída.(...) De sorte que o mestiço
como povo e como nação. - traço de união entre as raças, breve existência individual
em que se comprimem esforços seculares - é quase sempre
A base científica um desequilibrado. (...) E o mestiço - mulato, mameluco ou
Espírito científico, tenta dar base sólida para o que cafuzo - menos que um intermediário, é um decaído, sem a
observara. Estuda Geografia, Botânica, Geologia, Psicologia, energia física dos ascendentes selvagens, sem a altitude
Sociologia, etc. Obviamente as fontes disponíveis são todas intelectual dos ancestrais superiores.
européias, e com elas acredita estar explicando a existência Este ser "degenerescido", cuja psicologia era determinada
física, social e humana do sertão brasileiro. Alguns destes por elementos geográficos e biológicos, produziria um líder
princípios teóricos têm fundamento, outros, no entanto que seria a síntese de toda a "deformação" do mundo
,pertencem ao que se chama ideologia do colonialismo, ou camponês nordestino: Antônio Conselheiro. "A sua biografia
seja, ao conjunto de representações e pensamentos - escreve Euclides - compendia e resume a existência da
desenvolvidos na Europa imperialista das últimas décadas sociedade sertaneja". É o caráter de personagem-símbolo
do século XIX. A visão cientificista, assumida por Euclides, que se destaca na interpretação do chefe dos fanáticos:
poderia ser esquematizada assim:
Todas as crenças ingênuas, do fetichismo bárbaro às
aberrações católicas, todas as tendências impulsivas das
DETERMINISMO raças inferiores, livremente exercidas na indisciplina da vida
sertaneja se condensaram no seu misticismo feroz e
Geográfico: extravagante. Ele foi, simultaneamente, o elemento ativo e
- o homem como produto do meio natural. - o papel passivo da agitação que surgiu.
preponderante do clima na formação do meio. - a
impossibilidade civilizatória em zonas tórridas, como o Mas, às teses colonialistas de Gumplowitcz (a maior fonte
sertão. teórica de Os sertões) e outros, sobrepunham-se as imagens
recolhidas in loco, na zona deflagrada. E as imagens eram
Racial: mais densas que a explicação "científica" posterior. O
- os cruzamentos raciais enfraquecem a espécie. - a sertanejo é visto como um titã:
miscigenação conduz os homens à bestialidade e a toda
espécie de impulsos criminosos. - o sertanejo é o caso típico O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo
de hibridismo racial. exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral.
Histórico: A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista revela
- uma cultura como a sertaneja que, por ausência de contato o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempenho, a
com a civilização litorânea, não reproduz o progresso, estrutura corretíssima das organizações atléticas.(...) É
permanecerá historicamente atrasada, tendendo a desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo,
"anomalias", a exemplo de Canudos. reflete no aspecto a fealade típica dos fracos.(...)
Ao fundamentar-se nesses postulados, o autor envolveu o Entretanto, toda esta aparência de cansaço ilude.
seu texto numa contradição: as observações pessoais são

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Naquela organização combalida operam-se, em segundos, lanhos, escaras e escalavros - a vitória tão longamente
transmutações completas. Basta o aparecimento de qualquer apetecida decaída de súbito. Repugnava aquele triunfo.
incidente exigindo-lhe o desencadear das energias Envergonhava.
adormidas. O homem transfigura-se. Empertiga-se, (...) e da
figura vulgar do tabaréu canhestro, reponta inesperadamente A sua conclusão é de que assistira a uma tragédia nacional.
o aspecto dominador de um titã acobreado e potente, num Uma tragédia que traduzia a incapacidade do Brasil
desdobramento surpreendente de força e agilidade litorâneo, mais ou menos desenvolvido, ocidentalizado e
extraordinárias. adaptado (a grosso modo) ao mundo moderno, de entender
o grande sertão, imobilizado no tempo e na História, com
A luta suas hordas analfabetas, facilmente condutíveis por líderes
messiânicos enlouquecidos. Por isso, ele vai encerrar o seu
Finalmente, a terceira e mais importante parte da obra é A
livro de forma quase panfletária:
luta. O conflito entre a sociedade arcaica e a urbana já não
É que ainda não existe um Maudsley para as loucuras e os
surge como uma guerra entre monarquistas e republicanos.
crimes das nacionalidades...
Euclides da Cunha sabe estar contemplando uma autêntica
guerra civil. E descreve-a sombriamente. Não esconde a
O GÊNERO LITERÁRIO E O ESTILO
comoção diante da guerrilha sertaneja e das sucessivas
derrotas que ela impõem às tropas oficiais, diante dos
Os sertões é uma mescla de romance e ensaio científico,
banhos de sangue diários, do grito de guerra dos jagunços:
relato histórico e reportagem jornalística, o que torna
"Avança, fraqueza do governo!"; e diante das rezas e
impossível enquadrá-lo nos limites de um gênero literário.
cânticos que emergem do arraial, daquela "Tróia de taipa",
Trata-se de um obra de exceção. Esta "epopéia às avessas"
ao anoitecer, quando todo o alto comando julgava Canudos
distingue-se do mero documento com veleidades científicas
já sem resistência. A violência desse genocídio é quase
pela presença e uso intencional da linguagem artística. O
insuportável:
estilo é trabalhado, pomposo, enfático, cheio de antítese e
Os novos combatentes imaginaram-na (a guerra) extinta
comparações. Guilhermino César notou que o estilo sofre
antes de chegarem a Canudos. Tudo o indicava. Por fim os
variações: é mais retórico nas passagens científicas e mais
próprios prisioneiros que chegavam e eram os primeiros que
simples nas demais partes.
apareciam. Notou-se apenas, sem que se explicasse a
IMPORTÂNCIA DE EUCLIDES DA CUNHA
singularidade, que entre eles não surgia um único homem
feito. Os vencidos, varonilmente ladeados de escoltas, eram
Apesar de alguns equívocos ideológicos, ditados pelas
fragílimos; meia dúzia de mulheres tendo ao colo crianças
circunstâncias da época, Euclides da Cunha representa um
engelhadas como fetos, seguidas dos filhos maiores, de seis
corte na cultura urbana, tradicionalmente repetidora dos
a dez anos.(...)
modelos europeus. Sua obra - e, em especial, Os sertões -
Um dos pequenos - franzino e cambaleante - trazia à
tem a importância histórica da obra de Machado de Assis.
cabeça, ocultando-a inteiramente porque descia até os
Enquanto este denunciava a falta de autenticidade dos
ombros, um velho quepe reiúno, apanhado no caminho. O
grupos dominantes do litoral, Euclides descia por um interior
quepe largo e grande demais oscilava grotescamente a cada
desconhecido, transformando o espanto da descoberta das
passo sobre o busto esmurrado que ele encobria por um
mazelas do sertão num "grito de aviso à consciência
terço. E alguns espectadores tiveram a coragem singular de
nacional". O seu livro monumental acabaria influenciado, de
rir. A criança alçou o rosto, procurando vê-los. O riso
forma decisiva, os autores nordestinos de 1930 e ainda João
extinguiu-se: a boca era uma chaga aberta de lado a lado
Guimarães Rosa.
por um tiro.
2. GRAÇA ARANHA
No desenvolvimento de A luta - a narração acompanha as
Vida: Nasceu no Maranhão, filho de uma
quatro expedições punitivas até o grande massacre final - vai
família burguesa, em 1868. Estudou Direito
se avolumando uma denúncia apaixonada contra a inépcia e
no Recife, exercendo por algum tempo a
a insanidade do governo, representante da civilização. Na
magistratura, no interior do Espírito Santo,
visão das elites do litoral, os jagunços eram facínoras. Para
onde recolheu material para escrever. Em
Euclides eram irmãos que deviam ser reintegrados à
seguida, entrou para o Itamarati, atuando
nacionalidade. Sob este prisma, as últimas páginas ganham
em várias missões diplomáticas
uma força trágica impressionante. Os soldados penetram no
importantes. Consagrado com o romance Canaã, ingressou
arraial:
ainda jovem na Academia Brasileira de Letras, com a qual
romperia escandalosamente em 1924. Durante a Semana de
Os combatentes contemplavam-nos entristecidos.
Arte Moderna, foi o único intelectual de renome a apoiar os
Surpreendiam-se; comoviam-se. O arraial, 'in extremis',
vanguardistas. Morreu na cidade do Rio de Janeiro, já
punha-lhes adiante, naquele armistício transitório, uma
superado como escritor e como pensador, em 1931.
legião desarmada, mutilada, faminta e claudicante. Custava-
lhes admitir que toda aquela gente frágil saísse tão
Obras principais: Canaã (1902); A estética da vida (1921)
numerosa ainda dos casebres bombardeados durante três
meses. Contemplando-lhes os rostos baços, os arcabouços
À semelhança de Os sertões, também Canaã agita os
esmirrados e sujos, cujos molambos em tiras não encobriam
círculos letrados do país quando vem à luz, em 1902. Sua

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formulação surpreende por mesclar o relato convencional muito mais um homem do século XIX do que um radical
com o debate ideológico explícito, apresentando algo vanguardista. No entanto, é o único intelectual da velha
desconhecido no Brasil: o romance-ensaio, o romance de guarda que apoiará o movimento.
tese ,isto é, um romance onde as idéias são mais Voltando da Europa em 1921, encontra-se com o grupo de
importantes que a própria narrativa. modernistas paulistas. As aproximações são rápidas. Os
Trata-se de uma espécie de confronto de perspectivas entre jovens vêem nele uma das grandes figuras da cultura
dois imigrantes alemães - Milkau e Lentz - recém-chegados brasileira e que pode garantir repercussão ao evento que
ao interior do Espírito Santo para trabalhar como colonos. estão programando. Graça Aranha aceita o convite e abre o
Com desenvoltura incomum, emitem as suas teorias sobre o "primeiro festival" da Semana, proferindo a conferência A
papel da imigração no futuro do Brasil, sobre o atraso social função estética da Arte Moderna. Seu texto é confuso,
da nação e suas chances históricas, e, por fim, acabam apontando um total desconhecimento do verdadeiro
discutindo o próprio sentido da vida. significado da nova arte de vanguarda.
Mesmo não se integrando aos círculos mais renovadores e
Lentz acena com idéias colonialistas. O Brasil seria um país experimentalistas do Modernismo, o autor de Canaã sente-
sem expressão pela presença dominante das raças se um artista moderno e, em 1924, causa escândalo
mestiças. A tarefa do imigrante consistiria em manifestar a nacional ao romper espetacularmente com os seus colegas
superioridade da raça ariana. No plano pessoal, há em Lentz da Academia Brasileira de Letras, porque os acadêmicos
uma nostalgia "prussiana": ele crê num universo dividido em continuam rejeitando as inovações artísticas desencadeadas
"guerreiros" - seres fortes, cheios de vontade e etnicamente durante a Semana. A partir de então sua fama entrará em
puros - e a massa, grupo amorfo e incapaz. declínio e hoje é um nome praticamente esquecido.

Já Milkau defende a integração do imigrante na realidade


brasileira, seja do ponto de vista social, seja do ponto de 3. LIMA BARRETO
vista racial (sonha com uma democracia étnica). A isso Vida: Filho de um operário e de uma
acrescenta uma filosofia individual baseada num vago professora primária, ambos mulatos,
socialismo cristão, no qual imperam as idéias de amor, Afonso Henriques de Lima Barreto
solidariedade e piedade. Um mundo de paz e harmonia, eis nasceu no Rio de Janeiro em 1881. Cedo
o seu projeto, colocado visionariamente no futuro do Brasil, ficou órfão de mãe e passou a freqüentar
terra prometida, Canaã. a Colônia dos Alienados, um asilo de
Condicionado pelo ambiente brasileiro, Lentz, no final da loucos onde seu pai exercia a função de
obra, acaba por se mostrar humano e generoso. O fato almoxarife. Graças a protetores, Lima
significa uma adesão, embora involuntária às teses de seu Barreto concluiu o secundário e iniciou os
compatriota. E Milkau, de certa maneira, torna-se o vencedor estudos superiores na Escola Politécnica. Por ironia do
do debate. Ao contrário do pessimismo de Euclides da destino, seu pai enlouqueceu e acabou internado no próprio
Cunha, fica visível o otimismo de Graça Aranha quanto ao asilo onde trabalhava. Lima Barreto encarregou-se de
destino luminoso que aguarda o país. sustentar a família, abandonando os estudos e conseguindo
um emprego burocrático na Secretaria de Guerra. Ao mesmo
Um romance fracassado tempo, começou a colaborar com quase todos os jornais do
Como romance, Canaã fracassa. Prejudica-o não só o Rio de Janeiro. Todavia seu espírito inquieto e rebelde, seu
caráter de ensaio, como também a ausência de nexo real inconformismo com a mediocridade reinante, suas críticas
entre muitos episódios, que se tornam gratuitos. A mordazes aos letrados nativos tornaram-lhe bastante difícil a
intromissão teórica do narrador provoca ainda mais a vida econômica. Além disso, manifestou-se contra ele o
desestruturação do texto. O debate entre Milkau e Lentz preconceito de cor. Para fugir das complicações pessoais e
sobre a função do imigrante guarda certo interesse. Vê-se aí sociais, entregou-se então de corpo e alma ao álcool. Suas
a ideologia justificatória da imigração. Mas, quando as idéias contínuas depressões o conduziram várias vezes ao hospital
sociais resvalam para o campo da argumentação metafísica, de alienados mentais. Morreria de um colapso cardíaco, em
o malogro literário parece ampliar-se. Além de tudo, o estilo plena miséria aos quarenta e um anos, em 1922. De há
do livro - influência da época - prima pelo excesso verbal e muito já não escrevia coisas importantes e caíra no
pela ornamentação, sem atingir o vigor poético e a esquecimento em vida. Somente na década de 1970 sua
grandiosidade retórica da linguagem de Euclides da Cunha. obra voltaria a circular no país

Obra de pretensão filosófica, A estética da vida, não Obras principais: Recordações do escrivão Isaías Caminha
acrescenta nada a sua carreira e reforça os críticos que (1909) Triste fim de Policarpo Quaresma (1911) Numa e
apontam no pensador Graça Aranha a falta de clareza e de Ninfa (1915) Vida e morte de M .J. Gonzaga de Sá (1919) Os
rigor intelectual. bruzundangas (1923) Clara dos Anjos (1924) Cemitério dos
vivos (1957 - edição póstuma)
A PARTICIPAÇÃO NA SEMANA DE 1922 No Rio de Janeiro do início do século, dominado
culturalmente pelos letrados tradicionais, a contestação
Ressalte-se por fim, a sua participação na Semana de Arte artística se faz de forma bastante problemática: o
Moderna, da qual é um dos líderes, embora por seus conservadorismo parece asfixiar o novo. Daí as dificuldades
padrões estéticos e ideológicos, possa ser considerado e provocações que Lima Barreto enfrenta ao produzir uma

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LITERATURA – WAGNER LEMOS


literatura inteiramente desvinculada dos padrões e do gosto suposta vulgaridade. Décadas depois, podemos constatar
vigentes. que Lima Barreto não é apenas o romancista mais
importante do período, como também aquele que mais se
UM ROMANCISTA DOS SUBÚRBIOS aproxima da expressão prosaica, conquistada pela geração
Numa opção voluntária, abandona o mundo helênico, os de 1922.
deuses olímpicos para revelar sobretudo a tristeza dos É uma brutal mudança de enfoque. Poucos aceitam estes
subúrbios, com sua gente humilde: funcionários públicos contos e romances que desvelam a vida cotidiana das
aposentados, jornalistas pobretões, tocadores de violão, classes populares, sem qualquer idealização, ainda que
raparigas sonhadoras, etc. Além disso - e como negação da cheios de simpatia humana para os protagonistas mais
época - impregna a sua obra com uma justa preocupação sofridos. Isso o diferenciava, por exemplo de Aluísio
com os fatos históricos e com os costumes sociais, tornando- Azevedo, que também enfocara as massas urbanas, mas
se uma espécie de cronista apaixonado da antiga capital sob um ângulo enauseado. Lima Barreto experimenta grande
federal, seguindo a linha aberta por Manuel Antônio de ternura pelos desvalidos e humilhados, fugindo, no entanto,
Almeida, sessenta anos antes. do sentimentalismo populista que é o maior perigo dessa
É uma brutal mudança de enfoque. Poucos aceitam estes literatura a favor dos pobres.
contos e romances que desvelam a vida cotidiana das
classes populares, sem qualquer idealização, ainda que Triste fim de Policarpo Quaresma
cheios de simpatia humana para os protagonistas mais
A obra-prima de Lima Barreto não é perturbada, - ao
sofridos. Isso o diferenciava, por exemplo de Aluísio
contrário das demais, - pela caricatura ou pela intromissão
Azevedo, que também enfocara as massas urbanas, mas
opiniática do narrador e assim o seu realismo se torna mais
sob um ângulo enauseado. Lima Barreto experimenta grande
complexo. Conta-se nela o drama de um velho aposentado,
ternura pelos desvalidos e humilhados, fugindo, no entanto,
Policarpo Quaresma, em sua luta ingênua pela salvação do
do sentimentalismo populista que é o maior perigo dessa
Brasil. Nacionalista xenófobo, propõe a adoção do tupi-
literatura a favor dos pobres.
guarani como língua oficial, alimenta-se apenas com
comidas brasileiras, recebe as visitas gesticulando e
A DENÚNCIA SOCIAL E A CARICATURA
chorando como um verdadeiro índio goitacá, intenta
O caráter de denúncia social de seus textos traz esta
fracassadas pesquisas folclóricas.
originalidade: ele vê o mundo com o olhar dos derrotados,
dos que sofrem as injustiças, dos que são feridos pelos
Depois de uma passagem pelo hospício, causada pela
preconceitos. O preconceito de cor, especialmente, é o
distância entre o seu nacionalismo ufanista e a realidade, ele
motivo central de sua indignação. Ele conhece bem a
resolve adquirir um sítio, para plantar e, acima de tudo,
estrutura discriminatória da sociedade brasileira: com sua
comprovar a máxima de que, em se plantando, tudo daria
pele de mulato sentiu muitas vezes a rejeição aberta ou sutil.
nas nossas férteis terras. Também nessa experiência o
Por essa razão, protestará com veemência. Clara dos Anjos
protagonista fracassa. Só que agora sua bizarria vai cedendo
e Recordações do escrivão Isaías Caminha são libelos
lugar à percepção de que os problemas do país eram
contra o racismo e ainda hoje tem validade.
maiores do que ele supunha. A questão da má distribuição
No entanto, os esplêndidos registros dos subúrbios e de
da terra, por exemplo:
suas criaturas ofendidas têm um contraste na formulação
estética gerada pelo seu ódio aos poderosos, aos burgueses
Mas de quem era então tanta terra abandonada
e aos intelectuais da época - a caricatura. Usa e abusa
que se encontrava por aí? (...) Por que estes latifúndios
dessa técnica, ridicularizando o "grand monde" intelectual,
improdutivos?
burocrático e político do Rio de Janeiro.
A caricatura aparece tanto nas narrativas longas quanto nas
O caso de Policarpo passa do cômico ao dramático. Tanto o
crônicas publicadas em jornais proletários. Trata-se da parte
seu sincero desejo de progresso para a nação quanto a
mais perecível de sua obra, embora algumas de suas farpas
consciência crítica, que aos poucos vai adquirindo, lhe dão
sejam engraçadas até os nossos dias. Ao debruçar-se sobre
grande autenticidade humana e social. Ao estourar a Revolta
pessoas existentes, com o intuito de acentuar-lhes os traços
da Armada, em 1893, ele já sabe algumas das verdadeiras
grotescos, ridículos ou criminosos, compromete a verdade
causas do atraso brasileiro. Mesmo assim, alista-se entre os
artística de seus textos. Sem função dramática, a caricatura
voluntários defensores do regime republicano, chefiado por
acaba espelhando apenas a amargura íntima e o
Floriano Peixoto. Ele acredita nos princípios do marechal e
ressentimento do escritor.
esta será a sua última ilusão.

Vitorioso e dentro de seu estilo bonapartista, o Presidente da


A SIMPLICIDADE DO ESTILO
República inicia violenta perseguição aos derrotados, os
A sua rebeldia contra a estética dominante se manifesta
quais são impiedosamente fuzilados. Policarpo lhe escreve
também na questão do estilo. Despreza a retórica
então uma carta áspera e lúcida, solicitando que o terrorismo
bacharelesca e parnasiana e escreve com simplicidade, até
de Estado seja interrompido. A resposta do ditador jacobino
com certo desleixo voluntário, querendo aproximar a escrita
vem em seguida: o "visionário" Policarpo Quaresma é preso,
da linguagem coloquial. Acusado de escritor incorreto e
sem qualquer base legal, mandado para uma ilha e lá
incapaz de lidar com os padrões lingüísticos da elite culta,
sua obra será julgada gramaticalmente e condenada por

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LITERATURA – WAGNER LEMOS


condenado à morte por fuzilamento. A sua compreensão ela; e seguiu serenamente ao encontro de Ricardo Coração
derradeira sobre tudo o que havia vivido é extraordinária: dos Outros.

Iria morrer, quem sabe se naquela noite mesmo? E que tinha


feito de sua vida? Nada. Levara toda ela atrás da miragem 4. MONTEIRO LOBATO
de estudar a pátria, por amá-la e querê-la muito, no intuito de
contribuir para a sua felicidade e prosperidade. Gastara a Vida: Nasceu em Taubaté, 1882,
sua mocidade nisso, a sua virilidade também; e, agora que descendente de fazendeiros. Em 1904,
estava na velhice, como ela o recompensava, como ela o formou-se na Academia de Direito de
premiava, como ela o condecorava? Matando-o. São Paulo e três anos depois é
Desde 18 anos que o tal patriotismo o absorvia e por ele nomeado promotor em Areias, no interior
fizera a tolice de estudar inutilidades. Que lhe importavam os do estado. Com vinte e nove anos,
rios? Eram grandes? Pois que fossem... Em que lhe herdou uma fazenda de seu avô e
contribuiria para a felicidade saber o nome dos heróis do resolveu administrá-la. A experiência
Brasil? Em nada. O importante é que ele tivesse sido feliz. malogra, mas seus artigos em O Estado
Foi? Não. Lembrou-se das suas coisas de tupi, do folclore, de São Paulo granjeiam-lhe prestígio.
de suas tentativas agrícolas...Restava disso tudo em sua Em 1917, atacou furiosamente a arte moderna por causa da
alma uma satisfação?? Nenhuma! Nenhuma! exposição de Anita Malfatti, num artigo célebre, Paranóia ou
E quando o seu patriotismo se fizera combatente, o que mistificação, onde mostrava grande ignorância a respeito da
achara? Decepções. Onde estava a doçura de nossa gente? pintura de vanguarda. O artigo gerou imediata reação nos
Pois ele não a viu combater como feras? Pois não a via círculos de jovens que buscavam a renovação estética em
matar prisioneiros inúmeros?(...) São Paulo. Neste mesmo ano, mudou-se da fazenda para a
Contudo, quem sabe se outros que lhe seguissem as capital paulista e, em seguida, iniciou suas atividades
pegadas não seriam mais felizes? E logo respondeu a si empresariais na Companhia editorial Monteiro Lobato.
mesmo: mas como? Se não se fizera comunicar, se nada Revolucionou a área, vendendo livros em mercearias,
dissera e não prendera o seu sonho, dando-lhe corpo e armazéns e bodegas, espalhadas por todo o país. Foi um
substância? dos primeiros editores a colorir as capas dos livros, além de
ilustrá-los. Por outro lado, a utilização por Rui Barbosa, em
A mudança que se opera em Policarpo - da alienação sua campanha presidencial, da figura de Jeca Tatu como
ufanista à consciência real do país - constitui o cerne da símbolo da questão social brasileira transformou Urupês,
narrativa.. Sua visão final remete-o para a análise corrosiva livro de contos de Lobato, em estrondoso sucesso.
das mitologias dos grupos dirigentes e das mistificações de Em 1921, publicou suas primeiras histórias infantis que mais
que fora vítima. Quando compreende o papel da ideologia no tarde seriam reelaboradas. As reinações de Narizinho - que
processo histórico, precisa morrer. O sistema tem as suas abre o ciclo infantil do Sítio do Pica-pau Amarelo - é de 1931.
defesas, sabe como extirpar os hereges. Lobato contava então quarenta e novo anos e estava
iniciando a literatura infanto-juvenil no país.
O velho Policarpo tem de seu apenas a verdade, antes que a Simultaneamente, exerceu o cargo de adido comercial nos
madrugada raie e os galos cantem e os assassinos a soldo Estados Unidos, de 1927 a 1931, voltando apaixonado pela
do Poder se aproximem. Por segundos, ele pensa na falta de América e atribuindo ao petróleo uma das razões básicas do
sentido do conhecimento que alcançara, principalmente por progresso norte-americano. Defendeu com ardor a pesquisa
não poder transmiti-lo a ninguém: não tivera seguidores, e de jazidas do produto no território brasileiro, mas sem a
isso é mais uma matéria para a sua angústia. Então os interferência do governo. Para ele só a iniciativa privada
soldados o arrastam e dá-se o seu "triste fim". poderia dotar o país de auto-suficiência petrolífera: "De modo
nenhum é aconselhável que o Estado perfure ou se meta em
Lima Barreto não fornece esperanças para o anti-herói que mineração. Viraria logo uma Central do Brasil."
criou, mas a jovem Olga apresenta uma perspectiva de Passando as suas idéias para a prática, em 1931, fundou a
futuro no término do relato. A amiga do burocrata sabe que, Companhia Petróleo do Brasil e saiu a prospectar o "ouro
apesar de tudo, a História não pára. Pela primeira vez na negro" no interior paulista. A baixa capitalização da empresa
ficção brasileira uma mulher entende o fluir social: impediu-a de ampliar as perfurações, e assim ela viria a falir.
Apesar disso, Lobato continuou sua luta até que, no Estado
Saiu e olhou. Olhou o céu, as árvores de Santa Novo, uma carta escrita a Getúlio Vargas, sobre o problema
Teresa, e se lembrou que, por estas terras, já tinham errado do petróleo, levou-o à prisão, onde permaneceu por noventa
tribos selvagens, das quais um dos chefes se orgulhava de dias. Este notável brasileiro ainda morou um ano em Buenos
ter no sangue o sangue de dez mil inimigos. Fora há quatro Aires (1946) e retornando para São Paulo, no ano seguinte,
séculos. Olhou de novo o céu, os ares, as árvores de Santa teve tempo de organizar as suas Obras completas. Em 1948,
Teresa, as casas, as igrejas; viu os bondes passearem; uma em plena glória intelectual, morreu durante o sono, vítima de
locomotiva apitou; um carro puxado por uma linda parelha um espasmo vascular.
atravessou-lhe na frente. Tinha havido grandes e inúmeras
modificações. Que fora aquele parque? Talvez um charco. OBRAS PRINCIPAIS: Literatura geral: Urupês (contos-
Tinha havido grandes modificações nos aspectos, na 1918) Cidades mortas (contos-1919) Negrinha (contos-1920)
fisionomia da terra, talvez no clima. Esperemos mais, pensou Literatura infanto-juvenil: Reinações de Narizinho (1931)

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Viagem ao céu (1932) As caçadas de Pedrinho (1933) Parte significativa desta obra, no entanto, está envelhecida.
Geografia de dona Benta (1935) Histórias de tia Nastácia São aqueles relatos em que o autor busca fornecer
(1937) Polêmicas: Ferro (1931) O escândalo do petróleo informações à meninada (O poço do visconde; Geografia de
(1936) dona Benta; Viagem ao céu, etc.) As rápidas mudanças no
conhecimento esvaziaram, por assim dizer, estes livros.
Estupenda figura de intelectual e homem de ação, escritor Imagine-se comparar a geografia mundial de 1935 com a de
oscilante entre altos e baixos, polemista de mão cheia, nossos dias; os conhecimentos astronômicos de 1932 com
errando e acertando com a mesma ênfase e a mesma os recentes. Atualizá-los didaticamente seria impossível,
honestidade, Monteiro Lobato é o grande nome da nossa talvez. Mas, se ficarem redigidos, como o foram na década
literatura - em termos de ressonância social - na primeira de 1930, estarão provavelmente condenadas ao
metade do século XX. Infeliz em seu famoso artigo contra esquecimento, o que é lamentável. Sobrevivendo ou não, a
Anita Malfatti, é maravilhoso na batalha pela pesquisa do literatura infantil de Monteiro Lobato exerceu durante
petróleo. Pintor medíocre e acadêmico, acaba amigo de cinqüenta anos a imbatível função de criar o gosto pela
modernistas radicais, como Oswald de Andrade. Contista de leitura em centenas de milhares de crianças brasileiras. E
adultos, preso aos cânones de um realismo ultrapassado, isso a redimirá para sempre.
inventa a ficção contemporânea para as crianças brasileiras.
E para quem acha pouco tudo isso, ele começa no país a
atividade editorial com criatividade e uma visão tanto de A LITERATURA "GERAL" OU "ADULTA"
empresário, quanto de humanista, revolucionando o setor. A literatura "adulta" compreende três obras de ficção:
Suas derrotas no campo prático (editora e companhia Urupês, Cidades mortas e Negrinha. São livros de contos e
petrolífera) nascem mais das circunstâncias do que de erros apresentam aquela dualidade dos textos pré-modernistas:
de perspectiva, e são compensadas pelo reconhecimento
dos leitores, especialmente da garotada TEMÁTICA NOVA:
TÉCNICA NARRATIVA E LINGUAGEM TRADICIONAIS

A LITERATURA INFANTIL O francês Guy de Maupassant serve de modelo: contos


As histórias do Sítio do Pica-pau Amarelo e seus habitantes - centrados em histórias de final imprevisto, que surpreendem
dona Benta, Pedrinho, Narizinho, Emília, o marquês de pelo inesperado. Lobato parece desconhecer o conto
Rabicó, o visconde de Sabugosa, tia Nastácia e tantos moderno, aquele que acentua a atmosfera e os caracteres
outros - permanecem como modelos quase insuperáveis no dos personagens. Prefere a reprodução pitoresca de fatos e
gênero. Além de misturar realidade e fantasia, em doses alguns de seus textos mais conhecidos não ultrapassam o
sábias, Lobato soube valorizar o universo brasileiro, com anedótico, caso de “O colocador de pronomes”, de Negrinha
seus referenciais mais próximos das crianças que a mitologia ou do macabro misto de terror e mau gosto O bugio
e a paisagem européias. Fora o sítio, com seus matos, moqueado. Também a sua escrita está presa aos padrões
riachos, roças e costumes interioranos, há lugar nos livros do século passado, revelando-se pesada e acadêmica.
para sacis, cucas, caiporas e mulas-sem-cabeça. Pode-se Alguns vocábulos regionais que aparecem esporadicamente
afirmar que ele nacionalizou o nosso imaginário infantil. soam falsos e exóticos.
A presença compreensiva de dona Benta e a simplicidade Já o aspecto inovador e pré-moderno nasce de certos
generosa de tia Nastácia e tio Barnabé, garantem, por seu registros do universo rural paulistano. Descreve esse
turno, a ausência do moralismo adulto, por demais cenário, que tão bem conhece, com meticulosidade e
corriqueiro na literatura infantil da época, quando os precisão. A pintura realista das "cidades mortas" -
escritores procuravam subordinar a inventividade e a cidadezinhas decadentes do Vale do Paraíba, onde brilhara
liberdade das crianças aos valores mais repressivos da a civilização do café e que vão sendo abandonadas pelos
família patriarcal. Também a linguagem é coloquial e fazendeiros, pelos comerciantes e, por fim, pelas
acessível, sem cair na banalidade estilística que caracteriza autoridades, restando apenas o caboclo - é um elemento
parte considerável da literatura infantil brasileira, positivo na sua ficção:
principalmente nos tempos contemporâneos:
JECA TATU
No dia marcado, tomaram o café com farinha de milho da
manhã e saíram na ponta dos pés, para que as duas velhas Criou com Jeca Tatu um símbolo do caboclo - preguiçoso na
nada percebessem. Passaram a porteira do pasto, primeira versão, doentio e subnutrido a partir das demais
atravessaram a mata dos tucanos vermelhos e de lá versões - ao ponto de tornar-se o personagem literário mais
seguiram ao capoeirão da onça. famoso em todo o país.
Rabicó não havia mentido. Os rastros da onça estavam
impressos na terra úmida. Ao fazerem tal descoberta, o AUGUSTO DOS ANJOS (1884 - 1914)
coração dos cinco heróis bateu mais apressado. Dos cinco,
não; dos quatro, porque, como todos sabem, Emília não VIDA: Nasceu no interior da Paraíba, filho de
tinha coração. conhecido e cultíssimo advogado, cuja
excelente biblioteca abasteceu o futuro poeta
com a leitura de Darwin, Spencer, Lamarck e

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LITERATURA – WAGNER LEMOS


outros teóricos evolucionistas europeus. A exemplo do pai foi ela pode apresentar: podridão da carne, cadáveres fétidos,
aluno brilhante e bacharelou-se com distinção na faculdade corpos decompostos, vermes famintos e fedor de cemitérios.
de Direito do Recife. Depois de formado passou a lecionar Diante da tanta imundície, o artista - dominado pelo niilismo -
na capital da Paraíba. Casou-se e, em seguida, mudou-se questiona a falta de sentido da experiência humana e verte
para o Rio de Janeiro onde permaneceria por quatro anos e um nojo amargo e desesperado pelo fim inglório a que a
acabaria tendo dois filhos. Atacado pela tuberculose, vai natureza nos condena.
atrás dos bons ares de Minas Gerais, fixando residência em
Leopoldina. Lá morreria com tão somente trinta anos e um A angústia diante da morte transforma-se numa espécie de
único livro escrito e publicado. metafísica do horror: não passamos de matéria que acaba,
OBRA: Eu (1912) que entra em putrefação e que depois desaparece. A
aparente necrofilia na verdade é medo pessoal, náusea, grito
Augusto dos Anjos é um caso à parte na poesia brasileira. de desconsolo, como neste Soneto, dedicado ao pai falecido:
Autor de grande sucesso popular, ainda é ignorado por parte
da crítica, que o julga mórbido e vulgar. Alguns estudiosos Podre meu Pai! A Morte o olhar lhe vidra.
que se debruçam sobre essa obra única e absolutamente Em seus lábios que os meus lábios osculam
original perdem o tempo discutindo se a mesma é Microorganismos fúnebres pululam
parnasiana ou simbolista. O domínio técnico e o gosto pelo Numa fermentação gorda de cidra.
soneto comprovariam o primeiro rótulo. A fascinação pela
morte, a angústia cósmica e o uso de ousadas metáforas Duras leis as que os homens e a hórrida hidra*
indicariam a tendência simbolista. A uma só lei biológica vinculam,
Esse debate torna-se obsoleto em face de estudos mais E a marcha das moléculas regulam,
recentes, como o de Ferreira Gullar, que aponta para a Com a invariabilidade da clepsidra!* ...
modernidade dos versos de Eu. Talvez nenhum outro autor
do período merecesse a denominação de pré-modernista Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos
como Augusto dos Anjos. Pré-modernista, ele é na mistura Roída toda de bichos, como os queijos
de estilos, na linguagem corrosiva, no coloquialismo e na Sobre a mesa de orgíacos festins!...
incorporação à literatura de todas as "sujeiras" da vida.
Amo meu pai na atômica desordem
Se é um grande poeta ou não, esta sim é a discussão ainda Entre as bocas necrófagas* que o mordem
não totalmente resolvida. Há os que amam e há os que E a terra infecta que lhe cobre os rins!
odeiam. A maioria dos estudiosos inclina-se a consagrá-lo
pela singularidade temática lingüística, mesmo que Hidra: serpente gigantesca morta por Hércules.
reconhecendo eventuais deslizes. Já a minoria de detratores Clepsidra: relógio de água.
aponta-lhe morbidez e cafonice desenfreada de várias Necrófagas: aqueles que se nutrem de substâncias em
composições. Pode-se gostar ou não de sua obra, mas decomposição.
sonetos como Versos íntimos estão de tal forma entranhados
na memória do leitor brasileiro que não mais podemos
ignorá-los. Ou seja, tornaram-se clássicos: A linguagem cientificista

Vês! Ninguém assistiu ao formidável Um dos aspectos mais estranhos e perturbadores da poesia
Enterro da tua última quimera. de Augusto dos Anjos é que ela vem revestida por uma
Somente a Ingratidão - esta pantera - linguagem científica, ou pretensamente científica
Foi tua companheira inseparável! (cientificista). Na vasta biblioteca do pai, embriagou-se desde
garoto nos clássicos da Biologia e do pensamento
Acostuma-te à lama que te espera! evolucionista do século XIX. Destes livros, nem sempre bem
O Homem que, nesta terra miserável, assimilados, retira palavras e conceitos, utilizando-os de
Mora entre feras, sente inevitável maneira esquisita em seus versos. Fora do contexto do livro
Necessidade de também ser fera de ciências, estes vocábulos tornam-se singulares, ora
primando pela criatividade, ora pelo total absurdo. Ferreira
Toma um fósforo. Acende teu cigarro! Gullar cita algumas das expressões mais curiosas:
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja. • A miséria anatômica da ruga.
• A lógica medonha / dos apodrecimentos
Se alguém causa inda pena a tua chaga, musculares.
Apedreja essa mão vil que te afaga, • A bacteriologia inventariante.
Escarra nessa boca que te beija! • O cancro assíduo na consciência.
• Engrenagem de vísceras vulgares.
A visão particular da vida e da morte • A mucosa carnívora dos lobos.
• Os sanguinolentíssimos chicotes da hemorragia.
A tuberculose deve tê-lo marcado para sempre. Explicaria a
sua obsessão pela morte, nas formas mais degradadas que

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LITERATURA – WAGNER LEMOS


A retórica delirante do poeta não termina, portanto, na amostragem geral da prática modernista. Programaram-se
referência cientificista.. Uma quantidade inesgotável de conferências, recitais, exposições, leituras, etc. O Teatro
metáforas sacode seus versos, intensificando-lhes a Municipal foi alugado. Toda uma atmosfera de provocação
genialidade ou o mau-gosto, conforme a opinião de cada se estabeleceu nos círculos letrados da capital paulista.
leitor. Adepto entusiasta da primeira hipótese, Ferreira Gullar Havia dois partidos na cidade: o dos futuristas e o dos
insiste no caráter inovador desta poesia, "porque ela rompe passadistas.
com as conveniências verbais e sociais" e leva Augusto dos
Anjos "a mesclar a beleza ao asco.". E conclui que, muitas
vezes, o estilo prosaico (tão valorizado em nossos dias) Desde a abertura da Semana, com a conferência equivocada
triunfa, e o escritor paraibano adquire súbita de Graça Aranha: A emoção estética na Arte Moderna, até a
contemporaneidade, como em Budismo moderno: leitura de trechos vanguardistas por Mário de Andrade,
Menotti del Picchia, Oswald de Andrade e outros, o público
Tome, Dr., esta tesoura, e... corte se manifestaria por apupos e aplausos fortes.
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa Porém, o momento mais sensacional da Semana ocorre na
Todo o meu coração, depois da morte?! segunda noite, quando Ronald de Carvalho lê um poema de
Manuel Bandeira, o qual não comparecera ao teatro por
Uma síntese da morbidez associada ao linguajar cientificista motivos de saúde: Os sapos. Trata-se de uma ironia
e à ousadia das imagens encontra-se em Psicologia de um corrosiva aos parnasianos, que ainda dominavam o gosto do
vencido: público. Este reage através de vaias, gritos, patadas,
interrompendo a sessão. Mas, metaforicamente, com sua
Eu, filho do carbono e do amoníaco, iconoclastia pesada, o poema delimita o fim de uma época
Monstro de escuridão e rutilância,* cultural.
Sofro, desde a epigênese* da infância, Enfunando os papos,
A influência má dos signos do zodíaco. Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
Profundissimamente hipocondríaco, A luz os deslumbra.
Este ambiente me causa repugnância... Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia '- Meu pai foi à guerra
Que se escapa da boca de um cardíaco. - Não foi! - Foi! - Não foi!' O sapo-tanoeiro
Parnasiano aguado
Já o verme - este operário das ruínas - Diz: - 'Meu cancioneiro
Que o sangue podre das carnificinas É bem martelado*.'
Come, e à vida em geral declara guerra, Vede como primo
Em comer os hiatos!
Anda a espreitar meus olhos para roê-los, Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.
E há de deixar-me apenas os cabelos, O meu verso é bom
Na frialdade inorgânica da terra! Frumento* sem joio.
Faço rimas com
Rutilância: brilho intenso. Consoantes de apoio.
Epigênese: início de uma célula sem estrutura. Vai por cinqüenta anos
Que lhe dei a norma:
Reduzi sem danos
A formas a forma. Clame a sapataria
Em críticas céticas:
'Não há mais poesia,
MODERNISMO Mas há artes poéticas...'
I FASE - 1922-1930 Brada de um assomo
O sapo-tanoeiro:
A SEMANA DE ARTE MODERNA 'A grande arte é como
Lavor de Joalheiro'
Urra o sapo-boi:
Em fevereiro de 1922, realiza-se em São Paulo a Semana de '- Meu pai foi rei - Foi!
Arte Moderna. O objetivo dos organizadores era acima de - Não foi! - Foi! - não foi!'
tudo a destruição das velhas formas artísticas na literatura,
música e artes plásticas. Paralelamente, procuravam Principais participantes da Semana
apresentar e afirmar os princípios da chamada arte moderna, Literatura:
ainda que eles mesmos estivessem confusos a respeito de
seus projetos artísticos. Oswald de Andrade sintetiza o clima Mário de Andrade - Oswald de Andrade - Graça Aranha -
da época ao afirmar: "Não sabemos o que queremos. Mas Ronald de Carvalho -
sabemos o que não queremos." A proposição de uma Menotti del Picchia - Guilherme de Almeida - Sérgio Milliett
semana (na verdade, foram só três noites) implicava uma

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Música e Artes Plásticas: necessidades da refinada oligarquia do café. Uma oligarquia
cosmopolita, cujos filhos estudavam na Europa e lá entravam
Anita Malfatti - Di Cavalcanti - Santa Rosa - Villa-Lobos - em contato com o "moderno". Uma oligarquia desejosa de se
Guiomar Novaes diferenciar culturalmente dos grupos sociais. Enfim, uma
classe que encontrava no jogo europeísmo (adoção do
A importância estética da Semana "último grito" europeu) - primitivismo (valorização das origens
nacionais) - que marcaria a primeira fase modernista - a
Se a Semana é realizada por jovens inexperientes, sob o expressão contraditória de suas aspirações ideológicas.
domínio de doutrinas européias nem sempre bem
assimiladas, conforme acentuam alguns críticos, ela significa Outro equívoco é considerar o movimento como
também o atestado de óbito da arte dominante. O essencialmente antiburguês. O poema Ode ao burguês, de
academicismo plástico, o romantismo musical e o Mário de Andrade, e alguns escritos de outros participantes
parnasianismo literário esboroam-se por inteiro. Ela cumpre da Semana podem levar a esta conclusão. Mas não
assim a função de qualquer vanguarda: exterminar o esqueçamos que a burguesia rural, vinculada ao café,
passado e limpar o terreno. apoiou os jovens renovadores. E, além disso, toda crítica
dirigia-se a um tipo de burguesia urbana, composta
É possível, por outro lado, que a Semana não tenha se geralmente de imigrantes, inculta, limitada em seus projetos,
convertido no fato mais importante da cultura brasileira, sem grandeza histórica, ao contrário das camadas
como queriam muitos de seus integrantes. Há dentro dela, e cafeicultoras, cujo nível de refinamento cultural e social era
no período que a sucede imediatamente (1922-1930), certa muito maior.
destrutividade gratuita, certo cabotinismo*, certa ironia Neste caso, os modernistas se comportam como aqueles
superficial e enorme confusão no plano das idéias.. velhos aristocratas que menosprezam a mediocridade dos
"novos-ricos". No início da década de 30, Oswald de
Mário de Andrade dirá mais tarde que faltou aos modernistas Andrade já perceberia o quão contraditória era a sua crítica
de 22 um maior empenho social, uma maior impregnação ao universo das classes citadinas. Daí o prefácio do romance
"com a angústia do tempo". Com efeito, os autores que Serafim Ponte Grande, em 1933:
organizaram a Semana colocaram a renovação estética
acima de outras preocupações importantes. As questões da A situação "revolucionária" desta bosta mental sul-
arte são sempre remetidas para a esfera técnica e para os americana apresentava-se assim: o contrário do
problemas da linguagem e da expressão. O principal inimigo burguês não era o proletário - era o boêmio! As massas,
eram as formas artísticas do passado. De qualquer maneira, ignoradas no território e como hoje, sob a completa
a rebelião modernista destrói o imobilismo cultural - que devassidão econômica dos políticos e dos ricos. Os
entravava as criações mais revolucionárias e complexas - e intelectuais brincando de roda.
instaura o império da experimentação, algo de indispensável
para a fundação de uma arte verdadeiramente nacional. * Iconoclasta: destruidor de ícones, de valores consagrados.
* Enfunando: inflando.
Caberia ainda ao próprio Mário de Andrade - verdadeiro líder * Martelado: alusão ao martelo do escultor, com quem o poeta
e principal teórico do movimento - sintetizar a herança de parnasiano se comparava.
* Frumento: o melhor trigo.
1922:
* Cognatos: que tem a mesma raiz.
 A estabilização de uma consciência criadora OS MOVIMENTOS PRIMITIVISTAS
nacional, preocupada em expressar a realidade
Pau-Brasil:
brasileira.
Lançado em março de 1924, o Manifesto da Poesia Pau-
 A atualização intelectual com as vanguardas
Brasil trazia como idéias-chave:
européias.
 O direito permanente de pesquisa e criação - A junção do moderno e do arcaico brasileiros: "A poesia
estética. existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos
verdes da Favela, sob o azul cabralino, são fatos astéticos
A Semana e a realidade brasileira (...) obuses de elevadores, cubos de arranha-céu e a sábia
preguiça solar. A reza. O Carnaval. A energia íntima. O
A Semana de Arte Moderna insere-se num quadro mais
sabiá. A hospitalidade um pouco sensual, amorosa. A
amplo da realidade brasileira. Vários historiadores já a
saudade dos pajés e os campos de avaliação militar. Pau-
relacionaram com a revolta tenentista e com a criação do
Brasil."
Partido Comunista, ambas de 1922. Embora as
- A ironia contra o bacharelismo: "O lado doutor, o lado
aproximações não sejam imediatas, é flagrante o desejo de
citações, o lado autores conhecidos. Comovente. (...) A
mudanças que varria o país, fosse no campo artístico, fosse
riqueza dos bailes e das frases feitas.(...) Falar difícil."
no campo político.
- A luta por uma nova linguagem: "A língua sem arcaísmo,
Um dos equívocos mais freqüentes das análises da Semana
sem erudição. Natural e neológica. A contribuição milionária
consiste em identificá-la com os valores de uma classe
de todos os erros. Como falamos. Como somos. (...) Contra
média emergente. Ela foi patrocinada pela elite agrária
a cópia, pela invenção e pela surpresa."
paulista. E os princípios nela expostos adaptavam-se às

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- A descoberta do popular: O Pau-Brasil descortina para os PRINCIPAIS POETAS
modernistas o universo mítico e ingênuo das camadas
populares: "O Carnaval é o acontecimento religioso da raça. MANUEL BANDEIRA
Pau-Brasil. Wagner submerge ante os cordões de Botafogo.
A formação étnica rica. Riqueza vegetal." Vida: Manuel Carneiro de Sousa Bandeira, nasceu no
Exemplo do conjunto da visão oswaldiana, na época, Recife,em 19 de abril de 1886, filho de uma família
encontra-se em erro de português (1925): oligárquica. Começou a fazer o curso de engenharia, em
São Paulo, mas a tuberculose o impediu de concluir a
Quando o português chegou faculdade. Buscando a cura, esteve um ano na Suíça,
Debaixo de uma bruta chuva onde efetivamente eliminou a doença. Voltando para o
Vestiu o índio Brasil, tornou-se inspetor de ensino e, depois, professor
Que pena! de Literatura na Universidade do Brasil.
Fosse uma manhã de sol Sua obra é uma das mais importantes da literatura
O índio tinha despido moderna do país. Escreve poesia, prosa e faz crítica
O português literária. Destaca-se na produção poética, em que trata
do amor, da morte e de episódios singelos do cotidiano.
Observe-se no poema, além do verso livre, da ausência de Alia humor, amargura e ironia a uma grande
pontuação, e da dicção humorística, o contraste que o autor sensibilidade. Seu primeiro livro é A Cinza das Horas
estabelece entre a natureza européia, marcada pelo frio e (1917), de inspiração simbolista. Com Carnaval (1919),
pela chuva, com a tropical, marcada pelo sol; entre o firma-se como pioneiro do modernismo. Em 1922,
português que veste o índio com seus valores repressivos e participa da Semana de Arte Moderna e publica poemas
o índio que poderia ter despido o português desses mesmos em revistas de vanguarda. Libertinagem (1930) reúne
valores, tendo a locução interjetiva "Que pena!" como poesias feitas a partir de 1922. Relata sua trajetória em
indicadora da posição do poeta perante os fatos. Itinerário de Pasárgada (1954), no qual se revela como
memorialista. Faleceu no Rio de Janeiro em 1968.
Antropofagia:
O manifesto antropofágico, lançado em 1928, amplia as Obras principais: Cinza das horas (1917); Carnaval (1919);
idéias do Pau-Brasil, através dos seguintes elementos: Ritmo dissoluto (1924); Libertinagem (1930); Estrela da
- A insistência radical no caráter indígena de nossas raízes: manhã (1936); Lira dos cinquent'anos (1948); Estrela da
"Tupy or not tupy that is the question". tarde (1963)
- O humor como forma crítica e traço distintivo do caráter
brasileiro: "A alegria é a prova dos nove". A poesia de Manuel Bandeira - eliminados os resíduos
- A criação de uma utopia brasileira, centrada numa simbolistas e parnasianos de Cinza das horas e Carnaval -
sociedade matriarcal, anárquica e sem repressões: enquadrando-se na vertente mais clássica do espírito
modernista, aquela em que se processa uma fusão entre a
"Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada confissão pessoal e a vida cotidiana. Em Bandeira
por Freud - a realidade sem complexos, sem loucura, sem predomina com alguma insistência o lirismo do EU, mas o
prostituições e sem penitenciárias do matriarcado de cotidiano jamais desaparece dos textos, numa síntese feliz
Pindorama." - A postura antropofágica como alternativa entre entre subjetividade e objetividade. Isto se dá porque uma
o nacionalismo conservador, anti-europeu e a pura cópia dos relação dialética estabelece-se entre ambos. Assim:
valores ocidentais: "Nunca fomos catequizados.(...) Fizemos
Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará." Poesia = cotidiano mais o eu-lírico

Curiosamente, Oswald de Andrade não produz nenhuma Estarão presentes em sua poesia:
obra ficcional ou poética dentro do espírito antropofágico (a
não ser, talvez, a peça Rei da vela). Caberia a Mário de A temática da morte (reflexo da doença);
Andrade, com o romance Macunaíma, e a Raul Bopp, com o A simplicidade expressiva;
poema Cobra Norato, a tentativa de levar para o espaço da Indignação moral, que se revela, por exemplo, no poema O
criação literária as idéias do Manifesto. bicho:
Nos anos de 1967, Caetano Veloso e outros compositores Vi ontem um bicho
populares voltam a acenar com os princípios antropofágicos Na imundície do pátio
para combater a estreiteza da chamada M.P.B., que rejeitava Catando comida entre os detritos
a incorporação de elementos da música pop internacional à
música brasileira. Quando achava alguma coisa,
Verde-Amarelo (1924) e Anta (1928): Com a participação Não examinava nem cheirava:
de Cassiano Ricardo, Menotti del Picchia e Plínio Salgado, Engolia com voracidade.
estas tendências opõem-se ao primitivismo destruidor e
debochado dos "antropófagos" através do reforço do "sentido O bicho não era um cão,
de brasilidade" e de uma tendência conservadora e direitista Não era um gato,
no plano social.

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Não era um rato. Estréia como poeta em 1917 sob o pseudônimo de Mário
O bicho, meu Deus, era um homem. Sobral, com a obra pré-modernista Há Uma Gota de
Sangue em Cada Poema.
Amigo do escritor Oswald de Andrade, organiza com ele
OSWALD DE ANDRADE a Semana de Arte Moderna de 1922. No mesmo ano
Poeta, romancista e dramaturgo publica Paulicéia Desvairada, cujo Prefácio
paulista (1890-1954). José Interessantíssimo lança as bases estéticas do
Oswald de Sousa Andrade é o modernismo.
principal mentor do movimento Ao longo dos anos 20, colabora ativamente com as
modernista no Brasil. Nascido revistas Klaxon, Estética, Terra Roxa e Outras Terras.
numa rica família de Em 1925, lança o livro de ensaios A Escrava que Não É
comerciantes, estuda na Isaura e se afirma como um dos grandes teóricos do
Faculdade de Direito do Largo modernismo.
São Francisco e viaja para a
Europa em 1912. Freqüenta a Três anos depois publica Macunaíma – uma composição
boemia estudantil de Paris e de romance, epopéia, mitologia, folclore e História –, no
entra em contato com a corrente modernista européia qual cria a saga do “herói sem caráter”. Seu objetivo é
conhecida como futurismo. De volta a São Paulo, faz traçar o perfil do brasileiro, com seus defeitos e virtudes.
jornalismo literário. De 1934 a 1937, dirige o Departamento de Cultura da
Em 1917, defende a pintora Anita Malfatti contra uma Prefeitura de São Paulo. Muda-se para o Rio de Janeiro,
crítica devastadora feita pelo escritor Monteiro Lobato. Ao onde, de 1938 a 1940, leciona Estética na Universidade
lado da pintora, do escritor Mário de Andrade e outros do Distrito Federal. De volta a São Paulo, trabalha no
intelectuais, organiza a Semana de Arte Moderna de Serviço do Patrimônio Histórico.
1922. Em 1924, publica o livro Memórias Sentimentais de Sua obra inclui poesia, romances, contos, ensaios e uma
João Miramar, escrito quatro anos antes. Lança o vastíssima correspondência. Escreveu, entre outros,
Manifesto da Poesia Pau-Brasil – e o lema Tupi or not Belazarte (1934), Aspectos da Literatura Brasileira (1943)
Tupi –, acrescentando o nacionalismo às idéias estéticas e Lira Paulistana (1946).
da Semana de 1922. Trecho de Macunaíma:
Em 1926, casa-se com a pintora Tarsila do Amaral (um No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói
dos seus nove casamentos). Dois anos depois, radicaliza de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da
o movimento nativista com o Manifesto Antropofágico, no noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão
qual propõe que o Brasil devore a cultura estrangeira e grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a
aproveite o tempo da digestão para criar uma cultura índia tapanhumas pariu uma criança feia. Essa
própria revolucionária. Nesta época, rompe com Mário de criança é que chamaram de Macunaíma.
Andrade por motivos até hoje não esclarecidos e separa-
se de Tarsila do Amaral para se casar com a jovem MODERNISMO – II FASE – PROSA
escritora e militante política Patrícia Galvão, a Pagu. O ROMANCE DE 30 NO BRASIL
Com a crise econômica mundial causada pela Quebra da
Bolsa de Nova York, em 1929, passa por grandes
dificuldades financeiras e milita no Partido Comunista de CONTEXTO HISTÓRICO
1931 a 1945. A Revolução de 1930 foi uma resposta imediata ao colapso
econômico do país após a queda da Bolsa de Nova Iorque.
Em 1933, lança o romance Serafim Ponte Grande, Mas foi também a condensação de inúmeros levantes
escrito em estilo telegráfico. Redige as peças O Homem ocorridos na década anterior. O movimento tenentista, de
e o Cavalo (1934) e O Rei da Vela (1937). Em 1952, 1922, e a Coluna Prestes, que percorrera vinte e cinco mil
inicia a redação de suas memórias. quilômetros dentro do território nacional, durante mais de
quatro anos (1924-1928) - ainda sob influxo dos tenentes -
MÁRIO DE ANDRADE ,revelavam não apenas a insatisfação dos militares jovens
Escritor paulista (1893-1945). mas também das classes médias, do proletariado urbano e
Nome fundamental do movimento das oligarquias nordestinas e sulistas em relação ao domínio
modernista, Mário Raul de Morais da velha elite cafeicultora de São Paulo.
Andrade ocupa o centro da vida
intelectual do país entre a Semana A Revolução foi feita através desta aliança dos vários
de Arte Moderna (1922) e o 1º setores politicamente marginalizados da nação. Apesar de
Congresso de Escritores (1945). seu ideário confuso, ela representou um momento decisivo
Sua atividade é múltipla: poeta, ficcionista, folclorista, da modernização do Brasil, em especial porque seu líder,
ensaísta, professor, crítico literário e de artes. Getúlio Vargas, trouxe do Rio Grande do Sul um projeto
positivista (que já dera certo na província) de fortalecimento
Forma-se em Música no Conservatório Dramático e do Estado, de incentivo à industrialização, de esforço de
Musical de São Paulo, onde leciona História da Música.

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alfabetização e de estabelecimento de inúmeras políticas com as inovações vanguardistas, a geração de 1930
sociais. enfatizou, em suas obras, as questões sociais e ideológicas.
A mesma radicalização que polarizou a intelectualidade
O início do Brasil moderno ocidental ocorreu no Brasil. Poucos foram os escritores que,
De certa forma, o Brasil atual começou em 1930. Só então na década de 1930, não se filiaram a alguma das correntes
adentramos no século XX. Ao Estado mínimo proposto pelas extremistas. Os que não aderiam, viravam simpatizantes ou
ferozes elites nativas - para quem toda questão social era "companheiros de viagem", como se dizia então. Comunistas
um caso de polícia - opôs-se um Estado interventor, capaz se tornaram, entre outros, Jorge Amado, Dyonélio Machado
de ações a favor dos excluídos, entre as quais a criação do e Graciliano Ramos. Já Rachel de Queiroz enveredou pelo
salário mínimo e da legislação trabalhista. Em conseqüência trotskismo, uma dissidência do stalinismo dominante na
disso, ampliaram-se os quadros burocráticos, surgiram URSS.
novas profissões, incrementaram-se os serviços.
Lentamente, brasileiros do grande sertão iniciaram sua Por outro lado, Plínio Salgado, Otávio de Faria e Menotti del
marcha para as cidades. Como disse Florestan Fernandes, a Picchia engajaram-se na extrema direita. Alguns, como
Revolução de 30 foi a nossa revolução burguesa. Só que Vinícius de Moraes, José Lins do Rego e Ronald de
feita através do Estado. Carvalho, apenas flertaram com as idéias fascistas.
Em consonância com a época e com a própria experiência Entretanto, em todos eles, à direita ou à esquerda, havia um
política do Rio Grande do Sul, o estilo autoritário de governar denominador comum: a percepção do atraso do país e a
predominou. Durante a primeira fase do novo regime (1930- certeza de que a receita liberal-democrática, aqui, jamais
1937), a democracia foi quase uma ficção e, a partir do funcionaria.
Estado Novo (1937 - 1945), desapareceu por completo. A maioria dos letrados possuía a convicção de que a
literatura não era gratuita, que ela tinha uma função, fosse a
A tentativa de um golpe comunista, nos quartéis, sob de impugnar o sistema oligárquico ou burguês, fosse a de
comando de Luís Carlos Prestes e com apoio financeiro e apontar caminhos para o povo brasileiro. Quer dizer, para
político da antiga URSS, em 1935, fracassou por completo. eles o escritor era ainda a consciência viva da nação. Este
Do mesmo modo o levante de integralistas, em 1938. Ambos sentido missionário aparecera durante o Romantismo,
os movimentos reforçaram o regime e lhe deram argumentos quando a tarefa artística consistira em contribuir para a
para desencadear e ampliar a repressão. grandeza do país. Para a geração de 1930, ao contrário, a
Através da censura férrea do DIP (Departamento de tarefa era mudar profundamente as estruturas ou, pelo
Informação e Propaganda) e da polícia onipresente e cruel menos, as mentalidades.
do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), a
oposição foi amordaçada, especialmente a intelectualidade. As grandes interpretações do país
Jorge Amado exilou-se no Uruguai, Monteiro Lobato em
Buenos Aires, Graciliano Ramos conheceu a prisão, A década foi marcada também por um impressionante
Dyonélio Machado sofreu torturas, Érico Veríssimo prestava florescimento de estudos sobre a sociedade brasileira:
depoimentos diários no DOPS. Estes ásperos tempos foram Gilberto Freyre (Casa-grande e senzala, 1933); Caio Prado
sintetizados no poema Medo, de Carlos Drummond: Júnior (Evolução política do Brasil, 1933); e Sérgio Buarque
de Holanda (Raízes do Brasil, 1936) são os mais
Em, verdade temos medo. (...) conhecidos.
E fomos educados para o medo. Destaque especial merece Casa-grande e senzala. Este
Cheiramos flores de medo. ensaio - por seu estilo literário, pela quantidade incrível de
Vestimos panos de medo. informações sobre a vida colonial nordestina, pela tese anti-
racista de defesa da miscigenação como elemento chave da
Contudo, um sem número de escritores, artistas, músicos, conquista portuguesa, pela louvação simultânea dos
arquitetos, cineastas e professores acabaram cooptados (1) senhores de engenho e dos escravos, vistos em contínua
pelo sistema. Esta intelligentzia* ocupou cargos importantes fornicação - tornou-se uma referência obrigatória para vários
na nascente burocracia cultural e educacional, realizou escritores da época.
projetos financiados pelo governo ou, ainda, produziu
espetáculos que exaltavam a nação, dentro da ótica do CARACTERÍSTICAS DO ROMANCE DE 30
Estado Novo. Graciliano Ramos, Jorge Amado, José Lins do Rego, Érico
(1) O sistema de cooptação (agregar, atrair para si) sempre Veríssimo e os demais autores adotaram alguns princípios
foi usado pelos grupos dirigentes brasileiros para atrair os básicos do romance realista:
intelectuais e artistas dissidentes, que tentavam ou poderiam
tentar mudanças profundas na estrutura social. • a verossimilhança;
* Intelligentzia: Termo russo que delimita a camada de • o retrato direto da realidade em seus elementos
intelectuais de um país, de uma região ou de uma classe. históricos e sociais;
CONTEXTO CULTURAL • a linearidade narrativa;
Se a geração de 1922 colocou o projeto estético em primeiro • a tipificação social (indivíduos que representam
plano, desejando atualizar as formas artísticas brasileiras classes sociais);
• construção ficcional de um mundo que deve dar a
idéia de abrangência e totalidade

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Graciliano Ramos, o romance “Angústia” revela a solidão e
As relações com a geração de 1922
a destruição de Luís da Silva, descendente da oligarquia, na
teia complexa das relações citadinas. Aliás, este fenômeno
Face a este neo-realismo, caberia uma pergunta: Até que
ocorre igualmente em Totonho Pacheco, de João Alphonsus.
ponto os romancistas de 30 foram modernistas? Ou seja, até
que ponto representaram uma continuidade das vanguardas
Por outro lado, tanto em A bagaceira, de José Américo de
paulistas de 22?
Almeida, quanto em O quinze, de Rachel de Queiroz, os
Ao contrário dos poetas (Vinícius, Drummond, Murilo
personagens principais, Lúcio e Conceição - embora filhos
Mendes, etc.), que apareceram nos anos 30 e que,
das velhas elites agrárias - foram modernizados pela
claramente, expressaram a sua ligação com o projeto
escolarização na cidade e acabaram questionando o horror
vanguardista, representando inclusive uma espécie de
da seca, da miséria e o atraso do latifúndio.
segunda fase, ou fase madura do movimento, os
romancistas pouco ou nada tinham a ver com o grupo de Romances de temática urbana
Mário e Oswald de Andrade. Seus vínculos eram muito mais A urbanização ininterrupta do país levou os narradores a
fortes com os prosadores russos e norte-americanos - como olhar para a nova realidade que se constituía, fosse sob o
já foi referido - e com Eça de Queirós, Aluísio Azevedo, prisma da denúncia (Jorge Amado, Amando Fontes), da
Euclides da Cunha, Lima Barreto, Monteiro Lobato e demais adesão crítica (Érico Veríssimo) ou de uma tristeza
autores com quem tinham similaridade estética e ideológica. impotente (Cyro dos Anjos). Os núcleos temáticos abordados
Daí ser preferível - sob este ângulo - a adoção do termo foram:
romance de 30 para designar o conjunto de narrativas,
escritas entre os anos de 1930 e 1970, por uma mesma A) - As camadas populares, trabalhadores e marginais:
geração, oriunda de famílias oligárquicas arruinadas ou Jubiabá, Capitães de Areia e Mar morto, de Jorge Amado;
decadentes, com uma visão de mundo crítica, idêntico Os Corumbas e Rua do Siriri, de Amando Fontes.
sentido missionário da literatura e padrões artísticos comuns B) - Os setores médios (pequena burguesia): A tragédia
e bastante próximos do realismo do século XIX. burguesa, de Otávio de Faria, Os ratos, de Dyonélio
Deve-se ressaltar, contudo, que, apesar de sua desconfiança Machado e toda a primeira fase de Érico Veríssimo, o
em relação às ousadias paulistanas, os romancistas de 30 chamado ciclo de Clarissa.
herdaram dos modernistas uma liberdade de expressão
inigualável. Aproveitaram-se disso para impregnar os seus Um romance regionalista?
relatos de coloquialismo, estilo direto e concisão verbal,
criando um efeito de simplicidade que ainda hoje seduz os Em função do predomínio da temática rural, generalizou-se o
leitores. conceito de romance regionalista para indicar os relatos
produzidos a partir de 30 (ou de 1928, ano de publicação de
OS MUNDOS NARRADOS A bagaceira, de José Américo de Almeida, e que inaugura o
referido ciclo). Como este conceito continua aparecendo em
Romances de temática agrária todos os manuais, vestibulares e análises sobre a época,
Pode-se afirmar que uma parte importante do romance de 30 não podemos rejeitá-lo completamente.
centralizou-se em torno do universo rural em declínio ou já Mas, como já se disse em outra passagem deste livro, não
desaparecido. A tradução deste processo social deu-se em existe narrativa - mesmo a mais cosmopolita ou a mais
alguns núcleos temáticos: intimista - que não tenha aspectos locais. Machado de Assis,
por exemplo, apresenta elementos da sociedade carioca em
A) - A ascensão e queda dos "coronéis": Bangüê e Fogo
suas histórias. Então o Rio de Janeiro não é uma região?
morto, de José Lins do Rego; Terras do sem fim e São Jorge
Érico Veríssimo seria regionalista ao escrever sobre as
dos Ilhéus, de Jorge Amado; e O tempo e o vento, de Érico
estâncias. E ao escrever sobre Porto Alegre seria o quê?
Veríssimo, por exemplo. Estes relatos oscilam entre a saga
(exaltação com traços épicos) e a crítica mais contundente, Ou seja, em vez de usarmos o desgastado termo
seja a ideológica (Jorge Amado), seja a ética (Érico regionalismo (que faz confusão entre geografia e estética),
Veríssimo). No caso específico de José Lins do Rego, poderíamos nos valer de expressões que delimitam melhor o
predomina um tom nostálgico e melancólico diante das objeto de nossos estudos: narrativas do mundo rural e
ruínas dos engenhos. narrativas do mundo urbano.

B) - Os dramas dos trabalhadores rurais: Seara vermelha, CRONOLOGIA DOS PRIMEIROS ROMANCES DE 30
de Jorge Amado; e Vidas secas, de Graciliano Ramos. • 1928 - A bagaceira, de José Américo de Almeida.
Ambos correspondem a uma impugnação da realidade • 1930 - O quinze, de Rachel de Queiroz; O país do
fundiária nordestina, opressiva e excludente. carnaval, de Jorge Amado
• 1932 - Menino de engenho, de José Lins do Rego;
C) - O confronto entre o Brasil rural e o Brasil urbano: Cacau, de Jorge Amado; João Miguel, de Rachel
este é o ponto nuclear de alguns dos mais importantes títulos de Queiroz.
da narrativa brasileira do século XX. O choque entre Paulo • 1933 - Doidinho, de José Lins do Rego; Caetés,
Honório e Madalena em São Bernardo, de Graciliano de Graciliano Ramos; Clarissa, de Érico
Ramos, sintetiza o descompasso entre a mentalidade Veríssimo; Os Corumbas, de Amando Fontes.
patriarcal-latifundiária e a urbana modernizada. Também de

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• 1934 - Bangüê, de José Lins do Rego; São Concluiu, em 1917, o Curso Normal, e passou a trabalhar
Bernardo, de Graciliano Ramos; Suor, de Jorge como professora primária. Dois anos depois publicou
Amado. Espectros, seu primeiro livro de poesia, de tendência
• 1935 - Jubiabá, de Jorge Amado; Música ao longe, parnasiana. Seguiram-se Nunca Mais... e Poema dos
de Érico Veríssimo; Os ratos, de Dyonélio Poemas (1923) e Baladas para El-Rei (1925), nos quais já
Machado. aparecem elementos simbolistas. A partir de 1922
aproximou-se das vanguardas modernistas, principalmente
dos poetas católicos. Em 1938 ganhou o Prêmio de Poesia,
concedido pela Academia Brasileira de Letras, pelo livro
Viagem. Nos anos seguintes, conciliou à produção poética
MODERNISMO – II FASE - POESIA os trabalhos de professora universitária, tradutora,
conferencista, colaboradora em periódicos, pesquisadora do
PRINCIPAIS AUTORES folclore brasileiro. Publicou também poesia infantil. A
Academia Brasileira de Letras concedeu a Cecília,
postumamente, o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto de
VINÍCIUS DE MORAES (1913-1980) sua obra, em 1965. Destacam-se em sua obra os livros Vaga
Música (1942), Mar Absoluto e Outros Poemas (1945),
VIDA: Nasceu na cidade do Rio de Retrato Natural (1949), Doze Noturnos da Holanda & O
Janeiro, filho de uma família de classe Aeronauta (1952), Romanceiro da Inconfidência (1953),
média intelectualizada e com gosto Canções (1956), Poemas Escritos na Índia (1961), Metal
artístico. Estudou com os jesuítas, no Rosicler (1960) e Solombra (1963). Cecília Meireles é
Colégio Santo Inácio que lhe deixou considerada pela crítica poeta pertencente à segunda
fortes marcas religiosas. Na geração do Modernismo. No entanto, Manuel Bandeira
adolescência já se interessava por música popular, afirmou que há em sua obra “as claridades clássicas, as
compondo inclusive algumas canções. Em 1930 ingressou melhores sutilezas do gongorismo, a nitidez dos metros e
na Faculdade de Direito na qual se formaria em 1933. Foi dos consoantes parnasianos, os esfumados de sintaxe e as
colega de figuras que, mais tarde, seriam importantes da toantes dos simbolistas, as aproximações inesperadas dos
política brasileira. Seu maior amigo, Octávio de Faria, super-realistas. Tudo bem assimilado e fundido numa técnica
influenciou-o decisivamente, reforçando-lhe o pensamento pessoal, segura de si e do que quer dizer."
católico e direitista. Estreou com O caminho para distância,
obra filiada a uma poética mais simbolista do que moderna.
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Em 1938, foi agraciado com uma bolsa do Conselho
Nasceu em 31 de outubro de
Britânico para estudar língua e literatura inglesa em Oxford.
1902, em Itabira, interior de Minas
A estadia na Europa foi de curta duração dada a eclosão da
Gerais. Descendente de
II Guerra Mundial. De volta ao Brasil, acompanhou (1942) o
povoadores e mineradores de ouro
escritor marxista norte-americano Waldo Frank em uma
das Gerais, passou a infância
longa viagem pelo Norte e pelo Nordeste, onde constatou a
numa fazenda da cidade natal.
miséria e a indiferença das elites pela pobreza de seu povo.
Publicou seus primeiros trabalhos
Em função desse contato direto com a realidade brasileira,
em 1921, no jornal Diário de Minas.
suas idéias até certo ponto reacionárias foram substituídas
Após a publicação desses,
por uma visão de mundo progressista. Em 1943 ingressou
conhece vários literatos mineiros.. Publica seu primeiro
na carreira diplomática. Nos anos seguintes, serviu em
livro, Alguma Poesia, em 1930, com tiragem de apenas 500
várias cidades do exterior, sem jamais perder suas ligações
exemplares, paga por ele mesmo. Torna-se auxiliar de
com o país. Em 1958, participou do grupo fundador da Bossa
gabinete do secretário do Interior, Cristiano Machado, e
Nova ao lado de Tom Jobim, João Gilberto e outros. A partir
depois assume a função de oficial de gabinete de Gustavo
de então a música popular ocuparia cada vez mais espaço
Capanema, seu amigo desde os tempos de colégio. Em
no seu trabalho de criação. Durante as décadas de 1960 e
1942 sua obra começa a ser reconhecida: a editora José
1970 – no embalo do crescimento da indústria cultural que
Olympio publica Poesias. Seu contrato com essa editora se
se espalhava por todo o país – o nome de Vinícius,
manteria até 1984. Em 1944 publica Confissões de Minas,
sobremodo junto ao público jovem, tornou-se uma espécie
livro em prosa. Em 1984 passa a publicar seus livros pela
ícone da liberação amorosa e da qualificação poética da
editora Record. Também deixa o Jornal do Brasil. Publica
canção popular.
Boca de Luar e Corpo.
OBRAS PRINCIPAIS: Ariana, a mulher (1936); Novos
De 1985 a 1986 publica Amar se Aprende Amando,
poemas (1938); Cinco elegias (1943);
O Observador no Escritório, História de Dois Amores e
Poemas, sonetos e baladas (1946); Orfeu da Conceição
Tempo, Vida, Poesia. Sofre um infarto em 1986 e
(teatro-1956); Livro de sonetos (1957); Para viver um grande
permanece internado por 12 dias.
amor (crônicas-1962).
Em 1987 escreve seu último poema, Elegia a um
Tucano Morto, em homenagem a um tucano de seu neto
CECÍLIA MEIRELES Pedro Augusto. A ave foi morta pela bicada de uma galinha.
Esse poema faz parte do livro Farewell (despedida em

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LITERATURA – WAGNER LEMOS


inglês), que o poeta deixou organizado para ser publicado Sul da nação. Muitos triunfaram no comércio, na indústria,
após sua morte. nos serviços. Muitos, no entanto, fracassaram, em geral
Nesse mesmo ano é homenageado pela escola de devido a sua pouca base educacional, passando a constituir
samba Estação Primeira de Mangueira, com o samba- o núcleo humano das primeiras favelas nos morros ou na
enredo O Reino das Palavras. A escola se sagra campeã. periferia dos grandes centros.
Publicação de Moça Deitada na Grama (prosa).
Uma tragédia brasileira
No dia 5 de agosto de 1987 falece sua companheira
e grande amor, a filha Maria Julieta.
O clima neste período, contudo, era de ilimitada esperança
Doze dias depois, em 19 de agosto de 1987, morre
Carlos Drummond de Andrade. Causa mortis: problemas quanto ao futuro do país. Verdade que a perda da Copa do
Mundo, em 1950, no próprio Maracanã, abalara a nossa
cardíacos. Causa real: saudade e tristeza.
auto-estima como povo. E que o suicídio do Presidente
A Editora Record e outras editoras ainda publicam
Getúlio Vargas, sob pressão militar, em agosto de 1954,
obras do autor, algumas inéditas. As homenagens que o
consternara a nação, especialmente as suas camadas mais
acompanharam em vida continuam se repetindo após sua
pobres. Estes tinham sido protegidos já na década de 30,
morte, sempre que o mundo da arte, da beleza e da vida
pelo antigo ditador, através de uma avançada legislação
julguem necessário. Costuma-se definir CDA como um
social, e tinham com o "Chefe" uma relação de fidelidade e
poeta pertencente à segunda fase do Modernismo brasileiro
agradecimento.
(1930-1945). Evidentemente que, ao estudar sua obra,
Quando Getúlio se matou, os descamisados urbanos foram
percebe-se que ele é contemporâneo demais para deixá-lo
às centenas de milhares para as ruas. Queriam protestar,
preso em uma época ou fase.Drummond surgiu para a
incendiar, por abaixo tudo que representasse o inimigo
poesia em 1930, com a publicação de Alguma Poesia, que,
conservador. Assim impediram o golpe anti-democrático, já
segundo Wilson Martins, "inaugurou simbólica e
anunciado pelos militares nos primórdios de agosto de 1954,
ideologicamente, espiritual e esteticamente a segunda fase
postergando-o até março de 1964.
da poesia modernista". Nessa segunda fase a poesia
brasileira teve um grande amadurecimento e até mesmo
alguns poetas da fase anterior, como Manuel Bandeira e A era JK
Mário de Andrade, renovaram-se e continuaram a produzir. A
Mas a esperança renasceria nos corações brasileiros com a
poesia desse período deixa de lado o tom irreverente e
eleição do mineiro Juscelino Kubitschek para a Presidência
polêmico da primeira fase do Modernismo e passa a
da República, em 1955. Seu lema: "Crescer 50 anos em 5
contribuir para o enriquecimento da nossa literatura,
anos" eletrizou a nação e, pelo menos na área industrial,
desenvolvendo vários temas, principalmente a temática
mostrou-se extraordinariamente viável.
social e amorosa
JK esteve no poder entre 1956 e 1960. Consciente de que o
MODERNISMO - III FASE & LIT.CONTEMPORÂNEA modelo nacionalista de desenvolvimento, adotado por
(PÓS-MODERNISMO) Getúlio Vargas (intervenção econômica do Estado mais
capital nacional) se esgotara, o novo Presidente buscou no
PROSA& POESIA exterior, no capital produtivo externo, a fonte maior de
CONTEXTO HISTÓRICO crescimento industrial do país. Adotando uma agressiva
política de incentivos fiscais e financeiros, oferecendo às
O período de 1945 a 1970 foi assinalado pela empresas estrangeiras a possibilidade de um expressivo
industrialização intensa do país e pela lenta, mas inexorável mercado interno, ampliando a infra-estrutura com a produção
marcha da população do campo rumo às cidades, de mais energia e abertura de estradas, JK criou um clima
configurando o crepúsculo de um Brasil eminentemente favorável para a expansão industrial.
rural, arcaico, patriarcal, e a emergência de um novo Brasil O carro-chefe do desenvolvimentismo foi a industria
de feição capitalista e moderna. Se na década de 1940, automotora: Volkswagen, Simca, Willys, Vemag, GM e
cerca 60% dos brasileiros ainda viviam na zona agrária, no outras montadoras instalaram-se em São Paulo, produzindo
início dos anos 60, mais de metade da população já estava utilitários, caminhões e automóveis, e tornando-se as
no mundo urbano. responsáveis pela assombrosa taxa de 80% de crescimento
Esta migração, combinada com o aumento de expectativa industrial no período. Em 1960, já eram produzidos 100.000
média do homem brasileiro - decorrente da melhoria de veículos por ano. O Brasil avançava a saltos. A agricultura,
condições de saúde pública (água potável, esgotos, entretanto, continuou presa ao modelo latifundiário pré-
atendimento médico, alimentação diversificada, etc.) - capitalista, não apresentando resultados muito animadores.
transformou pequenas cidades, quase sempre provincianas, A construção de Brasília, como cidade-síntese do novo país,
em metrópoles agitadas, cheias de contrastes e com grande foi a outra obsessão de JK. Transferir o núcleo do poder
densidade populacional. nacional do Rio de Janeiro para o cerrado goiano tornou-se
As capitais brasileiras tornaram-se palco de infinitas uma façanha temerária e dispendiosa. Apesar da beleza de
oportunidades de realização econômica. Arrivistas, sua arquitetura e da ousadia de suas propostas urbanas, a
ambiciosos, ou apenas sonhadores, milhares de homens e nascente capital custou uma fortuna, bancada pela emissão
mulheres, especialmente jovens, buscaram um lugar ao sol contínua de moeda que, por seu turno, era geradora de
na nova ordem capitalista, que se forjava no Sudeste e no inflação.

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LITERATURA – WAGNER LEMOS


Congresso, aceitando o pedido de renúncia, declarou a
No final do governo, havia certa insatisfação popular com a vacância da Presidência da República. Embriagado e
chamada carestia, abrindo caminho para o carismático e desmoralizado, Jânio Quadros partiu para a Europa.
demagogo governador paulista, Jânio Quadros. Prometendo Encerrava-se uma meteórica carreira que, de certa forma,
acabar com os "tubarões"(grandes negocistas) e com os traduzia o poder de um novo e gigantesco eleitorado,
corruptos, obteve arrasadora vitória nas eleições composto pelas classes médias e pelas massas urbanas.
presidenciais de 1960, derrotando o candidato situacionista, Eram setores já livres do voto a cabresto do mundo rural,
o politicamente inexpressivo Marechal Teixeira Lott. mas ainda inexperientes do ponto de vista político, e,
A consciência eufórica do povo brasileiro portanto, facilmente manipuláveis por tipos populistas como
O avanço do Brasil urbano possibilitado pelo crescimento Jânio.
industrial levantou o ânimo da nação. Isso ocorreu de
maneira mais intensa na Era JK, quando o sentimento O governo João Goulart
ufanista encontrou fatos concretos para se cristalizar. Conforme a Constituição, o vice-presidente João Goulart,
(Jango), eleito pelo bloco PSD-PTB, deveria assumir. Os
Não eram apenas as novas oportunidades, os novos militares, no entanto, quiseram impedir-lhe a posse, devido a
empregos, a multiplicação das camadas intermediárias e as seu pretenso esquerdismo. Uma reação, iniciada no Rio
melhorias gerais nos campos da saúde, da educação e do Grande do Sul, sob o comando do governador Leonel
bem-estar cotidiano que insuflavam o orgulho coletivo. Havia Brizola, e que ficou conhecida sob o nome de Legalidade,
a beleza das linhas arquitetônicas de Brasília, o ritmo impediu o golpe. A partir deste fato, os grupos de esquerda,
encantador da Bossa Nova, a prosa deslumbrante de João que chegavam ao poder, alimentaram a ilusão de que a
Guimarães Rosa. Como disse Lorenzo Mammi, "pela direita brasileira não teria mais forças para uma nova
primeira vez o Brasil oferecia ao mundo uma imagem que aventura golpista.
não era apenas sedutora pelo exotismo, mas relevante pelo
projeto modernizador que propunha." Jango assumiu primeiramente sob a forma de um governo
parlamentarista - fórmula inventada pelo Congresso para
O símbolo mais acabado da potencialidade criativa dos evitar-lhe a entrega de todos os poderes presidenciais.
brasileiros deu-se no futebol. Ninguém esquecera a tragédia Contudo, em 1963, após um plebiscito - no qual o povo
nacional que fora a derrota para o Uruguai, em 1950, na exigiu a volta do regime presidencialista - o líder do PTB
decisão da Copa do Mundo, em pleno Maracanã. O fracasso retomou todas as funções do cargo. A esquerda iniciou então
esportivo destruíra a nossa auto-estima como povo Éramos uma intensa mobilização pelas chamadas "Reformas de
uns fracassados e o futebol comprovava a nossa Base", envolvendo as reformas agrária, urbana, financeira e
insignificância histórica. Até que em 1958, uma imbatível outras. Assustada, a direita reagiu, acusando o governo de
seleção, comandada pelo craque Didi arrasou com todos os fomentar a subversão da ordem.
adversários na Copa do Mundo da Suécia e ainda por cima, A radicalização ideológica esvaziou os grupos centristas e
revelou um menino prodigioso: Pelé, o atleta do século. mesmo os democratas de várias tendências. De um lado e
de outro havia a certeza de que as regras constitucionais
Nelson Rodrigues refletiu sobre o significado desta vitória em atrapalhavam. Os políticos direitistas pregavam a
uma crônica exemplar, publicada logo em seguida à grande intervenção militar para deter o "avanço comunista" dentro
conquista. Observe-se um fragmento da mesma: do governo. Já os líderes da esquerda exigiam o fechamento
Diziam de nós que éramos a flor de três raças tristes. A partir do "Congresso reacionário" e tinham como palavra-de-ordem
do título mundial, começamos a achar que a nossa tristeza é a expressão "Reformas na lei ou na marra". Jango procurou
uma piada fracassada. Afirmava-se também que éramos conciliar e evitar o confronto, mas foi ficando isolado. No
feios. Mentira! Ou, pelo menos, o triunfo embelezou-nos. Na início de 1964, o fantasma da guerra civil rondava a nação.
pior das hipóteses, somos uns ex-buchos.
O golpe de 1964
O governo Jânio Quadros
Atemorizadas com a possibilidade de uma "República
Enfrentando a hostilidade do Congresso, majoritariamente sindicalista" ou mesmo de um regime marxista, aturdidas
oposicionista, Jânio Quadros permaneceu no poder apenas pelas greves políticas que paralisavam o país, convencidas
sete meses do ano de 1961. No afã de criar fatos políticos de que Jango representava o caos e a desordem, as classes
inesperados, proibiu rinhas de gala, desfile de miss na tevê, médias vieram às portas dos quartéis, pedir a intervenção
condecorou o revolucionário argentino Che Guevara, adotou militar. Esta não tardou. Em 31 de março de 1964, tanques
o terninho estilo "safari", como modelo de elegância saíram de uma unidade de Juiz de Fora e iniciaram uma
presidencial, recebeu visitantes de guarda-pó, e, em vez de marcha triunfal que se espalhou por todo o país. Apenas em
usar os carros oficiais, dirigia ele mesmo o seu "fusca" rumo Porto Alegre houve um esboço de reação, porém, em
ao Palácio da Alvorada. O país assistia a tudo perplexo. seguida, João Goulart percebeu que a guerra civil - além do
Em agosto, tentou dar um golpe com apoio popular, isto é, sangue fratricida que derramaria - já tinha um lado vencedor.
estabelecer uma ditadura civil legitimada pelo seus eleitores. Por isso, desistiu de lutar, exilando-se no Uruguai.
Para tanto renunciou ao mandato e esperou que a população Enquanto os líderes vinculados ao governo deposto fugiam
acorresse às ruas, pedindo que ele permanecesse como ou eram presos, os militares decidiram nomear um
chefe da Nação. Ninguém saiu em sua defesa e o prestigiado marechal para comandar a nação: Humberto de

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LITERATURA – WAGNER LEMOS


Alencar Castelo Branco. Ninguém e nem mesmo os generais como já frisamos, é também freqüente a presença
vitoriosos poderiam imaginar que uma longa ditadura de de seres superiores, como Deus e o Diabo, ou
vinte anos se abateria sobre o país. entes mitológicos, como a sereia, o lobisomem, etc.
A PROSA DE FICÇÃO
Em termos gerais, pode-se dizer, que estes romances se
No campo da ficção, em relação aos mundos narrados, duas
ligam, no plano do assunto, ao Brasil antigo, pré-industrial,
tendências gerais predominaram no período:
marcado por uma cultura rural e religiosa, de raízes ibéricas,
transformada ao longo dos séculos.
• Obras de temática rural
• Obras de temática urbana

A) A NOVA NARRATIVA DE TEMÁTICA AGRÁRIA


PRINCIPAIS AUTORES
Um fenômeno novo marcou a ficção brasileira, a partir dos
anos de 1950: um conjunto de relatos centrados no mundo
rural, mas distantes dos padrões convencionais de realismo, JOÃO CABRAL DE MELO NETO
que se encontravam, por exemplo, no chamado romance de
30. Poeta pernambucano (1920-1999).
O crítico José Hildebrando Dacanal designou esses textos Considerado o maior poeta contemporâneo
como "nova narrativa épica brasileira". São obras que fixam e um dos maiores da literatura nacional.
o "desaparecimento do interior caboclo-sertanejo, face o Parente de Manuel Bandeira e Gilberto
avanço vertiginoso da civilização racionalista, capitalista e Freire, cresce no sítio da família no interior do Estado e
urbana." Esta civilização, nascida no litoral, e que avançava depois no Recife. Em 1942 publica o primeiro livro, Pedra
rumo ao oeste, era o fruto da expansão burguesa ocorrida, do Sono, onde demonstra extremo rigor formal. Em 1945,
principalmente, durante a Era Vargas e a Era JK. ingressa na carreira diplomática. Seu primeiro posto no
exterior é em Barcelona. Esta estada é fundamental para
Outros críticos referem-se a tais obras como integrantes de
sua poética, que se aproxima do realismo espanhol. Como
um ciclo de "realismo mágico", pois eventos extraordinários (
diplomata, serve mais seis vezes na Espanha. Trabalha
e inverossímeis do ponto de vista do racionalismo urbano)
também nos Estados Unidos, na Europa e na Ásia.
ocorrem nas mesmas. Os personagens dos relatos vivem
Com o poema O Cão Sem Plumas (1950) dá o chamado
esses acontecimentos estranhos sem que isso os
salto participante, passando a se preocupar com temáticas
surpreenda. Ou seja, a sua consciência de mundo admite
sociais, como acontece com diversos expoentes da cultura
como real e natural o que julgamos inconcebível.
brasileira nas décadas de 50 e 60. Aposenta-se do Itamaraty
Basicamente esta tendência compõe-se de seis romances:
em 1990, ano do lançamento de Sevilha Andando, dedicado
Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa, - o mais
à poeta Marly de Oliveira, com quem vive desde 1988 no Rio
significativo de todos - e que, ao ser publicado em 1956,
de Janeiro. A partir de 1992, passa a sofrer de cegueira
abriu caminho para a criação de um novo modelo narrativo
progressiva e não pode mais ler. Em 1994, lança o livro João
no país; O coronel e o lobisomem, de José Cândido de
Cabral de Melo Neto – Obra Completa. Sua poesia afasta-se
Carvalho, que veio à luz em 1964; Chapadão do Bugre, de
das formas eruditas e aproxima-se das raízes populares das
Mário Palmério, lançado em 1965; A pedra e o reino, de
quadras, trovas e literatura de cordel. Seu poema mais
Ariano Suassuna, que é de 1970; Os guaianãs (em quatro
popular, Morte e Vida Severina (1965), foi adaptado para o
volumes saídos entre 1962 e 1970), de Benito Barreto; e
teatro e vídeo com música de Chico Buarque de Hollanda.
Sargento Getúlio, de João Ubaldo Ribeiro, publicado em
1971.
As características mais ou menos comuns a todas essas CLARICE LISPECTOR
obras são de natureza lingüística, estrutural e temática:
Escritora brasileira de origem ucraniana
• Lingüisticamente, há uma forte presença, ainda que (1925-1977). Criadora de uma
às vezes residual da variante caboclo-sertaneja da linguagem revolucionária, é um dos
língua portuguesa, transfigurada do ponto de vista grandes nomes da segunda fase do
do estilo por cada autor. modernismo. Vem da Ucrânia para o
• Estruturalmente, a verossimilhança, típica do Brasil recém-nascida e é levada pela
romance tradicional, não é respeitada, com família para o Recife. Em 1934, muda-
protagonistas relatando a própria morte, presença se para o Rio de Janeiro.
de demônios e outras entidades míticas.
• Tematicamente, todas as obras possuem um traço Escreve o primeiro romance, Perto do
comum: a ação se desenvolve, Coração Selvagem, aos 17 anos. Em
livros como A Maçã no Escuro (1961), A
preponderantemente, no interior, no sertão, em
regiões de pequena propriedade ou de criação de Paixão Segundo GH (1964), Uma Aprendizagem ou o Livro
dos Prazeres (1969) e A Hora da Estrela (1977) explora a
gado, surgindo não raro um conflito entre este
mundo agrário - e os protagonistas dele subjetividade, o fluxo da consciência e rompe com o enredo
factual.
procedentes - e a civilização urbana. Além disso,

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LITERATURA – WAGNER LEMOS


Seguindo a análise do crítico José Hildebrando Dacanal,
JOÃO GUIMARÃES ROSA (1908-1967) podemos levantar três elementos fundamentais da estrutura
Vida: João Guimarães Rosa narrativa e da temática da obra:
nasceu em Cordisburgo, pequena cidade
do interior de Minas Gerais. Filho de um • o plano do presente - isto é, a narração de Riobaldo
comerciante da região, ali fez seus ao doutor - é o tempo não só da própria narração
estudos primários, indo posteriormente a em si mas também do filosofar do protagonista
Belo Horizonte, onde cursou o sobre suas experiências do passado.
secundário e ingressou na Faculdade de • O plano do passado é o tempo em que ocorrem os
Medicina, formando-se médico, condição em que participou eventos narrados, ou seja, a vida de Riobaldo
da Revolução Constitucionalista de 1932. Mudando-se para desde sua infância até o momento em que deixa a
o Rio de Janeiro em 1932, fez concurso para a carreira de jagunçagem, passando, obviamente, pelo período
diplomata no então Ministério do Exterior, iniciando uma mais importante de sua vida: o encontro, a
atividade que o levaria a varias partes do mundo. convivência com Diadorim e seu amor por ela, que
morre tragicamente na batalha final contra os
Obras: Sagarana (contos - 1946); Corpo de baile (novelas, jagunços inimigos de seu pai, Joca Ramiro.
1956 - Manuelzão e Miguilim; No Urubuquaquá no Pinhém;
Noites do sertão); Grande sertão: veredas (romance, 1956); A passagem de uma consciência mítico-sacral (Riobaldo-
Primeiras estórias (contos, 1962); Tutaméia (contos, 1967); jagunço) para uma consciência lógico-racional (Riobaldo a
Estas estórias (contos, 1969). partir do episódio de Veredas Mortas, quando pretendia fazer
GRANDE SERTÃO: VEREDAS um pacto com o Diabo mas este não aparece). O primeiro
tipo de consciência - comum aos indígenas e às sociedades
Apesar de respeitado por alguns críticos e já reconhecido dos sertões brasileiros e latino-americanos - explica o mundo
como renovador do conto brasileiro, João Guimarães Rosa segundo uma visão em que existem poderes superiores
ficou quase desconhecido até 1956, quando a publicação de como Deus e o Diabo, além de outros seres misteriosos
Grande Sertão: veredas o tornou um nome internacional. Na como lobisomens, sereias, etc. O segundo tipo, próprio da
verdade, ele provocou um verdadeiro choque entre leitores e civilização racionalista moderna, vê o mundo de um ponto de
críticos brasileiros, principalmente por sua linguagem, vista científico, ou seja, como um conjunto de forças
fortemente marcada pela variante caboclo-sertaneja da mecânicas, físicas e químicas em interação. No caso de
língua portuguesa, e pela temática, de um lado ligada aos Grande sertão: veredas, Riobaldo, no plano do presente,
temas do coronelismo e da jagunçagem e, de outro, quando narra sua vida ao doutor, tende a recusar a visão
impregnada de uma problemática metafísica e teológica (o mítico-sacral (ou mágica), aceitando apenas a existência do
problema de Deus, o sentido da vida, etc.). "homem humano", como diz ao terminar sua história.

Em termos simplificados, Grande sertão: veredas é um longo


diálogo/monólogo em que o protagonista, Riobaldo, um velho
jagunço que há muito deixara de "cachorrar pelo sertão",
conta sua vida a um jovem doutor que chega à sua fazenda.
Este ouvinte, porém, jamais fala, informando o texto apenas ARIANO SUASSUNA (1927)
sobre suas risadas, suas desconfianças estampadas no
rosto, etc. Para Riobaldo, o centro de sua vida e, portanto, Vida: Ariano Suassuna nasceu na então
da história que narra é não tanto o fato de ter sido jagunço e cidade de Nossa Senhora das Neves - hoje
chefe de um bando deles mas o de ter se apaixonado por João Pessoa, capital da Paraíba. Logo em
uma moça, Maria Deodorina da Fé Betancourt Marins, a seguida, tendo seu pai, João Suassuna,
Diadorim, que, sendo filha única de um fazendeiro, Joca deixado o governo do estado, Ariano
Ramiro, se travestira de homem para conseguir viver como acompanha a família de volta para a região
jagunço. do alto sertão paraibano, onde a mesma
tinha várias fazendas. Assassinado o pai, a família deixa a
Riobaldo conta, entre outras coisas, como ele ficava
região, mudando-se para a cidade de Taperoá, no chamado
perturbado diante de seu sentimento pelo "companheiro" de
sertão seco, onde o futuro dramaturgo e romancista faz seus
luta, pois, não sabendo que Diadorim era mulher, julgava sua
estudos primários. Em 1938 há nova mudança, desta vez
paixão pouco normal. Ao final da história, Diadorim morre e
para Recife, onde cursa o ginásio, estudando também
todos descobrem que era uma mulher, com o que Riobaldo
música e pintura. Em 1946 entra para a Faculdade de
se retira da jagunçagem, casa com Otacília, também filha de
Direito, ligando-se ao círculo de poetas, escritores e artistas
fazendeiros, e fica sabendo ser possuidor de outras duas
da capital pernambucana e interessando-se cada vez mais
fazendas, que herdara com a morte de seu pai, Selorico
pelo romanceiro popular nordestino e pelo teatro. Em 1952
Mendes. É numa destas fazendas que o doutor o visita e
começa a trabalhar em advocacia mas logo abandona a
ouve sua história.
profissão, dedicando-se ao magistério e à atividade de
escritor.

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LITERATURA – WAGNER LEMOS


Obra: Com extensa obra teatral - publicou, entre outras, as de Azeredo Furtado, proprietário de fazendas de gado do
peças Auto da compadecida, O santo e a porca, A farsa da interior fluminense, que, atraído pela vida da cidade e pela
boa preguiça -, Ariano Suassuna escreveu em 1956 A atividade de negociante, emigra para Campos dos
história do amor de Fernando e Isaura, romance até hoje Goitacazes, não conseguindo, porém, integrar-se no meio
inédito. Em 1958 começou a trabalhar em Quaderna, o urbano. Dividido entre o mundo dos pastos e a vida citadina,
decifrador, uma trilogia composta de: Ponciano enlouquece, depois de perder quase toda sua
fortuna.
I - A pedra do reino
Diferenciando-se de Grande sertão: veredas pelo final
II - O rei degolado
trágico, O coronel e o lobisomem apresenta algumas
III - Senésio, o alumioso
características semelhantes às do romance de Guimarães
Rosa: a linguagem marcada pela variante caboclo-
A PEDRA DO REINO
sertaneja e a presença de seres míticos como sereias e
Publicado em 1970, A pedra do reino continua sendo
lobisomem. Em termos de sua estrutura narrativa é de se
considerado um romance completo, pois até hoje as duas
destacar o fato de Ponciano contar sua própria história,
outras partes da trilogia não vieram a público, pelo menos
inclusive a loucura final, o que, em se tratando do romance
em edições comerciais. Em vista disso, a possibilidade de
tradicional, é um absurdo. Por outro lado é interessante
análise é um tanto precária, apesar de a obra oferecer, em
sublinhar que, de todas as obras da chamada nova narrativa,
suas mais de 600 páginas, matéria suficiente não apenas
O coronel e o lobisomem é uma das mais conhecidas e lidas,
para ensaios como para livros inteiros.
por ser extremamente interessante e atraente.
De leitura um pouco árida na primeira centena de páginas, A Das poucas análises publicadas sobre a obra, uma delas
pedra do reino, mesmo isolada da trilogia de que faz parte, é define com precisão o aspecto contraditório do personagem
um verdadeiro monumento literário que se liga à cultura central:
caboclo-sertaneja nordestina, muito marcada pelas tradições
do mundo ibérico (Portugal e Espanha), trazidas pelos O herói de José Cândido de Carvalho poderia ser definido
primeiros colonizadores europeus e transformadas ao longo como um coronel decadente que, num tempo que não é mais
dos séculos. o seu, se debate entre a atração de um agrupamento semi-
urbanizado e racionalizado (Campos dos Goitacazes) e a
Em linhas gerais, A pedra do reino é a apresentação do vida do mundo perdido do interior, mundo este ainda
memorial - obviamente em primeira pessoa - de D. Dinis estruturado em bases mítico-sacrais, no qual o lobisomem e
Ferreira - Quaderna, que, preso em Taperoá, faz sua própria a sereia são aceitos como seres naturais, reais, que
defesa perante o corregedor e, para tanto, conta a história de integram o acontecer normal da existência.
sua família, das desavenças, das lutas e das controvérsias
políticas, literárias e filosóficas em que se vira envolvido. MÁRIO PALMÉRIO (1916)
Como diz um crítico, na obra de Suassuna podem ser Vida: Mário Palmério nasceu em Monte Carmelo, interior de
percebidas "duas distintas tradições a informarem a Minas Gerais, tendo feito seus estudos secundários em
concepção de mundo do herói: a tradição mítico-sertaneja e Uberaba. Ingressando em 1935 na Escola Militar do
a tradição erudita" (J. H. Weber). O que faz, como no caso Realengo, dela desligou-se em seguida por motivos de
de todas as demais obras da nova narrativa, com que A saúde. Depois de trabalhar algum tempo no setor bancário,
pedra do reino se diferencie claramente do romance dedicou-se integralmente ao magistério, como professor de
brasileiro tradicional. matemática em São Paulo. Retornando a Uberaba, fundou o
Liceu do Triângulo Mineiro, base da Universidade que, a
JOSÉ CÂNDIDO DE CARVALHO (1914-1989) partir de então, se formaria através do esforço do próprio
Mário Palmério e dos municípios do Triângulo Mineiro.
Vida: José Cândido de Carvalho nasceu em Campos dos Deputado federal em várias legislaturas desde 1950,
Goitacazes, estado do Rio de Janeiro, filho de lavradores transformou-se em fazendeiro e chefe político da região.
emigrados do norte de Portugal, que aqui no Brasil se Obra: Seu primeiro romance, Vila dos Confins, escrito
dedicaram ao pequeno comércio. Transferindo-se muito segundo os esquemas tradicionais, não apresenta maiores
jovem com a família para o Rio de Janeiro, ali iniciou sua novidades e pode ser considerado uma obra menor ao lado
carreira de jornalista no final da década de 1920. do já clássico Chapado do Bugre, reconhecidamente um dos
grandes romances brasileiros. Continua inédito o anunciado
Obra: Começando sua vida literária com o romance Olha Confissões de um assassino perfeito.
para o céu, Frederico (1939), causou profundo impacto em
1964, quando apareceu O coronel e o lobisomem, obra que CHAPADÃO DO BUGRE
se destaca entre todas as demais. O rei Baltazar, um
romance em que trabalhava há muitos anos, ficou inédito, Narrado em terceira pessoa, paralela à qual coexiste a
não se sabendo se terminado ou não. "consciência" de Camurça, a mula de montaria que visualiza
o sentido de toda a trama - inclusive sua própria morte, como
O CORONEL E O LOBISOMEM ocorre com os protagonistas de O coronel e o lobisomem e
Sargento Getúlio -, Chapadão do Bugre é, sob o ponto de
Com sua ação que se desenvolve nas primeiras décadas do vista da estrutura narrativa, bastante insólito, rompendo os
séc. XX, O coronel e o lobisomem é a história de Ponciano esquemas tradicionais.

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LITERATURA – WAGNER LEMOS


Lingüisticamente, de todas as obras da nova narrativa é, ao transferido para a área de Relações Públicas da Polícia e,
lado de A pedra do reino, a que menos se desvia da norma em 1955, começa a dar aulas da disciplina na FGV. Deixa a
culta do português, apesar de ser forte, nos diálogos, a Polícia em 1958, por não poder acumular aquele emprego
presença de um linguajar caboclo-sertanejo. No que diz com os de professor e relações-públicas da Companhia
respeito à temática, Chapadão do Bugre, como afirma um Energética Light. Estréia na literatura em 1963, com o livro
crítico, apresenta a destruição do reino dos coronéis e dos de contos Os Prisioneiros. Torna-se conhecido ao vencer,
jagunços: em 1968, o concurso nacional de contos da Fundação
Educacional do Paraná. Em 1975, o regime militar proíbe
Uma força estranha e impiedosa, representada pelo capitão seu livro de contos Feliz Ano Novo, acusado de pregar a
Eucaristo Rosa, se abate sobre o sertão, destruindo tanto os violência.
coronéis e suas práticas políticas clientelísticas como o Seus personagens retratam a zona sul carioca,
jagunço José de Arimatéia, sem que ninguém (...) possa especialmente o submundo – são lutadores de boxe,
chegar a entender as normas do novo mundo que se policiais, ninfomaníacos, burgueses, assassinos. No início
estabelecia no sertão. Apenas Camurça, a mula de José de da década de 90, adapta seu romance A Grande Arte
Arimatéia, percebe, à hora da morte, a realidade. E o faz do (1984) para o cinema. Em 1993, Agosto (1990) é
ponto de vista dos marginais e oprimidos do sertão. Mas é transformado em minissérie de TV. Em 1995, publica o livro
tarde e a destruição é inexorável" (João H. Weber). de contos O Buraco na Parede, também é de sua autoria o
romance “Caso Morel”.
JOÃO UBALDO RIBEIRO (1941)
NELSON RODRIGUES
Vida: João Ubaldo Ribeiro nasceu em
Itaparica, Bahia, tendo sido batizado Dramaturgo, romancista e jornalista pernambucano (1912-
em Japaratuba, Sergipe, onde passou 1980). O mais importante autor do teatro brasileiro
a infância e fez seus estudos primários. contemporâneo. Muda-se ainda criança do Recife para o Rio
Filho de um advogado, também de Janeiro. Filho de jornalista, aos 13 anos começa a
formou-se em Direito, em Salvador, e trabalhar em jornal. Em 1941 escreve sua primeira peça, A
fez mestrado em Administração Mulher sem Pecado, que apresenta estreita vinculação entre
Pública em Los Angeles, Califórnia. teatro e crônica jornalística, drama e folhetim. Revoluciona a
Professor e jornalista, tem vários romances publicados e é dramaturgia nacional com Vestido de Noiva (1943). Com
membro da Academia Brasileira de Letras. texto fragmentário, apresenta ações simultâneas em tempos
diferentes e coexistência de três planos diferenciados –
Obras principais: Sargento Getúlio; Viva o povo brasileiro; realidade, memória e alucinação –, como uma projeção do
O Sorriso do Lagarto. subconsciente da heroína Alaíde. Sua obra teatral foi
classificada pelo crítico Sábato Magaldi em peças
Muito semelhante a O coronel e o lobisomem, seja na psicológicas (nas quais se incluem as duas primeiras), peças
linguagem, marcada pela variante caboclo-sertaneja, seja na mitológicas (Anjo Negro, Álbum de Família, ambas de 1946)
estrutura narrativa, pois, como o coronel Ponciano, Getúlio e tragédias cariocas (A Falecida, de 1954, O Beijo no
narra sua própria morte, a obra de João Ubaldo Ribeiro Asfalto, de 1961). A vida pessoal é marcada pela polêmica e
apresenta também um claro conflito entre o mundo da cidade pela tragédia: o assassinato do irmão Roberto, a morte do
e o do sertão. Produto deste, Getúlio não entende as pai, a miséria, os casamentos e amantes, uma filha cega
manobras dos políticos e marcha de forma inevitável para o com problemas cerebrais, um filho preso e torturado pelo
trágico fim. regime militar que ele defendia. Escreve os romances Meu
Destino é Pecar e O Casamento. Deixa 17 peças. Publica
RUBEM FONSECA
suas crônicas jornalísticas nos volumes As Confissões de
Romancista, contista e roteirista mineiro (1925-). Inova com Nelson Rodrigues e O Óbvio Ululante (ambos de 1968).
a temática violenta e a linguagem cinematográfica dos 13
DIAS GOMES
livros que publica até 1995. Muda-se para o Rio de Janeiro
aos 8 anos. Em 1948, forma-se pela Faculdade de Direito
Alfredo de Freitas Dias Gomes,
do Rio. Em 1949, abre um escritório de advocacia, sem
teatrólogo e autor de telenovela
sucesso. Passa no concurso para comissário do
baiano (1923-1998). Considerado
Departamento Federal de Segurança Pública, em 1950.
um dos maiores dramaturgos
Cursa a Escola de Polícia. Excelente aluno de
brasileiros contemporâneos, é
Psicopatologia, forma-se em segundo lugar. No fim de
conhecido internacionalmente pela
1952, começa a carreira de comissário. Realiza
peça O Pagador de Promessas, transformada em filme e
investigações e prisões, mas se destaca pelo trabalho
ganhadora da Palma de Ouro, em Cannes (1962). Encena a
intelectual. Em setembro de 1953, é um dos dez policiais
primeira peça, Pé de Cabra, aos 19 anos, no Rio de Janeiro.
escolhidos para estudar nos EUA. Lá assiste, também, a
Muda-se para São Paulo, em 1943, para trabalhar na Rádio
aulas de Administração de Empresas. De volta ao Brasil em
Tupi e conhece a radioatriz Janete Clair, com quem se casa
1954, estuda Administração e Relações Públicas na
em 1949.
Fundação Getúlio Vargas (FGV) do Rio. No mesmo ano, é

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LITERATURA – WAGNER LEMOS


Volta ao Rio no ano seguinte para dirigir a Rádio Clube do
Brasil. É demitido três anos depois por causa de uma visita à
União Soviética e da campanha desencadeada contra ele
pelo jornalista Carlos Lacerda. Fica desempregado e entra
para uma lista negra elaborada pela polícia política. Para
sobreviver, escreve textos para a TV Tupi assinados por
Janete Clair e dois amigos.
Consegue ser contratado por uma agência de publicidade
em 1954, onde fica três anos. A partir de 1960, dedica-se
exclusivamente à ficção. Escreve A Revolução dos Beatos
(1962), O Santo Inquérito (1966). Sua primeira telenovela, A
Ponte dos Suspiros (1969), é escrita sob pseudônimo, pois
as suas peças estavam proibidas pela censura do Regime
Militar de 1964. Trabalha na Rede Globo desde a sua
fundação em 1965. Escreve Verão Vermelho (1970), O Bem
Amado (1973) e Roque Santeiro (escrita em 1975,
censurada na época e levada ao ar em 1985).

DALTON TREVISAN
Contista mineiro (1926-). Escreve contos que tematizam
a vida urbana e cria personagens que mostram muitas
vezes o lado grotesco do ser humano. Nasce em
Curitiba, cidade na qual ambienta a maioria de suas
histórias. É um dos fundadores da revista Joaquim, que
representa a segunda fase do modernismo no Paraná.
Em 1945 publica sua primeira coletânea de contos,
Sonata ao Luar. Ainda sob a forma de folhetos ou
edições populares, lança as coletâneas Sete Anos de
Pastor (1948), Crônicas de Curitiba, O Dia de Marcos e
Os Domingos (1953/54). Em 1959, publica seu primeiro
livro, Novelas Nada Exemplares, e, posteriormente, lança
Morte na Praça. Entre os livros mais importantes de sua
obra encontram-se Cemitério de Elefantes (1964) e O
Vampiro de Curitiba (1965).

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