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Loucura, Cultura, Instituição e Sociedade.

Marcus Vinicius de Oliveira Silva2

Hoje, graças aos estudos de alguns autores da história social da loucura, do manicômio e da
psiquiatria, tais como Foucault, Rosen e Castel, pelo menos no plano teórico, está solidamente
estabelecida a compreensão de que os transtornos mentais e emocionais sempre estiveram associados à
noção de doença mental de forma tão exclusiva, como ocorre contemporaneamente.

A antiguidade judaica e greco-romana, por exemplo, parece ter construído uma interpretação
complexa desses fenômenos, relacionados às condutas impulsivas, desordenadas, incomuns, irracionais,
que reunidas sob o signo da loucura, comportavam variadas explicações, acerca de suas origens e de suas
significações. Tais sistemas de signos e de significados eram, por sua vez, manejados socialmente
através de práticas institucionalizadas vinculados a diferentes aspectos da vida social: jurídicos,
artísticos, religiosos, etc. (Rosen, 1968; Pelbart, 1989).

Aparentemente trans-histórica, trans-cultural, a percepção da loucura, do transtorno como


alteridade que chama atenção do grupo social no qual se insere, parece ser uma constante. Como afirma
Rosen:

“cada sociedad identifica ciertas formas de conducta aberrante o exterma, como el


transtorno mental o locura. Em otras palabras, em la línea de la conducta humana,
desde aquello que uma sociedad considera normal hasta lo que juzga anormal, hay
algun tramo em que surge uma critica social y el individuo comienza a ser considerado
loco... la valorizacion de tales indivíduos y de su conducta por parte de los miembros
de la comunidad y su aceptacion como simplesmente excêntricos dentro de los limites
socialmente torelables, dependera de vários factores. Uno grupo de ellos incluye el
estilo y la coherencia de tal comportamiento, su orientacion respecto de la realidad, y
tambien la existência de instituiciones sociales que hacen possible que esos indivíduos
cumplan alguna funcion acetable”. (Rosen, 1968, pg 162).

1
Texto extraído da Dissertação de Mestrado
2
Psicólogo, Doutor em Saúde Coletiva IMS/UERJ, Professor Adjunto da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da
UFBA, Coordenador do Laboratório de Estudos Vinculares e Saúde Mental do Departamento de psicologia da UFBA, Criador
e Supervisor do PIC - Programa de Cuidados Intensivos a Pacientes Psicóticos.
Diferenciação! ... alteridade frente a uma norma social, em relação a qual ela é sempre
transbordante em algum aspecto: tal parece ser a marca registrada da loucura! E é, em função
exatamente dessa condição de alteridade frente à sociedade instituída, que “obriga” a mesma sociedade a
reconhecer o distúrbio mental enquanto tal, instituindo os signos e as praticas, que deverão mediar o seu
relacionamento para com ela. Foucault comenta:

“Pareceria, sem dúvida, inicialmente que não existe cultura que não seja sensível, na
conduta e na linguagem dos homens, a certos fenômenos com relação aos quais a
sociedade toma uma atitude particular: estes homens, nem completamente como
doentes, nem completamente como criminosos, nem feiticeiros, nem inteiramente
também pessoas comuns. Há algo neles que fala da diferença e chama a
diferenciação...” (Foucault, 1975, pg 87).

Assim, a loucura e os loucos parecem colocar de forma pratica, uma serie de questões a serem
“elaboradas” e “respondidas”, “na conduta e na linguagem”, pelas comunidades nas quais eles têm sua
existência, derivando daí, a possibilidade de distinguirmos dois níveis solidários entre si e de perspectiva
relativizadora, no processo de institucionalização das relações entre sociedade e loucura.

Num deles, poderíamos agrupar aquele conjunto de questões que se inscrevem no campo das
Representações Sociais, e que, de características simbólico-cognitivo-perceptuais, se referem a
institucionalização de um conjunto de idéias, signos e valores associados à loucura. Essa seria aquela
dimensão do processo de institucionalização da sociedade, ao qual Castoriadis denomina em seu ensaio
“A instituição Imaginária da Sociedade” como a dimensão de “LEGEIN”: um momento fundamental do
processo de instituição da sociedade, âmbito das operações por meio das quais o mundo social ordena-se
através da lógica Conjuntista Identitária, protótipo das operações lógicas mais comuns na estruturação do
nosso pensamento ocidental, constituído-se este leigein segundo ele – “uma dimensão essencial e
ineliminável, não apenas da linguagem, mas de toda a vida e de toda atividade social” (Castoriadis, 1986,
pg 260).

Tentemos, pois, esclarecer um pouco mais essa dimensão. Segundo Castoriadis, é impossível
pensarmos a nossa sociedade fora do referencial conjuntista que estrutura logicamente a nossa percepção
dos variados entes existentes no mundo. E para podermos falar de um conjunto, ou para pensarmos um
conjunto, é preciso recorrer às operações que, se hoje são distintas para nós, no grego antigo se incluíam
na compreensão de um único termo, no caso “leigein”, evidenciado um tipo de unidade perceptiva da
realidade que enfatiza sua dimensão descritiva:

Distinguir-escolher-estabelecer-juntar-contar-dizer. Objetos, coisas, pessoas, tais são


as operações fundamentais e essenciais do “leigein”: “condição e ao mesmo tempo criação da
sociedade, condição criada por aquilo mesmo que ela condiciona. Para que a sociedade possa
existir, para que uma linguagem possa ser instaurada e funcionar, para que uma prática
refletida possa desenvolver-se, para que os homens possam relacionar-se uns com os outros de
maneira que não no fantasma, é preciso que de uma forma ou de outra, em determinado nível,
em determinada camada ou extrato do fazer e do representar social tudo possa tornar-se
congruente com o que a definição (de conjunto) de Cantor implica...” (Castoriadis, opus cit).

Ou seja, a possibilidade da instituição da sociedade humana tem como pressuposto um modelo


lógico em que tudo seja consoante com a célebre definição de conjuntos proposta pelo eminente filósofo-
matemático: “um conjunto é uma coleção, em um todo de objetos definidos e distintos de nossa opinião
ou de nosso pensamento. Esses elementos são denominados os elementos do conjunto” (Castor, apud
Castoriadis Opus. cit).

O que pretende ressaltar daí é a importância da idéia de que a instituição da sociedade, o


ordenamento da sociedade como uma (singular), e não como outra qualquer, pressupõe as operações
conjuntizadoras-distinguidoras-hierarquizadoras, pois o fazer representar social, base e suposto do
processo de instituição da sociedade, pressupõe e se refere à existência de objetos percebidos como
distintos e definidos, que podem ser reunidos e formar todos, componíveis e decomponíveis, definíveis
por suas propriedades determinadas, e servindo de suporte a definição dessas mesmas propriedades.

Limitados pelas necessidades próprias deste texto, a um aprofundamento na densa reflexão que
esse autor propõe no seu projeto de compreensão acerca do modo pelo qual se institui a sociedade
humana, pensamos que evocá-la aqui ganha sentido, quando referido ao nosso interesse de pensarmos a
institucionalização das relações entre sociedade e loucura, destacando a questão das Representações
Sociais que se constroem sobre a mesma, enquanto um momento fundamental de “ancoragem” dos
elementos instituídos que a referenciam.
Nesse sentido, ganha relevância a identificação dos signos utilizados para a definição do que
seja a loucura, as interpretações acerca das suas origens, enquanto fenômenos que se destaca da
normalidade social, a construção dos critérios de identificação dos “atingidos”, as definições das
características e possibilidades que lhes são associadas, dos vários códigos e regras relacionais com os
loucos, a interação desses códigos e regras com os diversos planos da vida social (moral, jurídico,
religioso, profissionais, etc.) definindo pelo menos parcialmente, (nas palavras), um lugar para a loucura
e os loucos no interior da sociedade...

Se partirmos das teorizações do sociólogo-psicanalista E. Jaques, acerca do papel das


instituições enquanto “sistemas defensivos” contra as angústias persecutórias e as ansiedades
depressivas, provocadas pelas incertezas referentes ao futuro, podemos pensar que a loucura na sua
essência, enquanto aquilo que transborda, enquanto registro de imprevisibilidade que foge a todas as
normas sociais, coloca uma “exigência” de signos e práticas, capazes de neutralizá-la enquanto ameaça,
estranhamento, diferenciação: nomeá-la e inscrevê-la em algum conjunto de fenômenos, abrindo as
portas para as definições operativas, que se consubstanciam nas práticas instituídas para o seu manejo
social, deveriam enquanto uma exigência para a sua suportação e manejo social da sua presença. (Elliot,
Jaques, s/d).

Tal seria, portanto a outra dimensão, em que poderíamos distinguir na teorização de Castoriadis,
o segundo nível desse processo de institucionalização das relações sociedade/loucura, e que se referem
àquele grupo de questões que se inscrevem exatamente no campo das “atitudes”, do “fazer social” e
referem-se à institucionalização das práticas através das quais, essa mesma sociedade, deverá se
relacionar com a loucura, segundo as definições que ela tenha estabelecido para a mesma.

Mantendo-nos, por coerência, no mesmo registro da teorização proposta pelo já citado filósofo
grego, para a interpretação do processo de instituição da sociedade, encontraríamos para essa dimensão,
a denominação grega antiga de “teukhein”: juntar-ajustar-fabricar-construir. (Castoriadis, opus cit.).
“fazer ser como... a partir de... de maneira apropriada a... como vistas a...” se o “leigein” é a
dimensão conjuntista-conjuntizante do representar/dizer social, o theukein corresponde à dimensão
conjuntista conjuntizante do fazer social. Divisão a partir da qual instaura-se, mediante uma instituição
da realidade, uma nova divisão, além das do ser/não ser, valer/não valer própria do “leigein”: às do que
seria possível/impossível, factível/não factível no âmbito dessa mesma sociedade.
Dessa forma, no plano do fazer social, a realidade é instituída não apenas pelas suas
possibilidades “técnicas” de realização, mas também pela própria inscrição do fazer social no âmbito do
que é “admissível como possível”, por esta mesma sociedade.

“assim, sociedade e indivíduos vivem e funcionam toda vez na representação


obrigatória de ‘possíveis’ e de ‘impossíveis’ pré-constituidos, isto é, no estabelecimento
imaginário de uma realidade cujo seio a fronteira entre o ‘possível’ e ‘impossível’ seria
(mesmo que objetivamente assim não o seja) rigorosamente delineada em definitivo; e desde
sempre. O próprio possível é assim estabelecido como o determinado (o que é, de cada vez,
possível e o que não o é, é definido e distinto); assim como são estabelecidos como
determinados os meios, instrumentos, procedimentos, formas de fazer que o transformam em
atual efetivo...” (Castoriadis, opus cit. pg304s).

Dimensões inalienáveis uma da outra, o teukein implica intrinsecamente o leigein, remetendo-se


uma ao outro, reciprocamente, num movimento de circularidade, não cabendo uma discussão sobre a
primazia de uma das dimensões sobre a outra. (se a palavra, a designação precede ao instrumento, a
técnica ou o inverso).

Para dar um exemplo, na nossa cultura baiana, diante de uma manifestação paroxística em um
sujeito, marcada por espasmos, tremores, descontrole motor, inconsciência, dentre outros, dois signos,
entre outros, poderiam igualmente emergir interpretando-a e/ou nomeando-a com igual propriedade: se o
sujeito observador for vinculado ao universo da cultura médica, interpretará o fato como “epilepsia”, mas
caso já seja adepto do candomblé, possivelmente diagnosticará como um efeito de “santo”, identificando
uma situação de possessão. E, em cada uma dessas situações já estará incluído no ato da nomeação que
faz o observador, a indicação de um tipo de ação a ser desenvolvida, bem como os agentes, meios e
estabelecimentos capazes de oferecer-lhe resposta. Se a epilepsia, uma ação de caráter médico, com uso
de fármacos, em um estabelecimento de saúde. Se santo, uma ação religiosa, via um sacerdote afro, em
uma casa de candomblé.
Nesse sentido, poderíamos dizer, retomando a questão relativa à institucionalização das relações
sociedade/loucura, que, ao mesmo tempo em que a Sociedade conjuntiza-identifica a loucura e os loucos,
distinguindo-os/escolhendo-os/estabelecendo-os/juntandoos/contando-os/dizendo-os. Ela estabelece o
conjunto das possibilidades para que eles "sejam" no âmbito desta mesma sociedade, definindo as
factibilidades da sua existência, em coerência com as definições já pré-definidas em algum momento
inaugural, marcado pela criação social (Castoriadis, 1986r pg 225).

Patrocinar a Loucura no âmbito de uma valorização ritual, buscar a reversão das suas
manifestações através de encantamentos ou lobotomias, regular a sua presença ou controlá-la através de
tal ou qual instrumento, técnica ou instituição, corresponderia nessa perspectiva, mais do que a uma
escolha definida pelo grau de evolução da técnica ou do conhecimento (ainda que objetivamente também
o possa ser), a uma definição do admitido como o possível para a loucura, no âmbito de uma dada
sociedade.

Posta tal reflexão, entendemos estar indicando um caminho para analisarmos numa ótica
relativizadora, os processos sócio-históricos, que a partir do século XVIII, alteraram os modos instituídos
de relacionamento sociedade/loucura, criando as condições para a emergência de um novo “paradigma”
estruturador dessa relação, que permanecem até hoje como “matriz”, ditando as definições sobre seu
modo de ser.

A INVENCAO DO NOVO DISPOSITIVO.

Vários esforços, alguns magníficos, têm estabelecido com riqueza de detalhes, a natureza desse
processo, as suas cronologias, seus momentos fundamentais. (Foucault, 1978; Castel, 1978; Rosen, 1974;
Birman, 1978). Não se trata, portanto, de correr o risco de refazê-lo aqui apressadamente, empobrecendo
a descrição já traçada.

Os vários pesquisadores que debruçaram sobre a tarefa de elucidação de uma história social da
loucura, mesmo diferenciando-se em relação às bases teórico-melodológicas que fundamentam as suas
pesquisas, são unânimes ao assinalarem as profundas transformações operadas nestas relações nos fins
do Séc. XVIII, que culminaram com o advento de uma Medicina Mental, cujo florescimento, teve como
palco a sociedade francesa pós-revolucionária, e que lança os fundamentos estruturais daquilo que viria a
se constituir como a Psiquiatria Moderna (Foucault, 1978; Castel, 1978).
Significativamente, a partir do Séc. XVIII, em virtude de certas condições historicamente
estabelecidas, relativas ao processo de transformações sociais, econômicas e políticas que caracterizaram
o advento da sociedade industrial, refletindo-se num processo de “mercantilização da existência”, na
questão constituída pela presença dos loucos na vida sócio-comunitária, ocorrerá um deslocamento, que,
empobrecendo a diversidade das representações sociais acerca da loucura vigentes na época, iria
beneficiar uma outra questão, que, pragmaticamente, se colocou de forma proeminente: - o que fazer
como os loucos?

Vários são os indícios de que tal questão tenha estado, implícita e explicitamente colocada. A
loucura que estivera silenciada desde os fins do Séc XVI, submersa no oceano de miserabilidade que
marcou o processo de constituição das grandes metrópoles européias, retorna nesse séc. XVIII alguma
coisa do tom trágico e ameaçador que caracterizava a percepção da mesma, ao final da Idade Media,
início do Renascimento.

Algo como o pronuncio de que, aquele movimento que Foucault descreve como “a grande
internação” – dramática resposta social frente ao desagregamento da ordem feudal, e que se constitui,
segundo esse autor, na multiplicação dos espaços de acolhimento/internação da pobreza, da doença, do
desvio e do crime – já não era capaz de resolver, na indiferenciação, a problemática relativa à presença
social da loucura que, aí estivera até então, anonimamente inclusa e desapercebida, sintomaticamente,
como registra ainda Foucault, faz parte do discurso desse século, um repetido alarme de que a loucura
estivesse aumentando, mesmo que nenhuma evidência houvesse, acerca de qualquer efetivo aumento dos
loucos, que fosse maior do que o aumento da população em geral (Foucault, 1978, pg. 385).

Aparentemente, muito antes que, na pré-aurora do século XIX (1792), o gesto mítico de Pinel
viesse reivindicar uma separação dos loucos daquela corja sórdida que infestava os espaços da
internação, o desenvolvimento lento de uma nova sensibilidade social frente à presença social da loucura,
já lhe viesse diferenciando durante todo o transcorrer daquele século.

As razões do desenvolvimento da nova sensibilidade e das respectivas mudanças na atitude


social, em relação à loucura, que tiveram lugar na Europa da época, podem ser analisadas e
compreendidas como resultante de uma conjunção de fatores sócio-econômicos, filosóficos e morais, que
apenas rapidamente vamos situar.

Sinteticamente, poderíamos dizer que esse século gesta e prepara, ao lado da revolução nas
técnicas produtivas, uma nova definição social da realidade e do ser, que emergiriam como instintuintes
das significações fundamentais que ainda hoje orientam as nossas concepções acerca da sociedade. A
idéia do trabalho como fonte de riqueza; da razão como guia do conhecimento e do comportamento; do
caráter laico do poder político, são sem dúvidas, algumas das mais significativas.

A nova sociedade que se projetava e buscava instituir-se, requeria uma nova representação dos
seus membros. Assim ela os "idealizava" com um novo dimensionamento da alteridade, ditada pelo
desenvolvimento da noção da individualidade. Como afirma Barbu:

"el individualismo económico y político, el individualismo religioso a partir de la


Reforma, así como el individualismo en el arte, que comenzó con el Renacimiento y
culminó con el Romantismo, constituyen rasgos básicos en las pautas culturales de
las sociedades de Occidente (Barbu, 1962, pg.10).

Projetando os seus membros como indivíduos, sujeitos da razão, previsíveis, regulares,


agenciáveis e confiáveis enquanto agentes econômicos, a nova sociedade que se inaugurava, fatalmente
teve que se colocar a questão do "que fazer?" com aqueles seus membros que não poderiam ser
"conjuntizáveis" a partir dessas características. O que fazer com aqueles seus membros, que, marcados
por uma condição de imprevisibilidade, de incerteza ,não correspondiam às exigências formuladas para a
pertinência ao conjunto de sujeitos, aos quais, nessa sociedade, poderia se dar uma "existência" plena?
Seria, portanto, em função de uma certa auto-representação que a sociedade projetava para
si mesma, auto-representação, por sua vez, derivada daquelas significações imaginárias
sociais a partir das quais esta sociedade estava a instituir-se a si mesma, como sendo "esta"
e não outra qualquer, que iria, portanto, se produzir, que se delinearia, um sub-conjunto de
sujeitos sociais exclusos, que colocariam um conjunto de exigências próprias,
diferenciadas, relativas à institucionalização de um novo fazer social que pudesse dar conta
da sua condição. Não um fazer social qualquer, mas um fazer social que oferecesse os
meios e que tomasse especificamente a loucura como seu objeto privilegiado de
intervenção, garantindo um lugar aceitável e admissível para ela ao mesmo tempo em que,
a neutralizasse em seus efeitos de alteridade radical, incômoda à nova ordem vigente.

Tal necessidade, entretanto, apesar de já vir sendo murmurada ao longo do séc.


XVIII, sob a forma de uma crítica que já distinguia e questionava a presença da loucura no
universo promíscuo dos espaços de internação, nos quais ela se encontrava incluída, só
ganharia contornos de uma exigência clara e explicita, na conjuntura sócio-política,
característica do advento da Revolução Francesa, ambiente esse, no qual tal situação
receberia o seu equacionamento paradigmático.

Efetivamente, seria diante do valor da cidadania, emergente no quadro


revolucionário francês como a afirmação de uma nova possibilidade de representação dos
sujeitos frente ao Estado, definidora de um novo conjunto de direitos e deveres do cidadão,
decorrentes do novo pacto político que se instituía em torno do ideal da contratualidade,
que a loucura teria definida para si, uma condição de exceção, frente aos direitos e deveres
aí definidos, fazendo presente à exigência de um novo fazer social, capaz de equacionar a
sua presença enquanto uma situação política excepcional (Castel,1978).

E seria como resposta a tal busca que, percorrendo complexos caminhos nos quais
se combinaram os termos da episteme racional-iluminista, certas exigências políticas
estatais de gestão social e a disponibilidade de certos agentes sociais para assumirem
negociadamente a condição de operadores práticos de uma nova solução para a questão da
presença social da loucura, que a solução médico-asilar se projetaria como a possibilidade
de tal equacionamento.

Racionalizadora, num momento em que a episteme Iluminista transpirava o ideal


da razão, enquanto projeto de ordenação da vida social, a solução manicomial proposta e
executada pelos alienistas, compatibilizava um conjunto de interesses diversificados, ao
mesmo tempo em que oferecia mais segurança e garantias que as alternativas pré-
existentes, na solução dos problemas representados pela presença dos loucos na vida
sócio-comunitária.

Encaixando-se perfeitamente nas exigências do emergente paradigma do direito


contratual (substituto do direito real), tal solução também respondia também
adequadamente as novas exigências econômicas, jurídicas, disciplinares, correlatas a este
paradigma, a saber: a definição da capacidade da auto-responsabilização individual frente
ao trabalho, a subsistência é a lei, como condição do gozo dos novos direitos conquistados.

Como analisa Castel, a loucura e os loucos, dificilmente podiam ser reduzidos a tal projeto
de poder contratual e, ao ficarem fora dele, criavam questionamentos embaraçosos, relativos à
universalização da igualdade enquanto direito político, fragilizando a posição instituinte do projeto
de poder dos revolucionários. Projeto de poder que se encontrava naquele momento onerado, pela
sua obrigação de demonstrar superioridade frente ao poder aristocrático, ao qual se colocavam como
alternativa. Por outro lado, para resolver tal problema, não se poderia contrariar os demais
pressupostos ideológicos e jurídicos sobre os quais se baseava esta nova sociedade política. Entre os
quais, aqueles que garantiam, por exemplo, que ninguém seria preso, senão por desobediência à lei,
como figurava nos textos legais, representativos desses mesmos pressupostos (Castel,1978).

Como justificar, portanto, a manutenção da prática de internamento, odiada como


representação do poder absolutista contra o qual se insurgia a revolução, agora abolido para todos,
mas excepcionalmente, mantida como uma exclusividade para os loucos?

Pela análise de Castel, em resposta a esta questão, um grupo de higienistas e filantropos,


dentre os quais a história reservou lugar especial para Pinel, se ofereceram ao Estado, estabelecendo
as bases de um novo tipo de poder sobre a loucura, caracterizado pelas suas características periciais,
fundado numa justificativa técnica e apoiado no poder da instituição médica. Converter os antigos
espaços na internação, local de amontoamento durante o século XVII, de toda ordem de desviantes
sociais (miseráveis, criminosos, vagabundos, dissidentes políticos, loucos, etc.) em instituições de
caráter médico, onde só os últimos restassem a titulo de uma exigência terapêutica, tal foi à tarefa à
qual se propuseram.

Reuni-los em um mesmo lugar, neutralizados sob uma mesma ordem (agora terapêutica e
não mais policial), abaixo um mesmo poder (agora técnico e não mais político), constituindo-se no
projeto de alienismo, desencadeado pelo mítico gesto de Phillipe Pinel, considerado o patrono
criador da psiquiatria.

Segurança para a ordem pública, garantia de sossego para os familiares, racionalização de


procedimentos para o administrador, desrresponsabilização para o legislador, desembaraço para a
autoridade jurídica policial, tais são alguns elementos responsáveis pela ligeira aceitação e
institucionalização do modelo fundado na exclusão manicomial da loucura. E foi com base nessa
oportuna conjugação de interesse, que a emergência da psiquiatria pode criar, não só no campo
institucional (o campo das instituições psiquiátricas) mas também um novo campo teórico técnico e
sobretudo um novo falo sócio-cultural.

A definição de exclusão manicomial inerente a este paradigma psiquiátrico, posto como


modalidade fundamental de relacionamento social com a loucura, ao conceder-lhe um alto grau de
eficiência prática, como resposta a questão “do que fazer com os loucos?”, iria produzir a sua
legitimação social, colocando-lhe como centro da convergência de uma amplo e diversificado leque
de interesses sociais relativos à loucura, agora convertida em doença mental. Pelo mesmo processo,
colocaria também os seus agentes e instituições numa posição privilegiada, enquanto “emissores” de
uma recodificação e ressignificação das percepções sociais que envolvem a questão, condicionando
através das suas enunciações, os conceitos de Saúde/Doença Mental.

Legitimado socialmente pela sua filiação ao prestigiado campo técnico científico, e de


forma prática pelo rigor da exclusão da loucura por ele propiciada, legalizado precocemente pela
astúcia política dos seus pioneiros, que garantiriam, já em 1838, no texto da lei, as prerrogativas da
sua exclusividade, esse modelo médico-psiquiátrico impôs a sua hegemonia, estabelecendo como
subalternas todas as outras práticas, saberes, ideologias pré-existentes, logrando identificar-se como
a única forma reconhecidamente idônea de abordagem dos transtornos mentais.

Chancelado pelos critérios da racionalidade técnico-cietifica, este dispositivo médico-


psiquiátrico desde então, não mais parou de se expandir e de se inscrever nas mais diversas esferas
da vida social, desde o seu surgimento no inicio do século XIX, até os dias atuais, ampliando e
diversificando os seus espaços e objetivos de atuação: “primeiro a loucura, depois a doença mental,
os conflitos emocionais, a vida psíquica, a saúde mental, o comportamento humano, as inadaptações
e insatisfações, etc, etc.” (Pinheiro, 1981).

Referências Bibliográficas:

1. Birman, Joel (1978) A psiquiatria como discurso da moralidade. Edições Graal:


Rio de Janeiro.
2. Castel, Robert (1978) O Psicanalismo. Edições Graal: Rio de Janeiro.
3. Castel, Robert (1978) A Ordem Psiquiátrica: A Idade de Ouro do Alienismo.
Edições Graal: Rio de Janeiro.
4. Castoriadis, Cornelius (1982) A Instituição Imaginária da Sociedade. Ed Paz e
Terra: Rio de Janeiro.
5. Foucaul, Michel (1975) Doença Mental e Psicologia. Ed. Tempo Brasileiro Ltda:
Rio de Janeiro
6. Foucaul, Michel (1978) História da Loucura. Ed. Perspectiva: São Paulo
7. Jaques, Elliot (s/d) Os Sistemas sociais como defesa contra a ansiedade persecutória
e depressiva: uma contribuição para o estudo psicanalítico dos processos sociais IN Temas
de Psicanálise Aplicada. (xerox, s/d ed.)
8. Pelbart, Peter P. (1989) Da Clausura do Fora ao Fora da Clausura: Loucura e
Desrazão. Ed. Brasiliense: São Paulo.
9. Rosen, George (1974) Loucura y Sociedad: Sociología Histórica enfermedad
Mental. Aliaza Editorial S/A, Madrid.
10. Pinheiro, Luiz H. Psiquiatra, Prof. Do departamento de Neuropsiquiatria da
FAMED/UFBA. Depoimento concedido em 27/01/80, transcrição.