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1ª Edição Eletrônica LUIZ LYRIO Autor Edição Eletrônica: L P Baçan Agosto de 2005 Direitos

1ª Edição Eletrônica

LUIZ LYRIO Autor

Edição Eletrônica: L P Baçan

LUIZ LYRIO Autor Edição Eletrônica: L P Baçan Agosto de 2005 Direitos exclusivos para língua portuguesa:

Agosto de 2005

Direitos exclusivos para língua portuguesa:

Copyright © 2005 do Autor

Ilustração da capa: Inside a Trap - Simona Parini Midi: O que será (à flor da pele) - Chico Buarque de Hollanda

Distribuição exclusiva através da Biblioteca Virtual "Cá Estamos Nós". Autorizadas a reprodução e distribuição gratuita desde que sejam preservadas as características originais da obra.

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Director: Carlos Leite Ribeiro Marinha Grande - Portugal diretor@portalcen.org

Director: Carlos Leite Ribeiro Marinha Grande - Portugal diretor@portalcen.org http://carlosleiteribeiro.portalcen.org
SUMÁRIO O AUTOR APRESENTAÇÃO PRÓLOGO A LIBERTAÇÃO E A PAZ A VIDA É BELA, MAS

SUMÁRIO

O AUTOR

APRESENTAÇÃO

PRÓLOGO

A LIBERTAÇÃO E A PAZ

A VIDA É BELA, MAS

AGORA, VOU TE COMER, GOSTOSA! ALICE NO PAÍS DAS ARMADILHAS CORPO FECHADO DE VOLTA AO PRESENTE

DIÁLOGO

FASE RUIM

MAL-ENTENDIDO

MATOU, BEBEU O SANGUE E DEPOIS COMEU

O FÍGADO!

NÃO ACREDITO EM DEMÔNIOS NOS TEMPOS DA MADALENA

O

LER, O SABER E O PODER

O

VELHO E A MOÇA

QUEIXUMES DE UM "OUTRO" APAIXONADO SEM DONO

DA MADALENA O LER, O SABER E O PODER O VELHO E A MOÇA QUEIXUMES DE

AUTOR

AUTOR Luiz Lyrio, professor e escritor, é natural de Belo Horizonte. Formado em História pela UFMG,

Luiz Lyrio, professor e escritor, é natural de Belo Horizonte. Formado em História pela UFMG, lecionou durante trinta anos em várias escolas da rede pública e particular. Criou e dirige ESTALO, a revista, que, já em seu quarto número, divulga contos, crônicas e poemas de autores mineiros e de outros estados. Colabora com o jornal O ESPIGAO, do bairro Caiçaras-BH. Lançou os livros GRÊMIO LIVRE: UM EXERCÍCIO DE CIDADANIA (1998), NOS IDOS DE 68 (2004) e MARCAS DE BATOM (2OO4). Seus e-mails são revistalo@yahoo.com.br e revistalo@click21.com.br.

NOS IDOS DE 68 (2004) e MARCAS DE BATOM (2OO4). Seus e-mails são revistalo@yahoo.com.br e revistalo@click21.com.br

Apresentação, como se madrinha fosse

Luiz Paulo Lyrio de Araújo pertence a uma geração de resistência à repressão, nos Anos de Chumbo. Todos os sobreviventes têm alguma seqüela, mas bravamente, desde então, lutam por um Brasil melhor, usando armas, muitos deles, como a palavra. Outros, entrincheiram-se no Humor. Lyrio ambas sobejamente: até as vivências familiares, de estudante e as de preso político, enquanto, rapazinho, militante jovem e convicto, suavizam-se ao toque de seu olhar satírico, irônico. Seu Primeiro Livro, "Nos Idos de 68", tem essa característica. Sob o primoroso selo "Anomelivros", de Belo Horizonte, onde nasceu e mora, essas memórias revelam maturidade e coragem de se expor sem reservas. Sobre esse professor de História, no prefácio, o poeta Rogério Salgado, com ele, um dos diretores de "Estalo, a Revista", define, com maestria:

"Um terno guerreiro" Dotado de ótima memória, Luiz Lyrio gosta de contar suas histórias da História, o que vem fazendo em palestras e saraus. Certa feita, um canal de TV da capital mineira, num certo 31 de março, convidou-o, por telefone, a participar de mesa, num programa especial. Aguardou. Depois o avisaram de que ele fora preterido porque não sofrera tortura. Contou-me isso às gargalhadas. Na verdade, os "telefones" o deixaram, até hoje, com a audição reduzida. Certamente se referiam aos que apanharam "como boi", no dizer da pintora e poeta Neuza Ladeira, outra sobrevivente. Para seu segundo livro, "Marcas de Batom", escrevi o prefácio, do qual ele cita um trecho, neste livro eletrônico. Juntos, em saraus, lemos várias crônicas e contos divertidos e /ou dramáticos. Aqui, reúne vários textos em prosa. Pelo título de um deles, que nomeia a presente edição, pode-se notar sua criatividade. Adora trocadilhos, donde esse achado:

"Alice no País das Armadilhas". Preservado o bom humor, ainda sofre no entanto, reflexos dos Anos de Chumbo. De quando em vez, deprime-se, para logo depois, rir. E muito. Sua

risada é límpida e espontânea qual a de uma criança. Grande coração, grande inspiração. E ainda escreve alguma poesia. Carta feita, fiz um pequeno conto e o dediquei a

ele, pois o protagonista, de quem falo, teimou em ter suas características(leia abaixo)

E aqui, rompo o fio do prefácio: passo a ponta à

mão do leitor, para que reenrole o novelo. Sei que vai

gostar. Clevane Pessoa de Araújo, 03/08/2005, Belo Horizonte, MG.

O homem que cuidava das avezinhas

O homem que cuidava dos pássaros está em um

hospital público, no andar psiquiátrico. É professor, poeta, cronista, em qualquer ordem. Até noutro dia, cuidava de pássaros que caíam feridos num comitê político onde ia todas as tardes, escrever textos para ganhar uns míseros trocados do candidato a alguma coisa, por certo, não a cuidador do povo. Esse homem que respira seu próprio prana de poesia pura, estava endividado. Tomava dinheiro emprestado, a juros, daqui, para pagar ali. Na verdade, queria saldar a dívida com seu editor. Escreveu suas experiências sobre estudante que foi preso – embora não torturado – na Ditadura Militar.

Era o ano de 2004, dirão mais tarde e fazia quarenta anos que o golpe militar acontecera. Depois da noite de autógrafos, saía diariamente

com sua pesada pasta e ia tentar vender seus livros. Muitas vezes, gastava mais que se tivesse ficado em casa: era preciso requisitar uma mesa onde se encontrasse, pedir uma cerveja ao menos e voltar para casa de táxi.

O homem que gostava de pássaros, chegou a

cuidar de um beija-flor. Um dia chegou e a pequena

ave havia se recuperado o suficiente para ir embora. Estava acostumado a registros de perda. Apenas pegou uma cadernetinha surrada em sua mente brilhante e anotou mais uma.

A bem-amada, também gostava de pássaros e

estava criando um pardal, avezinha da rua que não quer saber de aproximações. mas caíra em seu oitão

ainda implume e acabara por aceitar os cuidados. Depois de crescidinho, ficou meio estragado: não andava em bandos, chegava sozinho à procura de pão.

E entrava em casa, para acordá-la cedinho, indignado

porque ela dormia até mais tarde

pendurado um bebedouro desses de flores de plástico. Lavava-o bem e trocava a água, para evitar fungos que fizessem mal ao beija-flor vindo de uma árvore

em frente.

Ela havia

O homem que cuidava de pássaros andou meio

enciumado, querendo até virar beija-flor, até que ela, meiga/mente, lhe disse que colocara no bichinho o nome dele. Viu naquilo o desejo oculto de cuidar dele,

o homem, o que por ora era impossível

A bem-amada ia viajar e ele sentiu-se sem chão.

Se fosse ave, poderia voar, mas não! Então começou a tomar Lexotan, esse remédio enganador, com pinga pura. Queria, com isso, que todos acabassem por saber aquilo que não andava a revelar: que devia muito. Contou a ela, por telefone, que ficara muito humilhado ao tentar tomar novos empréstimos e iam lhe mostrando, na telinha do computador, que ele (ainda) devia aqui e ali Ela tentava animá-lo: Hoje, todos que são inadimplentes, não precisam se envergonhar. A culpa

é do governo

O homem que sabia como ninguém cuidar de

passarinhos, havia votado nesse Governo e a decepção agravava sua saúde mental. Ao receber recados de que a mistura fatal – Pinga&lexotan – estava acontecendo, lixando seu esôfago, destruindo o ácido estomacal, obnubilando sua mente embora nunca embotando sua sensibilidade, a amada, sentindo-se agora mal-amada, quando viu que o amor não valia tanto assim nesses

casos, avisou-o: "Pare, senão você vai ficar de língua de fora". Ele queria morrer e a conquistara com a vida de

seus olhos e a mágica de seu sorriso

conviveria com esse contraste, alguém rir um riso tão risonho e em dado momento, procurar o auto-

extermínio?

Como ela

O homem que sabia dar vida a pássaros

doentes, não sabe voar, não sabe como sarar porque não morreu e as dívidas continuam. Professor, poeta, cronista, contista, fez da palavra uma bandeira, mas suas palavras literárias não conseguem pagar suas

dívidas ou convencer quem quer que seja a lhe emprestar dinheiro para viver com dignidade. O Governo lhe deve uma indenização pelas experiências durante a Ditadura. Ele tomou as primeiras providências. Pensa nelas enquanto está internado. Entre agudos e crônicos, todos doentes brasileiros que devem algo a alguém. Os donos do Poder terão conhecimento disso? Um contista, cronista, diretor de revista literária, cronista, articulista, namorante, poeta – em

qualquer ordem – está nesse minuto internado em um hospital público. Na ala de psiquiatria. Junto a outros inadimplentes. Faz parte dos que não resistem a pressões de dívidas monetárias. Só o Brasil resiste, capengando. Alguns homens, não. Sentado na cama ou andando aqui e ali, o homem que nunca deixou as avezinhas sem ajuda, acende seus olhinhos ornitólogos e se alegra: há muito material importante ali, para escrever. Quando sair da internação, já que não lhe autorizaram portar lápis ou caneta, passíveis de se transformarem em

armas de auto-extermínio

ferramentas! Isso enche de esperança o coração da mal-bem- amada, quando fala com ele ao telefone. Se ele reunir interesse suficiente para escrever um livro novo, talvez a Vida lhe estenda os braços. E ele volte a salvar bichinhos alados. Então, no ninho desse coração orvalhado, quebram-se dois ovos. De dentro para fora, e as avezitas começam a piar chamando o homem para cuidá-las Clevane Pessoa - 16/11/2004 Belo Horizonte-MG Brasil

Um escriba sem suas

começam a piar chamando o homem para cuidá-las Clevane Pessoa - 16/11/2004 Belo Horizonte-MG Brasil Um

PRÓLOGO

"E neste tempo, enquanto era manchada a dignidade das almas brasileiras, poetas vislumbravam nas estrelas do céu , que dias melhores estariam por vir. Luiz Lyrio, com sua sensibilidade à flor da pele, era um desses poetas, um terno guerreiro". (Rogério Salgado – prefácio de NOS IDOS DE 68)) "Os cronistas germinam do cotidiano, num modo peculiar de registrar sua época, muitas e tantas vezes com um senso de humor que deleita ou usando de ironia, no caso do Luis Lyrio, a fina ironia configurada no dizer e no estilo. Os contistas contam algo mais profundo – falando de si ou de outrem – com maior elaboração e/ou complexidade. Ao ler os textos de Luiz Lyrio encontramos os dois gêneros literários de forma bastante expressiva." (Clevane Pessoa) Após estas palavras de dois exigentes críticos literários, o grande poeta Rogério Salgado e a brilhante poetisa, cronista e contista Clevane Pessoa, pouco me resta a dizer. Os contos e crônicas aqui contidos abordam tanto a realidade como o fantástico imaginário popular. Talvez porque seja extraída diretamente do cotidiano, minha ficção é cheia de altos e baixos, e o trágico e o cômico se misturam, como na chamada vida real (muitas vezes mais fantasiosa do que a ficção). Se conseguir divertir, e, ao mesmo tempo, levar o leitor a refletir sobre a nossa mais que insana realidade, me sentirei plenamente realizado como escritor.

22/07/2005

o leitor a refletir sobre a nossa mais que insana realidade, me sentirei plenamente realizado como

Mini-crônica para um mundo em chamas

A LIBERTAÇÃO E A PAZ

A libertação da mente humana passa, obrigatoriamente, pelo descarte da noção de que todo confronto é resultante de uma luta do bem contra o mal.

Quando descobrimos que, num conflito, estão envolvidos vários lados, e não apenas dois, já damos um largo passo no sentido de nos tornarmos interior e verdadeiramente livres.

Quando nos capacitamos a enxergar que, na maioria das lutas, todos os lados são a seu modo, tão bons e tão maus quanto os outros, conseguimos atingir o ápice da capacidade de compreender o mundo.

Livres da obrigação de tomar partido ao lado de um suposto bem em luta contra um suposto mal, tornamo-nos aptos e viver, a julgar, a perdoar, a celebrar e a fazer prevalecer a paz na terra para todos os homens.

mal, tornamo-nos aptos e viver, a julgar, a perdoar, a celebrar e a fazer prevalecer a

A VIDA É BELA, MAS

Tomo um cafezinho na cozinha. Preparo-me para sair, quando ouço a vizinha repreendendo a filhinha que soltou um pum:

— Já pensou se você arranjar um namorado e fizer isto na frente dele? Ele nunca mais vai querer saber de você! — Pois tomara que eu não arranje nenhum namorado! Eu gosto é de peidar! – retruca a menininha. Saio de casa e pego meu carro. Tenho que ir a Venda Nova socorrer uma amiga professora endividada que precisa que eu a leve ao centro de BH antes das dezesseis horas. Entro na Cristiano Machado e sigo em direção a Venda Nova. Penso na vida. A vida é bela. E engraçada. Rio da menininha que prefere peidar a arranjar namorado. Faz sentido. Se não dormisse sozinho em meu quarto, se dormisse com uma namorada, eu também não poderia soltar puns sonoros. Começo a me preocupar. Será que, ultimamente, não estou me empenhando muito para arranjar namorada só para soltar meus poderosos puns impunemente? Paro de pensar bobagens e volto minha atenção para a Cristiano Machado. Na pista, uns trezentos metros à minha frente, um cãozinho bonito, peludo, esperto e saltitante disputa espaço com os carros. A cena é rápida. Ele tenta ser mais ligeiro do que um caminhão e tem seu salto bruscamente interrompido. Não escuto nada, nenhum ganido. O rádio do meu carro está alto. A cena se parece com aquelas que você assiste, quando tira o som da TV. Uma pancada do caminhão na cabeça do pobre cãozinho e ele cai. Tbenta se levantar só uma vez e morre. Inerte, aquele corpo canino tão belo e cheio de energia vira, em menos de três segundos, um cadáver. A vida se esvai num piscar de olhos. E o que era vivo está morto. Fico chocado. Penso na nossa fragilidade. Na facilidade de se destruir o que levou anos sendo construído e exercitado. Gosto mais de cachorros do que de certas pessoas. Quando comparo, vejo mais humanidade nos primeiros. E sofro mais com a morte de cachorros, ainda que desconhecidos, do que com a morte de

determinadas pessoas conhecidas. Mas, a morte, não importa se de um cão ou de um ser humano, é, por si só, impressionante. Não. Eu não gostaria de, de repente, virar um cadáver que iria, daí a alguns dias, apodrecer e se decompor. Vem-me à cabeça a idéia de que sou o único ser humano que não se conforma com a morte. Bobagem! Se assim fosse, não existiriam religiões. E eu seria o primeiro a fundar uma. "Ninguém quer a morte. Só saúde e sorte".Lembro do Gonzaguinha, que também já se foi. Na Cristiano Machado, o cãozinho inerte parece um cachorrinho de pelúcia. Os carros desviam dele para evitar sujar os pneus. Ninguém cogita de ver se ele ainda está vivo. Ninguém se dispõe a retirá-lo da pista. Inclusive eu, que, parado num posto de gasolina, apenas observo. Arranco meu carro e acompanho os outros carros. Todos seguem seu caminho em direção a Venda Nova. Ao redor do cãozinho morto, há pouco esperto e saltitante, a vida continua.

seu caminho em direção a Venda Nova. Ao redor do cãozinho morto, há pouco esperto e

AGORA, VOU TE COMER, GOSTOSA!

Não sei. É difícil fazer tal afirmação sem ainda ter te experimentado da forma adequada. Mas, sempre tive um forte palpite de que foste a namorada mais gostosa que já tive. E, a cada dia que passava, ia crescendo em mim a idéia fixa de te comer. Sim, comer-te virou uma obsessão para mim. Todas as noites, ao colocar minha cabeça no travesseiro, ficava a imaginar como devia ser delicioso te devorar. E foi inevitável: passei a fazer planos. Comecei pelas coxas. Planejei prepará-las naqueles espetos giratórios da minha churrasqueira. Ah, tuas coxas! Temperando-as com sal grosso, devem ser deliciosas, principalmente quando chegarem ao ponto certo, nem mal, nem passadas Não pretendo devorar teus pés. Eu os embalsamarei e guardarei de lembrança para masturbar-me olhando para eles, nas noites em que estiver sozinho no meu quarto. Ao contrário de quase todo o resto do teu corpo, teus pés despertam em mim um outro tipo de apetite. Hoje, é um dia de fazeres grandes descobertas: teu namorado, além de antropófago, é pedólatra. Também não comerei tuas mãos. Com essa tua mania de querer ter corpo de modelo, elas ficaram um tanto descarnadas. Não gosto de ficar chupando ossinhos descarnados nos churrascos que faço com minhas namoradas. Sou muito amigo de um crocodilo que vive no zoológico e, discretamente, darei para ele tuas mãos. Sempre que faço churrasco, levo algumas coisas para ele. É sempre bom ser amigo de um crocodilo. Tua barrigada darei para o Rex. Noto como ele fareja tua barriga quando sobe em ti, fazendo festa. É um farejar faminto, de desejo de devorar aquela parte do teu corpo tão sedutora por fora (Que belo umbigo tens!), mas que, por dentro, é recheada de tripas, estômago, rins, útero e outras partes que não me apetecem muito, mas que o Rex adora e come com um apetite voraz. Teus braços também irão para o espeto giratório da minha churrasqueira. Teus seios, porém, pretendo cozinhá-los com muito cuidado para que não passem

do ponto, perdendo a maciez. Tuas nádegas se transformarão em suculentos bifes. Da tua cabeça, apenas duas partes pretendo comer cruas: teus olhos verdes e estes teus lábios carnudos. Espero que eles sangrem bastante. Nunca te contei antes, mas tenho um forte lado vampiro. Quando cortar tua jugular. Ah, quando cortar tua jugular! Garanto que não desperdiçarei uma gotinha de sangue sequer! Teu coração guardarei para a minha próxima pescaria na represa de Furnas. Pedacinhos de coração são uma excelente isca para peixes de água doce. Teu cérebro, bem cozido, devorarei com um objetivo todo especial. Acredito que, quando se devora um cérebro humano, herda-se as qualidades do ser comido e descobre-se também seus segredos mais recônditos. Já tuas costelas, preparadas com um quiabo bem babento, comerei apenas pelo prazer gastronômico. Assim como o teu fígado. Bom, deixemos de conversa. Este papo todo, contigo amarrada e amordaçada no chão da minha cozinha, enquanto eu preparo os temperos e espero a churrasqueira chegar ao calor ideal para assar tua carne, não tem por objetivo apavorar-te, fazendo com que me fites com esses olhos de terror. Nem é meu objetivo traumatizar-te. Se bem que ficarás traumatizada por pouco tempo, já que procurarei ser bem rápido e objetivo no preparo da minha lauta refeição. Esta conversa é apenas para que aprendas que não se deve ouvir amigas invejosas, como aquela tal de Iara, que disse que eu não gosto de ti. Claro que gosto de ti! E muito! Fui criado acostumado a ter do bom e do melhor. Da mesa farta de meus pais só faziam parte as melhores iguarias. Não te comeria, se não te adorasse

do bom e do melhor. Da mesa farta de meus pais só faziam parte as melhores

ALICE NO PAÍS DAS ARMADILHAS

Alice é alegre, mas não é feliz. Toda sorrisos, cheia de simpatia para distribuir para as pessoas normalmente emburradas e estressadas, Alice deve trazer um grande alívio para quem sofre junto com ela. Principalmente, para quem convive com ela dentro da Detenção Feminina em São Paulo. Do alto dos seus sessenta e sete anos, a velha ex-traficante tem pleno domínio da realidade. Na reportagem feita por um programa de TV, Alice nos deu um banho de sabedoria. Mais dez minutos no vídeo e até teria nos convencido de que traficar é natural. Porque Alice é assim mesmo. Transpira a alegria de viver e a serenidade de quem não se deixa afogar pela culpa. Culpar-se por quê? Culpa é para quem tem escolha. Quem não tem opção não pode se dar ao luxo de carregar consigo este sentimento. Ainda mais que a culpa é tão avassaladora quanto a droga. Ou, talvez, pior do que ela. Pelo menos, destrói tanto quanto e também joga as pessoas abaixo do nível do chão. Alice conta com naturalidade que teve que traficar para sustentar os filhos. Que foi presa várias vezes e, não achando emprego por ser ex-presidiária, teve que traficar de novo. Como o farão várias de suas companheiras de presídio quando ganharem de novo a liberdade. Alice cobra da sociedade e dos governos ações mais efetivas para ajudar os ex-detentos a se reintegrarem à sociedade. E, do alto do seu sorriso sereno e dos seus quase setenta anos, mostra como somos omissos. E que, com nossa omissão, jogamos nossos filhos, nossos vizinhos e pessoas que cruzam diariamente nosso caminho nos braços do tráfico e do crime. E depois reclamamos que a violência está próxima demais de nós. Quantas vezes – perguntaria Alice se tivesse mais dez minutinhos que fosse na TV – você negou ajuda a um ex-detento? Não, não estamos falando de emprego, que emprego Alice já disse que ninguém dá. Alice vive no país das armadilhas. A cada dia que passa, cada um só quer saber de si. Ninguém ajuda ninguém. A não ser para ganhar audiência. Sem saída, milhões de pessoas ficam à mercê dos chefões

do crime. Ou roubam ou traficam. Ou traficam ou roubam. E, eventualmente, matam. Quando dão sorte, morrem abatidas pela polícia ou por grupos rivais. Quando não, pegam cadeia. Como Alice. Velha Alice que pegou muita cadeia por esta vida afora. Não sabemos se Alice agradece a Deus por ter sobrevivido tanto tempo. Aliás, nem sabemos se deve. Mas, o sorriso de Alice, a sabedoria de Alice e a sinceridade de Alice são dádivas divinas. Com certeza, Deus, que dizem escrever certo por linhas tortas, não pôs Alice no mundo à-toa. Devíamos prestar mais atenção ao que ela tem a dizer. Se assim o fizermos, talvez paremos de falar tantas bobagens quando abordarmos a questão da violência e da criminalidade neste país. Fale mais, Alice! Cumpre sua missão! Fale e nos mostre um caminho, porque nós, pobres e ignorantes mortais guiados por ricos, corruptos e ignorantes líderes, estamos perdidos. Ao contrário de você, que aprendeu com a vida, apesar (e, talvez, por isso mesmo) de apanhar tanto dela.

Crônica que recebeu prêmio de Destaque em Concurso

promovido pela Academia Cachoeirense de Letras no ano de

2005.

dela. Crônica que recebeu prêmio de Destaque em Concurso promovido pela Academia Cachoeirense de Letras no

CORPO FECHADO

Ninguém tinha mais medo de morte matada, lá

pelas bandas do Mata Cobra, do que o tal de Zé Pedro.

E não era um medo infundado. O pai e o avô de Zé

Pedro tinham morrido tocaiados pelos jagunços do fazendeiro Bode Véio, que expulsou o resto da família de Zé Pedro das terras que ela ocupava na divisa com

a Fazenda do Corcunda. Aliás, foi assim Véio, cujo

nome de batismo era Juvercino Pereira dos Santos, tornou-se o maior latifundiário da região: matando quem se recusasse a vender suas terras para ele. Zé Pedro lembrava-se bem do dia em que trouxeram os corpos do avô e do pai para a casa onde morava com a mãe e mais seis irmãos todos com menos de dez anos. Sua mãe desabou quando viu os dois defuntos. Socorrida, desatou a chorar. Seu choro durou cinco dias ininterruptos, ao final dos quais a mulher veio a falecer desidratada. Bem que, durante o velório e nos dias seguintes aos enterros, os vizinhos e parentes tentaram alimentar e fazer a mulher beber alguma água, mas, apaixonada como era pelos dois homens, a perda para ela fora irreparável. E ela preferiu morrer a continuar a viver num mundo desabitado por aquelas duas criaturas. Sem pai nem mãe nem avô, Zé Pedro e seus irmãos foram para pertinho do povoado do Mata Cobra, morar com uma velha tia que vivia de fazer mandingas. A mulher unia e desunia casais, dizia, só fechando os olhos e rezando, onde achar bois perdidos no mato e desfazia feitiço feito por gente que mexia com magia negra. Temente a Deus, entretanto, dona Maria Lôra só fazia seus feitiços se tivesse absoluta certeza que estava fazendo o bem. Não se importava, porém, em prejudicar alguém se isso viesse a trazer a felicidade de um vivente que ela considerava bom. E gabava-se de ser boa conhecedora da índole humana, sabendo, só de bater o olho, quem era bom e quem era mau. Muito solicitada para fazer trabalhos de todo o tipo para os moradores da região, só tinha uma coisa que dona Maria Lôra sabia como fazer bem, mas, nunca tinha feito: feitiço para fechar o corpo de alguém.

Muita gente procurava a velha com este fito, mas, ela desconversava e dizia que Deus dava a hora de cada um e não seria ela que iria contrariar a vontade do Todo-Poderoso. Além disso, — isso ela não dizia para ninguém – Maria Lôra se recusava a fazer o feitiço porque ele era muito perigoso, como tudo que desafia as leis da natureza.

O tempo foi passando e Zé Pedro e seus irmãos

foram crescendo. Quando tinha quinze anos, Zé Pedro perdeu o irmão mais velho, de novo de morte matada. Foi numa briga no bar do Tito, ocasionada pelo atrevimento do Fuinha, que mexeu com a Zica, xodó do sobrinho mais velho de dona Maria Lôra. Furioso e enciumado, o irmão mais velho de Zé Pedro investiu sobre o Fuinha, que escorou o corpo do rapaz com um facão, O facão cortou tudo que o rapaz tinha de recheio e não teve jeito. O moço morreu antes mesmo de chegar o Chico da Farmácia. Dona Maria Lôra chorou muito. E Zé Pedro, além de chorar, passou a ter mais medo ainda de morrer de morte matada. Na noitinha seguinte ao enterro do irmão, ele chegou perto da tia e fez-lhe a pergunta que há muito calava em seu peito:

— Tia, a sinhora sabe fazê algum feitiço pra fechá o corpo da gente?

— Sei sim, fio. – Nunca a mulher revelara isto

para nenhum ser vivente. – Mas é muito perigoso. Faz muito mal para a pessoa que tenta ferir o corpo do protegido. E pode fazê mal até para pessoa que tivé o

corpo fechado. Só sua tia conhece esse ritual. E ele é muito poderoso. Nunca faia!

Tia

Eu

queria que a sinhora fechasse meu

corpo. Num quero morrê de morte matada ingual meu pai, meu avô e o Jordélio — Melhor num tocá nesse assunto mais, menino! Eu já disse que é perigoso!

— Tia, num tem nada mais perigoso que a

morte. Se a sinhora num fechá meu corpo, eu num vô nunca mais vivê em paz. É capaz até deu me matá pra me livrá dessa sina!

— Meu fio, pensa bem no que cê tá me pedindo! É perigoso! É perigoso pros seus inimigo — Os meus inimigo que se dane! — Num fala desse jeito!

— Tá, tia, descurpe corpo!

Mas

então fecha meu

— Tá bom! Ta bom! Eu já perdi meu pai, meu

cunhado, minha irmã e, agora, o meu sobrinho mais véio. Chega de morte! Vô fechá o corpo docê primeiro. Dispois, daqui um tempo, eu fecho o dos seus irmãos. Só que cê vai tê que fica sete dia trancado no quarto, bebendo só água e se alimentando só duma sopa que eu vô prepará procê.

— Tia, eu aceito quarqué coisa pra ficá com o corpo fechado! — Então, tá certo, fio. Amanhã a gente começa o ritual E assim foi feito. Num ritual complicado que durou sete dias e sete noites de muita reza e sacrifício, Zé Pedro teve o corpo fechado por sua tia bruxa.

Dona Maria Lôra não teve tempo de fechar o corpo dos outros sobrinhos, conforme prometera para Zé Pedro. Morreu de pneumonia sete dias depois de completar o ritual com o sobrinho. A pneumonia, porém, foi só um pretexto que o Criador usou para levar para o purgatório aquela bruxa boa que havia desafiado a morte, livrando o sobrinho da sina de morrer aos vinte e cinco anos, varado por bala de carabina. E, enquanto dona Maria Lôra penava no purgatório, Zé Pedro tornou-se um homem. Um homem com o corpo fechado. Só aos vinte e cinco anos, Zé Pedro foi entender porque o feitiço era tão perigoso para quem tentasse ferí-lo. Foi quando ele deu um corretivo no Coré. Coré ficou inconveniente quando bebeu umas pingas e começou a brincar de passar a mão nas bundas dos homens que conversavam no balcão do bar do Tito. Zé Pedro não gostou da brincadeira e colocou o Coré para fora do bar a pontapés. Coré foi em casa , buscou a carabina e, mesmo meio tonto, ficou firme, frente a frente com Zé Pedro, apontando a arma para a cabeça do sobrinho de dona Maria Lôra. Quando Coré puxou o gatilho, o tiro saiu pela culatra. A bala atravessou-lhe a testa e Coré caiu mortinho na mesma hora.

Foi depois do incidente com Coré que Zé Pedro se convenceu de que o feitiço de Maria Lôra era poderoso e realmente lhe fechara o corpo. Agora, ele entendia o que sua tia quisera lhe dizer quando falara que o feitiço era muito perigoso para os seus inimigos.

Sabendo-se protegido, Zé Pedro, enfim, tomou coragem para colocar em prática o plano de vingança que, em suas fantasias de infância, arquitetara contra o latifundiário Bode Véio. Mataria dois coelhos com uma cajadada só: acabaria com o fazendeiro que causara a morte de seus pais e de seu avô e tomaria para si aquele mundão de terras que aquele velho solitário possuía. Zé Pedro, apesar de confiar no feitiço de Maria Lôra, não era besta de ir sozinho enfrentar a jagunçada de Bode Véio. Assim, ele recrutou vinte jagunços dos bons, aos quais prometeu um pedaço de terra, e o bando armado partiu em direção à Fazenda do Capeta, que era o nome que os habitantes do Mata Cobra deram à fazenda onde morava o latifundiário Juvercino Pereira dos Santos. Antes que os homens de Zé Pedro pudessem entrar na propriedade, a cerca de cem metros da porteira, deu-se o encontro dos dois bandos de jagunços. Zé Pedro ordenou à sua jagunçada que não atirasse, mas, quando os homens de Bode Véio levantaram as armas e o próprio fazendeiro apontou sua garrucha na direção de Zé Pedro, a jagunçada do sobrinho da bruxa desobedeceu a sua ordem e começou a atirar. Foi um massacre. Os homens de Bode Véio começaram a atirar uns nos outros, enquanto eram fustigados pela artilharia da jagunçada de Zé Pedro. Até o latifundiário apontou sua garrucha contra a própria cabeça e estourou seus miolos. Cessado o tiroteio, abaixada a fumaceira, os corpos de toda a jagunçada de Juvercino Pereira dos Santos e o do próprio verme jaziam espalhados pelo chão. Do lado do bando de Zé Pedro não houve nenhuma baixa. Só Fussu de Bembem levou um tiro de raspão dado de mau jeito pelo seu companheiro de bando Jacinto. Coisa boba, de nenhuma gravidade. Daí a uma semana, chegou ao Mata Cobra o delegado do distrito de Pássaro Branco. O Dr. Etelvino, porém, era daqueles delegados de interior que não gostam muito de encrenca. Ele dava uma boiada para não entrar numa briga e sonhava morrer bem velhinho, de aposentadoria. Assim, ele aceitou a versão dada pelo povo do Mata Cobra de que houvera uma rebelião de parte da jagunçada de Bode Véio contra os maus tratos que o malvado infligia aos seus empregados. Numa guerra entre jagunços rebelados e jagunços fiéis ao fazendeiro, os próprios homens de

Bode Véio, segundo os moradores do Mata Cobra contaram para o Dr. Etelvino, teriam se matado uns aos outros, não sobrando vivalma, nem o próprio fazendeiro, para contar a história. A única testemunha do fato fora o moleque Eunápio, que, trepado numa mangueira, presenciou todo o entrevero. Depois de dois dias no Mata Cobra, o delegado deu o caso por encerrado e voltou para Pássaro Branco. Zé Pedro, então, mandou chamar o Bené do Cartório e o instruiu para que passasse escritura de parte das terras de Bode Véio para a sua jagunçada e para seus cinco irmãos. A maior parte das terras, porém, ele mandou registrar no nome dele. A partir de então, Zé Pedro passou a ser o mais poderoso latifundiário da região do Mata Cobra.

O rico latifundiário José Pedro Antunes teve uma existência relativamente tranqüila, depois que Bode Véio morreu. Enfrentou algumas emboscadas, principalmente armadas por forasteiros que, tendo ouvido falar que ele tinha o corpo fechado, tentaram eliminá-lo em busca de fama. Zé Pedro tinha pena dos pobres, que se matavam com bala ou se atiravam do alto dos lajedos onde subiam para tocaiá-lo. Sentia principalmente pelos mais jovens, que acabavam tendo existência curta por causa de um capricho. Mas, o homem do corpo fechado não sentia remorso algum por estas mortes. Ele não podia se responsabilizar por algo que fora resultante da maldade dos infelizes que queriam acabar com ele, sem mesmo conhecê-lo. Depois da guerra contra Juvercino Pereira dos Santos, ele procurou sempre a paz e continuou sendo um bom cristão, temente a Deus e freqüentador da igreja católica, onde batizou os dez filhos que teve com a Zica, por quem se apaixonou e se casou, dez anos após a morte de Jordélio. Aos quarenta e cinco anos, quando já havia vivido vinte anos a mais do que os que Deus lhe dera na Terra, Zé Pedro ficou doente. Seu estômago foi ficando ruim e, como não deu importância ao fato, ele foi convivendo com uma úlcera que, com o tempo, virou câncer. Zé Pedro foi definhando e, cada vez mais, sentia fortes dores, vomitava sangue e tinha dificuldades para se alimentar. Até que não teve mais jeito. Sua teimosia não lhe valeu de mais nada e seu filho Celestino acabou convencendo-o a ir para a capital, para se tratar.

Quando o médico da capital resolveu internar Zé Pedro para fazer os primeiros exames, começaram os incidentes desagradáveis. E os primeiros incidentes aconteceram na sala de endoscopia do hospital. Quando a enfermeira veio com a injeção para sedar o paciente, inexplicavelmente, a moça aplicou a injeção em sua própria coxa, e, grogue, foi conduzida até um leito por uma colega. Zé Pedro, nessas alturas dos acontecimentos, fraco e com fortes dores, bem que tentou dizer alguma coisa para alertar o pessoal do setor, mas, pensaram que ele estava delirando, e ninguém lhe deu atenção. Outras tentativas de sedar o paciente foram feitas sem sucesso. Com várias enfermeiras fora de combate, as duas enfermeiras que sobraram e o médico responsável pela sala de endoscopia chegaram à conclusão que estavam diante de um fenômeno inexplicável e levaram Zé Pedro de volta para o seu quarto.Os médicos, então, desistiram da endoscopia e, diante da gravidade do estado de saúde do paciente, resolveram operá-lo mesmo sem saber o que encontrariam quando abrissem a barriga do fazendeiro. Zé Pedro foi levado para a sala de cirurgia em estado gravíssimo. Diante dos incidentes ocorridos na sala de endoscopia, os médicos optaram por anestesiá- lo usando apenas medicamentos que pudessem empurrar goela abaixo do paciente. Porém, quando um cirurgião pegou o bisturi, aconteceu o inusitado. O médico abaixou sua mão e, num rasgo só, abriu sua própria barriga. Teria feito estrago maior em si mesmo, se os colegas não o desarmassem e, na certa, o cirurgião teria ido desta para melhor, se não tivesse recebido atendimento médico de imediato. Diante do desagradável incidente, os médicos resolveram adiar a cirurgia de Zé Pedro para o dia seguinte. Só que, no dia seguinte, Zé Pedro não precisou mais de cirurgia. De madrugada, sem dizer um ai e, provavelmente, ainda dormindo sob o efeito da medicação que lhe fora ministrada na sala de cirurgia, Zé Pedro Antunes faleceu.

Um dos sofrimentos que Maria Lôra penou no purgatório foi acompanhar passo a passo todo o sofrimento do sobrinho. Desde o primeiro momento em que Zé Pedro entrou no hospital até à sua morte, todos os fatos foram levados ao conhecimento da bruxa do Mata Cobra. Um anjo lhe disse que o

sofrimento do seu sobrinho era para purgar o pecado que o jovem Zé Pedro tinha cometido ao se submeter a um ritual que desafiava a vontade do Criador. Maria Lôra, desde que soubera dos fatos ocorridos na sala de endoscopia, pedira ao Senhor que a deixasse voltar à Terra para desfazer seu feitiço, mas, o Todo Poderoso, ainda muito aborrecido com ela, disse-lhe que ela tinha que ficar onde estava, pagando pelo seu erro e deixando o sobrinho sofrer as conseqüências de seu atrevimento. No momento da morte de Zé Pedro, porém, o Senhor, conforme Ele mesmo havia planejado, deixou Maria Lôra socorrer o sobrinho. É que o poderoso feitiço fechara tão bem o corpo do infeliz que sua alma não encontrara saída para abandonar aquela carcaça imprestável e ir para o purgatório pagar o resto dos seus pecados. Só Maria Lôra sabia com desfazer o feitiço, abrindo o corpo do fazendeiro para que seu espírito pudesse, enfim, abandonar o plano terreno. Assim, Maria Lôra desceu á Terra e, como precisava de sete dias para desfazer o fechamento do corpo de Zé Pedro, levou o cadáver do falecido para a velha casa , agora abandonada, onde ela morara com seus sobrinhos até o dia da sua morte. Quando Celestino chegou no hospital, o alvoroço foi grande. Seu pai havia desaparecido como por encanto. Os médicos, enfermeiros e funcionários que estavam de plantão naquela noite foram chamados à sala do diretor do hospital, mas ninguém soube explicar como aquele homem tão enfermo e debilitado poderia ter abandonado o seu leito e desaparecido. O caso foi parar na polícia e depois na imprensa, que especulou, mas também não soube explicar o mistério. Falou-se em cura milagrosa, seqüestro para exigir resgate e em roubo de cadáver para vender para alguma faculdade de medicina. Um repórter mais chegado ao bizarro levantou até a hipótese de que o corpo de Zé Pedro tivesse sido roubado e violado por algum necrófilo. Na sétima noite após o sumiço do pai, Celestino teve um sonho. Uma velha, que se dizia sua tia-avó, disse-lhe que fosse até a velha casa abandonada onde seu pai morara antes da guerra contra Bode Véio e buscasse o corpo de Zé Pedro para encomendar sua alma e lhe dar um enterro decente. Logo que acordou, Celestino vestiu-se, acertou sua conta de hotel e tomou o rumo do Mata Cobra.

Chegou lá à tardinha e não perdeu tempo. Pegou três jagunços da Fazenda do Capeta, agora chamada de Fazenda dos Antunes, e foi para a casa abandonada onde, outrora, Maria Lôra morara com os sobrinhos. Quando arrombaram a porta, Celestino e os jagunços que estavam com ele não tiveram dificuldade para achar o corpo de Zé Pedro. Ele estava em cima da mesa da sala. A carcaça do pai de Celestino, apesar de passados oito dias da sua morte, não exalava mau cheiro. No ar, predominava forte um cheiro de flor de defunto. Celestino, então, mandou chamar o Simão Perneta, que providenciou um caixão e uma coroa de flores. Antes do enterro do sobrinho de Maria Lôra, foi realizada uma missa de corpo presente para encomendar sua alma.

Zé Pedro ainda passou um bom tempo no purgatório, acabando de pagar seus pecados, principalmente os que cometeu na guerra contra Bode Véio. Estes pecados eram coisa para se pagar pela eternidade no inferno, mas o senhor levou em conta como atenuante o fato de que Bode Véio, além de ser ruim como a peste, tinha assassinado o pai e o avô de Zé Pedro. Além do mais, cheio de sabedoria, o Criador jamais iria condenar Zé Pedro ao mesmo castigo imposto ao latifundiário Juvercino, este sim condenado a penar no inferno por toda a eternidade. Hoje, dona Maria Lôra e seu sobrinho vivem felizes no paraíso. E os segredos do poderoso feitiço para fechar e abrir o corpo de um ser vivente jamais chegou ao conhecimento de nenhuma outra bruxa. Ainda mais que dona Maria Lôra, que aprendera muito com o sofrimento dela e do seu sobrinho, resolveu cumprir a promessa que fez ao Criador de nunca mais revelar este segredo para nenhum mortal. Muito menos para um que fosse dado a lidar com bruxaria.

ao Criador de nunca mais revelar este segredo para nenhum mortal. Muito menos para um que

DE VOLTA AO PRESENTE

"Eu vou voltar aos velhos tempos de mim. Vestir de novo o meu casaco marrom".(M. Valle)

— Fala pro Zé da Bicicleta pra vim buscá a lavagem. Minha lata tá cheia.— É o recado esdrúxulo que encontro na minha secretária eletrônica. Estamos agora em 1999 e acabo de voltar do Congresso da UBES, realizado em Goiânia, onde fui, como expositor, divulgar meu primeiro livro. No primeiro momento, ignoro o recado. Não sei quem é o Zé da Bicicleta. Nem tampouco sei quem se interessaria pela lata de lavagem da senhora que ligou aflita. Depois, começo a viajar. E se for uma mensagem em código? Talvez, o Zé da Bicicleta seja o vizinho dos fundos, que sempre sai de bicicleta de manhã. E, como ficaria muito desconfortável e inadequado carregar uma lata de lavagem na bicicleta, talvez a lavagem seja droga. A mulher poderia estar com muita droga, correndo perigo, ou, "minha lata tá cheia" significasse "a droga chegou". Caio na real, Que bobagem! Que fantasia besta! Volto ao passado e lembro que, em 68, usamos alguns códigos. "Manoel" e "Luzia", por exemplo, tinham um código específico para suas cartas, quando queriam comunicar alguma coisa que fosse perigoso que chegasse ao conhecimento da repressão. Assim, o agente federal ou estadual que dava plantão nos correios para ler as cartas alheias deve ter encontrado algumas frases sem sentido entre as juras de amor do casal apaixonado. Se tentou decifrá-las, não teve sucesso. Nosso código era perfeito, apesar de constituído por poucos vocábulos, e acredito que ele, provavelmente, pensou que aquelas frases não passavam de delírios decorrentes do estado febril que acomete as pessoas apaixonadas. Pisando de novo no chão duro e incerto de 1999, como já disse no início dessa crônica, acabo de voltar do Congresso da UBES em Goiânia. Não. Se o leitor acha que fui em busca do passado, tentando resgatar o horizonte perdido, enganou-se redondamente. O Congresso do qual participei, como expositor, teve poucos pontos

comuns com os da época da Ditadura. Primeiro, fomos em vários ônibus especiais, com faixas nas laterais dos mesmos e bandeiras do PC do B, PT, PSTU, e outros Ps desfraldadas nas janelas, coisa inimaginável nos idos de 68. Naquela época, clandestinos, viajávamos (ao contrário dos barulhentos e alegres secundaristas de hoje) macambúzios, sorumbáticos e tensos, com o coração disparando toda vez que o ônibus parava numa barreira. Quando entravam os policiais ou os soldados do exército no ônibus, nos sentíamos perdidos, apesar de procurarmos manter a calma, para não chamarmos a atenção daqueles que identificavam os passageiros considerados suspeitos. Os congressos de hoje, orgulhosamente considero isto conquista da minha geração, são uma festa constante, com os jovens gritando slogans, palavras de ordem, dançando e batucando, num gostoso carnaval político-ideológico. Nos anos 60, não usávamos microfones e nos manifestávamos e conversávamos baixinho, para não produzir sons que pudessem chamar a atenção da repressão. Isto sem falar que, hoje, os congressos se dão em locais próprios para esse tipo de evento, cedidos pelos governos municipais ou estaduais, ou pelo próprio governo federal. Coisa inimaginável em 68, onde se usava salões paroquiais, conventos de padres, salões de festas, ou até sítios. No alojamento em que fiquei, junto com os meninos, uma escola pública de Goiânia, a mesma saudável baderna acontecia. Numa das manhãs, um maluco nos acordou tocando um tambor. Na noite seguinte, teve festa até alta madrugada. Em 68, não podíamos fazer barulho nos alojamentos. Não porque não quiséssemos. Nossa preocupação não era a de não incomodar os companheiros. Era a de não acordar a polícia. Mas, especificidades próprias de um lapso de trinta e um anos à parte, o fervor e a responsabilidade dos jovens me emocionou. E me fez lembrar dos idos de 68. E a emoção aflorou ainda mais forte, quando conheci um senhor um pouco mais velho que eu. Ele apareceu no terceiro dia do Congresso. Desenvolto, recebia os cumprimentos dos jovens e não-jovens que freqüentavam o Centro de Convenções de Goiânia. Logo percebi que ele tinha aquela aura que identifica as pessoas especiais e, principalmente, os velhos que

têm um passado. Ele dirigiu-se à minha mesa, folheou um livro e puxou conversa. Começamos a conversar e ele logo se identificou. No meio do barulho do microfone, do carnaval político-ideológico e da "guerra" entre tendências políticas, fiquei sabendo que ele foi um sobrevivente da Guerrilha do Araguaia. E, apesar de ter tentado repetir várias vezes, não consegui ouvir com nitidez o seu nome. Por isso, para mim, ele ficou sendo, como o chamavam os secundaristas de 99, o "seu Zé do Araguaia". Trocamos algumas histórias (ou alguma História). Mas, de tudo que ele me contou, o que mais me (nos) emocionou foi a história do Idalísio, irmão de um grande companheiro meu de 68. Segundo ele, Idalísio saiu com alguns companheiros e se perdeu na mata. Sozinho, acoitou-se na casa de um camponês e foi denunciado. Cercado pelo exército, resistiu até acabar sua munição. Ai, o exército invadiu a casa e o matou. Morreu como herói, assegurou-me o "Zé do Araguaia". Contei-lhe então que só soube da morte do Idalísio em 84, quando li seu nome na lista de mortos e desaparecidos, no livro "Brasil Nunca Mais". — Levei mais de dez anos para saber da morte do meu amigo. E mais quinze para saber como ele morreu. A Ditadura nos tirou até esse direito: o de chorar no tempo certo a morte dos nossos companheiros. – Comentei com ele. Nesse momento, enquanto tentava, com o indicador, remover uma lágrima teimosa do canto do meu olho esquerdo, notei que "seu Zé do Araguaia" também se emocionara. Vi isso nos seus olhos. Ficamos ali os dois, no meio daquela juventude alegre, barulhenta e politizada, fitando um o sentimento do outro, até que alguém o abraçou e o levou para o meio da plenária. A partir daí, minha imaginação fez uma viagem tardia, uma viagem que deveria ter sido feita há alguns anos. Imaginei o Idalísio naquela casa, cercado. Seu coração teria batido forte e ele teria tido a certeza de que chegara a sua hora? O que ele sentiu? O que sente alguém que sabe que vai morrer dentro de alguns minutos? Medo, pavor, ou não dá tempo para sentir nada? Atirando, resistindo, ele sabia qual seria o seu destino. Quem conhecia o ódio aos comunistas, o despreparo, o descontrole emocional que tomava conta dos que, seja do

exército, da polícia ou da marinha, não importa, participavam de ações contra nós, sabia que, se resistisse, principalmente armado, iria morrer. E eu não tenho dúvidas: Idalísio soube que ia morrer. Não ia ver a Revolução triunfando. Não ia mais participar de um governo revolucionário que iria acabar com a fome e a miséria no país. Será que ele pensou nisto? Ou só atirava, atirava, sem pensar? E quando acabou a munição e eles entraram arrombando, gritando, atirando, as balas penetrando em seu corpo, a dor e o sangue escorrendo? O que sentiu? De quem se lembrou? Dos companheiros? Da família? Do Deus capitalista e vingativo? Ou do Deus que se posicionava ao lado dos pobres e oprimidos, no qual, talvez, secretamente cria, influenciado pelo irmão padre, membro da ala mais avançada da Igreja e limitado fisicamente numa cadeira de rodas? — Quanto custa? — Ahn? A jovem e bela secundarista interrompeu minha viagem. — Quanto custa, o livrinho? Voltei à tona e respondi à moça, que, provavelmente, se assustou. Não com o preço do livro. Mas com minha expressão transtornada.

e respondi à moça, que, provavelmente, se assustou. Não com o preço do livro. Mas com

DIÁLOGO

— Taquinho? — Sim. Sou eu. É você, Saulo?

— Eu mesmo. Liguei pra conversar um pouco. Tô na pior

— Eu também, cara. Imagina que meu nome foi

pro SPC só porque não paguei três prestações do carro

— A Madalena me abandonou. Deixou um bilhete dizendo que ia morar com o Otávio

— Que absurdo, cara! Os caras te tomam o carro e ainda mandam seu nome pro SPC — Ela escreveu no bilhete que estava farta de todo dia eu chegar em casa cansado e não dar assistência. E também que, se não fosse o Otávio quebrar o galho dela

— .O pior é que eu já tinha pago trinta e quatro

prestações! Só faltavam quatorze e a financeira não

quer devolver a grana que eu paguei. Querem que eu

pague de uma vez todas as prestações que faltam pra me devolver

— Imagina que a piranha já vinha me traindo há um tempão. E ainda tem coragem de dizer no bilhete que a culpa é minha e que eu devia

— Veja só, Taquinho, se eu não dou conta nem

de pagar uma prestação com a merreca que eu ganho, como vou pagar todas de uma vez? Esse pessoal é — Saulo, sinceramente, eu não nasci pra ser corno. Dói, cara! E como dói! É foda a gente trabalhar

feito um cão, dar tudo do bom e do melhor para uma mulher e depois — Toda vez que eu estou pendurado num ônibus, minha cabeça até esquenta de tanto ódio que eu fico daquela financeira! Pô, eu paguei trinta e quatro prestações! Meu dinheiro não é água não! Eles deviam pelo menos

— Pior é o desgraçado do Otávio! O cara se dizia meu amigo, freqüentava minha casa, tomava cerveja comigo e depois apronta uma dessas! Quando penso nele dá vontade de

— Tanto corrupto e ladrão nesse país e logo eu

tenho que levar ferro! Não é justo! E fica tão difícil

trabalhar sem carro e ainda

— Se eu fosse um cara estourado, violento,

matava os dois! Juro que matava! Onde já se viu um cara que se diz amigo seu e uma mulher que se diz

honesta

— Dá vontade de ir lá na financeira e roubar o

carro do gerente daquela merda, só pra ele ver como é bom a gente ficar sem carro! Ah, mas eu vou contratar um advogado! Eles estão fazendo isto comigo porque

estão achando que eu sou

— Se eu não fosse tão honesto, eu poderia ter

arranjado uma amante também. Afinal, a Madalena

tava ficando cada vez mais acabadinha. Não sei o que o crápula do Otávio viu nela que

— Eu podia fazer como aqueles caras lá dos

Estados Unidos. Podia pegar umas três armas carregadas e sair descarregando no pessoal daquela financeira fudida. Mas eu não sou — Agora, os dois se merecem! O Otávio também não é grandes coisas. Você já reparou no tamanho da barriga dele? O cara parece mais um — Ô taquinho, agora eu vou ter que desligar. Estão ligando da financeira pro meu celular e pode ser que eles estejam querendo fazer alguma proposta de negociação.

— Vou ter que desligar também. Estão batendo lá no portão e pode ser a Madalena que se arrependeu e resolveu voltar.

— Tá legal, cara. Foi muito bom conversar com você. Estou mais aliviado.

— Eu também. É bom ter um amigo como você para ouvir a gente nas horas difíceis. Um abraço. Tchau! — Tchau, amigo! Me liga mais tarde para a gente se falar mais

para ouvir a gente nas horas difíceis. Um abraço. Tchau! — Tchau, amigo! Me liga mais

FASE RUIM

Saio de casa aborrecido. Estou chateado sem saber porque. Remexo em minha memória acabo me lembrando. Realmente, uma coisa me aborrece. E muito. Não. Não estou falando do menino da minha vizinha. O tolinho, no auge dos seus três aninhos, apenas me alertou, quando, apontando para a minha barriga, perguntou inocentemente:

— Moço, cê comeu muito? A minha mãe falou que quem come muito fica assim Claro que dei uma resposta para o menino. Uma resposta constrangida e cheia de culpa, mas dei:

— Comi sim, meu filho. Comi demais O menino não tem culpa de nada, apesar de ter sido severamente repreendido pela mãe. Eu mesmo, até que ri da situação. O que me incomoda não é estar gordo. O que me incomoda é ser professor da rede púbica Após dois anos afastado da sala de aula, achei que ia voltar e encontrar as coisas melhores. Mas não. As coisas estão piores. Para reassumir meu posto na sala de aula, tive que me transferir de escola. E, ao apresentar-me na minha nova escola, novamente fui muito mal recebido. E tudo porque, de novo, havia um contratado que, com a minha chegada, ia perder o seu precário e inseguro emprego. O diretor da escola para onde fui transferido quis me encaixar (no bom sentido, é claro) com metade das minhas aulas de manhã e a outra metade à noite. Não concordei, bati o pé para ficar com meu cargo completo de manhã e, com isso, já cheguei na escola ganhando a antipatia do meu novo chefe. No primeiro dia de trabalho, em reunião com os novos colegas, descubro que não posso adotar livro didático. Os alunos não têm como compra-lo e o governo não fornece livro de História para aluno do ensino médio. Ótimo! – Penso – Farei uma apostila e, se tiver tempo, talvez até produza alguns textos. Vã pretensão! Descubro também que a escola não tem papel para fornecer ao professor que quer elaborar sua apostila. Serei, então, obrigado a deixar uma cópia de cada apostila no xerox, para que os alunos mandem tirar cópias e paguem por elas. É o

único jeito que funciona, asseguram-me meus colegas. Se eu quiser, também posso tirar quarenta cópias do texto, pagas por mim, e distribuir para os alunos, recolhendo ao final de cada aula. No primeiro dia de aula, levo um texto com quarenta cópias que tirei na papelaria perto da minha casa. O texto aborda a questão da violência. Faço uma discussão com os alunos, dou um trabalho e decido passar, nas aulas seguintes, "Uma Onda no Ar" para as minhas turmas. Alugo a fita e levo para a escola. A TV da escola, única que lá existe, é um cacareco (Atenção jovens:

cacareco, para nós mais velhos, é um trem véio). Ela só fica no volume máximo. Chamo vários funcionários da escola, mas ninguém sabe mexer na TV. Falam que ela está estragada. Um aluno, porém, enfia um araminho no buraco onde devia ficar o botão de controle de volume e consegue colocar a TV num volume suportável. Assistimos a uns vinte minutos de fita que, percebo, prende a atenção dos alunos. No dia seguinte, volto com a fita e não encontro a TV na escola. Foi levada para o conserto e ninguém me dá notícia de quando ela volta. Vou ter que replanejar tudo. Faço a discussão do trabalho que dei anteriormente com os alunos, encerro o assunto e decido iniciar o conteúdo de História no dia seguinte. Juro para mim mesmo que eles não vão me fazer desistir. Eles vêm tentando fazer com que eu desista há trinta e dois anos. Se fiquei dois anos fora da sala de aula., foi movido por motivos pessoais. Jamais foi por causa deles. É uma conspiração. Fazem isto para que professores desistam de ir trabalhar e os alunos, com isso, fiquem de horário vago na escola. Assim, o estado economiza, ao mesmo tempo em que ninguém pode acusar o governo de estar negando ao aluno o sagrado direito à educação. Meus pés doem. A maioria das salas de aula não tem cadeira para o professor (algumas não têm nem uma mesa decente). São quatro horas em pé. Tenho pés chatos, peso cento e dez quilos e tenho uma prótese de platina no lugar do fêmur. Ficar em pé tanto tempo provoca-me dores quase insuportáveis. Mas, prometo de novo para mim mesmo: não desistirei. Por mais que eles tentem, não me farão desistir. Um dia, perguntaram a Getúlio Vargas:

"Quantas horas são?". E ele respondeu: "Duas e dez".

Isto me faz pensar que, se até os grandes homens falam e fazem coisas sem grande importância, por que logo eu tenho que bancar o diferente? Sei lá. Às vezes, penso em largar tudo e abrir uma banca de revistas usadas. Mas aí, quando lembro que estou descapitalizado e que meu estoque está zerado, desisto da idéia e volto ao firme propósito de jamais desistir. Por mais que eles conspirem para isto

está zerado, desisto da idéia e volto ao firme propósito de jamais desistir. Por mais que

MAL-ENTENDIDO

— Alô. É da casa do amor? — É — Eu queria falar com a Ágda — Com a Magda?

— Não! Com a Ágda. Ágda. Começa com A, de anta.

O que adianta? de Anta. Como a senhora

Não é adianta! É A

Pensou alto.

— Peraí, agora eu entendi! O senhor me chamou de anta! — Mas, que diabo! A senhora é surda?

— O que que o senhor tem contra os curdos? Por acaso, é o Saddam?

— Minha senhora, aí é ou não é a Casa do Amor?

— Claro que é!

Eu já falei que é!

— E a senhora é puta?

— Claro que escuto! Escuto muito bem! Só que meu

aparelho não tá legal, tá dando uma chieira. Não dá pra ouvir direito

— Tá bom! Tá bom

Mas já que a senhora tá com

problema de audição

— Tição?! Quem é tição? O senhor é racista também?

— Ai, meu saco!

— Olha o respeito! — E eu queria só tirar o atraso — Criar um caso? Quer dizer que o senhor ligou só pra criar um caso?

— Minha senhora, já que tá tão difícil a comunicação

entre nós — Isso eu entendi. E concordo plenamente!

— Pra simplificar as coisas, eu vou querer a foda com a senhora mesmo — Mas, eu não entendo nada de moda!

— Não é moda, sua anta! É foda! Efe

o

a!

— Será que eu ouvi o que penso que ouvi? Afinal, o

senhor pensa que pode ir ligando para uma casa de família

— Que casa de família, minha senhora?! Aí é ou não é a Casa do Amor? — Claro que é! E o senhor é um covarde que se esconde atrás do anonimato

— Dorinato, Nonimato, não me mato, sei lá! Aqui não

tem ninguém com esse nome que a senhora falou aí

— Ih!

Seu telefone agora também tá com ruído? Eu

disse que o senhor se esconde atrás do anonimato pra

ofender uma mãe de família! — Se a senhora é uma mãe de família, por que resolveu ser puta? Ora bolas! A senhora tem que escolher: ou é puta ou mãe de família! — Agora quer por minha filha no meio

— Que filha?

Peraí, sua filha tem quantos anos?

— Olha, meu senhor, já que o senhor não me respeita,

respeite pelo menos minha filha!

— Ah!

Agora eu entendi! A senhora está querendo é

um cachê mais gordo!

Diz! Vai! Diz aí quanto é mãe

e filha juntas! Eu pago! Eu pago o quanto for! Eu tô abonado. Ganhei uma grana no bicho ontem

— Olha, moço, se eu não estivesse desconfiada de que isso é uma pegadinha da televisão, eu já teria desligado há muito tempo

— Claro que isso não é uma pegadinha! Aliás, esse papo tá começando a ficar excitante. Se a senhora

estivesse aqui ao vivo e a cores, ia pedir pra senhora

dar

uma pegadinha!

— Meu senhor, mas o senhor não tem limites mesmo!

No princípio, até pensei que o senhor era um dos amigos do meu marido, mas

— Ih!

Lá vem outra proposta! Não! A senhora pode ir

tirando o cavalinho da chuva! A senhora, sua filha e

seu marido, nem pensar! Tenho alergia a homem!

— O que que o senhor disse? O ruído do telefone tá aumentando — EU DISSE – Gritou o "cliente" — QUE EU NÃO QUERO TRANSAR COM A SENHORA, SEU MARIDO E SUA FILHA!!!

— Não! Agora eu ouvi! O senhor ofendeu toda a minha família! Nenhum ator de pegadinha falaria esses horrores! Muito menos um amigo do Walmor! Vou desligar!

— Peraí! Peraí, minha senhora! Quem é o Walmor? — Meu marido, o dono da casa — Ah, o cafetão!

— Não. Ele ainda não é capitão. É só cabo dia ele chega lá! — E a senhora gosta muito do cabo? — Claro!

Mas um

— Mas chifra ele por grana

Que vergonha!

— O que o senhor disse?

— Nada. Deixa pra lá. Olhe, a senhora já esticou esse

papo muito. E eu só tô na linha ainda porque esse papo tá me dando um tesão danado!

— É, seu tarado? Agora, eu entendi. Pois saiba que eu

só tô na linha até agora porque eu achei que o senhor era um amigo do Walmor metido a engraçadinho

— Mas, o que a levou a pensar que eu sou amigo do corno do seu marido?

— Ah

Graças a Deus, aquela chieira no aparelho deu

um tempo! Quando o senhor ligou, o senhor não perguntou se era da casa do Walmor? — Não. — O que?

— Claro que não! Eu perguntei se era da Casa do Amor. CASA DO AMOR! – Berrou. — O que é isso, Casa do Amor?

— É uma zona, um prostíbulo, uma casa de encontros, um pu

— Chega! Chega, seu indecente! Já entendi! Mas, pra qual número o senhor ligou? — 44343232.

— Estranho, é daqui mesmo. Mas, que eu saiba, minha casa nunca foi uma zona. O Walmor, de vez em quando, até diz que tá uma zona, mas aí, eu largo a preguiça de lado, dou uma arrumada

— Minha senhora,— interrompeu o "cliente" que, mesmo tardiamente, percebeu que algo estava errado

— aí não é a Casa do Amor e sim a casa do Walmor?

— É. Mas o número é o mesmo que o senhor me falou. Onde o senhor arranjou esse número?

— Num anúncio do jornal "Galpão". Tá aqui, ó: "Casa

do Amor – Ágda e suas amigas levam você ao paraíso. Atendemos homens, mulheres e similares. Promoção:

10% de desconto à vista ou 28 dias no cheque. Fone:

44343232".

— Pois é, moço. Pois o anúncio saiu errado. Não tem

nenhuma Ágda aqui. Minha irmã se chama Magda, mas ela só vem aqui uma vez por semana pra me ajudar na faxina. E meu marido, o Walmor – mentiu – é super musculoso e campeão de Karatê! Se ele

tivesse atendido

Ah, se ele tivesse atendido!

— Minha senhora, mil desculpas! Esqueça tudo que eu falei. Agora, se quer uma dica, ligue pro Galpão e reclame! — Claro que eu não vou só reclamar! – Declarou ela, agora sim, muito puta. — Vou processar aqueles incompetentes!

— E esse foi apenas o primeiro de muitos telefonemas que a família recebeu de homens, mulheres e similares em busca do prazer. O Walmor processou o jornal e, no juizado de pequenas causas, a honra e o sossego da família do Walmor valeram apenas um salário mínimo. Tendo esperado quase um ano pelo desfecho da causa, Walmor aceitou a mísera compensação, juntou à "indenização" parte do seu 13 o salário e comprou um aparelho de telefone novo. Daqueles que vêm com bina

"indenização" parte do seu 13 o salário e comprou um aparelho de telefone novo. Daqueles que

MATOU, BEBEU O SANGUE E DEPOIS COMEU O FÍGADO!

"Rasga-lhe o peito o demônio, tombando a velhinha aos pés do altar." (Vicente Celestino)

No segundo semestre de 68, ficava cada vez mais difícil mobilizar a massa. Acuadas pelo medo, vítimas da propaganda avassaladora da Ditadura que visava desgastar e colocar no descrédito os movimentos populares, as pessoas comuns começaram a tapar os olhos, os ouvidos e as bocas. Melhor não se comprometer, pensava a maioria das pessoas, principalmente as de classe média que já sonhavam com os benefícios que já começavam a vislumbrar para si, mesmo antes do "milagre brasileiro". Passada a revolta com a morte do Edson Luís e de outros estudantes e a febre de contestação que varreu o país, a omissão e o medo tomaram conta de grande parte da massa que participara das mobilizações do primeiro semestre de 68. A segunda parte do glorioso ano passou a ser palco das ações da militância mais comprometida. Eu, porém, não me conformava com a situação. Membro da AP, uma organização que propunha uma revolução popular com ampla participação das massas para se chegar ao poder, eu estava disposto a tudo para dar a minha contribuição no sentido de fazer as massas retornarem ao movimento estudantil. E foi com este espírito que saí de casa naquela manhã. Teríamos que convocar uma assembléia dos estudantes do Colégio Estadual Central e era vital que aquela assembléia não se resumisse a uma reunião de meia dúzia de gatos pingados da AP, do Partidão e da POLOP. Eu queria que a assembléia fosse numerosa, com ampla participação dos estudantes do Estadual. Caminhando para o Colégio, ao passar diante de uma banca de jornal, veio-me a idéia luminosa. Foi quando vi, em exposição, uma enorme manchete que ocupava quase toda a primeira página do "Noticias Populares", um jornal sangrento da época: MATOU, BEBEU O SANGUE E DEPOIS COMEU O FÍGADO! O estalo foi imediato e a idéia já nasceu pronta.

Sem titubear, comprei um exemplar do jornal e fui mais animado para o Estadual Central. Chegando lá, cola, tesoura e papel pardo, e – pronto! – nasceu o cartaz que certamente todos leriam. Afinal, este era um dos motivos pelo qual mobilizávamos pouco os estudantes naqueles dias: nossas formas de comunicação estavam saturadas e a maioria das pessoas nem liam mais nossos avisos. O cartaz foi sucinto e objetivo. No alto, colei a manchete da primeira página do "Noticias Populares":

MATOU, BEBEU O SANGUE E DEPOIS COMEU O FÍGADO! Embaixo, em letras menores, mas não pequenas, escrevi:

"Assembléia, amanhã, às 10 horas, perto da rampa. Pauta: Próximos passos do movimento secundarista. Participe!" Colado estrategicamente na entrada da cantina, o cartaz foi um sucesso. Ninguém que passou naquele dia na cantina do Estadual deixou de lê-lo. E a assembléia também foi um sucesso. Foi a que teve o maior número de participantes no segundo semestre de 1968.

E a assembléia também foi um sucesso. Foi a que teve o maior número de participantes

NÃO ACREDITO EM DEMÔNIOS

Não acredito que exista um ser tão terrível como o Demônio, tal como é descrito por diversas religiões. Se o Todo-Poderoso realmente ama sua criação, certamente não iria permitir termos que tolerar, além da maldade que campeia sobre a Terra em carne e osso, a existência de entidades imortais que ainda iriam tumultuar ainda mais o caos em que vivemos. O mal, no plano terreno, já está muito bem representado por homens cruéis e desprezíveis. É muito difícil acreditar na existência de seres mais intoleráveis e cruéis, por exemplo, do que o Presidente da nação mais poderosa do mundo, que manda matar indiscriminadamente mulheres, velhos e crianças, em nome da liberdade. Não podem superar nenhum demônio aqueles que mandam assassinar defensores da natureza e dos direitos humanos, líderes sindicais, trabalhadores, religiosos e fiscais no cumprimento do dever. Será que pode existir uma entidade pior do que aqueles que, ao invés de protegerem a sociedade como deveriam pela profissão que exercem, promovem chacinas terríveis, inclusive, para não deixar testemunhas de seus crimes, executando crianças, inocentes, jornalistas e até colegas de profissão? Que Diabo ainda poderia ser pior do que as pessoas que matam velhos que trabalharam a vida interia para surrupiar o pouco que possuem? Ou do que aqueles que se apoderam de recursos públicos que, uma vez utilizados de forma correta, poderiam livrar da morte, da miséria e do sofrimento, milhões de pessoas? Qual a entidade que ainda poderia ser mais nociva do que aqueles que inventam artefatos capazes de destruir o mundo inteiro? Ou mais cruel do que aqueles que poluem e destroem o planeta, comprometendo a sobrevivência das gerações futuras? Existiria demônio mais terrível do que o filho que assassina seus pais ou do que o pai que elimina toda a sua família? Não. Não acredito que, além de termos que aturar toda esta escória que habita e exerce, oficialmente ou não, o poder em nosso planeta, Deus tenha nos condenado a conviver com criaturas vindas

das trevas para tornar ainda mais difícil a nossa existência no plano terreno. Os demônios que realmente existem têm nome, endereço, registro de nascimento, documento de identidade, carne, sangue e vísceras. E o mais provável é que, que ao findar a existência dos nossos pobres diabos humanos, Deus os destrua, num trabalho incansável que ele realizará até nos livrar definitivamente daqueles que hoje nos envergonham de fazer parte da espécie humana.

que ele realizará até nos livrar definitivamente daqueles que hoje nos envergonham de fazer parte da

NOS TEMPOS DA MADALENA

Esta história passou-se em 1971, quando eu morava numa republica no Santo Antônio chamada "Boteco da Madalena". Na época, nós, os moradores do "Boteco da Madá", também conhecidos como "Família Carau", vivíamos inventando as mais diversas maneiras de nos divertir e passar o tempo. Nosso cotidiano era pesado. Tínhamos aulas do curso do Premem de tarde e de noite, e um monte de trabalhos para fazer de manhã e nos fins de semana. Por isso, inventávamos tanta moda. Num belo dia, quando não tínhamos mais o que inventar para descansar a cabeça, o Jura apareceu com um joguinho daqueles em que os competidores disputam uma corrida cheia de punições, obstáculos e recompensas. Nestes joguinhos, para sair do lugar, cada competidor joga e anda tantas casas quanto sair no dado. Quando o Jura apareceu com o jogo, logo me interessei e quis jogar com ele. Mas, tinha um detalhe. Não havia nenhum dado na casa. Porém a nossa vontade de jogar era tanta, que deixamos a preguiça de lado e resolvemos ir para o centro da cidade comprar um dado. Fomos muito mal atendidos em todas as lojas pelas balconistas. Além de não encontrar o que procurávamos, começamos a sentir que as moças nos atendiam sempre com a cara muito fechada e com uma vontade muito mal-disfarçada de nos dar uma má resposta. Só depois de passarmos por uma meia dúzia de lojas, é que atinei para a mancada que estávamos dando:

— Ô Jura, cê percebeu o que estamos fazendo? — Não. O que?

— O que estamos perguntando para as moças? — Se elas têm dado.

— Pois, é. Tá pegando muito mal chegar pra moça e perguntar: "Cê tem dado?" Por isso é que elas tão torcendo o nariz pra gente.

— Pó, cara, é mesmo! Sabe que eu não tinha pensado nisto? – O Jura pensou um pouco. – Mas, por

outro lado, é isso mesmo que temos que perguntar. Se as moças estão com maldade na cabeça e deturpando o que estamos falando, o problema é delas. A gente quer saber é isto mesmo: se elas têm dado pra vender — Piorou

— Pois eu vou continuar perguntando do mesmo jeito. Não tenho preconceito! Quando chegamos em outra loja, permaneci calado e o Jura perguntou:

— Moça, cê tem dado? — Tenho, moço, mas o meu é muito pequenininho — Eu quero ver assim mesmo. Eu não sabia onde esconder a cara. Tive um incontrolável ataque de riso e saí imediatamente da loja, fingindo não ter nada a ver com o Jura. Ri um bocado lá fora e, quando me senti aliviado daquela incontrolável vontade de gargalhar, voltei para dentro do estabelecimento. Encontrei o Jura examinando o dadinho que nos custou quase nada. O Jura pagou e nos entreolhamos. A vontade de rir voltou quando a moça nos chamou:

— Olha, qualquer coisa que precisarem, estou ao dispor de vocês. Meu nome é Sandra. Eu e o Jura nos entreolhamos novamente e concluímos juntos que a moça não só tinha dado como também simpatizara conosco.

e o Jura nos entreolhamos novamente e concluímos juntos que a moça não só tinha dado

O LER, O SABER E O PODER

Em tempos passados, nas principais sociedades humanas, somente uma casta de privilegiados sabia ler. O acesso à leitura e ao saber era privilégio daqueles que se colocavam a serviço do Estado e, portanto, a serviço das elites dominantes. A maioria da população, nestas sociedades, analfabeta e ignorante, era presa fácil da manipulação dos ricos e poderosos. Ao mesmo tempo, a magia da palavra escrita foi descoberta desde o início da civilização humana. Não foi à-toa que os primeiros marketeiros da história da humanidade criaram o slogan "É verdade porque está escrito". Passados alguns milênios de Civilização, toda a tecnologia colocada a serviço da humanidade não tirou o poder mágico da palavra escrita. O saber ler democratizou-se e acabou tornando-se habilidade também das chamadas "classes inferiores". Entretanto, num primeiro momento, o acesso à leitura pelos dominados trouxe grandes prejuízos para os donos do poder. As "classes inferiores" não só passaram a absorver, como também passaram a produzir saber. Desvendando a crueldade do jogo sórdido que os condenava à miséria e à submissão, os intelectuais provenientes ou simpatizantes das classes exploradas passaram a articular um modelo de sociedade totalmente distanciado dos interesses dos grupos dominantes. Entretanto, após um período historicamente efervescente, marcado por uma rica produção de um saber contestador e revolucionário, recentemente, os grupos que se consolidaram como dominantes após a Revolução Francesa, retomaram o controle da situação. Donos, agora, de um poder globalizado e tendo em suas mãos formas evoluidíssimas de controle da mente humana, as elites dominantes do século XXI não se descuidam de nada, quando se trata de garantirem seu poder. Os mínimos detalhes são importantíssimos. E, o pior, é que eles passam desapercebidos para a maioria dos mortais comuns. Uma das formas de engessamento da mente humana são as regras impostas "para uma boa comunicação escrita". De repente, só textos curtos

comunicam. Textos longos são considerados cansativos. Na realidade, disseminou-se a idéia de que ler é chato. Porém, a verdade é que a televisão e a Internet ajudaram a criar uma massa de semi- analfabetos de tipo novo. Ao ver um texto mais longo, este tipo de semi-analfabeto vira a página e parte á procura de mensagens sucintas, gravuras ou, de preferência, de fotos de mulheres e homens seminus. Estamos todos submetidos à ditadura da objetividade. A enxurrada de textos curtos e objetivos ampliou, nos últimos anos, o imenso exército de criaturas humanas com conhecimento precário e superficial da realidade, e, o pior, qualitativamente desinformadas, apesar da imensa quantidade de "informações" que recebem. Como não se consegue abordar responsavelmente nenhum assunto sério com poucas palavras, textos "enxutos", na maioria das vezes, são secos demais. Não é à-toa que os grandes problemas do mundo atual, quando seriamente abordados, dão origem a longos tratados. Quando se quer julgar alguém que cometeu um crime, consome- se páginas e páginas nos processos. E ninguém se forma na faculdade lendo "textículos" e folheando livros especializados em busca de gravuras. Há um quase consenso na sociedade de que quem vai exercer qualquer tipo de poder tem que ter lido e estudado

, A leitura, como no passado, voltou a ser privilégio dos que servem aos poderosos. E, hoje, quem controla o ler, o saber e o poder são os grandes mídias de plantão que, assíduos leitores de tratados extensos, elaboram textos curtos e objetivos para manipular um numeroso e acomodado rebanho de semi-analfabetos de tipo novo.

muito. Já quem está destinado a obedecer

manipular um numeroso e acomodado rebanho de semi-analfabetos de tipo novo. muito. Já quem está destinado

O VELHO E A MOÇA

O velho maldisse seu joelho esquerdo e caminhou arrastado até seu quarto. Gordo, o peso dos seus cento e vinte quilos piorava ainda mais a lesão do joelho, multiplicando a dor que sentia ao caminhar. Deitar-se na cama foi fácil. Bastou jogar o corpo sobre o colchão. Difícil seria levantar-se mais tarde. A cada dia que passava, o velho sentia mais dificuldade para se levantar. E o pior é que, apesar de toda a sua indisposição e decadência física, ele ainda sentia um certo afogueamento entre as pernas. O que, com certeza, era uma vingança da natureza pelo descaso dele com o corpo belo e saudável que ganhara ao vir ao mundo. A bem da verdade, o velho não seria tão velho, se tivesse se cuidado melhor ao longo de sua existência. Nosso personagem escolhera uma hora muito imprópria para se separar de sua esposa. No estado em que se encontrava, jamais encontraria uma mulher normal que estivesse disposta a carregar o pesado fardo de conviver e, principalmente, dividir a mesma cama com ele. Se ele, pelo menos, fosse rico ou

remediado

Mas,

não. Após uma carreira gloriosa

como jogador de futebol de vários clubes, inclusive dois clubes do exterior, o velho mal conseguia se manter com dignidade. Não soubera administrar o dinheiro que ganhara. O deslumbramento, a imaturidade e o perfume enjoativo das prostitutas profissionais e amadoras falaram mais alto e, agora, o

velho dependia da gratidão dos filhos que, se não o queriam por perto, pelo menos ajudavam a pagar o quarto de hotel onde vivia.

A moça parecia linda e tinha um corpo escultural do qual cuidava como podia e como a profissão lhe permitia. Não era prostituta, se bem que seu estilo de vida, agora, não diferisse muito do estilo de vida de uma garota de programa. A bem da verdade, ela começara a sua vida profissional vendendo o corpo. Como levava jeito para o palco e para a dança, acabou sendo "promovida" a dançarina de strip-tease na boite-bordel onde trabalhava, não sendo dispensada, porém, por seu

"agente", de fazer pelo menos um programa por noite, após a apresentação do seu número. Uma noite, ela foi descoberta por um picareta que produzia um programa erótico de quinta categoria numa pequena estação de TV local. A partir daí, como foi muito "boazinha" com seu futuro "chefinho", a moça deu um importante passo em sua carreira, tranformando-se na nova apresentadora do programa produzido por seu descobridor. Depois que evoluiu de garota para apresentadora de programa, nossa jovem mudou de vida. Abandonou definitivamente a mais antiga das profissões, estudou muito, passou no vestibular, entrou para uma faculdade de jornalismo e, tentando conciliar sua vida de estudante com os compromissos notívagos decorrentes da sua nova profissão, passou a sonhar com o dia em que seria (re)conhecida por outros atributos que não aqueles relacionados com as coisas da sensualidade. E foi para se dedicar mais aos estudos que a moça passou a dividir um quarto com uma colega de classe, naquele pequeno hotel perto de sua faculdade. Quis o acaso que ela escolhesse, justamente, um quarto ao lado do quarto do velho. Enquanto moraram naquele pequeno hotel, o velho e a moça nunca se falaram. Seus horários não combinavam e lembravam aquela letra do Chico que fala do funcionário e da dançarina. Só um dia, eles se viram na copa do hotel e, mesmo assim, trocaram apenas um olhar e um sorriso, no momento em que ele tentava fechar a geladeira ao mesmo tempo em que ela tentava abrí-la. Depois disso, nunca mais, o velho e a moça se viram nesta vida.

O velho, já há algum tempo, sempre que dormia, vinha tendo o mesmo sonho. No sonho, ele não era mais um velho. Tinha um corpo jovem e belo e caminhava, como na sua juventude, lépido e bem disposto. E visitava sempre um belo lugar, cheio de pessoas felizes que pareciam se amar profundamente. Foi no dia do episódio da geladeira que o velho, em seu sonho, encontrou a moça. A princípio, nosso personagem não reconheceu a jovem, já que ela se apresentava sem a roupa e a maquiagem pesada do seu cotidiano. Só depois de se aproximar e conversar com ela, foi que o velho percebeu que a moça tinha a mesma aparência da jovem que dormia no quarto ao

lado do dele e que ele via depois da meia-noite na TV, quando perdia o sono.

A moça do sonho do velho era uma pessoa pura

e sem ambições. Assim como o ancião deixara para trás toda a sua decadência física, no sonho do velho, a moça deixara para trás todo o peso da culpa e das decepções que tivera ao longo de sua curta existência. Transformara-se, naquele local agradável onde o velho se refugiava todas as noites, numa mulher doce e cheia de vida, que sempre tinha coisas interessantes para dizer. Com o tempo, as conversas que o velho tinha com a moça foram se tornando cada vez mais ricas e prazerosas. A cada retorno daquele homem em fim de jornada àquele recanto maravilhoso, a moça se revelava uma criatura cada vez mais bela em sua totalidade. Um dia, o velho chegou a uma conclusão incontestável: apaixonara-se, perdidamente, pela linda personagem dos seus sonhos. Sem nenhuma dúvida, era ela a mulher da sua vida. Inicialmente, o velho pensou em ficar acordado até mais tarde. Quando a moça chegasse, ele se declararia para sua vizinha de quarto. Entretanto, depois que se olhou no espelho e viu a moça na TV, chegou à conclusão que ele e sua vizinha do mundo real não eram as mesmas pessoas do mundo dos sonhos. Naquela mesma madrugada, ao fechar os olhos para dormir, ele decidiu se declarar para aquela figura maravilhosa que habitava seus sonhos.

O valho percorreu ansioso seu paraíso, procurando por sua amada. Não demorou muito e ele encontrou a jovem. Ao sentar-se a seu lado, sentiu uma forte emoção que quase o impediu de falar:

— Eu precisava te dizer uma coisa — Eu sei. – Interrompeu a moça, facilitando as coisas para seu interlocutor. – Eu também te quero Os dois se beijaram calma e ardentemente,

iniciando o ritual que antecede à realização plena do amor entre um homem e uma mulher. Foi aí que perceberam algo que, até então, não haviam notado. Eles estavam nus. E haviam estado nus o tempo todo, em todos os sonhos, Aliás, todos que habitavam aquele lugar não usavam roupas. E, para aquelas pessoas, este era um fato extremamente natural.

O velho e a moça viveram um ato de amor como

nunca tinham experimentado. Foi um ato duradouro,

pleno, que não se acabava com o orgasmo. No amor dos dois, o orgasmo, que durava o tempo que quisessem, não significava o fim transitório do desejo, que, perfeitamente controlável, jamais se tornava uma obsessão. O desejo permanecia vivo o tempo todo nos dois, mas sem escravizá-los. Tanto que eles só se desligaram sexualmente quando, de comum acordo, decidiram que era hora de repousarem abraçados se olhando nos olhos. Nesse momento, uma angústia profunda tomou conta de ambos. O tempo estava passando e eles tiveram a consciência de que, com a chegada da manhã, eles acordariam e experimentariam o choque do reencontro com o mundo real. Cada um teria novamente que carregar o peso de suas dores físicas e morais. Ele retornaria ao seu velho corpo cansado e à sua vidinha difícil e sem graça de sempre. Ela voltaria ao mundo podre e pobre de amor do seu cotidiano de mulher-objeto. Os dois tiveram, então, a mesma vontade. O desejo imenso de permanecerem ali, naquele paraíso. Foi aí que o velho e a moça descobriram que, para se comunicarem, não precisavam mais emitir sons. Comunicavam-se, agora, somente com o olhar. E tanto o olhar do velho quanto o olhar da moça diziam um amor extraordinário que jamais consideraria a hipótese de deixarem aquele lugar.

Quando a jovem que dividia o quarto com a moça acordou, teve um choque ao tentar despertar sua amiga. A moça jazia em sua cama, gelada e morta, mas com um sorriso de felicidade nos lábios. Poucas horas depois, a mulher que arrumava os quartos do hotel abriu a porta do quarto do velho e se deparou com o cadáver também sereno e sorridente do ancião. O fato teve grande repercussão na imprensa. Investigações exaustivas, entretanto, não chegaram a lugar nenhum. Até hoje, nem a polícia nem a imprensa conseguiram decifrar o mistério das mortes do velho e da moça que eram vizinhos de quarto naquele pequeno hotel do bairro Paraíso.

QUEIXUMES (*) DE UM "OUTRO" APAIXONADO

Morro de ciúmes dele. E não é porque ela, um dia, o amou. Não. Seria ridículo, nesta fase da minha vida, ter ciúmes do passado de alguém. Meus ciúmes, porém, não são infundados. São ciúmes reais, palpáveis. Por exemplo, no seu cotidiano de esposa, ela o vê mais do que a mim. Clandestino para as pessoas próximas dela, às vezes sinto-me o outro, quando, na realidade, hoje, o outro devia ser ele. E ele nem seria um outro no sentido tradicional do amante, já que eles não cultivam mais nenhum tipo de amor, principalmente nenhum tipo de expressão maior do amor, que se concretiza no amor sensual, erótico. Não. Ela não transa com ele. Aliás, nem o namora. Mas, mesmo assim, ele se faz muito mais presente na vida dela do que eu. Morro de inveja daquele que ela ainda chama de "meu marido". Ele chega quando quer, entra em sua casa (que ele ainda julga dele), entra, a todo o momento, em sua vida (que ele ainda julga entrelaçada à dele), enquanto eu, pobre clandestino, apesar de usufruir o amor pleno dela, não tenho nenhum poder sobre seu tempo, nem sobre o espaço onde ela passa a maior parte do seu tempo. Um dia, prometi a ela que seria paciente. E sou paciente. E, se não me dirijo diretamente a ela, se falo dela na terceira pessoa, é porque, quando prometo uma coisa, cumpro. Se, no momento, me queixo, que isto fique só entre nós, caro leitor. Se bem que faz parte de mim não esconder nada dela. Aliás, faz parte de mim não. Faz parte do amor. Ele não admite mentiras, subterfúgios, enganos nem desenganos. Não devo queixar-me, ela diria. Afinal, tenho o amor dela. É comigo que ela (re)vive plenamente como mulher Mas o ciúme tem disso. Principalmente quando sinto mais falta dela, ele se manifesta. Uma coisa é você falar para sua cabeça que ela não deve cultivar sentimento negativos, em especial, o ciúme e a inveja. Outra coisa é querer que seu coração ouça estas sábias palavras. Não é que eu duvide do amor dela. Mas a distância entre as três palavras mágicas (eu te amo) e

as escolhas dela é muito grande. Principalmente quando as escolhas em questão envolvem decidir entre satisfazer os meus desejos ou os caprichos dele. Ou vice-versa. Hoje, ainda não a vi. Mas, ele sim. Já a viu, já deixou com ela suas lembranças, já expressou seu sentimento de posse, já tomou satisfações, já a fez relembrar o passado, já a aborreceu, já a fez deprimir- se, já teceu sua teia, enquanto eu, aqui sozinho nesta noite de sexta-feira, apenas tive direito a dois telefonemas, dois beijos à distância e um "eu te amo" (o que já seria muito em outras circunstâncias, especialmente se eu não estivesse mordido de ciúmes e inveja). Não! Chega! Eu prometi! Vou ligar a televisão, assistir de novo a um filme que vi recentemente e pensar só nos momentos que ela passou comigo (doces momentos que jamais trocaria pelos momentos constantes, porém gelados, que ele passa com ela). Vou ver o Programa do Jô, passar por e-mail um recado bem amoroso (assinado pela amiga "Selma") para ela e torcer para que, um dia, a gente leia estes meus queixumes com saudades do tempo em que éramos não mais felizes, mas mais comedidos e discretos.

(*) Queixas impregnadas de ciúmes

com saudades do tempo em que éramos não mais felizes, mas mais comedidos e discretos. (*)

SEM DONO

Hoje ela me ligou e me tirou o sono. É muito difícil dormir, quando uma mulher linda te liga

dizendo que quer transar com você, nem que seja por telepatia ou em sonho.

E fica ainda mais difícil dormir, quando você

sabe que ela está cheia de sensualidade e sem dono.

E não pensem que eu gostaria de ser o dono

dela. Pelo contrário. Se assim o fosse, acho que teria ciúmes de mim mesmo. Seria como ter que conviver vinte e quatro horas por dia com um odiado rival. Acho que, se eu fosse dono dela, eu me dividiria em

dois. Um seria eu mesmo. Outro seria o dono dela. E os dois não se dariam bem. Viveriam às turras. Detesto qualquer um que se arvore a ser dono dela. Inclusive, eu mesmo. Ah, e como me excita sabê-la sem dono! Sem dono ela fica mais bonita, mais amor, mais sexo. Livre, ela fica mais mulher. Sem dono, ela, leonina, vira uma leoa e eu, virginiano, torno-me um (re) desvirginador voraz. Sem dono, a alma dela me seduz de uma forma sexualizada e eu fico imaginando, enlouquecido, como seria se eu pudesse penetrar sua alma, como faço em seu corpo. Seria divino, se eu pudesse gozar em sua alma, encharcando-a com espermas espirituais. Que loucura! Mas, é assim que eu fico: louco, quando ela está sem dono. Exorcizo meus pensamentos malucos. Esqueço da fantasia sobre a alma e lembro-me do corpo dela. Queria tê-lo agora. Mas, às vezes, as coisas não podem ser como eu quero. É muito tarde para atravessar a cidade. Melhor conformar-me em ficar na imaginação, lembrando-me do corpo dela, agora sem dono, como eu gosto, e, de preferência, nu. Imagino-a nua e isto me excita. Mas, fico só na excitação. Não ousaria traí-la. Nem com a minha própria mão. Não agora, que ela já não tem mais dono. Parece loucura, mas é assim que a desejo. Sem dono. E, por mais que possa parecer contraditório e incompreensível (ela, tenho certeza, compreende), só assim consigo ser dela plenamente. A verdade é que, agora, ela me possui. E, sem dono, ela é plenamente minha dona. Senhora de mim, ela reina absoluta em

todas as posições possíveis e imagináveis, proprietária exclusiva do meu pênis, da minha língua, das minhas mãos, de todo o meu corpo e, até, da minha alma. Porque é assim que a amo. Sem dono. É assim que eu gosto de ser dela

mãos, de todo o meu corpo e, até, da minha alma. Porque é assim que a