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ENTREVISTA: MAGDA BECKER SOARES


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alvez se pudessem fazer muitas Qual a importância do Ceale, que estácomple-


.menções ábiografiae à obra da professora Magda tando 20 anos em 2010? _. .
Becker Soares, mas nenhuma delas a situaria tão O Ceale começou coma pesquisa Alfabetiza-
bem no campo da educação brasileira comoa que çãono Brasil:ó estado do conhecimento: juntou um
lhe outorgasse o título de maior referência na- grupo que se ampliou e diversificou nestes 20 anos.
cional sobre letramento, conceito do qual foi a Historicamente, talvez esse período não signifique
grande introdutora no país. muita coisa quando pe~samosem universidades
Figura central na criação do Centro de Alfabe- europeias,mas para a realidade brasileira significa
tização, Leitura e Escrita (Ceale), da Faculdade de muito. O grupo cresceu e permanece trabalhando
Educação da Universidade Federal de Minas Ge- em várias frentes, com um papel importante na
rais, e autora de Alfabetização e Letramento (Con- questão da alfabetização e do letramento. Conjuga
texto, 2003), Linguagem e Escola (Ática, 2000) e o trabalho de pesquisa, de pós-graduação (é res-
Letramento (Autêntica, 1998), ela comenta a se- ponsável pelo programa de linguagem e educação
guir aspectos das pesquisas no campo da aprendi- da Faculdade de Educação da UFMG), de extensão,
zagem da leitura e escrita. E defende um aprofun- além de realizar muitos convênios com o MEC. No
damento da formação dos docentes responsáveis programa Pró-Letramento, por exemplo, o Ceale
pela alfabetização, desvinculando-os da tradição trabalha do Acre ao Rio Grande do Sul, com mui-
do professor generalista das primeiras séries do tos grupos de professores. Um aspecto importante
fundamental. Esse professor, diz ela, assim como é que o grupo trabalha muito para a socialização
os bons mestres, deve simplificar sem falsificar. do conhecimento produzido e com a atuação junto
Missão para a qual se exige um grande domínio às redes públicas de ensino, para que esse conhe-
dos conteúdos específicos de su~.área. cimento chegue às professoras que estão em sala

(1 GUIA DA ALFABETlZAÇÁO

- •
de que maneira os referenciais teóricos e os tipos de
pesquisa mudam ao longo do tempo. Relacionamos
isso com os movimentos histórico, social, educacio-
nal. Não é apenas um levantamento, é uma análise
sobre a produção do conhecimento sobre alfabeti-
zação ao longo das décadas.

E quais são as mudanças mais acentuadas em


termos de olhar?
Olhando em traços mais largos, no momento
inicial, que vai até o final dos anos 70, meado dos
anos 80, o tema mais explorado era a questão dos
métodos de alfabetização e daquilo que na-época se
chamava de prontidão da criança para ser alfabeti-
zada. Era uma questão especificamente pedagógica.
Na metade dos anos 80, a produção começa a mu-
dar radicalmente. Com a introdução do constru-
tivismo e da psicogênese da língua escrita, trazida
para nós, sobretudo, por intermédio de EmiliaFer-
,~ reiro, o foco mudou. Os métodos foram renegados
E nesse período. Passaram a ser tratados como tradi-
~ cionais e inadequados os métodos silábico, fônico,
]i até o global, e 'passou-se a trabalhar numa linha
o
@ psicogenética, que teve um impacto muito forte no
Brasil. Espalhou-se pelo país todo, com as secreta-
rias de educação orientando suas redes a trabalhar
de aula. E o excepcional é que esse trabalho esteja. nessa linha. A produção nesse período é toda com
durando tanto tempo, pois normalmente esses cen- .esse referencial teórico, com a ênfase em investigar
tros universitários são muito transitórios; existem o processo da criança para aprendizagem da língua
enquanto há uma liderança centralizando os traba~ escrita. Embora as pesquisas fossem mais para con-
. lhos. No Ceale, não. Além de permanecer, se renova firmar aquilo qúe vinha na teoria construtivista, do ..)
dia a dia. que para construir a partir dos dados ernpíricos.

A senhora coordenou uma pesquisa nacional E isso vai até quando?


sobre a alfabetização no Brasil. Qual a extensão Começa a desaparecer no final do século 20, com
e significado desse trabalho? o surgimento do conceito de letramento, em que a
Comecei essa pesquisa nos anos 90, e ela conti- questão não é apenas a criança aprender a codificar
nua. É uma pesquisa que não tem fim, pois levanta e decodificar, a se apropriar do sistema de escrita,
e analisa, de forma permanente, a produção acadê- mas saber utilizar a língua escrita em seus usos so-
mica sobre alfabetização no Brasil. Trabalhei nela ciais. É nesse momento que começam a aparecer nas
até me aposentar, agora continua com a coordena- pesquisas a palavra e o conceito de letramento. É
ção da professora Francisca Maciel. Começou em um movimento, em grandes faixas, do estudo e dos
1998, mas levantamos a produção de dissertações e resultados dos métodos tradicionais e da prontidão
teses sobre alfabetização no Brasil desde 1962, data da criança para o processo de aprendizagem numa
da primeira tese. Daí para a frente, recuperamos perspectiva psicogenética. Num terceiro momento,
tudo o que foi produzido sobre o tema. E isso conti- que vivemos agora, a ênfase passa ao contexto so-
nua, pois o objetivo da pesquisa é ver as mudanças ciocultural e sócio-histórico da aprendizagem da
nas temáticas, nos focos colocados na alfabetização, língua escrita.

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: ENTREVISTA: MAGDA BECKER SOARES

De que maneira a introdução do conceito de Mas a associação é possível e necessária quando


letramento contribuiu para os processos de al- se orienta a criança - e aí insisto nos advérbios - ex-
fabetização? Que tipo de confusão ainda se faz plícita e sistematicamente a aprender .; e não desco-
entre ambos os conceitos? brir - as relações entre os sons da língua e a repre-
Isso ainda não ficou muito claro para as pessoas sentação gráfica desses sons. Como? Com material
que se responsabilizam pela aprendizagem da língua escrito, sim. Mas com materiais reais, como livros dê
pela criança, que são as professoras de sala de aula. literatura infantil, as propagandas; outdoors; folhetos;
Quando esse conceito começou a ser adotado, surgiu qualquer material que seja do interesse da criança,
a dúvida sobre se se deveria alfabetizar ou letra r a sobretudo a literatura infantil, que, de certa forma,
criança. Mas a questão é que a conjunção aí não é deve substituir o antigo livro didático ou cartilha.
uma alternativa, e sim uma aditiva. O que o conceito Aí 'se faz o letramentó, o contato com a história, a
de letramento traz é uma ampliação do conceito de .literatura, o poema. E a professora P9d~}~ra\uma.
alfabetização, mas não tem sido entendido assim. . palavra, uma frase, para trabalhar sistematicamente
Parece que agora a coisa começa a avançar com a em sequência, explicitamente, as relações fonemà-
ideiada junção desses dois processos, tarito quehoje grafema. O que o construtivismo nãofazia,~ão faz.
se fala muito em alfabetizar letrando.rouseja, alfa-
betizar a criança num contexto dos usos sociais re- A que devemos atribuir o elevadonúmero de
ais da escrita. Mas isso, no meu entender, ainda não crianças que chéqam.ao final do fundamental 1
chegou de forma desejável em sala de aula. O COO8- sem saber ler, ou sem entender o que leem?
trutivismo e o conceito de letramento trouxeram a Chamaria isso de fracasso na aprendizagem inicial
ideia de que não seria necessário ensinar sistemática da língua escrita. Gosto dessa expressão porquê nela:
e explicitamente o sistema alfabético e ortográfico de se incluem a alfabetização e o letramento. Quando
escrita. Ou seja, a criança se apropriar das relações se fala só na alfabetização, pensa-se só na aprendi- •
fonema-grafema, o que é indispensável, mas foi co- zagem do código. Quando se fala letramento, pensa-
locado em dúvida no construtivismo, imaginando-se se só nos usos sociais da escrita. Já a aprendizagem
.que a criança descobriria por si mesma e não seria inicial da língua escrita envolve os dois cOrnpone~-
preciso ensinar. Isso explica por que os partidários tesoE essa aprendizagem sempre foi um fracasso no
. do chamado método fônicoselevantaram, apartir Brasil É um engano dizer que estamos fracassando .
do final do século 20, em defesa do seu método. Que . agora. Se olharmos parao início da democratização.
também é um enganocpoís acham que éprecisopri- .. do ensino, nos~~os 40 esodo século passado, h~via ..
meiro ensinar acodíficar e decodificar para, depois . queixas na mídia, na academia, nas publicações cien-
disso, a criança poder efetivamente ler. É sempre esse. tíficas.denúncías sobre Q. fracasso do país-na alfabe-
movimento pendular na área de alfabetização, aliás tização. Que naquela época se .revelava pelos a'ttos
nas ciências em geral. índices de reprovação na Ia série, chamada de série
de alfabetização, e nos altos índices de evasão. Com
É possível termos uma visão de síntese entre a criação de ciclos, a rejeição - justa - do conceito
essas duas posições? de reprovação e, como consequência, o conceito de
Claro. Alfabetizar implica que a criança aprenda promoção praticamente automática, esse fracasso,
a codificar e decodificar, pois é um sistema inven- antes concentrado na Ia série (de onde a criança não
tado, diferente da língua oral: o ser humano já nasce saía enquanto não aprendesse a ler e a escrever, o que
programado para falar. A escrita é uma convenção. às vezes demorava quatro, cinco anos), passou a se
É uma ingenuidade achar que a criança deva rein- espalhar ao longo do ensino fundamental. Alunos do
ventar um sistema convencional, arbitrário. Então 5° ano, às vezes do 8° ou do 9° anos, são semialfabe-
é preciso ensinar isso sistematicamente. O que não tizados. Como isso se explica? Pela ausência de uma
quer dizer que isso deve ser feito em contextos fal- ação clara, sistemática dos professores; pelo fato de
sos, como no tempo das cartilhas, com textos ar- eles não serem formados para ensinar a língua escrita
tificiais como o tradicional Eva viu a uva, em que no ensino fundamental, em particular nas séries ini-
ninguém sabe quem é Eva, e a maioria das crianças ciais e, ponto importante, na educação infantil, que é
nunca viu uma uva ... quando a coisa deve começar.

8 GUIA DA ALFABETlZAÇAo
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De que maneira se daria esse processo na edu- A senhora tem alguma vivência nesse sentido?
(ação fundamental? Tenho feito essa experiência em Lagoa Santa
Aí há uma divisão grande em relação àqueles que (MG), onde oriento a alfabetização, e estamos co-
acham que não se deve alfabetizar na educação infantil meçando na creche. A criança de 2, 3 anos já está
- tem um grupo que fala até que devemos ter "letra- com livrinho na mão, já está vendo o próprio nome
rnento sem letras': Ou seja, significa que é proibido escrito em vários lugares. Já está com o lápis na mão.
trabalhar com a aprendizagem da língua escrita na a
tentando rabiscar. É frequente criança chegar aos
educação infantil. Isso não tem o menor sentido em 5,6 anos já praticamente alfabetizada, se a educação
nenhum país do mundo, pelo menos os países avan- infantil cria condições para isso. Caso contrário,
çados na área de educação. E, para nós, isso só tem essa pretensão de que a criança se alfabetize até os
funcionado nas escolas públicas, porque as escolas 8 anos é impossívei. bois anos é pouco tempo, é
privadas começam a trabalhar coma língua escritá " . preciso começàr 'antes.
quando as crianças têm 3 ou 4 anos. A criança de hoje
tem toda a condição para isso, pois nasce rodeada de
escrita. Mesmo nas camadas populares; a cada lado
que se olhe está a escrita. Toda criança tem cúriosi- ,
dade, quer aprender a ler. Não há sentido em marcar
uma data. Antes era aos 7 anos, agora é aos 6.

Não há aí uma confusão entre alfabetização e


introdução de um ensino disciplinar, mais ca-
racterístico do ensino fundamental? Qual a sua avaliação do material didático hoje
Isso por um mau entendimento do que seria tra- disponível para a alfabetização?
balhar com a escrita na educação infantil: Associam O Programa Nacional do Livro Didático (PNLD)
aprender a língua escrita com uma disciplina, uma trouxe uma inovação recente. Até dois anos atrás,
tarefa pesada que tira a criança da brincadeira a selecionava livros para o fundamental 1e, na última
que ela tem direito, quando isso pode e deve ser edição, há uma divisão, com uma coleção para 1° e
feito de forma lúdica, com grande interesse e 'pra- , 2° anos, ()utra para 3° a 5° e outra para 6° a 9°. São
zer. A criança lida com o livro, com as letras; com coleções de dois livros para cada ano (I0 e 2°), para
, a escrita do seu próprio nome, com atividades de alfabetização linguística e alfabetização matemática.
consciência fonológica para aprender os sons - o •Issoleva os autores de livros didáticos a uma maior
que é indispensável para aprendera escrever, perce- . especialização nesse momento inicial de aprendi- .)
ber que língua é som. A criança precisa desenvolver zagem da língua escrita. Embora estejamos numa
essa consciência fonológica e a educação infantil. fase de transição nessa área de aprendizagem inicial
é a hora certa de fazer isso, de forma lúdica, o que da língua escrita, de conciliação entre alfabetização
corresponde ao interesse dela. É uma sonegação im- e letramento, o que supõe um domínio por parte
pedir que a criança conviva com a língua escrita, dos autores de livros didáticos e das professoras de
pela qual ela tem interesse e condição cognitiva e conceito de gêneros textuais, há algumas coleções
linguística de aprender. Na pesquisa sobre o estado razoáveis na minha avaliação.
do conhecimento, os estudos que procuraram re-
lacionar o sucesso da criança na alfabetização no Quais conteúdos deve ter um curso para formar
início do ensino fundamental com a frequência à um professor alfabetizador?
educação infantil apontam de forma recorrente Em primeiro lugar, deveria ter uma forma-
uma relação positiva. A criança que frequenta a ção específica. Não há possibilidade de alguém
educação infantil tem muito mais probabilidade ser alfabetizador, ensinar a língua e, ao mesmo
de aprender com facilidade a língua escrita, por- tempo, ser professor de ciências, de história, de
que vem sendo preparada para isso. Quando essa matemática. Para introduzir a criança no mundo
preparação é feita de forma consciente, planejada, da escrita, o professor tem de, primeiro, dominar
sistemática, mais ainda. muito bem a língua portuguesa, formação que não

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.ENTREVISTA: MAGDA BECKER SOARES

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é dada de forma adequada para que saiba usar a Que aspectos do processo de alfabetização
língua escrita nas suas diferentes variantes; tem ainda necessitam de investimento por parte
de ter formação sociolinguística; psicolinguística; dos professores?
de fonologia - sem o que é impossível entender o Precisam investir em praticamente tudo. Precisa-
processo da criança para relacionar fonemas com mos, com urgência, reformar a formação inicial nos
grafemas; tem de conhecer literatura infantil, que cursos de pedagogia, e promover a atualização dos
é com o que se deve trabalhar para que a Criança professores em exercício. São duas ações enormes e
aprenda a língua escrita; gêneros textuais, teorias difíceis de serem feítas.Comrelaçâo à primeira, de
da leitura e diferentes estratégias exigidas por di- alterar a formação, isso vem sendo examinado pelo
ferentes gêneros textuais. Só isso mostra que não Conselho Técnico-Científico da Educação Básica da
é possível colocar essa formação, que é essencial Capes, onde a discussão sobrea mudança dos cur-
para trabalhar com o ensino da língua escrita, ao sos de pedagogia é recorrente. Mas a resistência é
lado de ciências, que exigirá conteúdos específicos muito grande, por parte das várias associações, dos
semelhantes. Ou seja, o professor teria de conhe- próprios cursos. Quanto à atualização para suprir
cer ciências, conceitos científicos, os processos de as deficiências da formação .recebidana graduação,
pensamento científico ete. E issos~ repete para vem sendo encarada deurna forma não muito ade-
geografia, história, matemática. quada. Apesar dealgunsprogramas oficiais.xomo
o Pró- Letramento, d0IvfEÇ~ as ações. são pontuais.
Faz-se com algumas professoras, de forma esparsa .
.Essas professoras se atualizam, masindividualmente,
quando o que precisamos é de uma atualização mais
ampla. Seria um trabalho mais articulado de 'atua-
lização de uma rede. Não é trabalho em rede, com •
universidades, municípios e estados; mas sim um
trabalho de rede, com oconjunto dás escolas de um
município, para que todas se atualizem e não haja
Deveríamos ter uma graduação específica para desperdício de recursos 'sem mudança efetiva.
o professor alfabetizador? . . .
Defendo isso. Ou que, se essa formação esti- A universalizaçã.o 'do -ensinofundamen-
vesse na pedagogia, que se fizesse um processo de tal, que trouxe para ae~cól~ muitos alunos
especialização.xorno uma residência médica. Os de ambientes não letrados.vafetou a prática
médicos estudam seis anos e depois têm de f~ze~ dos alfabetizadores? .; '. .
.uma residência ou mais para se especializar numa . A língua escrita está. amarrada na oralidade, pois .
determinada área. A professora pode entender de é a representação da língua falada. São correspon-
outras coisas, mas tem de ter uma especialização em dências entre fonemas e grafemas,' algumas vezes
determinada área. O argumento de que a criança arbitrárias, e há semelhanças e diferenças entre os
precisa ter uma referência, uma professora só, é do gêneros falados e orais. Isso é diferente em grupos
tempo que se pensava que professora era tia. Hoje sociais diferentes. Os nossos problemas se agrava-
em dia, as crianças convivem com uma multidão ram quando as camadas populares conquistaram o
de pessoas fora da escola. As famílias hoje têm uma direito à escola. Nesse momento, a clientela mudou, S .~~

estrutura completamente diferente, convivem com com um alunado bem diferente daquele que está na
tios, avós, madrasta, padrasto. Por que na escola cabeça de quem forma os professores. Na cabeça dos
teria de ser só urna pessoa? E ainda por cima tendo formadores de professores ainda está o aluno da-
de dar conta de conteúdos os mais diversos numa quela escola que servia à burguesia. A sociolinguís-
faixa etária - e isso é fundamental - em que é pre- tica, por exemplo, é fundamental. A criança que fala
ciso dominar muito bem o conteúdo, pois tem de um dialeto popular, terá uma transferência da língua
simplificar sem falsificar. E só faz isso quem tem oral para a escrita, em termos de representação, com
um domínio muito grande do conhecimento de peculiaridades. Afinal, o dialeto dela é um, e a língua
determinada área. escrita é outra. Além disso, há a própria convivên-

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cia com a língua escrita. Na periferia, a criança tem Qual a sua impressão sobre a Provinha Brasil?
contato com as promoções escritas no tabuleiro do Tenho grande entusiasmo pela Provinha Brasil.
bar da esquina, os rótulos de produtos, os jornais Onde tenho visto ser usada, como; por exemplo, em
populares. Ou seja, convive com a escrita, só que não Lagoa Santa, município em que venho trabalhando,
aquela que a escola quer desenvolver. Há um salto tem ajudado muito. Embora também façamos diag-
a ser feito aLÉ bastante comum que as crianças, ao nósticos da própria rede, importantes porque sabe-
chegar à ~scola: tenham pela primeira vez a chance mos o que estamosperseguindó.esseolhar externo
de escolher um livro. A professora tem de estar pre- é vital. Aliás, não só a Provinha Brasil, mas qualquer
parada para trabalhar com essas dúlrentes subcultu- avaliação externa seria importante se tivesse a ca-
ras, que lidam com outros materiais escritos. racterística que a Provinha Brasil tem.

Qual sua opinião sobre o ciclo de alfabetização Qual a diferença?


de três anos, que deve ser criado com as novas' Em avaliações corno () Saeb, o Saresp e o Simave
diretrizes do ensino fundamental? vão à escola, aplicam a prova. e não deixam a institui-
Esse ciclo não deveria começar aos 6 anos. ção ficar com ela ou vê-Ia, porque estão constituindo
Quando se criaUlu ciclo para alfabetizar a criança banco de questões. É um segredo. Ou seja, a escola é
em três anos, se esquece de que é preciso começar avaliada e g~~ha números no final, que dizem se se
antes. Deveria haver um ciclo antes desse, pelo me- saiu bem ou mal. Mas não sabe em que aspectos foi
nos, das crianças de 4 a-5anos. Aí teríamos a alfabe- . bem ou mal e, portanto, o que fazercom aquelesre-
tizaçâode 4 a 8 anos,que é o tempo necessário para sultados. A Provinha Brasil é um bom instrumento
que a criança, considerando o seu desenvolvimento de diagnóstico, e não de avaliação. Chega à escola
cognitivo e linguístico, domine a língua escrita mi- com todas as explicações necessárias sobre o que
nimamente e possa prosseguir. está sendo avaliado, com análises sobre as dificulda-
des dos alunos em função de suas respostas. O go-
E a questão da reprovação? verno dáa prova e as orientações para trabalhar com
Prefiro falar em retenção. As crianças são diferen ~ aquele instrumento, todo o resto é feito na escola.
tes entre si. Não se pode pretender que caminhem Em Lagoa Santa, analisamos a Provinha, vemos o
no mesmo passo, igualmente. Isso não acontece nem que ela está medindo, complementamos com o que
nos aspectos físico e emocional. Essa definição por· ela não está medindo.mas nos interessa medir, apli-
idade só serve porque é a única viável do ponto de .. camos, levantamos os resultados, fazemos gráficos,
vista.prático. Dentro dessa faixa d~6a8anoshá di- tabelas, analisamos com as professoras, aluno por
ferenças enormes entre as crianças. Não se pode pre- aluno; turma por tu~·~à,habiltdade porhabilidade e
tender que todas cheguem à meta que se pretende orientamos o trabalho para a frente.
nesses três anosdo ciclo. Há aquelas que, para bene-
fício delas próprias, precisam ser retidas, para ter um Isso tem sido frequente em outros municípios?
suplemento para atingir o que não conseguiram. Mas Há municípios que tomam isso como imposi-
a escola pode fazer isso por diversos procedimen- ção do MEC, alguns até apenas devolvem as provas
tos que não deem essa conotação de reprovação. Ao respondidas. Não entenderam o objetivo. As redes
mesmo tempo, não é justo com a criança, nem com precisam ser mais bem orientadas. O que tem acon-
a família, que ela seja passada adiante sem estar em tecido é que as escolas aplicam, tomam ao pé da letra
condições. É bom que se admita que se, ao final do a orientação que vem do Inep e, em função disso,
ciclo, a criança não está em condição de passar para começam a preparar os alunos para a próxima Provi-
o seguinte, que ela possa - e deva - ser retida. Mas nha. Essa, aliás, é a maior crítica que se faz às avalia-
se o ciclo funcionasse realmente com a característica ções externas: as escolas estão se transformando em
que os ciclos devem ter, com atendimento a grupos instituições que preparam os alunos para responder
diferentes entre si, com reforço para determinadas a testes que vêm de fora. O que significa restringir e
crianças, provavelmente se conseguiria chegar ao seu limitar o processo de aprendizagem, subordinar-se a
final com todos mais ou menos no mesmo nível. Mas urna definição de fora sobre o que deve ser o processo
escolas e professoras não estão preparadas para isso. de seus próprios alunos.

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