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UM CASAL QUASE PERFEITO

The Rancher Takes a Wife

Sylvia McDaniel
1º livro da série dos Irmãos Burnett

Estados Unidos, 1874


A magia do amor verdadeiro...
Todos os moradores de Fort Worth estão convencidos
de que os poderes mediúnicos de Rose Severin são
genuínos. Isto é... todos menos Travis Burnett, que está
determinado a livrar a cidade de charlatões... Pelo
menos era o que ele gostaria até cair numa cilada
armada por sua própria mãe!

Eugenia decidiu que está mais que na hora de seu


primogênito encontrar uma esposa, e a jovem graciosa e
vivaz que se comunica com os mortos é a mulher certa
para amolecer o coração endurecido de Travis. Por meio
de um plano ardiloso, Eugenia consegue induzir o filho a
manter Rose na propriedade da família. E logo Travis
descobre que Rose é muito mais do que uma linda e
adorável impostora... Ela é, na verdade, a mulher dos
seus sonhos!

Sylvia Daniel realizou seu sonho de ser escritora quando a empresa de telecomunicações
onde ela trabalhava fechou as portas. A necessidade de ter uma ocupação profissional
induziu-a a dedicar-se com afinco à criação de histórias de amor, que já lhe renderam
indicações para prêmios e o cargo mais elevado na administração regional do Texas da
Associação de Romancistas da América.
"Os leitores vão se encantar com o romance de Travis e Rose, e com as peripécias e os
altos e baixos em que esses dois se envolvem enquanto descobrem o amor!"
- Romantic Times

"Sylvia McDaniel comprova, a cada nova história, seu incrível talento e sensibilidade para
escrever romances apaixonantes. Não se assuste se ao ler Um Casal Quase Perfeito
você perceber algumas faíscas saltando das páginas... É a poderosa atração entre Travis
e Rose, os fantásticos personagens que vão permanecer na sua lembrança por muito
tempo! Os diálogos são divertidos, a paixão é eletrizante, e o romance é simplesmente
maravilhoso!
- Escape to Romance

"Um Casal Quase Perfeito é um romance delicioso, a leitura ideal para alegrar a alma e o
coração!"
- Romance Communications

"Sylvia McDaniel tem o dom de enriquecer seus enredos com diálogos inteligentes e
divertidos e um clima de expectativa que captura o nosso interesse da primeira à última
página do livro. Seus personagens são realistas, e as descrições dos cenários são
vívidas, transportando o leitor para dentro da história."
- Leitora

Querida leitora,
Eu tenho a felicidade de reunir, no meu trabalho, o útil ao agradável, porque não consigo
imaginar uma atividade mais prazerosa do que ler romances. Cada história é única, cada
autora tem seu estilo e características próprias, e por isso mesmo, cada livro é especial e
maravilhoso. Algumas histórias são mais românticas, outras mais sensuais, algumas são
divertidíssimas, outras são dramáticas, algumas têm ação, suspense, mistério. Para mim,
todas são preciosas e trazem sempre uma novidade, uma idéia diferente, uma lição de
vida. Por exemplo, você consegue imaginar o que pode acontecer quando uma heroína
com poderes paranormais e um caubói lindo de morrer, que brigam feito cão e gato, se
descobrem perdidamente apaixonados um pelo outro?
Vire a página e confira!

Leonice Pomponio Editora


Sylvia McDaniel
UM CASAL QUASE PERFEITO
TRADUÇÃO Nathalie Alves

Copyright © 2000 by Sylvia McDaniel


Originalmente publicado em 2000 pela Kensington Publishing Corp.
PUBLICADO SOB ACORDO COM KENSINGTON PUBLISHING CORP
NY, NY - USA Todos os direitos reservados.
Todos os personagens desta obra são fictícios.
Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera
coincidência.

TÍTULO ORIGINAL: The Rancher Takes a Wife


EDITORA Leonice Pomponio
ASSISTENTE EDITORIAL Patrícia Chaves
EDIÇÃO/TEXTO
Tradução: Nathalie Alves
Copidesque: Thereza Frezza
Revisão: Giacomo Leone
ARTE Mónica Maldonado
ILUSTRAÇÃO Thomas Schliick
MARKETING/COMERCIAL Silvia Campos
PRODUÇÃO GRÁFICA Sónia Sassi
PAGINAÇÃO Dany Editora Ltda.

© 2007 Editora Nova Cultural Ltda.


Rua Paes Leme, 524 - 10g andar - CEP 05424-010 - São Paulo - SP
www.novacultural.com.br
Premedia, impressão e acabamento: RR Donnelley Moore
CAPÍTULO I

Texas, 1874

Rose Severin, jovem, bonita e sedutora estava determinada a tornar-se uma famosa atriz,
e brilhar nos palcos de Nova York. Enquanto esse dia não chegava, exercitava seu talento
encarnando uma personagem. Uma vidente que se comunicava com o mundo espiritual
dos mortos. A opção que encontrara para manter-se não era das mais dignas, porém
Nova York estava muito distante da pequena cidade de Fort Worth, no Texas, e seu
grande sonho ainda estava muito distante de se tornar realidade.
Naquele instante, via através da cortina que separava os dois cômodos o seu criado
negro, Isaiah, acomodar os clientes da noite que acabavam de chegar: uma jovem, uma
senhora, um cavalheiro elegante e um caubói de cabelos queimados pelo sol e pele
bronzeada. Uma beleza rústica que chamava a atenção de qualquer mulher.
Isaiah foi ao seu encontro e sussurrou:
- A sra. Florin, que se acomodará ao seu lado, perdeu a filha de doze anos, Sally, em um
acidente de carruagem. Deseja contatá-la e saber se ela está bem. A sra. North gostaria
de falar com o irmão que foi assassinado em um assalto a banco. Infelizmente ele estava
no local, no dia e hora em que o fato ocorreu, de acordo com as notícias do jornal. O
cavalheiro de terno marrom, sr. Thompson, disse muito pouco. O caubói, sr. Burnett, está
aqui para ter notícias do irmão.
- Burnett... Parece-me familiar. - Rose tentou lembrar-se onde tinha ouvido esse nome
antes.
- A mãe dele veio aqui essa manhã - lembrou-a Isaiah. - Era aquela senhora que queria
falar com o filho desaparecido, talvez durante a guerra. Não sabe se ele está vivo ou
morto.
- Ah sim! Agora eu me lembro. Ele quer mais alguma coisa além de notícias sobre o
irmão?
- Não disse.
- Vamos ter de descobrir então...
- Está pronta?
Rose jogou os cabelos escuros e ondulados para trás, ajustou o corpete do vestido e
alisou a saia rodada de estilo cigano. Respirou fundo e disse com o treinado sotaque
francês:
- Madame Desirée está pronta.
Isaiah saiu de trás das cortinas e dirigiu-se para o grupo que estava reunido ao redor da
mesa.
- Permitam-me apresentar madame Desirée Severin.
Rose segurou a saia e encarnou a personagem com estilo, fazendo uma breve mesura.
- Boa noite a todos - disse, puxando uma cadeira e sentando-se entre a sra. Florin e o
caubói.
Correu o olhar em direção aos quatro consulentes que tinham vindo procurar por seus
entes falecidos e tentou memorizar as informações de Isaiah. Madame Desirée oferecia
às pessoas a chance de aliviarem suas consciências, dizerem as palavras que queriam
ter dito, resolverem desentendimentos e, por um breve momento, sentirem-se próximas
de quem amavam.
Fosse qual fosse o motivo pelo qual tinham vindo procurá-la, teria de dar o máximo de si,
fazendo com que o dinheiro que lhes haviam pagado valesse a pena. Se seu trabalho
tinha o poder de fazer as pessoas sentirem-se melhor, então estava mais do que bem-
feito.
Abaixou a cabeça, fez uma breve concentração e depois, compenetrada, dirigiu-se a
todos:
- Alors, commençon - pausou dramaticamente traduzindo em seguida. - Então, vamos
começar.
Estalou os dedos, balançando as pulseiras em seu braço num gesto ensaiado. Isaiah
diminuiu a luz do lampião, deixando a sala quase na penumbra. Rose riscou um fósforo,
acendeu primeiro uma vela branca e, em seguida, uma mistura de incensos depositados
no incensário de cobre que estava sobre a mesa. Num instante o ambiente impregnou-se
de aromas delicados, um misto de benjoim e sândalo, compondo o ambiente daquela
noite.
- Fechem os olhos e dêem-se as mãos enquanto invoco os espíritos para que eles se
aproximem de nós e ouçam nossas súplicas - continuou com sotaque afrancesado.
Um elo invisível envolveu os presentes numa agradável atmosfera espiritual. Rose lançou
um rápido olhar para o caubói e percebeu que ele não estava concentrado, ao contrário,
ria baixinho.
Já havia lidado com pessoas assim antes, e sabia o que fazer. Apertou-lhe a mão com
firmeza, procurando intensificar a corrente de energia que havia se formado. Sentiu seu
olhar questionador, mas não lhe fez caso. Ergueu o rosto e dirigiu sua atenção aos
demais, dizendo em tom solene:
- Uma verdadeira plêiade espiritual está conosco aqui, esta noite. São espíritos evoluídos,
de muita luz que vieram dirigir esta sessão. Permitam-me, irmãos da espiritualidade, que
eu fale com os entes queridos dos presentes para aliviar suas dores e aflições - evocou
com voz firme.
Disfarçadamente, Rose levou um dos pés, descalço, para baixo da cadeira, até encostar a
sineta de metal. Segurando-a entre os dedos fez com que soasse três vezes. Soltou a
mão do caubói e a levou à testa, dando início ao contato espiritual.
- Oh... tão jovem. Tão trágico... Uma garotinha com tranças douradas vem em minha
direção, usando um vestidinho rosa. Sally... ela diz que se chama Sally.
A mulher a seu lado, foi tomada pela emoção.
- O nome da minha filha é Sally, mas seu cabelo era castanho, não loiro. Será mesmo
minha pequena Sally? Fale mais sobre ela, por favor. Ela está bem?
Rose ignorou o comentário da mãe sobre a cor dos cabelos da filha e continuou:
- Sally pede para que eu lhe diga que está com sua avó e que está bem. As duas sentem
saudades e estão aguardando o dia em que poderão reencontrá-la no outro plano.
A mulher começou a chorar.
- Graças a Deus ela não está sozinha! Graças a Deus ela está bem!
- Familiares geralmente se unem depois de mortos, na erraticidade - explicou Rose
fingindo estar profundamente emocionada. - Sinto agora a presença de um homem que
foi assassinado. Um homem de bem, morto em um assalto.
- Meu irmão! - disse a outra mulher sentada à mesa. Rose massageou suas têmporas,
num esforço de mais concentração. .
- O nome dele é Robert?
- Sim - respondeu a senhora, perplexa. - Como sabe?
- Ele me disse. Diz também que não deve se preocupar e nem chorar sua morte. Ele está
bem em companhia do avô.
- Mas meu avô ainda está vivo!
Rose teve um momento de pânico mas logo consertou:
- Eu quis dizer seu bisavô.
- Ah, nunca o conhecemos.
O caubói riu alto, o suficiente para que todos ouvissem. Rose irritou-se. Aquele homem
estava começando a causar-lhe problemas!
- Oh... o nome Burnett vem a minha mente. Alguém conhece Tanner Burnett?
- Eu - a voz grave veio de sua esquerda.
Era de novo o caubói. Até mesmo na penumbra, ela conseguia lembrar-se do homem alto
e musculoso, e olhos que pareciam mais perigosos que amigáveis.
- Tem certeza de que essa pessoa está morta? - ele perguntou. - Ele sumiu há mais de
dez anos!
Rose pôde quase sentir seu olhar penetrante e desconfiado.
- Eu o vejo em uma batalha. Há perigo a seu redor.
Ele bateu com o punho cerrado sobre a mesa, espalhando pequenas centelhas de
incenso sobre a toalha, fazendo com que todos se desconcentrassem.
- Mentira! A quem você pensa que engana? Farsante! Golpista! Não pode ver meu irmão!
- Monsieur. - Com os dedos do pé, Rose tocou novamente a sineta, sinalizando o fim da
sessão espírita. - O som da sineta indica que os espíritos foram embora - disse, por entre
os dentes. - Você desfez a corrente! Os espíritos nos deixaram e a sessão encerrou-se
por sua culpa!
Isaiah acendeu o lampião. Rose sentiu um arrepio percorrer sua espinha enquanto
encarava o olhar furioso do caubói. Em seguida, dirigiu-se imediatamente para os demais.
- Senhores, sinto muito, os espíritos não retornarão esta noite. Graças ao monsieur,
nosso encontro terminou mais cedo. Acontece às vezes, quando a corrente é desfeita.
Por favor, voltem outro dia e tentaremos fazer contato com seus mortos novamente. Sem
monsieur Burnett, naturalmente.
Ele riu sarcasticamente.
- Senhorita, se pode falar com os mortos, eu posso andar sobre a água! Só está
interessada em tomar o dinheiro das pessoas.
- Basta! - Rose fez sinal para que Isaiah apressasse seus clientes a sair. O negócio
estava indo bem. Queria evitar falatórios que depreciassem sua imagem. - Se não
acredita na comunicação com os espíritos, por que está aqui?
- Todos merecem um aviso, e aí vai o seu: - Ele levantou-se e contornou a mesa. – Não
organize mais essas sessões. Eu a proíbo! Ou se dará mal.
- Este é um país livre.
- Não para chantagistas.
- O senhor está completamente enganado.
- Pare de usar esse falso sotaque francês!
- Não posso! Sou francesa.
- Tenho certeza de que já andou muito por aí, mas aposto que nunca viu Paris antes. –
Ele mantinha a voz grave, decidida e insolente.
- Imbécile...
- Pare! Não creio em uma palavra do que disse.
- Pois deveria.
- Pode me chamar do que quiser, mas estou avisando: feche esta casa. Escolheu a
pessoa errada para tentar enganar, e não vai sair livre disso.
- E que pessoa é essa que supostamente tentei enganar?
- Minha mãe, Eugenia Burnett.
- Se sua mãe deseja saber o destino de seu irmão, não é uma escolha dela?
- Ela sente falta dele, e não deixarei que você se aproveite disso. Esta é a última vez que
lhe aviso: deixe minha mãe em paz, ou fecharei seu negócio.
- Monsieur! Se não quer que sua mãe procure por seu irmão, então fale com ela. Não
comigo! Além do mais, quem é o senhor? Por acaso tem autoridade para me ameaçar, ou
fechar meu negócio?
Burnett aproximou-se, sarcástico. Ela retraiu-se. A presença daquele homem viril, sem
dúvida a atraía, mas esse não era o melhor momento para deixar-se envolver. Precisava
permanecer na cidade e manter seu emprego. Não de um filhinho de mamãe que parecia
o diabo em pessoa. Tentador, mas ainda assim o diabo!
- Fecharei esta espelunca, num piscar de olhos. Meu irmão mais novo, Tucker, é o xerife.
Aguarde-me, senhorita.
O caubói ajeitou o chapéu na cabeça, enfiou os polegares no cinturão de couro e afastou-
se com passadas longas e decididas, deixando Rose com vontade de gritar de tanto ódio.
Quem ele pensava que era? Nenhum caubói, ligado ou não ao xerife, a faria sair da
cidade! Não agora que seu negócio estava dando certo!
Travis Burnett não podia acreditar que sua mãe estivesse freqüentando sessões espíritas.
Com qual intenção? Ela que sempre fora uma mulher tão racional... Uma mulher de
personalidade forte, determinada, se deixando levar de repente pelo desconhecido,
revelando uma fragilidade que não possuía. Iria interrogá-la e tirar essa história a limpo.
Atravessou o portão de sua casa de infância. Seu pai a construíra depois de amealhar
uma pequena fortuna vendendo gado texano. Encontrou a mãe no escritório, analisando
livros de contabilidade. Sentou-se em uma poltrona diante da escrivaninha, esticando as
longas pernas a sua frente.
Eugenia era uma mulher de ferro, sob um exterior dócil. Uma senhora gentil com uma
forte personalidade, determinada o bastante para ter vivido com seu pai por mais de
quarenta anos.
No entanto, desde o desaparecimento de seu irmão, havia dez anos, e a morte de seu
pai, tornara-se frágil, desprotegida.
- Você em casa tão cedo numa noite de sábado? - ela perguntou, sem levantar os olhos
dos papéis. - Que milagre é esse?
- Passei a noite em uma sessão espírita.
Eugenia levantou a cabeça e olhou para o filho admirada.
- Na casa da srta. Severin?
- É, da própria.
- É uma moça muito linda, não acha?
Travis inclinou-se para a frente, surpreso com o comentário.
- Como se envolveu com essa mulher? Por que está freqüentando seu estabelecimento?
- Muitas senhoras do meu grupo de costura estavam comentando sobre a vidência dela.
Decidimos ir conhecê-la. Você sabe que Katie McLaughlin perdeu o marido recentemente,
e a pobre coitada está...
- Mamãe! - disse Travis não querendo acreditar no quanto ria era ingênua.
- Ela está inconformada com a morte dele. Eram muito apaixonados e foram muito felizes
no casamento.
- Sinto muito por sua amiga, mas sabia que aquela mulher teve a petulância de me dizer
que viu Tanner esta noite?
Ela disse quase conformada.
- Bem, querido, vamos esperar que ela o tenha visto mesmo. De verdade. Desirée sabe
ler as mãos e as cartas de taro. As vezes tem também visões de pessoas vivas.
- Ela é uma farsante, mamãe. A senhora está perdendo tempo e jogando seu dinheiro
fora.
- Meu dinheiro foi muito bem gasto e não me arrependo. Principalmente se ela puder
ajudar a encontrar seu irmão. Desirée é uma pessoa muito agradável e atenciosa que
obviamente compreende o que sentimos quando se perde um ente querido.
Travis a encarava, incrédulo. Seu irmão fora um homem de forte personalidade, sem
dúvida, do qual todos sentiam falta. Mas dez anos haviam se passado e a família não
obtivera nenhuma notícia sobre seu paradeiro. Achava que sua mãe já havia aceitado a
perda, mas pelo jeito estava enganado.
- Pensei que você fosse se encontrar com Cecília esta noite. - Não mude de assunto,
mamãe. Sabe que não gosto dela.
- Realmente ela não é mulher para você, além de tímida, não tem charme. - Eugenia ia
direto ao ponto. - Diga-me o nome de uma mulher que você cortejou ultimamente com
real interesse, ou alguém que não está interessada somente em nossos bens. Travis
sorriu para a mãe. - Travis! Não é saudável para um homem trabalhar tanto quanto você
trabalha. Precisa se divertir mais, conhecer pessoas novas. Como vai encontrar uma
esposa desse jeito?
Travis respirou fundo para evitar mais uma discussão e deu-lhe a mesma resposta de
sempre:
- Estou muito ocupado com os negócios do rancho, no momento.
Eugenia o encarou por alguns segundos e suspirou.
- Você tem que admitir. A srta Severin é uma mulher muito bonita. Seria uma
companheira ideal.
Travis lembrava-se bem da moça. Atraente, sexy, tentadora, mas perigosa. Um
movimento em falso e ele se deixaria arrebatar por aquela mulher tão sedutora. Cabelos
castanho-escuros e ondulados, emolduravam-lhe um rosto de alabastro, um rosto de anjo.
Os olhos verdes, cor de esmeralda, sugeriam promessas secretas. O corpete vermelho,
de decote baixo, revelando a curva dos seios, o corpo escultural e a voz macia e
agradável enlouqueceriam qualquer homem.
Mas era cara, mais cara que as prostitutas de luxo de Molly Riley e, além disso, uma
impostora, uma vigarista que se aproveitava da boa-fé das pessoas.
Deu de ombros, tentando mostrar-se indiferente.
- Que diferença faz a aparência dela? É uma chantagista.
- Travis Burnett, tudo no seu mundo é preto no branco. Se tivesse nascido mulher,
entenderia o que ela faz pelos outros.
- O que ela faz? Parece-me que consegue seu dinheiro sem muito esforço.
- Um homem pode escolher como pretende ganhar a vida. Uma mulher, não? Ora, Travis,
ela é uma mulher de garra que fez sua escolha profissional. Não é como a maioria, que só
pensa em encontrar um bom partido e casar.
- Não acredito nela. Para mim ela é uma farsante, ou a senhora acredita mesmo que ela
possa ter visto Tanner?
Eugênia levantou-se, e ficou de frente para o filho.
- Não tenho certeza. Como posso ter? Gostaria muito que Tosse verdade.
- Sim ou não, mamãe?
- Lá vem você de novo, com tudo ou nada. Travis a encarava, irritado.
- Não posso desistir e aceitar o fato de que seu irmão está morto. Preciso tentar tudo que
for possível para encontrá-lo, até mesmo meios não convencionais.
Travis fez um sinal de negativa com a cabeça.
- Então contrate outro investigador. Mas não vá atrás de Desirée novamente. Ela só quer
tomar seu dinheiro.
- Pela primeira vez em muito tempo, senti esperança de encontrar Tanner. Faria o mesmo
por você, filho. Ainda sinto muito a falta dele.
- Todos sentimos, mamãe. Mas não vamos a sessões espíritas para tentar contatá-lo.
- Talvez devêssemos... Podíamos convidá-la para jantar. Se a conhecesse melhor, quem
sabe você teria outra opinião a respeito dela.
- Isso é loucura! A srta. Severin, se é que é esse o seu nome verdadeiro, confortou sua
amiga com mentiras, fingindo falar com os mortos. Tanner está morto ou estaria aqui
conosco. Ninguém pode falar com ele.
- Oh, Travis. Desde quando se tornou tão cético?
Ele levantou-se, sentindo pena da fragilidade de sua mãe.
- Não me leve a mal, mamãe. Só não quero ver ninguém se aproveitando da senhora.
Afaste-se da srta. Severin. É para o seu bem.
- Você é meu filho, não meu guarda-costas! – insistiu Eugenia.
- Não importa. Se procurar essa mulher de novo, vou falar com Tucker, e juntos, vamos
fechar seu negócio.
- Mas ela não está fazendo nada de mal. Está ajudando as pessoas. Por que não pode
compreender isso?
- Ela usa a dor dos outros para ganhar a vida. Aproveita-se das pessoas quando estão
vulneráveis.
- Mas...
Ele a interrompeu.
- Tucker está tentando colocar ordem na cidade, não hesitará em expulsá-la daqui. Não a
procure mais, mamãe.
Eugenia sonhava ter netos. Quase todas as suas amigas já eram avós. Seus filhos, Travis
e Tucker, no entanto, ainda não lhe haviam dado esse prazer. Aos trinta anos de idade,
Travis, o mais velho, não era nem casado.
Tinha fama de conquistador e parecia não estar muito preocupado em formar uma família.
Tanner estava desaparecido há mais de dez anos e a família não tinha notícias dele.
Talvez até estivesse morto. E Tucker, o xerife, depois de uma juventude irresponsável,
tinha finalmente voltado para casa. Até agora, nada de filhos, casamentos, esposas, nem
mesmo namoradas.
Eugenia estava disposta a fazer o impossível para ajudar seus filhos a encontrarem o
amor. Casarem e terem filhos, como era a ordem natural da vida. E a agradável srta.
Severin, que enfrentara Travis, seu filho autoritário, era exatamente o tipo de mulher que
ele precisava.
Alguém que saberia lidar com seu temperamento forte e machista. Uma mulher de
personalidade que não se deixaria dominar.
Decidida a isso, dirigiu-se novamente para a rua Jones. Ao abrir a porta do
estabelecimento, um sino anunciou a sua chegada e madame Desirée apareceu por trás
da cortina.
- Sra. Burnett! - admirou-se. - Precisa de alguma coisa?
- Precisamos conversar. - Havia algo tão familiar no rosto daquela jovem, algo que a fazia
lembrar de si mesma quando tinha a mesma idade. Uma empatia natural, que não sabia
explicar. Acreditava que ela seria uma boa esposa para seu filho.
- Sente-se, por favor. Mandarei Isaiah nos preparar um chá. Não tenho nenhum cliente
pelas próximas duas horas. - Desirée tomou-a pelo braço e levou Eugenia até a pequena
sala de estar.
- Obrigada, querida.
Desirée desapareceu novamente por trás das cortinas, e Eugenia pode, então, observar,
o pequeno lugar de trabalho da médium. Havia uma pequena mesa redonda no centro do
estabelecimento, coberta por uma toalha branca, com bordados no mesmo tom, que
chegava até o chão. Teve vontade de inspecionar mais a fundo o lugar onde aconteciam
as reuniões com os espíritos, saber de mais detalhes, mas conteve-se.
Afinal, estava ali para conhecer Desirée melhor, para ter certeza de que sua primeira
impressão fora correta.
Sem dúvida Travis saberia encontrar a companheira de sua vida. Afinal, era atraente,
charmoso e fazia muito sucesso com o sexo oposto. Mas sua prioridade no momento, não
era ter esposa e filhos. Gostaria que ele, bem como seus outros filhos, fossem felizes.
Faria de tudo para que isso acontecesse.
Desirée voltou para a sala, sorrindo, e sentou-se na poltrona diante dela.
- Sra. Eugenia! Estou surpresa por vê-la aqui hoje. Seu filho esteve aqui, anteontem, mas
creio que não acreditou nos meus dons espirituais.
- Eu sei. Foi por isso mesmo que vim falar com a senhorita. Não o julgue mal. É um
homem muito determinado, mas sua vida é dedicada apenas ao trabalho, ao rancho e a
nossa família.
- Então por que ele veio aqui?
- Desde que Tanner desapareceu, Travis tomou para si todas as responsabilidades
familiares. Ele só quis me proteger. Pensou que a senhorita estivesse se aproveitando de
mim.
- Sra. Burnett, estou aqui para servir os necessitados. Sei que a senhora deseja contatar
seu filho. Sinto muito, mas tudo o que vejo são imagens confusas de batalha.
- Eu sei, querida. Por um lado, fico até feliz que não tenha conseguido. Quem sabe ele
ainda esteja vivo.
- Sempre há esperança.
- Quanto a Travis, tem de admitir que se comunicar com os mortos é algo fora do comum.
Não são todas as pessoas que acreditam no além.
- Não escolhi esta profissão, sra. Burnett, ela me escolheu - disse Desirée em tom
decidido.
- Me conte mais sobre sua vida. Como começou a fazer contato com o mundo espiritual? -
quis saber Eugenia que estava interessada em conhecê-la melhor.
- Recebendo mensagens, ouvindo vozes, tendo intuições. Meu pai me disse, quando eu
era muito nova, que eu havia recebido um dom muito especial e que deveria partilhá-lo
com o resto do mundo, ajudando as pessoas.
Enquanto Desirée falava, Eugenia olhava ao seu redor. Ela devia estar falando a verdade.
Tudo ali era muito simples, próprio de quem não ganhava muito.
- Sua família aprova, sua profissão? - perguntou curiosa.
- Praticamente não tenho família. Minha mãe faleceu quando eu era muito pequena, e não
tive irmãos. A profissão de meu pai nos fazia mudar frequentemente, dessa forma não
criei vínculos familiares.
Nesse instante, o criado entrou, trazendo a bandeja de chá. Em seguida, retirou-se
deixando-as à vontade.
- Obrigada, Isaiah. Eugenia sentiu pena da moça. Estava sozinha no mundo, sem
ninguém que a amparasse, que a ajudasse.
- Venha jantar conosco em nosso rancho, um dia desses. Podemos tentar fazer contato
com Tanner novamente.
- Obrigada - disse Desirée enquanto servia o chá. Respirou fundo e tornou a falar. – Não
quero parecer ingrata, senhora, mas tem certeza de que seu filho gostaria que eu fosse?
- Bem, devo admitir que ele provavelmente não irá gostar, mas posso convidar meu outro
filho também.
- A senhora soube que o sr. Travis ameaçou fechar meu negócio?
- Sim, ele me disse. Até ameaçou envolver o irmão no caso, se a visitasse novamente.
Meu caçula Tucker é o xerife. Bem, o chá está ótimo, a conversa muito boa, mas está na
hora de eu ir embora. Travis poderá me surpreender aqui e não seria nada bom para seus
negócios.
- Não, sra. Burnett, por favor, sente-se. Não foi minha intenção insinuar que deva ir
embora. Apenas acho que não é uma boa idéia organizar uma sessão espírita em sua
casa. Seu filho não gosta de mim.
- Travis acha que a senhorita esteja enganando as pessoas para tomar-lhes dinheiro. Mas
que lugar melhor do que a minha própria casa para contatar Tanner?
- Quando não se acredita no poder espiritual, fica difícil compreender o porquê.
- Não se preocupe com Travis. Ele não irá fechar este lugar. Não, se eu puder evitar.
Agora, realmente preciso ir, antes que ele saiba que estive aqui. - Eugenia levantou-se
acompanhada de Desirée. - Até breve, querida. Quero muito encontrar meu filho.
Despediram-se. Ao atravessar a rua, Eugenia surpreendeu-se ao deparar com Tanner
que estava encostado numa pilastra, com ar de reprovação.
Sentada à mesa da cozinha, Rose tomava seu chá. A sessão da noite anterior havia sido
cansativa, e nada melhor para relaxar do que saborear o delicioso chá de Isaiah. Uma
combinação perfeita de folhas silvestres servida com rodelas de laranja, que somente ele
sabia preparar.
- Quer que lhe prepare a refeição matinal, srta. Rose? – disse depois de servi-la.
- Não, obrigada. - Isaiah sempre a chamava por seu verdadeiro nome.
- Senhorita, preciso deixar a cidade por alguns dias.
- Aconteceu alguma coisa, Isaiah? - ela surpreendeu-se com o pedido.
- Recebi um telegrama hoje cedo. Meu pai não está nada bem. Preciso ir visitá-lo. Não
ficarei muito tempo longe, não se preocupe. Meu pai mora a menos de um dia de viagem
daqui. Voltarei antes do fim de semana. Tudo bem para a senhorita?
- Naturalmente que sim. Os primeiros dias da semana são mais tranqüilos, não temos
tantos clientes. E depois, você sabe que é livre para ir e vir. - Isaiah era seu protetor, seu
amigo. Sua mãe lhe dera alforria quando ele ainda era pequeno.
- Eu sei, mas minha vida é aqui, com a senhorita.
- Obrigada, Isaiah. Você foi sempre um servidor fiel. Quando mamãe vivia, seu trabalho
devia ser mais interessante. Freqüentando os palcos, acompanhando-a, você teve
oportunidade de conhecer gente famosa. Agora, comigo...
- Ao contrário, srta. Rose. Essas sessões espíritas fizeram-me conhecer um novo mundo.
Estou feliz com as coisas do jeito que estão agora.
- Você precisa ter mais cuidado ao me chamar pelo meu verdadeiro nome, Isaiah. Receio
que um dia desses, você o deixe escapar na frente de algum consulente.
- É difícil chamá-la por aquele nome francês, senhorita.
- Talvez seja, mas os clientes gostam. Uma mulher francesa nesta região do país é algo
raro, deixa todos curiosos.
- Entendo.
- Além do mais, atrai fregueses. E precisamos deles. - Rose pensou uns instantes na mãe
que perdera tão cedo e depois tornou: - Pode ir, Isaiah. Vá ver seu pai. Mas tente voltar
antes do fim da semana, pois haverá muitos clientes para atender. Logo teremos de nos
mudar para outra cidade, é melhor que visite sua família enquanto pode.
- Obrigada, srta. Rose. E muito cuidado enquanto eu estiver longe. Sua mãe pediu-me
para protegê-la, e pretendo permanecer fiel a minha promessa.
- Já se passaram quase vinte anos, Isaiah. Pode tirar alguns dias de folga de sua
promessa - disse num tom de brincadeira.
- Sua mãe foi boa comigo, e eu lhe dei minha palavra. A senhorita fique quietinha por aqui
alguns dias. Até que eu volte.
Ela assentiu, sorrindo.
Depois do almoço, como costumava fazer sempre, Rose saiu para um passeio pelos
arredores. Havia chovido durante a noite e novas florações silvestres tinham surgido de
uma hora para outra, junto aos rebordos de pedra. Aspirou o cheiro bom e tomou o
caminho que levava ao bosque. Caminhava feliz, a mente cheia de recordações, umas
boas, outras nem tanto. Uma profunda sensação de paz e esperança a envolveu,
fazendo-a acreditar que nessa cidade, ela e Isaiah, seriam felizes, e que algo muito
especial estava por acontecer. Algo que mudaria sua vida.
Sentada à mesa de trabalho. Rose encarava os dois caubóis e a mulher que pareciam ter
vindo do saloon da srta. Riley. Nunca tinha organizado uma sessão sem Isaiah, e essa
não estava indo nada bem.
- Apague seu cigarro, senhor - disse Rose a um deles em tom severo.
- Por que a senhorita continua a dizer essas belas palavras estrangeiras? Eu e meu
amigo não viemos aqui para isso. O que queremos, belezinha, é passar algum tempo com
você - disse o insolente caubói, depois de cutucar o amigo com o cotovelo.
Rose ignorou o comentário vulgar e a desconhecida que entrou na conversa, dizendo
exaltada:
- Espere aí! Eu já paguei para poder falar com meu pai.
- Por favor... Peço que tenham mais respeito! Aqui não é lugar para discussões. Onde
pensam que estão? - Rose fez uma pequena pausa e continuou: - Podemos começar?
Em seguida, bateu palmas três vezes e o garoto que tinha contratado para ajudá-la,
diminuiu a chama do lampião. Respirou fundo e continuou com voz firme e autoritária.
- Dentro de alguns momentos, vamos entrar em contato com os espíritos. Não levem isso
como uma brincadeira. Dêem-se as mãos, e concentrem-se com respeito para formarmos
uma corrente de energia.
Enquanto o círculo se formava, Rose acendeu a vela branca e a mistura de incensos.
Fechou os olhos e fingiu concentrar-se. Quando sentiu que todos estavam envolvidos no
clima de magia, tocou a sineta com o pé descalço fazendo-a soar três vezes. A seguir
iniciou a sessão.
- Vejo um senhor de idade que se aproxima...
Batidas na porta interromperam de repente o pesado silêncio, fazendo com que ela saísse
de seu falso estado de transe. O garoto atendeu. Um homem com um distintivo no peito
passou por ele e entrou no estabelecimento. Só poderia ser Tucker Burnett, o xerife. Era
parecido com Travis, tinha o mesmo porte físico, embora seus cabelos fossem mais
escuros e seu olhar bem mais amigável que o do irmão.
Rose levantou-se devagar, cumprimentando-o com um sorriso.
- Entre, xerife. Paul, acenda o lampião, para que possamos ver nosso visitante com mais
clareza - disse dirigindo-se para o garoto.
Surpresa, viu Travis Burnett entrar atrás do irmão com um sorriso petulante estampado
nos lábios.
- Sr. Burnett, que prazer! Veio para outra sessão? Travis aproximou-se e disse em voz
baixa:
- Srta. Severin, se depender de mim, daqui em diante, só irá fazer sessões com o diabo.
- Acho que já estou diante dele - retrucou Rose com ironia. Travis apenas sorriu, fazendo
com que ela se sentisse mais nervosa.
O xerife pôs-se a caminhar pela sala, inspecionando tudo, remexendo até as cartas de
taro, como se estivesse procurando alguma coisa.
- Srta. Severin, como descobriu esse dom, para falar com os mortos?
Rose lembrou-se da sineta e um frio percorreu-lhe a espinha.
- Nasci com ele, senhor. É um dom de família - mentiu. Tucker dirigiu-se para o grupo que
observava a cena, incrédulo.
- Vocês não têm nada melhor para fazer?
- Sim, senhor. - Os caubóis levantaram-se de uma só vez, respeitando a autoridade
policial e saíram apressados.
- Mas e a nossa sessão? - insistiu a desconhecida, indignada. - Eu já paguei!
- Volte amanhã, querida - sugeriu Rose, tentando contornar a situação, mas feliz por ver-
se livre daquele grupo.
- E os espíritos? Irá livrar-se deles mandando-os para fora da cidade na última diligência?
- perguntou Travis com desdém.
- Os espíritos não precisam de uma diligência. Estarão sempre aqui.
- Ah, sei. E eu sou um santo. E agora me diga. Onde esconde a sineta?
- De que sineta está falando?
- Parece que a senhorita não quer facilitar as coisas. Rose deu de ombros.
- E por que deveria? Nem sei o porquê dessa visita.
- Isso não cabe a mim, cabe ao homem da lei. O xerife interveio.
- Onde está seu criado, srta. Severin?
- Isaiah foi visitar a família. Enquanto isso Travis circundava a mesa.
- Ouvi um som abafado de sineta na primeira vez que estive aqui. Junto a esta mesma
mesa - ele insistiu.
- Não encontrará nenhuma sineta, sr. Burnett, pois são os espíritos que a tocam, para
anunciar que chegaram ou que partiram. Não eu.
- Pensei que eles estivessem sempre aqui - ele zombou.
- E estão. Mas só entram em contato comigo quando tocam a sineta.
Travis a encarou incrédulo.
- Uma coisa é certa, a senhorita definitivamente não é de desistir. Já a teria mandado
expulsar da cidade desde a primeira vez que estive aqui.
- E por qual motivo?
- E a senhorita ainda pergunta?
O xerife levantou a toalha branca que cobria a mesa e olhou embaixo dela.
- O que está procurando, xerife? Ficaria feliz em poder ajudá-lo - disse Rose sentando-se
disfarçadamente na cadeira por baixo da qual estava a sineta.
Ele colocou a toalha no lugar, e olhou-a com firmeza.
- Meu irmão a está acusando de fraude. Alega que tentou enganar nossa mãe. Ela já
sofreu muito com o desaparecimento do meu irmão, Tanner. Não quero que a faça sofrer
mais, srta. Severin.
Rose voltou-se, encarando Travis. Ele se apoiava a uma parede, os braços cruzados, os
olhos frios, desafiadores.
- Por que a faria sofrer? Faz algum tempo que não vejo sua mãe. - Lembrou-se então da
breve visita que ela lhe fizera na outra manhã e empalideceu.
- Está mentindo.
- Não, não estou. De fato ela veio me procurar. Queria conversar, mas não falamos de
seu irmão. Nem mesmo cobrei a consulta. Foi somente uma visita social.
- Eu a avisei para ficar longe dela.
- Foi ela que veio me procurar, sr. Travis! O que queria que eu fizesse? Que a pusesse
para fora?
O xerife interrompeu-os.
- Vou prendê-la por fraude, srta. Severin.
- Por quê? Só dou a meus clientes o que eles pedem! Uma chance de curar suas feridas
emocionais. De falar mais uma vez com aqueles que amam. Foi sua mãe que me
procurou, não eu! - insistia ela cada vez mais nervosa.
- Prendi um grupo de mulheres de vida fácil, por muito menos do que isso.
- Sou uma vidente apenas. Comunico-me com os mortos. Como isso pode fazer mal a
alguém?
- E eu cuido de uma cadeia para inocentes - respondeu o xerife em tom sarcástico. – A
senhorita é uma verdadeira atriz! Uma das mais ardilosas que já conheci!
- Como ousa! O senhor não tem provas contra mim - disse Desirée, levantando-se num
ímpeto.
Travis inclinou-se para a frente e empurrou a cadeira em que ela esteve sentada para
baixo da mesa. A sineta rolou pelo chão com um barulho peculiar. Travis agachou-se
esticou o braço e levantou-se sorrindo.
- E isto aqui o que é? Não é a sineta? Parece que os espíritos a esqueceram de levar.
Rose sentiu a fúria dominá-la.
- Engana-se, senhor. Esta sineta é para chamar os criados - disse ainda numa última
tentativa.
- Ela está mentindo, Tucker. Pode prendê-la.
O xerife segurou-a pelo braço e a empurrou porta afora.
- A cadeia, não! Nunca estive presa antes! Prefiro que me expulse da cidade.
Travis ficou a sua frente, e ergueu-lhe o queixo com dois dedos.
- É para onde deve ir gente da sua espécie, que engana senhoras idosas com suas
mentiras ditas com sotaque francês. Espero que aprecie sua estada na cadeia de Fort
Worth.
Rose estapeou-lhe o rosto.
- Espéce de idiot! Travis deu uma gargalhada.
- E de que nome agradável está me chamando agora? Rose ergueu atrevidamente o
rosto.
- Chamei-o de "idiota".
O xerife riu e a segurou pelo braço.
- Vamos, srta. Severin, o cárcere a aguarda. Rose olhou para trás, fulminando Travis
Burnett.
Rose olhou através das barras de ferro que a enclausuravam, tentando afastar o pânico.
Estava junto com mais quatro mulheres. Era um lugar deplorável. As paredes estavam
sujas e descascadas e o ar parado a nauseava. Entre os catres havia uma banqueta
tosca de madeira e sobre ela uma bacia com água. Mal podia acreditar que estava ali,
naquele lugar horrível. Com ódio, seu pensamento era um só: Travis Burnett! Aquele
bastardo! Covarde!
Mandar prendê-la só porque sua mãe a visitara. Por uma simples visita! Mal podia esperar
para sair dali e lhe dizer sem preâmbulos ludo o que pensava a seu respeito e a respeito
de seu irmão, aquele soberbo com distintivo de latão e uma cadeia que mais parecia um
chiqueiro!
Quanto tempo teria que ficar ali até encontrar Travis e saciar sua sede de vingança? Não
fizera nada à sra. Burnett. Absolutamente nada. Tinha dois dias pela frente, antes de
Isaiah chegar. O que fazer até lá? Perguntou-se andando de um lado para outro da cela,
como uma leoa enjaulada.
- Querida, sente-se. Irá abrir um buraco em seus sapatos sem chegar a lugar nenhum -
aconselhou a loira, uma das mulheres com quem dividia a cela.
- Não posso - disse inconformada. - Não fiz nada para a sra. Burnett e aquele bastardo
me coloca aqui.
- A qual dos dois Burnett se refere, querida? Conheço-os muito bem.
Uma outra mulher que estava deitada falou:
- Se é homem, que diferença faz?
- Ah, Henrietta, nem todos os homens são ruins. Alguns podem ser muito bons - tornou a
loira.
- Desde que se faça o que eles querem, naturalmente.
- Não ligue para ela, moça. Diga-me, quem a colocou aqui - quis saber a loira.
- Travis Burnett.
- Ah, conheço! Esse é um caubói que eu deixaria dormir de botas em minha cama - disse
rindo. - Mas é um homem difícil. E além de tudo tem a lei ao seu lado.
- Concordo numa coisa. É um homem difícil.
- O que foi que você lhe fez.
- Nada! Ele me avisou para ficar longe da sua mãe, mas ela me procurou. Ela veio a
minha casa. E agora ele me acusa de mistificá-la.
- Os homens nesta região são bastante protetores em relação às mulheres de sua família.
- Mas eu não fiz nada!
- Isso não importa. Ele vai proteger o que é seu. Eu adoraria ter um homem que me
protegesse assim.
Outra mulher que estava sentada no catre, voltou-se para a loira.
- Betty, um homem como ele jamais olharia para alguém como você. É por isso que ele
não se casou até hoje.
- Desculpe querida, mas ele já olhou para uma mulher como eu, sim. Antes de seu irmão
tornar-se xerife, ele costumava visitar Belinda, uma colega de profissão.
- Isso é diferente. Ele usa as mulheres apenas para seus prazeres. Como todos os
homens, aliás.
Rose encarou-as.
- Isso pouco me importa. O que importa é que ele acabou com meu negócio. - Rose
engoliu as lágrimas que ameaçavam explodir a qualquer momento. - As coisas estavam
indo tão bem... Logo teríamos o suficiente para irmos a Nova York. Em vez disso, estou
presa nesta cela!
Henrietta levantou-se, oferecendo-lhe um lenço.
- Não se preocupe querida, vai ficar tudo bem.
Um homem gritou de alguma cela no final do corredor:
- Ei, moça, eu me caso com você se me deixar usar as botas.
- Só se eu puder bater em você com meu chicote de espinhos - Henrietta gritou de volta. -
A propósito, por que os homens ficam em celas separadas enquanto nós, mulheres,
temos que ficar amontoadas em uma só? Não é justo.
- Quem lhe disse que as mulheres são tratadas com justiça, aqui? - disse uma quarta
mulher que também dividia a cela com elas.
De repente a porta do corredor se abriu.
- Silêncio aí dentro!
Rose voltou-se para o xerife que acabava de chegar.
- Por que devemos fazer silêncio? Não pedi para estar aqui. As acusações que fizeram
contra mim são falsas.
O xerife afastou-se ignorando sua reclamação.
- É a primeira vez que a prendem? - perguntou Henrietta.
- Sim, é.
- E de que foi acusada, srta...?
- Desirée Severin. De fraude.
- É a vidente que faz as sessões espíritas e que lê cartas?
- Sim, sou eu mesma. Betty sorriu.
- Precisamos de algo para passar o tempo. Henrietta, trouxe suas cartas?
- Não, não trouxe.
Rose voltou-sé para o grupo de mulheres e começou a explicar:
- O sr. Tucker e seu irmão, o sr. Travis, interromperam uma sessão espírita e me
prenderam. Foi horrível! Agora estou aqui, sem saber o que fazer.
- Enquanto isso, podíamos passar o tempo - comentou Henrietta. - Não gostaria de
realizar uma de suas sessões aqui?
- Ótima idéia! - Betty levantou-se rindo. - Tucker Burnett não vai gostar nem um pouco
disso.
- Realmente. O xerife não ficará nem um pouco satisfeito em saber que estou falando com
os mortos em sua cadeia.
- É uma ótima razão para que o faça.
Rose deixou a raiva e as preocupações de lado.
- Formem um círculo, dêem-se as mãos e fechem os olhos.
- Vamos descobrir quem morreu nesta cela? - Betty sugeriu. Rose começou a entrar em
transe.
- Espíritos de luz, ouçam nosso chamado. Venham até nós para que possamos nos
comunicar com espíritos que por aqui estiveram...
- Xerife! - gritou o homem, batendo sua caneca de metal nas barras da cela. – Faça com
que elas parem ou me tire daqui! Estão fazendo magia!
Tucker Burnett abriu a porta e foi até as celas.
- Mas o que está acontecendo aqui? Rose sorriu.
- Gostaria de se juntar a nós, xerife? Estamos tentando entrar em contato com os
espíritos em sua cadeia.
- Não se atreva a fazer isso, senhorita.
- Por quê? Não acredita mesmo que eu possa falar com os mortos?
Tucker franziu a testa, irritado.
- Não quero problemas por aqui. A senhorita está virando a prisão de pernas para o alto!
- Então me solte.
- Não posso. E pare imediatamente com esse ritual!
- Venha aqui xerife e me dê sua mão - pediu Rose com voz macia.
- Para quê?
- Apenas me dê sua mão.
Relutante, ele lhe obedeceu. Rose virou-lhe a palma da mão para cima e com o dedo
indicador, acompanhou o desenho das linhas. Soltou-a então, dando um passo para trás.
- O que foi? - perguntou o xerife.
- O senhor tem um passado conturbado, mas seu acerto de contas virá logo. Prepare-se.
- Está tentando me assustar? Rose olhou-o fixamente.
- Seu testamento está pronto?
Por um momento ele a encarou sem falar. Ela o apanhara de surpresa.
- No momento, não estou preocupado com isso.
- Talvez devesse estar.
- Isso não funciona comigo, srta. Severin. Preciso ir.
Ao vê-lo se afastar rapidamente, as mulheres caíram na gargalhada. Inclusive Rose.
Instantes depois, refeita da brincadeira, tornou a ficar pensativa. Se tivesse dado ouvidos
a Isaiah e esperado por seu retorno, nada daquilo teria acontecido. Mas a necessidade de
conseguir dinheiro para a viagem a forçara a trabalhar. Agora não sabia nem por onde
começar. Como iria sair dali? Não restava outra alternativa se não esperar Isaiah.
Cerca de uma hora depois a porta abriu-se e o xerife tornou a aparecer.
- Srta. Severin, sua fiança foi paga. Rose levantou-se rapidamente.
- Paga? Por quem?
- Pegue suas coisas e saia - ele a aconselhou, enquanto abria a porta da cela.
- Liberdade! - gritou esfuziante. - Adeus, garotas.
- Boa sorte, srta. Severin.
O xerife acompanhou-a, até a porta do escritório. Rose esperava encontrar Isaiah, mas
estacou de repente ao deparar-se com Eugenia Burnett que vinha ansiosa em sua
direção.
- Querida! Vim assim que soube. Não achei que eles fossem prendê-la. Sinto muito. A
senhorita está bem?

CAPÍTULO II

- Oh, sra. Eugenia! A senhora pagou a minha fiança. Obrigada, muito obrigada! O xerife
olhava de uma para outra e entrevendo que Travis não iria gostar nem um pouco quando
soubesse que Rose já estivesse em liberdade, aconselhou-a:
- Travis ainda não sabe que está em liberdade. Sugiro que pegue a próxima diligência
para fora da cidade e desapareça o mais rápido que puder. A partida é ao meio-dia. - Ele
consultou o relógio - Tem menos de uma hora, senhorita.
Rose abraçou a sra. Burnett e agradeceu-lhe mais uma vez.
- Obrigada. Não sei como retribuir tanta gentileza. Agora é necessário que eu me apresse.
Tenho pouco tempo, não posso perder a próxima diligência. - Rose dirigia-se para a porta
de saída quando a mãe do xerife tornou a dizer:
- Espere, querida.
- É melhor que não me vejam com a senhora. Seu filho mandou me prender apenas por
termos conversado. Já imaginou o que ele faria se soubesse que a senhora pagou a
fiança? Não quero nem pensar.
- Não se preocupe com Travis, querida.
- Como não? A senhora não ouviu o xerife? - Rose afastou-se nervosa e apressada só de
pensar em ser presa novamente.
Uma enxurrada de pensamentos bombardeavam sua mente. Ia pelo caminho, em direção
ao seu estabelecimento pensando: O que havia feito para deixar a cidade? Algumas
sessões espíritas e nada mais. Ir embora sem Isaiah... Não podia se conformar! Se ao
menos tivesse tido tempo para confrontar Travis Burnett, aquele covarde! Iria amaldiçoá-
lo pelo resto de seus dias! E de preferência, em francês!
- Srta. Severin, por favor, vá mais devagar! - suplicava uma voz esbaforida atrás dela.
Rose voltou-se para trás e diminuiu a marcha ao perceber que a sra. Burnett fazia força
para acompanhá-la.
- Agradeço muito sua ajuda, mas preciso fazer minhas malas e tomar a próxima
diligência. Não tenho um minuto sequer a perder. Sinto muito, sra. Eugenia - disse-lhe e
voltou a caminhar apressadamente.
- Vá por mim, srta. Severin. Não precisa deixar a cidade.
- A senhora está zombando de mim? Acha que eu gostei de ficar naquela cela imunda?
- Claro que não, querida. E sinto muito. Mas o fato é que eu tenho um convite a lhe fazer.
Mude-se para meu rancho. Poderá montar seu negócio lá também. Estará a salvo
comigo, não se preocupe.
Rose estacou, perplexa. Depois, começou a rir.
- Que tipo de jogo é esse, sra. Burnett? Acha que eu me mudaria para seu rancho?! Nem
por decreto! Seu filho não iria permitir!
- Travis é um bom homem. Ele apenas se preocupa com os que ama, esse é o seu mal.
- Isso não faz sentido. A senhora é muito gentil, mas seu filho não me quer por perto. Por
que a senhora acha que ele permitiria que eu vivesse com sua família?
- Srta. Severin, entendo que esteja aborrecida. Meus filhos a trataram muito mal. Mas,
embora não pareça, eles são muito bons. Travis é um pouco teimoso, mas tenho certeza
que quando vier a conhecê-la melhor, verá o que eu vejo...
Rose não se deu ao trabalho nem de olhar para ela, continuou a andar apressadamente,
não via a hora de sumir dali.
- E o que a senhora vê, além de uma mulher descontrolada que acabou de perder seu
negócio e que agora é obrigada a deixar a cidade?
- Vejo uma mulher forte, gentil e bondosa, que teve de abrir caminho à sua própria custa.
Toda a energia que Rose usava para se fazer de forte desvaneceu-se de repente.
- Isso é a coisa mais gentil que já disseram sobre mim. Obrigada, sra. Burnett.
- Meus filhos estão querendo apenas me proteger. E para isso querem me afastar da
senhorita.
- Pode me chamar de você, sra. Burnett.
- Obrigada.
Rose abriu a porta de sua casa e a convidou para entrar.
- A senhora é muito boa. Mas poderá me proteger de seus filhos?
- Direi a Travis e Tucker que não importa quantas vezes eles a prenderem, tantas eu irei
soltá-la. Apesar de homens feitos, eles ainda respeitam minha autoridade de mãe.
- Por que está fazendo isso?
- Quero saber o que aconteceu com meu filho, Tanner. Ele alistou-se no Exército e nunca
mais retornou.
Rose compadeceu-se dela. A sra. Burnett estava realmente interessada em saber do
paradeiro do filho. Mas estaria de fato ele em outro mundo? Fosse como fosse, não podia
ajudá-la.
- Não posso ajudá-la.
- Por que não?
Rose olhou para a senhora e para o relógio. O tempo passava. Ajudar Eugenia,
significaria arriscar a própria pele. Seu trabalho era uma farsa. Tudo o que desejava
agora, era apanhar aquela diligência.
- Sinto muito. Não vou pôr em risco minha liberdade. - Decidiu e foi para o quarto.
Apanhou o baú e pôs-se a colocar nele seus pertences.
- Desirée, estou lhe pedindo pela última vez. Ajude-me a entrar em contato com Tanner.
- O fato é que não me dou bem com seu filho Travis.
- Você tem razão. Ele leva a vida muito a sério. Precisa aprender que a vida não é só
trabalho e sacrifício. Também os prazeres devem ser levados em conta.
- Não pretendo nem chegar perto de seu filho. Não, depois do que ele me fez. Estou indo
para San António e de lá, espero tomar um trem para Nova York - disse-lhe Rose
continuando a guardar suas roupas no baú.
- Travis teve de se tornar forte muito cedo e as mulheres não conseguem enxergar o lado
bom dele.
- Tenho certeza que sim. Mas não quero me arriscar. Eugenia deu a volta em torno do
baú enquanto observava
Desirée arrumar seus pertences. Não importava o que dissesse, ela estava determinada a
partir.
E se realmente deixasse a cidade, Eugênia perderia a chance de aproximá-la de seu filho.
Apenas Desirée Severin parecia ter chamado a atenção de Travis. Conhecia bem seu
filho e sabia que a jovem o atraía. Ele precisava de alguém que lhe ensinasse a viver a
vida de uma forma diferente. Sabia que Desirée seria a única mulher que não se deixaria
intimidar por sua personalidade forte e dominadora. Ela só estava partindo por medo de
voltar à prisão.
- Tem certeza de que não há nada que eu possa fazer para que fique?
- Para ser presa novamente? Sinceramente, não. - Rose inclinava-se para ajeitar alguns
lençóis no baú.
Eugenia olhou para o anel de brilhantes em seu dedo e lembrou-se da promessa que
fizera ao marido. Casar todos os seus filhos. Em seguida olhou para Desirée. Tinha de
descobrir uma maneira de persuadi-la a ficar. Respirou fundo e tentou raciocinar com
clareza. Uma idéia veio-lhe à mente. Não era muito digna, mas como diziam que os fins
justificam os meios, não valeria a pena tentar?
Rose acabou de arrumar seus pertences e continuou:
- Sra. Burnett, espero que descubra logo o que realmente aconteceu com seu filho,
Tanner. E desejo sinceramente que Travis encontre uma mulher que o faça feliz.
- É o que eu também mais desejo - respondeu Eugenia caminhando até a porta.
Precisava sair dali o mais depressa possível, se quisesse colocar seu plano em prática.
Talvez tudo o que Travis precisava era de um pequeno empurrão na direção certa.
- Já que não consigo convencê-la, só resta me despedir. Espero tornar a vê-la um dia, e
que esse dia seja breve.
Despediram-se com um forte abraço. Eugenia saiu, tirou rapidamente o anel e o colocou
em sua bolsinha. Se Deus quiser, esse plano vai funcionar.
- A senhora não só pagou a fiança como a deixou ir embora? - perguntou Travis perplexo
com o que acabava de ouvir. - A moça é uma trapaceira, mamãe!
- Eu não sabia, Travis. Juro que não sabia! A srta. Severin me pareceu sempre uma moça
de bem. - Eugenia tirou o lenço do bolso e fingiu secar as lágrimas. - Só notei que meu
anel havia sumido quando cheguei em casa. A essa altura, não havia mais nada que eu
pudesse fazer.
- O anel que papai lhe deu? Está sem ele agora? Eugenia assentiu e suspirou.
- Meu anel de brilhantes... Mal posso acreditar! Travis enrubesceu de cólera.
- Vou estrangulá-la com minhas próprias mãos! Ah, se vou!
- Não, Travis. Nada de violência. Não vale a pena. Encontre o anel, é só isso que eu lhe
peço.
- Porque a senhora não estava usando o anel, mamãe?
- Minhas mãos ficaram um pouco inchadas por causa do calor, e eu o tirei. Ela deve ter
revirado minha bolsa.
- Eu a avisei para se afastar daquela mulher. Se tivesse me ouvido, nada disso teria
acontecido.
Tucker, que estava junto com eles na cozinha virou-se para o irmão.
- Eu tentei impedir a mamãe de pagar a fiança. Mas ela não quis me ouvir.
- Eu quis dar uma chance à srta. Severin. Pensei que ela fosse uma boa moça -
desculpou-se a sra. Burnett.
Travis apanhou seu chapéu.
- É melhor que eu me apresse, ou não vou alcançar a diligência.
- Vou com você - disse Tucker.
- Não, é melhor que fique. É um caso delicado. Pode demorar algum tempo até que se
resolva.
E depois você não pode se afastar da delegacia.
- A que horas partiu a diligência? - perguntou Travis para a mãe.
- Fui averiguar. Ao meio-dia. Com destino a San António, e parada numa hospedaria
próxima a Waco.
- Por que não mandou me chamar antes? Agora é tarde demais. Só os alcançarei à noite.
- Eu estava nervosa. Não sabia como contar o fato a vocês. - Eugenia levou novamente o
lenço ao rosto.
- Calma mamãe, não se desespere. Trarei seu anel de volta, ou não me chamo Travis
Burnett!
- Não se preocupe com o rancho, meu filho. Leve o tempo que for necessário e, por favor,
não seja muito duro com a moça.
- Ela roubou seu anel de casamento e a senhora ainda se preocupa com ela?
- Ela deve ter tido seus motivos para agir assim.
- Não há bons motivos para roubar, mamãe.
Já era noite quando Travis dirigiu-se para a única hospedaria, próxima a cidade de Waco.
Ao entrar foi logo perguntando.
- Onde está ela? Onde está a mulher de sotaque afrancesado?
- Quem, senhor? - perguntou o proprietário, intrigado.
- A mulher francesa - insistiu Travis, nervoso.
- Havia apenas uma mulher na diligência. Destinei-lhe o quarto do fim do corredor. Mas vá
com calma, senhor. Não queremos escândalos por aqui.
- Não se preocupe, serei breve e discreto.
Travis percorreu o corredor com largas passadas, e nem se deu ao trabalho de bater na
porta. Abriu-a com um pontapé, surpreendendo Rose, que vestia apenas o corpete e as
roupas de baixo. Seus ombros estavam expostos, bem como o começo dos seios.
Num reflexo, ela apanhou o vestido que estava sobre a cama e tentou cobrir-se da melhor
maneira que pôde. Depois o fitou, já prevendo o que iria acontecer.
- O senhor de novo! Saia já de meu quarto! - gritou Rose, dando-lhe um chute na virilha.
Por um segundo ele achou que não conseguiria respirar, mas logo sentiu o sangue
circular de novo por suas veias.
- A senhorita está com algo que me pertence! - disse tentando disfarçar a dor que ainda
sentia.
- Deve ser a sua educação! Nunca lhe ensinaram a bater na porta antes de entrar no
quarto de uma dama?
- Dama? Não estou vendo nenhuma por aqui!
- Como pode reconhecer uma dama se tem por hábito freqüentar as prostitutas do saloon
da srta. Riley?
Travis fechou a porta do quarto num pontapé e deu alguns passos na direção dela. Com
um puxão, arrancou-lhe o vestido das mãos e o jogou sobre a cama.
- Quer que eu lhe mostre o que aquelas mulheres costumam receber de mim, querida!
- Não faz o meu tipo, seu caubói sujo. Mas aquela cela imunda para onde me mandou,
serviu para uma coisa: planejar um acerto de contas com você.
- E como não conseguiu acertar suas contas comigo, decidiu aproveitar-se da
ingenuidade de minha mãe, outra vez.
Sem entender nenhuma palavra do que ele dizia, Rose o enfrentou com altivez.
- Do que está falando? Deixei a cidade como o xerife me aconselhou. O que mais deseja?
Ele a agarrou pelos braços e a puxou para junto de si.
- Vamos direto ao assunto. Você roubou o anel de casamento de minha mãe, e eu o
quero de volta.
- Não sei do que está falando - rebelou-se Rose tentando desvencilhar-se.
- Agora vai me dizer que fadinhas encantadas levaram o anel. Ora, faça-me o favor!
- Olhe, caubói, não sei do que está falando. Não peguei anel nenhum - ela disse mais
calma. - Sua mãe pagou a fiança e me tirou da cadeia. Em seguida levou-me para casa.
Enquanto eu arrumava as malas, tentou me convencer a ir morar no rancho, com vocês.
- Ela jamais faria isso!
- Parece que você e sua mãe não se entendem. É melhor que entrem num acordo, pois
não estou disposta a servir de bode expiatório!
Travis a sacudiu com força pelos ombros, mas logo a deixou ir. O calor de seu corpo, seu
perfume e a visão de seu colo arfante fazia com que se sentisse ainda mais atraído por
ela.
- Não estou com o anel! Não roubei nada! - Ela tornou a impacientar-se.
Ele correu o olhar pelo quarto e avistou a bolsa sobre a cômoda. Num ímpeto, despejou
todo o seu conteúdo, certo de que encontraria o anel. Não encontrou nada.
- Fique à vontade! Sugiro que comece pelo baú - ela murmurou irônica.
Travis sentiu o sangue correr mais rápido. Ela estava linda assim quase nua, os cabelos
derramando-se em ondas sobre a pele alva e macia do corpo. Os olhos verdes, repletos
de ódio, brilhavam. Parecia uma deusa cigana procurando enfeitiçá-lo. Se ao menos não
fosse uma farsante mentirosa...
Subitamente, parou o que estava fazendo e deslizou o olhar, lentamente, por todo o seu
corpo. Oh, como a queria!
Rose sentiu o desejo estampado naquele olhar e procurou retrair-se.
- Dane-se o baú. E se eu começar por você?
Travis deu alguns passos em sua direção e ela recuou até dar com as costas na parede,
permitindo que ele a prendesse no círculo de seus braços. A rebelde afinal capitulava.
Não havia outro sinal de sua revolta senão o rosto afogueado pelo esforço.
- Poderia revistá-la... - ele sussurrou em seu ouvido.
- Pare! - Revoltou-se Rose empurrando-o. - Vou repetir pela última vez: não roubei o anel
de sua mãe! E agora afaste-se de mim. Por favor!
Travis tentou controlar-se. Fazia tempo que não estava com uma mulher, pelo menos não
com uma que o atraísse tanto quanto ela. Num ímpeto, abraçou-a.
- Como eu dizia... acho que vou começar por sua boca - murmurou com voz rouca, antes
de atraí-la contra si e beijá-la de leve. Sentiu o sangue pulsar nas veias, quando
acariciou-lhe o pescoço, com os lábios. Voltou a beijá-la de leve na boca, até sentir que
os lábios se entreabriam, ansiando por um beijo. Sentiu uma onda de volúpia tomar conta
de seu corpo.
Queria depositá-la sobre a cama, cobri-la de beijos, satisfazer seu desejo. Bruscamente,
porém, ela o afastou de si. Olhou-o por alguns segundos e depois pôs-se a rir.
- Bom trabalho, caubói, mas ainda não achou o anel. Travis respirou fundo e caiu em si.
- Vista-se - ordenou.
- Tentei, mas você não deixou.
- Querida, se não se vestir sozinha, vou vesti-la eu mesmo.
- Sim, senhor! - ela zombou, mas apressou-se em obedecer-lhe. Quando terminou, voltou-
se para ele. - Mais alguma ordem, senhor?
- Tem um minuto para pegar seus pertences, antes de partirmos.
- Como assim, partirmos? Eu vou para San António.
- Não! Vai para Fort Worth comigo, e lá permanecerá até que eu encontre o anel de minha
mãe.
- Não vou voltar com você!
- Eu a carregarei à força, se for preciso. Tem um minuto!
- Não vou! Não roubei nada de sua mãe!
- Trinta segundos.
- Espéce de imbécile.
- Vinte segundos.
- Asne... .
- Dez, nove, oito, sete, seis...
- Espéce de nullité...
- Quatro, três, dois, um. Seu tempo acabou - avisou procurando alcançá-la, mas Rose deu
a volta na cama, e ficou do outro lado.
- Não vou a lugar nenhum com você, Travis Burnett!
Ele saltou sobre a cama e antes que ela pudesse fugir, ergueu-a e jogou-a sobre o ombro,
como um saco de batatas.
- Última chance, srta. Severin. Há alguma coisa pessoal aqui que queira levar?
- Espéce de crétin!
- Gosto quando fala comigo com esse sotaque francês. É adorável!
Ela o atingiu com o punho fechado nas costas, fazendo-o gemer.
- Eu o chamo de imbecil e de cretino e ainda assim acha graça?
- Então eu tinha razão. Você não é uma dama!
- E você, caubói, não é nenhum cavalheiro! Coloque-me no chão imediatamente!
- Não quero ser um cavalheiro. Não, no momento.
Ele abriu a porta que levava à sala comum da hospedaria, ignorando seus pedidos para
que a soltasse.
- E o meu baú?
- Mandarei buscá-lo depois.
Todos na hospedaria voltaram-se para ver a cena.
- Socorro! Alguém me ajude! Ele está me seqüestrando! Os homens olharam para Travis,
que sorriu como se aquilo tudo não passasse de uma brincadeira.
- Mulheres! Não se pode mais mantê-las em casa hoje em dia! - Tocou o chapéu de leve,
num cumprimento e finalizou. - Até mais ver, rapazes.
Travis refez o caminho que o levara até a hospedaria. E foi buscar sua égua branca, que
deixara ali, amarrada a um poste. Encontrou-a pastando tranquilamente.
- Precisamos partir logo. Deixe-me ajudá-la a montar.
- Prefiro ir para o inferno do que viajar a seu lado.
- Trouxe-a até aqui, à força. Quer que eu a coloque na sela também à força?
- Caubói, se acha que vou subir nesse cavalo idiota, está muito enganado.
- Belle não é um cavalo idiota. É uma égua mansa e fiel.
- Não vou voltar para Fort Worth com você. Desista! - Ela deu-lhe as costas fazendo
menção de ir embora sozinha.
Travis agarrou-a pelo braço.
- Aonde pensa que vai com tanta pressa? Você não tem outra escolha a não ser retornar
comigo. A menos que resolva devolver o anel agora mesmo.
Mais uma vez ele voltava ao assunto. O tal anel que ela nunca vira e que não sabia onde
estava. Ela era "médium", não uma ladra vulgar.
- Se eu tivesse esse anel, o devolveria com o maior prazer só para que você
desaparecesse da minha frente.
- Para quem o vendeu?
- Coloque de uma vez por todas dentro dessa sua cabeça dura. Se não roubei o anel,
como posso tê-lo vendido?
A égua, assustada com a discussão partiu para cima de Rose, pronta a dar-lhe um coice.
Percebendo o perigo, ela correu para os braços de Travis. Aquele contato mais íntimo, fez
com que relembrasse o beijo que trocaram. Sentiu uma onda de calor invadi-la, mas
procurou controlar-se. Estava confusa. Seus sentimentos em relação a Travis eram
contraditórios. Se por um lado deixara-se envolver pelo charme e magnetismo daquele
homem, por outro, não vislumbrava a menor chance de conviver com ele em harmonia.
Ele era um homem difícil. Charmoso, mas autoritário e dominador.
Travis riu de seus receios.
- Venha, vou ajudá-la a montar.
- Não... não estou acostumada a cavalgar, tenho medo.
- Então prepare-se.
Travis montou rapidamente, e com um movimento preciso, inclinou-se e a puxou para
cima da sela.
- Já lhe disse o quanto o odeio? - ela gritou indignada.
- Frequentemente.
Ela o abraçou pela cintura e fechou os olhos. Mas Travis conduzia a égua com suavidade
e mão firme. Aos poucos, Rose foi perdendo o medo e abriu os olhos. Instantes depois,
comentou:
- Desse jeito a diligência vai chegar antes de nós.
- Se quiser, posso apressar Belle.
- Não faça isso, por favor!
- Relaxe.
- Relaxar? Estou quase morrendo de medo e você quer que eu relaxe?
Ele riu e instantes depois incitava a égua, que passou do trote ao galope.
Rose não protestou. Abraçada a cintura dele, com o vento a enfunar-lhe a roupa,
experimentou uma sensação de bem-estar que nunca sentira antes. A lembrança do beijo
que trocaram estava ainda fresca em sua memória. Ele era bonito e sedutor e ela o
desejava. Mas o destino colocara entre ambos uma barreira difícil de transpor: as
suspeitas infundadas sobre o roubo do anel.
Confusa, afastou os pensamentos e voltou-se para Travis, que diminuiu o ritmo da
cavalgada.
- Tem certeza de que sua mãe disse que eu roubei o anel?
- Você foi a última pessoa com quem ela esteve antes que o anel desaparecesse. Não
acha uma coincidência um tanto estranha?
- Não pensou na possibilidade de sua mãe ter perdido o anel? Você está me levando a
Fort Worth a troco de nada.
- Isso pouco importa. O que importa é que você vai voltar comigo. O que tiver de ser
esclarecido, será em Fort Worth.
- Pensei que fosse mais inteligente.
- Você nunca se cala?
- Isso o incomoda?
- Não, absolutamente. Estou acostumado a lidar com mulheres que tagarelam e não
dizem nada.
- Caubói, você tem uma língua ferina! Eu deveria ler sua mão. Pessoas como você,
acabam morrendo cedo. Especialmente quando seqüestram mulheres. Já fez isso antes?
- O quê? Estrangular mulheres que não ficam quietas?
- Não! Tomar uma mulher à força! Será que é só assim que consegue tê-la?
- Boas mulheres não têm nada a temer de minha parte.
- Então não sou o que considera uma boa mulher?
- Fique quieta. Estou perdendo a minha paciência.
- Ser desprezível!
- Tagarela!
- Já escureceu. Vamos cavalgar a noite toda ou só até a próxima hospedaria? - Rose
perguntou.
- Não vamos passar a noite em uma hospedaria. Vamos acampar.
- Acampar? Não estou acostumada a dormir no chão.
- Então durma em pé, e eu usarei meu cobertor.
- Engraçadinho! Não acha melhor procurarmos um abrigo qualquer?
- Não, vamos acampar.
- Travesseiros, lençóis, cobertores são coisas que gente civilizada usa para dormir, sabia?
- Eu vou dormir no chão e você pode ficar com o cobertor. Pare de reclamar.
Rose olhou para as estrelas, como se buscasse uma ajuda Divina.
- Se soubesse o que me esperava ao aceitar a ajuda da sra. Burnett, teria recusado.
- Mas deveria saber. Pensei que videntes previssem o futuro.
- Há alguns anos uma amiga leu minha mão. Disse que eu encontraria fama, fortuna e
que me tornaria uma atriz famosa.
- E já começou a praticar sua arte, interpretando uma médium - ele comentou com ironia.
- Meu dom é especial, nasci com ele. Atuar é o meu sonho. Não tem sonhos, sr. Burnett?
- Sim, o de uma noite tranqüila sob as estrelas sem ter a meu lado uma mulher que fala
pelos cotovelos.
- Não falo pelos cotovelos.
- Querida, você nunca fica quieta. Rose mudou de assunto:
- Quando vamos comer alguma coisa? Já é tarde e estou com fome.
- Minha mãe mandou-lhe biscoitos caseiros. Você poderá saboreá-los assim que fizermos
uma parada para Belle descansar.
Vinte minutos depois, Travis decidiu que já era hora de fazer a parada. Acendeu uma
fogueira e deitou-se perto, esticando as pernas. Estava exausto. E no dia seguinte, teriam
pela frente mais seis horas de viagem. Seis horas para aproveitar a companhia da
irreverente srta. Severin, para sentir-lhe o corpo macio recostado ao dele, para sentir seu
calor, seu perfume... Até quando poderia suportar tudo isso sem tocá-la, sem acariciá-la?
Em vez disso, estava levando-a para casa! Tudo lhe parecia uma grande loucura. Mas
não tinha outra opção. Prometera para sua mãe que recuperaria o anel. Não podia
decepcioná-la.
- Então, caubói, o que farei até o sono chegar? - Rose interrompeu seus pensamentos.
Não lhe faltavam idéias, mas nenhuma delas parecia adequada para aquele momento.
Ela não parava de tagarelar um minuto. Travis impacientou-se.
- Não disse que queria dormir, srta. Severin?
- Mas não agora. Mal acabamos de comer!
Travis levantou-se e foi abrir a bolsa de sela. Tirou de dentro dois pedaços de corda e os
trouxe consigo.
- O que vai fazer? - perguntou Rose alarmada.
- Amarrá-la, para que não fuja por aí no meio da noite.
- Vai me amarrar como se eu fosse uma... uma criminosa!
- De onde venho, quem rouba é considerado criminoso.
- Está bem, mas o que preciso fazer para que acredite em mim?
- Diga apenas a verdade.
- É o que estou fazendo, mas você não acredita numa palavra do que eu digo!
- Não há outra pessoa que possa ter roubado o anel.
- Você tem razão. Fui eu - Rose blefou. - Estou usando o anel. Quer saber onde?
Travis engoliu em seco. Onde ela estaria escondendo o anel?
- Onde?
- No dedão do pé.
Ela está blefando... ele pensou. Mas tinha de conferir. Deslizou as mãos até sua bota e
começou a desatar os cadarços. Rose riu, jogando a cabeça para trás.
- Pensei que fosse mais inteligente, caubói.
Travis retirou-lhe a bota, segurando-lhe o pé delicado entre as mãos.
- Eu sabia que estava mentindo... - ele murmurou, passando-lhe a mão pela perna e
subindo a seguir em direção à coxa. - Mas quis conferir.
No mesmo instante Rose agarrou-lhe a mão e a repeliu.
- O que pretende fazer?
- Retirar suas meias para poder ver seus pés descalços.
- Eu mesma faço isso. - Ela retirou as meias e levantou os pés. - Vê? Não há anel
nenhum.
- Estou vendo. E fico-lhe grato.
- Pelo quê?
- Por ter me ajudado a retirar suas botas sem se queixar. Agora sei que não irá a lugar
algum esta noite. Mas vou lhe amarrar para ter certeza de que não irá fugir.
- Sem botas é amarrada desse jeito, será difícil fugir não acha? Ele pegou um segundo
pedaço de corda e amarrou o seu próprio pulso ao de Rose.
Estavam amarrados um ao outro. Tanto pela corda quanto pela atração que sentiam um
pelo outro. A imagem dela em suas roupas de baixo ainda o atormentava. Deitou-se no
chão, a seu lado, apoiando a cabeça na sela.
Ela puxou a corda com força, e eles trocaram um olhar.
- No caso de estar tramando algo, saiba que eu tenho o sono leve.
- Um dia ainda irei fazê-lo pagar por toda essa humilhação. Ele virou-se para o outro lado
e colocou o chapéu sobre o rosto.
- Boa noite. Durma bem.
- Vá para o inferno!
Travis despertou sentindo o calor do corpo de Rose. Desejava ficar no mundo do sonho
por mais uns instantes, sentindo o perfume suave e doce que o envolvia. Mas algo o
solicitara ao mundo real. Ao virar-se, encontrou um lindo par de olhos verdes que o
fitavam.
- Bom dia, já estava na hora de acordar - disse-lhe Rose com suavidade na voz.
- Bom dia - respondeu, bem-humorado.
- Dormiu bem?
- Muito bem e você?
- Sonhei que você me desamarrava esta noite e me deixava livre.
- Foi só um sonho.
- Sabia que diria isso. Nunca se cansa de ter razão sempre?
- Não, quando estou com a razão.
Rose ergueu-se sobre um cotovelo e o encarou no fundo dos olhos.
- E se eu não for culpada? Não acha que merece uma punição por ter levado uma mulher
inocente para a cadeia?
- Querida, aposto minhas terras de que não é inocente.
- Espere e verá.
Rose tentou levantar-se, mas as cordas que a prendiam impediram-na.
- Estou com o corpo moído - queixou-se. - Não dormi bem esta noite.
Havia uma certa ternura em sua voz e ela já não parecia mais tão irritada. Travis
aproximou-se mais até seus olhos se encontrarem. Magnetizado, apertou-a de encontro
ao peito e pôde sentir o ritmo acelerado da respiração dela e o bater descompassado de
seu coração. Num ímpeto de paixão, inclinou-se e tomou-lhe a boca com avidez. Para sua
surpresa, Rose devolveu-lhe o beijo com o mesmo ardor e a mesma paixão que o
inspirara. Mas por pouco tempo. Tanto um como o outro reprovavam-se por terem perdido
o próprio controle e cedido às emoções daquele momento mágico.
- Afaste-se de mim - ela o intimou, já zangada, e tentou desfazer os nós da corda que os
prendia.
- Vá com calma ou poderá quebrar a unha - ele avisou.
- Quer que eu continue presa a você? Para quê? Para que possa terminar o que
começou? Foi por isso que teve a idéia de me amarrar?
Ele agarrou-lhe os dois pulsos com apenas uma das mãos.
- E o que foi que eu comecei?
A respiração de Rose estava acelerada e o olhar apreensivo. Não era o que ele desejava
ver. Gostaria que os olhos estivessem velados pela mesma paixão que havia percebido
antes, dando-lhes permissão para fazer o que ambos realmente desejavam. Mas o
momento passara. Desfez os nós da corda que os unia e depois abaixou-se para desatar
a corda que prendia os tornozelos.
- Não me beije novamente, caubói - ouviu-a dizer com uma dureza que o gelou. - Não sou
uma de suas garotas fáceis de saloon.
Travis a viu afastar-se com apreensão. O que faria com ela assim que chegassem em
casa?

CAPÍTULO III

Com o coração oprimido, Rose resolveu dar uma caminhada por entre as árvores que
beirava a estrada. O dia estava claro e o calor era amenizado pela suave brisa matutina.
Pisou na relva macia e absorveu o ar puro. A vida ali pulsava de maneira diferente,
condensando, em seu resplendor, uma magia que a fez por instantes esquecer-se de
quem realmente era. Voltou a consciência pensando em Travis.
Por que seu corpo respondera com tanta paixão ao toque de Travis? Afinal, ele não
acreditava em sua inocência. E como pudera sentir-se segura nos braços de um homem
que a humilhara?
Durante todos aqueles anos, passados de cidade em cidade, nunca tivera um
relacionamento sério. Alguns flertes, mas nada que sugerisse um compromisso sério. Por
que então deixara-se envolver por Travis? Um caubói presunçoso e egoísta. Por que
desejava tanto seus beijos?
Talvez a melhor solução fosse voltar para Fort Worth. Poderia encarar de frente essa
nova realidade que o destino colocara em seu caminho. Somente o tempo lhe daria a
resposta para suas emoções, tempo suficiente para que a implacável roda da vida desse
mais um giro, e lhe mostrasse o verdadeiro caminho a ser seguido. Instantes depois,
Travis a chamou interrompendo suas divagações.
- É melhor seguirmos viagem. Ainda temos um longo percurso pela frente.
- Está bem - assentiu Rose já mais calma.
Retomaram o caminho que os levaria para Fort Worth e seguiram em silêncio. Travis
comandava Belle a galope e Rose sentia o vento acariciando-lhe o rosto. Três horas
depois fizeram uma última parada. Refrescaram-se à beira de um riacho e aproveitaram
para reabastecer a água de seus cantis, numa pequena fonte cristalina.
Já era de tardezinha quando Eugenia ouviu latidos de cães no pátio e correu para a
janela.
Era Travis e Desirée que acabavam de chegar. Quais seriam os planos de Travis e por
quanto tempo conseguiria levar aquela farsa adiante?
Jogou o avental sobre a bancada da cozinha e foi até a varanda para recebê-los.
- Olá, filho. Desirée, é bom vê-la novamente. Fizeram boa viagem?
Travis a olhou desolado.
- Foi uma viagem inútil, mamãe. Desirée não quis devolver seu anel.
Ela defendeu-se com veemência.
- Seu filho ainda não o encontrou, essa é que é a verdade! E culpa a mim, que nada sei
sobre esse anel.
- Vamos entrar, crianças. Devem estar cansados e famintos - desconversou Eugenia.
- Sra. Burnett, a senhora sabe que não roubei seu anel - tornou Rose ainda tensa.
Eugenia respirou fundo. Sabia que a moça não tinha culpa, mas não era ainda o momento
de revelar sua farsa.
- Falaremos sobre isso depois. Agora entre e descanse um pouco.
Rose deslizou da sela para o chão, com certo desequilíbrio, e Travis apressou-se em
oferecer-lhe o braço, o que fez Eugenia sorrir. Ah, se seu plano funcionasse...
- Animal detestável! - murmurou Rose, recusando o braço que lhe era oferecido.
Travis esboçou um sorriso irônico.
- Pelo menos Belle não a derrubou. Era o que você merecia!
- Belle não ousaria derrubar-me. Sabe que os espíritos me protegem.
- Por que não aproveita e pede para que eles encontrem o anel de minha mãe? Ou os
espíritos a abandonaram?
Eugenia observava atentamente o casal. O bate-boca parecia diverti-los o tempo todo.
Teve de se controlar para não rir. Seu plano estava funcionando. Era nítida a atração que
sentiam um pelo outro.
- Travis, leve Belle para a cocheira enquanto acompanho Desirée para o quarto que lhe
destinei.
Rose aproveitou o momento.
- A senhora sabe que não roubei o anel. Nem mesmo sei como ele é!
- Não vamos nos preocupar com isso agora. Não ligue para o meu filho, ele é teimoso
como qualquer outro homem.
- Ele me trouxe aqui contra minha vontade.
- Tenho certeza que sim. Não se aborreça, querida. Veja o lado bom da história. Poderá
descansar alguns dias enquanto visita nosso rancho. Agora, sente-se. Vou trazer-lhe
alguma coisa para comer.
- Se a senhora não se incomoda, gostaria de me refrescar antes.
- Naturalmente, querida.
Eugenia acompanhou-a até o andar de cima, indicando-lhe o quarto que ficava em frente
ao de Travis. Ficariam bem próximos. Perfeito para dar continuidade ao seu plano.
- Vou deixá-la à vontade. Jantar dentro de uma hora. Está bem para você?
- Está ótimo. Espero não incomodar. Não ficarei por muito tempo.
- Não vamos pensar nisso agora. Pedirei a Travis que mande buscar seus pertences.
Descanse, meu bem. - Eugenia fechou a porta atrás de si. Desirée e Travis já estavam
sob o mesmo teto.
Agora qual seria o próximo passo a dar?
Rose esperou a porta se fechar para ir à janela e respirar o ar puro do campo. O cenário
era de uma beleza incomparável. O gado pastava no alto da colina sobre os pastos
verdejantes e o céu era de um azul profundo. O aroma de flores silvestres e o canto dos
pássaros que invadiam o quarto ditava o doce ritmo da natureza. Tudo ali era calmo,
cercado de uma paz profunda. E de uma grandeza que contrastava enormemente com as
modestas casas onde ela até então vivera.
Uma treliça de madeira subia junto à parede do primeiro andar até sua janela, repleta de
rosas. Estava impressionada com a beleza do lugar. Imaginou como seria crescer num
lugar assim, com uma mãe sempre presente, cercada de carinho e podendo ainda
desfrutar da natureza e do conforto que o lugar oferecia. Jamais saberia, pois não
pretendia ficar ali o tempo suficiente para descobri-lo. Mas já que não podia partir
imediatamente, por que não aproveitar bem sua estadia? A sra. Burnett parecia satisfeita
em tê-la como hóspede. Sabia que isso iria irritar ainda mais Travis. Ótimo! Faria tudo que
estivesse ao seu alcance para tornar-lhe a vida um inferno.
Uma hora depois, descansada e banhada, desceu as escadas. A sala de estar, decorada
com móveis finos, era de muito bom-gosto. Peças em opalina, objetos de prata de lei, e
cristais espalhados sobre os móveis compunham a sofisticação do ambiente, formando
um espaço acolhedor. Seguiu pelo corredor em frente até a sala de jantar, mas deteve-se
à porta ao ouvir uma conversa entre mãe e filho.
- Mãe, não trate Desirée como uma hóspede.
- Não importa o que ela fez. Para mim, ela é uma visita e vou tratá-la como tal.
- A senhora acusou-a de roubar seu anel e ainda assim a trata como hóspede?
- Não quero e não vou permitir que a prenda novamente, antes que tudo se esclareça.
- E o que quer que eu faça, então?
- Quero que a deixe ficar aqui até que o anel seja encontrado.
- E o que a faz pensar que ela nos devolverá o anel?
- Sei o que estou dizendo.
- Ela roubou seu anel de casamento! Quer que leve também o resto das jóias, a prataria e
o que mais encontrar de valor nesta casa?
- Não temos certeza se foi ela que roubou o anel.
- Primeiro a senhora diz que ela roubou e agora diz que não tem certeza?
- Não foi isso o que eu disse. Mas não quero que ela seja punida novamente. Não antes
que o fato seja provado. Afinal não é isso que diz nossa Constituição? Inocente até que
se prove o contrário?
- Por favor, mamãe. Não preciso de uma aula de Direito!
- Do que precisa realmente é de uma aula de boas maneiras!
- Basta, mamãe. Não mude de assunto. Precisamos decidir o que fazer com a srta.
Desirée Severin.
- Por mim, ela fica aqui até encontrarmos o anel. Houve um momento de silêncio, antes
que Travis dissesse:
- Amanhã vou até a cidade conversar com Tucker e juntos decidiremos o que fazer.
- Caso Desirée for para a cadeia, juro que vou lá pessoalmente para libertá-la!
Rose suspirou. Precisava fugir dali. Naquela mesma noite. Não sabia como, mas teria de
ir embora. Ou não daria conta da situação. Decidida, empurrou a porta da sala de jantar e
entrou.
- Boa noite - cumprimentou com um sorriso. - Desculpem-me pelo atraso.
- Não tem do que se desculpar, querida. Travis e eu estávamos planejando nossa reunião
familiar anual, que acontecerá dentro de duas semanas.
- Vocês têm família grande? Que beleza! Sempre admirei famílias grandes.
- Geralmente, reunimos aqui quase cinqüenta familiares.
- Não se preocupe, não estará mais aqui quando isso acontecer. - Travis olhou na direção
de Rose.
- Filho, não diga isso! Como pode saber se Desirée estará ou não conosco?
- Gostaria muito de ficar e conhecer o restante da família. Tenho certeza de que são todos
mais gentis do que você.
- Conhecer para quê? Para roubá-los?
- Travis Burnett! - censurou-o a mãe - Onde estão seus modos? Desculpe-se com a srta.
Severin! É o mínimo que pode fazer.
- Deixe estar, sra. Burnett. Ele está mal-humorado desde que me beijou - revelou Rose
mal podendo conter o riso ao ver as expressões chocadas de mãe e filho.
- Ele a beijou? - perguntou Eugenia um pouco sem jeito.
- Na verdade, roubou-me um beijo. Se fosse eu a beijá-lo, teria sido diferente.
Travis cerrou os maxilares.
- Não roubei beijo algum. Você me devolveu o beijo que lhe dei de livre e espontânea
vontade!
- Mas depois, o afastei.
Ele estava furioso e Rose pôs-se a rir. De início Eugenia ficou séria e depois pôs-se
também a rir.
- Essa notícia interessante abriu-me o apetite. Vou pedir à cozinheira que sirva logo o
jantar.
- Eugenia se retirou, ainda com um sorriso nos lábios.
- Tinha de contar que a beijei? Agora ela irá imaginar que existe algo entre nós.
- Sua mãe é inteligente. Sabe que não temos nada em comum, que somos totalmente
incompatíveis.
- Essa é a primeira coisa sensata que você diz e que concordo. Sorrindo, então, é ainda
melhor.
- Não é para se acostumar, caubói.
- Que pena. Você fica linda quando sorri. A propósito, vamos estabelecer algumas regras
enquanto estiver aqui.
- Regras? Impõe regras até para os hóspedes?
- Você está longe de ser uma hóspede. No momento está confinada nesta casa. Nada de
sair por aí sozinha! Fui claro?
- Claríssimo! Terei de ficar confinada nesta casa, dia após dia, até devolver o anel de sua
mãe.
- Você aprende depressa. É exatamente isso!
- Será mesmo uma boa idéia, caubói? Pelo que pude observar há muitos objetos de valor
nesta casa. - Rose apontou para as pratas do bufe.
- Ouse tocar em algo e a levarei de volta para a cadeia. Não me provoque!
- Vou provocá-lo sempre que puder, caubói.
A porta da cozinha abriu-se e Eugenia apareceu anunciando que o jantar seria servido.
Já era madrugada quando Rose decidiu pôr em prática seu plano de fuga. Não tinha outra
saída, senão partir. Isaiah logo estaria de volta. Com isso em mente, aproximou-se da
janela e debruçou-se sobre o peitoril. O que fazer para descer e segurar a frasqueira ao
mesmo tempo?
Retirou os lençóis da cama e os amarrou um ao outro com um nó. Prendeu a frasqueira
numa das pontas da tira improvisada e a jogou pela janela. A seguir, transpôs o peitoril,
agarrou-se na treliça e pôs-se a descer vagarosamente, com cuidado. Os espinhos da
roseira, feriram-lhe a mão, mas esse era o preço da liberdade. Finalmente, com o coração
batendo furiosamente no peito, pisou o chão. Apanhou a frasqueira, contornou a varanda
da casa e tomou o caminho de cascalho ladeado de flores, que a levaria ao portão de
entrada. Olhava de um lado para outro apreensiva. Caminhava devagar, para ter certeza
que o ruído de seus passos sobre o cascalho não acordaria ninguém da casa.
Uma voz ecoou de repente no meio da escuridão, o que fez seu coração disparar.
- Vai a algum lugar, srta. Severin? É um pouco tarde para um passeio, não acha?
Assustada, parou onde estava e virou-se. Travis estava sentado na varanda, observando-
a. Encarou-o de frente.
- Por que quer tanto me manter aqui? Fugirei novamente e lhe trarei problemas. Deixe-me
ir, por favor.
Travis levantou-se e aproximou-se devagar.
- Acostumei-me com sua presença. E minha mãe também. E depois, há o problema do
anel. - Ele inclinou-se e sussurrou-lhe ao ouvido: - Aquele anel é a chave para sua
liberdade.
Furiosa, Rose bateu com a frasqueira em seu peito, até fazê-lo gemer de dor. Ele
esquivou-se e apertou-lhe a mão para que soltasse a frasqueira.
- Pare! - ela gritou - Está me machucando! Veja. - Soluçou, mostrando a mão que
sangrava.
- Mas o que é isso? Sangue?
Os espinhos tinham cravado em sua pele. Chorou, não pela dor dos espinhos, mas pela
raiva e frustração. Estava cansada de ser derrotada. Estava cansada daquele pesadelo.
Travis passou o braço por sua cintura e levantou-lhe a mão à luz da lua.
- Está cheia de espinhos. Precisamos tirá-los. Vamos até a cozinha.
Ele a puxou consigo pelos degraus da varanda e foram direto para a cozinha.
- Sente-se e nem ouse se levantar - ele ordenou-lhe, ao chegarem. Retirou uma pinça da
caixa de primeiros socorros e começou a arrancar-lhe os espinhos com uma delicadeza
que a surpreendeu.
- Terá que esperar para realizar uma sessão espírita, srta. Desirée - ele falou de repente,
sem erguer a cabeça.
- Não preciso delas para falar com os mortos.
- Diga-me, onde pensava ir a esta hora da madrugada?
- Por aí. Queria ter liberdade para pensar. Preciso resolver minha vida.
- Nunca ouviu falar que coiotes e índios, costumam atacar à noite?
- Bem, eu...
- Estamos a alguns quilômetros de distância de Fort Worth, uma cidade perigosa,
considerada a mais violenta do Texas. Não é seguro uma mulher andar por aí, sozinha, a
uma hora destas!
- Não calculei bem. Não pensei que estivéssemos tão longe de Fort Worth.
Travis ergueu a cabeça.
- Acho que retirei todos os espinhos. Ou sente que há mais algum?
- Não, não. Estou bem.
- Isso vai acelerar a cicatrização - informou, esfregando uma pasta de sálvia.
Rose olhou-o de soslaio. Ele não parecia o mesmo homem que a levara à força para o
rancho, que a acusara de ladra e farsante. Estava agora diante de um homem, atencioso
e gentil, que a fascinava.
Travis envolveu-lhe as mãos em ataduras e tornou a falar:
- Deveria descansar agora. Logo irá amanhecer.
- Como soube que eu iria tentar fugir esta noite?
- Conheço-a bem. Você é daquelas mulheres que não desistem facilmente. Ficaria
desapontado se não tentasse algo.
Não sabia se ele a elogiara ou dissera muito educadamente que era teimosa. Mas,
cansada como estava, decidiu que era um elogio e tomou-o como tal.
- Vamos, vou ajudá-la a subir as escadas - ofereceu-se Travis. Ele pegou o lampião e a
guiou até o andar de cima. Quando chegaram até a porta de seus respectivos quartos,
Rose sentiu-se constrangida. Vira um lado diferente de Travis aquela noite, um lado
gentil, que não sabia existir. E agora, mais do que nunca, sentia-se atraída por ele. -
Precisa do lampião?
- Não, obrigada.
- Então, boa noite, Desirée. Durma bem.
- E você também - devolveu ela, docemente.
Deu dois passos e percebeu que a cama estava sem lençóis. O que fazer? Descer até o
jardim e recolhê-los sem que Travis a ouvisse? Não, ele iria perceber e pensar que estava
fugindo novamente.
Encheu-se de coragem e voltou para o corredor, batendo em sua porta.
Travis abriu-a e apoiou-se ao batente.
- O que foi, Desirée. Não consegue dormir?
- Não se trata disso.
- Está precisando de alguma coisa?
- Os meus lençóis ficaram lá fora.
Mesmo no escuro do corredor, Rose pôde sentir a mudança que se operava nele.
- Acho que vai ter que dormir comigo. - Ouviu-o dizer com voz sedutora.
Rose sentiu que o ar lhe faltava. Não era exatamente essa a resposta que esperava ouvir.
Mas antes que pudesse retrucar, ele a enlaçou pela cintura e a beijou. Envolta por uma
sensação que não tinha experimentado antes, era como se estivesse nos braços de outro
homem. Um homem forte, dominador, que também sabia ser gentil e educado. Felizmente
seu bom-senso falou mais alto. Afastou-se e abriu os olhos. A idéia de passar a noite com
Travis era tentadora, mas impossível. O que ele queria era uma simples diversão.
- Acho que sua mãe não aprovaria. - Era o mais adequado a dizer.
- Minha mãe não tem nada a ver com isso.
- Por que está interessado em mim? Só para ter mais uma em sua lista?
- Engana-se. Não tenho nenhuma lista. Espere que vou apanhar alguns lençóis para
você.
Rose ficou à porta do quarto, esperando por seu retorno e desejando que aquela longa
noite terminasse logo. Por que o questionara? Esperava ouvir alguma declaração de
amor?
Intimamente, era o que mais desejava. E ficou desapontada, quando o viu chegar com os
lençóis e dizer-lhe secamente:
- Aqui estão. Precisa de mais alguma coisa?
- Não, obrigada. Boa noite.
Nervoso, Travis ajeitou os travesseiros sob a cabeça, e tentou em vão se acomodar na
cama. Se pelo menos a noite terminasse logo! Fechou os olhos e a visão de Desirée em
seus braços, voltou-lhe à mente. Ela era uma mulher sedutora, atraente, graciosa e ao
mesmo tempo a mais contraditória que já conhecera. Ora tão angelical, ora tão felina,
mostrando suas garras! Havia momentos em que desejava tocá-la, beijá-la, fazê-la sua.
Em outros, porém, queria desmascará-la, colocá-la em seu devido lugar e dar-lhe a lição
que ela merecia. No entanto, sempre que se aproximava dela, deixava-se arrebatar por
aquela louca atração. Se ela não devolvesse o anel, logo a estaria levando para a cadeia.
Não podia esquecer o fato de que a moça era ladra e farsante, não podia fraquejar!
Ajeitou o travesseiro mais uma vez e dominado pelo cansaço, adormeceu.
Na manhã seguinte, Rose acordou cedo. Tocou as mãos enfaixadas com cuidado, mas
elas já não estavam tão sensíveis. A dor havia passado.
Ouviu movimento no pavimento inferior da casa e levantou-se, pegando o que restava de
seu vestido. Estava rasgado e certamente deixaria suas roupas de baixo à mostra. Sem
outra opção, vestiu-o e desceu as escadas, ansiosa por saber quem encontraria pela
frente aquela manhã. O arrogante e autoritário Travis ou o homem gentil e amável da
noite anterior? Ainda podia sentir o toque de seus lábios na boca.
Abriu a porta da sala de jantar e encontrou mãe e filho sentados à mesa.
- Bom dia, Desirée. Levantou cedo! - Eugenia saudou.
- Bom dia, sra. Eugenia.
Travis a cumprimentou apenas com um sinal de cabeça.
- Como estão suas mãos?
- Melhores, bem melhores, obrigada.
Travis explicara à sua mãe a tentativa de fuga de Desirée e ela preocupou-se.
- Espero que não estejam doendo!
- Não estão, obrigada. Travis aplicou sálvia. Já me sinto bem melhor.
- Vou pedir à cozinheira que traga seu café da manhã. - Eugenia saiu deixando-os a sós.
Por alguns segundos seus olhos se encontraram.
- Dormiu bem? - perguntou-lhe Travis.
- Muito bem. E você?
Travis a olhou de um jeito diferente, que ela logo o identificou. Era igual ao que ele lhe
lançara antes de tomá-la nos braços.
- Não dormi a noite inteira - ele respondeu.
A porta da cozinha se abriu e Eugenia voltou, sem reparar no clima que se instalara entre
os dois.
- Travis, mostre o rancho para Desirée.
- Não posso, vou à cidade.
- Que vai fazer lá? Não precisamos de nada.
- Isso sou eu quem decide, mamãe.
- Gostaria de ir com você - Rose se adiantou. - Preciso comprar um vestido novo.
- De maneira nenhuma! Já esqueceu as regras? Rose levantou as mãos enfaixadas e
mostrou o vestido.
- Não espera que eu use este vestido todos os dias!
- Não pedi que descesse por aquelas treliças cheias de espinhos. Aliás, a maioria de
nossos hóspedes prefere usar as escadas. Sugiro que pegue agulha e linha e conserte o
vestido.
- Vai ficar horrível, não sei costurar!
- Toda mulher sabe.
Rose quase engasgou com o chá que estava tomando. Que petulância! O homem gentil
da noite anterior desaparecera, dando lugar ao déspota. Como poderia consertar o
vestido se nunca tocara numa agulha?
Encararam-se como inimigos e Eugenia tentou apaziguá-los.
- Vamos tirar o dia para passear na cidade, Travis. Irei junto e ficarei de olho em Desirée
enquanto cuida dos seus negócios. Está bem?
- Não, não está. Prefiro ir sozinho.
Se não fosse o medo de aceitar Eugenia, Rose teria jogado o pote de geléia contra ele.
Que arrogante!
- O sargento Travis está de volta! Ou o general? Francamente, acho que não é nada além
de um presunçoso que só pensa em aparecer. Aliás...
- Será que não pode ficar quieta pelo menos por um segundo? - interrompeu-a Travis.
- Caubói, precisamos dar um jeito nos seus modos. Você é sério demais. Estava
pensando em ensinar-lhe boa maneiras e também como se divertir.
Travis encarou-a, e saiu, sem dizer palavra. Rose olhou para Eugenia, temendo sua
reação, mas quando percebeu que a mulher abafava um sorriso, ela também sorriu.
- Acho que o deixei nervoso.
Quando Travis abriu a porta do escritório, deu de cara com o irmão que estava sentado à
escrivaninha examinando alguns papéis.
- Olá, bom dia.
Tucker levantou os olhos e sorriu.
- Quando você voltou? Conseguiu o anel de mamãe?
- É sobre isso que vim falar. Trouxe a Desirée, comigo.
- Mas por quê? O que houve?
- Achei mais prudente. E agora mamãe a trata como a uma princesa. Imagina, queriam
que eu as trouxesse à cidade para fazerem compras.
- Acredito, mas afinal, por que trouxe moça de volta?
- Pelo anel. Ela não o devolveu ainda.
- Poderia tê-la trazido para a cadeia, por que não a trouxe?
- Porque mamãe ameaçou soltá-la novamente.
- E onde Desirée disse que está o anel?
- Ela afirma que nunca o viu. Procurei em seus pertences e não encontrei nada.
- E mesmo assim mamãe a aceitou em casa?
- Fez mais do que isso. Esticou-lhe praticamente um tapete vermelho!
- Francamente, estou surpreso. E é bom que você fique atento. Mamãe deve estar
arquitetando alguma coisa. Só não sei exatamente o quê.
- A moça roubou-lhe a aliança e mamãe ainda a trata como a uma amiga. Não acha
estranho?
- Estou dizendo... aí tem coisa.
- E é isso que eu não entendo. Se ela achasse Desirée culpada, não a trataria assim.
Travis sentou-se. Algo não estava certo. O comportamento de sua mãe era estranho, mas
como já se enganara a seu respeito outras vezes...
- Você acha que devemos prendê-la novamente?
- Isso não. Ela iria deixar a prisão de pernas para o ar. Não, deixe-a onde está e fique de
olho nela. Mais cedo ou mais tarde ela vai dar com a língua nos dentes.
- É o que veremos.
- Pelo que me lembro, não é difícil deixar de prestar atenção a ela, uma vez que é linda e
atrai qualquer homem. Se é que me entende...
Travis entendeu, mas não gostou das palavras do irmão. E tampouco de sua própria
reação. Tucker o encarou.
- Ah... então é isso.
- Isso o quê?
- Você está interessado na srta. Desirée, não está? - Tucker sorriu.
- É claro que não! Por que estaria interessado numa mulher desonesta?
- Ela pode não ser honesta, mas é linda demais.
Travis levantou-se e pôs-se a andar de um lado para outro da sala.
- Tenho que admitir que é sim. E ainda por cima mamãe a coloca em frente ao meu
quarto!
- Nunca o vi tão agitado por causa de uma mulher. O que realmente o incomoda, Travis?
- Não sei. Sempre achei que quando aparecesse a mulher dos meus sonhos, ela seria no
mínimo honesta. Não uma farsante que organiza sessões espíritas e, além de tudo,
rouba!
- O que sabe de fato sobre essa moça? Ela lhe contou alguma coisa de seu passado, ou
sobre sua vida antes de chegar aqui? - perguntou-lhe Tucker interessado.
- Não. Só o que fazemos é discutir! Sobre tudo o que você possa imaginar, só não sei o
porquê. Talvez ela queira me desafiar para saber qual será a minha reação.
- Por que não contratamos um detetive para descobrir mais coisas sobre ela? Enquanto
isso a manteremos no rancho com mamãe. E se acontecer algo entre vocês... Bem, isso
não é de minha conta.
- Um detetive?
- É uma ótima idéia. Podemos entrar em contato com o mesmo que mamãe contratou
para saber o paradeiro de Tanner. Ele é experiente e confiável.
- Feito! - respondeu Travis mais animado.
- O escritório dele é aqui perto. Vamos até lá e depois almoçamos em algum lugar.
No final da tarde, Travis voltou para casa satisfeito. Estava tudo resolvido. O detetive
havia aceitado investigar o passado de Desirée e recolher informações sobre ela o mais
breve possível.
Estivera também no escritório da companhia da diligência e pedira informações sobre a
bagagem que havia trazido.
Durante o dia todo, havia pensado na moça, e em como estava bela aquela manhã.
Lembrou-se também do que acontecera na noite anterior, diante da porta de seu quarto, e
do doce sabor de seus lábios. Admirava a coragem dela em enfrentá-lo. Ela não se
parecia de modo algum com as garotas que já havia apresentado à sua mãe. Só ela o
deixava fora de si. Estava ansioso por reencontrá-la, saber como havia sido o seu dia.
Entregou as rédeas de Belle ao capataz do rancho e subiu os degraus que levavam à
varanda.
Sua mãe, que estava costurando, perguntou sem erguer os olhos do trabalho:
- Teve um bom dia, filho?
- Excelente. Muito produtivo.
- Produtivo em que sentido?
- Fique tranqüila, mamãe. Não vou levar Desirée para a cadeia.
- Fico feliz, filho. Seu bom-senso falou mais alto.
- Por enquanto, mamãe.
- Como assim, por enquanto?
- Onde ela está? Deixou-a ir embora?
- Claro que não. Ela está descansando em seu quarto. Agora explique-se melhor.
Travis nunca vira sua mãe tão interessada em uma garota. Fosse o que fosse, estava
ficando preocupado.
- Não se preocupe, mamãe. Vamos aguardar os acontecimentos. Terá seu anel de volta.
- Eu sei, Travis. Eu sei. Pode ir tomar seu banho e trocar de roupa. O jantar está quase
pronto.
- Ótimo, estou faminto. Devo chamar Desirée?
- Não, ela está descansando. Já a avisei que jantaríamos assim que você chegasse.
Travis deixou-a e foi se arrumar. Procurou ouvir algum movimento no quarto em frente.
Estava ansioso. Não a tinha visto o dia inteiro e saíra de casa furioso com ela. Meia hora
depois, banhado e vestido, desceu as escadas apressado. A vontade de vê-la era
enorme.
- Desirée já desceu?
- Está vindo - respondeu Eugenia, simplesmente. Havia, no tom de voz de sua mãe, algo
que o deixou intrigado.
Quando ouviu a porta do quarto abrir-se no andar superior, ele dirigiu-se rápido para a
escada. Desirée já estava descendo. Ao vê-la, ficou perplexo. Ela estava vestindo as
roupas dele! De alguma forma, as reformara porque estavam perfeitamente ajustadas a
seu corpo. Pareciam feitas sob encomenda. Se Desirée não sabia costurar, então apenas
uma pessoa podia tê-la ajudado: sua mãe. A camisa, ajustada, deixava entrever o
contorno de seus seios. E as calças realçavam-lhe as curvas dos quadris. Quando ela
parou diante dele, deu uma volta, para que ele pudesse admirá-la melhor.
- O que acha, caubói?

CAPÍTULO IV

Travis respirou fundo e procurou acalmar-se, antes de olhá-la. Ela estava ainda mais
tentadora, vestida daquele jeito. Precisava desviar o olhar para resistir à tentação. Mas
não conseguiu.
Teria sido tão mais simples comprar-lhe um vestido... Mas com aquela roupa que lhe
realçava todas as curvas do corpo, era impossível afastar os olhos. E fora sua própria
mãe que a ajudara!
Era um complô, não havia a menor dúvida.
- Desculpem-me, crianças, mas acabei de me lembrar-disse Eugenia. - Haverá uma
comemoração para os empregados do rancho hoje à noite e prometi à cozinheira que a
ajudaria a servi-los. Vejo vocês mais tarde.
Travis olhou para a mãe, que estava de saída. Fora ela sem dúvida que ajudara Desirée.
Agora ia embora, deixando-os a sós. Ambas haviam tramado contra ele esperando que
explodisse de raiva. Desirée estava louca para brigar, mas ele não lhe daria esse gosto.
- Até logo, mamãe - murmurou calmamente.
Após Eugenia sair, Travis voltou-se para Desirée e percebeu que ela olhava para a porta,
desapontada.
- Eugenia, espere...
- Parece que ela te abandonou - Travis comentou com um sorrisinho irônico.
- É... Parece que sim.
Travis olhou-a sorrindo. Se ela podia encarnar uma personagem, ele também podia. Seria
gentil e cortês. Poderia até divertir-se com a situação.
- Nunca acompanhei uma mulher usando calças. Posso? - Ofereceu-lhe o braço.
Desirée engoliu em seco.
- Será um prazer.
Travis, tomou-a pelo braço e abriu a porta da sala de jantar fazendo-lhe uma mesura. Ao
ver a mesa posta com taças de cristal e castiçais com velas, foi tomado de surpresa. Que
tipo de jogo aquelas duas estavam armando?
- Sua mãe e eu queríamos fazer-lhe uma surpresa - ela explicou.
- Com o quê, exatamente? Os castiçais ou as calças? - ele lhe perguntou puxando-lhe a
cadeira.
Ela riu e aquele riso o contagiou.
- Com as calças, é claro. Não tive nada a ver com isso.
- Confesso que vocês me surpreenderam. Nunca vi uma mulher usando calças.
- Não acha que elas estão muito apertadas? - provocou-o, mas ele não entrou no jogo.
Queria ser ele o jogador.
Inesperadamente, Travis inclinou-se e passou-lhe a mão ao longo da perna, apalpando o
tecido. Ela tentou afastar a perna, mas ele a segurou.
- O que está fazendo, caubói?
- Checando certos pontos - afirmou. Temendo ter levado o jogo longe demais, soltou-a.
Ela retraiu-se e Travis viu medo em seus olhos. Evidentemente, não estava preparada
para aquele tipo de jogo. - Se as ferver em água quente, poderá deixá-las ainda mais
justas - provocou-a.
Desirée corou e ele surpreendeu-se. Como uma mulher ardilosa, que passava por
experiente, podia mostrar-se tão tímida? não a conhecesse bem iria achá-la uma moça de
família. Mas uma ladra virtuosa? Impossível!
- Eu te avisei. Não tinha mais nada para vestir - ela disse nervosamente.
- Você deixou isso bem claro esta manhã.
- Depois de seu comentário machista, quis provar que estava errado.
- Foi minha mãe que a ajudou na reforma?
- Sim, fui eu que a convenci a isso.
- Aposto que não precisou insistir muito para persuadi-la.
- De fato. Nós duas concordamos que precisávamos fazer alguma coisa.
- Mas não isso! Não podiam ter ajustado um dos vestidos de minha mãe?
- Impossível! Daria muito trabalho, levaria dias. Preciso de roupas para já!
Travis passou a mão pelos cabelos, alisando-os para trás. Jamais conhecera uma mulher
tão segura de si, tão sedutora. Queria desesperadamente levá-la para o quarto, arrancar-
lhe aquelas calças apertadas e tomá-la entre seus braços.
Nesse instante a cozinheira entrou para servir o jantar e saiu em seguida, deixando-os a
sós.
- Pensei que fosse me levar de volta para a prisão - ela continuou. - E nestes trajes,
poderíamos tratar de igual para igual.
- Então é por isso que vocês duas armaram esta pequena rebelião?
- Ouvi você e sua mãe discutindo na outra noite.
- Hum... sei. E o que você ouviu, Desirée?
- Que você quer me levar de volta para a prisão.
- Não, não vou levá-la para a prisão. Pelo menos não ainda.
- Graças a Deus! E o que o fez mudar de idéia?
Travis deu de ombros. Era melhor não contar que a estava investigando.
- Não estou com pressa.
- Mas devia estar. A minha intenção é partir o quanto antes... Travis fez que não ouviu a
provocação. Tranquilamente pegou um prato e serviu-lhe um pedaço do assado.
- Aliás, seu baú deve chegar depois de amanhã. Mandei buscá-lo para você.
- Obrigada. - Rose puxou a gola da camisa para cima queixando-se: - Não entendo como
vocês homens, conseguem usar roupas tão apertadas! Tenho a impressão de que os
botões da camisa vão saltar a qualquer momento.
Travis engasgou com a comida e começou a tossir.
Rose o acudiu dando-lhe tapinhas em suas costas.
- Levante os braços, caubói. Aprendi isso com Isaiah, meu criado.
Travis se recompôs rápido e continuou a brincar.
- Perder um botão pode ser perigoso... Ela corou e fingiu não entender.
- Estou preocupado com esse botão. Se saltar, parte de seu corpo ficará exposta. Um
pouco de exposição
faz bem para o espírito - tornou a provocá-la.
- Ah, caubói. Eu apenas me comunico com espíritos. Você está confundindo as coisas...
- Se já terminou, podemos voltar para a sala de estar. - Travis percebeu de repente que,
contrariamente ao que se propusera, fora longe demais. Era melhor acabar de vez com
aquele clima de sensualidade que se instalara entre ambos.
- Mas ainda não comemos a sobremesa! Não vai querer? Ele hesitou. Se não tomasse
cuidado, perderia o controle novamente e não responderia por seus atos.
- Agora não, obrigado. Quem sabe mais tarde.
Sentada em uma das poltronas da sala de estar, Rose observava-o discretamente. Usara
aqueles trajes para irritá-lo, mas o feitiço virara contra a feiticeira. Em vez de sentir-se no
controle da situação, sentia-se na verdade desconfortável naquele par de calças
apertadas. Não só não havia obtido o efeito desejado, como o deixara indiferente, a ponto
de ele não demonstrar nenhum tipo de reação.
Mantivera-se senhor de si e ainda a provocara o tempo todo, deixando-a sem-graça e
vulnerável. Entediada, esticou as pernas, sem deixar de observá-lo. Travis lia o jornal,
calmo, bebendo seu uísque, absorto na leitura. Aquele clima de indiferença tornava-a
ainda mais ansiosa e mais arrependida da bobagem que fizera. Por que fora provocá-lo?
O silêncio pesava no ambiente e Travis não lhe dava a mínima atenção.
Acariciou a estátua de querubim que estava sobre a mesa ao lado e perguntou:
- Acredita em anjos?
Travis levantou os olhos do jornal.
- Não sei. Nunca pensei nisso - respondeu e voltou a ler.
- Eu acredito. Eles são os mentores espirituais que nos acompanham para outra
dimensão, depois que morremos.
- É mesmo? - Travis pegou o copo de uísque ao seu lado, deu um trago.
- Você não acredita que haja outra dimensão?
- Não tenho o hábito de pensar no que irá acontecer depois que eu morrer. Acho que só
irei descobrir quando chegar a hora. - Tomou outro trago de uísque.
Rose levantou-se e olhou pela janela.
- Olhe, a lua está cheia! Faiscante, como diria meu pai.
- Ele era do tipo romântico?
- Papai era o tipo de homem que as mulheres amavam. Sabia compreender a alma
feminina. Foi por isso que mamãe casou-se com ele.
Travis abaixou o jornal e perguntou: - Onde estão seus pais?
- Mamãe morreu quando eu era pequena. Mal me lembro dela. Mas as pessoas ainda se
lembram de Rosalyn Severin. Foi uma grande atriz de teatro. Atuou na Broadway até
morrer.
- E seu pai? Era ator também?
Rose riu. Se contasse a verdade sobre seu pai, estaria dando a Travis seu passaporte
para a cadeia. Não, fantasiar sobre sua infância era muito mais agradável e mais seguro
do que dizer a verdade. A última vez que o vira fora em Kansas, e esperava nunca mais
ter de encontrá-lo.
- Ele era filho de banqueiro, e amava o teatro. Meu avô não aprovava esse tipo de arte,
muito menos as atrizes. Meu pai freqüentava o teatro e a ópera, e foi assim que conheceu
minha mãe, e se apaixonaram.
Papai deixou para trás uma vida de riqueza e luxo para viver com mamãe. - Suspirou e
encarou Travis, que parecia não ter acreditado em uma só palavra de sua história. Antes
que ele fizesse mais perguntas, decidiu mudar de assunto. - E seus pais, como se
conheceram?
- Não sei. Meu pai não costumava falar sobre seu passado e minha mãe falava apenas de
sua família.
- Nunca perguntou?
- Não, nunca me interessei.
- Por que não? Não tem curiosidade de saber?
- Confesso que não. - Virou a página do jornal.
- Mas eles se amavam?
- Tinham um acordo. Minha mãe cuidava da casa e meu pai dos negócios.
- Mas havia paixão entre eles?
- Meu pai amava minha mãe, mas não com paixão. Simplesmente a amava porque ela
sempre foi boa esposa, boa mãe e dona de casa dedicada.
- E o que os manteve juntos por tanto tempo? Amor?
- Para mim, o amor é a conseqüência natural do que acontece entre um homem e uma
mulher que passam uma vida juntos, conhecendo-se. Paixão é um sentimento
momentâneo, logo passa.
- Não concordo. É a paixão que move o amor, que faz com que ele cresça. É
conseqüência da união entre duas pessoas que se sentem atraídas.
- Paixão é uma emoção temporária, é puro desejo. Não precisa ser necessariamente por
uma boa mulher. Mas é preciso que haja atração, emoção, sensualidade.
Rose nunca tentara seduzir um homem antes, mas esta parecia ser a oportunidade
perfeita para testar Travis e provar que ele estava errado. Foi até ele e inclinou-se diante
da poltrona onde estava e o encarou.
- Se sentisse paixão por mim, não me consideraria uma boa mulher? - perguntou com voz
macia e sedutora.
- Essa pergunta é difícil de responder. Por vários motivos. Primeiro: as damas que eu
conheço não se vestem com trajes masculinos apertados e provocantes para acentuar
suas curvas. Segundo, não organizam sessões espíritas para enganar os outros. Terceiro
e mais importante, não roubam. E principalmente, não seduzem os homens, assim como
você está fazendo.
Rose inclinou-se ainda mais para ele.
- Não provoco os homens, Travis. Tampouco tento seduzi-los. Não tenho culpa se você
se sente atraído por mim.
- Não me subestime, querida. Sou homem. Como pensa que reage um homem diante de
uma mulher que veste esses trajes?
Rose não gostou nem um pouco da resposta.
- Então, acha mesmo que não sou uma dama? Ele nada disse e ela continuou:
- Você tem razão, Travis, uma dama não se veste desta forma. Devia ter pensado melhor
e andado nua por aí. Pelo menos não estaria quebrando as regras que a sociedade
impõe: mulheres devem vestir apenas roupas femininas. Seria melhor também não ajudar
as pessoas a esquecer a dor que sentem pela perda de seus entes queridos. Desta forma
eu não teria um emprego e morreria de fome. Uma verdadeira dama não se aproximaria
de você e nem pensaria no toque de seus lábios sobre os meus, quando me beijou. Nem
admitiria a paixão que senti. - Dito isso, respirou fundo e aproximou-se ainda mais, quase
o tocando. - Mas talvez eu não queira ser uma dama.
Travis puxou-a para seu colo com rudeza.
- Então fico à vontade para fazer isto.
Seus lábios cobriram os dela e Rose sentiu o gosto da bebida que havia neles.
O jornal caiu. Travis atraiu-a ainda mais para si e aprofundou o beijo enquanto lhe
acariciava o pescoço, deslizando a mão sobre a camisa para sentir-lhe os seios.
Rose deixou escapar um gemido. Desejava mais, muito mais. Nunca se sentira assim
antes. Nunca entregara seu coração a homem algum. E agora estava perigosamente
próxima de fazê-lo.
De repente, ele interrompeu o beijo e levantou-se com precipitação.
- Não é certo, não é justo com você.
Travis passou a mão pelos cabelos, e pôs-se a andar de um lado para outro da sala.
Estivera prestes a perder o controle. E bem na sala de sua mãe! Deus, ela poderia ter
entrado a qualquer momento e os flagrado juntos.
- Não podemos continuar nos beijando desse jeito - ele disse nervoso.
- Qual é o problema de nos beijarmos? Eu estava adorando. - Rose ainda tinha os olhos
semicerrados.
- Não podemos, não devemos...
- Por que não? Somos ambos livres e adultos.
Travis respirou fundo. Como poderia explicar-lhe que não estava interessado numa
mulher como ela?
- Desirée o que eu procuro é uma mulher de princípios. Para ser minha companheira,
você teria de ser digna, honesta...
- Como se atreve? Nada sabe a meu respeito. E embora isso deva ser um grande
desapontamento para você, saiba que não estou tentando seduzi-lo. Só quero ir embora!
- Olhe para você! Sempre com esse brilho no olhar, esse sorriso nos lábios, andando por
aí como... como uma mulher qualquer. Uma leviana!
Rose perdeu completamente a calma.
- Como ousa me chamar de leviana! Esse brilho no olhar não é sedução, é indignação! Só
um idiota não perceberia a diferença!
- Nenhuma mulher decente me beijaria dessa forma.
- Seu conceito de mulher decente deve ser o mesmo de uma mulher que nunca teve que
trabalhar para se sustentar. Que nunca pensou em cuidar de si mesma! E que nunca
beijou um homem! Travis respirou fundo. Estavam praticamente gritando um com o outro,
e ainda assim sentia vontade de agarrá-la e beijá-la. Mas não podia.
- Deixe-me em paz! Não quero me envolver com uma garota como você.
- Por que acha,que eu quero me envolver com você? Se devolver minhas roupas, posso
partir agora mesmo e fingir que nunca nos conhecemos.
Travis hesitou. Melhor não. Não poderia deixá-la sair de sua vida. Tinham ainda que
acertar algumas contas.
- Sabe a resposta. Devolva o anel e a levo para a cidade hoje mesmo.
- Chega! Estou cansada de falar sobre isso. Não vou perder meu tempo. - Rose deu meia-
volta e subiu as escadas com a altivez de uma rainha.
Por que não discutir mais? Se ela fosse inocente, tentaria ao menos se defender!
- Volte aqui! Ainda não terminamos.
- Então fale sozinho! Para mim basta. Boa noite. Ele ainda queria beijá-la. E não sabia por
quê.
Instantes depois, cansado, Travis recolheu-se. Apagou o lampião e tentou dormir, mas
revirou-se na cama durante horas. Imaginava Rose, naqueles trajes que a deixaram tão
sexy. Desejava-a cada vez mais, não podia negar. Mas por mais que fizesse, algo
impedia que se deixasse arrebatar de vez por aquela linda mulher. Até quando poderia
resistir aos seus encantos?
Uma hora depois, ajeitou o travesseiro. Mas só foi conseguir dormir de madrugada. Travis
acordou com o latido de cães. Levantou-se rapidamente, vestiu as calças e passou a mão
no rifle. Seria Desirée fugindo? Atravessou o corredor apressado e abriu a porta do quarto
dela com um pontapé.
Ela sentou-se na cama, assustada.
- O que foi?
Ao vê-la de camisola, com os cabelos caindo-lhe pelos ombros, desejou por um instante
deixar a preocupação de lado e ficar ali ao seu lado. Ela estava tão bela, tão sedutora...
Mas o latido insistente dos cães o fez lembrar-se de suas obrigações.
- Nada. Desculpe ter acordado você - murmurou meio sem jeito.
- Você abre a porta de meu quarto com violência, não diz por que e ainda espera que eu
volte a dormir como se nada fosse?
- Temos problemas, não saia daqui.
Travis desceu as escadas, com a arma em punho. Da janela da sala viu um homem, um
estranho montado a cavalo, parado diante da casa. O capataz do rancho e mais um
empregado também chegavam empunhando os rifles. Mais tranqüilo, saiu para a varanda
e perguntou:
- Quem é você? O que quer aqui?
O estranho desmontou e os homens de Travis engatilharam suas armas.
- Eu... eu não quero causar problemas, senhor.
Desirée, que havia descido as escadas logo atrás de Travis. correu na direção do recém
chegado e jogou-se em seus braços.
- Isaiah! Isaiah! Graças a Deus você me encontrou! Estava tão preocupada...
- Srta. Rose, que bom vê-la! O que está fazendo aqui?
- É uma longa história, Isaiah. Mas agora que me encontrou, não ficarei aqui por muito
tempo.
Travis percebeu que era o criado de Desirée e ordenou aos seus homens:
- Baixem suas armas, homens, e voltem para o alojamento. Já está tudo resolvido.
Os homens lhe obedeceram, olhando de vez em quando para trás, curiosos em saber
quem era realmente aquele estranho que acabava de chegar.
Isaiah curvou a cabeça num cumprimento.
- Sou Isaiah Wilkes, senhor. Criado da srta. Rose. Desculpe por vir tão tarde e incomodá-
lo a esta hora.
Travis franziu as sobrancelhas, intrigado.
- Chamou-a de Rose?
Desirée engasgou e Isaiah a encarou, com um sorriso, antes de responder:
- Sim, senhor, srta. Rose Severin, também conhecida como Desirée, portadora dos
mortos. Travis olhou-os com indignação. Fora mesmo um tolo, devia ter imaginado que
Desirée não era seu nome verdadeiro.
- Rose? Da França? - perguntou com sarcasmo na voz.
- Não faça tempestade em copo d’água, Travis. Meu nome verdadeiro é Rose Severin.
Nasci aqui mesmo na América. Mas meu nome artístico é Desirée - confessou-lhe com
desenvoltura.
- Em que ocasião costuma trocar de nome, senhorita? Quando arma uma farsa nova, ou
toda vez que muda de cidade? - perguntou, olhando para Isaiah, que deu um passo atrás
e pôs-se a retirar a sela do cavalo.
- Basta, caubói. Estou cansada de suas insinuações!
- Não me importo com que o você pensa. Mentira é mentira. Deveria ter me contado que
seu nome era Rose.
- Para quê? Para você me arrastar até a prisão como Rose, em vez de Desirée? Ou quem
sabe para você me trazer para sua casa como Rose e não Desirée? Ou porque Rose se
parece mais com um nome de dama do que Desirée?
Travis queria dizer que era porque tinha dado o nome errado ao detetive, mas essa era
uma informação que tinha que guardar para si mesmo. Ela continuou:
- Não está jogando limpo, caubói. Então por que não posso fazer o mesmo? Seqüestro
não é uma atitude nobre.
- Tem razão, não estou mesmo. Não costumo jogar limpo com pessoas que tentam
enganar ou roubar minha família - retrucou Travis com impaciência.
- Sou culpada até que se prove o contrário. É o que diz a lei.
- Srta. Rose, vou levar o cavalo até a cocheira está bem? - interveio Isaiah.
- Vá, Isaiah. - Ela voltou-se para Travis e continuou: - Ou pensa que leis não foram feitas
para serem cumpridas?
- Certamente quando essa lei foi promulgada, não deviam existir desonestas como você!
- Estamos em plena madrugada, estou cansada e você já me aborreceu demais. Sugiro-
lhe que me deixe em paz, caso contrário acabaremos aos tapas.
- Ótimo, pelo menos assim não estaria me beijando! Rose desafiou-o.
- Acorde, caubói! Não vê que estamos atraídos um pelo outro. Não sei por que, já que
somos muito diferentes. Mas que essa atração existe. Existe, entendeu!
- Ainda assim. Seus tapas devem ser mais doces que os beijos, que dissimulam o fel de
suas trapaças!- retrucou Travis com desdém.
Subitamente ela teve um acesso de riso cheio de sarcasmo.
- Acabei de admitir que me sinto atraída por você e a única coisa que você consegue me
dizer é isso? Você não sabe mesmo lidar com uma mulher!
Apesar do ataque de fúria, Travis guardou silêncio. Estava tentando ainda assimilar o que
ela lhe dissera.
Estava atraída por ele assim como ele por ela. Sua raiva passou. Mas lembrou-se das
mentiras. Claro que já deveria ter dito o mesmo a outros homens.
Por que acreditar que ele era o primeiro? Desejava desesperadamente acreditar nela,
mas não podia. Desejava, mas diante de todos aqueles fatos, não conseguia!
- Como posso saber se não está apenas tentando me seduzir para que eu a deixe partir?
Rose proferiu uma série de palavras em francês com um brilho de ironia no olhar.
- Não entendi o que disse. Fale claro para que eu possa entender.
Rose voltou-se sem dizer palavra, deixando-o sem ação, ao lado de Isaiah, que acabava
de voltar da cocheira.
- Sabe o que ela disse, naquele francês enrolado? - perguntou Travis ao criado.
Isaiah deu de ombros.
- Não sei ao certo, senhor. Só sei que boa coisa não é! Travis entrou e foi direto para o
escritório. Ali, sozinho, tentava organizar seus pensamentos. Nunca uma mulher lhe
dissera tão abertamente que se sentia atraída por ele.
Não sabia se dizia a verdade ou queria apenas manipulá-lo. Quem era essa mulher que o
destino colocara a sua frente para desafiá-lo? Não conseguia obter uma resposta
convincente. Talvez, com o relatório do detetive em mãos, poderia finalmente esclarecer
suas dúvidas e apaziguar seu coração.
Rose nunca se sentira tão desanimada em toda a sua vida. Seu temperamento alegre de
sempre esvaía-se, consumido pela energia daquele homem soberbo e de temperamento
instável. Apenas o retorno de Isaiah na noite anterior a acalmara. Agora caminhavam,
lado a lado, ao redor do pequeno lago. Um pássaro verde sobrevoava as árvores, e
borboletas dançavam sobre as flores silvestres que cresciam na beira do caminho. A luz
dourada do sol refletida na água e uma leve brisa matutina os envolviam, estreitando
ainda mais os laços de amizade que havia entre eles.
Esta era sua primeira chance de conversarem a sós, desde seu reencontro.
- Parece que você partiu há semanas, Isaiah. Como está seu pai?
- Está muito velho, srta. Rose. Queria muito que pudéssemos ficar nesta cidade por mais
tempo, para poder visitá-lo novamente.
- Eu, também gostaria. Estávamos indo muito bem em Fort Worth. Poderíamos ter
poupado o suficiente para nossa viagem a Nova York.
Mas em vez disso, estava presa no rancho com Travis, a quem ainda não conseguia
decidir se gostaria de estrangular ou beijar. Eram emoções contraditórias que a exauriam.
- Creio que não posso abusar da hospitalidade dos Burnett por muito tempo. Teria tentado
fugir novamente, não fosse você chegar, Isaiah. Estava esperando que me encontrasse.
E agora, graças a Deus está aqui.
- Confesso que tive de procurá-la bastante, senhorita. Assustou-me o fato de não
encontrá-la em casa. Pensei que tivesse partido sem mim.
- Nunca o deixaria, Isaiah. Não tive outra escolha.
- Foi o que o xerife me disse. Ele afirmou que o sr. Travis a estava mantendo aqui, pois
acredita que roubou o anel de sua mãe. - Isaiah a olhou com compaixão. - Que história é
essa, senhorita?- Nem mesmo sei como é esse anel. Travis, que não sabe nada a meu
respeito, presume sempre o pior sobre mim.
- Ontem à noite disse que se sentia atraída por ele. É verdade?
- Não sei. Sempre que começo a pensar que ele é um homem bom, ele me acusa de
alguma coisa. Ele acredita que sou uma mulher que engana as pessoas, que sou uma
qualquer. Imagine só, Isaiah. Eu, uma qualquer!
- A senhorita é uma bela mulher. O sr. Travis não pode imaginar que nunca teve
experiência com homens. Não sabe que é uma lutadora, que sempre procurou se
sustentar sozinha e da única maneira que pôde.
- Travis nem sequer me deu uma chance de mostrar quem sou de verdade, Isaiah. Ele
teve uma vida fácil, uma família estruturada, casa, conforto. Foi sempre cercado de
carinho. Deve ter estudado e até se formado. Nunca soube o que é passar fome e,
principalmente, não teve o pai que eu tive. Um pai que nunca foi presente, que trocava de
mulher a todo instante...
- Mas é pelo sr. Travis que se sente atraída ou pela vida tranqüila que ele pode lhe
proporcionar? Quer uma família e filhos, srta. Rose, ou quer ser uma grande atriz como
sua mãe?
Rose o encarou. Isaiah era como se fosse um pai para ela. E sua pergunta a pegou de
surpresa. Nunca tinha considerado outra possibilidade em sua vida, a não ser atriz.
- É claro que desejo o que sempre sonhei. Ser atriz, você sabe.
- Perguntei por perguntar. Queria ter certeza de que não havia mudado de idéia.
- Só porque conheci um homem respeitável não quer dizer que eu tenha desistido de
tudo.
- Se é isso mesmo que deseja, deve perseguir seu sonho. Mas às vezes nossos objetivos
tomam outro rumo, srta. Rose, e isso é normal.
- Nada mudou, Isaiah. Ainda quero ir para Nova York. Serei tão famosa quanto minha
mãe, você verá. Quanto mais cedo sairmos daqui, melhor. Vamos esperar apenas o
tempo para que você dê o suporte necessário para seu pai que está doente e sua família.
Depois vamos partir, com ou sem a permissão do sr. Travis.
- Ainda não respondeu minha outra pergunta, srta. Rose.
- Se estou atraída por Travis ou pelo conforto que ele pode me proporcionar?
- Sim, senhorita.
Ela observou o lago a sua frente antes de responder.
- Deve ser o tipo de vida que ele tem. Estruturada, num belo lugar, gozando de conforto...
Certamente não devo estar atraída pelo homem que ele é. Somos completamente
diferentes, não poderia dar certo. Honestamente? Somos incompatíveis, Isaiah.
O criado assentiu, mas com uma ponta de dúvida.
- Tome cuidado. A senhorita não tem muita experiência com homens e assuntos do
coração.
- Não se preocupe, tomarei todo o cuidado que puder. Rose apanhou algumas pedras do
chão e começou a atirá-las ao lago.
-Há outra razão qualquer para que fiquemos aqui mais tempo, senhorita?
- Por que, Isaiah?
- Soube que a Companhia de Teatro Hudson virá para a cidade. Eles estão montando
uma nova versão de A Megera Domada e irão fazer testes para selecionar novos talentos.
Seria uma ótima oportunidade para a senhorita testar suas aptidões naturais.
- Mas que notícia maravilhosa! Farei o teste e conseguirei um papel, você verá!
Finalmente nossa vida começará a dar certo. - Rose demonstrava um novo brilho no
olhar.
- Esqueceu-se de que o sr. Travis não quer que deixe o rancho?
- Não. Mas ele não poderá me manter aqui por muito tempo. Desde que chegara, fizera
de tudo para demonstrar que era uma mulher honesta. Travis iria descobrir por si só quem
ela realmente era e do que era capaz. De certa forma, ela era uma mulher madura para
sua idade. A vida encarregara de lhe mostrar, apesar de todas as dificuldades que já
enfrentara, que o verdadeiro caminho a seguir era o da retidão, moral e princípios que
aprendera desde pequena. Seu trabalho, só lhe dava o suporte para sobreviver, até uma
chance mais significativa cruzar o seu destino. Nunca roubara ninguém, pelo contrário,
dava esperança às pessoas que estavam fragilizadas pela perda de seus entes queridos.
Analisando de um certo prisma, não fazia nada de mal. Era uma espécie de conselheira,
que tinha como missão, minimizar o sofrimento alheio.
Anoitecia e as estrelas começavam a brilhar num céu azul profundo, cor de anil. Uma
brisa suave descera com a noite e Rose e Isaiah resolveram recolher-se. Ela percorreu o
olhar pela sala, à procura de Travis. Passara o dia praticamente ao lado de Isaiah que
além de cerzir seu único vestido, cuidara para que ele fosse também lavado e passado.
Dessa forma, sentia-se mais segura e preparada para enfrentar Travis. Eugenia a viu
quando passou diante da porta da sala.
- Entre, querida. Travis ainda não voltou do estábulo. Parece que uma das vacas está
tendo dificuldade no parto. Mas deixe-me vê-la. Você está muito bonita esta noite!
Conseguiu ajeitar o vestido muito bem.
- Isaiah o costurou para mim.
- Travis certamente irá reparar. Você está linda!
- Obrigada. - Rose sentou-se numa cadeira próxima à janela e pôs-se a observá-la,
enquanto ela tricotava. Talvez fosse o momento de se desculpar. Deveria lhe dar pelo
menos uma explicação a respeito de seu verdadeiro nome.
- Sra. Eugenia, há algo que preciso lhe contar.
- O que é, querida?
- Quando me conheceu na reunião espírita, apresentei-me como Desirée Severin. É o
meu nome artístico. Meu verdadeiro nome é Rose Severin.
Eugenia sorriu.
- Rose. Gosto mais do seu nome verdadeiro. Soa melhor do que Desirée.
- Sinto muito não ter lhe contado antes. Para mim, o nome artístico já é uma rotina em
minha vida. Só me dei conta quando Isaiah me chamou de Rose ontem à noite e Travis
ficou uma fera. Achou que eu o estava enganando de propósito. Desirée é apenas um
nome, parte de minha caracterização profissional.
- Travis sempre se irrita com facilidade, é igualzinho ao pai. - Eugenia ficou subitamente
séria. - Você me deve uma sessão espírita. Disse que tentaria entrar em contato com
Tanner. Ele era tão especial para mim... Não posso, não quero acreditar que tenha
morrido.
- O que sabe sobre seu desaparecimento?
- Foi na batalha de Atlanta. Nunca encontraram seu corpo. Pelo que sabemos também
não foi levado como prisioneiro. Ninguém sabe dizer o que aconteceu.
- Senhora, não quero que crie expectativas inutilmente. Não sei se poderei ajudá-la.
- Rose... você prometeu que tentaria...
- Está bem. Tentaremos, mas quando Travis não estiver por perto, prometo.
Após um breve silêncio, Rose, pensando na companhia de teatro, encheu-se de coragem
e perguntou:
- Preciso lhe pedir um enorme favor,senhora.
- Diga, querida.
- Isaiah soube que uma companhia de teatro estará chegando à cidade. Fará testes para
selecionar alguns atores dentro de duas semanas. Esta seria uma ótima oportunidade
para mim, pois desejo tornar-me atriz. Ajude-me a convencer Travis.
- Não sei o que dizer. - Eugenia baixou os olhos para seu tricô e voltou a mover as
agulhas com agilidade. - Lembro-me que você me disse que era filha de uma atriz
famosa. Quer seguir os passos de sua mãe?
- Gostaria muito e não posso perder essa oportunidade.
- É tão importante para você, querida?
- É o meu grande sonho, meu projeto de vida!
- Está bem, vou ajudá-la.
- Obrigada. A senhora é muito gentil.
- Não fique muito animada. É preciso que você fale antes com Travis. Você está sob sua
tutela.
- E se ele não concordar?
- Aí então verei o que posso fazer.
O pedido de Eugenia era bastante razoável e Rose decidiu aceitar.
- Está bem. Falarei com ele hoje mesmo.
Trinta minutos se passaram antes que Rose ouvisse os passos de Travis na varanda. Sua
respiração acelerou-se. Ele entrou com ar cansado e as roupas sujas de sangue.
- E então? Como foi o parto? Correu tudo bem? – quis saber Eugenia, ansiosa.
- Por enquanto, está tudo sob controle, mamãe.
- Que bom, meu filho. Fico feliz em saber que os animais não estão mais sofrendo.
Rose comoveu-se. Travis era um homem de bons sentimentos. Queria odiá-lo, mas não
conseguia. Porém, magoava-a saber que ele a tinha em péssimo conceito. Jamais
roubara, mesmo nos momentos mais difíceis de sua vida.
- Se sobreviverem a esta noite, ficarão bem, mãe e bezerro. - Travis sentou-se numa
cadeira e jogou o chapéu longe. - Deus, estou exausto!
- Eu também. - Eugenia olhou para Rose. - Acho que vou me recolher agora que sei que
os animais estão bem. Boa noite, queridos.
Rose a observou deixar a sala e depois voltou-se para Travis, que tinha a cabeça jogada
para trás, os olhos fechados, exausto.
- Dia difícil, caubói?
- Sim, foi exaustivo.
Ela hesitou. O momento não era dos mais adequados, mas decidiu ir em frente.
- Preciso lhe falar, Travis.
- Tem que ser hoje?
- Infelizmente sim. - Começava a sentir-se apreensiva. Travis olhou-a com um misto de
cansaço e curiosidade.
- O que há de tão importante?
- Por quanto tempo mais pretende me manter aqui? Preciso saber, Travis.
Ele inclinou a cabeça para trás e novamente fechou os olhos.
- Você sabe, até devolver o anel.
- Então acho que ficarei aqui para sempre.
- Está bem. Mais alguma coisa?
- Estou falando sério. Você não pode me manter aqui para sempre.
- Posso, sim. A menos que prefira ir para a cadeia.
- Tenho que ir embora, Travis. Preciso cuidar da minha vida. Ele levantou a cabeça
impaciente.
- O que está acontecendo, afinal? Por acaso foi Isaiah que lhe disse que está na hora de
irem embora?
- Não, mas há algo importante que preciso fazer.
- Importante, você? - rebateu Travis com uma pitada de sarcasmo na voz.
- Há um grupo de teatro vindo para a cidade na próxima semana. Farão alguns testes e
eu quero tentar.
Quero ter um papel na peça - disse Rose com a voz mais branda.
- Não! Absolutamente não! Para que você vá embora e se junte a um grupo de teatro que
provavelmente não tem moral, princípios e...
- E quem foi que o proclamou meu guarda-costas, caubói? - ela retrucou com mal contida
cólera.
- Foi você, ao roubar o anel de minha mãe! Está confinada nesta casa até que eu lhe diga
o que fazer e para onde ir. E garanto que isso não acontecerá tão cedo.
- Travis Burnett! - Rose colocou-se na frente dele com as mãos nos quadris. - Engana-se,
se acha que vai me impedir de fazer o teste - declarou e saiu da sala correndo.
Esperei por essa oportunidade a vida inteira. Meu trabalho até agora nunca me deu
prazer, apenas a minha sobrevivência e a de Isaiah. Meu sonho está a um passo de
tornar-se realidade e não será você que irá destruí-lo, caubói. De um jeito ou de outro,
farei o teste! Serei uma atriz como minha mãe!
- Vai deixar Rose fazer o teste, não é? - Eugenia perguntou, aflita.
Travis não se conformava. Sua própria mãe tomando partido dela outra vez.
- Não, até que eu consiga seu anel de volta, mamãe.
- Não me parece um motivo justo.
- Acha mesmo que eu deveria deixá-la ir? Acha que alguém, em sã consciência, a
deixaria livre para vender seu anel, ou quem sabe fugir para só Deus quem sabe onde?
- Ela não vai vender coisa alguma, meu filho.
- Sabe o quê eu penso, mamãe? A senhora parece tranqüila demais para quem acabou
de ter uma jóia roubada. Tranqüila a ponto de apreciar a companhia da presumível ladra.
O que está acontecendo, afinal?
- O que quer que eu faça? Que a ignore? Rose é uma boa moça, que por um infeliz acaso
foi a última pessoa com quem estive quando meu anel desapareceu. Mas não tenho
certeza se foi ela ou não que o roubou.
- Eu praticamente a seqüestrei! E só agora a senhora diz que não tem certeza! Ficarei
com remorso se essa acusação for infundada.
- Quem mais podia ser? Não havia mais ninguém conosco - disse Eugenia,
dissimuladamente.
- Então não vejo motivos para deixá-la participar dos testes.
- Que mal pode haver nisso, Travis? Ela não irá fugir. Você pode acompanhá-la para ter
certeza disso.
- Já disse que ela não fará os testes.
- Travis, às vezes, acho que você é mais teimoso que seu pai!
- Vou aceitar isso como um elogio, mamãe.
Travis passou o dia cavalgando pelo rancho, checando o gado, dando instruções ao
capataz, cuidando enfim, dos interesses e do bem-estar da família. A tarde desdobrava
sua amplitude dourada. A luz agora era menos intensa e os últimos raios de sol tingiam o
céu no horizonte de matizes avermelhados. Não via a hora de chegar em casa e
descansar. No caminho, pensou em Rose. Apesar de toda a sua irreverência, e de seu
temperamento difícil, não conseguia controlar o desejo que sentia por ela. Os beijos que
trocaram, os momentos de maior intimidade e a lembrança de seu perfume... por mais
que lutasse contra, ainda estavam vivos em sua mente, fazendo com que ele a desejasse
ainda mais.
O que o destino pretendia, ao colocar em seu caminho aquela bela mulher? Linda,
misteriosa, atraente... e desonesta? Estava ainda divagando, quando notou que algo
diferente estava acontecendo no celeiro. Esporeou sua montaria, levando-o do trote ao
galope e prosseguiu a toda brida. Ao chegar, puxou as rédeas de seu cavalo e desmontou
rapidamente. Um barulho estranho vinha do interior do celeiro: vozes sintonizadas, e uma
luz que podia se entrever através das frestas da construção. Aproximou-se mais e abriu a
porta. Mal pôde acreditar ao se deparar com alguns empregados do rancho, sua mãe e
Rose, naturalmente, reunidos em círculo, ao redor de uma mesa com uma vela ao centro,
pronunciando uma prece. Que insensatez! Uma vela acesa no celeiro! Bastaria uma
fagulha e o celeiro inteiro estaria em chamas!
Ouviu a voz de Rose:
- Tanner, estamos reunidos em seu nome, para que seus entes queridos possam...
- O que diabos está acontecendo aqui? Apaguem logo essa vela! - trovejou Travis
perdendo a paciência.
Um dos empregados apressou-se em apagá-la e acender o lampião.
- Antes que se zangue com Rose, filho, saiba que fui eu a culpada. Ela organizou essa
sessão a meu pedido - avisou-o Eugenia.
- Vá para casa, mamãe. Conversaremos depois. Aliás, por que todos vocês não fazem o
mesmo? Quero conversar com a srta. Severin a sós? - disse dirigindo-se para os
empregados.
Eugenia levantou-se e saiu. Logo em seguida os empregados fizeram o mesmo. Só Rose
permaneceu onde estava. Séria e disposta a lutar pelos seus direitos.
- Mais uma vez você conseguiu estragar uma de minhas sessões, caubói. Isso não se faz!
- E mais uma vez você teve o disparate de organizá-la. Já deixei bem claro que não quero
sessões espíritas em meu rancho. Quantas vezes vou ter de repetir isso! - gritou Travis
com rispidez.
- Fiz isso por sua mãe. Foi ela que me pediu - defendeu-se Rose, tentando manter a
calma.
- Não me interessa! Não haverá sessões em meu rancho! Colocou o celeiro em risco, ao
acender uma vela. Onde está com a cabeça, srta. Severin?
- Preciso ocupar meu tempo. Esse é o meu trabalho. Portanto farei sessões espíritas aqui,
em seu rancho, sim! - desafiou-o com altivez.
- Você cobrou de meus empregados por isso?
- Claro que cobrei! Não trabalho de graça.
- Devolva o dinheiro agora mesmo! - ordenou Travis, quase aos gritos.
- Não, você não pode me obrigar!
- Se não me entregar o dinheiro agora, juro que a revistarei até encontrá-lo.
- Não ousaria, caubói!
Travis deu um passo à frente, em sua direção, e esperava com todas as forças que não
tivesse de levar a sua ameaça adiante. Pois se a tocasse novamente...
- Está bem! - Rose foi até uma pequena caixa de metal e dela retirou o dinheiro, que
entregou a Travis. - Aqui está o que arrecadei.
- Eu já a proibi de fazer sessões. Principalmente aqui, em meu rancho. Por que me
provoca, srta. Rose?
- Porque estou extremamente entediada, porque sua mãe quer encontrar seu irmão, para
ganhar dinheiro e finalmente porque preciso ir à cidade e me preparar para o teste da
companhia de teatro. Quero conseguir um papel na peça.
- Eu já lhe disse que não. Rose respirou fundo.
- Caubói, minha paciência já se esgotou. Esperava que compreendesse que não roubei o
anel de sua mãe. Mas para mim chega! Não tenho mais tempo a perder! Estou indo
embora.

CAPÍTULO V

A raiva de Rose aumentava, a cada passo que dava em direção à casa do rancho. Travis,
que tentava acompanhar seus passos, gritava atrás dela para que parasse. O sangue
fervia em suas veias. Detestava-o e estava determinada a se afastar dele o mais rápido
possível. Queria, e mais do que isso, precisava cuidar de sua vida. Não agüentava mais
suportar a situação tensa que se formara entre ambos. Exaurida, não suportava mais falar
sem ser compreendida, que não roubara o anel. Dirigiu-se apressada até seu quarto e
começou a guardar seus pertences. Assim que encontrasse Isaiah, deixariam Fort Worth
para sempre! Desceu as escadas e pensou que a situação não a permitia despedir-se de
Eugenia. Melhor assim, pois ela certamente tentaria convencê-la a ficar.
Precisava afastar-se de Travis antes que suas acusações ferissem não só seu orgulho,
mas sua alma. Antes que ele rompesse as últimas barreiras que protegiam seu coração e
a magoasse ainda mais.
Ao abrir a porta da frente, esperava encontrá-lo, mas o que viu foi um espetáculo que a
deixou fora de si. Uma fumaça negra subia pelo céu, vinda de dentro do celeiro, próximo
ao qual encontrava-se o estábulo.
- Oh, Deus! Os animais! - gritou, derrubando a frasqueira na varanda e pondo-se a correr
em direção às chamas. - Fogo, fogo! Socorro, acudam!
A porta estava fechada, e Rose ouviu os animais movimentarem-se aterrorizados dentro
das baias. E num desespero puxou a tranca de ferro. Uma nuvem de fumaça a atingiu,
fazendo com que seus olhos lacrimejassem. Tossiu, sufocada. O calor do fogo era
intenso, e por todo lado só se via chamas.
- Travis? - gritou, depois sentiu medo e relutou em entrar. Mas pensou nos animais em
perigo e dominou o pânico. Deu um passo para a frente e abriu a primeira baia, ficando o
mais longe que pôde do cavalo, para que ele, assustado, não a ferisse. Então, fazendo o
possível para reter o ar em seus pulmões, foi rapidamente de baia em baia e libertou
todos os animais. A madeira estalava em contato com o fogo que ardia em altas
labaredas, mas continuou a procurar e a gritar:
- Travis! Travis!
Estava assustada. O ar ficava cada vez mais denso, a temperatura estava insuportável e
sentia o suor cobrir-lhe o corpo.
Onde ele poderia estar? E por que ninguém vinha ajudá-la? Por um segundo, pensou que
ele pudesse estar morto, e entrou em pânico.
- Travis, onde está você? - As chamas a envolviam e Rose tossia sem parar. De repente
sentiu uma certa mão que tocou seu ombro e ela deu um pulo.
- Travis! - Num impulso, Rose atirou-se em seus braços. - Oh, Deus, Travis!
- O que está fazendo aqui? - Fora de controle ele a sacudiu pelos ombros.
- Os animais. Precisava salvá-los.
- Saia, por favor. Não vê que está correndo perigo! - tornou Travis levando-a para a porta.
- Não sem você!
- Soltarei o restante dos animais e sairei em seguida. Vá, Rose.
Tinham apenas alguns minutos antes que o teto desabasse, mas ela insistiu:
- Não vou deixá-lo!
- Então venha, comigo! Rápido, o teto ameaça desabar! - Correram como loucos até as
baias que restavam, e abriram rapidamente as respectivas portas.
Travis soltou os animais enquanto Rose os direcionava para fora do estábulo.
- Venha, vamos sair daqui - ele murmurou, já mais calmo. O mugido de uma vaca
assustada e de seu bezerro retiveram-na.
- Vamos, não há mais tempo! - insistiu Travis puxando-a pela mão.
- Vá você. Eu tenho que salvá-los.
- Vamos embora, Rose! O teto vai desabar a qualquer momento.
Ela o ignorou e conseguiu libertar a vaca, que saiu correndo. Mas o bezerro ficou
tremendo sobre suas pernas, sem poder mover-se. Alcançou-o e o empurrou para fora,
permitindo que o animalzinho fosse reunir-se com a mãe. O teto ruiu no exato instante em
que, exausta, jogava-se nos braços de Travis. Ele a puxou pelo braço, em direção à
saída, e só ao chegarem do lado de fora foi que perceberam que a saia do vestido de
Rose estava em chamas. Ele a abafou com as próprias mãos e depois deixou-a cair na
relva, ao lado dele, tossindo e engasgando. Sentiam na boca e garganta o gosto horrível
da fumaça que haviam inalado. Lágrimas escorriam de seus olhos irritados.
- Travis, Rose, vocês estão bem?! - gritou Eugenia aproximando-se em desespero.
Rose permaneceu no chão, respirando com dificuldade e Travis fez o mesmo. Passado
alguns segundos, ele voltou-se para a mãe.
- Eu estava voltando dos alojamentos, quando vi Rose entrar no estábulo em chamas.
Corri atrás dela, e juntos, salvamos os animais.
- Graças a Deus vocês estão bem! Mas irão precisar dos cuidados de um médico. Vou
mandar buscá-lo na cidade. -: Eugenia afastou-se rapidamente, enquanto os empregados
do rancho tentavam impedir que o fogo se espalhasse. Travis olhou para Rose, zangado.
- O que deu em você para entrar no estábulo em chamas? Poderia ter morrido.
- Eu... eu não podia deixar os animais morrerem. - Sua voz saiu entrecortada.
- Mas você nem mesmo gosta de cavalos.
- Não gosto. Mas nem por isso quero que sofram. Além disso, estava com medo que você
colocasse a culpa em mim, como sempre faz. Não queria ser a responsável pela morte de
seus animais.
- Eu deveria culpá-la, Rose. Afinal, se não tivesse organizado uma sessão no celeiro,
nada disso teria acontecido. Pensou algum segundo no perigo em que se meteu? Poderia
ter morrido!
Rose tossiu e inclinou-se para ver melhor o homem que, momentos atrás, estava disposta
a deixar.
- Não, Travis. A culpa é sua. Se me deixasse partir, poderia dar continuidade ao meu
trabalho.
No entanto, estou presa aqui, com um homem que não reconhece a verdade e que ainda
por cima é mal-agradecido! - Rose desabafou, engolindo as lágrimas presas na garganta.
- Não sou mal-agradecido. Mas você me assustou. Poderia ter morrido lá dentro!
- Eu sei que me arrisquei. Mas não podia deixar os animais morrerem, simplesmente não
conseguiria.
Travis aproximou-se, e segurou-a pelos ombros.
- Cada vez que penso que sei o que vai fazer, você toma outro rumo. Então me diga, o
que está planejando? Por que não fugiu. Rose?
Apesar de todos os esforços para demonstrar o contrário, ele ainda pensava o pior a
respeito dela.
- Alguma vez já lhe passou pela cabeça que posso ser inocente? Que você pode estar
enganado a meu respeito?
Estavam tão próximos... Tinham quase morrido juntos... Rose se enterneceu. Tudo o que
queria naquele momento era sentir a pressão dos lábios de Travis sobre os dela e o calor
de seu corpo.
Mas ele a desarmou ao dizer:
- Formei uma opinião a seu respeito assim que a conheci. E o que fez até agora, só
reforça o que eu penso. Que tipo de jogo está armando desta vez?
Travis passou o dia seguinte descansando e pensando em tudo que acontecera.
Havia sido um tolo em ir até o alojamento enquanto Rose se preparava para partir. No
entanto, ela desistira de fugir para salvar os animais. - Por quê? O que a levara a correr
para o estábulo em chamas?
O fogo havia começado quando ele fora ao alojamento, procurar por Isaiah. Queria lhe
pedir que colocasse um pouco de juízo na cabeça de Rose, que lhe desse alguns bons
conselhos. Mas o súbito barulho dos animais agitados e o de madeira estalando em
contato com o fogo, o fizeram voltar a tempo. A visão do fogo no celeiro, se alastrando
para o estábulo, o aterrorizara.
Vê-la em perigo, o transtornara demais, preocupara-o demais...
Rose era apenas uma mulher fácil, que enganava as pessoas de bem e que
provavelmente tivera mais amantes do que ele jamais pudera supor. Roubara o anel de
sua mãe e além de tudo o seduzira a ponto de fazê-lo perder a cabeça. Sabia, apenas,
que esse seu jeito sedutor era o que o fazia desejá-la desesperadamente. Tinha resistido
ao seu fascínio até aquele momento. Talvez se saciasse seus desejos... se
experimentasse seu néctar, a atração que sentia por ela desapareceria.
E poderia esquecê-la, como aconteceu com as outras mulheres que havia conhecido.
Rose sentia a garganta dolorida. Inalara muita fumaça na noite anterior. Ainda não
acreditava que tinha conseguido entrar no estábulo em chamas e salvar os animais. E
ainda assim, depois de tudo que fizera, Travis a tomava por uma mulher desonesta, sem
princípios e sem moral! A raiva que sentia aumentava na mesma proporção de seu desejo
por ele.
Não era nenhuma ingênua, mas nunca se comportara do modo que ele supunha. Apesar
disso, sentia-se atraída por ele. Queria fugir para bem longe, desaparecer, antes que se
apaixonasse perdidamente. E decidiu que partiria assim que estivesse recuperada. Bebeu
um pouco de chá e recostou-se nos travesseiros. Uma leve batida na porta interrompeu
seus pensamentos. Era Eugenia.
- Posso lhe fazer companhia?
- Naturalmente! Será um prazer. Por favor, entre e me diga o que disse o médico.
- Achou que vocês dois não deviam ter se arriscado tanto e que tiveram muita sorte em
saírem ilesos daquele inferno. E recomendou que repousassem e bebessem muito
líquido. Terão muita tosse nos próximos dias. Travis já está reclamando.
- Sinto-me culpada também em relação a ele.
- Não se preocupe, querida. Você salvou nossos animais e somos agradecidos por isso.
- Enfrentei o fogo e salvei-os, não por ser corajosa, mas porque estavam presos e
totalmente vulneráveis. Não queria vê-los sofrer.
- Ao contrário do que diz, você é muito corajosa. Gosto do modo como enfrenta meu filho.
Sei que está aqui a contragosto, mas admito que estou feliz em tê-la conosco.
- Obrigada, sra. Eugenia. Mas seu anel... A senhora ainda pensa que eu o peguei?
Eugenia fez silêncio por alguns segundos.
- Rose, espero que possa me per...
- Mãe! - O chamado veio do quarto de Travis. Eugenia suspirou e foi atender.
- Com licença, querida.
Travis não via a hora de poder voltar à suas atividades. Estava cansado de ficar dentro de
casa. Mas sua mãe o proibira de trabalhar.
Eram ordens médicas, dizia. Ele estava agora na sala e se distraía ora observando o
movimento do rancho pela janela, ora examinando papéis e documentos. Podia também
observar Rose andando de lá para cá, ainda vestindo suas calças. Ela queria ajudar nos
afazeres de casa, mas sua mãe a mandava de volta para o quarto ou então para a sala.
Era nesses momentos que podia admirar as belas curvas de seu corpo, acentuadas pelas
calças justas. O vestido que ela usara na noite anterior estava queimado, praticamente
fora de uso. Assim que se recuperasse, iria à cidade comprar vigas para um novo celeiro
e aproveitaria a ocasião para recuperar o baú de roupas de Rose. Estava ainda pensando
nisso, quando ouviu o ruído de um cavalo se aproximando. Olhou pela janela, e avistou
Tucker. Alguns minutos depois a porta da frente se abria.
- Onde estão todos? Viajei a manhã inteira e ninguém vem me receber?
- Estou aqui - gritou Travis.
Tucker entrou na sala e ficou surpreendido.
- O que aconteceu com você?
- Estou me recuperando de...
Rose aproximou-se, interrompendo a conversa.
- Olá, xerife. Devo arrumar meus pertences para uma visita à cadeia? - disse em tom de
brincadeira.
Travis viu o olhar fascinado do irmão deslizando por aquele corpo perfeito e sentiu uma
pontada de ciúme.
- Não que eu saiba. Talvez devesse prendê-la por ficar tão bonita com as calças de meu
irmão - respondeu-lhe Tucker com um certo olhar de cobiça.
Ela riu, um pouco envergonhada.
- Perdi meu vestido no incêndio do celeiro, e só me restou usar isso, desculpe.
- Por mim, todas as mulheres deveriam se vestir da mesma forma. Um belo par de calças
justas valorizam...
- Está bem, Tucker, já entendemos o que você quer dizer - interveio Travis, começando a
irritar-se.
- Veio até aqui para que leia sua mão novamente? - Rose esboçou um amplo sorriso.
Travis ficou a ponto de explodir. Ela nunca lhe sorrira daquele jeito.
- Não, senhorita. - Tucker sorriu também. - Vamos deixar a leitura da mão para outra
ocasião.
- Você é quem sabe - Rose continuava a brincar.
- Não quero conhecer meu futuro. Mesmo com uma dama linda como você, segurando
minha mão.
Travis sentiu raiva, verdadeira cólera, com aquela troca de sorrisos e gracinhas, mesmo
que ditas em tom de brincadeira. Ia desviar a atenção de ambos, quando sua mãe
chegou.
- Tucker, que bom que veio! - Eugenia abraçou o filho com carinho. - Já deve saber tudo
sobre o incêndio.
- Sim, e vim assim que soube. Queria ver com os meus próprios olhos se vocês estão
bem.
Eugenia o tomou pelo braço e foi com ele até o sofá.
- Felizmente tudo acabou bem. Foi um lampião que deu início a um incêndio no celeiro. O
fogo alastrou-se para o estábulo e Rose, corajosamente, salvou todos os animais que
estavam lá.
Foi um milagre ninguém ter se ferido.
Tucker olhou para Rose, confuso, e depois para o irmão.
- Rose? Pensei que...
- Sim, o nome dela é Rose Severin, e não Desirée - declarou Travis, irritado.
- Ah. Então, foi Rose que salvou os animais. E o que meu irmão estava fazendo naquele
momento?
- Assim que ele percebeu que eu estava lá dentro, foi me ajudar - Rose adiantou e
Eugenia confirmou.
- Rose viu a fumaça e saiu correndo para soltar os animais. Travis correu atrás dela.
Saíram de lá minutos antes que o teto desabasse.
- Fico feliz que esteja bem, meu irmão. - Tucker voltou-se para Rose. - E você, como
está?
- Bem, felizmente. Mas queimei meu vestido. Tucker deu riso aberto.
- Então é por isso que está usando as roupas de meu irmão?
- Sim, é por isso. Meu baú não chegou. Aquele vestido era o único que eu tinha para
vestir.
- Travis não quer que Rose vá sozinha à cidade, nem mesmo para comprar as roupas de
que precisa. Ela está confinada nesta casa, embora tenha salvado nossos animais,
inclusive Belle, sua égua preferida.
Travis olhou para a mãe, ressentido. Lá estava ela, mais uma vez contra ele. Tucker
interveio:
- Como xerife desta cidade, tenho o direito de mudar as regras que meu irmão lhe impôs,
Rose.
Adoraria levá-la para fazer compras. Depois de ajudar nossa família, como fez, creio que
Travis lhe deve um vestido novo.
Rose sorriu sem jeito.
- Oh, não! Não se preocupe.
- Eu insisto. Afinal de contas, é por culpa de Travis, que você está sem o seus pertences.
- Tucker! - protestou Travis.
- Ele tem razão, Travis. Você tem de lhe comprar um novo vestido já que ela perdeu o
único que tinha no incêndio - concordou Eugenia.
- Então vamos à cidade! - propôs Tucker.
- Ficaria muito feliz em levar Rose e mamãe, enquanto você se recupera, meu irmão.
- De jeito nenhum! Planejei levar Rose comigo assim que estivesse em condição de sair.
Preciso comprar madeira para as novas instalações do celeiro e do estábulo.
Rose parecia confusa.
- Mas não foi isso o que você disse na noite anterior quando lhe pedi licença para ir à
cidade!
Ao contrário. Disse-me que só poderia sair daqui, se o anel fosse encontrado.
- Mudei de idéia. Vou levá-la comigo - Travis murmurou em tom resoluto.
- E lhe comprará um vestido novo, querida - completou Eugenia.
- É o que eu vou fazer, srta. Rose!
Travis acompanhava sua mãe e Rose pelas ruas de Fort Worth, que admiravam
encantadas as vitrines das lojas da cidade. Uma semana havia se passado desde o
incêndio no celeiro e ainda não se conformava com o fato de ter sido praticamente
forçado a trazer Rose para a cidade.
Tinha a impressão de que com seu jeito espontâneo, ela conquistara não só sua mãe,
mas também seu irmão.
Ela merecia um vestido novo e muito mais que isso, por seu ato de coragem, mas não
admitiria que Tucker a levasse sozinho às compras.
Seu irmão não só a defendia como flertava abertamente com ela. Tratava-a como a uma
dama, esquecendo-se por completo do motivo pelo qual ele a levara ao rancho. O que o
aborrecia era que, mesmo usando o vestido de sua mãe, o corpo escultural de Rose
chamava a atenção de todos.
Tucker inclinou-se junto ao ouvido de Rose para comentar:
- É muito bonita, senhorita. Reparei que sua beleza atrai todos os olhares. Não só
femininos, mas, principalmente, os masculinos.
- Não tem o que fazer, xerife? Proteger a cidade por exemplo? - Hoje estou de folga e
achei que apreciasse a minha companhia.
- Melhor seria se você mantivesse os olhos bem longe dessa garota - disse Travis com ar
sério.
Tucker riu abertamente, chamando a atenção de sua mãe e de Rose. Eugenia voltou-se
para trás.
- O que é tão engraçado, Tucker?
- Meu irmão perdeu o senso de humor - ele respondeu.
- E por acaso ele já teve algum?
Tucker riu ainda mais e Travis encarou-o, com irritação.
Finalmente pararam diante de uma loja de vestidos e tudo acalmou-se.
- Vocês dois não precisam nos esperar - Eugenia avisou.
- Vamos demorar muito. Talvez horas. Por que não vão dar uma volta?
- De jeito nenhum, mãe. Preferimos ficar - respondeu Travis.
- Você é quem sabe. - Eugenia empurrou a porta da loja e todos a seguiram.
Os dois eram os únicos homens ali dentro e acabaram sentindo-se completamente
deslocados.
- Vamos ao saloon! - propôs Tucker.
- Não. Só espero que não demorem demais.
- Eu também, mas duvido. Mulheres fazendo compras...
- Gostaríamos de ver alguns vestidos para essa linda moça - disse Eugenia a uma
vendedora.
Travis puxou a mãe pelo braço e sussurrou-lhe:
- Não vá comprar um guarda-roupa inteiro!
- Tucker e eu vamos presentear Rose com um vestido cada um. E há também as
lingeries. Eu lhe disse que íamos demorar! - Ela voltou-se para Rose, e juntas
desapareceram atrás de um biombo.
Travis encarou o irmão, controlando-se para não explodir.
- Vai comprar um vestido para Rose? Perdeu o juízo? Tucker deu de ombros.
- Ela salvou parte dos negócios da família e mamãe sugeriu que eu também a
presenteasse.
- Podia ter ajudado mamãe a se controlar, não acha?
- Por que está tão nervoso? Rose merece. Se não fosse por ela, teríamos um grande
prejuízo em gado e cavalos.
- Não estou nervoso. Mas parece que vocês esquecem de quem ela é de fato.
- Nunca o vi assim antes, Travis. Está com ciúme?
- Não é ciúme. Você e mamãe tratam Rose como uma princesa e ela não passa de uma
farsante.
- Não acha que está exagerando?
- Parece que é inútil discutir com você!
- Já pensou em levá-la para a cama?
- Isso não é da sua conta! Tucker começou a rir.
- É melhor eu levá-lo até a casa da srta. Riley.
- Acha mesmo que desejo uma mulher como Rose?
- Ela é linda e você a deseja tanto que mal pode se conter. Esse é o fato!
- Venham ver Rose - chamou Eugenia do outro lado da loja. Travis encarou o irmão.
Como explicar-lhe que estava atraído por ela, independentemente de seu passado e do
presente?
- Rapazes?
- Vamos ou mamãe não nos deixará em paz. Terminaremos essa conversa depois -
propôs Tucker.
Rose estava envergando um vestido simples, mas que a transformara numa mulher
elegante e sofisticada. O tom verde contrastava perfeitamente com o tom claro de sua
pele e a cor de seus cabelos. Tucker, mais irreverente, assobiou em sinal de aprovação.
Ela estava tão linda que Travis desejou poder expressar em palavras, mas só o que
conseguiu foi um leve sinal de aprovação com a cabeça.
Rose sorriu, diante da expressão dos dois irmãos.
- Gostaram?
O vestido justo na cintura, tinha a saia rodada. As mangas eram curtas e o decote
generoso, deixava o colo à mostra.
- Você está linda - comentou Tucker com espontaneidade.
- E você, Travis? Gostou? - Rose perguntou.
Os olhos dele brilharam de admiração, mas conteve-se e disse simplesmente:
- É muito bonito.
Rose voltou para o provador e Travis dirigiu-se para o irmão.
- Lembre-se, meu irmão. Ela não é para você.
- Por que não é para mim? Não vi nenhuma aliança no dedo dela - Tucker brincou.
- Pensei que você tivesse alguém no Arizona.
- E havia. Mas isso é um segredo só nosso. Não quero que ninguém mais saiba. Só estou
comprando um vestido para Rose a pedido de mamãe. Quanto a você, quando vai tomar
uma atitude?
- A respeito de quê?
- A respeito de Rose. Quando você vai parar de lutar contra o que sente por ela?
- Acho que isso não é de sua conta.
- Venham, rapazes - chamou-os Eugenia novamente.
Dessa vez Rose estava com um vestido provocante, que acentuava ainda mais suas
formas sensuais e a encantadora espontaneidade que nascia de cada um de seus gestos.
Travis experimentou nesse instante uma cólera irracional. Ela era linda demais para
permitir que outro homem a cortejasse, ainda que esse homem fosse seu próprio irmão.
Num relance luminoso, viu que embora ela não fosse a mulher com quem sonhara, ainda
assim a desejava. Queria-a inteira para si, de corpo e alma. Esse era um desejo que não
podia mais esconder. Estava no limite de suas emoções.
Subitamente Eugenia interrompeu seus pensamentos:
- Por que não vão beber alguma coisa e nos deixam terminar, rapazes?
- Vão demorar muito ainda? - perguntou Travis.
- Não, agora só falta escolher algumas lingeries. Tucker, leve seu irmão para dar uma
volta.
- Vamos, Travis. Vamos beber alguma coisa. Relutante, Travis aceitou e Eugenia voltou
ao provador.
- Até que enfim!
- Senhora, gostaria de lhe pedir um favor.
- Diga, querida. Sou toda ouvidos.
- Os testes para a peça de que lhe falei outro dia começam hoje e eu gostaria muito de
participar. Pode me ajudar?
- Sei que prometi ajudá-la, mas não sabia que era hoje.
- Estou pedindo a sua ajuda porque Travis não aprovou quando soube que eu gostaria de
atuar no teatro.
- Esse meu filho... Bem, não vejo razão para não ajudá-la.
- Então pode me acompanhar?
- Antes, vamos terminar de fazer as compras. Rose a abraçou.
- Obrigada, senhora. Finalmente terei minha chance!
- Vista-se, querida, enquanto eu acerto a conta.
Rose mal podia acreditar em sua sorte. Colocou a mão sobre o peito, para acalmar as
batidas aceleradas do coração e acrescentou:
- Temos de nos apressar. Pegaremos as compras na volta.
- Tem razão. Eles logo estarão de volta. Aí então, tudo ficará mais difícil.
- E se eu conseguir o papel?
- Pensaremos nisso depois, querida. Uma coisa de cada vez. Rose admirou-se no
espelho, antes de sair. Vestida em roupas novas, sentia-se alguém especial. E com
Eugenia acompanhando-a, sentia-se mais segura. Seu primeiro teste! Estava pronta para
levar adiante seu sonho. Deu o braço a Eugenia e saíram apressadas pela porta dos
fundos da loja, rindo da pequena conspiração que haviam tramado.
No palco do teatro já havia uma jovem sendo submetida ao teste. Ela lia o texto com
propriedade, mas seu tom de voz era baixo demais e o diretor não parecia nem um pouco
entusiasmado. Rose, que tivera pouco tempo para se preparar, estava extremamente
nervosa.
Não gostaria de decepcionar Eugenia que estava se arriscando por ela. Estudou as outras
candidatas, tomando nota mentalmente dos erros que cometiam. Finalmente subiu segura
para o palco e deu uma entonação diferente à voz e à interpretação, que a distinguiu das
demais.
- Está bem, já é o bastante - decretou o diretor, depois que Rose terminou a encenação. -
Obrigada, senhorita...
- Desirée Severin.
- Obrigada, srta. Severin. Volte na quinta. Até lá já teremos os resultados.
Rose foi ao encontro de Eugenia.
- Parabéns, querida. Você se saiu muito bem.
- Não está dizendo isso só para me agradar?
- Não, querida. Comparada às outras, você foi uma das melhores. Agora vamos.
- Obrigada. A senhora foi maravilhosa comigo.
Travis e Tucker voltaram para a loja, após alguns drinques e uma visita ao detetive que
investigava Rose. O relatório sobre ela deveria chegar dentro de alguns dias. Logo
saberiam mais sobre o passado da jovem.
- Rapazes! Estamos aqui atrás. - Eugenia acenou de uma pequena mesa nos fundos da
loja, onde tomavam chá.
- Estão prontas? - Tucker perguntou.
- Sim. Já acertei a conta. Travis inclinou-se para Rose.
- Gostou das compras?
- Adorei. Nunca tive tantas roupas novas de uma só vez. Roupas tão lindas e...
- E o quê?
- E gostaria de agradecer-lhe. Obrigada pelo vestido. Vocês todos foram maravilhosos.
Adorei os presentes. Mais uma vez, obrigada.
- Não precisa agradecer. Você fez por merecê-los. Travis dirigiu-se para Eugenia.
- Vamos, mamãe. Vamos voltar para o rancho antes que escureça.
O sino da porta de entrada da loja tocou e um homem alto entrou.
- A senhora Eugenia Burnett está aqui?
- Sou eu. Pois não?
- Trabalho para a senhora McLaughlin. Ela soube que a senhora estava na cidade e me
pediu que lhe trouxesse este bilhete.
Eugenia abriu o envelope e leu.

Querida Eugenia,
Gostaria de pedir-lhe um grande favor. Não estou bem de saúde e lhe peço, se não for
incomodá-la, que venha passar alguns dias comigo. Preciso muito de sua ajuda.
Ficaria imensamente grata se viesse. Aqui, você encontrará tudo de que precisa.
Um beijo de sua amiga Katie.

Eugenia suspirou e guardou o bilhete.


- Minha amiga Katie não está bem de saúde. Irei fazer-lhe companhia por alguns dias.
Tucker você me acompanharia até a casa dela?
- Claro que sim, mamãe.
- Você não se importa, não é Travis?
- Não se preocupe, cuidarei de tudo no rancho. Fique com sua amiga o tempo que for
necessário.
Eugenia pegou a mão de Rose e apertou-a contra as suas.
- E você, minha querida?
Rose olhou para Travis, que sorriu, de orelha a orelha, e respondeu:
- Ficarei bem, sra. Eugenia. Não se preocupe comigo e obrigada por tudo.
- Voltarei dentro de alguns dias.
- Precisamos partir também - lembrou Travis, procurando não se mostrar ansioso demais.
- Está começando a escurecer.
- Tome cuidado, irmãozinho - Tucker recomendou ao irmão. Travis inclinou-se para ele e
sussurrou:
- Ficarei muito bem. Não se preocupe.
O sol se punha no horizonte tingindo o céu com os últimos raios. Tons avermelhados e
alaranjados culminavam no poente.
Travis e Rose viajavam em silêncio. O dia havia sido muito intenso para ambos. Rose
estava radiante com as roupas novas que ganhara e particularmente com o teste que
fizera. Uma alegria que achava difícil sufocar, pois gostaria de compartilhá-la com Travis.
Ele nada sabia sobre o teste. E se soubesse, talvez a reprovasse. O sol se pôs, a noite
caiu e as primeiras estrelas despontaram no céu azul-cobalto. Rose sentiu um calafrio
percorrer-lhe o corpo. O que poderia acontecer entre ambos já que iriam ficar sozinhos
naquela casa imensa?
- Mais uma hora e estaremos em casa. Você deve estar cansada - Travis rompeu o
silêncio que se instalara.
- Foi um dia longo, mas não estou cansada.
- Que bom, fico feliz por você.
Uma leve brisa os envolveu e permaneceram em silêncio por mais algum tempo.
- Por que me disse que nunca teve tantas roupas novas antes? - ele indagou, por fim.
- Nem toda criança tem a sorte de nascer e crescer num ambiente familiar.
- Tem razão... É, eu tive essa sorte. Mas... e você? Nada sei a seu respeito.
Rose sentiu uma pontada na consciência.
- De fato, minha infância foi diferente, mas não foi ruim. Nada que se compare à sua,
claro. Mas guardo boas lembranças dela.
Continuaram em silêncio e Rose sentiu-se corar, sob o olhar persistente dele.
- Esse tom de verde... fica lindo em você. Combina com seus olhos.
- Obrigada. Eu não esperava ganhar um vestido tão bonito. Um elogio vindo dele era algo
raro, e Rose o aceitou com alegria. Por que não podia ser sempre assim? Por que
discutiam tanto? Seria um escudo para se defenderem da atração que sentiam um pelo
outro? E por que Travis permanecia ainda solteiro? Um homem como ele, bonito,
charmoso, sedutor, dono daquelas terras... Seria um ótimo partido para qualquer mulher.
Eugenia dissera que o rancho tomava todo o seu tempo disponível, mas terras e gado
podiam impedir um homem de constituir família?
- Por que você nunca se casou? - perguntou-lhe de chofre. Ele a encarou, um pouco
surpreso.
- Nunca tive muito tempo para cortejar mulheres. E as que cortejei só estavam
interessadas no rancho e em minha conta bancária.
- Você parece ser o tipo de homem que gostaria de ter uma família.
- Não estou com pressa. Só me casarei quando encontrar a mulher certa.
- E como é a mulher certa para você...?
- Uma companheira, que crie nossos filhos em um ambiente saudável e amoroso. Uma
mulher bonita e elegante, em quem eu possa confiar e que saiba se portar, não só em
casa, mas também em público.
Em suma, alguém muito diferente dela, analisou Rose. O que ele queria era uma mulher
de berço, refinada que saberia portar-se dignamente. Não alguém como ela, que tivera
poucas oportunidades na vida. Ela, por sua vez, sonhava com uma carreira no teatro e
almejava a fama.
Recostou-se no banco do coche e perdeu-se na contemplação da paisagem crepuscular.
Imaginou como seria estar nos braços de Travis novamente e logo desviou o
pensamento. Havia um fato que a impedia de deixar-se cair em tentação. Ele desejava
levá-la para a cama, porque a achava uma mulher fácil. E ela não cederia, porque ao
contrário do que Travis pensava, era uma mulher de princípios.
- Vai demorar muito? - ela perguntou com uma ponta de melancolia na voz.
- Meia hora mais ou menos. Parece que vai chover.
- Seria bom. Não há nada melhor que dormir ouvindo o barulho da chuva. A não ser, é
claro, quando há relâmpagos e trovões. Aí é praticamente impossível. Mas eu adoro a
chuva. - Lá estava ela de novo, falando pelos cotovelos de um assunto que nem deveriam
discutir. Noites quentes, com trovoadas que os impediriam de dormir...
- Gosta do cheiro da chuva? - Travis perguntou-lhe com brandura, deixando-a perturbada.
- Adoro. E adoro também a brisa que refresca o ar depois de uma chuva de verão.
- Tenho o remédio perfeito para uma noite sem sono. Um chá especial que minha avó
sempre preparava para mim. Adoraria prepará-lo para você, também.
Rose engoliu em seco, tentando acalmar o coração disparado. Chá! Suspirou, sem saber
se estava feliz ou desapontada. E previu que aquela seria uma longa noite. Rose subiu as
escadas e foi diretamente para o quarto. Queria controlar seus pensamentos em relação a
Travis, lembrando-se que viviam em mundos muito diferentes. Nesse instante ele estava
cuidando dos cavalos e logo voltaria para casa. Ficariam a sós. Isso de certa forma a
atemorizava. Como conviver com aquela situação pelos próximos dias sem a presença de
Eugenia? Achou melhor deitar-se antes que ele voltasse, para não sucumbir à tentação.
Estariam tão próximos! Sentou-se diante da penteadeira e soltou os grampos dos
cabelos, para pentear os longos cachos. Pendurou o vestido novo no armário e arrumou
também os demais. Alisou o tecido macio de um deles e pensou na sorte que tivera. Mas
não estava em paz com sua consciência. Passara a vida enganando as pessoas e não
sabia por que só agora isso a incomodava.
Travis Burnett achava-a desonesta, e a opinião dele a abalava. Mas não queria mais
pensar no assunto. Não queria mais se magoar.
Vestiu a camisola de cetim e rodopiou pelo quarto, sentindo-se uma princesa.
Ouviu Travis abrindo a porta da sala e sabia que não conseguiria resistir ao seu olhar.
Apagou logo o lampião e enfiou-se embaixo das cobertas. Ele parou, por um instante,
diante de sua porta. Seu coração bateu mais rápido e sua respiração acelerou-se.
Quando o ouviu prosseguir, suspirou aliviada. Não queria tornar-se sua amante, mas
desejava muito que ele se apaixonasse por ela.
Travis entrou em seu quarto e fechou a porta, frustrado. Esperava que Rose estivesse à
sua espera. Mas a mensagem que ela lhe enviara fora clara: A porta estava fechada para
ele. Esta noite seria como as outras: longa, cheia de devaneios... Teria sorte se
conseguisse dormir. E se dormisse, sonharia com ela. Apagou o lampião e esperou
inutilmente que o sono viesse.
Travis desceu as escadas, apressado. Precisava de uma xícara de café com urgência.
Tinha que clarear a mente, voltar a si. Quase não dormira, pensando em Rose. E agora
queria fugir dela para resistir à tentação de tomá-la nos braços nem que fosse à força.
Abriu a porta da cozinha e parou, espantado. Esperava encontrar a cozinheira, mas em
seu lugar encontrou Rose que se movimentava diante do fogão. De repente, ela virou-se,
com uma travessa nas mãos.
- Bom dia, Travis. Sente-se, os ovos já estão quase prontos.
- O que está fazendo na cozinha?
- Ora, cozinhando, o que mais?
- Onde está a cozinheira?
- Não estava passando bem. Dei-lhe o dia de folga.
- Está preparando o meu café da manhã?
- Achei que gostaria de comer alguma coisa, antes de sair. Travis aproximou-se, sorrindo.
- Depende da capacidade da nova cozinheira - disse-lhe em tom de brincadeira.
- Isso é algo que logo irá descobrir - retrucou-lhe Rose. - Sente-se e tome um pouco de
café, enquanto espera.
- Por que acordou tão cedo? Eu poderia ter ido ao alojamento e comer à mesa dos
empregados.
Ela o fitou com ar sério.
- Em que está pensando? Que eu fugiria enquanto dormia?
- De maneira nenhuma! Eu só estranhei. É muito cedo, o sol ainda nem nasceu.
- Desculpe, acordei um pouco nervosa - ela revelou. - Dormi pouco, uma ou duas horas
quando muito.
Uma tensão inexplicável instalou-se de repente entre ambos. Travis mal conseguia se
controlar.
- Vou pôr a mesa - anunciou para esconder sua ansiedade. A verdade era que achava
tudo aquilo muito estranho, embora agradável. Rose preparando o café da manhã para
ele... Era íntimo demais, tomara-a de surpresa novamente.
- Mais café? - ela perguntou-lhe, tirando-o de sua concentração.
- Sim, obrigado.
Além do café, havia panquecas e ovos. Uma refeição simples, mas preparada com
esmero e meticulosamente servida.
- Muito bom, Rose. Você é uma cozinheira de mão cheia.
- Obrigada, Travis.
Ele notou seu ar de cansaço. Não dormira, havia dito. Ele também passara a noite insone.
Chegava a acreditar que a ausência da mãe pudesse ajudá-los a estreitar os laços de
amizade e, consequentemente, aprofundar o relacionamento e desfazer a tensão. Fitou-a.
Os olhos verdes prometiam horas de ternura e noites de paixão. Uma paixão que não se
tornaria realidade. Pelo menos, não por enquanto. Levantou-se. Sufocava. Precisava sair
e respirar o ar fresco da manhã.
- Não vai terminar seu café? - Rose estranhou a atitude.
- Preciso ir, Rose.
Apanhou o chapéu e saiu, sem olhar para trás. Não conseguiria olhá-la, sem tocá-la. E se
a tocasse, não haveria volta.
Aquilo fora demais! Ele mal dissera meia dúzia de palavras e ainda desconfiara dela, de
suas boas intenções. Indignada e profundamente ressentida, subiu as escadas correndo e
foi para o quarto. Trocou o vestido novo que usava pelo antigo, o que Eugenia lhe
emprestara, e preparou-se para partir. Não podia, não queria ficar ali nem mais um
minuto! Saiu pela porta da cozinha e pegou o mesmo caminho que Travis tomara, mas ele
certamente, devia estar bem longe dali.
Avistou os empregados da fazenda cavalgando, em direção ao sol nascente, e Isaiah que
os acompanhava. A esperança abandonou-a. Não sabia selar um cavalo e era tarde
demais para alcançá-los. Teria de esperar que Isaiah retornasse, para partirem juntos.
Seus olhos encheram-se de lágrimas de desespero. Precisava ir embora! Notou que
Travis não estava entre os empregados e preocupou-se. Queria-o bem longe dali para
não encontrá-lo. Num impulso, tomou o caminho que levava ao lago. Não havia nada a
fazer por enquanto e uma boa caminhada iria acalmá-la. Desceu o caminho de terra e
avistou Travis dando de beber ao cavalo. Assustou-se e perdeu o equilíbrio, deslizando
pela margem escorregadia.
Travis agiu com rapidez e a segurou, antes que caísse.
- O que você está fazendo aqui? E por que trocou de roupa?
- Quando você alcançar seus homens, mande Isaiah de volta, por favor. Estamos de
partida - ela disse de chofre, sem olhá-lo.
Ele franziu as sobrancelhas e a soltou.
- O que foi que disse?
- Não posso continuar aqui, desse jeito.
- De que está falando?
- Eu... preciso ir embora.
- Ir para onde? Quer ser mais clara, não estou entendendo. Você estava tão feliz ontem...
O que a fez mudar de idéia?
- É simples. Não me sinto feliz aqui e você sabe por quê.
- Não sei nada! Você parecia bem esta manhã. O que a deixou tão nervosa a ponto de
partir sem se despedir?
Rose irritou-se ainda mais.
- Não serão algumas poucas roupas, que irão me manter aqui à força. Não estou à venda!
- Sabe muito bem por que a quero aqui. - Ele a agarrou pelo braço e a puxou para si.
Rose sentiu a raiva dissolver-se, como que por encanto. Ele a queria de verdade?
- Não posso permitir que se vá. Ainda não. - Ele inclinou-se e num ímpeto tocou-lhe os
lábios com os seus. Achava-a adorável e, se ela fosse outra, a teria estreitado nos braços
e tomado a boca macia. Mas ela era Rose, uma charlatã, não podia esquecer-se disso.
Rose apoiou-se nele quase sem forças. Não desejava beijá-lo porque, sabia, sucumbiria à
tentação. Travis afastou-a de repente.
- Não pode ir embora. Não, até que devolva o anel. Sentindo-se indignada, ela deu alguns
passos para trás.
- Então irá precisar de todos os seus homens para me segurar aqui. Tive paciência
demais no que se refere a esse bendito anel! Adeus!
- Pois eu lhe digo que não irá a parte alguma.
- Vá para o inferno! - Ela soltou-se, subiu o aclive que a levou ao lago. Precisava sair dali
o mais rápido possível!
Ouviu os passos de Travis e correu. Mas antes que ele pudesse alcançá-la, escorregou
de fato na lama. Tentou equilibrar-se, sem sucesso, e acabou caindo para trás, batendo
contra o peito de Travis. Com um gemido, ele caiu também, escorregando pela margem
com Rose sobre si.
Acabaram ambos dentro do lago, espirrando água lamacenta por todos os lados. Rose
sentou-se no fundo, cuspindo água da boca e Travis fez o mesmo, praguejando.
- Droga, Rose! Não precisava nos jogar dentro do lago.
- Não foi de propósito, idiota.
Travis pegou o chapéu que boiava a seu lado e o atirou na margem.
- Mulher sem juízo! - gritou, fora de si.
Sem pensar duas vezes, Rose encheu a mão com a lama do fundo do lago e a atirou em
sua direção, atingindo-o no peito.
- Você fez por merecer - ela o desafiou. Viu uma centelha de ódio, brilhar nos olhos dele e
tentou escapar, mas o vestido encharcado, impediu-a de se levantar.
Começou então uma verdadeira batalha, ambos atirando-se, ao mesmo tempo, punhados
de lama. Cansados da brincadeira, olharam-se. Rose não agüentou e pôs-se a rir.
- Não ria de mim. Você também está engraçada.
- Não tanto quanto você!
Travis tirou um pouco do barro do rosto de Rose.
Ela sentiu o calor da mão em seu rosto e com as mãos em concha, recolheu um pouco de
água com a qual lavou o rosto dele.
Viu-o sorrir e quis muito que Travis a beijasse. Mas tinha medo, não dele, de si mesma. Ia
levantar-se, mas Travis a deteve.
- Venha cá. Você tem ainda um pouco de lama presa aos lábios.
Rose sentiu uma pontada de medo, mas isso não a impediu de ir com ele até onde o lago
se aprofundava. Ainda sorrindo, Travis limpou-lhe o restante da lama com o polegar.
Depois, não se conteve, inclinou a cabeça e a beijou profundamente.
Em seguida, ergueu-a nos braços e Rose soube que esse beijo a transformaria para
sempre.
Travis devorava-a com os olhos. Seja não estivesse apaixonado, ficaria naquele instante,
tão irremediavelmente quanto um homem fulminado por um raio. Apertou-a nos braços e,
rosto contra rosto, murmurou:
- Diga que será minha. Diga!
Rose percebeu que, fosse qual fosse a resposta, seu destino estava selado. Deixou o
vestido escorregar pelos ombros, pondo à mostra o fino corpete rosado sob o qual se
desenhavam os seios.
- O que está fazendo? - ele perguntou.
- O que nós dois queremos. Mostre-me o que é ser amada.
Deram-se as mãos e correram para o bosque, e avançando sob o alto arvoredo.
Encontraram uma pequena clareira pouco além. E foi ali, à luz do sol, pelas cortinas
entreabertas de folhagens, que se despiram e ajoelharam-se um diante do outro. Rose
soube então que não se entregava cegamente, mas com a confiante certeza de que se
amavam.
Travis olhou-a deslumbrado. Ela nunca lhe parecera tão linda como naquele instante e,
embora dispusesse de pouco tempo, agiu como se aquele instante fosse durar para
sempre. Acariciou-a lentamente, até sentir que, aos poucos, a paixão se apoderava
daquele corpo delicado. E só então, ao vê-la devolver as carícias com gestos tímidos,
acanhados, descobriu que ela era inexperiente, talvez virgem!
Sentiu um assomo de ternura. Apertou-a nos braços e beijou-a.
Rose entregou-se. Tinha certeza de que Travis seria gentil e cuidadoso. Não pensou em
mais nada a não ser no prazer que sentia. Instintivamente, ergueu-se um pouco para
amoldar-se melhor a ele e acompanhou-o no seu ardor.
Quando abriu os olhos, percebeu que perdera toda a noção de tempo. Sabia apenas que
o sol estava a pino.
Travis cavalgou para bem longe do rancho. Saíra praticamente correndo de lá. Precisava
passar algum tempo, longe de Rose, para poder pensar claramente. Tudo mudara. Até
momentos atrás, acreditava que ela fosse uma mulher imoral, enganadora e falsa. E
agora descobria que havia sido seu primeiro homem!
Quem era essa mulher instigante, sedutora e ao mesmo tempo ingênua?
E o que faria agora? A idéia de deixá-la parecia-lhe terrível, absurda.
Rose esperou por Travis o dia inteiro, já passava da meia-noite quando ouviu seus
passos na escada. Na manhã seguinte ele partiu antes do amanhecer, antes que o visse.
Não sabia o que esperar dele. Amava-o, mas sentia-se traída em sua confiança. Ele a
abandonara logo depois de terem feito amor e, desde então, passara também a evitá-la.
Mas não se daria por vencida. Esperaria por ele esta noite e o confrontaria, deixando bem
claro que tudo estava acabado entre eles. E assim que pudesse, partiria para bem longe
dali. Evitaria assim discussões e impertinências de lado a lado. Eram ambos teimosos e
apaixonados em seus sentimentos.
De certo modo já esperava que isso fosse acontecer. Por isso, nunca se entregara a
homem algum. Tivera o pai como referência. Ele também costumava comportar-se assim.
Seduzia as mulheres, para logo em seguida abandoná-las.
Um barulho de carroça e latidos de cães prenunciando a chegada de alguém
interromperam-lhe os pensamentos. Espiou pela janela e viu Eugenia. Tucker estava à
frente dos cavalos.
Alisou a saia do vestido novo e foi até a varanda, para recebê-los. Estava um pouco
nervosa. Iriam perceber que algo havia acontecido entre ela e Travis? E se perguntassem
por ele? O que iria responder, se nem ela sabia onde ele estava? Gostaria de contar a
verdade a Eugenia, mas não tinha coragem. E nem saberia por onde começar.
Eugenia foi a primeira a adiantar-se.
- Como vai, querida?
- Olá, sra. Eugenia! Que bom revê-la! Fez boa viagem?
- Ótima. É tão bom estar de volta! Tucker aproximou-se e tirou o chapéu.
- Como vai, Rose?
- Bem, muito bem. E como foi a viagem?
- Foi uma viagem tranqüila. O tempo ajudou.
- E Travis? - perguntou Eugenia.
Rose ergueu a cabeça e viu-o ainda à entrada do rancho, trazendo o cavalo pelas rédeas.
- Parece que aconteceu alguma coisa com o cavalo.
- Talvez um problema numa das patas. Tucker, vá ajudar seu irmão.
Eugenia tomou nas suas as mãos de Rose.
- Então, como estão as coisas por aqui? Travis tratou-a bem, durante a minha ausência?
Travis entrou nesse momento e foi cumprimentar a mãe.
- Como vai, mamãe?
- Bem, meu filho. O que aconteceu com esse cavalo?
- Machucou uma das patas dianteiras. E sua amiga? Melhorou?
- Está bem melhor. Passei dias agradáveis em sua companhia. E vocês aqui, passaram?
Rose corou e lançou um olhar rápido para Travis. Foi ele que respondeu, sério.
- Bem, também.
Tucker aproximou-se e deu-lhe um tapinha nas costas.
- Trouxe mamãe de volta sã e salva. Vocês dois também estão bem. Pensei que fossem
se matar durante nossa ausência.
Eugenia fitou Rose com entusiasmo.
- Esqueci-me de dizer-lhe o mais importante. Você conseguiu o papel. Querem que
interprete Bianca em A Megera Domada.
- Consegui? Oh, meu Deus! Meu primeiro trabalho como atriz!
- Como pode ter conseguido o papel, se ainda não fez o teste? - interveio Travis sem
entender o que estava acontecendo.
Eugenia falou com calma:
- Rose vai participar da peça, Travis.
- De que jeito, se eu a impedi de fazer o teste? Rose voltou-se para ele.
- Já fiz o teste e consegui o papel.
Todos permaneceram em silêncio, e Rose preparou-se para a batalha. Depois do que
acontecera nos últimos dias, ela estava mais do que pronta a dizer algumas verdades.
Travis riu.
- Destinaram-lhe o papel da Megera?
- Enganou-se. Serei Bianca, a bela que todos desejam.
- E por que não o de Desirée, a vidente, voz das almas e enganadora profissional?
Rose manteve a calma e respondeu-lhe com um sorriso meio irônico.
- Shakespeare não conheceu Desirée. Se tivesse conhecido, certamente a teria incluído
num de seus dramas.
Tucker e Eugenia puseram-se a rir e Travis perdeu a cabeça. Subitamente fechou as
mãos em torno dos pulsos de Rose.
- Venha. Vamos resolver nossas diferenças agora mesmo! Em vão Rose tentou libertar-
se.
- Deixe-me - implorou. Mas ele parecia alheio a tudo.
- Nada mudou por aqui, mamãe - disse Tucker, quando eles desapareceram de vista.
- Para onde estamos indo? - quis saber Rose, entre surpresa e indignada, enquanto ele a
arrastava para além do alojamento.
Travis não respondeu e obrigou-a a prosseguir até o pasto. Ali, longe de todos, poderiam
conversar em paz.
-Eu disse para você que não poderia participar da peça! Como conseguiu o papel?
- Já disse! Fiz um teste e fui aprovada.
- Quando? Se estivemos o tempo todo juntos na cidade? Só a deixamos por um breve
momento na loja...
Rose apenas sorriu.
- Ah, então foi isso! Minha mãe a ajudou?
- Eu a convenci quando ficamos a sós na loja. Esperei por esta chance a vida inteira e
você não irá me impedir de aproveitá-la!
Travis agarrou-a pelo braço novamente e a puxou contra si, percebendo logo que
cometera um erro. Ela estava mais bela e tentadora do que nunca. Depois do que
acontecera no lago, desejava-a ainda mais. Uma vez não fora suficiente para conseguir
esquecê-la. Mas não poderia tocá-la novamente. Isso só o deixaria com mais peso na
consciência, e já estava sofrendo por tudo o que acontecera.
- Não quero você em companhia dessa gente de teatro.
- Por que não? Que diferença faz isso?
- Você está em prisão domiciliar, esqueceu? Quer que eu a mande de volta para a
cadeia?
- Vá em frente caubói, prenda-me! Coloque-me de volta naquela cela e juro a você que
conto a sua mãe o que aconteceu entre nós.
Travis refletiu um instante.
O que sua mãe não iria, pensar? Mantivera-a presa e, enquanto estava sob seus
cuidados, se aproveitara de sua inocência. Sentiu-se o mais baixo dos homens.
- Está bem... - disse por fim. - Poderá participar da peça, mas com uma condição. Não irá
sozinha, estará sempre acompanhada de um de meus homens, tanto na ida quanto na
volta.
Rose jogou os braços ao redor do pescoço de Travis e abraçou-o, deixando-o sem ação.
- Ah! Nem acredito! Fico-lhe muito grata, mesmo sabendo que você não tem o direito de
mandar em minha vida. Já o avisei mais de uma vez: Não brinque com fogo ou acabará
queimado! - disse-lhe e deu as costas.
Travis chutou a terra sob seus pés, tentando deixar a frustração de lado. Ela não era a
mulher perfeita com quem sempre sonhara. Mas desejava-a tanto...
Alguns dias depois, Rose pisava o palco. Esperara por esse momento durante anos e,
agora que chegava, sentia-se nervosa. Afinal, eram os ensaios finais da peça e tudo
deveria correr bem.
- Muito bem. Tomem suas posições. Vamos repassar a cena mais uma vez - ordenou o
diretor.
Rose pegou o texto e esperou por sua vez. Era muito importante que provasse seu
talento, não só para si mesma, mas para todos os membros da equipe e, principalmente
para o diretor da peça. Afinal, era filha de Rosalyn Severin, e tinha por dever honrar a
memória de sua mãe.
Depois dos ensaios, sentiu-se exausta. Mas valera a pena. Seu primeiro ensaio correra
bem, e o diretor chamara sua atenção apenas duas vezes.
Isaiah e Bart, o homem que Travis mandara para acompanhá-la, esperavam na carroça.
- Boa noite, srta. Rose. Como foi seu primeiro ensaio? - perguntou-lhe Isaiah.
Rose sentou-se na carroça e olhou para o criado.
- Acho que fui bem. Mas estou exausta.
- Lembro-me que sua mãe dizia a mesma coisa.
- Gostaria que ela estivesse aqui agora, para me ajudar. Preciso aprender tantas coisas...
- E aprenderá, srta. Rose. Não se preocupe.
- Ou eu entendo o que o diretor quer que eu faça ou ele procurará outra Bianca. Tenho
certeza que Travis adoraria a segunda opção.
- Fiquei surpreso quando ele a deixou participar da peça.
- Ele não teve escolha, Isaiah. Eu o encostei contra a parede. Não perderia essa
oportunidade por nada!
Isaiah observou-a por alguns segundos e depois virou-se para trás, percebendo que Bart
roncava, com o chapéu sobre o rosto.
- Por que atuar é tão importante para a senhorita? É pela memória de sua mãe ou é
realmente paixão pelo teatro?
- Atuar foi sempre o meu sonho. Desde pequena. Não consigo me lembrar de mais nada
que tenha desejado tanto.
- Sua mãe adoraria ouvi-la falar assim.
- Eu não consigo me lembrar de muita coisa sobre ela. Tenho na memória, apenas
algumas imagens dela vestida para ir ao teatro.
- Lembra-se de seu pai?
- Não. Lembro-me que sempre havia homens ao seu redor, mas nunca da imagem dele.
- Srta. Rose, sua mãe era uma excelente pessoa, mas cometeu muitos erros na vida. A
senhorita foi a melhor coisa que lhe aconteceu.
- O que está dizendo, Isaiah?
- Depois de engravidar, sua mãe não viu mais seu pai. Só tornou a vê-lo pouco antes de
morrer. Ele só passou a noite com ela. No dia seguinte ele decidiu partir.
- Se pensa que eu não sei que tipo de homem era meu pai, está enganado. Soube há
muito tempo que ele não era homem de cumprir suas promessas. Foi infiel a todas as
mulheres que tiveram a infelicidade de se apaixonar por ele.
- Srta. Rose, seu pai tinha um bom coração. Mas não conseguia ficar muito tempo no
mesmo lugar, com a mesma mulher.
Rose suspirou tentando esquecer seu passado e pôs-se a admirar a paisagem.
- Deve ser bom crescer num lugar assim, em plena natureza e tão lindo.
- É muito mais calmo que as cidades a que nos acostumamos a viver.
- Uma infância no campo é completamente diferente da infância que eu tive.
- A senhorita aprendeu desde cedo a virar-se sozinha. A lei da sobrevivência a qualquer
custo e preço. Já o sr. Travis, aprendeu desde cedo outros valores. Amar a família e
defender os interesses dos que lhe são mais caros.
- É verdade, Isaiah. Se ele soubesse que eu poderia roubá-lo quando quisesse, sem ser
notada.
Talvez assim ele se convencesse de que não fui eu que roubei o anel de Eugenia.
- Srta. Rose! Jamais repita uma coisa dessas. O sr. Travis a levaria para a cadeia!
- Tem razão. É melhor não lhe contar nada sobre meu pai, sobre minha infância ou meu
passado. Ele jamais confiaria em mim, se soubesse a verdade.

CAPÍTULO VI

Rose observava os familiares dos Burnett conversando animadamente no pátio do rancho


e sentiu uma certa melancolia. Nunca conhecera nenhum parente de seus pais. Nunca
estivera em companhia de uma família tão numerosa. Seu pai havia mencionado um
irmão certa vez, mas nunca o conhecera e nem mesmo sabia seu nome.
A idéia de uma reunião familiar era algo inusitado para ela. Estava observando as
crianças correrem em volta das árvores, quando Eugenia aproximou-se.
- Venha, querida, quero apresentá-la a todos.
- Não sei se devo, sra. Eugenia. Sou uma completa desconhecida para eles.
- Vamos, Rose. Todos querem conhecê-la. Será divertido.
- Não acha que pensarão que há algo entre mim e Travis? Eugenia sorriu e a puxou
consigo na direção de um grupo de mulheres.
- Não posso controlar o que as pessoas dizem. Além do mais, quero exibi-la. Você é
como se fosse uma filha para mim.
Rose ficou emocionada. Eugenia sempre tinha palavras ternas para ela. Era difícil dizer-
lhe "não".
A princípio, Rose não se sentia bem com a situação, mas depois deu de ombros. Eugenia
tinha razão. As pessoas que pensassem o que quisessem. E se havia realmente algo
entre ambos, era algo que ela desejava esquecer.
Travis mal falava com ela. Duas semanas haviam se passado desde a manhã no lago e
ele continuava encerrado em seu mutismo. Pois que continuasse assim. Era melhor não
fazer caso.
As pessoas ao seu redor conversavam animadamente, os ensaios da peça estavam indo
bem e era um belo dia de verão. Por que não aproveitá-lo? Estava determinada a divertir-
se.
Eugenia a levou de grupo em grupo, apresentando-a e Rose sentiu-se muito especial com
todo o carinho que recebia, mas não pôde deixar de se preocupar com a reação de
Travis. Viu-o sentado debaixo de um carvalho, com um senhor de cabelos brancos.
Tucker aproximou-se delas e abraçou a mãe.
- Está apresentando Rose para a família?
- Sim, e todos adoraram conhecê-la. Agora me perguntam para quando será o
casamento.
Rose riu.
- Casamento? Impossível! Travis mal me tolera! Acho que se pudesse, me enforcaria em
vez de casar-se comigo.
- Acho que Travis não chegaria a tanto. - Tucker sorriu. - Mas tenho de admitir, ele não
está preparado para casar-se nem com você nem com ninguém. Mas logo mudará de
idéia, fique certa disso.
- O par perfeito para Travis seria uma dama elegante e recatada - observou Rose.
- Ele logo se cansaria dela.
- Vou continuar as apresentações - Eugenia comunicou para o filho. - Quanto mais
comentários houver sobre Travis e Rose, melhor. Travis não ficará solteiro a vida toda. E
nem você, Tucker.
Ele abriu um largo sorriso.
- Nem pense nisso, mamãe.
Rose olhou para trás novamente e viu Travis. Seus olhos se encontraram e ficaram
presos por vários segundos, antes que Eugenia a chamasse, para conhecer mais um
parente.
Travis estava conversando com seu tio e observando Rose. Ela era o centro das
atenções, sua família a aceitava de braços abertos. Ouvira comentários sobre noivado,
casamento e que Eugenia finalmente tinha uma filha.
Como podiam recebê-la tão bem, deixando de lado o fato de que era uma farsante, era
algo que não podia compreender!
- Meu rapaz, se continuar olhando aquela mulher desse jeito, ela vai sumir.
Travis olhou para o tio, irmão de seu pai.
- Desculpe, tio. Estou sempre de olho nela. Nunca sei o que ela pretende fazer.
- É bom saber que está cuidando dela. Quando vão se casar?
- Casar? Por que todos acham que vou me casar com ela?
- Está escrito em seus olhos, rapaz. Você a olha como se ela estivesse nua! É isso que os
homens fazem quando estão perdidamente apaixonados como você.
- Não, não estou apaixonado por ela.
- Diga isso a outro. Você a deseja e muito - disse-lhe o tio em tom de brincadeira.
Travis sorriu também, sem poder negar a verdade.
- Case-se com ela. Você precisa de uma esposa e ela de um marido.
- Não, ela não é...
- Não é o quê?
Travis olhou para Rose novamente. Ele havia sido seu primeiro homem e nem assim
conseguia comprometer-se com ela. No entanto, bastaria um gesto seu, um pedido e ele
correria para seus braços.
- Não é possível, tio.
- Filho, aquela moça é uma verdadeira jóia.
- Para mim, ela é ouro falso. Muito brilho.
- Posso estar enganado, mas acho difícil. Às vezes o brilho do ouro é tanto que cega a
ponto de não enxergarmos seu verdadeiro valor - filosofou o tio.
Travis a olhou mais uma vez. Estaria cego como seu tio dissera? A ponto de não
reconhecer o verdadeiro valor de Rose? Ela estava no centro de uma roda de mulheres e
as divertia lendo suas mãos e, certamente, fazendo-lhes previsões sobre o futuro. Não
era possível. Não podia ter se enganado tanto a respeito dela.
- Obrigado pelo conselho, tio. Irei pensar no que disse.
- Conte comigo sempre que precisar, Travis. Nos falaremos mais tarde.
Travis afastou-se irritado, certo de que jamais poderia confiar em Rose. Mal sua família a
recebia e ela já começava a enganá-los. Dirigiu-se para o grupo de mulheres e esboçou
um sorriso.
- Olá, senhoras. Desculpe interrompê-las, mas gostaria de levar Rose para um passeio.
Ela o fitou. Essas eram as primeiras palavras que ele lhe dirigia desde sua discussão a
respeito da peça.
As mulheres riram. Uma de suas tias comentou:
- Traga-a de volta inteira, rapaz. Nada de beijos antes do noivado.
Travis sorriu de leve. Já fizera bem mais do que beijá-la, mas não se arrependia disso.
Apenas de ter sido o primeiro.
- Com licença, senhoras, logo a trarei de volta - desculpou-se agarrando Rose pela mão e
levando-a para longe do grupo.
- Só estava lendo a mão delas porque me pediram, Travis. Não fique aborrecido comigo.
Travis a levou para bem distante do pátio, longe de todos, antes de pronunciar-se.
- Você é mais audaciosa do que pensei.
- O que quer dizer?
- Mal acaba de conhecer meus parentes e já quer enganá-los com essas previsões tolas!
- Foi sua mãe que fez questão de me apresentá-los.
- E por isso se aproveita deles?
- Aproveitar-me como? Sendo simpática?
- Não, mentindo para eles enquanto lê suas mãos.
- Não é esse o motivo de sua irritação. A quem você pensa que engana, caubói? Não sou
tão ingênua a ponto de acreditar que você se aborreceu por tão pouco. Diga a verdade.
Está com inveja porque eu ria, conversava e me divertia e você não!
- Pode conversar com quem quiser. Mas não permito que os engane com mentiras
ridículas enquanto finge ler suas mãos!
- Não digo mentiras ridículas. Eu leio as mãos das pessoas e organizo sessões espíritas.
Esse é o meu trabalho.
- Você é mentirosa e ladra! E ainda pior: fez meus parentes acreditarem que vamos nos
casar!
Permaneceram em silêncio por alguns segundos.
- Se é isso o que pensa de mim, por que me beija? Se sou tão horrível assim, por que fez
amor comigo? E quanto a todos acreditarem que vamos nos casar, isso é
responsabilidade de sua mãe. Mas não se preocupe, jamais me casarei com um homem
que não se comporta como um cavalheiro. Aquele dia no lago, depois que fizemos amor,
em vez de me dizer palavras carinhosas, vestiu-se apressadamente e saiu correndo como
um adolescente medroso. Tem me evitado todos os dias, chega tarde quando estou
dormindo e sai cedo, antes de o sol nascer. Ora, faça-me um favor! Quem você pensa
que sou? Uma mulher que encontrou na sarjeta? Alguém que você pode usar e depois
jogar fora? Uma dessas mulheres de saloon.
- Estive ocupado - desculpou-se Travis laconicamente.
- É, ocupado em me evitar! Travis respirou fundo.
- Devia ter me contado que era virgem.
- E por acaso teria acreditado em mim? Iria pensar que estava mentindo, como sempre! -
Rose falava aos gritos. - Preciso ir, para mim já chega!
A garganta de Travis secou. Sabia que ela estava com a razão, mas não queria admitir.
- Tem ensaio hoje?
- Tenho ensaios todos os dias até a estréia. Mas não se preocupe, voltarei para o rancho
se é o que quer saber. Volto sempre para esta casa com a esperança de encontrar um
homem gentil e educado, que saiba tratar uma mulher como uma dama. Mas a decepção
é enorme quando me deparo com você, fazendo um esforço enorme para me evitar.
Agora preciso ir.
- Eu levo você para o ensaio.
- Não. Isaiah me levará. Fique com sua família. - Rose afastou-se, deixando-o sozinho.
Travis a observou com o coração apertado. Ela estava coberta de razão. Ele é que não
soubera lidar com a situação e comportara-se muito mal. Como um tolo. E agora? O que
fazer para reverter a situação que ele mesmo criara? Talvez sendo gentil e compreensivo,
lhe pedindo desculpas.
- Onde está Petruchio? - gritou o diretor.
Nada poderia ser pior do que um diretor compulsivamente perfeccionista a três dias da
estréia! Rose já não agüentava mais tanta pressão! Já não agüentava mais tanto ensaio.
Por duas semanas, o grupo não fizera outra coisa senão repassar o texto cinco horas por
dia. Desse jeito estaria repetindo suas falas até durante o sono!
Pelo menos a conversa que tivera com Travis, fizera-lhe muito bem. Fizera-se respeitar
como mulher. Mas estava no limite de sua paciência. O que Travis precisava, era de uma
mulher que o encarasse e o desafiasse, dizendo-lhe verdades nunca ditas antes.
Presenteara-o. Dera-lhe parte de si mesma: a sua dignidade de mulher íntegra. Ele fora
seu primeiro homem, entregara-se por amor, e nem isso o fizera mudar de idéia a seu
respeito.
- Rose, não devia estar no palco? - A voz nervosa do diretor a fez voltar à realidade.
- Desculpe, perdi minha deixa.
- Muito bem, pessoal vamos recomeçar. Ato dois, cena um.
Nas últimas semanas, atuar deixou de ser um sonho e se transformou em realidade. Uma
realidade dura, que exigia de Rose dedicação, disciplina e, acima de tudo, um esforço
contínuo para que seu talento fosse reconhecido. A partir daí passou a gostar mais da
vida no campo. Aprendeu a amar a natureza e mais do que isso, que aquela havia sido
apenas uma etapa de sua vida, tumultuada. Partiria, acompanhada de Isaiah, logo após a
estréia da peça, para outra cidade. Para bem longe dali.
A lua cheia iluminava o céu salpicado de estrelas, quando Isaiah ajudou Rose a descer da
carroça. Ela estava exausta, mal tinha forças para andar. O diretor a mantivera ensaiando
com o grupo por duas horas além do normal. O resultado era que agora estava ali, diante
da casa de Travis, às escuras, procurando não fazer barulho para não acordar os outros.
Subiu as escadas lentamente. Ao pisar na varanda, ouviu a voz de Travis, vindo das
sombras.
- Estava começando a me preocupar com você.
Rose sobressaltou-se. Travis estava sentado no balanço. Não esperava que ele estivesse
ali, no escuro, à sua espera.
- Você me assustou.
- Desculpe-me. Estava preocupado com você. Chegou muito tarde, hoje.
- O diretor nos fez ficar por duas horas a mais. O ensaio de hoje foi o mais cansativo de
todos. Pensei que atuar fosse mais simples. Não estava preparada para ficar horas e
horas em pé, no palco, repetindo as mesmas falas até cansar.
Travis segurou-lhe a mão e a puxou delicadamente, para que se sentasse ao seu lado.
- É difícil, então?
- Difícil não, eu diria exaustivo. É preciso muito preparo físico e treinar muito a dicção.
Ficaram por um momento em silêncio. Ele estava tão próximo que Rose podia sentir-lhe a
respiração ardente e o vigor do corpo másculo. Fechou os olhos e saboreou um instante
divino. Ao abri-los, virou-se para olhá-lo e ele aproveitou o momento para dizer:
- Eu... acho que lhe devo um pedido de desculpas.
Rose retraiu-se. Estava experimentando uma grande paz ao lado dele e não queria que
nada interrompesse aquele momento.
- Precisamos mesmo falar sobre isso agora?
Travis a fez encostar a cabeça em seu ombro para que a tensão se dissipasse.
- Preciso me desculpar, Rose. Você tinha razão, eu a estava evitando. Não estava
preparado para o fato de você ser virgem. Você me surpreendeu.
- Pensou que eu fosse mulher de muitos homens?
- Sim, era isso o que eu pensava. Penso que foi por causa da sua reação na hospedaria
em Waco e o jeito com que você se insinuava às vezes.
- Se soubesse que eu era virgem, teria feito amor comigo?
- Sinceramente? Sim, mas por que não disse antes que seria sua primeira vez?
- Achei que se dissesse, você voltaria atrás.
- Sinto muito pelo modo como a tratei depois daquela manhã.
- Está mesmo, me pedindo desculpas?
- Sim, estou. Fui rude com você.
Rose começou a empurrar o balanço e ele a acompanhou, passando o braço ao redor de
seus ombros. Seus olhos se encontraram e permaneceram presos por algum tempo.
Rose queria sentir o toque de seus lábios novamente. Queria aninhar-se entre os braços
dele. Foi ela que tomou a iniciativa. Aninhou-se em seus braços, ergueu o rosto e beijou-o
com suavidade. Travis retribuiu o beijo, apertando-a mais contra si. Estavam tão
envolvidos que não perceberam quando o balanço soltou-se do gancho e foi ao chão.
Rose assustou-se, mas logo começou a rir.
- Você está bem? - perguntou-lhe Travis. - Sim, estou. - E ambos puseram-se a rir.
Travis passou a mão por seus cachos soltos, afastando-os do rosto e ela percebeu que
estava se apaixonando por ele. Não queria que isso acontecesse. Não, ainda.
- Preciso dormir. Amanhã terei ensaios o dia inteiro e preciso descansar.
Ele pareceu ignorá-la, e a beijou novamente.
- Obrigada pelo pedido de desculpas, Travis. Eu fiquei confusa, sem saber ao certo o que
fez você fugir de mim, aquele dia no lago. Cheguei a acreditar que a culpa fosse minha.
Travis ergueu-se e acariciou-lhe o rosto.
- Você não fez nada de errado, meu amor. Fui eu o culpado. Talvez por medo de encarar
meus próprios sentimentos.
Finalmente chegara o dia da estréia de Rose. Ela espiava ansiosa, por trás da cortina do
palco, a multidão ocupava as poltronas do teatro. Nas duas primeiras fileiras estavam
Eugenia, Travis, Tucker e vários de seus familiares que vieram de longe para prestigiar a
sua estréia como atriz.
Um gesto muito gentil da parte deles. Podia-se ouvir claramente da coxia, o burburinho
das pessoas chegando, e acomodando-se em seus lugares. O grupo de Rose aguardava
ansioso a chamada do diretor. Pela abertura da cortina, ela conseguiu entrever Travis.
Nunca o vira tão lindo! A camisa azul realçava o tom bronzeado de sua pele e tinha o
olhar fixo no palco. Quase não tinham se visto, depois daquela noite na varanda. Nos
últimos dias ela se dedicara inteiramente aos ensaios da peça, ficando praticamente o dia
todo fora do rancho. Fechou a cortina e permaneceu junto a seus companheiros. Após o
terceiro sinal, o diretor ordenou:
- Todos aos seus lugares!
Lentamente a cortina se abriu, e os atores foram entrando em cena.
Depois de sua primeira entrada no palco, Rose deixou o nervosismo de lado e encarnou a
personagem com todo o seu talento. Era o último ato, quando um homem bêbado gritou
da platéia:
- Desirée, sua francesa safada, quero me casar com você!
Rose espiava a movimentação na platéia e não acreditou em seus próprios olhos. Travis
pulava de poltrona em poltrona no afã de perseguir o arruaceiro. Conseguiu agarrá-lo pelo
colarinho e o atingiu com um soco no rosto, derrubando-o. Tucker, que estava logo atrás,
tentou fazê-lo soltar o sujeito.
Havia uma enorme confusão por todos os lados e algumas pessoas invadiram o palco.
Tucker finalmente arrastou o arruaceiro para longe do teatro e o diretor convocou a platéia
a sentar-se novamente. Fez-se silêncio e os atores puderam terminar a peça. Apesar do
incidente, o trabalho dos atores foi por fim recompensado. As cortinas do teatro abriram-
se e todos entraram em cena enfileirados e curvaram-se ao mesmo tempo, num gesto de
agradecimento. Houve uma explosão de aplausos e assobios. A platéia aplaudia de pé.
Os atores se despediram e as cortinas fecharam-se. Rose correu para a saída à procura
de Travis. Encontrou-o em meio ao público que deixava o teatro.
Ele tinha o rosto manchado de sangue.
- Você está bem, Travis? Fiquei tão preocupada...
- Pena que esse sujeito tenha tirado parte do brilho da estréia. Mas eu o fiz pagar caro por
isso.
- Obrigada. Tucker o levou para a cadeia?
- Naturalmente! Foi surpreendido em flagrante delito.
- Vamos para casa, assim poderemos cuidar dos ferimentos. Seu lábio está inchado.
Travis ofereceu-lhe o braço e juntos caminharam em direção à carroça.
- Você estava maravilhosa. Parabéns.

CAPÍTULO VII

Rose voltava para casa, feliz. Seu sonho se realizara. Apesar do incidente, tudo correra
bem. Eugenia e Isaiah não se cansavam de lhe tecer elogios. Travis, ao contrário,
conduzia a carroça, calado, envolto em pensamentos. Rose fora excelente em sua
atuação, e isso significava que não poderia mantê-la por muito tempo em Fort Worth.
Logo teria de deixá-la partir. Ele não estava preparado para isso. Mesmo sem
compreender o porquê de sua atração por ela, não podia negar que a desejava muito.
Tentava persuadir-se de que Rose era apenas mais uma mulher em sua vida, mas, no
fundo não estava convencido disso.
Ao chegarem no rancho, freou a carroça diante da casa. Ajudou sua mãe, e depois Rose
a descerem. Quando ele a colocou no chão, não a soltou. Ela o olhou por um instante,
antes de lhe tocar o rosto machucado.
- Está doendo?
- Um pouco.
- Vou fazer um curativo em você.
- Obrigado.
Travis foi dar uma inspeção rápida no rancho, saber se estava tudo em ordem, ansiando
por entrar em casa e deixá-la cuidar de seus ferimentos. Queria sentir seu toque suave
novamente.
Quando finalmente terminou, foi à cozinha, onde a encontrou apanhando a caixa de
primeiros socorros. Ela estava de costas e não se voltou ao ouvir seus passos.
- Onde está minha mãe?
- Pediu que lhe desse boa-noite. Ela estava cansada e foi dormir. Agora sente-se e deixe-
me cuidar desse rosto.
Travis puxou uma cadeira da mesa e sentou-se tão perto de Rose, que por um insano
instante teve vontade de puxá-la para seu colo e beijá-la. Mas não era o momento. Ela
não estaria disposta a recebê-lo em seus braços.
- Ai! O que é isso? - queixou-se quando ela pressionou seu rosto com um pedaço de
algodão embebido em algum medicamento que ele não estava reconhecendo.
- Ah, não! Não pode estar doendo tanto assim!
- Que remédio é esse?
- Iodo.
Travis a olhou. Ela sorria, mas seus olhos eram desafiadores. Não havia dúvida, ela não
estava totalmente feliz. Não podia continuar a mantê-la na propriedade. Mas como lhe
explicar que estava confuso? Não tinha mais certeza de nada. Se ela lhe devolvesse o
anel, as suas suspeitas se confirmariam e ele ficaria arrasado. Caso ela partisse, ele
ficaria igualmente arrasado. Mas não podia culpá-la por querer partir. Desde que a
conhecera, não fizera outra coisa senão maltratá-la.
- Agradeço por ter defendido minha honra hoje no teatro. Nunca ninguém me protegeu
assim. Pena que você tenha se ferido.
- É por homens desse tipo que eu não queria vê-la trabalhando no teatro. Mulheres de
bem não trabalham como atrizes e nem comandam centros espíritas.
- Pode não parecer, mas sou uma mulher de boa índole. O fato é que preciso me
sustentar. Não posso ficar aqui para sempre, dependendo de você. Minha mãe sempre
trabalhou como atriz, e pretendo seguir os passos dela. Você tem de acreditar em mim:
não roubei o anel de sua mãe. Tem de me deixar partir e tocar minha vida.
Travis a encarou fixamente.
- Eu quero acreditar, mas todas as evidências apontam em sua direção. Houve meios,
motivos, oportunidades, tudo.
A verdade era que não conseguiria mais viver sem Rose. Se ela partisse, parte dele iria
com ela também.
- O que preciso fazer para convencê-lo de minha inocência? - ela insistiu.
- Não sei. A única coisa que sei é que você é diferente de todas as mulheres que já
conheci.
Em sua mente, acrescentou: Não vá embora, meu amor. Não sei mais viver sem você.
Rose apagou o lampião enfiou-se debaixo das cobertas e preparou-se para mais uma
noite sem dormir. As emoções haviam sido muitas e todas de uma só vez. Estava ainda
deslumbrada com sua estréia. Finalmente; seu sonho se realizara! Por outro lado, a
conversa que tivera com Travis fora decepcionante. Ele próprio confessara que estava
confuso. Não a considerava nem culpada nem inocente. E era essa dúvida que a
magoava e que não podia perdoar. Já não a conhecia bem? Sabia que ela era uma
mulher de personalidade forte, mas que sabia respeitar Eugenia e acima de tudo, sabia
comportar-se na casa dele.
E o momento de amor que tiveram, não contava? Como um homem que demonstrara
tanta paixão por ela, podia acreditar que roubara o anel?
De fato, enganava as pessoas para sobreviver, porque nunca tivera uma chance na vida,
mas nunca roubara. Sua vida havia mudado muito desde que conhecera Travis. Não
entendia por que se sentia tão atraída por ele. Podia ter fugido, se quisesse, mas
permanecera no rancho. Na verdade, havia ficado por duas razões muito fortes: primeiro,
porque queria compreender a natureza de seus sentimentos por Travis. E segundo,
porque havia encontrado ali, junto deles, o calor de uma família, principalmente por parte
de Eugenia, que a acolhera como a uma filha. Se partisse, encontraria solidão pelo
caminho e a inquieta perspectiva de um novo começo que não estava disposta a encarar.
Travis não a assumira. Jamais manifestara por ela um sentimento sincero. Quanto a ela,
havia cedido ao julgar-se amada. Entregara-se logo com todo o ardor de sua alma. Ele
devia ter pensado que ela tinha se entregado levianamente, ou não a abandonaria logo
depois. Nem a trataria do modo como a tratava, dizendo-lhe palavras duras.
Mas havia espaço em sua vida para o amor?
O fato era que não podia mais continuar no rancho. Guardaria o sentimento que nutria por
Travis no mais íntimo de seu ser e seguiria em frente. Na semana seguinte, a trupe do
teatro viajaria para San António e o diretor a convidara para seguir com eles,
interpretando Bianca.
Era a oportunidade que sempre sonhara e iria agarrá-la com unhas e dentes. Mesmo que
para isso tivesse de deixar Travis de vez. Não fazia sentido ficar ao lado de um homem
que não a amava.
Travis entrou no escritório do detetive. Já o havia contratado antes, para saber do
paradeiro de seu irmão. Mas até aquele momento, ele não havia encontrado sequer uma
pista de Tanner.
Agora, Travis esperava ansioso pelo relatório de Rose. Não sabia o que ia encontrar pela
frente, se boas ou más notícias.
Após se acomodar, viu que o detetive retirava alguns papéis da pasta e pôs-se a folheá-
los. Com o relatório em mãos iniciou a leitura:
- Aqui está. Srta. Rose Severin, também conhecida como Desirée Severin. - O homem fez
uma pausa. O nervosismo de Travis era crescente. - Não encontramos muita coisa a
respeito desta jovem, mas o pai nos rendeu bastante material. Parece que o homem era
uma espécie de don-juan. Valia-se de seus atributos para aproximar-se de mulheres,
principalmente jovens viúvas ricas. Se ele não conseguisse dinheiro dessa forma,
aplicava então outra série de golpes. Um deles era comprar e vender ações de
companhias não existentes.
- E Rose? Estava envolvida nisso?
- Chegarei a este ponto em breve, sr. Burnett. A mãe de Rose, Rosalyn Severin, era uma
famosa atriz de teatro, que atuava em Nova York. Casou-se com o sr. Severin um ano
antes do nascimento de Rose. Embora estivessem casados, viviam em casas separadas.
Parece que o sr. Severin tinha por hábito trair a esposa. Com o falecimento da mãe, Rose
e um criado de nome Isaiah foram viver com ele.
- Até agora não me contou nada que eu já não saiba - disse-lhe Travis. Mal contendo a
ansiedade.
- Então Rose lhe falou sobre seu passado... Mas vamos prosseguir. Isaiah era um
escravo de Rosalyn, e recebeu alforria antes que ela morresse. Depois de sua morte, ele
optou por continuar com a srta. Severin, cuidando dela, já que seu pai, um homem
instável, preferia a companhia do jogo e mulheres.
- E Rose? O que ela fez? - Travis não acreditava que estivera errado a respeito dela o
tempo todo.
- Estou chegando lá, senhor. Alguns anos depois, o sr. Severin conheceu uma jovem rica
e casou-se com ela. Mas a nova sra. Severin não permitiu que o passado do marido
atrapalhasse sua vida conjugal. O sr. Severin então, viu-se compelido a abandonar sua
única filha à própria sorte para viver com a nova mulher. Deixou-a na cidade de Kansas
sem um lar, sem estrutura financeira, quando ela mal havia completado dezoito anos.
- Imaginei que o pai de Rose estivesse morto.
- Pelo que descobrimos, esta foi a última vez que pai e filha mantiveram contato. O sr.
Severin devorado por suas paixões, mulheres, jogo e bebida, faleceu de complicações no
coração.
- A srta. Rose sabe que ele morreu?
- Provavelmente, não.
- E o que aconteceu a seguir?
- Sem ninguém que a sustentasse, a jovem srta. Rose fez o que qualquer outra mulher
faria em seu lugar. Foi trabalhar para sobreviver. Adotou o nome de Desirée e começou
como médium vidente, viajando de cidade em cidade.
- Só isso? Nunca roubou ou foi presa antes?
- Não. Do ponto de vista legal, ela nada fez que infringisse as leis.
Travis estava surpreso. Rose não era a mulher que ele havia imaginado! E pensar que a
tratara de forma tão deplorável...
- Tem certeza de que não há mais nada para me relatar, detetive? Não está escondendo
nada?
- Fique tranqüilo, sr. Travis. Nós checamos nossas fontes duas vezes. O relatório está
concluído.
Encerrada a questão, Travis levantou-se e apertou a mão do detetive.
- Obrigado, sr. Henry.
- Aqui está o relatório, pode ficar com ele para uma análise mais detalhada. .
Travis acertou os honorários do detetive, apanhou a pasta e saiu apressado do escritório.
Rose nunca mentira para ele. Não era a ladra que ele imaginara ser.
Já era tarde da noite, quando Rose chegou em casa. Todos haviam se recolhido, exceto
Travis. Uma luz estava acesa em seu quarto. Estaria esperando por ela? Tirou o chapéu e
as luvas e subiu as escadas devagar. Esperava encontrá-lo na varanda como na outra
noite, para lhe contar as últimas novidades. Não poderia esconder o fato de que pretendia
partir em breve. A data estava marcada para o próximo domingo. Deixaria o rancho pela
manhã e tomaria a diligência que a levaria para outra cidade, para outra vida.
Entrou no quarto, jogou o chapéu e as luvas sobre a cama e voltou para o corredor. Parou
diante do quarto de Travis. Por baixo da porta podia perceber que a luz continuava acesa.
Após instantes de hesitação, suspirou determinada. Ergueu a mão e bateu na porta, antes
que mudasse de idéia.
- Olá, Rose. Como foi seu dia? - ele perguntou-lhe sorrindo ao abrir a porta.
- Foi tudo bem.
- Nada de bêbados desta vez?
- Tucker tem estado lá todas as noites para garantir que tudo corra bem.
- Ótimo!
Um silêncio constrangedor de repente tomou conta do ambiente.
- Preciso falar com você - começou Rose, sentindo que as palavras começavam a lhe
faltar.
Não havia como negar. Amava-o e a vontade de jogar-se em seus braços era quase
irresistível. Precisava sair logo dali antes que, cedendo à voz do coração, pusesse tudo a
perder.
Subitamente, Travis a puxou para dentro do quarto, fechando a porta atrás de si.
- Sobre o quê? - ele perguntou, fitando-a com apreensão.
- É que... Bem... Ofereceram-me o papel de Bianca por toda a temporada. O grupo estará
partindo neste domingo, e... pretendo seguir com eles.
Travis não respondeu. Apenas a olhava como se a estivesse vendo pela primeira vez.
- Não pode mais me manter aqui, Travis. Precisa me deixar partir. Por favor, compreenda
de uma vez por todas que eu não peguei o anel de sua mãe.
Um sorriso gentil flutuou nos lábios dele, abalando-a. Não queria deixá-lo, mas era
necessário. Não podia fracassar agora.
- Esperei todo esse tempo que você encontrasse o anel, ou quem o tenha roubado, e tudo
o que fez foi me acusar. Vou embora com o grupo de teatro. Você não pode impedir que
eu me vá.
Travis deu um passo em sua direção. A expressão fechada, não revelava o que ele sentia
naquele momento.
Rose recuou e quis voltar correndo para seu quarto. Entretanto, manteve-se firme e ficou
onde estava. Pronta para enfrentá-lo se necessário fosse.
- Vou embora com o grupo de teatro - tornou a dizer.
- Para onde vão? - Travis indagou.
- Waco. Ficaremos lá por duas semanas antes de partirmos para San António. Vou
percorrer o Estado com a companhia.
- Era natural que isso acontecesse. Você atuou bem na peça. Tem muito talento.
- Por favor, Travis. Quero que você compreenda... Não posso mais ficar.
Ignorando o que ela dizia, Travis enlaçou-a pela cintura e a puxou para si.
- Não quero que vá, Rose - disse num tom suplicante, antes de colar seus lábios sobre os
dela.
O momento que ele tanto temera havia chegado. No exato instante em que descobrira
toda a verdade. A mulher que amava estava partindo. E não tinha o direito de lhe pedir
que ficasse. Os lábios de Travis eram duros e exigentes. Rose reconheceu sua própria
vulnerabilidade e cedeu à excitação febril que a tomou de assalto, levando-a a
corresponder ao beijo apaixonadamente.
Sem deixar de fitá-la, Travis ergueu-a nos braços e a levou para a cama. Naquela manhã
no lago, ele havia sido apressado e indelicado com Rose. Essa noite, porém, lhe
demonstraria que a desejava, cobrindo-a de beijos e carinhos, com toda a calma que dois
amantes mereciam desfrutar.
Seus olhos se encontraram. Então, enquanto uma onda de desejo irrompia dentro de seu
peito, ele a tomou nos braços. O beijo começou com muita ternura, os lábios gentilmente
procurando os dela. Mas logo o toque suave tornou-se apaixonado, insistente, e a boca,
devoradora.
A mão de Travis deslizou até os seios de Rose e ela sentiu-se desfalecer e toda a razão
abandoná-la. Sensações guardadas durante muito tempo, extravasaram com tamanha
intensidade que foi impossível qualquer atitude racional.
Travis não conseguiria resistir nem por mais um minuto. Tinha de experimentar o sabor de
Rose, ou ficaria louco. Um fogo lhe dominava o corpo e incendiava a alma. Fechando os
braços em torno do corpo esguio de Rose, apertou-a com força. Aprofundou o beijo,
liberando a paixão.
O sangue incandescente lhe percorria as veias e invadia suas entranhas. Tinha de prová-
la inteirinha.
Rose deixou escapar um gemido de deleite, um som sedutor que o deixou ainda mais
excitado. A pressão dos seios contra seu peito e os quadris em movimentos frenéticos
eram prova disso.
Emitiu um gemido de prazer, sem que pudesse evitar. Deslizou as mãos pelas costas
macias e encaixou-as nas nádegas perfeitas. Rose firmou as pernas em torno de seus
quadris, curvando-se para trás, entregue aos beijos.
As roupas os separavam. Eram roupas demais. Rose queria sentir o calor da pele de
Travis sob as mãos. Ansiosa, começou a desabotoar-lhe a camisa. Roçou os pêlos
macios do peito, sentindo o calor delicioso em suas mãos. Sem nada dizer, arrancou-lhe a
camisa para fora da calça e a puxou pelos ombros. Travis posicionou-se sobre ela,
devorando-a com o olhar. Rose o puxou pelos ombros, para que ele se deitasse sobre
seu corpo. Ora enroscando a língua na dele, ora mordiscando, corria as mãos pelas
costas musculosas.
Cessando os beijos, Travis desabotoou o vestido de Rose e com lábios famintos sugou
um de seus mamilos intumescidos.
Rose arqueou-se para cima. Um calor úmido concentrava-se na junção de suas coxas.
Desesperada, agarrou o cinto dele.
Gentilmente, Travis deslocou-se para o lado e tratou de se despir. Então, deitou-se ao
lado de Rose. Com um sorriso, estendeu a mão e lhe acariciou um dos mamilos. Sentindo
a respiração dele muito próxima de seu rosto, Rose soergueu-se um pouco para deixar o
vestido escorregar por seu corpo.
Travis beijou-a com ardor, deslizando os dedos entre as coxas macias. Invadindo sua
feminilidade, os mesmos dedos alcançaram o centro úmido de seu ser. Contorceu-se toda
quando ele lhe colocou um dedo por completo. O desejo sobrepujava a consciência.
Aproximava-se do clímax, mas Travis ainda não estava disposto a satisfazê-la. Substituiu
o dedo pela boca e língua, ao que quase a lançou ao êxtase. Sacudida por um tremor, ela
tentou abraçá-lo, mas não o alcançava.
Travis pareceu dar-se conta de que ela se aproximava do clímax e cessou a tortura.
Ergueu-se e se apossou dos lábios de Rose, enquanto a penetrava.
A cada investida, Rose elevava-se. As línguas entrelaçadas reproduziam o mesmo ritmo
de seus corpos em junção febril. Entregue ao destino, Rose se entregou ao comando de
Travis, gritando o nome dele. Pôde ouvir ao longe Travis sussurrar seu nome também.
Um tremor violento a mergulhou num mundo de puro prazer.
Travis acordou e olhou para Rose aninhada em seus braços. A luz da lua iluminava seu
rosto, acentuando a expressão de paz que a envolvia. A mulher que o desafiara, o
enfrentara e lhe demonstrara que a vida podia valer a pena, estava ao seu lado. Tinham
apenas algumas horas antes do amanhecer e apenas alguns dias antes que ela o
deixasse para sempre. Percebia agora como fora infeliz antes de conhecê-la. Sua vida
havia sido sempre, sem brilho e sem graça. Não sabia o que faria depois que ela partisse.
Ainda não admitia, nem para si mesmo que estava apaixonado. Mas reconhecia que
havia uma atração enorme entre ambos, e que somente ela sabia satisfazer seus desejos.
Certamente Rose não seria a esposa perfeita que sempre sonhara encontrar, mas sabia,
com toda a certeza, que ela era muito importante em sua vida. Tinha consciência que a
desejava loucamente e que não saberia mais viver sem ela.
Havia também um sentimento de culpa, por ter lhe tirado a inocência. Dormira com ela na
casa de sua família. Qualquer outra mulher nessa situação insistiria para que se
casassem. Apertou-a contra si. A coisa certa a fazer seria pedi-la em casamento. Era um
homem de honra e tinha de fazê-lo, não tinha outra opção. Faria o pedido pela manhã e
ela não iria mais embora.
CAPÍTULO VIII

Rose acordou sentindo Travis beijar-lhe o pescoço e o rosto. A princípio, não reconheceu
onde estava, mas depois lembrou-se da noite de amor que haviam tido e um sorriso
iluminou-lhe o rosto.
- Acorde, dorminhoca. Detesto ter de expulsá-la, mas não seria muito agradável se
alguém a encontrasse aqui em meu quarto.
- Eu sei. - Rose jogou o lençol sobre o rosto, querendo aproveitar os últimos momentos
que teria com ele antes de partir. - Que horas são?
- Hora de você acordar e conversar comigo antes de voltar para o seu quarto.
A lua ainda brilhava no céu, e sua luz invadia o quarto, deixando visível o rosto de Travis.
Ele estava tão sério que Rose se aconchegou mais junto a seu corpo e fechou os olhos,
como se fosse dormir novamente.
- Rose, não durma!
- Não estou dormindo. Estou ouvindo.
- Estive pensando. A maioria das mulheres esperaria um pedido de casamento depois da
noite que tivemos.
- Hum...
- Eu... Acho que deveríamos nos casar.
Rose soergueu-se na cama e o encarou. Será que tinha ouvido direito?
- Você me pediu em casamento?
- Sim, pedi.
- Mas... Está falando sério?
- Quer se casar comigo, Rose?
Os olhos dela encheram-se de lágrimas. Sem poder conter sua emoção, jogou-se nos
braços de Travis.
- Sim! Sim! - Casamento! Travis pedia para que ela fosse sua esposa. Começou a rir.
- Podemos contar para minha mãe neste fim de semana e nos casarmos na semana que
vem. - Com um amplo sorriso, Travis a beijou, e Rose sentiu-se a mulher mais feliz do
mundo.
- Por que esperarmos até o final de semana? Por que não contarmos agora?
- Jantaremos em família no domingo e aproveitaremos para dar a notícia. Vai ser mais
divertido.
Ele tinha razão. Sim, seria uma grande surpresa.
- Tem razão. Quem vai convidar?
- Mamãe, Tucker e talvez meus tios.
- Acha que podemos esconder isso até lá?
- Eu consigo, e você?
- Vai ser difícil. Sua mãe vai suspeitar, principalmente se estivermos nos tratando bem.
- Então vou provocar você.
- Tente e verá, caubói. Terei de castigá-lo depois. Travis tornou a beijá-la, puxando-a
contra si.
- Vamos continuar o que estávamos fazendo?
Deitaram novamente, e entre beijos e carícias, esperaram o dia amanhecer.
O calor do verão era intenso naquela tarde de sábado. Em vão Rose tentava ler um livro.
Seus pensamentos voltavam-se insistentemente para Travis e para o casamento. Dentro
de uma semana seria a sra. Burnett e isso deixava-a feliz a ponto de sorrir à toa.
Estava ansiosa e adoraria poder compartilhar a boa nova com Eugenia. Conseguira até
manter segredo, pois por sorte, ela se ausentara. Fora visitar a amiga que estivera
doente. Quanto a Travis, parecia aceitar tudo com naturalidade. Até sua última
participação do espetáculo no sábado.
Ainda não haviam tido tempo para conversar sobre o assunto, mas supunha que Travis
iria pedir-lhe para que deixasse a carreira de atriz. Se ele pedisse, desistiria de bom
grado, pois atuar já não lhe parecia mais tão importante.
Ela correu os olhos ao seu redor. Jamais acreditaria se alguém lhe dissesse que acabaria
casando-se com Travis.
Certamente ele já não acreditava que ela fosse uma ladra, caso contrário não a teria
pedido em casamento. Mas onde estava o anel de Eugenia, afinal? Será que alguém o
roubara ou estaria perdido? Poderia procurá-lo pela casa, mas se o encontrasse poderiam
achar que estivera com ela todo aquele tempo.
Rose estava ansiosa e decidiu escrever um bilhete para Travis antes de ir ao teatro. Havia
muita coisa que precisavam resolver antes do casamento.
Foi até a escrivaninha em busca de papel. Abriu a gaveta e deparou-se com uma pasta
com a seguinte inscrição:
Relatório de Henry Gates, detetive particular. Investigação sobre Rose Severin.
Fitou a pasta incrédula, durante alguns segundos, antes de deixar-se cair sentada na
cadeira. Ele a tinha investigado! Havia contratado alguém para desvendar seu passado.
Respirou fundo, abriu a pasta e começou a ler o que haviam escrito sobre sua vida. O
detetive era realmente bom. Leu tudo sobre o casamento de seus pais, a morte de sua
mãe, a vida que levara ao lado do pai. Como haviam viajado de cidade em cidade, o
abandono de seu pai quando ainda era jovem e detalhes sobre seu criado e companheiro,
Isaiah.
Mas o último parágrafo do relatório foi o que mais lhe chamou a atenção:
George Severin faleceu devido a problemas no coração três meses depois de seu
casamento com a nova sra. Severin.
Seu pai já estava morto, enquanto ela vagava pelo país, tentando juntar dinheiro para ir a
Nova York.
Ficou ali, sentada, chocada com a notícia. Sabia que não fazia sentido, mas estava
magoada por Travis ter escondido a verdade. Ela dissera-lhe que seu pai havia morrido,
mas não sabia que sua mentira era verdade.
Travis lhe contaria sobre a investigação, ou será que não o faria?
Uma lágrima escorreu por seu rosto enquanto a dúvida quase dilacerava seu coração.
Subitamente olhou para o relatório e foi tomada de uma raiva infinita.
Travis não só a acusara e duvidara de tudo que ela lhe dissera, mas também pagara
alguém para descobrir tudo sobre seu passado antes de pedi-la em casamento.
Só lhe dissera na noite anterior que deveriam se casar. E ela aceitara sem pensar duas
vezes. Mas ele nunca havia mencionado a palavra "amor", nem lhe dissera que estava
apaixonado. Nada. Apenas a pedira em casamento. Mas por que ele se casaria se não
fosse por amor? Seria apenas mais uma tentativa de mantê-la ali? Um plano diabólico
para retê-la?
Rose secou com as mãos as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto. Travis Burnett não
era o tipo de homem que lhe recitaria poesia ou lhe faria declarações de amor. Vivia de
acordo com suas regras. Era um bom homem, honesto, mas enérgico e esperava que
todos lhe obedecessem. Tinha muitas virtudes, sem dúvida, mas era incapaz de
expressar seus sentimentos para aqueles a quem amava de fato.
Por que ele decidira repentinamente casar-se, quando ela acabara de lhe dizer que iria
embora? Seria mesmo um plano para mantê-la a seu lado até que encontrasse o anel?
Ele teria coragem de casar-se com alguém que não amava?
Ela lutara sempre, para deixar seu passado para trás e tentar reconstruir sua vida. Mas
agora a amarga lembrança voltava para lhe atemorizar e mostrar que não era a mulher
adequada para ser a companheira de Travis.
Subiu as escadas devagar e foi preparar-se para ir ao teatro. Nessa noite, mais uma vez,
seria uma atriz. Não uma atriz que a vida lhe impusera durante todos esses anos,
encarnando a personagem Desirée, a vidente, mas simplesmente uma atriz de teatro. E
talvez essa fosse sua melhor opção. Seguiria seu destino e partiria com a Companhia de
Teatro.
Travis estacou perplexo diante da porta da sala. Rose descia as escadas e do lado de
fora da casa a carroça a aguardava, pronta para partir. Olhou para o baú dentro da
carroça e para Rose que vinha descendo.
- Aonde vai? - perguntou-lhe.
Rose passou por ele, mal o encarando, segurando a pasta do detetive.
- Ontem, fui procurar papel em sua escrivaninha para fazer uma lista de casamento,
quando encontrei isto.
- Rose, eu... - Surpreso, ele procurava pelas palavras para poder explicar-se.
- Como pôde? Mandou me investigar? Travis foi em sua direção, mas Rose afastou-se.
- Você estava enganando minha mãe, o que queria que eu fizesse?
- Você podia ter me perguntado tudo o que quisesse saber sobre meu passado e eu lhe
teria dito.
- Não confiava em você, de nada teria adiantado.
- E acredita agora? Acredita e confia em mim? Responda, Travis. Ainda acha que roubei o
anel de sua mãe?
- Sobre o anel, eu não sei o que lhe dizer...
Rose sentiu o peso daquelas palavras e Travis pôde ver sua reação.
- Pedi que a investigassem há meses, assim que a trouxe para o rancho. Eu não tive
outra opção. Felizmente descobri que você não era quem eu pensava que fosse.
- Felizmente? Não sou quem você pensava e por isso resolveu casar-se comigo? Mas
ainda acha que posso ser uma ladra!
- Não, eu só...
- E por que não me pediu em casamento antes de receber o relatório?
- Quero protegê-la, Rose. Pode estar grávida, é meu dever casar-me com você. - Travis
arrependeu-se das palavras assim que as pronunciou.
- Para o inferno você e seu senso de dever! Você e sua respeitabilidade! Quando eu me
casar, quero um homem que me ame de verdade, e não apenas a sua honra!
Afastou-se dele e foi até a janela.
- Aliás, Travis, não consigo me lembrar de tê-lo ouvido dizer que me ama. Ou que se
importa comigo. Mas já deixou bem claro várias vezes que sou desonesta.
Travis ficou ali parado, sem ação. Não sabia o que lhe dizer. As palavras que ela queria
ouvir estavam presas em sua garganta.
Houve um silêncio pesado entre ambos. Sim, ele se importava com Rose, mas não
conseguia admitir que a amava e não mentiria para ela.
- Seu silêncio diz tudo, caubói. Desde que me trouxe para o rancho, me senti atraída por
você, mesmo sabendo que deveria odiá-lo. Não queria isso, mas me apaixonei pelo
homem bom e honesto, mesmo sabendo o que você pensava sobre mim. Pensei que
pudesse me amar um dia, pelo que sou. Posso não ser uma dama perfeita, mas sou uma
mulher honesta. - Rose apanhou a mala. - Meu pai sempre dizia que eu era sonhadora, e
acho que ele estava certo. Obviamente seu pedido de casamento foi apenas mais uma
tentativa de recuperar o anel.
- Não, quis me casar com você para que não fosse embora.
- Se não me ama e nem confia em mim, não podemos nos casar.
- Quis fazer a coisa certa. Tentei protegê-la das conseqüências de nossa paixão.
- Não quero suas boas intenções. Quero o seu amor. Hoje é minha última apresentação.
Amanhã estarei na diligência que deixará a cidade.
- Mas...
- Foi bom não termos contado nada a Eugenia. Ninguém precisa saber que você me
pediu em casamento, levado apenas por um sentimento de nobreza.
- Estou lhe pedindo que fique, que seja minha esposa. Não precisará trabalhar, vou cuidar
de você e fazer com que a respeitem.
- Respeitada por todos, menos por você. Para o inferno você e sua responsabilidade!
Quero amor, um marido que possa me dizer tudo que sente por mim, e não alguém que
tenha se casado comigo por remorso.
Rose saiu apressada e subiu na carroça que a aguardava.
Rose entregou a passagem para o condutor da diligência e correu o olhar pela plataforma
uma última vez antes de embarcar, na esperança de reencontrar Travis. Frustrou-se, ele
não a amava e certamente não correria para ela para tentar impedi-la de viajar.
Acenou para Isaiah, que montava seu cavalo. Ele seguiria a diligência até Waco, onde
estavam marcadas as próximas apresentações do grupo teatral.
Olhou através da janela da diligência, enquanto se afastavam de Fort Worth. As ruas
estavam desertas. Não havia nem sinal de Travis, Eugenia ou Tucker. Ninguém além de
Isaiah e parecia que, de certa forma, o destino a colocava de volta para uma realidade
que ela acreditara não ter que reviver tão cedo. Como faria para deixar de amar Travis?
Como seguir para tão longe, deixando seu coração para trás?
Uma lágrima escorreu-lhe pelo rosto, mas logo a enxugou. A roda da vida apontava-lhe o
próximo caminho a seguir. Uma porta se abriu e pôde vislumbrar um futuro melhor para
ela e Isaiah. Tornaria-se uma atriz famosa e iriam para Nova York.
Jamais retornaria para Fort Worth, o lugar onde se apaixonara por um caubói que não
sabia amar. Travis não a amava e o melhor a fazer era esquecê-lo.
Fechou a cortina da janela, deixando para trás um passado que faria de tudo para
esquecer. Inclinou-se sobre o banco estofado. E lutou contra as lágrimas que insistiam em
rolar por suas faces.
Travis cavalgava sem direção, remoendo os pensamentos. Tentava a todo custo entender
o que havia acontecido entre ele e Rose. Por que ela chegara àquele extremo? Por que
partira deixando para trás tudo que viveram? Rose confessara que se apaixonara por ele,
mesmo com todas as acusações que lhe fizera. Ninguém o amara assim antes. As
mulheres sempre se aproximavam dele por puro interesse. Rose o deixara,
independentemente de seus bens ou da vida confortável que ele lhe ofereceria, de seu
pedido de casamento e de sua proteção, quando soubera que ele não a amava.
Sentia tanto sua falta! Tinha saudade de seu sorriso do modo como preenchera seus dias
e de como o fizera enxergar a vida de maneira diferente. Desafiara-o e o encarara-o sem
medo, porque era uma mulher de personalidade. Não era como as outras mulheres que
conhecera até então. Ele não tivera sensibilidade para perceber suas qualidades e fora
muito duro com ela ao julgá-la.
Julgara saber com quem estava lidando, mas o destino pregara-lhe uma peça. Sentira-se
atraído por ela desde o primeiro dia que a conhecera. Agora, sentia-se mais solitário do
que nunca. Era como se parte de sua alma o tivesse deixado.
De alguma forma, Rose o tornara um homem melhor, e ele a deixara partir. Um orgulho
cego o impedira de ver que ela o completava.
Amava-a e negara-se dizer as palavras que ela tanto precisava ouvir: Eu te amo.
Fora um tolo, por tê-la deixado ir, sem correr atrás dela e gritar para que voltasse! Estava
apaixonado havia tempo e não percebera. Desejava casar-se com ela sim, porque a
amava desesperadamente.
Precisava encontrá-la, desculpar-se, pedir que o perdoasse e afirmar que desejava viver
ao seu lado. E que para isso, estava disposto a segui-la mesmo se ela quisesse ser atriz.
Desejava que ela se tornasse sua esposa, sua amante e sua companheira. Amava-a
loucamente e não deixaria que daquela vez, seu orgulho tirasse de seu caminho o que o
destino lhe dera de presente: A mulher de sua vida!
Olhou a seu redor, percebendo onde estava pela primeira vez. Deixara-se seguir sem
rumo e agora estava no limite do rancho. Deu meia-volta e esporeou a égua, ansioso por
voltar em casa e fazer as malas. Precisava partir logo para Waco e procurar por Rose.
Antes que ela desaparecesse de sua vida para sempre.
Travis desceu as escadas pronto para partir.
- É você, Travis? - perguntou Eugenia da sala.
- Sim, mamãe.
- Onde está Rose? Achei que ela estivesse com você. Ele parou e deixou sua bagagem
no chão.
- Posso lhe contar rapidamente, mas depois preciso partir.
- O que está acontecendo, filho? Parece nervoso. Alguma coisa aconteceu com Rose?
- Ela foi embora, e estou indo atrás dela.
- Como? Vocês dois pareciam ter se entendido bem. Achei que talvez... Eugenia parou de
falar. Travis não estava surpreso por sua mãe ter descoberto que os dois estavam juntos.
- Ela foi com o grupo teatral para Waco. Deixaram a cidade ontem de manhã.
- Pensei até na possibilidade de você pedi-la em casamento.
- Eu pedi, mamãe.
- E ela não aceitou?
- Aceitou.
- Então, por que ela se foi?
Travis encarou a mãe e começou a lhe explicar:
- Assim que a trouxe para o rancho, Tucker mencionou o detetive que a senhora e ele
haviam contratado para procurar Tanner. Achei que seria bom investigar o passado dela.
Assim poderia provar a todos que ela era uma mulher desonesta e deveria estar atrás das
grades. Recebi o relatório do detetive na semana passada. Rose é uma falsa médium,
isto é verdade, mas nunca fez nada de errado, nunca cometeu crime algum. Até roubar
seu anel, nunca fora acusada de nada.
- Ainda não me disse por que ela foi embora.
- Ela encontrou o relatório na minha escrivaninha. Ficou chocada por eu ter mandado
investigá-la. Disse que eu não confiava nela. Eu não soube lhe dizer que a julgava
inocente. Magoada, ela resolveu partir.
- Você a ama?
- Sim. E não me importo se ela roubou o anel ou não. Só sei que a amo.
- Há algo que preciso lhe contar sobre o anel, Travis. - Eugenia estava apreensiva, mas
encheu-se de coragem. - Rose nunca pegou nada.
- Como? O que está dizendo, mamãe?
- O anel está comigo.
- Como teve coragem de acusá-la injustamente? Isto é muito grave!
- Esperei durante anos para que um de meus filhos se casasse. Finalmente cheguei à
conclusão de que nada aconteceria se eu não cuidasse do assunto pessoalmente. Depois
que a colocaram na prisão, percebi que Rose era exatamente o tipo de mulher que você
precisava. Soube desde o começo que ela era a mulher perfeita para você.
- O que fez com o anel? - perguntou Travis muito irritado.
- Depois que paguei a fiança, fomos para a casa de Rose e tentei convencê-la a mudar-se
para o rancho. Pedi-lhe também que me ajudasse a encontrar Tanner e ela não aceitou.
Eu estava desesperada. Sabia que você não deixaria ninguém aproveitar-se de mim,
então escondi o anel em minha bolsa. - Eugenia ergueu os olhos marejados para o filho: -
Menti para você, Travis.
A casa ficou em silêncio. Travis sentia-se traído. Sua mãe o enganara, para conseguir o
que queria. E a única coisa que conseguira fora feri-lo e também a Rose. Ela fora a maior
prejudicada, pois chegara a ser taxada de ladra.
- Sei que não fui justa com você e Rose, e não o culpo se não puder me perdoar.
- Como pôde fazer isso? Deixou-me praticamente seqüestrar uma jovem inocente, trazê-
la contra a vontade até o rancho, apenas para que pudesse brincar de santa
casamenteira!
- Fiz isso com a melhor das intenções, filho. Mas sei que isso não justifica os métodos que
usei para conseguir o que queria.
- O que fez é imperdoável! Será que não percebe como a tratei? Deixou-me estragar a
vida de Rose, fazendo com que eu acreditasse que ela era uma ladra e que se
aproveitava dos outros.
- Um momento! Eu estava errada e admito. Mas você chegou a essas conclusões
sozinho. É bom lembrar-se que eu sempre a defendi. Sempre lhe disse que ela era uma
boa garota.
- Mas isso não justifica o que fez! Ela disse que me amava antes de partir, mas que não
podia ficar comigo porque eu não confiava nela. O que a senhora fez foi contra todos os
princípios que me ensinou. Ela era inocente, e eu nunca acreditei.
Sentia-se um tolo. Estivera errado o tempo todo e pior, magoara a mulher que amava.
Sem poder mais esperar, deu as costas à mãe.
- Aonde vai, Travis?
- Vou atrás da mulher que amo. Vou lhe dizer que estou apaixonado e que sinto muito ter
acreditado em você! - Colocou o chapéu na cabeça. - Dê-me o anel!
Eugenia correu atrás de sua bolsa e pegou a jóia, entregando-a ao filho.
- E faça-me um grande favor, mãe. Não se meta mais em minha vida sentimental!
Dias depois, Rose tentava colocar em ordem aquele emaranhado de sentimentos
confusos que deixara para trás. Era extremamente difícil para ela esquecer tudo o que
vivera em Fort Worth.
Felizmente, o teatro a mantivera ocupada. A peça era um sucesso e a platéia estivera
lotada todos os dias. Na pequena comunidade de Waco, Rose e os atores eram
celebridades. As pessoas a paravam na rua para lhe pedir autógrafo e elogiá-la como
atriz. Apesar do sucesso, sabia que logo a companhia de teatro partiria percorrendo todo
o estado. Já não sabia mais se desejava ser atriz. De certa forma, esse sonho a
perseguira, porque sua mãe havia sido uma mulher independente que conquistara o
sucesso e a fama. Será que ser atriz era o melhor caminho a seguir?
Seus pais já haviam morrido e ela estava sozinha no mundo. Deixaria Isaiah partir
também, assim ele teria tempo de cuidar de sua família e ficar próximo de seu pai que
não estava bem de saúde. Desejava mudar de vida, começar novamente, talvez em um
outro lugar, não sabia ainda ao certo.
Nesse exato momento Isaiah bateu na porta de seu camarim, interrompendo-lhe os
pensamentos.
- Entre.
- Srta. Rose, está bem?
- Sim, bem Isaiah. Sente-se, precisamos conversar.
- O que está acontecendo? Não parece feliz, senhorita.
- Tem razão, Isaiah. Não estou feliz desde que deixamos Fort Worth. Travis me pediu em
casamento, mas descobri que ele mandou investigar meu passado. Exagerei na reação
quando soube do fato. E além da questão do anel, sinto que ele não me ama. Diante
disso, recusei o pedido.
- Oh, srta. Rose, sinto muito.
- E tem outro fato importante. No relatório do detetive, descobri que meu pai morreu.
- Morreu?
- Parece que teve um problema no coração meses depois do casamento.
- Sinto muito, senhorita.
- Estive reavaliando minha vida e sobre o que desejo realmente fazer.
- E o que pensa fazer daqui para a frente?
- Desde pequena, sempre ouvi falar de mamãe e de sua carreira. Pensei que pudesse
seguir seu exemplo, mas não tenho certeza se é isso mesmo o que quero para mim.
- Entendo.
- Acho que sempre quis o sonho dela e não o meu. Quero parar de viajar de cidade em
cidade. Preciso permanecer num lugar onde eu possa criar raízes.
- E o que pretende fazer?
- Ainda não sei. Tenho ainda um pouco de dinheiro que economizei. Acho que vou para a
Califórnia.
- Mas é tão longe...
- Eu sei, e por isso o libero de seus deveres, Isaiah. Está na hora de também cuidar de
sua vida. Deixá-lo partir doía, mas depois de tantos anos de lealdade, seria justo que
Isaiah pudesse descansar e cuidar de sua família. Isaiah a encarava, surpreso. Havia
lágrimas em seus olhos.
- Sempre achei que a deixaria só quando estivesse casada.
- Seus pais precisam de você. Não posso pedir-lhe que me siga até a Califórnia e os
abandone.
Não é justo. Você foi fiel à promessa que fez a minha mãe. Foi muito companheiro
durante todos esses anos e eu lhe sou muito grata por isso.
Rose esforçou-se para não chorar diante dele. Isso o faria desistir de partir.
- Quando pretende viajar?
- Esta noite é minha última apresentação. Já avisei o grupo que não os acompanharei a
San António. Devo partir para Galveston e de lá tomar um barco.
- Vai me avisar, assim que chegar à Califórnia?
- Não iremos perder contato nunca, Isaiah. Você é a única família que me resta. Fique
tranqüilo, eu o avisarei.
Levantaram-se e Rose abraçou o amigo.
- Vou sentir muito a sua falta, srta. Rose.
- Não tanto quanto sentirei a sua, meu querido amigo. Conversaremos novamente antes
que eu parta.
- Eu tinha esperança de que a senhorita e o sr. Burnett se acertassem. Ele é um bom
homem.
- Eu sei e também esperava que isso acontecesse. Mas não aconteceu.
Fazia quase uma semana que Travis não via Rose. Cavalgara sem descanso até Waco.
Sua égua estava exausta, e ele também. Estava cansado, cheio de poeira, mas não se
importava. Era quarta-feira à noite, e a peça já devia ter começado. Gostaria de hospedar-
se em algum hotel, tomar um bom banho e trocar de roupa, mas não tinha tempo. Não
queria correr o risco de perder Rose.
Amarrou a égua do lado de fora do teatro e tentou tirar um pouco da poeira de sua roupa.
Comprou um ingresso e sentou-se na platéia. A peça já estava no segundo ato. Sentia-se
melhor apenas de poder vê-la e saber que logo estariam conversando.
Durante o caminho, pensou no que lhe diria. Imploraria por uma segunda chance. No
terceiro ato, novamente, um homem bêbado levantou-se, indo até o palco, gritando com
as atrizes.
- Levantem essas saias e dancem o cancã. Dancem, garotas, dancem!
Neste exato momento, Rose entrou pela lateral do palco, para encenar seu papel. O
homem tentou alcançá-la, e Travis saiu de seu lugar, correndo até o palco.
Rose afastou-se quando ele agarrou o homem. Estava um pouco escuro e por um
segundo pensou que fosse Travis. O bêbado tentou acertá-lo, mas errou e Travis lhe deu
escuro e por um segundo pensou que fosse Travis. O bêbado tentou acertá-lo, mas errou
e Travis lhe deu um murro, deixando-o desacordado. Arrastou-o para fora, entregando-o
para um delegado local.
Foi então que viu Isaiah. Ele vinha correndo em sua direção.
- Eu estava pronto para apanhar aquele homem quando o vi. O que está fazendo aqui, sr.
Burnett?
Travis sorriu, gostava de Isaiah.
- Estou aqui para ver Rose. Temos alguns assuntos a resolver.
- É bom que o senhor tenha chegado hoje. Ela já avisou o diretor que se desligará da
companhia. Partirá para a Califórnia amanhã. Pretende ir para não voltar.
Travis gelou diante da possibilidade de perdê-la. Juntos, retornaram ao teatro. Isaiah
despediu-se, assim que a peça terminou.
- Ficarei por aqui até ela partir. Desejo o melhor para a srta. Rose. Boa sorte, sr. Travis.
- Obrigado, Isaiah.
Travis foi em direção aos camarins. Uma jovem atriz estava entrando, e ele a interceptou.
- Poderia me fazer a gentileza de avisar Rose Severin, que aqui fora há alguém que
deseja vê-la?
A atriz o observou dos pés à cabeça.
- Está bem. - Entrou no camarim e gritou: - Rose, tem um caubói bonitão aqui fora
esperando por você.
Rose sentiu os joelhos enfraquecerem. Espiou por um vão da cortina e viu Travis. Seu
coração disparou. Então era ele mesmo que vira na platéia. Saiu do camarim e o recebeu
com frieza.
- O que está fazendo aqui?
Travis rodou o chapéu entre as mãos. Parecia exausto e nervoso.
- Precisamos conversar, se não se importa.
- Se é sobre o anel de sua mãe, desista! Já falamos até demais sobre isso.
- Não falamos, não. O anel foi encontrado. Gostaria de lhe contar como foi que isso
aconteceu.
Curiosa, Rose entrou no camarim para apanhar a bolsa e saiu logo. Caminharam lado a
lado, para longe do teatro.
- Quando chegou?
- Há uma hora, mais ou menos. Vim direto para cá.
O coração de Rose tornou a acelerar-se. Ele viera direto ao seu encontro assim que
soubera que o anel fora encontrado. Era um bom sinal. Na praça, encontraram um banco
vago e sentaram-se, ambos imersos num silêncio constrangedor.
Travis foi o primeiro a rompê-lo.
- Devo-lhe mais um pedido de desculpas. Acusei-a inúmeras vezes de ter roubado o anel
e cometi um terrível engano. Sinto muito e espero que me perdoe.
Rose o olhava, surpresa.
- Devo admitir que estou impressionada. Você aqui, só para se desculpar... Fico feliz que
finalmente reconheceu que não sou culpada. Desculpas aceitas - disse-lhe num meio
sorriso.
Ela nunca o vira daquele jeito, lutando para esconder sua emoção, tentando expressar o
que sentia, mas tendo dificuldades em fazê-lo. Embora estivesse com pena dele,
continuou a manter-se distanciada.
- Tem mais um fato importante que precisa saber. Minha mãe gostou de você desde que
a conheceu. E quis, a qualquer preço, que nos aproximássemos. Ela inventou a história
do anel, porque foi a única maneira que encontrou de você ficar conosco no rancho por
algum tempo.
- Como? O anel nunca desapareceu? Fui forçada a viver em seu rancho todo este tempo
e o anel estava lá? Como Eugenia pôde fazer isso comigo?
- Eu devia ter desconfiado. O modo como ela a defendia não era normal. Sei que isso não
a fará sentir-se melhor, mas já a repreendi por tudo que fez.
- Eu sabia que ela queria que ficássemos juntos, mas nunca achei que pudesse chegar a
esse ponto!
Travis levantou-se e continuou:
- Há mais uma coisa que preciso lhe dizer. Desde que foi embora, uma parte de mim se
foi também. Não sou homem de expressar meus sentimentos, mas você teve razão em
me deixar.
Talvez se não tivesse partido, não saberia o quanto é importante para mim. Você é a
razão da minha vida, e eu estou apaixonado por você. Eu te amo, Rose. Travis tirou o
anel da mãe do bolso e o ofereceu a ela.
- Apesar de tudo foi este anel que nos uniu. Por favor, case-se comigo.
Rose olhou para o belo caubói. Ele a pedira em casamento e dissera que a amava. Sem
disfarçar seu contentamento, jogou-se nos braços de Travis e o beijou.
- Isso significa que aceitou meu pedido? - ele perguntou.
- Sim, quero me casar com você, Travis Burnett. Só não sei se serei a dama com quem
sempre sonhou.
Ele riu.
- Amo você. Seja você e nunca deixe de me amar.
Seus lábios se tocaram, selando as juras de um amor eterno.
- Estou um pouco zangada com sua mãe, não posso negar. Mas sem ela, nunca teríamos
nos encontrado. - Rose ergueu a mão e olhou seu dedo. - Este anel nos uniu e nos
manterá unidos para sempre!
- Madame Desirée, será que consegue prever nosso futuro?
- Vejo uma imagem nítida em minha mente. Estamos numa hospedaria e juntos estamos
selando nossa união com uma noite de amor.
- É uma bela previsão, sra. Rose Burnett. Caminharam de mãos dadas e dirigiram-se para
a única hospedaria de Waco, onde já haviam estado certa vez. Pediram um quarto e
Travis a carregou no colo. Assim que a depositou no chão, Rose aconchegou-se contra
ele e murmurou-lhe ao ouvido.
- É a nossa noite de núpcias, querido. .
- Conseguimos! - ele exclamou, exultante.
- Havia tanta coisa contra nós...
- Nada no mundo me fará desistir de você. Você será minha esposa e amanhã todos
saberão disso!
Seus olhos se encontraram e Rose compreendeu, sem necessidade de palavras, o que
desejava saber: estavam definitivamente ligados quaisquer que fossem as
conseqüências.
Travis ergueu-a em seus braços e a colocou na cama.
- Que fiz eu para merecer uma mulher assim?
- Meu caubói... - ela sussurrou.
- Esta noite sou apenas um homem apaixonado! - Travis sorriu e olhou-a. - Ela estava
linda com os cabelos espalhados sobre o travesseiro. Beijou-a, exaltado.
- Venha para mim, meu amor. Esta noite não vamos dormir.