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O

ALBERT CAMUS

DIREITO

E

A ÉTICA DO

ABSURDO: UMA LEITURA DE

“Esta velha angústia, Esta angústia que trago há séculos em mim, Transbordou da vasilha, Em lágrimas, em grandes imaginações, Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror, Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.

Transbordou. Mal sei como conduzir-me na vida Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma! Se ao menos endoidecesse deveras! Mas não: é este estar entre, Este quase, Este poder ser que Isto.

Um internado em um manicômio é, ao menos, alguém, Eu sou um internado num manicômio sem manicômio. Estou doido a frio, Estou lúcido e louco, Estou alheio a tudo e igual a todos:

Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura Porque não são sonhos. Estou assim

Pobre e velha casa da minha infância perdida! Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!

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Que é do teu menino? Está maluco. Que é de quem dormia sossegado sob o teu teto provinciano? Está maluco. Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem sou.

Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer! Por exemplo, por aquele manipanso Que havia em casa, lá nessa, trazido de África. Era feiíssimo, era grotesco, Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê. Se eu pudesse crer num manipanso qualquer - Júpiter, Jeová, a Humanidade - Qualquer serviria, Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo? Estala coração de vidro pintado!”

(Fernando Pessoa)

1. Introdução

Pressinto que devo explicitar a presente comunicação para, num certo sentido, justificar a articulação do pensamento de Albert Camus com o saber jurídico e a práxis do direito, uma vez que a muitos poderia ocorrer a seguinte pergunta: por que revisitar Camus se este autor é tão contraditório, se ele é um pensador tão complicado e mais poeta do que propriamente pensador? Por que buscar no pensador argelino algum tipo de resposta ou explicação para os problemas jurídicos se aquele é tido e havido como um ensaísta, poeta, jornalista, romancista ou teatrólogo do pessimismo, da desesperança e jamais foi jurista? Por fim, caberia perguntar ainda: qual a razão desta corrida para o pensamento e para as reflexões de um autor que, ao lado de Nietzsche, de

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Maquiavel, de Marx, Voltaire e tantos outros, pode ser considerado, por assim dizer, um pensador maldito? Convém, todavia, esclarecer de início que a utilização aqui de algumas categorias camusianas e a articulação das idéias e conclusões de Camus com o atual universo da ciência e da práxis jurídicas, obedeceram apenas e tão somente ao propósito de compreender, na medida do possível, a absurdidade em que se encontram hoje mergulhados tanto o conhecimento quanto a prática do direito; e, por outro lado, entender também, a partir das descobertas de Camus, um pouco do mecanismo, digamos, psicossocial que pode, provavelmente, provocar e manter o senso crítico do jurista, levando-o a adotar posturas teóricas e práticas transformadoras das situações de absurdo com que se defronta no cotidiano do seu saber/fazer. Pois bem, inclino-me a considerar que o interesse por Camus é facilmente explicável em relação àqueles que vivenciaram, conscientemente, experiências absurdas e que, por isso, tenham experimentado o “nonsense” da vida humana ou o “sem sentido” que é estar num mundo absurdo e angustiante, tudo mais ou menos nos termos da “velha angústia” de que nos falava Fernando Pessoa, em que a falta de perspectivas para o homem lúcido remete, inexoravelmente, para o universo de reflexões do tipo camusianas. É provável, portanto, que justamente esta conhecida angústia pessoana seria já o bastante para provocar a busca de algumas explicações no também angustiado Albert Camus que, por sua vez, fez do absurdo o ponto de partida para a busca incansável da verdade num mundo crivado de contradições e de desesperança. Mas, obviamente que não é apenas o desejo de compreender a solidão dos homens o bastante para justificar um Camus revisitado. O que mais recomenda a leitura desse autor e o que melhor justifica qualquer tentativa de compreensão do seu pensamento, para além de qualquer tipo de preconceito político ou ideológico, é a sua luta, jamais abandonada, contra qualquer tipo de conformismo. Convém destacar ainda que esse pensador foi realmente um intelectual engajado, um homem do seu tempo, mas um homem singular porque nunca se filiou, apaixonada e sectariamente, a qualquer corrente de

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pensamento, ideologia, orientação partidária, igreja ou religião. Além do que, como diria Fernando Pessoa, Camus não se socorreu jamais de qualquer espécie de manipanso, de fetiche, de refúgio, esotérico ou material, para explicar ou até mesmo livrar-se da conhecida angústia existencial que, aliás, atravessa toda a sua obra. Com efeito, é mesmo muito curioso o mecanismo psicológico desse argelino naturalizado francês. Na verdade, um mecanismo psicológico caracterizado, especialmente, pela coragem de estar frente a frente com o absurdo, de enxergá-lo em toda a sua plenitude, e de, mesmo diante do absurdo, manter a lucidez desesperada, sem recorrer jamais a qualquer tipo de misticismo ou suicídio intelectual. Nas palavras de Roberto de Paula Leite, o grande mérito de Camus está em que ele “procurou convidar os homens a pensar, a cair sobre si mesmos na tentativa difícil, mas louvável de encontrar seu próprio destino” 1 . Seja como for, no nosso caso, o que realmente convida a articular o direito com o pensamento de Albert Camus é precisamente o fato, hoje evidente, de que a história atualizou, de maneira trágica, os conceitos, os esquemas teóricos e as classificações camusianas, em todos os campos da experiência humana. Atualizando-os, especificamente, também no campo do direito onde, segundo impressão consensual dos especialistas, alastra-se atualmente um importante quadro de crise teórica e prática. De fato, a crise dos paradigmas jurídicos, tanto axiológicos (liberalismo, jusnaturalismo), quanto epistemológicos (positivismo e método lógico-formal) revelam que Camus está desesperadamente atual nos domínios do saber jurídico. O seu esquema de pensamento explica bem a nossa realidade presente, de vez que a crise inegável dos paradigmas sociais, políticos, morais, pessoais e jurídicos é uma autêntica expressão do absurdo, em termos camusianos. E em meio à absurdidade caótica de tais paradigmas torna-se imprescindível a busca de razões para não se cometer nenhuma espécie de

1 Cfr. “Albert Camus: notas e estudo crítico”, Ed. Edaglit, São Paulo,

1963,

p. 15.

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suicídio, inclusive e especialmente o suicídio intelectual. Vale lembrar que, segundo Nietzsche, o único problema real, o problema mais importante da filosofia, é o suicídio. Porque a única pergunta real a que os filósofos devem responder é esta: vale a pena viver? Com tais perspectivas, a presente comunicação fica empostada a partir da seguinte hipótese: o cenário jurídico em que nós, os juristas, nos movemos (refiro-me às carreiras jurídicas, aos aparelhos judiciários, à universidade, ao ensino jurídico etc.) parece estar montado para o “teatro do absurdo”. Desejo propor, portanto, que pensemos exatamente a respeito do seguinte: se a concepção a-histórica do direito e o imaginário idealista dos juristas compõem mesmo um cenário absurdo (porque desvinculado da realidade), então é provável que nós, os juristas, sejamos todos atores, conscientes ou não, também os atores de um teatro do absurdo. Eis então porque a compreensão da categoria camusiana do absurdo, e de outras categorias dela decorrentes, tais como a angústia e a revolta, torna-se fundamental para a compreensão da crise do direito e da sua ciência.

2. O absurdo

Para o autor de O mito de Sísifo o absurdo não está nem no homem nem no mundo, mas na relação do homem com o mundo 2 . O absurdo está exatamente no fato de que o indivíduo, de repente, se vê atirado e tem que viver num mundo que lhe é absolutamente estranho, contraditório, complicado, indecifrável e tantas vezes irracional. Essa condição absurda do homem na Terra torna-o um autêntico estrangeiro, exilado num mundo desconhecido. Daí porque Camus concluiu também que o absurdo nasce justamente dos apelos humanos diante do silêncio despropositado do mundo. E, com efeito, se bem observada a circunstância existencial do homem, o que se constata é justamente esse silêncio do mundo nos instantes em que a vida

2 1. Cfr. “O mito de Sísifo”, 2ª ed. Editora Guanabara, Rio de Janeiro, 1989, p. 49 “No plano da inteligência, posso pois afirmar que o absurdo não está no homem (se semelhante metáfora pudesse ter um sentido), nem no mundo, mas em sua presença comum”.

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humana perde o seu sentido, na medida em que ela apresenta-se como um contínuo de realizações apenas parciais, onde, por exemplo, até mesmo o amor só perdura se for contrariado. Assim é que as tristezas, as dúvidas, as alegrias efêmeras, as perplexidades acabam por transmitir mesmo um sentimento de estraneidade no indivíduo. E este sentimento nada mais é do que a sensação de estar exilado num universo que não é o seu. Ou, mais precisamente falando, o sentimento de alienação frente ao silêncio do mundo que não proporciona explicações racionais para as questões humanas fundamentais. E talvez aqui estivéssemos falando daquele conhecido “sentimento de vazio” ou da ausência de sentido para o destino humano, talvez a própria “náusea” de que nos falava Jean-Paul Sartre. É curioso como o vulgo, na sua sabedoria filosófica, normalmente naquelas ocasiões em que alguém tenha, por exemplo, morrido estupidamente - digamos, num inexplicável acidente - costuma expressar esse sentimento do absurdo naquela frase que é muito comum, e de algum modo reconfortante ou conformista: “nós não somos mesmo deste mundo”. Tomemos, para exemplo do inexplicável, a cena de um avião explodindo na costa de Nova Iorque, com centenas de pessoas a bordo despejadas no mar. Alguém sempre dirá: é a vontade de Deus; dirá o homem camusiano: é o absurdo. Nessa mesma linha, suponha a perda de um ente querido, no frescor da idade, vitimado por um acidente estúpido, por exemplo. Há explicação para tamanha irracionalidade? E o que não dizer-se das guerras, da miséria, da exploração do homem, da degradação ambiental, enfim, da instrumentalização da humanidade em nome da acumulação, do lucro, ou de um suposto progresso científico e de uma mal arrevesada evolução tecnológica? Como explicar, e conviver, com a absurdidade da razão instrumental? Tais irracionalidades ultrapassam a consciência do homem e escapam a qualquer explicação mundificada. Daí o desespero e a angústia inerentes à condição humana decorrentes do “silêncio despropositado” de um mundo absurdo e indecifrável à nossa consciência.

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Ora, pois, este é precisamente o sentimento meio difuso de exílio, de estraneidade do homem, atirado num mundo inóspito que torna a vida humana uma experiência trágica e absurda. Daí que a reconciliação do homem com o mundo, em Camus, parece se dar apenas com a morte, ou, noutros termos, com a coisificação mundificada do ser humano que, na sua existencialidade viva, “não é mesmo deste mundo”. Camus exemplificou o absurdo com a tragédia de Sísifo, que na mitologia grega teria sido condenado a carregar um rochedo até o topo de uma montanha, cujo rochedo rolava montanha abaixo sempre que chegava ao cimo da mesma. A condenação de Sísifo era exatamente descer até a base da montanha, apanhar a pedra, levá-la até o alto para que a mesma voltasse a rolar ao sopé da montanha e ele retomasse o seu trabalho de levá-la novamente para o cimo, indefinidamente. Este trabalho de Sísifo, para o autor de O estrangeiro, representa o absurdo, o irracional da vida humana. Mas, Sísifo parece desprezar seu sofrimento ao tomar consciência de sua condição absurda no instante em que Camus afirma: “Se esse mito é trágico, é que seu herói é consciente. Onde estaria, de fato, a sua pena, se a cada passo o sustentasse a esperança de ser bem sucedido? O operário de hoje trabalha todos os dias de sua vida nas mesmas tarefas com esse destino não é menos absurdo. Mas ele só é trágico nos raros momentos em que se torna consciente. Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhece toda a extensão de sua condição miserável: é nela que ele pensa enquanto desce. A lucidez que devia produzir o seu tormento consome, com a mesma força, sua vitória. Não existe destino que não se supere pelo desprezo” 3 .

3. A consciência do absurdo

O fato é que estamos no mundo e experimentamos, até mesmo sem a exata consciência disso, algumas estranhezas e perplexidades - como a angústia pessoana, por exemplo - e muitas vezes ficamos sem saber como lidar com elas. Isto porque, dirá Camus, não se tem nem a consciência do

3 Cfr. op. cit, p. 143.

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absurdo, nem a lucidez necessária para entendê-lo e superá-lo. Mas, num dado instante pode ser que surja na consciência do homem o “por quê?” de tais situações absurdas. E este “por quê?” tende a surgir sempre a partir da tomada de consciência de um cotidiano “nonsense”, repetitivo e irracional; da falta de sentido último para a vida humana; da ausência de justificativas transcendentais para as grandes aspirações da humanidade. Eis aí, então, a consciência das limitações existenciais próprias da condição do homem. Ou seja, eis a tomada de consciência do absurdo que é estar num mundo incompreensível e, por conseguinte, “injustificável”. Trata-se de saber então se, apesar de tudo, é ainda possível manter a lucidez intelectual, unicamente com as armas da razão, após a tomada de consciência do absurdo. Afirmava Camus: “O importante não é pois remontar às raízes das coisas, mas, sendo o mundo aquilo que é, saber como nele nos devemos conduzir” 4 . Em Camus, o homem absurdo reúne duas características: a coragem e a lucidez. A coragem de viver num mundo sem recurso, num mundo em que ele (homem) depende apenas dele próprio e de sua razão. Ou seja, num mundo em que o homem pode contar apenas com a própria lucidez para sustentar um raciocínio que na verdade só sabe apontar os limites da sua condição humana, sem ilusões e sem esperança. Todavia, nesse ponto, penso que devemos fazer justiça a Camus: trata- se aqui de uma lucidez que, sem desprezar a razão, admite o irracional, justamente o irracional que mantém atenta a consciência do homem, impedindo que ela possa iludir-se com a esperança; eis de novo Camus preso pela lucidez. E é preciso então muita coragem para manter tanta lucidez, sem fugir para qualquer tipo de crença, de seita, de manipanso, de alucinógeno, de magia ou ainda outras ilusões menos éticas como a ganância e a acumulação, que na civilização capitalista sempre acabam por instrumentalizar o homem.

4 Cfr. “O homem revoltado”, Edição Livros do Brasil, Lisboa, 1951, p.

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Esta coragem e lucidez são ao mesmo tempo as únicas armas e os grandes desafios atuais da razão humana, visto que o homem, sem recursos, conta apenas consigo próprio num mundo sem Deus. E neste ponto é preciso fazer uma breve advertência. O esquema teórico camusiano, que viemos privilegiando até aqui, é um esquema que, sem qualquer tipo de bravata ou antropocentrismo, não se interessa por Deus. Ou, por outras palavras, esse esquema camusiano prescinde de Deus. Se Deus existisse, mesmo assim a condição humana continua sendo absurda. Camus acredita que o homem que tomou consciência do absurdo, e, portanto, o homem consciente da sua situação histórica, é aquele que deve ter a coragem de estar num mundo indecifrável e de, mesmo assim, valer-se apenas dos recursos da razão e da lucidez para viver dentro da sua própria condição, condição esta que se apresenta limitada pela irracionalidade e insensatez do universo mundificado. Com isso, o homem assume, sem Deus e sem ilusões, a responsabilidade tão áspera quanto grandiosa de construir o seu próprio destino.

Segundo Vicente Barreto, outro estudioso de Camus, “o homem vive uma vida metódica onde a dúvida e a interrogação não encontram lugar. Existe na vida de todos nós um ritmo que nos é imposto pelo trabalho, pela família, pela vida social. Entra semana, sai semana, entra mês, sai mês, de ano para ano a vida segue aparentemente a mesma. Mas um dia o “por quê?aparece. Tudo então começa. Percebemos então como o mundo é estranho e

a inutilidade de nossa vida arrumada e empacotada. O desumano aparece da

forma mais inesperada. Todos esses sentimentos são sintomas do absurdo. É

o absurdo sentido em formas diversas, mas transmitindo ao homem o mesmo

sentido de exílio e alienação” 5 . Imaginemos, nessa linha de raciocínio, a lucidez e a coragem de Sísifo ao tomar consciência da absurdidade de sua condição e da inutilidade de seu

trabalho num mundo sem sentido. Observemos, então, a dimensão desesperadora de sua angústia existencial. Esse dilema remete para o único problema sério da filosofia: o suicídio. E com isso voltamos à questão filosófica fundamental: vale a pena viver?

5 Cfr. “Camus: vida e obra”,

2ª Ed., Paz e Terra,

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p. 48.

4. O suicídio

Atribui-se a Sartre a afirmação de que ao homem, depois dos trinta e cinco anos, já tendo alcançado seus projetos imediatos e sem refúgio nenhum, só resta mesmo o suicídio. E aqui está uma das grandes diferenças entre o pensador argelino e o autor de O ser e o nada. A “náusea”, causada pela consciência do absurdo, em Sartre, parece conduzir a atitudes derrotistas e paralisantes. Em Camus, como veremos, o sentimento do absurdo impulsiona para a revolta dinâmica que, como parte da essência humana, acaba por gerar conseqüências históricas de luta e transformação. Mas, como dizíamos, numa perspectiva nietzscheana, o suicídio, é mesmo o grande problema real da filosofia. E Camus enfrenta esta questão afirmando que há duas espécies de suicídio: o filosófico e o físico. O suicídio filosófico é aquele que afasta a razão e a lucidez, traduzindo-se numa espécie de traição à inteligência. Por exemplo: a proliferação de igrejas e seitas, o misticismo, o obscurantismo, o esoterismo; enfim, a busca de uma explicação irracional para o absurdo do mundo configuram formas de suicídio intelectual, porquanto obscurecem a razão enquanto instrumento da verdade. Trata-se, o suicídio intelectual, de uma espécie de fuga, justamente na forma de negação do absurdo. E, no dizer de Camus, fugir do absurdo é o mesmo que negar a única maneira de enxergar realmente a própria condição humana nos seus limites seria como que renunciar essencialmente à única possibilidade de compreender o “estar no mundo”. Pois o absurdo é da contingência humana. O homem precisa encarar o absurdo com a lucidez necessária para compreender o seu próprio destino. O suicídio filosófico, que nega o absurdo por meio de explicações esotéricas ou irracionais, é uma autêntica negação da inteligência e da razão. Daí afirmar Camus que qualquer tipo de fuga mística será sempre um suicídio filosófico que procura evitar a consciência proporcionada pelo absurdo, impedindo, portanto, que o homem encare e compreenda todos os termos com os quais tem de lidar ao longo de sua existência.

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Mas há também o suicídio físico que pode ser atingido de modo brusco ou gradual. No primeiro caso, com a morte instantânea do homem pela violência aberta; no segundo, pela degradação física, passo-a-passo, como o mergulho, por exemplo, nos alucinógenos deletérios ou em quaisquer tipos de práticas autodestrutivas. Este suicídio físico impede também que o homem viva o absurdo e, a partir dele, possa construir a sua própria existência, com autonomia e consciência de seus limites. Mas o homem estaria mesmo inexoravelmente empurrado para qualquer dessas formas de suicídio? Ora, bem, em Camus parece haver ainda uma alternativa: a revolta.

5. A revolta

Para o autor de A peste há duas formas de revolta: a revolta metafísica e a revolta histórica. A revolta metafísica é a que mantém o homem permanentemente insurrecto diante da criação e de tudo o que dela emana; é o desassossego; é o homem inquieto; metafisicamente inquieto, por isso essencialmente revoltado. Camus considerou que “a revolta metafísica é o movimento pelo qual o homem se insurge contra a sua condição e contra a

criação inteira”. Em conclusão, a revolta “é metafísica por contestar os fins do homem e da criação” 6 .

E há, também, a revolta histórica que se traduz na revolução, na crítica

social, no engajamento, na prática política. Cabe ressaltar que esta revolta,

segundo o pensador argelino, é sempre deflagrada pela vivência de alguma situação de injustiça.

E aqui se torna imprescindível observar, na elaboração do conceito de

revolta histórica, o grande mérito de Camus, quando alerta para o fato de que

é preciso muito cuidado com as revoluções impulsionadas por esse tipo de revolta, já que as revoluções tendem sempre para a sufocação totalitária da própria consciência revoltada que a impulsionou.

6 Cfr. “O homem revoltado”, p. 41.

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O revolucionário, o transformador, não há dúvida, em regra apresenta- se como portador de idéias e propostas progressistas. Mas, toda revolução tem a pretensão da totalidade. Eis aí, portanto, o vírus que segundo Camus acaba por sufocar a revolta. Cabe lembrar então, como exemplos trágicos, os diversos totalitarismos do Século XX. Na Europa, a revolta das massas, sufocada pela pretensão da totalidade, resultou no nazi-fascismo. Na Rússia, sepultado o Czar, com ele sepultou-se também toda a possibilidade de alguma revolta histórica.

O que pode impedir essa tendência totalitária dos revolucionários, no

pensamento camusiano, é justamente a unidade metafísica que mantém o homem sempre revoltado, até mesmo em relação ao novo “status-quo”

instalado pelas conquistas revolucionárias. Esta revolta metafísica, que é a revolta contra toda a criação, mantém o homem fiel ao seu desespero, à sua busca, à sua falta de esperança, fiel, em termos históricos, à faculdade crítica de sua consciência política.

E parece residir precisamente neste ponto do pensamento camusiano

alguma provável explicação para o mecanismo psicossocial que elabora, e mantém, a consciência crítica permanentemente revoltada. Mas, quem é o homem revoltado? Camus dirá que é precisamente aquele que diz não em qualquer circunstância: antes e depois da revolução. Tomemos a Revolução Burguesa de 1789. Os homens revoltados de então disseram não ao sistema aristocrático-feudal, destruíram esse sistema, mas sufocaram depois, pelo poder econômico, pela força e pela persuasão

ideológica, toda possibilidade de também se dizer não ao sistema burguês. Porém, em Camus, e em tantos outros autores “malditos”, o homem revoltado deve permanecer dizendo não, mas dizendo não com um sentido de sim, a partir da tomada de consciência de alguns valores que são eternos, que são fundamentais, que estão acima das razões revolucionárias e que são justamente os motivos de sua revolta.

O próprio Camus pergunta: “Que vem a ser um homem revoltado?”. E

conclui: “Um homem que diz - não. Mas, se ele recusa, não renuncia: é

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também um homem que diz sim, a partir do seu primeiro movimento” 7 . Prossegue o autor de Atuais: “O homem - é certo - não se resume à insurreição. Mas a história de hoje, mercê das suas contestações, leva-nos a afirmar que a revolta constitui uma das dimensões essenciais do homem. É a nossa realidade histórica. A menos que fujamos à realidade, forçoso é encontrarmos nela os nossos valores.Pode-se, fora do sagrado e dos seus valores absolutos, encontrar uma regra de conduta? Eis a pergunta formulada pela revolta” 8 . Não se trata aqui, obviamente, da revolta desvairada, mas, sim, da revolta como a ética que preside a busca de uma nova moral. E o caminho é inequívoco: esta moral só se estrutura a partir da solidariedade humana que impõe a consideração do “outro” como parceiro de uma mesma aventura, numa comunidade em que o diálogo e a razão tomem como premissa fundamental a “igualdade de falantes”. Na consideração do “outro” é sempre curioso notar a atualidade de Camus quando afirmava, até mesmo antes de Habermas com sua “razão comunicativa”, que os instrumentos para a manutenção permanente desta revolta - metafísica e histórica - contra todo tipo de criação (instituições, poderes, partidos e outras formas de representação) é a comunicação humana, a intensificação do diálogo e da razão fundamentante, que está obrigada a demonstrar suas asserções, justificando, inclusive, o processo de pensamento que engendrou a argumentação comunicativa. Afirmamos, portanto, que a revolta camusiana é a busca de uma moral estruturada a partir da solidariedade humana. Não é por acaso que esse autor escreveu: “A solidariedade dos homens baseia-se no movimento de revolta e este, por sua vez, só nessa cumplicidade encontra justificação. Achamo-nos então no direito de afirmar que toda a revolta que se permite negar ou destruir essa solidariedade, perde implicitamente o nome de revolta e coincide na realidade com um consentimento homicida” 9 .

7 Cfr. “O Homem revoltado”, p. 25.

8 Cfr. op. cit., p. 36.

9 Cfr. op. cit., pp. 36/37.

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Neste ponto já é possível antever que o caminho do absurdo até a solidariedade começa a permitir uma aproximação mais efetiva do pensamento camusiano com o problema da dimensão ética do direito. Ou seja, o resgate dessa dimensão prático-moral do direito, no seu processo de criação, aplicação e interpretação, é algo que pode, ou até mesmo deve ser pensado a partir justamente de um movimento de revolta impulsionado por essa solidariedade que ultrapassa o indivíduo para torná-lo cúmplice do “outro”, nesta aventura que é a existência humana. E talvez tenha se apresentado precisamente aqui o momento oportuno para aproximarmos a moral camusiana do universo procedimental e ético dos juristas.

6. O direito

A crise da universidade em geral; a crise do ensino jurídico em particular; a perda de identidade do bacharel em direito; a perda do papel político do jurista, atuando repressivamente contra os marginalizados e condenado a transitar apenas na periferia do poder estabelecido; a saturação do mercado de trabalho do profissional do direito; os baixos salários e os “exércitos de reserva” dos profissionais jurídicos; os processos kafkianos, com acusações freqüentemente fundadas no preconceito e na discriminação; a baixa resolutividade dos aparelhos de justiça; e, por fim, o ensino jurídico formalista e vazio de conteúdo humanístico, ou desumanizado, que ensina apenas o “como fazer” de um jogo processual onde não se pergunta se “é justo fazer”, ou, ainda, se tal ou qual procedimento jurídico implementa verdadeiramente a igualdade e a democracia, compõem a paisagem irracional do universo jurídico que ora passamos a considerar. Tomemos, como exemplo emblemático da alienação na teoria jurídica, uma categoria que os juristas trabalham com muito empenho: o “sujeito de direito”. Os manuais são unânimes em afirmar que “sujeito de direito é o ente capaz de adquirir direitos e contrair obrigações na ordem civil”. Hans Kelsen,

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no extremo de sua teoria pura, ensina que sujeito de direito é um mero “centro de imputação jurídica”, ao qual se atribui direitos e deveres. Uma tal consideração do ser humano, enquanto “sujeito de direito”, levada às últimas conseqüências pela lógica formal, resultará sempre numa inevitável desumanização do homem e da arte jurídica; configura, por assim dizer, uma espécie de despersonalização do fenômeno jurídico que passa a trabalhar, a partir da consideração meramente formal do ser humano, com categorias ideais e a-históricas. Essa atitude teórica está de pleno acordo com o domínio de uma certa técnica jurídica cuja racionalidade parece responder com presteza às exigências modernas do progresso, do desenvolvimento, do avanço tecnológico e da instrumentalização do homem. Além do que escamoteia todas as desigualdades reais entre os sujeitos historicamente considerados. Todavia é preciso estar atento para o fato de que tal desumanização da teoria jurídica, imposta pela exigência da modernidade, poderá até mesmo conduzir ao estado de barbárie. O que seria uma expressão do absurdo e a prova inequívoca de que Camus está mesmo dramaticamente atual. Mas, como dizíamos, aquela racionalidade jurídico-formal em que se pretende aprisionar toda a realidade histórica, construída pelo “senso comum teórico” dos juristas, instrumentaliza juridicamente a constituição de uma modernidade que impede a fruição isonômica do direito e dos benefícios da civilização por todos os homens. Escancara-se, então, a absurdidade dos dogmas jurídicos que ainda proclamam ruidosamente a “igualdade de todos perante a lei”. Tal processo de racionalização simbólica do real, realizado pela teoria jurídica, provoca um isolamento do direito em relação à sua dimensão prático- moral e significa, diria Camus, uma espécie de suicídio teórico que aliena o jurista afastando-o da base material e histórica do seu saber-fazer. Esta atitude teórica, ou melhor, este suicídio teórico, é um refúgio que proporciona ao jurista o conforto psicológico de viver num mundo ideal, coerente e sem contradições, onde a sua atuação é “neutra” e a igualdade um valor suficientemente traduzido pelo discurso normativo.

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Além desse cenário desumanizado ou absurdo, em que impera hegemonicamente uma teoria jurídica essencialmente idealista, em cujo contexto pensa e age o jurista, há que se considerar ainda a crise dos sistemas políticos mundiais e das grandes ideologias contemporâneas; a globalização dos mercados e a trivialização da cidadania; o aumento da miséria e da exclusão social; o aumento vertiginoso da criminalidade e da violência urbana; a impotência das práticas jurídico-policiais-repressivas no combate à violência da sociedade urbana industrial, com a conseqüente banalização da vida humana. No pórtico do Século XXI, em que a revolução tecnológica da informática segue-se à revolução industrial, prenunciando uma sociedade pós- mercantil, governada pela informação e pelo lucro, impõe-se, com extrema urgência, a construção de um paradigma de civilização em bases democráticas, com absoluto respeito ao homem e aos seus direitos fundamentais. Sabe-se, no entanto, que a racionalização das relações e dos processos de produção na sociedade moderna está, cada vez mais, organizada pela lógica da razão instrumental que tem aniquilado a razão crítica; que tem instalado a falsa consciência numa sociedade incapaz de negar o positivo; uma sociedade que, no dizer de Marcuse, usa a conquista racional e científica para conquistar o homem cientificamente; fazendo-o através da "razão instrumental", que proporciona o domínio da natureza, mas também o domínio do homem pelo homem. A sociedade global já é uma realidade econômica, política, social e cultural. Todavia, o maior desafio da razão humana e do direito, nestes tempos pós-modernos, para além da globalização dos mercados, dos negócios, da técnica e da informação, há de ser a globalização da cidadania, da solidariedade, dos direitos fundamentais da pessoa humana, tão desgraçadamente violentados por toda parte. A crise da razão é também um fenômeno global. Ontem, surgiu acalentada pela ilusão da máquina e da técnica; hoje, pela idolatria da informática e da automação. Em meio a tanto tecnicismo, ou afirmamos, com a consciência revoltada, os autênticos valores humanos, ou, submissos e

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calados, daqui a há pouco nos alinharemos também aos núncios da “razão cínica”, como já advertiu Peter Sloterdjik. O sintoma mais claro dessa crise e dessa “tonteira” ideológica instalada pela modernidade é o ressurgimento de fundamentalismos religiosos; a proliferação dos refúgios místicos das igrejas e seitas; ou ainda a opção pelos alucinógenos. Fenômenos estes provocados pelo medo e pela incerteza que significam uma retumbante renúncia à lucidez, determinando a cegueira e a paralisia moral de que nos fala o revoltado José Saramago ao proclamar, no

seu Ensaio sobre a cegueira, a “responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam”.

A humanidade conheceu três grandes revoluções: a agrícola, a industrial

e, atualmente, conhece a informacional. Todavia, o progresso e os notáveis avanços da ciência excluíram os fatores humanos para se tornarem fins em si mesmos. Assim, cabe concluir que à humanidade, como única alternativa à barbárie e ao absurdo, resta apenas realizar uma quarta e grande revolução,

qual seja, a revolução ética, a revolução do direito, encarado este último como instrumento de libertação e emancipação do homem.

E é precisamente em meio a essa crise generalizada de paradigmas que

os juristas operam formalmente a sua técnica e os seus procedimentos autovalidados, que nunca transcendem os limites tacanhos de um sistema jurídico legalista e fechado em seus próprios dogmas. Esse universo do direito e o instrumental jurídico dele emergente, acabam por estabelecer uma relação absurda entre o homem e a sociedade.

E fica evidente que o maior absurdo, nesse cenário, pode ser reconhecido no fato de que o conteúdo das ações teóricas e práticas dos cultores do direito apresenta-se sempre indiferente ao problema da legitimidade e da ética. Então cabe perguntar: até quando os juristas permanecerão como competentes mediadores do absurdo sem nenhuma espécie de revolta?

7. O jurista revoltado

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Na tradição do pensamento ocidental, costuma-se apontar a insurgência de Prometeu, que roubou o fogo dos deuses para iluminar a razão dos homens, como a mais antiga revolta. Prometeu disse não ao despotismo divino para dizer sim à razão humana. Muitos outros revoltados vieram depois dele afirmando sempre a autonomia e a liberdade do homem, este último encarado como autor de sua própria história num mundo absurdo. O jurista revoltado é aquele que toma consciência da própria condição absurda ao vivenciar as experiências injustas que a sua práxis reproduz sob o mito da neutralidade. Esse jurista poderá então aproveitar o aperfeiçoamento das nossas instituições políticas e de toda teoria jurídica para lutar, por exemplo, contra o absurdo das desigualdades e das injustiças, buscando alguma unidade dentro do caos. E essa consciência do homem revoltado, segundo Camus, surge exatamente da vivência concreta de situações injustas. Pois bem, para Camus “a revolta é o feito do homem informado, que possui a consciência dos seus direitos. Mas nada nos permite afirmar que se trata unicamente dos direitos do indivíduo. Pelo contrário, há boas razões, devido à solidariedade já referida, para pensar que se trate de uma consciência cada vez mais aprofundada que a espécie humana toma de si própria ao longo de sua aventura”. E arremata: “O homem revoltado é o que se situa antes e depois do sagrado e que se dedica à reivindicação de uma ordem humana em que todas as respostas sejam humanas, isto é: racionalmente formuladas. A partir desse momento, toda a interrogação, toda a palavra passa a ser revolta, ao passo que, no mundo das coisas sagradas, toda a palavra é ação de graças” 10 . Mas convém lembrar: a revolta, e, sobretudo a manutenção da revolta, é da essência do homem corajoso e lúcido, do homem que tem de conviver inexoravelmente com o absurdo, num mundo irracional e incompreensível. No caso do jurista, é preciso ter a coragem de manter-se lúcido diante de toda absurdidade, porque só essa lucidez poderá impulsionar a sua revolta, metafísica e histórica, fazendo com que seja capaz de dizer não ao papel de mediador de relações político-sociais injustas. Em seguida, o jurista revoltado

10 Cfr. op. cit. p. 35.

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dirá sim às práticas libertárias e aos compromissos que possam levar à construção de uma sociedade humana, fraterna, justa e igualitária, apesar das leis injustas e mesmo “sendo o mundo o que é”. Esse jurista deve manter a consciência atenta, permanentemente revoltada, sem jamais cometer o suicídio teórico dos idealistas que desvinculam o direito da sua dimensão estético-moral, para confiná-lo nos domínios dos dogmas impostos por um legalismo ressequido que só interessa aos beneficiários do absurdo. De outra parte, é necessário também a manutenção de uma consciência aberta para o irracional e sempre revoltada diante do risco de se constituir uma outra racionalidade formal, produzida pelo criticismo, que significaria incorrer nos mesmos equívocos anteriormente condenados pela revolta crítica. Ou seja, a autocrítica é mesmo indispensável à consciência historicamente revoltada. Um formalismo crítico, tão pernicioso quanto o antigo, aliena também o jurista na medida em que o separa da realidade material onde o fenômeno jurídico, de fato, manifesta-se historicamente. Tal distorção somente poderá ser evitada, julgamos, a partir de um pensamento jurídico interdisciplinar, capaz de dialogar com outras instâncias do conhecimento humano e, assim, superar os rígidos limites do normativismo positivista alienante, articulando o direito com a moral e a política num espaço social concreto.

8. Conclusões

Talvez devêssemos concluir estas reflexões fazendo justiça àquele que, de início, apresentamos como um homem possivelmente desesperado, ou ainda um pensador angustiado que não viu saída para o ser humano, assumindo o absurdo da sua condição existencial como causa de uma inevitável desesperança. No entanto, Camus é um pensador que tem nas suas páginas, e em todo o seu pensamento, estético e filosófico, uma proposta de reconstrução da pessoa humana a partir de sua condição absurda. Vale dizer, onde o

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absurdo aparece como ponto de chegada, um ponto final, ou ainda o irracional que provocaria a fuga para os alucinógenos, para o suicídio ou qualquer outro tipo de manipanso, em Camus é exatamente o ponto de partida para a reconstrução do homem e de sua humanidade, com os recursos proporcionados apenas pela razão e pela lucidez. Trata-se, por assim dizer, de uma filosofia essencialmente humanística, na medida em que almeja resgatar a plena autonomia do homem enquanto senhor do seu destino. Um homem consciente dos seus limites e, por isso mesmo, apto a lidar com eles na tentativa de superá-los. Não seria justo, nem acertado, imaginar Camus um apologista do desespero e do suicídio. Isto porque, nas suas próprias palavras, é preciso considerar a felicidade de Sísifo, com a sua tarefa absurda de levar a pedra ao topo da montanha. E o convite de Camus, no sentido de uma esperança consciente dos seus limites, parece-me inequívoco: “a própria luta em direção aos cimos é suficiente para preencher um coração humano. É preciso imaginar Sísifo feliz” 11 . Este é o desafio camusiano; esta parece ser a única possibilidade do homem diante do absurdo. A sobrevivência da revolta nos dias que correm, no alvorecer de um novo milênio, é também a única esperança de sobrevivência da tradição iluminista entre nós. Aliás, O desespero e a revolta camusianos representam, guardadas as proporções, o mesmo “desencantamento” do mundo provocado pelo Iluminismo do Século XVIII, que estabeleceu o predomínio da razão frente à obscuridade dos dogmas e das crenças absurdas. Se a filosofia iluminista é o resultado de um desencantamento dos dogmas, das crendices e da autoridade, o desespero de Camus resulta de um certo “desencantamento” com a modernidade. Para Vicente Barreto, “no pensamento camusiano, o homem nasceu para contestar o que existe de absurdo e injusto no mundo e na vida, e por isso, o conformismo termina por ser uma traição a si próprio” 12 . Ao jurista inconformado, em particular, outra solução não resta senão imaginar Sísifo feliz, se revoltar com o absurdo das injustiças e da

11 Cfr. “O mito

”, p. 145.

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racionalidade formal que sufoca a consciência crítica e separa o direito da vida. Ainda que a absurdidade do mundo, que conspira contra a felicidade humana, conspire também contra o inconformismo e as possibilidades de mudança de uma atitude prático/teórica meramente reguladora do homem, sem nenhum compromisso com a sua libertação. O jurista revoltado, consciente do absurdo da sua condição humana, sabe que a justiça, enquanto valor absoluto, pode estar reservada apenas aos deuses, mas o “lutar pela justiça” é o destino do homem que, feliz ou infelizmente, tomou consciência das suas limitações e deseja apenas fundar uma nova moral a partir da solidariedade. A revolta e a luta pela construção de uma sociedade solidária apresentam-se como a única forma de se imaginar Sísifo feliz. Quanto à felicidade, pode ser até que ela não exista, mas o homem é o único ser que está irremediavelmente condenado a procurá-la.

Bibliografia

BARRETO, Vicente. Camus: vida e obra. 2.ed. Rio de Janeiro: Paz e

Terra.

CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. 2.ed. Rio de Janeiro: Guanabara,

1989.

O homem revoltado. Lisboa: Livros do Brasil, 1951.

LEITE, Roberto de Paula. Albert Camus: notas e estudo crítico. São Paulo: Edaglit, 1963.

Antônio Alberto Machado, promotor de justiça e professor da Unesp.

12 Cfr. “Camus: vida e obra”, Paz e terra, p.

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