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Conceitos Científicos em Destaque

O que é uma Gordura Trans?

Fábio Merçon

Os principais componentes dos óleos e das gorduras são os triacilgliceróis, moléculas formadas a partir do
glicerol e de ácidos graxos, que podem ser saturados ou insaturados. Apesar de termodinamicamente menos
estáveis, os ácidos graxos cis ocorrem predominantemente na natureza, devido à estereoespecificidade das
enzimas que atuam na biossíntese de lipídios. Durante o processo de hidrogenação parcial de óleos vegetais,
ocorre a reação de isomerização com formação dos ácidos graxos trans (gordura trans). A ingestão excessiva
de ácidos graxos trans acarreta malefícios à saúde, principalmente devido à alteração dos níveis de colesterol
no organismo. Assim, não é recomendada a ingestão de alimentos contendo ácidos graxos trans. A abordagem
desse tema em sala de aula possibilita a promoção de um ensino crítico, contextualizado e interdisciplinar.

ácido graxo trans, gordura trans, isomeria cis-trans


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Recebido em 04/11/09, aceito em 12/03/10

Nos últimos anos, o termo gor-


dura trans ganhou uma posição de
destaque no dia a dia em função da
divulgação de possíveis malefícios à
saúde decorrentes de seu consumo.
Geralmente, as informações veicu-
ladas pela mídia apenas apontam Figura 1: Reação de formação de um triacilglicerol.
seus malefícios, sem uma explica-
ção mais detalhada do significado óleos e as gorduras, sendo que sua deias carbônicas dos ácidos graxos
desse termo. Nesse sentido, o ob- diferença está no estado físico sob incorporados em sua estrutura. Os
jetivo do presente artigo é abordar temperatura ambiente, pois óleos principais ácidos graxos apresentam
o tema gordura trans, de forma a são líquidos e as gorduras são sóli- cadeia não ramificada e número par
fornecer subsídios para a promo- das. Apesar dessa diferença, óleos e de átomos de carbono1, podendo ser
ção de um ensino contextualizado gorduras apresentam como compo- saturados ou insaturados.
e interdisciplinar. nentes majoritários os triacilgliceróis. Em função da presença de uma
Na Figura 1, é apresentada, de forma insaturação entre átomos de carbo-
Óleos e gorduras genérica, a reação química de for- no, tem-se a possibilidade de ocor-
Os principais macronutrientes mação de um triacilglicerol: um éster rência dos dois isômeros geométri-
presentes nos alimentos são glicí- formado a partir do glicerol (álcool) cos: cis e trans. Em virtude da tensão
dios, proteínas e lipídios. Além da e três moléculas de ácidos graxos provocada por dois seguimentos
função energética, os lipídios con- (ácidos carboxílicos de ocorrência volumosos presentes do mesmo
ferem sabor e aroma ao alimento, natural) em um processo catalisado lado da ligação dupla, os isômeros
também sendo fontes de substân- por enzimas (lipases) ou meio ácido. cis são termodinamicamente menos
cias essenciais ao organismo. Os As moléculas de triacilglicerol estáveis (Solomons e Fryhle, 2005).
principais tipos de lipídios são os são diferenciadas em função das ca- Apesar disso, devido à estereoes-
pecificidade das enzimas, na natu-
A seção “Conceitos científicos em destaque” tem por objetivo abordar, de maneira crítica e/ou inovadora, conceitos reza, os isômeros cis são formados
científicos de interesse dos professores de Química. preferencialmente na biossíntese de

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lipídios (Fox e cols., 2004). empregados na alimentação. É im- de bio-hidrogenação, no qual ácidos
Na Tabela 1, são apresentados os portante lembrar que quase todo o graxos cis ingeridos são parcialmente
principais ácidos graxos presentes ácido graxo presente nos alimentos hidrogenados por sistemas enzimá-
nos triacilgliceróis. Uma simbologia está incorporado nos grupos acila ticos da flora microbiana presente
muito utilizada para representar os nas moléculas de triacilgliceróis. no rúmen desses animais (Semma,
ácidos graxos se baseia em um 2002; Chatgilialoglu e Ferreri, 2005).
Ácidos graxos trans
sistema alfanumérico, iniciado pela Ácidos graxos trans também são
letra C, seguido pelo número de Apesar de não ser a forma predo- formados a partir da isomerização
átomos de carbono na molécula, minante na natureza, ácidos graxos de ácidos graxos cis presentes em
o número de ligações duplas entre trans2 são encontrados em algumas óleos vegetais em dois processos
átomos de carbono e as posições bactérias, dos gêneros Vibrio e induzidos termicamente: a desodori-
das insaturações na cadeia carbônica Pseudomonas, e em alguns vegetais zação industrial, que visa à remoção
com indicação das que forem trans. como romã, ervilha e repolho. Esses de componentes voláteis de sabor
Como exemplo, o ácido cis-octadec- ácidos são formados a partir da rea- e odor indesejáveis; e a reutilização
9-enóico é representado por C18:1(9) ção de isomerização dos respectivos prolongada de óleos na fritura de
e o ácido trans-octadec-9-enóico por isômeros cis, em uma adaptação a alimentos (Wolff, 1994; Martin e cols.,
C18:1(9trans). mudanças no meio, como variações 2005).
Nessa tabela, também são apre- de temperatura e presença de subs-
Hidrogenação de óleos vegetais
sentados os pontos de fusão dos áci- tâncias tóxicas (Ferreri e cols., 2007;
dos graxos. Como se pode constatar, Doyle, 1997). A principal fonte de ácidos graxos
o aumento do número de átomos de Na alimentação humana, as prin- trans é a hidrogenação parcial de óle-
carbono eleva o ponto de fusão em cipais fontes de ácidos graxos trans os vegetais usados na produção de
função do aumento na atração de são: a transformação por micro- margarina e gordura hidrogenada. A
van der Waals entre as moléculas. organismos em alimentos originados descoberta dos efeitos prejudiciais à
Por sua vez, para um número de de animais ruminantes, a etapa deso- saúde de ácidos graxos saturados, e
átomos de carbono, a presença de dorização no processamento indus- principalmente do colesterol presen- 79
uma ou mais insaturações diminui trial de óleos vegetais, o processo tes em alimentos de origem animal,
o ponto de fusão, sendo esse efeito de fritura de alimentos e o processo deu impulso a sua substituição por
mais pronunciado na forma cis, visto de hidrogenação parcial de óleos gorduras vegetais hidrogenadas.
que sua curva rígida dificulta a apro- vegetais. Industrialmente, a hidrogenação
ximação das moléculas, reduzindo a Alimentos obtidos de animais ru- é conduzida em tanques herméticos,
atração de van der Waals (Solomons minantes (subordem dos mamíferos nos quais é feita a mistura do óleo
e Fryhle, 2006). que inclui os bovinos), como carnes, com hidrogênio e um catalisador,
Na Tabela 2, é apresentada a leites e derivados, são fontes natu- geralmente níquel finamente dividido,
composição média dos ácidos gra- rais de ácidos graxos trans. Esses a temperaturas superiores a 180ºC,
xos presentes em óleos e gorduras ácidos são formados no processo com pressões entre 0,5 a 4 atm (Ri-

Tabela 1: Principais ácidos graxos presentes na natureza.

Nome oficial Nome usual Símbolo Ponto de fusão (°C)


Ácido butanóico Ácido butírico C4:0 -8,0
Ácido hexanóico Ácido capróico C6:0 -3,0
Ácido octanóico Ácido caprílico C8:0 16,5
Ácido decanóico Ácido cáprico C10:0 31,0
Ácido dodecanóico Ácido láurico C12:0 44,0
Ácido tetradecanóico Ácido mirístico C14:0 54,0
Ácido hexadecanóico Ácido palmítico C16:0 63,0
Ácido cis-hexadec-9-enóico Ácido palmitoleico C16:1(9) 0,0
Ácido octadecanóico Ácido esteárico C18:0 70,0
Ácido cis-octadec-9-enóico Ácido oleico C18:1(9) 13,0
Ácido cis,cis-octadec-9,12-dienóico Ácido linoleico C18:2(9,12) - 5,0
Ácido cis,cis,cis-octadec-9,12,15-trienóico Ácido linolênico C18:2(9,12,15) - 11,0
Ácido eicosanóico Ácido araquídico C20:0 75,0
Adaptado de: Hartman e Esteves (1982); Solomons e Fryhle (2006) e Vieira e cols. (1999).

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Tabela 2: Composição média percentual de ácidos graxos obtidos na hidrólise de alguns tipos de alimentos.

Ácido graxo Manteiga Banha Azeite de Óleo de Óleo de Óleo de Óleo de Óleo de Óleo de Óleo de
oliva milho algodão soja coco girassol canola dendê
C4:0 3 - - - - - - - - -
C6:0 2 - - - - - - - - -
C8:0 1 - - - - - 6 - - -
C10:0 3 - - - - - 8 - - -
C12:0 5 - - - - - 45 - - -
C14:0 15 1 1 1 1 1 18 - - 1
C16:0 27 28 10 8 23 10 9 8 4 42
C18:0 5 12 2 3 1 2 3 5 3 4
C20:0 - - - - - - - 1 - -
C16:1(9) 5 3 - 1 2 1 1 - - -
C18:1(9) 30 48 70 36 24 28 7 25 58 42
C18:2(9,12) 4 8 17 51 49 50 2 61 27 11
C18:2(9,12,15) - - - - - 8 - - 8 -
Adaptado de: Hartman e Esteves (1982); Solomons e Fryhle (2006) e Vieira e cols. (1999).

beiro e cols., 2007). e cols., 2007). Diante do papel dos O mecanismo de Horiuti-Polanyi
O mecanismo da reação tem início ácidos graxos saturados no aumen- possibilita a interpretação do fenô-
com a adsorção da molécula de hi- to do nível de colesterol no sangue, meno de isomerização cis-trans. Esse
80 drogênio na superfície do catalisador teve início uma maior utilização dos mecanismo considera a formação
metálico, havendo o rompimento da produtos parcialmente hidrogenados de um intermediário parcialmente
ligação entre os átomos de hidro- (Sanibal e Mancini Filho, 2004). hidrogenado do ácido (ligado com
gênio e a formação da ligação do apenas um átomo de hidrogênio)
Isomerização de ácidos graxos cis
hidrogênio com o metal decorrente na superfície do catalisador. Esse
do emparelhamento do elétron do Nas condições da hidrogenação, intermediário apresenta facilidade de
hidrogênio com um elétron desem- em paralelo à adição de hidrogênio, rotação da cadeia carbônica, anterior-
parelhado do catalisador metálico. também ocorrem reações de isome- mente impedida pela ligação dupla.
A molécula de triacilglicerol adsorve rização das ligações duplas remanes- Caso o átomo de hidrogênio ligado
na superfície do catalisador median- centes. As reações de isomerização ao intermediário retorne à superfície
te a interação da ligação p com o são de dois tipos: conversão cis-trans do catalisador, a molécula original de
catalisador metálico. Em seguida, e mudança de posição da ligação ácido graxo cis é dessorvida. Entre-
ocorre a transferência dos átomos de dupla ao longo da cadeia carbônica. tanto, se esse átomo de hidrogênio
hidrogênio para a molécula orgânica Como a isomerização de posição permanecer ligado à molécula e outro
com o rompimento da ligação p e for- não altera o tipo de isômero geomé- átomo de hidrogênio inicialmente
mação de uma ligação saturada entre trico, os principais estudos reportam presente na molécula for removido,
átomos de carbono. Por fim, tem-se a apenas a reação de formação dos tem-se a inversão de conformação e
dessorção da molécula hidrogenada isômeros trans. formação do isômero trans, conforme
e a liberação dos sítios metálicos para Um provável modelo para que esquematizado na Figura 2. Por fim,
uma nova etapa de hidrogenação ocorra a reação isomerização durante se outro hidrogênio adsorvido na
(Solomons e Fryhle, 2005). o processo de hidrogenação tem iní- superfície do catalisador se ligar ao
Existem duas formas de hidroge- cio na ligação da molécula de ácido intermediário parcialmente hidroge-
nação industrial: total e parcial. Na insaturado à superfície do catalisador nado, tem-se a formação da ligação
hidrogenação total, tem-se a satura- por meio de sua interação com a saturada e a dessorção da molécula
ção de todas as ligações carbono- ligação p. Entretanto, essa interação hidrogenada (Tonetto e cols., 2009).
carbono. Já na hidrogenação parcial, não é estável e se o ácido se desligar
tem-se a redução do teor de insatu- antes da adição de hidrogênio, tem-
rações. As características do produto se a regeneração da ligação dupla.
final são definidas pelas condições Todavia, como a configuração trans
de operação do processo, sendo as é mais estável termodinamicamente,
principais variáveis envolvidas: tem- esse isômero é formado preferen-
peratura, pressão, agitação, tipo e cialmente frente à configuração cis Figura 2: Reação de isomerização cis-
concentração do catalisador (Ribeiro (Doyle, 1997; Semma, 2002). trans.

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As reações de isomerização são de ácido graxo. Ao se comparar as no fígado afetam os níveis plasmáti-
conhecidas desde a década de 1950 taxas de HDL-colesterol, constatou-se cos de LDL-colesterol. Assim, quando
(Feuge e cols., 1953; Glushenkova e que as pessoas submetidas às dietas os níveis do LDL-receptor estão bai-
Markman, 1968; Raju e cols., 1968), com ácido cis e com ácido saturado xos, por ação de nutrientes ou efeito
porém, antes de se conhecer os efei- apresentaram a mesma concentração genético, ocorrerá maior acúmulo de
tos prejudiciais dos ácidos trans, sua dessa lipoproteína, que era superior LDL-colesterol no plasma.
formação era uma vantagem, pois à concentração nos indivíduos cuja Além da alteração dos níveis
como os ácidos trans apresentam dieta continha ácidos trans. Já para de colesterol, outros efeitos ao or-
ponto de fusão superior aos isômeros a LDL-colesterol, as concentrações ganismo vêm sendo associados à
cis, há um aumento do teor de sólidos foram maiores nas pessoas subme- ingestão de ácidos graxos trans. Um
nas gorduras hidrogenadas (Ribeiro tidas à dieta com ácidos trans e com desses efeitos consiste na inibição
e cols., 2007). ácidos saturados do que os que se da ação de enzimas de dessatu-
alimentaram com ácidos cis. Esses re- ração, que catalisam a reação de
Efeitos dos ácidos graxos trans no
sultados levaram à conclusão de que o desidrogenação de ácidos graxos na
organismo
consumo de ácidos graxos saturados biossíntese de ácidos graxos funda-
Os ácidos graxos trans sempre aumenta o nível de LDL-colesterol, en- mentais aos processos metabólicos
fizeram parte da alimentação humana quanto que os ácidos graxos trans não (Costa e cols., 2006). Essa inibição
mediante o consumo de carnes, leite só aumentam o nível desse composto pode ter efeitos na saúde materno-
e seus derivados. No entanto, com a como também diminuem o nível de infantil, afetando o processo de
produção de substitutos para a man- HDL-colesterol. crescimento e desenvolvimento
teiga e as gorduras animais por meio A elevação dos níveis de LDL-co- da criança, pois os ácidos graxos
da hidrogenação parcial de óleos lesterol contribui para o aumento do podem ser transferidos tanto pela
vegetais, houve uma significativa ele- risco de doenças cardiovasculares. placenta quanto pelo leite materno
vação da presença dos ácidos graxos Logo, tanto os ácidos trans quanto os (Chiara e cols., 2002).
trans na dieta (Martin e cols., 2004). ácidos saturados potencializam esse
Ácidos graxos trans em alimentos e sua
Um composto influenciado pelos efeito (Aued-Pimentel e cols., 2003). 81
rotulagem nutricional
ácidos graxos trans é o colesterol, um Entretanto, a ingestão de altos níveis
esteróide de ocorrência natural nos de ácidos graxos trans pode promo- Em média, os percentuais de
animais e que participa da biossíntese ver um aumento mais significativo na ingestão de ácidos graxos trans por
de substâncias com funções impor- razão LDL-colesterol/HDL-colesterol meio da alimentação são: 80 a 90%
tantes no organismo. A quantidade do que a ingestão de ácidos graxos de alimentos obtidos por hidroge-
de colesterol no organismo é função saturados e, consequentemente, nação parcial; 2 a 8% de alimentos
do que é produzido pelo próprio or- um efeito adverso à saúde mais provenientes de animais ruminantes;
ganismo e da parcela obtida pela ali- acentuado (Willett e Ascherio, 1995; e 1 a 1,5% de óleos refinados, sendo
mentação. No organismo, o colesterol Mozaffarian e cols., 2006). que sua reutilização, principalmente
se encontra associado com lipídios e Costa e cols. (2006) relatam que no preparo de alimentos fritos, pode
proteínas nas lipoproteínas, sendo as o consumo de ácidos graxos trans é tornar significativa a sua contribuição
principais a lipoproteína de alta den- maior nos Estados Unidos, no Canadá na ingestão diária de ácidos graxos
sidade (HDL-colesterol) e lipoproteína e em países do norte da Europa do que trans (Martin e cols., 2004).
de baixa densidade (LDL-colesterol). A no Japão e em países do Mediterrâneo. Atualmente, os principais alimen-
lipoproteína de alta densidade, tam- De forma semelhante, a incidência de tos que contêm um significativo teor
bém conhecida por “colesterol bom”, doenças cardiovasculares são maiores de ácidos graxos trans são: sorvetes,
tem a função de transportar os lipídios naqueles países que apresentam um chocolates diet, barras achocolata-
dos tecidos para o fígado, onde são maior consumo desse tipo de lipídio. das, salgadinhos de pacote, bolos/
degradados e excretados. Por sua Na busca por uma explicação tortas industrializados, biscoitos,
vez, a lipoproteína de baixa densida- para esses efeitos, Scherr e Ribeiro bolachas com creme, frituras co-
de, conhecida por “colesterol ruim”, (2007) e Chiara e cols. (2002) relata- merciais, molhos prontos para sa-
transporta os lipídios biossintetizados ram que a ingestão de ácidos graxos lada, massas folhadas, produtos de
do fígado para o resto do organismo trans aumenta a atividade da enzima pastelaria, maionese, cobertura de
(Solomons e Fryhle, 2006). responsável pela transferência de és- açúcar cristalizado, pipoca de micro-
Nas últimas décadas, os efeitos teres de colesterol da HDL-colesterol ondas, sopas enlatadas, margarinas,
do consumo de ácidos graxos trans para a LDL-colesterol, justificando cremes vegetais, gorduras vegetais
sobre a saúde começaram a ser assim a mudança de perfil lipídico. hidrogenadas, pães e produtos de
investigados. Em um dos trabalhos Chiara e cols. (2002) também desta- padarias e batatas fritas (Costa e
pioneiros, Mensink e Katan (1990) caram a supressão da atividade do cols., 2006; Scherr e Ribeiro, 2007).
desenvolveram um estudo com três LDL-receptor, que capta o LDL-co- Cabe destacar que a quantidade de
grupos de pessoas submetidos à lesterol, removendo-o da circulação. ácidos graxos trans varia de forma
mesma dieta, variando apenas o tipo Variações mínimas de LDL-receptor significativa em diferentes tipos de

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alimentos industrializados e até mes-
mo dentro de uma mesma categoria
de produto. Essa variabilidade está
associada às condições de hidro-
Figura 3: Reação de transesterificação.
genação e ao tipo de matéria-prima
utilizada (Ribeiro e cols., 2007).
A partir dos resultados de es-
tudos relacionando à ingestão de
ácidos graxos trans com alterações Figura 4: Mecanismo de isomerização cis-trans catalisado por um radical livre (Chatgil-
metabólicas no organismo, teve iní- ialoglu e cols., 2006).
cio um movimento mundial visando à
redução de seu consumo (Gagliardi cação do tipo acidólise. No processo cis-trans, esse tema possibilita a
e cols., 2009). Diversas nações alte- de transesterificação, a conformação abordagem de uma forma contex-
raram sua legislação para incluir in- das insaturações dos ácidos graxos tualizada e interdisciplinar de alguns
formações sobre a presença desses permanece inalterada, ocorrendo tópicos do conteúdo programático
compostos nos rótulos de alimentos apenas sua substituição nas molé- de Química comumente presentes
comercializados. No Brasil, a partir culas dos triacilgliceróis, resultando na educação básica, tais como: fun-
de 2003, é obrigatória a informação na modificação da composição dos ções e reações da química orgânica,
da quantidade de gordura trans (em triacilgliceróis dos alimentos. Nesse isomeria e cinética química.
mg) por porção do alimento comer- sentido, o processo de transesterifi- Além do aspecto programático, o
cializado (ANVISA, 2003). cação possibilita a redução do teor de tema também possibilita o desenvol-
Outro aspecto positivo foi a re- ácidos graxos trans sem alterações vimento de atividades comprometidas
moção dos ácidos graxos trans de significativas na razão ácido graxo com a formação da cidadania crítica
diversos produtos, de forma que a insaturado por ácido graxo saturado dos alunos, que estimulam a participa-
indicação de 0% de gordura trans (Ribeiro e cols., 2007). ção, a reflexão e a tomada de decisões
82 adquiriu um status de qualidade Nos processos abordados até o como a interpretação de rótulos nu-
nutricional. Todavia, para manter as momento, a incorporação de ácidos tricionais de alimentos e a realização
características de alguns alimentos, graxos trans ocorre pela ingestão de debates sobre alimentação ba-
a eliminação dos ácidos graxos trans de alimentos contendo essa classe lanceada e o consumo de alimentos
veio acompanhada do aumento do de compostos. Estudos recentes contendo ácidos graxos trans.
teor de ácidos graxos saturados, um indicaram a formação endógena de
indicativo da substituição dos ácidos ácidos graxos trans em ratos adultos Notas
graxos na formulação dos produtos alimentados com uma dieta isenta de 1. No metabolismo celular, os
(Gagliardi e cols., 2009). ácidos graxos trans, mas submetidos ácidos graxos são formados a partir
Costa e cols. (2006) relataram a condições de stress celular (Ferreri de grupos acetilas, unidades com
que avanços na tecnologia de ali- e cols., 2007). Para esse processo, foi dois átomos de carbono, daí a ocor-
mentos podem reduzir o conteúdo proposto um mecanismo radical livre, rência de ácidos graxos com número
de ácidos graxos trans em alimen- apresentado na Figura 4, sendo que par de átomos de carbono (Stryer,
tos, uma vez que modificações nas diferentes radicais, inclusive alguns de 1996; Solomons e Fryhle, 2006).
condições do processo de hidro- relevância biológica como os radicais 2. O termo gordura trans de-
genação podem contribuir para a tióis (RS•) e o dióxido de nitrogênio corre da ocorrência de insaturações
redução da formação desse ácido (NO2•), catalisam a reação de isome- trans na estrutura de um determinado
graxo. Tendo em vista que a hidro- rização (Chatgilialoglu e Ferreri, 2005; percentual de triacilgliceróis pre-
genação é um processo catalítico, Chatgilialoglu e cols., 2006). sentes na constituição da gordura.
Vigier e cols. (2009) destacam que Na literatura científica, os termos
diversos estudos visam à obtenção Considerações finais gordura trans e ácido graxo trans se
de catalisadores mais seletivos. Como se pode constatar, a diver- confundem, sendo tratados como
Na busca por alimentos isentos sidade de aspectos que envolvem os sinônimos por muitos autores. No
de ácidos graxos trans, outra possi- ácidos graxos trans e a alimentação presente artigo, optou-se por usar o
bilidade consiste na substituição da traz à tona uma série de questões termo ácido graxo trans.
hidrogenação pela reação de transes- que permeiam por várias áreas do
Fábio Merçon (mercon@uerj.br), formado em En-
terificação. Em função do reagente conhecimento. No tocante ao ensino
genharia Química e Licenciatura em Química pela
utilizado, a transesterificação por ser de Química, esse questionamento UERJ, doutor em Ciências em Engenharia Química
classificada em acidólise, alcóolise pode ser o elemento contextualizador pela COPPE/UFRJ, é docente do Departamento de
e interesterificação, que utilizam um de diferentes atividades didáticas Tecnologia de Processos Bioquímicos do Instituto de
ácido graxo, um álcool ou um éster, a serem desenvolvidas em sala de Química da UERJ e do Departamento de Ciências
respectivamente. Na Figura 3, é apre- aula. Muito mais do que um simples da Natureza do Instituto de Aplicação Fernando
sentada uma reação de transesterifi- exemplo da importância da isomeria Rodrigues da Silveira (CAP/UERJ).

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Abstract: What is a trans fat? The main components of oils and fats are triglycerides, molecules formed from glycerol and fatty acids that could be saturated or unsaturated. Although cis fatty acids
are thermodynamically less stable, they occur predominantly in nature, due to the stereospecificity of enzymes that act in the biosynthesis of lipids. During partial hydrogenation of vegetable oils,
occurs the isomerization reaction with formation of trans fatty acids (trans fat). Excessive intake of trans fatty acids leads to harmful health effects, mainly due to changing levels of cholesterol in
the body. Thus, it is recommended foods containing trans fatty acids. The approach of this theme in the classroom enables the promotion of a critical, contextual and interdisciplinary teaching.
Keywords: trans fatty acid, trans fat, cis-trans isomerism.

QUÍMICA NOVA NA ESCOLA O que é uma Gordura Trans? Vol. 32, N° 2 , MAIO 2010