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A SOLU« O ELEGANTE DE LACAN:

uma formalizaÁ„o do ìAlÈm do PrincÌpio do Prazerî

Henri Kaufmanner

2

Henri Kaufmanner

A SOLU« O ELEGANTE DE LACAN:

uma formalizaÁ„o do ìAlÈm do PrincÌpio do Prazerî

DissertaÁ„o apresentada ao Curso de Mestrado da Faculdade de Filosofia e CiÍncias Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial ‡ obtenÁ„o do tÌtulo de Mestre em Psicologia. £rea de concentraÁ„o: Estudos PsicanalÌticos Orientador: Prof. JÈsus Santiago Universidade Federal de Minas Gerais

Belo Horizonte Faculdade de Filosofia e CiÍncias Humanas da UFMG

2006

3

Kaufmanner, Henri

A SoluÁ„o Elegante de Lacan: uma formalizaÁ„o do ìAlÈm do PrincÌpio do Prazerî ñ Belo Horizonte: UFMG/FAFICH, 2006.

147p.

DissertaÁ„o apresentada ao Curso de Mestrado da Faculdade de Filosofia e CiÍncias Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial ‡ obtenÁ„o do tÌtulo de Mestre em Psicologia. £rea de concentraÁ„o: Estudos PsicanalÌticos Orientador: Prof. JÈsus Santiago Universidade Federal de Minas Gerais

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AGRADECIMENTOS

A JÈsus Santiago, pelo lastro, pela paciÍncia e, principalmente, pela aposta decidida

que sustentou em sua orientaÁ„o. Sua atenÁ„o e amizade foram imprescindÌveis para que

este trabalho seguisse sua trajetÛria.

A Jefferson Machado Pinto pela acolhida e riqueza de discuss„o que me permitiram

vislumbrar um caminho em meu retorno ‡ Universidade.

A Luis Fl·vio Couto pela pertinÍncia de seu cuidado com a metodologia, que se

revelou fundamental para dar corpo a esta pesquisa.

Aos colegas AndrÈa Milagres, ErcÌlia, Fernando Casula, Romina, SÈrgio Campos e

Tereza Cristina, interlocutores de primeira hora, parceiros de discussıes que, alÈm de

deliciosas, ampliaram os horizontes desta investigaÁ„o.

A Eliza Alvarenga, Oswaldo FranÁa Neto e AntÙnio Teixeira pela atenÁ„o e

precis„o dos coment·rios em minha qualificaÁ„o.

Ao pequeno Jo„o, cujo alegre e contagiante brilho tem a idade deste projeto.

A Marina por sua perspic·cia e curiosidade, alÈm da desconcertante e adolescente

paciÍncia.

A minha querida Simone, por seu jeito t„o singular de dar o que n„o tem.

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Pra Simone, pra Marina e pro Jo„o

6

Geometry has two treasures: one is the theorem of Pythagoras; the

other, the division of a line into extreme and mean ratio. The first

we may compare to a measure of gold; the second we may name a

precious jewel.

Kepler [1571-1630]

7

SUM£RIO

INTRODU« O

11

1. A chave do problema

17

2. Plano de trabalho

18

CapÌtulo I ñ A disjunÁ„o entre o simbÛlico e o imagin·rio

1. A ìQuest„o preliminarî

21

21

1.1 CrÌtica ‡ unicidade do Eu

21

1.2 A predomin‚ncia do simbÛlico

25

1.3 A apresentaÁ„o do Esquema L

27

2. A funÁ„o imagin·ria do eu e o discurso do inconsciente

29

2.1 O MÍnon e o descentramento

29

2.2 A hi‚ncia entre o simbÛlico e o imagin·rio

32

3. O infinito na matem·tica

38

3.1 O infinito e seus paradoxos

38

3.2 Uma breve histÛria do infinito na matem·tica

43

3.3 O contÌnuo e o infinito

45

4. "EnergÈtica lacaniana"

47

4.1 O simbÛlico e o AlÈm do PrincÌpio do Prazer

49

4.2 O imagin·rio humano n„o È sem o simbÛlico

53

Capitulo II ñ Puls„o de morte: a supress„o da hi‚ncia

1. O sujeito e o Eu: modelos para entender o descentramento

57

58

1.1 O impasse imagin·rio

58

1.2 A atemporalidade da mensagem simbÛlica

60

1.3 O trÌodo

61

2. Mais de uma maneira de morrer

65

2.1 A SÌndrome de Cotard

65

2.2 A tragÈdia de …dipo

67

2.3 O

horror do Sr. Valdemar

69

3. O Esquema L e a lÛgica estrutural

71

3.1 O sonho da injeÁ„o de Irma

72

3.2 A an·lise e o lugar do analista

81

3.3 O esquema L e a psicose

84

CapÌtulo III - O problema e suas soluÁıes

1. O problema de Schreber

93

94

1.1 A dimens„o simbÛlica do problema

94

1.2 A decomposiÁ„o imagin·ria e a frase simbÛlica

95

1.3 A dialÈtica do engano e o esforÁo de Schreber

99

2. O Eu e o falo

101

2.1 A simbolizaÁ„o primordial

102

2.2 A sÈrie simbÛlica

105

2.3 A met·fora paterna e o falo

107

2.4 Neurose e psicose

111

8

3.1 O segmento ·ureo

114

3.2 A incomensurabilidade da ìraz„oî

117

3.3 A ìDivina ProporÁ„oî

120

4. A soluÁ„o de Lacan

122

4.1 O φ e o φ

122

4.2 A soluÁ„o neurÛtica

128

4.3 A soluÁ„o elegante de Schreber

130

CONCLUS O

137

REFER

NCIAS BIBLIOGR£FICAS

143

9

RESUMO

Tomando como ponto de partida o texto De uma quest„o preliminar a todo tratamento possÌvel da psicose nossa investigaÁ„o centrou-se na elucidaÁ„o dos elementos matem·ticos presentes no Esquema R e no Esquema I, que Lacan apresenta como topologias referentes ‡ constituiÁ„o da realidade na Neurose e na Psicose, respectivamente. Em ambos os esquemas foi possÌvel localizar elementos gr·ficos que dizem respeito ‡ noÁ„o de infinito, pois, os dois apresentam assÌntotas em sua constituiÁ„o. Na busca da origem desses esquemas encontramos o Esquema L, apresentado por Lacan no Semin·rio 2. Com o desenvolvimento de nosso trabalho percebemos que esse esquema È um organizador de seu pensamento nos anos 50, e tem como elementos principais em jogo, a disjunÁ„o do simbÛlico e do imagin·rio, e a persistÍncia de uma hi‚ncia insuplant·vel. Lacan diz que essa topologia refere-se ao AlÈm do PrincÌpio do Prazer e verificamos em nossa discuss„o, que È justamente esse impossÌvel da puls„o de morte, o respons·vel pela manutenÁ„o da dessa hi‚ncia. Iniciando com o di·logo MÍnon de Plat„o, discorremos sobre os passos que Lacan utilizou para nos apresentar essa disjunÁ„o entre o simbÛlico e o imagin·rio, bem como salientamos a import‚ncia da manutenÁ„o dessa disjunÁ„o. O simbÛlico nesse momento do ensino de Lacan È tomado como uma frase contÌnua. A manutenÁ„o da hi‚ncia mostrou-se fundamental pelo fato de que esta funciona como um impedimento ‡ reduÁ„o do sujeito a essa frase contÌnua simbÛlica. O imagin·rio desempenha aÌ, um importante papel, pois, È por atravessar o simbÛlico que ele funciona tambÈm como um estabilizador desta hi‚ncia e sua relaÁ„o com a estrutura do psiquismo. AtravÈs da utilizaÁ„o de alguns apÛlogos e fragmentos clÌnicos pudemos mostrar os efeitos que uma superaÁ„o dessa hi‚ncia produz no sujeito. A completude simbÛlica ou a totalidade do imagin·rio conduzem o sujeito perigosamente ‡ experiÍncia de morte. Foi o que vimos na tragÈdia de …dipo, no Sonho de InjeÁ„o de Irma, em Schreber, na SÌndrome de Cotard entre outros. Estudamos ent„o os artifÌcios do sujeito para manter a disjunÁ„o. Vimos que na neurose, isto se faz possÌvel, pois o falo, significante que Lacan aproxima da matem·tica aproximando-o da noÁ„o de mÈdia e extrema raz„o da divis„o harmÙnica, È capaz de, como esta raz„o, funcionar como elemento estabilizador da relaÁ„o entre imagin·rio e simbÛlico. Pois, assim como a raz„o do chamado Segmento £ureo, o φ , o falo, como raz„o, apresenta uma vertente irracional que permitiria a articulaÁ„o com o simbÛlico e uma outra vertente que conduziria o sujeito a busca da beleza da forma. Vimos que na psicose, È exatamente a foraclus„o dessa raz„o, que abre a possibilidade do colabamento da disjunÁ„o, levando a toda uma gama de sintomas que podem ser articulados ‡ noÁ„o de Automatismo Mental. Vimos que ao psicÛtico, restar encontrar uma outra raz„o, para estabilizar o campo de sua realidade. Vimos como que isso se faz em Schreber, e como que a soluÁ„o por ele encontrada, tambÈm permite articular a dimens„o irracional do simbÛlico e a aposta no Um do imagin·rio. Os elementos presentes na estabilizaÁ„o tanto da neurose como da psicose permitiram-nos encontrar a simplicidade da articulaÁ„o lacaniana nesse momento a qual chamamos de SoluÁ„o Elegante de Lacan.

10

ABSTRACT

We took as a starting point in our work, Jacques Lacanís writing On a Question Prior to Any Possible Treatment of Psychosis. Our investigation was centered on the study of the mathematical elements found on Scheme R and Scheme I, considered by Lacan as topologies referred to how reality is constituted in neurosis and psychosis, respectively. In both schemes it was possible to find some graphics references to the notion of infinity, since they both have asymptotes in their constitution. As we followed on, searching for the origin of those schemes, we found Scheme L, presented by Lacan on Seminary 2. This scheme works, in our point of view, as an organizer of Lacanís thought during the fifties, and it brings us two main ideas. First, there is a disjunction between the symbolic and the imaginary, and second, there is an insurmountable hiatus between them. According to Lacan, that topology is based on Freudís Beyond the pleasure principle and it was possible for us to verify that the impossible of the death drive is what keeps the hiatus in its place. We followed the steps Lacan took to show us the disjunction between symbolic and imaginary, beginning with his discussion on Platoís Menon and we emphasized the importance of maintaining this disjunction. At this moment, in Lacanís teaching the symbolic is taken as a continuous phrase. The maintenance of the hiatus is fundamental because it avoids the reduction of subject to this continuous symbolic phrase. The imaginary plays an important role there. It crosses the symbolic, and this crossing conciliates the hiatus with the structure of the psychism. Through the use of some apologues and clinical reports we could show, in our work, what kinds of effects on the subject are produced surpassing this hiatus. A completed symbolic or an imaginary totality leads the subject ìdangerouslyî to a death experience. This is what we can see, for example, in Oedipus tragedy, in Freudís dream known as Irmaís Injection Dream, in Schreber, or in the Cotard Syndrome. We followed studying what kinds of artifices are usually used by the subject to keep the disjunction. It is possible in neurosis, because there is the phallus, significant used by Lacan in a mathematical way when he compares it to the medium and extreme ratio of the harmonic division. The phallus is able to work as a stabilizer element in the relationship between symbolic and imaginary. So, just like the Golden Section ratio, the φ, the phallus, as a ratio, presents us an irrational side which could allow an articulation with the symbolic and another side that could lead the subject to search the beauty of the form. We also showed that, in psychosis, is exactly the forclusion of this ratio that opens the way for collapsing this disjunction, bringing a large number of symptoms related to the idea of Mental Automatism. The psychotic needs to find another ratio to keep the field of his reality stable. We could demonstrate how Schreber worked on it, and how the solution he found also made possible to articulate the irrational dimension of the symbolic with the imaginary efforts to make One. The elements we could find in the neurosis even in the psychosis stabilization allowed us to find the simplicity of Lacanís articulation at these times. We called it Lacanís Elegant Solution.

11

INTRODU« O

A eleg‚ncia È uma idÈia utilizada freq¸entemente na matem·tica. Diz-se que ela est·

presente quando, diante de um problema complexo e repleto de vari·veis, encontra-se uma

soluÁ„o por intermÈdio de uma fÛrmula simples, reduzida a poucos elementos e que por sua

eleg‚ncia presta-se muito bem ‡ sua prÛpria transmiss„o.

Sabemos do rigor com o qual Lacan buscava formalizar a psican·lise, e como

tentava aliar esse rigor a seu esforÁo de transmiss„o. O uso de matemas, grafos e figuras

topolÛgicas d· um retrato desse esforÁo de formalizaÁ„o e transmissibilidade. Contudo,

como o prÛprio Lacan sempre ressaltou, em psican·lise h· sempre um resto que n„o se

escreve, e muitas das vezes somos, em nossa experiÍncia com seu ensino, levados a

concluir que, embora seu esforÁo tenha permitido a retomada do campo discursivo

estabelecido por Freud, a sua transmiss„o n„o se fez sem lacunas, pontos obscuros e restos

que se apresentam para nÛs como um convite e um desafio, se quisermos continuar, no

campo por ele delimitado, mantendo o espÌrito e a Ètica de sua elaboraÁ„o.

Ao final do texto De uma quest„o preliminar a todo tratamento possÌvel da psicose

(LACAN, 1955), Lacan nos mostra que a soluÁ„o encontrada por Schreber em sua

reconstruÁ„o delirante n„o È um caos, e de forma bem diferente do que se poderia pensar,

trata-se de um problema de soluÁ„o elegante (1998:578).

Durante todo o percurso desse texto, Lacan ocupa-se em resgatar o que seria a

originalidade do pensamento de Freud, e para tanto se contrapıe ‡ ciÍncia e sua crenÁa no

percipiens, aos pÛs-freudianos e sua aposta no Eu, e tenta restabelecer qual seria a verdade

do pensamento freudiano no que diz respeito ‡s psicoses.

12

Propondo a si mesmo n„o ir alÈm de Freud, Lacan formaliza uma sÈrie de elementos

presentes na histÛria de Schreber, elementos esses que desde ent„o passaram a funcionar

como guia ‡queles que seguem sua orientaÁ„o, no que diz respeito ‡ conduÁ„o da cura nas

psicoses. Ali ele nos apresenta suas idÈias relativas ‡ estrutura do fenÙmeno alucinatÛrio,

apresenta-nos ainda o conceito de met·fora paterna, as conseq¸Íncias de sua foraclus„o,

bem como a import‚ncia do encontro com un pËre 1 para o desencadeamento de uma crise

psicÛtica. Mostra-nos a import‚ncia dos fenÙmenos de cÛdigo e de mensagem, como

tambÈm momentos cruciais da doenÁa do Presidente Schreber, como sua ìmorteî e o

ìmilagre do urroî, e ainda nos conduz em questıes fundamentais sobre o manejo da

transferÍncia na psicose. Para organizar toda essa complexidade de vari·veis e vicissitudes

da psicose do Presidente Schreber, apresenta-nos, em determinado momento do texto, um

esquema, chamando-o de Esquema I.

momento do texto, um esquema, chamando-o de Esquema I. Nesse esquema, pode-se perceber que Lacan, sem

Nesse esquema, pode-se perceber que Lacan, sem qualquer esclarecimento, utiliza-

se de algumas referÍncias matem·ticas, sobretudo, de referÍncias ‡ idÈia de infinito. Isso se

torna mais evidente quando ele nos fala de assÌntotas, bem como quando utiliza hipÈrboles

1 Que pela sonoridade em francÍs pode ser lido como um pai, ou ainda Ìmpar.

13

no desenho de seu esquema. No mesmo texto, ele j· nos havia apresentado o Esquema R,

um plano projetivo, que, portanto, traz referÍncias matem·ticas, e que, pela estrutura

mesma desse plano, contempla tambÈm a idÈia de infinito 2 .

desse plano, contempla tambÈm a idÈia de infinito 2 . A respeito desses esquemas, È o

A respeito desses esquemas, È o prÛprio Lacan quem nos convida a ir alÈm da mera

apreciaÁ„o:

"Mais valeria, no entanto, jogar esse esquema no lixo, se ele tivesse, ‡ semelhanÁa

de tantos outros, que ajudar alguÈm a esquecer numa imagem intuitiva a an·lise que a

sustentaî (LACAN,1998:581).

Foi exatamente na busca da sustentaÁ„o desses esquemas, tentando ir alÈm da mera

imagem intuitiva, que encontrei, no ensino de Lacan, uma sÈrie de referÍncias, que me

alertaram para o caminho que seu pensamento ent„o tomava, e a import‚ncia que a noÁ„o

de infinito apresentava na pavimentaÁ„o desse caminho.

Logo nos seus primeiros semin·rios, mais especificamente em ìO Semin·rio, livro

2: O eu na teoria de Freud e na tÈcnica da psican·liseî (LACAN, 1985), ele utiliza-se do

2 Podemos encontrar um melhor desenvolvimento sobre o estatuto infinito da hipÈrbole e do plano projetivo, e sua utilizaÁ„o por Lacan, em DARMON, M., Ensaios sobre topologia lacaniana, Porto Alegre, Artes MÈdicas, 1994, p.148. e em FRAN«A NETO, O.F., ìConsideraÁıes matem·ticas sobre o gozo na neurose e na psicoseî in £gora ñ Estudos em teoria psicanalÌtica, vol. II, n. 2, jul./dez. 1999, p.86.

14

MÍnon de Plat„o (PLAT O, 1999), para estabelecer os estatutos do simbÛlico e do

imagin·rio, lanÁando os par‚metros que permitiriam estabelecer tambÈm os conceitos de

sujeito e Eu, respectivamente.

No MÍnon, encontramos SÛcrates em sua maiÍutica tentando extrair de um escravo,

a partir das reminiscÍncias deste, a soluÁ„o do seguinte problema:

De quanto deve ser aumentado o lado de um quadrado, para que a ·rea obtida com o

novo quadrado seja o dobro da ·rea do quadrado anterior.

O problema, operado a partir de um desenho na areia, È solucionado pelo escravo de

maneira intuitiva, porÈm, tambÈm equivocada. … SÛcrates quem se pıe a conduzi-lo ‡

resposta. Esta somente pode ser alcanÁada, se ‡ geometria intuitiva que se desenha na areia

forem acrescentados os conhecimentos aritmÈticos de SÛcrates.

Essa disjunÁ„o entre o que um desenho pareceria ser suficiente para resolver e o

equÌvoco decorrente dessa resoluÁ„o e a necessidade de c·lculos matem·ticos para a

soluÁ„o do problema, È utilizada por Lacan para nos remeter ‡ disjunÁ„o existente entre a

geometria

e

a

aritmÈtica,

particularmente.

sendo

este,

ao

que

parece,

o

ponto

que

lhe

interessa

Essa disjunÁ„o inaugura, no Semin·rio 2, toda uma linha de raciocÌnio que, mesmo

sofrendo modificaÁıes ao longo de seu ensino, permanecer· como fio organizador de suas

idÈias ainda por muitos anos.

Aproximando o imagin·rio da geometria, e o simbÛlico da aritmÈtica (ou da doxa e

epistemÈ respectivamente), Lacan nos mostra a existÍncia de uma hi‚ncia insuplant·vel

entre os dois, e ao longo do desenvolvimento do semin·rio, ele nos leva a reconhecer que

essa hi‚ncia È o real que escapa ao recobrimento a partir do entrecruzamento do simbÛlico

como contÌnuo e o imagin·rio em sua ilus„o de unidade.

15

Tal noÁ„o vai ser sustentada no Esquema L, que funcionar· como uma topologia

b·sica para toda uma gama de variaÁıes sobre essa articulaÁ„o: simbÛlico, imagin·rio e

real, e as vicissitudes as quais ela est· sujeita. O esquema L nos È apresentado como uma

topologia do discurso, e manter essa estrutura, com o sujeito tensionado nos quatro cantos

do esquema, È fundamental para preservar a funÁ„o da hi‚ncia. Esta, por sua vez, mantÈm-

se como obst·culo ‡ puls„o de morte, e dessa forma, ‡ morte sujeito.

Para fazer a articulaÁ„o entre o m˙ltiplo e o uno, Lacan recorrer· ao uso de uma

conhecida referÍncia matem·tica, prevalente tanto na geometria como na aritmÈtica, que È o

Segmento £ureo.

O

falo,

por

exemplo,

peÁa

fundamental

do

quebra-cabeÁa

lacaniano,

nos

È

apresentado no escrito A significaÁ„o do falo, como sendo a raz„o do desejo, raz„o aqui

entendida como mÈdia e extrema raz„o da divis„o harmÙnica (LACAN, 1998:700). Essa

divis„o se articula intimamente com o segmento ·ureo, e a raz„o de ambas È o ìN˙mero de

Ouroî que tem como grafia a letra grega ϕ (HUNTLEY, 1970). O N˙mero de Ouro È um

n˙mero irracional, incomensur·vel, e que pelas relaÁıes geomÈtricas ordenadas pelas

proporÁıes por ele estabelecidas introduz-nos na discuss„o sobre a beleza da forma, e que

na geometria ser· conhecida como a ìDivina ProporÁ„oî. O falo, derivado lacaniano do

N˙mero de Ouro, seria ent„o um n˙mero, um elemento simbÛlico, que funcionaria como

operador de uma proporÁ„o, como elemento externo, mas estabilizador da forma, da bela

forma.

Com esses elementos da matem·tica e seu aproveitamento na clÌnica, Lacan nos

fornecer· subsÌdios que nos permitir„o operar numa clÌnica diferencial neurose/psicose.

16

Um dos objetivos de nossa investigaÁ„o È demonstrar que ao se utilizar da

matem·tica, Lacan nos mostra que o neurÛtico assim o È porque ancorado no falo, acredita

na forma e sua beleza, acredita nas imagens com as quais se identifica, por supor

necess·rias para calar o desejo do Outro, apresentaÁ„o do insuport·vel da hi‚ncia. O falo, φ ,

assim como o N˙mero de Ouro nos segmentos contÌnuos, seria a significaÁ„o desse desejo,

introduzindo o neurÛtico no mundo das proporÁıes. Tais proporÁıes, da mesma maneira

que permitiriam ao neurÛtico destinar uma forma a seu corpo e a tudo com o que ele se

relaciona, delimitando o campo da fantasia e tamponando a hi‚ncia, tambÈm o condenariam

a essa mesma fantasia, ‡ compuls„o ‡ repetiÁ„o e a uma busca virtual, infinita da beleza, da

forma perfeita. A beleza, a ser encontrada sempre mais alÈm, tem nesse infinito mesmo

uma aposta, a aposta em uma garantia de evitaÁ„o de um encontro com a sua castraÁ„o.

Todo esse trabalho da neurose estaria contemplada no Esquema R.

O psicÛtico, em funÁ„o da foraclus„o do Nome-do-pai, estaria desprovido da raz„o

matem·tica, estaria sem o recurso ao φ . Sem a proporÁ„o do desejo do Outro, estabelecida

pelo falo, o psicÛtico sofreria com a experiÍncia da dissoluÁ„o imagin·ria, e com o horror

da presentificaÁ„o da hi‚ncia. Como conseq¸Íncia, encontrar-se-ia muitas das vezes

reduzido ao ìrasgamentoî da cadeia simbÛlica que se faz real, como na esquizofrenia, ou,

ent„o, aderido a uma imagem infinitamente projetada, megalÙmana, e que tambÈm se faz

real, como na paranÛia. Caberia ao psicÛtico a formulaÁ„o de uma nova maneira de operar

com essa tens„o, efeito da hi‚ncia entre imagin·rio e simbÛlico; caberia a ele quem sabe

uma nova raz„o, uma nova proporÁ„o. Seria essa nova proporÁ„o o que Schreber constrÛi

de forma elegante em seu trabalho de delÌrio e que Lacan nos apresenta em seu Esquema I?

… nossa hipÛtese que a soluÁ„o elegante de Schreber demonstrada por Lacan se

constitui em apenas uma faceta da prÛpria soluÁ„o elegante de Lacan. Ou seja, em De uma

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quest„o preliminar ao todo tratamento possÌvel da psicose temos a oportunidade de

perceber como ele fazia uso da matem·tica, n„o somente na organizaÁ„o de seu ensino,

bem como na soluÁ„o de impasses por este enfrentados. Explorar as razıes matem·ticas de

Lacan, suas relaÁıes com o infinito, bem como sua formalizaÁ„o teÛrica, parece-me um

caminho bastante profÌcuo no intuito de esclarecer e ampliar as dimensıes, os efeitos e as

conseq¸Íncias da influÍncia da matem·tica em seu ensino.

1. A chave do problema

Na segunda liÁ„o de O Semin·rio, Livro 10: A ang˙stia, Lacan (2005:27) fala de

suas idÈias sobre como poderia se dar a sistematizaÁ„o e o ensino em psican·lise.

Inicialmente nos diz que o ensino pode se dar pela via que ele chama de cat·logo. Nessa

via, organiza-se o saber numa sÈrie de categorias, numa tentativa de abarcar toda a

produÁ„o teÛrica sobre o tema. Segundo ele, essa via termina em impasse e infecundidade.

Afinal, n„o se trataria na psican·lise de um mero ac˙mulo de saber.

Depois Lacan nos fala de uma via que se organiza em torno dos nÌveis em que o

tema se apresenta. Busca-se, nessa via, atravÈs da similitude entre os nÌveis independentes

(por exemplo, o cultural, o biolÛgico, entre outros), desprender algo da ordem de um tipo

que especifique o tema. Ele nomeia essa via como a do an·logo. Diz que assim n„o se faz

psican·lise, e sim antropologia, e cita Jung como um representante dessa corrente de

ensino.

Nem cat·logo, nem an·logo, Lacan prefere ensinar pela via que ele denomina de

chave:

A chave È o que abre e o que para abrir funciona. A chave È a forma segundo a qual

deve operar ou n„o operar a funÁ„o do significante como tal, È o ìque torna legÌtimo que eu

18

a anuncie e a distinga e ouse introduzi-la como aquilo em que podemos confiar

(LACAN,2005:30).

î

Acreditamos que os esquemas de Lacan s„o chaves que fazem funcionar o seu

ensino. Assim, decifrar o funcionamento dessas chaves, entender como elas funcionam,

pode nos permitir fazer operar os significantes dessa "soluÁ„o elegante".

Por isso, ao longo deste trabalho, ocupar-nos-emos dos elementos constitutivos

desses esquemas-chave e da demonstraÁ„o de seu funcionamento. Com essa demonstraÁ„o

pretendemos esclarecer como que essa chave faz funcionar n„o somente o texto De uma

quest„o preliminar a todo tratamento possÌvel das psicoses, no qual os referidos esquemas

est„o presentes, mas tambÈm uma parte importante do ensino de Lacan.

2. Plano de trabalho

ApÛs este desenvolvimento inicial, no CapÌtulo I: A disjunÁ„o entre o simbÛlico e o

imagin·rio, mostramos como que a partir do Semin·rio 2, o ensino de Lacan toma como

base o que ele expressa no Esquema L. Para a demonstraÁ„o desse esquema ocupamo-nos

em deslindar o estatuto que o simbÛlico e o imagin·rio apresentavam para Lacan naquele

momento, ressaltando a relaÁ„o disjunta entre os dois. Assim, desenvolvemos a noÁ„o do

simbÛlico articulado ‡s noÁıes de contÌnuo, irracional, e o imagin·rio com referÍncia ‡

unidade ilusoriamente alcanÁada, ressaltando ainda a tipicidade que o imagin·rio tem no

humano, pois neste, ele n„o È sem o simbÛlico. Ainda nesse capÌtulo, operamos com a idÈia

de hi‚ncia, aquela que persiste na disjunÁ„o entre simbÛlico e imagin·rio. Finalmente,

trabalhamos a elaboraÁ„o de Lacan que coloca o Esquema L como o esquema do AlÈm do

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princÌpio do prazer, articulando-o ‡ puls„o de morte e revelando como ela era pensada nos

anos 50, fazendo uso da noÁ„o de compuls„o ‡ repetiÁ„o.

Com o

CapÌtulo

II:

Puls„o

de

morte:

a

supress„o

da

hi‚ncia,

tivemos

a

oportunidade de avanÁar no estatuto da puls„o de morte. Mostramos como que toda a

tens„o por ela produzida se faz no sentido de ultrapassar a hi‚ncia fundamental, acabando

com o distanciamento de simbÛlico e imagin·rio. Ao longo do capÌtulo utilizamo-nos de

uma sÈrie de exemplos em que esse ultrapassamento da hi‚ncia acontece. Nesses casos

temos a precipitaÁ„o do sujeito ‡ morte, seja por sua reduÁ„o ‡ frase simbÛlica, seja por sua

reduÁ„o ao duplo especular. Como exemplos dessa tens„o da puls„o de morte, e de algumas

conseq¸Íncias desse ultrapassamento, utilizamos como exemplos, particularmente o Sonho

da InjeÁ„o de Irma, …dipo em Colona e alguns fenÙmenos psicÛticos.

No CapÌtulo III: O problema e suas soluÁıes, tivemos a oportunidade de ver como

que o neurÛtico e o psicÛtico lidam com a demanda incessante da puls„o de morte. O que

nos interessa È mostrar como que cada um se trata do padecimento que È o domÌnio do alÈm

do princÌpio do prazer. Assim abordamos as soluÁıes encontradas sustentando a hi‚ncia

como lugar do sujeito. Interessa-nos o falo como soluÁ„o neurÛtica, e em decorrÍncia disso

abordamos sua funÁ„o recorrendo ao N˙mero de Ouro mostrando a afinidade lÛgica que os

dois apresentam.

Com Schreber discutimos os efeitos da foraclus„o do Nome-do-pai, e

como fica o psicÛtico em sua relaÁ„o com a puls„o de morte. A partir desses problemas,

mostramos a soluÁ„o neurÛtica e a soluÁ„o psicÛtica tomando como referÍncia a soluÁ„o

elegante de Schreber. Vimos que o falo como soluÁ„o neurÛtica permite uma modulaÁ„o

possÌvel do infinito, j· para Schreber foi preciso fazer uso de outros recursos para se haver

com esse infinito real. Esses recursos s„o bem mais singulares, e sua utilizaÁ„o n„o se fez

aleatoriamente como tivemos nesse capÌtulo a oportunidade de demonstrar.

20

Na

Conclus„o,

afirmamos

as

dificuldades

e

riscos

de

uma

dissertaÁ„o

em

psican·lise, e fundamentamos as articulaÁıes finais com as quais verificamos se os diversos

momentos da nossa discuss„o se fizeram suficientes para sustentar a idÈia da soluÁ„o

elegante em Lacan, e se nossos objetivos e hipÛteses forma alcanÁados.

21

CapÌtulo I ñ A disjunÁ„o entre o simbÛlico e o imagin·rio

1. A ìQuest„o preliminarî

Como foi a leitura do texto De uma quest„o preliminar a todo tratamento possÌvel

da psicose (1955) o que nos provocou a sÈrie de perguntas que abriram o caminho para a

escrita deste trabalho, faremos uma passagem inicial por ele, tentando delimitar os pontos

que funcionaram como os provocadores iniciais. Uma interrogaÁ„o que logo surgiu na sua

leitura, refere-se a seu tÌtulo. Qual seria a quest„o preliminar estabelecida por Lacan como

presente em todo tratamento possÌvel da psicose? Qual o a priori, ou seja, qual a condiÁ„o

que ele estabelece como prÈvia e necess·ria a qualquer possibilidade de tratamento da

psicose e que desenvolve ao longo do texto, e que, como em outros textos de seus Escritos,

n„o se oferece muito facilmente a seus leitores?

ComeÁamos por delimitar esse ponto que nos parece fundamental. Com essa

delimitaÁ„o pretendemos n„o somente deixar evidente as razıes que nos fizeram escolher o

caminho a percorrer nesta investigaÁ„o, como tambÈm fazer com que essas razıes sejam

elas mesmas o inÌcio dessa trajetÛria.

1.1 CrÌtica ‡ unicidade do Eu

Em "Rumo a Freud", primeira parte desse texto, Lacan expıe sua discord‚ncia com

o tratamento que a psicose vinha recebendo, n„o sendo difÌcil localizar nessa discord‚ncia

referÍncias ‡ psicologia ou ‡ psiquiatria.

22

"Meio sÈculo de freudismo aplicado ‡ psicose deixa seu problema ainda

Assim È que a

teoria da abstraÁ„o, necess·ria para dar conta do conhecimento, fixou-se numa teoria abstrata das faculdades do sujeito, que as mais radicais petiÁıes sensualistas n„o conseguiram tornar mais funcionais no que tange aos efeitos subjetivosî (LACAN, 1998:537).

por repensar, ou, em outros termos, no status quo ante

No primeiro momento de seu texto, Lacan j· nos anuncia sua inquietude com a

domin‚ncia de um pensamento que, apesar de todo o esforÁo de Freud, n„o conseguiu ir

alÈm de uma teoria das faculdades mentais, incapaz de avanÁar em qualquer nova

elaboraÁ„o sobre a subjetividade na psicose. Seguindo o texto, vemos que ele deixa mais

explÌcita a sua condenaÁ„o a esse pensamento. Ele desenvolve toda uma articulaÁ„o a partir

da noÁ„o de alucinaÁ„o presente na ciÍncia. Destaca o fato de que "nos bancos da escola"

aprendemos a eludir essa quest„o, "mesmo admitidas as altern‚ncias de identidade do

percipiens, sua funÁ„o constitutiva da unidade do perceptum n„o È discutidaî (LACAN,

1998:538).

Sua interrogaÁ„o È feita a partir da constataÁ„o de que o conceito de alucinaÁ„o È

apresentado ìnos bancos da escolaî apenas em seu estatuto de percepÁ„o. A alucinaÁ„o,

desta maneira, n„o passa de uma percepÁ„o sem objeto. Tal concepÁ„o parte do pressuposto

de que o percipiens, ou seja, aquele que percebe o estÌmulo, È um dado estabelecido

aprioristicamente, sendo o perceptum, aquele que podemos tomar aqui como o objeto capaz

de provocar alteraÁıes apenas ao nÌvel dos sentidos, ou seja, do sensorium. Assim, tal

elaboraÁ„o parte de uma idÈia naturalista do ser e tambÈm do objeto. O percipiens j· est· l·,

‡s voltas com uma apreens„o objetiva da realidade.

Em ìO Semin·rio, livro 2: O eu na

teoria de Freud e na tÈcnica da psican·lise" encontraremos a seguinte citaÁ„o de Lacan:

23

ìNa perspectiva cl·ssica, teÛrica, h· entre sujeito e objeto coaptaÁ„o, co-nascimento

num registro de relaÁıes totalmente diferente que o campo da experiÍncia freudiana se

estabeleceî (LACAN, 1985:280).

Podemos dizer, mesmo de maneira sintÈtica, que segundo a esta concepÁ„o,

positivista, h· um ser, e que esse ser j· nasce com o homem.

Lacan discorda veementemente de tal idÈia. Tomando como exemplo a alucinaÁ„o

verbal motora 3 ele insiste em que o sensorium È "indiferente na produÁ„o de uma cadeia

significanteî, e que ìesta se impıe por si ao sujeito em sua dimens„o de voz". Ela "assume

como tal uma realidade proporcional ao tempo que sua atribuiÁ„o subjetiva comporta", e

que o que a determina È sua estrutura mesma de significante, que È distributiva, ou seja,

apresenta-se com vozes diversas, "colocando portanto o percipiens como tal, pretensamente

unificante, como equÌvocoî (1998:539).

Torna-se possÌvel, ent„o, vislumbrar o trajeto que Lacan parece fazer ao longo de

seu texto. Primeiramente podemos estabelecer que n„o h· anterioridade nem unicidade do

percipiens, nem uma realidade objetiva do objeto. O que podemos caracterizar a partir do

fenÙmeno alucinatÛrio È a relaÁ„o do sujeito ao significante, e o papel determinante desse

˙ltimo na estrutura mesma do fenÙmeno. Para demonstrar isso, Lacan utiliza-se de uma

apresentaÁ„o de paciente, por ele j· utilizada anteriormente em ìO Semin·rio, livro 3: As

psicosesî (LACAN, 1985a). Trata-se de uma mulher que ouve numa alucinaÁ„o a inj˙ria

ìporca!î, quando ao sair de sua casa defronta-se com seu vizinho no corredor. Logo em

seguida

surge

em

seu

pensamento

a

frase

alusiva,

ìeu

venho

do

salsicheiroî

(LACAN,1998:540). Continuando sua demonstraÁ„o, Lacan ainda se utiliza dos fenÙmenos

3 A alucinaÁ„o verbal motora foi assinalada por Jules SÈglas. Ele observou que alguns pacientes apresentavam muscitaÁıes e que estas eram, na verdade, a fala alucinatÛria escutada por eles. Lacan utiliza-se deste achado de SÈglas para defender sua idÈia de que a alucinaÁ„o È verbal e n„o auditiva.

24

de cÛdigo e de mensagem, por ele assim nomeados, presentes em Schreber(1998:543). Com

esses exemplos, que ganham valor paradigm·tico para a clÌnica das psicoses, ele nos

demonstra que o sujeito n„o apresenta qualquer anterioridade ao significante. O sujeito È na

verdade designado em sua relaÁ„o com o significante. 4

Em "Depois de Freud", segunda parte do texto, Lacan mantÈm o tom, agora numa

discuss„o com os pÛs-freudianos.

ìO que nos trouxe Freud aqui? Entramos no assunto afirmando que, quanto ao problema da psicose, essa contribuiÁ„o levara a uma recaÌda. Ela È imediatamente sensÌvel no simplismo dos recursos invocados em concepÁıes que se reduzem, todas, a este esquema fundamental: como fazer passar o interior para o exterior? O sujeito, efetivamente, pode atÈ englobar aqui um isso opaco, pois de qualquer modo È como eu, isto È, de maneira inteiramente expressa na atual orientaÁ„o psicanalÌtica, como esse mesmo percipiens indestrutÌvel, que ele È invocado na motivaÁ„o da psicose. Esse percipiens tem todo o poder sobre seu correlato n„o menos inalterado - a realidade -, e o modelo desse poder È buscado num dado acessÌvel ‡ experiÍncia comum, a da projeÁ„o afetivaî (LACAN,

1998:547).

.

Nessa citaÁ„o ele nos mostra que o conceito pÛs-freudiano de eu tem o mesmo

estatuto indestrutÌvel do percipiens. A idÈia unificadora do eu, para ser sustentada, n„o

pode prescindir da noÁ„o de projeÁ„o, que vem em socorro aos pÛs-freudianos, que

diferentemente dos representantes das psicologias, n„o eram totalmente inocentes quanto ‡

presenÁa de um outro nas relaÁıes do sujeito. Lacan utiliza-se aqui tambÈm de Schreber,

mostrando como que os pÛs-freudianos se fixaram nas idÈias contidas em Freud e em seu

apÍndice sobre o caso Schreber, onde ele aponta as alteraÁıes da estrutura gramatical da

frase ìeu o amoî como forma do sujeito operar as suas diferentes relaÁıes com o outro.

InsensÌveis ‡s novidades trazidas por Freud em Sobre o narcisismo: uma introduÁ„o

(FREUD,

1914),

os

pÛs-freudianos,

diz

Lacan,

preferem

apostar

na

idÈia

da

4 N„o È minha intenÁ„o aprofundar o estudo das alucinaÁıes. Apenas quis acentuar o trabalho de Lacan em apontar o equÌvoco da idÈia de um percipiens unificador.

25

homossexualidade, sem conseguir se aperceber que Freud ali nos apresentava uma primeira

teoria de como o eu se constitui a partir do outro, ou seja, da n„o unicidade do eu. 5 Os pÛs-

freudianos preferem apostar no "reencontro do bom e velho percipiens, resistente a tudo, e

da funÁ„o de sÌnteseî (LACAN, 1998:549).

A quest„o preliminar de Lacan vai passo a passo se delimitando. Diante de todo

tratamento possÌvel da psicose pela psican·lise, n„o podemos tomar como ponto de partida

a anterioridade histÛrica ou mesmo lÛgica de um eu, ou de um percipiens ˙nico e

indestrutÌvel, sensÌvel aos estÌmulos naturais de um objeto.

1.2 A predomin‚ncia do simbÛlico

… importante ressaltar que nesse perÌodo de seu ensino, Lacan encontrava-se

ocupado em retomar o valor da invenÁ„o freudiana, que para ele estava sendo depreciado

devido aos equÌvocos dos seguidores de Freud.

No texto SituaÁ„o da psican·lise e formaÁ„o do psicanalista em 1956, ele expıe sua

preocupaÁ„o:

"Freud, nisso como em toda parte, È gritante: todo o seu esforÁo, de 1897 a 1914, foi o de levar em conta o imagin·rio e o real nos mecanismos do inconsciente. … curioso que isso tenha levado os psicanalistas, em duas etapas, primeiro a fazer do imagin·rio um outro real e, em nossos dias, a encontrar nele a norma do real. Sem d˙vida, o imagin·rio n„o È o ilusÛrio e fornece material para a idÈia. Mas o que permitiu a Freud fazer a descida por ele atÈ o tesouro com que seus seguidores enriqueceram foi a determinaÁ„o simbÛlica, na qual a funÁ„o imagin·ria se subordina e que, em Freud, È sempre poderosamente lembrada, quer se trate do mecanismo do esquecimento verbal, quer da estrutura do fetichismo. E podemos dizer que, ao insistir em que a an·lise da neurose fosse sempre reconduzida ao nÛ do …dipo, ele n„o almejou outra coisa sen„o garantir o imagin·rio em sua concatenaÁ„o simbÛlica, pois a ordem simbÛlica exige pelo menos trÍs termos, o que impıe ao analista n„o esquecer o Outro presente entre os dois que, pelo fato de estarem ali, n„o envolvem aquele que fala.

5 Lembramos que nossa intenÁ„o aqui È mostrar como Lacan se colocava discordante da idÈia unificadora do eu.

26

Mas, apesar do que Freud acrescentou a essa advertÍncia atravÈs de sua teoria da miragem narcÌsica, o psicanalista continua a se embrenhar cada vez mais na relaÁ„o dual, sem que o impressione a extravag‚ncia da ëintrojeÁ„o do bom objetoí pela qual, como um novo pelicano, ele se oferece, felizmente sob aparÍncias fantasÌsticas, ao apetite do consumidor

… exatamente por restabelecer, naquele momento de seu ensino, a predomin‚ncia da

funÁ„o simbÛlica que Lacan, apÛs um breve elogio a Ida Macalpine, tradutora de Schreber

para o inglÍs, critica-a por ter se recusado em buscar as referÍncias freudianas do …dipo e sua

articulaÁ„o simbÛlica, para se apoiar numa primitiva fantasia heliolÌtica de procriaÁ„o, em

suas elaboraÁıes sobre o delÌrio de Schreber 6 (1998:552).

Em "Com Freud", terceira parte, Lacan explicita ainda mais a sua intenÁ„o. ApÛs

denunciar o equÌvoco presente nas concepÁıes prÈ e pÛs-freudianas da psicose, ele nos

afirma que È na relaÁ„o com o A (Outro) que isso se define:

ì Pois, retirem-no dali e o homem nem sequer consegue sustentar-se na

posiÁ„o de Narciso. O anima, como que pelo efeito de um el·stico, reduz- se ao animus, e o animus, ao animal, o qual, entre S e a, mantÈm com seu Umwelt ërelaÁıes externasí sensivelmente mais Ìntimas do que as nossas, sem que se possa dizer, de resto, que sua relaÁ„o com o Outro seja nula, mas apenas que ela n„o nos aparece de outro modo sen„o em espor·dicos esboÁos de neuroseî (LACAN, 1998:557).

Lacan nos relembra a invenÁ„o freudiana do inconsciente, ou seja, que isso pensa,

pensa um bocado mal, embora com firmeza, e pensa sem que sequer se pense nisso.

O

inconsciente È esse alhures, ein anderer Schauplatz 7 , e n„o reconhecer isso n„o passa de

uma avers„o. Dessa forma, todo tratamento possÌvel da psicose deve ter como quest„o

preliminar a noÁ„o de que a psicose È um fato de linguagem, uma vicissitude da relaÁ„o do

6 ì

equivalent to an earthly father. He failed to see that Schreber was preoccupied with the origin and giving life, i.e. creation and procreation in the primitive, presexual sense which precedes knowledge of sexual reproduction both in history of the individual and of mankindÖThese ìprephalic speculations gave rise to the belief in sun gods in the sky who hold the life-substanceÖî( MACALPINE,1955:378). 7 Uma outra cena.

When Freud assumed the sun to be a father symbol and God

in Schreberís the sun is feminine

27

sujeito com o Outro, esse alhures, e n„o o padecimento de um percipiens, ou de um Eu,

˙nico e origin·rio.

1.3 A apresentaÁ„o do Esquema L

Para "fixar as idÈias" Lacan aplica a relaÁ„o do sujeito ao Outro ao Esquema L

Simplificado (LACAN, 1998:555):

ao Outro ao Esquema L Simplificado (LACAN, 1998:555): Ele diz que esse esquema significa que o

Ele diz que esse esquema significa que o estado do sujeito S, neurose ou psicose,

depende do que se desenrola no Outro, e o que se desenrola È um discurso. Assim, o

Esquema L seria uma representaÁ„o do inconsciente como discurso do Outro. O sujeito

seria parte integrante desse discurso, repuxado para os quatro cantos do esquema. Em S, sua

est˙pida e inef·vel existÍncia, em a seus objetos, e a', seu eu, e A, o lugar de onde pode ser

formulada a quest„o de sua existÍncia. Assim, em contraposiÁ„o ao percipiens, e ao Eu dos

pÛs-freudianos, Lacan nos apresenta um sujeito dividido, que n„o se confunde com o eu,

repuxado que È por sua relaÁ„o com o Outro.

… importante ressaltar essa oposiÁ„o entre neurose e psicose j· estabelecida nesse

momento. O estado do sujeito depende do que vai acontecer em sua relaÁ„o com o Outro,

28

pois È no Outro que pode ser formulada a quest„o de sua existÍncia. Essa quest„o se

apresenta articulada desta forma:

" 'Que sou eu nisso?', concernente a seu sexo e sua contingÍncia no ser, isto È, a ele ser homem ou mulher, por um lado, e por outro, ao fato que poderia n„o sÍ-lo, os dois conjugando seu mistÈrio e enlaÁando-o aos sÌmbolos da procriaÁ„o e da morte. Que a quest„o de sua existÍncia inunde o sujeito, suporte-o, invada-o ou atÈ o dilacere por completo, È o que testemunham ao analista as tensıes, as suspensıes e as fantasias com que ele depara; mas resta ainda dizer que È sob a forma de elementos do discurso particular que essa quest„o no Outro se articula" (LACAN,

1995:555).

Portanto, diferente do que muitos parecem acreditar, nos anos 50, Lacan n„o nos

falava de uma psicose como um dÈficit diante da neurose. Por isso talvez tenha insistido

tanto na import‚ncia da presenÁa da dimens„o simbÛlica na estrutura e nos impasses da

psicose,

como

tentamos

demonstrar

anteriormente.

Sabemos

da

import‚ncia

que

as

questıes referentes ao sexo, ‡ procriaÁ„o, ‡ vida e ‡ morte tÍm para qualquer sujeito, seja

ele neurÛtico ou psicÛtico. O que Lacan nos mostra È que neurose ou psicose dependem de

como vai se operar essa quest„o no campo do Outro. Ao longo da "Quest„o preliminar" ele

vai mostrar, atravÈs do Esquema R, como essa relaÁ„o do sujeito ao Outro se estrutura na

neurose, e atravÈs do Esquema I, como, tomando como referÍncia o caso Schreber, ela se

estrutura na psicose. Embora n„o seja intenÁ„o deste trabalho ocupar-se do diagnÛstico

diferencial neurose/psicose, acreditamos que ao longo da discuss„o essa oposiÁ„o, da

maneira como se apresentava para Lacan naquele momento, restar· bem mais clara.

A partir de deste ponto tentamos mostrar como que essa oposiÁ„o se desenvolve em

torno de um fio condutor que organizava o pensamento de Lacan nesse momento de seu

ensino, e que se explicita numa outra oposiÁ„o, a oposiÁ„o Esquema R/Esquema I.

29

2. A funÁ„o imagin·ria do eu e o discurso do inconsciente

… com esta apresentaÁ„o que, pela primeira vez, o Esquema L aparece no Semin·rio

2 (LACAN, 1985:142). Ele vem em seq¸Íncia a trÍs outros apresentados por Lacan. O

primeiro È o esquema produzido por Freud no Projeto para uma psicologia cientÌfica

(FREUD, 1977:429), e que Lacan designa como o primeiro esquema do aparelho psÌquico.

Depois vemos o esquema presente na carta 52 (FREUD, 1977:317), que Lacan diz ser o

esquema da Traumdeutung 8 . Em seguida temos o esquema Ûtico, produzido por Lacan, e

que ele nos diz ser o esquema para a teoria do narcisismo, e, finalmente, o Esquema L, com

a nomeaÁ„o ‡ qual nos referimos.

A colocaÁ„o em seq¸Íncia desses esquemas demarca uma certa trajetÛria da

psican·lise, e, ao longo desse semin·rio, Lacan em v·rios momentos acentua que o

Esquema L refere-se ao momento t„o fundamental na obra de Freud, que È a produÁ„o do

AlÈm do princÌpio do prazer. Acreditamos que essa relaÁ„o se esclarecer· ‡ medida que a

prÛpria construÁ„o do Esquema L tambÈm ficar esclarecida.

2.1 O MÍnon e o descentramento

O desenvolvimento do Semin·rio 2 inicia-se com o recurso que Lacan faz do

MÍnon, di·logo de Plat„o (PLAT O, 1999), que teria sido apresentado em trabalho

realizado na noite anterior, por Alexandre KoyrÈ. Trata-se de um di·logo em que Plat„o,

mais uma vez, refere-se ‡s ìproezasî de SÛcrates. A respeito de SÛcrates, encontramos a

seguinte referÍncia de Lacan:

8 InterpretaÁ„o dos sonhos

30

"… aquele que inaugura na subjetividade humana este estilo de onde surgiu a noÁ„o de um saber ligado a determinadas exigÍncias de coerÍncia, saber prÈvio a todo progresso ulterior da ciÍncia experimental Pois bem, no mesmo momento em que SÛcrates inaugura este novo ser- no-mundo, que denomino aqui uma subjetividade, ele se d· conta de que o mais precioso, a aretÈ, a excelÍncia do ser humano, n„o È a ciÍncia que vai poder transmitir os caminhos para se chegar aÌ. Aqui j· ocorre um î

descentramento

(LACAN,1985:11).

… esse descentramento que interessa a Lacan, e interessa na medida em que ele est·

nesse momento, como foi visto quando nos referimos a esse ponto na "Quest„o preliminar",

tentando restaurar o estatuto freudiano da noÁ„o de Eu, que n„o È ˙nico, e que na verdade È

um outro, descentrado, o que implica que "o sujeito est· descentrado com relaÁ„o ao

indivÌduoî (1985:16). Para tanto, o MÍnon presta-se muito bem. Nele È possÌvel perceber

que a epistemÈ n„o cobre o campo todo da experiÍncia humana, e que, sobretudo, n„o existe

uma epistemÈ da virtude. A virtude, particularmente a virtude polÌtica, seria alcanÁada por

intermÈdio da ortodoxa. Assim, para SÛcrates, estaria clara a rachadura existente entre a

ciÍncia, a epistemÈ e a opini„o verdadeira, sentido possÌvel para o grego ortodoxa.

No di·logo de Plat„o, encontramos MÍnon, um rico habitante de Larissa, na

Tess·lia, aluno dos sofistas e interessado

em matem·tica,

mais especificamente em

geometria, interrogando a SÛcrates, se a virtude poderia ser ensinada. A resposta de

SÛcrates atenta para o fato de que haveria homens que alcanÁariam a virtude n„o pelos

caminhos da ciÍncia, mas pelos da opini„o verdadeira. Ele se pıe a mostrar a MÍnon, como

um escravo, tendo em sua alma despertadas as idÈias aÌ adormecidas, seria capaz de

encontrar

um

certo

n˙mero

de

verdades

relacionadas,

por

exemplo,

geometria.

Transparece ent„o, nesse momento do di·logo, a teoria platÙnica da reminiscÍncia, pela

qual tanto a opini„o verdadeira como a ciÍncia s„o apenas uma lembranÁa das Verdades

Eternas que um dia a nossa alma contemplou (TANNERY, 1999).

31

Lacan, ao que parece, n„o se mostra muito interessado na quest„o da reminiscÍncia.

Como

dissemos

logo

acima,

ele

interessa-se

fundamentalmente

pela

quest„o

do

descentramento. E È em torno desse descentramento que ele nos esclarecer· sua posiÁ„o

sobre a noÁ„o platÙnica da reminiscÍncia. Ao longo de seu coment·rio sobre o MÍnon, ele

acrescentar· ‡ oposiÁ„o epistemÈ/ortodoxa, ou ciÍncia/opini„o verdadeira, as oposiÁıes: 9

saber/intuiÁ„o e simbÛlico/imagin·rio. Mais ‡ frente ocupar-nos-emos um pouco mais do

desenvolvimento dessa sÈrie, mas neste momento, gostarÌamos de ressaltar esse ponto em

que Lacan, abordando a idÈia de reminiscÍncia, vai explic·-la como sendo uma ilus„o

produzida pelo simbÛlico. Ele diz que quando "uma parte do mundo simbÛlico emerge, ela

cria, efetivamente, seu prÛprio passado. Mas n„o do mesmo jeito que a forma no nÌvel

intuitivo. … justamente na confus„o dos dois planos que reside o erro, o erro de crer que

aquilo que a ciÍncia constitui por intermÈdio da intervenÁ„o da funÁ„o simbÛlica estava aÌ

desde sempre, de crer que est· dadoî (LACAN,1985:29) .

Todo saber esquece que È uma cristalizaÁ„o da atividade simbÛlica, esquecendo-se

assim que existe uma "funÁ„o criadora da verdade em sua forma nascente" (1985:30).

Lacan, em tom de alerta, diz que enquanto analistas, trabalhamos na dimens„o da verdade

em estado nascente, e, portanto, n„o podemos esquecÍ-la. E conclui: "Tudo o que se opera

no campo da aÁ„o analÌtica È anterior ‡ constituiÁ„o do saber

o que se descobre na an·lise

est· no nÌvel da ortodoxa". Ele n„o esconde sua preocupaÁ„o de que o analista se deixe

levar pelo saber produzido pela psican·lise, dizendo que se este n„o deve ser desprezado, o

analista, contudo, deve se formar num outro ‚mbito que n„o aquele onde esse saber se

sedimenta. Exemplifica dizendo que se para SÛcrates, TemÌstocles e PÈricles foram grandes

9 Lembramos que, aqui, o termo oposiÁ„o È empregado em sua referÍncia ao significante.

32

homens È porque eram grandes psicanalistas, na medida em que teriam encontrado no

registro deles o que quer dizer a opini„o verdadeira.

Assim, se nos anos 50, estamos diante de um Lacan que privilegia o registro do

simbÛlico, È nÌtido tambÈm que ele n„o se deixa enganar sobre os limites desse mesmo

simbÛlico, principalmente a impossibilidade de abarcar o todo da experiÍncia analÌtica.

2.2 A hi‚ncia entre o simbÛlico e o imagin·rio

Lacan ocupa-se, particularmente no MÍnon, do problema apresentado por SÛcrates

ao escravo, e por isso vamos apresent·-lo de forma simplificada, privilegiando apenas o

ponto

ressaltado

por

Lacan,

sem

nos ocuparmos

do

desenvolvimento

da

maiÍutica

socr·tica. Trata-se basicamente de saber

quanto se deve aumentar o lado de um quadrado

para que este tenha sua ·rea duplicada. SÛcrates apresenta esse problema ao escravo

representando-o atravÈs de um desenho na areia, e È atravÈs tambÈm do desenho que a

soluÁ„o dever· ser encontrada.

tambÈm do desenho que a soluÁ„o dever· ser encontrada. A resposta inicial do escravo foi de

A resposta inicial do escravo foi de que, para se duplicar a ·rea desse quadrado,

bastaria a duplicaÁ„o da medida do lado do mesmo.

33

33 A resposta do escravo, como lhe mostrou SÛcrates, produziu um quadrado de ·rea quatro vezes

A resposta do escravo, como lhe mostrou SÛcrates, produziu um quadrado de ·rea

quatro vezes maior do que o quadrado inicial. SÛcrates perguntou-lhe ent„o se, devido ao

fato de a duplicaÁ„o do lado do quadrado ter produzido um outro de ·rea quatro vezes

maior, um aumento de apenas metade do lado n„o produziria um quadrado com o dobro da

·rea, como se queria. O escravo intuitivamente concordou.

·rea, como se queria. O escravo intuitivamente concordou. Novamente, contudo, a soluÁ„o mostrou-se errada. O

Novamente, contudo, a soluÁ„o mostrou-se errada. O quadrado produzido n„o

possuÌa o dobro da ·rea do primeiro. Finalmente SÛcrates apresentou a soluÁ„o para o

problema, dividindo ao meio o quadrado produzido na primeira resposta do escravo,

divis„o essa que foi feita pelo encontro das diagonais do quadrado original.

34

34 Lacan chama-nos a atenÁ„o para o fato de que È SÛcrates quem mostra ao escravo

Lacan chama-nos a atenÁ„o para o fato de que È SÛcrates quem mostra ao escravo o

erro por ele cometido. O escravo, a partir do desenho feito na areia por SÛcrates, percebe o

equÌvoco da idÈia de que duplicando o lado do quadrado ele teria o dobro da superfÌcie,

erro decorrente da utilizaÁ„o da idÈia de equivalÍncia. Contudo, sem o mestre ele n„o teria

como encontrar a soluÁ„o. … este quem lhe mostra o caminho, a partir da noÁ„o de que a

metade de uma ·rea de 16 quadrados-medida È 8 quadrados-medida. Portanto, um

conhecimento sobre os n˙meros se fez necess·rio. AlÈm disso, n„o foi uma simples divis„o,

o

que foi demonstrado por SÛcrates. Foi necess·rio a divis„o pelas diagonais do quadrado,

o

que segundo Lacan introduz o simbÛlico no problema, a partir do n˙mero irracional

2 .

2 .

Esse n˙mero n„o estaria no plano intuitivo, o que revelaria uma falha existente entre este

plano e o plano simbÛlico 10 . O que vemos na demonstraÁ„o presente no MÍnon de Plat„o

seria uma passagem do plano intuitivo de ligaÁ„o ao plano simbÛlico de ligaÁ„o, ou melhor

dizendo, do imagin·rio ao simbÛlico.

10 Aqui se faz necess·rio lembrar o teorema de Pit·goras. No tri‚ngulo ret‚ngulo, a soma do quadrado dos

catetos È igual ao quadrado da hipotenusa. Portanto, se cada cateto mede 1(um), a hipotenusa mede

2 .
2 .

35

ìO escravo, com toda sua reminiscÍncia e sua intuiÁ„o inteligente, vÍ a boa forma, se È que se pode dizer isto, a partir do momento em que a designam a ele. Mas fica aÌ palp·vel a clivagem entre o plano do imagin·rio ou do intuitivo - no qual, com efeito, funciona a reminiscÍncia, ou seja, o tipo, a forma eterna, o que tambÈm se pode denominar as intuiÁıes a priori - e a funÁ„o simbÛlica que n„o lhe È absolutamente homogÍnea, e cuja introduÁ„o na realidade constitui um forÁamento." (LACAN, 1985:28 ñ grifos nossos).

… inquestion·vel afirmar que ao escravo somente È possÌvel acompanhar

o

desenvolvimento do pensamento de SÛcrates a partir do forÁamento que esse produz,

introduzindo a dimens„o simbÛlica, irracional, presente na

2
2

da diagonal do quadrado.

N„o fosse essa intervenÁ„o, o escravo estaria impossibilitado de dar esse passo, de superar a

pura crenÁa na forma, persistindo na impossÌvel tarefa de duplicar a ·rea do quadrado pela

duplicaÁ„o de seu lado.

Segundo Lacan, n„o se trata de quadrados ou quadrÌculas, mas de linhas que se

introduzem na realidade, sendo este o segredo que SÛcrates n„o revela ao escravo. Ele traÁa

linhas, e serve-se delas, como se estas estivessem l· desde a origem, supostamente real:

"Introduziram-se n˙meros inteiros quando, no entanto, se tratava simplesmente de maior e de menor, de quadrÌculas reais. Em outros termos, as imagens d„o um aspecto de evidÍncia ao que È essencialmente manipulaÁ„o simbÛlica. Se se chega ‡ soluÁ„o do problema, ou seja, ao quadrado que È duas vezes maior que o primeiro quadrado, È por se ter comeÁado destruindo o primeiro quadrado como tal, ao lhe tirar um tri‚ngulo e por se ter recomposto com ele um segundo quadrado. Isto supıe um mundarÈu de assunÁıes simbÛlicas que est„o ocultas por detr·s da falsa evidÍncia ‡ qual se faz aderir o escravoî (LACAN, 1985:322).

Portanto, o imagin·rio e sua boa forma, as formas eternas, e mesmo os n˙meros

inteiros, s„o apenas um aspecto de evidÍncia ao que È essencialmente manipulaÁ„o

simbÛlica. Para que SÛcrates pudesse interferir no futuro da vida daquele escravo, "foi

preciso que uma multid„o de agrimensores, exercÌcios pr·ticos, precedessem as pessoas que

discorrem com tanta sabedoria na ·gora de Atenas

î (1985:323).

36

O simbÛlico por sua vez n„o È inteiro, È irracional, no sentido matem·tico do termo,

incomensur·vel como incomensur·vel È

do termo, incomensur·vel como incomensur·vel È 2 . Pois, lembra-nos Lacan, por mÌnima que seja, n„o

2 . Pois, lembra-nos Lacan, por mÌnima que seja,

n„o existe medida comum entre a diagonal do quadrado e seu lado, e È exatamente isso que

se denomina irracional. Essa noÁ„o de simbÛlico È essencial para o desenvolvimento desta

investigaÁ„o, contudo, para preservar o encadeamento das idÈias, deixaremos para um

momento posterior uma elaboraÁ„o mais detalhada sobre este ponto. No momento parece-

nos importante seguir a linha do pensamento de Lacan, quando ele nos diz que assim como

as imagens utilizadas na demonstraÁ„o geomÈtrica do problema presente no MÍnon s„o

fruto da elaboraÁ„o simbÛlica, no sujeito do inconsciente, as imagens est„o lastreadas no

texto de sua histÛria, presas na ordem simbÛlica. Esse intrincamento entre o simbÛlico e o

imagin·rio È t„o precoce e mesmo coalescente, diz Lacan, quanto a chamada relaÁ„o

original, que, nos diz ele ainda, temos que admitir como sendo uma espÈcie de resÌduo do

real:

 

"Logo que existe no ser humano este ritmo de oposiÁ„o, escandido pelo primeiro

vagido

e

por

seu

cessamento,

algo

se

revela,

que

È

operatÛrio

na

ordem

simbÛlicaî(1985:323).

Como dissemos, a soluÁ„o do problema no MÍnon È possÌvel pelo fato de que as

imagens n„o se apresentam t„o "inocentemente" ao pensamento humano. Se assim fosse,

fazendo um exercÌcio imaginativo, podemos supor que provavelmente nosso escravo

estaria, atÈ hoje, multiplicando em proporÁıes geomÈtricas a ·rea de seu quadrado,

conseq¸Íncia inevit·vel da inocente duplicaÁ„o de seus lados.

O imagin·rio, entretanto, n„o È inef·vel. Ele se inscreve numa ordem simbÛlica

resultando numa relaÁ„o tern·ria. Estaria aÌ um sentido, entre outros, da fala na an·lise.

37

Desde o inÌcio, a experiÍncia do sujeito esta organizada na ordem simbÛlica. Ao falar de si

mesmo, aparecem "rasgıes" na fala, rasgıes que se produzem no texto mesmo do discurso,

permitindo ao analista ir alÈm daquilo que lhe È falado. "… na medida em que algo de

irracional aparece no discurso que vocÍs podem fazer intervir as imagens em seu valor

simbÛlicoî (1985:321). ConvÈm lembrar que a essa determinaÁ„o simbÛlica, que confere

sua significaÁ„o ‡s relaÁıes imagin·rias do sujeito, Lacan denomina Discurso Inconsciente

do sujeito.

"… aqui que a an·lise se efetua - na fronteira do simbÛlico e do imagin·rioî

(1985:321).

Partindo da constataÁ„o de que entre o imagin·rio e o simbÛlico existe uma hi‚ncia,

e com a idÈia de fronteira que essa citaÁ„o traz, È necess·rio concluir que È nessa hi‚ncia

mesma que a an·lise se efetua. Isso estabelece uma diferenÁa fundamental com os

defensores da idÈia de que a psican·lise deveria se ocupar da chamada relaÁ„o de objeto,

noÁ„o que tem como precondiÁ„o teÛrica uma autonomia do imagin·rio. Lacan ao longo de

todo o Semin·rio 2 contrapıe-se a esta corrente. Segundo ele, "n„o se trata de procurar uma

melhor economia das miragensî (1985:320). A indicaÁ„o presente nesta citaÁ„o estabelece

ainda uma outra diferenÁa com aqueles que sustentam a idÈia de que Lacan, nesse momento

de seu ensino, acreditava num tratamento absoluto pelo simbÛlico. N„o nos apareceu, em

qualquer momento de nossa leitura, um simbÛlico todo, o A, como grande Outro n„o

barrado.

AtÈ

ent„o

nos

encontramos,

isto

sim,

com

um

simbÛlico

irracional,

incomensur·vel, e que, portanto, nos aproxima das questıes relativas ao infinito.

38

3. O infinito na matem·tica

N„o È nossa intenÁ„o fazer um estudo aprofundado sobre o infinito nem esgotar as

infind·veis questıes que este conceito suscita. Temos unicamente o intuito de mostrar que a

escolha feita por Lacan, de inaugurar sua exposiÁ„o no Semin·rio 2 com o MÍnon de

Plat„o, deve-se sobretudo a uma sÈrie de questıes referentes ‡ matem·tica, questıes essas

que lhe servir„o de instrumento para a formulaÁ„o de seu pensamento. E, para alcanÁarmos

esse intuito, faz-se necess·rio um pequeno trajeto por algumas elaboraÁıes matem·ticas

sobre o infinito.

3.1 O infinito e seus paradoxos

No livro Estudos de HistÛria do Pensamento FilosÛfico, Alexandre KoyrÈ (1991:12)

apresenta-nos um gr·fico bem simples, mas que È capaz de deixar clara a afirmaÁ„o,

utilizada por Lacan, de que n„o h· qualquer medida comum entre a diagonal do quadrado e

seu lado 11 .

comum entre a diagonal do quadrado e seu lado 1 1 . Trata-se de um quadro

Trata-se de um quadro de coordenadas cartesianas. Se tomarmos como referÍncia

X=Y, teremos como resultante dessa fÛrmula a reta 0XnYn. Como diz KoyrÈ, "cada ponto

dessa reta tem necessariamente um ponto correspondente na linha das abscissas, e

11 A n„o relaÁ„o entre a diagonal de um quadrado e seu lado encontra-se demonstrada no dÈcimo livro dos "Elementos" de Euclides (DOR,1988:108). Contudo, pela complexidade matem·tica que essa demonstraÁ„o apresenta, optei pelo gr·fico de KoyrÈ, por sua simplicidade e clareza.

39

reciprocamente nenhum falta e nenhum sobraî (1991:12). Curiosamente, apesar dessa

correspondÍncia dos pontos entre as duas retas, a reta 0Xn, constituÌda na abscissa, È menor

do que a reta resultante da fÛrmula, a reta 0XnYn.

Encontramo-nos

novamente

diante

da

hi‚ncia

ressaltada

por

Lacan.

um

descompasso entre a relaÁ„o que percebemos na imagem das linhas traÁadas, na geometria

do gr·fico, e a medida, o n˙mero, enfim, o estatuto simbÛlico destas linhas.

KoyrÈ nos mostra esse gr·fico ao longo de suas elaboraÁıes sobre os paradoxos de

Zen„o. Esses argumentos, apresentados ao mundo h· mais de dois mil anos por AristÛteles

em sua FÌsica (ARIST”TELES,1941), foram inicialmente entendidos como paradoxos

sobre o movimento. KoyrÈ nos esclarece que o problema levantado por Zen„o diz respeito

n„o somente ao movimento, como tambÈm ao tempo e ao espaÁo (que, conforme veremos

mais ‡ frente, eram, para os gregos, dados reais e imut·veis). Essas referÍncias, contudo,

somente s„o possÌveis na medida em que as noÁıes de infinito e continuidade est„o

contidas nele.

De maneira resumida, estes seriam os quatro argumentos apresentados por Zen„o:

1. Argumento da Dicotomia:

N„o haveria verdade no movimento. Afinal, È impossÌvel atravessar uma reta,

porque, antes de se atingir a meta, deve primeiro alcanÁar-se o ponto intermÈdio da

dist‚ncia a percorrer; antes de atingir esse ponto, deve atingir-se o ponto que est· a meio

caminho desse ponto; e assim ad infinitum.

Em outras palavras, se admitirmos que o espaÁo È infinitamente divisÌvel e que,

portanto, qualquer dist‚ncia finita contÈm um n˙mero infinito de pontos, chegamos ‡

conclus„o de que È impossÌvel alcanÁar o fim de uma sÈrie infinita num tempo finito.

40

2. Aquiles e a Tartaruga:

Dois corpos que se movem numa direÁ„o, dos quais um est· na frente e outro o

segue numa determinada dist‚ncia, movendo-se, porÈm, mais rapidamente que aquele,

sabemos que o segundo alcanÁar· o primeiro. Contudo, nesse argumento, Zen„o nos diz

que Aquiles nunca pode alcanÁar a tartaruga, porque na altura em que atinge o ponto de

onde a tartaruga partiu, ela ter-se-· deslocado para outro ponto; na altura em que alcanÁa

esse segundo ponto, ela ter-se-· deslocado de novo; e assim sucessivamente, ad infinitum.

Deste modo, numa corrida, o perseguidor nunca poderia atingir o perseguido,

mesmo que fosse mais r·pido que este. A teoria do espaÁo que est· aqui implÌcita È a que o

supıe infinitamente divisÌvel.

3. O argumento da flecha:

Um objeto est· em repouso quando ocupa um lugar

igual ‡s suas prÛprias

dimensıes. Uma flecha em vÙo ocupa, em qualquer momento dado, um espaÁo igual ‡s

suas prÛprias dimensıes. Conseq¸entemente, uma flecha em vÙo est· em repouso.

O objetivo deste argumento È provar que a flecha voadora est· em repouso, como

nos quadros na pelÌcula de um filme, resultado de se admitir a hipÛtese de que o tempo È

composto de momentos; se n„o admitirmos esta hipÛtese, a conclus„o n„o tem viabilidade.

41

4. O argumento do est·dio:

Corpos iguais que se movem no est·dio ao lado de um igual, com velocidade igual,

um a partir do fim do est·dio, o outro a partir do meio, um em direÁ„o do outro; disto se

deveria concluir que a metade do tempo È igual ao dobro.

AAAA

AAAA BBBB CCCC

BBBB

CCCC

Quando a fileira dos Bs e a dos Cs passam uma pela outra, o primeiro B alcanÁa o

˙ltimo C no mesmo momento em que o primeiro C alcanÁa o ˙ltimo B. Neste momento, o

primeiro C passou todos os Bs, enquanto que o primeiro B passou apenas metade dos As e,

por conseq¸Íncia, gastou apenas metade do tempo despendido pelo primeiro C, uma vez

que cada um dos dois leva o mesmo tempo a passar por cada corpo. Para Zen„o, isso

implicaria na constataÁ„o de que metade de um dado tempo È igual ao dobro desse tempo.

O erro da conclus„o consiste no fato de admitir que, no que se move e no que est·

em repouso, a coisa percorre uma mesma extens„o em tempo igual, com velocidade igual;

isto, porÈm, È falso.

42

Os

paradoxos

sobre

o

movimento

apresentados

por

Zen„o

nos

servem

extremamente por apresentarem, em suas demonstraÁıes, isso que KoyrÈ nos aponta como

questıes relativas ao contÌnuo e ao infinito. LanÁaremos m„o apenas do paradoxo da

dicotomia, que nos parece suficiente para discutir as questıes levantadas.

Retomemos ent„o o problema da dicotomia.

Se uma reta AB qualquer pode ser dividida em sua metade, e essa metade pode ser

dividida em sua metade, e assim sucessivamente, a um n˙mero infinito de divisıes, somos

obrigados a concluir que uma reta È composta por um n˙mero infinito de pontos. Essa

conclus„o, por sua vez, nos leva a alguns impasses, no que diz respeito ao movimento:

Antes que um elemento mÛvel qualquer possa atingir a extremidade de uma linha,

ele deve atingir a sua metade. Contudo, antes de atingir essa metade, ele deve atingir a

outra metade dessa metade, e assim sucessivamente, de forma infinita. N„o h·, dessa

maneira, qualquer possibilidade desse mÛvel sequer iniciar seu movimento. Uma outra face

desse impasse pode ser pensada se levarmos em conta o fato de que esse mÛvel, para atingir

a extremidade oposta de uma linha, deve chegar primeiro a uma metade, que por sua vez

apresenta outra metade, que apresenta outra metade, e assim sucessivamente, o que resulta

no fato de que esse mÛvel jamais alcanÁar· a outra extremidade dessa linha.

Todos estamos acostumados a percorrer dist‚ncias, a ir de um ponto a outro de

nossas casas. Pelo argumento da dicotomia, tal mobilidade, como vimos, seria impossÌvel.

Segundo KoyrÈ, as dificuldades trazidas pelos argumentos de Zen„o somente dizem

respeito ao movimento em decorrÍncia do fato de que este se desenvolve no tempo e no

espaÁo, duas entidades essencialmente contÌnuas.

Para tentar alcanÁar o cerne dos argumentos de Zen„o, KoyrÈ elimina o tempo e o

espaÁo do problema, reduzindo seu objeto de pesquisa ao "quantum contÌnuo ou o prÛprio

43

contÌnuoî (KOYR…,1991:11). Para tanto ele traduz os paradoxos de Zen„o para geometria,

para as grandezas matem·ticas, como no gr·fico j· apresentado.

O problema da dicotomia ganha ent„o a seguinte configuraÁ„o:

"A dist‚ncia, o caminho - n„o o caminho percorrido, mas o caminho que deve ser percorrido - È divisÌvel ao infinito antes de qualquer medida e de qualquer movimento; ele contÈm uma infinidade real de pontos. Se 'compusermos' a reta como a 'soma' de uma infinidade de pontos ou, pelo contr·rio, se a tratarmos como uma unidade dada e primordial, limitando- nos a ressaltar nela os pontos a tÌtulo de elementos secund·rios, o resultado È o mesmo. Nos dois casos, trata-se do infinito real. N„o temos necessidade do movimento e do movente: a reta geomÈtrica nos coloca, j·, frente a todas as dificuldades da dicotomia" (KOYR…, 1991:11).

Ou seja, uma reta, como as presentes no gr·fico, apesar de aparentar ser finita,

composta por um n˙mero finito de pontos, na verdade "esconde" um n˙mero infinito de

pontos, um infinito real. KoyrÈ chega mesmo a afirmar que os paradoxos de Zen„o se

ocultam em todo teorema geomÈtrico, em toda forma algÈbrica, em toda proposiÁ„o

aritmÈtica.

3.2 Uma breve histÛria do infinito na matem·tica

Para a matem·tica moderna, os primeiros princÌpios, ou seja, os axiomas, definiÁıes

ou postulados, n„o s„o mais que convenÁıes. O espaÁo, por exemplo, È entendido pelos

matem·ticos modernos como relativo e mesmo amorfo. Para os matem·ticos da antiga

GrÈcia, contudo, o espaÁo era imut·vel e absoluto, o que, segundo Paul Henri Michel

(MICHEL, 1950:52), explica o motivo pelo qual os geÙmetras antigos falavam t„o pouco

do espaÁo, enquanto os modernos falam dele constantemente.

Para os gregos, a verdade absoluta dos primeiros princÌpios n„o havia como ser

questionada. Portanto, se os conceitos iniciais fossem criados pela atividade do espÌrito

humano, isso n„o aconteceria por mera arbitrariedade, e mesmo que houvesse um erro

44

nessa criaÁ„o, este n„o impediria a verdade de existir por si sÛ. Os elementos matem·ticos

podiam ser entendidos como conceituais, porÈm jamais como produto de uma ficÁ„o. Os

gregos n„o acreditavam que criavam sua ciÍncia, mas que descobriam um aspecto do real,

de uma ordem real.

Os geÙmetras gregos, fossem eles discÌpulos de Pit·goras ou Euclides, admitiam os

fenÙmenos geomÈtricos naturais, que na verdade seriam uma resultante daquilo que o

espÌrito È capaz de constituir e da natureza das coisas. Para eles, uma noÁ„o suficientemente

clara n„o necessitaria de provas. Uma figura geomÈtrica n„o precisaria ser demonstrada

para efetivamente existir.

Para Plat„o, de maneira ainda mais radical, a figura geomÈtrica n„o seria mais do

que uma imagem grosseira da figura real. Haveria, por exemplo, o cÌrculo em si cujo

desenho n„o passaria de uma sombra, um reflexo. A figura geomÈtrica sugeriria a figura

real, sem, contudo, represent·-la. Se seguirmos tal pensamento somos inevitavelmente

levados ‡ constataÁ„o de que o geÙmetra, apesar de partir de um mundo de fatos naturais, se

engaja na verdade em um mundo ideal.

A partir dessas referÍncias do pensamento grego, n„o È exatamente de surpreender,

sabermos, que o encontro com as grandezas incomensur·veis tenha produzido efeitos

desestabilizadores para o pensamento matem·tico da Època.

Para Pit·goras, particularmente, havia uma relaÁ„o direta entre o n˙mero e a

intuiÁ„o espacial, ou seja, uma reciprocidade entre a aritmÈtica e a geometria, que se

ocupava do contÌnuo (DOR, 1988:106). Inclusive, havia entre os pitagÛricos a teoria dos

n˙meros figurados: os n˙meros triangulares, retangulares, e assim por diante. Toda

grandeza conhecida deveria possuir um n˙mero que seria inclusive o respons·vel mesmo

45

pelo conhecimento dessa grandeza. Dessa maneira, toda grandeza teria uma estrutura

numÈrica, racional (na medida em que È composta por n˙meros inteiros) e comensur·vel.

O

encontro

dos

pitagÛricos

com

as

grandezas

incomensur·veis,

a

partir

da

descoberta da "n„o relaÁ„o" entre a diagonal do quadrado e seu lado, colocar· em quest„o

essa relaÁ„o entre o contÌnuo e o n˙mero. Como conseq¸Íncia, a aritmÈtica vai separar-se

da geometria, ciÍncia do contÌnuo, dividindo, assim, a matem·tica em dois campos.

Posteriormente, no sÈculo V(a.C.), descobre-se que È possÌvel construir um n˙mero

ilimitado de irracionais entre duas grandezas contÌnuas (DOR, 1988:109), e no quarto final

desse mesmo sÈculo j· se tem plena consciÍncia das grandezas irracionais. SÛ assim, o atÈ

ent„o impens·vel ganha o estatuto de incomensur·vel, e o encontro de n˙meros como

o estatuto de incomensur·vel, e o encontro de n˙meros como 2 , 3 torna insustent·vel a

2 ,

3
3

torna insustent·vel a noÁ„o de que o n˙mero seria uma coleÁ„o de unidades. A

irracionalidade passa definitivamente a ser associada ‡ noÁ„o de infinito. Contudo, somente

no sÈculo XVII de nossa era, a dicotomia existente entre a geometria e a aritmÈtica vai

encontrar sua equaÁ„o no c·lculo infinitesimal 12 .

3.3 O contÌnuo e o infinito

Para KoyrÈ, as contradiÁıes sobre o infinito s„o apenas aparentes. Elas s„o

conseq¸Íncia de duas confusıes: a identificaÁ„o do indefinido com o infinito e a aplicaÁ„o

de conceitos finitistas, como a igualdade numÈrica, ao infinito.

12 A

2
2

È 1, 4142

Um

n˙mero ilimitado. Contudo, a multiplicaÁ„o de

2, um n˙mero inteiro, natural.

2
2

por

1, 4142 Um n˙mero ilimitado. Contudo, a multiplicaÁ„o de 2, um n˙mero inteiro, natural. 2 por

2 tem como resultado

46

"Os conceitos de infinito virtual, de crescimento infinito, e de variaÁ„o sem fim aos quais se quis conduzir o infinito real ou que se pretendem mesmo substituir a ele, repousam, pelo contr·rio, nele, e logicamente o pressupıem. O infinito virtual sÛ È possÌvel logicamente sobre a base do infinito real. … apenas no infinito (real) que uma grandeza, uma vari·vel, pode aumentar e variar ao infinito" (KOYR…, 1991:14).

O que

ele

tenta

nos

mostrar

È

que

o

infinito

enquanto

È

entendido

como

indeterminado, n„o pode ser visto como acabado. Tal noÁ„o, contudo, se aplica muito bem

ao infinito real. KoyrÈ exemplifica:

"Se podemos designar, sobre uma reta, um n˙mero infinito de pontos, È porque eles

est„o l·. Se podemos contar atÈ o infinito, È porque o n˙mero de n˙meros finitos È

infinito"(1991:14).

A afirmaÁ„o de que um n˙mero finito possa ser igual a sua metade È absurda,

contudo, com a noÁ„o de infinito real, de acordo com Cantor, podemos afirmar que um todo

infinito È equivalente a uma de suas partes. Por exemplo, o n˙mero de todos os n˙meros

racionais n„o È maior do que o de todos os n˙meros. A noÁ„o de igualdade È uma noÁ„o

que se refere ao finito, enquanto a noÁ„o de equivalÍncia, que n„o significa igualdade, È

uma referÍncia ao infinito.

J· sobre o contÌnuo, KoyrÈ nos diz ser este uma idÈia simples e irredutÌvel a

qualquer outra, da mesma forma que a idÈia de infinito. Contudo, È necess·rio distinguir o

contÌnuo da grandeza contÌnua. Pois o contÌnuo mesmo escapa de qualquer determinaÁ„o de

grandeza ou n˙mero. Ele È a alteridade em si. N„o se pode enumer·-lo ou medi-lo. O

princÌpio da equivalÍncia n„o lhe serve, pois È indivisÌvel, n„o h· todo, n„o h· partes. N„o È

multiplicidade, nem tambÈm È unidade.

ì…, exatamente, essa propriedade quase inef·vel da express„o contÌnua que aparece nas grandezas contÌnuas e que faz com que o

47

espaÁo infinito corresponda na sua totalidade a qualquer uma de suas partes, e que transposto para um segmento qualquer de uma reta geomÈtrica, ele possa ser representado por ela. … exatamente aqui, na passagem do contÌnuo puro, em si, para a grandeza contÌnua, para a parte limitada do espaÁo, que se situa o ëabismoí ñ este abismo que, de fato, est· preenchido de todas as suas partes reais, as retas, os corpos, etcî (KOYR…, 1991:18 ñ grifo nosso).

Para KoyrÈ, a quest„o fundamental n„o È se perguntar como um corpo consegue

atravessar o abismo de um espaÁo divisÌvel ao infinito, pergunta a que somos inicialmente

levados a pensar a partir dos paradoxos de Zen„o. Para ele, a quest„o fundamental È como

que o contÌnuo, que transcende a qualquer determinaÁ„o de grandeza, pode se tornar uma

reta ou um corpo. Diz ele: ìO que n„o podemos apreender È a idÈia de contÌnuoî.

4. "EnergÈtica lacaniana"

AtÈ ent„o nos deparamos com tratamentos diversos para as questıes suscitadas

pelos paradoxos do contÌnuo e do infinito. Zen„o aborda esses paradoxos a partir dos

argumentos sobre o movimento. KoyrÈ, por razıes que me parecem sobretudo did·ticas,

nos mostra que os problemas relativos ao movimento est„o diretamente relacionados ao

tempo e ao espaÁo. Isolando essas vari·veis, ele consegue nos apresentar esses paradoxos a

partir de suas referÍncias matem·ticas. Lacan inicia por esta vertente a elaboraÁ„o presente

em seu semin·rio 2. A escolha do MÍnon de Plat„o mostra-se como uma bela introduÁ„o a

toda essa problem·tica.

As referÍncias trabalhadas por KoyrÈ permitem assinalar um ponto fundamental: a

impossibilidade de apreens„o da idÈia de contÌnuo. O contÌnuo apresenta-se como o que

n„o cessa de n„o se escrever. N„o È possÌvel desenh·-lo, abord·-lo pela geometria, e nem

mesmo calcul·-lo pela aritmÈtica. O desenho, como fica claro no gr·fico que KoyrÈ nos

apresenta, mostra pelo paradoxo de sua forma a sua insuficiÍncia para escrever o contÌnuo,

48

e a abordagem aritmÈtica, simbÛlica, por sua vez nos coloca frente a frente com a quest„o

do infinito. Entre o desenho e o n˙mero, entre o imagin·rio e o simbÛlico, encontramos a

insistÍncia do abismo apontado por KoyrÈ, equivalente imaterial da hi‚ncia assinalada por

Lacan.

Os gregos, em sua crenÁa de que a toda grandeza real corresponderia um n˙mero,

demoraram um certo tempo atÈ se depararem com essa impossibilidade apresentada pelo

contÌnuo. Lacan, referindo-se a Plat„o, dizia que este, apesar das aparÍncias, certamente

n„o entenderia o que È a psican·lise, "porque existe aÌ um abismo, uma falha

" (LACAN,

1985:113). Essa opini„o sobre Plat„o certamente se aplicaria ‡queles aos quais Lacan se

referia em SituaÁ„o da Psican·lise e formaÁ„o do psicanalista em 1956, e que, conforme j·

tivemos a oportunidade de citar anteriormente, tentavam fazer do imagin·rio um real, e

mesmo fazer desse imagin·rio uma norma do real. Vimos atÈ ent„o que Lacan trabalha, em

seu retorno a Freud, com a intenÁ„o de mostrar o estatuto irracional do simbÛlico, e a

disjunÁ„o que se estabelece entre este e o imagin·rio. AlÈm disso, ressalta o fato de que

essa disjunÁ„o faz fronteira com uma hi‚ncia que permanece irrepresent·vel, sendo essa

hi‚ncia o topos da experiÍncia analÌtica. Seu esforÁo se faz no sentido de desfazer o

equÌvoco dos pÛs-freudianos em tentar fazer do Eu o eixo dessa experiÍncia. Tal equÌvoco

tem dois pontos de sustentaÁ„o. Um deles È o desconhecimento do simbÛlico e sua

irracionalidade, e esse desconhecimento cria as condiÁıes para o outro ponto de sustentaÁ„o

que È a tentativa de fazer do imagin·rio um real, ou seja, recobrir o real fazendo do

imagin·rio um todo, fazendo Um do Eu.

N„o podemos, obviamente, debitar essa dificuldade de entender a psican·lise a uma

dificuldade com as questıes relativas ao movimento, nem tampouco, unicamente, a um

problema com a matem·tica, mas trata-se certamente de um problema teÛrico, e para

49

entendÍ-lo È necess·rio apreender a articulaÁ„o de Lacan do Esquema L e o AlÈm do

princÌpio do prazer.

4.1 O simbÛlico e o AlÈm do PrincÌpio do Prazer

Seguindo sua elaboraÁ„o no Semin·rio 2, Lacan introduz o tema da energÈtica.

Afinal, lembra-nos, o que fez Freud escrever o AlÈm do princÌpio do prazer (1920) foi o

encontro, na clÌnica, do que ele chamaria compuls„o ‡ repetiÁ„o, a Wiederholungszwang,

que subverteu o princÌpio da homeostase do PrincÌpio do Prazer, colocando em quest„o

toda a teoria dos investimentos, cargas e descargas, colocando enfim em quest„o toda uma

energÈtica freudiana que tem no conceito de libido um representante fundamental.

O advento da m·quina teria sido determinante para introduzir a quest„o energÈtica

no campo da psican·lise. Afinal, diria Lacan, "a m·quina encarna a mais radical atividade

simbÛlica no homemî(LACAN, 1985:99). Contempor‚nea da ciÍncia, a psican·lise foi

inventada num mundo que j· convivia com as m·quinas, e que assistiu ‡ formulaÁ„o do

segundo

princÌpio

da

termodin‚mica.

Se

o

primeiro

princÌpio

estabelece

que

nas

transformaÁıes que se processam dentro de um sistema h· a conservaÁ„o de energia, o

segundo princÌpio nos apresenta o conceito de entropia, definindo que, embora exista

conservaÁ„o de energia dentro dos sistemas, essa tende de maneira irreversÌvel ‡ desordem,

convertendo-se desta forma em energia n„o aproveit·vel (SOARES, 2006b). Por exemplo,

um lÌquido quente se esfria ao simples contato com o ar frio, que por sua vez esquenta.

Retornar cada um desses elementos a sua temperatura anterior n„o se faz com a mesma

facilidade, sem um dispÍndio maior de energia aproveit·vel. … o que observamos, por

exemplo, nos fogıes e geladeiras de nossas casas. Podemos ainda observar que quando

50

deixamos um copo de vidro cair, ele facilmente se quebra, e certamente n„o encontraremos

no processo inverso a mesma ìespontaneidadeî. Trata-se de uma via de m„o ˙nica.

A introduÁ„o da noÁ„o de entropia nos conduz ‡ noÁ„o de puls„o, particularmente ‡

de puls„o de morte. Podemos encontrar tambÈm na puls„o de morte uma press„o, uma

energia que se conduz numa via de m„o ˙nica. Assim como Freud a concebeu, a puls„o em

sua busca de satisfaÁ„o tende ‡ desordem, e tem na irreversibilidade de seu trajeto, uma

caracterÌstica preponderante. Afinal, o seu caminho de retorno È barrado, interditado, sendo

necess·rio que ela siga seu trajeto em busca do inorg‚nico atravÈs da vida.

Para Lacan, a puls„o de morte se apresentaria na dimens„o mesma do simbÛlico, em

sua insistÍncia, em sua repetiÁ„o.

" a m·quina se mantÈm, ela desenha uma certa curva, uma certa persistÍncia. E È

pela prÛpria via desta subsistÍncia que algo de diferente se manifesta

1985:108).

"

(LACAN,

No desenvolvimento de sua energÈtica, ele diz que, no animal, existiria uma espÈcie

de convergÍncia entre o que È da ordem da aprendizagem e o que diz respeito ‡ maturaÁ„o

do instinto. Seria um chamado do meio ambiente, o que provocaria a emergÍncia do

instinto, com a cristalizaÁ„o de formas, comportamentos e condutas. Conseq¸entemente,

acabaria sendo muito difÌcil distinguir o que È verdadeiramente aprendizagem do que È uma

resposta do instinto.

No

homem,

tambÈm

haveria

algo

dessa

capacidade

presente

no

reconhecer seu objeto natural. Existiria no humano, "a captura na forma,

animal,

de

a tomada na

miragem da vidaî.(1985:115) Isso justificaria parcialmente a Plat„o, e sua teoria das

reminiscÍncias. Contudo, a entrada do simbÛlico como terceiro termo provoca uma

51

reviravolta nessa apreens„o do objeto, n„o sendo mais na ordem da reminiscÍncia, mas na

da repetiÁ„o que o homem encontra seu caminho.

O animal, pelas razıes expostas acima, encaixa-se muito bem em seu meio, ele

reconhece seu parceiro sexual, seu semelhante, encontrando dessa maneira seu lugar em seu

ambiente. Vemos que no animal, pelo menos enquanto est· na natureza, n„o se pode

verificar qualquer estrutura de disjunÁ„o ou hi‚ncia.

J· o homem, nos diz Lacan:

"No homem È a m· forma que È prevalente. … na medida em que uma tarefa est·

inacabada que o sujeito volta a ela. … na medida em que um fracasso foi acerbo que o

sujeito se lembra melhor dele" (1985:114-115).

E È exatamente isso que a psican·lise desvenda, nos diz em 1954,

"a aplicaÁ„o

estritamente inadequada de certas relaÁıes simbÛlicas

totais, e isso implica diversas

tonalidades, por exemplo, a imisÁ„o do imagin·rio no simbÛlico, ou inversamente."

(1985:114)

Ou seja,

o

homem tenta superar

essa barreira

impossÌvel de ser

transposta,

impossibilidade decorrente, como nos diz Lacan, dessa entropia, dessa entrada da m·quina

como terceiro termo, subvertendo a relaÁ„o com o objeto. De maneira distinta do animal, o

homem opera na via de um certo excesso, seja simbÛlico, seja imagin·rio, na tentativa de

tamponar essa hi‚ncia fundamental e estruturante. A puls„o de morte È, pois, o efeito dessa

entrada do terceiro termo, do simbÛlico. A persistÍncia do simbÛlico e sua dimens„o

estruturante, em disjunÁ„o com o imagin·rio, tendo como efeito uma hi‚ncia, È a condiÁ„o

da puls„o de morte. Essa hi‚ncia, ponto focal da psican·lise, o sujeito tenta preencher por

intermÈdio dessa totalizaÁ„o simbÛlica. E essa totalizaÁ„o, Lacan j· nos apresentava como

sendo o ideal teÛrico da libido:

52

"Portanto, a noÁ„o de libido È uma forma de unificaÁ„o do campo dos efeitos psicanalÌticos. Gostaria, agora, de lhes fazer notar que seu emprego se situa na linha tradicional de qualquer teoria como tal, que tenha tendÍncia a ir dar num mundo, terminus ad quem da fÌsica cl·ssica, ou num campo unit·rio, ideal da fÌsica einsteiniana. NÛs n„o estamos no ponto de poder transpor nosso pobre campinho para o campo da fÌsica universal, mas a libido È solid·ria do mesmo ideal. N„o È a troco de nada que esse campo unit·rio È chamado de teÛrico - È o sujeito ideal e ˙nico de uma theoria, intuiÁ„o, atÈ mesmo contemplaÁ„o, cujo conhecimento exaustivo nos permitiria, ao que se supıe, engendrar tanto todo seu î

passado como todo seu futuro

(LACAN, 1985:279).

Lacan ent„o ressalta que n„o h· nada mais afastado da experiÍncia freudiana do que

esse ideal totalizador do simbÛlico, esse ideal da libido.

Na perspectiva cl·ssica, teÛrica, h· uma conjugaÁ„o entre sujeito e o objeto, ou seja,

eles tÍm que se adequar, numa relaÁ„o de ser com ser; na psican·lise, de maneira bem

diversa, encontramo-nos diante da relaÁ„o do sujeito com sua falta a ser. O ser ganha algo

de existÍncia a partir mesmo dessa falta. E È essa relaÁ„o do ser com a falta que Lacan

chama de desejo. Uma falta que se acha para alÈm de tudo que possa ser nomeado, sendo

esse nada que possa ser nomeado a causa fundamental do desejo.

N„o h·, portanto, um significante que represente no simbÛlico o ser do sujeito.

Dessa maneira, assim como o infinito n„o escreve o contÌnuo, o simbÛlico n„o escreve o

real. E assim, parece-me que podemos entender o estatuto de contÌnuo que Lacan atribui ao

simbÛlico.

Se para a psican·lise n„o È possÌvel apreender o ser, ocupando-se da hi‚ncia, ela

pode designar o seu ponto de fuga, um ponto n„o apreensÌvel e que È o ponto do surgimento

da relaÁ„o do sujeito com o simbÛlico. Esse ponto, esse umbigo, È o que Lacan denomina

ser, e que n„o pode ser apreendido cientificamente, mas tem sua direÁ„o indicada pelos

fenÙmenos da experiÍncia analÌtica. Desconhecendo o simbÛlico, no ideal teÛrico de

totalizaÁ„o do Eu, n„o haveria nos pÛs-freudianos lugar para o desejo.

53

4.2 O imagin·rio humano n„o È sem o simbÛlico

. Na natureza, a funÁ„o imagin·ria est· presente das mais diversas formas. A

captaÁ„o da imagem pelos parceiros È essencial nos rituais de acasalamento, fundamentais

para a sobrevivÍncia das espÈcies, bem como È tambÈm definidora nas situaÁıes de

rivalidade entre os animais. Contudo, pela presenÁa do simbÛlico, naquilo que È humano, o

imagin·rio apresenta-se como um ìelemento de tipicidadeî (LACAN, 1985:53). Ou seja,

no homem, a funÁ„o imagin·ria se apresenta de maneira radicalmente distinta da maneira

como se apresenta na natureza. Lacan nos ensinou que na ordem humana a funÁ„o

simbÛlica intervÈm em todos os momentos e em todos os nÌveis de sua existÍncia, n„o seria

diferente, portanto, no que diz respeito ao imagin·rio.

No homem, como j· assinalamos anteriormente, n„o h· conascimento, coaptaÁ„o,

entre o sujeito e o objeto. Encontraremos em ìO Semin·rio, livro 4: A relaÁ„o de

Objetoî(LACAN,

1956-1957),

a

maneira

pela

qual

Lacan

desenvolve,

a

partir

da

constituiÁ„o do objeto, a formaÁ„o do imagin·rio no humano.

Nas primeiras experiÍncias da crianÁa, a figura da m„e que a alimenta constitui-se

como seu primeiro objeto. Esse objeto tem estatuto simbÛlico na medida em que È

experimentado pela crianÁa em sua altern‚ncia de presenÁa e ausÍncia. O que aparece

diante da crianÁa quando ela È de alguma maneira satisfeita pelo outro È a imagem desse

outro. Isso quer dizer que a m„e constitui-se como o primeiro objeto para a crianÁa pela

altern‚ncia da presenÁa e da ausÍncia de sua imagem diante dela. Com a inevit·vel

frustraÁ„o da crianÁa, seja em funÁ„o da insaciabilidade da demanda, seja da vontade

autÙnoma da m„e, esta decai de sua posiÁ„o simbÛlica e passa ent„o a ser tomada em sua

dimens„o real e caprichosa. A m„e real, em sua onipotÍncia, surge ent„o como possuidora

dos objetos que de acordo com seu capricho poder„o satisfazer ou n„o a crianÁa. Esses

54

objetos, no descimento da m„e de seu estatuto simbÛlico para real, ascendem ‡ dimens„o

simbÛlica sendo ent„o reconhecidos como um dom da m„e. ¿ crianÁa resta a possibilidade

de se alojar ali onde ela acredita ser amada pela m„e, tentando em sua interpretaÁ„o

localizar o desejo dela, identificando-se ao objeto imaginado desse desejo, na tentativa de

assim iludi-lo (LACAN, 1995:231) 13 .

Podemos dizer que a relaÁ„o da crianÁa com a imagem d·-se portanto em dois

tempos. Num primeiro tempo, a partir da imagem do outro, a crianÁa tem, como nos diz

Lacan, sua primeira apreens„o do simbÛlico. Pela relaÁ„o simbÛlica com esse outro, o

grande Outro se constitui. Num segundo tempo, a crianÁa se identifica com a imagem por

ela interpretada, no encontro com os objetos simbÛlicos da m„e. Portanto, n„o h· no

humano relaÁ„o direta, pura, com a imagem. Como bem assinalado por Lacan, a imagem

somente È apreendida pela crianÁa em sua referÍncia simbÛlica.

Essa tipicidade È a marca diferencial e definitiva do homem.

O homem se toma a

partir do Outro, e È outro para si mesmo. A unidade por ele conquistada È alienada e virtual,

e como encontramos no texto sobre o Est·dio do Espelho, o sujeito se reconhece ìali onde a

inst‚ncia do Eu, numa linha de ficÁ„o, somente se unir· assintoticamente ao devir do

sujeitoî (LACAN, 1998:98). Entre o irracional do simbÛlico e a ilus„o de unidade do

imagin·rio, encontramos j· no ìEst·dio do Espelhoî uma referÍncia de Lacan ‡ hi‚ncia,

aqui apenas suplantada numa linha de ficÁ„o, e mesmo assim de forma assintÛtica, ou seja,

numa linha de ficÁ„o virtualmente infinita.

13 Mais ‡ frente teremos a oportunidade de voltar a esta articulaÁ„o, mas retirando dela outras conseq¸Íncias.

55

ìA prÛpria imagem do homem fornece uma mediaÁ„o, sempre imagin·ria, sempre problem·tica que n„o se acha, pois, nunca completamente efetivada. Ela se mantÈm atravÈs de uma sucess„o de experiÍncias instant‚neas, e esta experiÍncia, ou bem aliena o homem de si prÛprio ou bem vai dar numa destruiÁ„o, numa negaÁ„o do objetoî (LACAN,

1985:211).

O sujeito, como dissemos, de maneira bem diferente do animal, n„o tem qualquer

relaÁ„o direta com o objeto, È em relaÁ„o ao Outro que as relaÁıes com o objeto ganham

sentido, e ganham sentido porque na relaÁ„o com o Outro esse objeto pode ser nomeado.

AlÈm disso, o Eu, j· nos dizia Freud, È esse objeto privilegiado, a partir do qual todos os

objetos s„o olhados. Assim, È por n„o se confundir com o objeto, por estar diante deste

sempre em uma relaÁ„o assintÛtica, infinitamente separados, numa relaÁ„o de falta, que o

sujeito deseja. E È tambÈm por n„o se confundir com sua imagem, com sua percepÁ„o, que

o homem n„o se cala pela influÍncia do simbÛlico.

Essa mesma sorte faltou aos planetas,

silenciados que foram pelo avanÁo da ciÍncia. Lacan nos diz que os planetas que antes tanto

pareciam dizer foram calados, em funÁ„o da descoberta por Newton das fÛrmulas da

gravitaÁ„o universal. Por se confundirem consigo mesmos, por n„o poderem ser tomados

por outros, foram, por sua reduÁ„o ao simbÛlico, condenados ao silÍncio.

Esse È mais um alerta para nos lembrar da import‚ncia da hi‚ncia na constituiÁ„o do

humano. Esse real mais alÈm de qualquer esforÁo simbÛlico, mais alÈm de qualquer

delineamento imagin·rio, mais alÈm do princÌpio do prazer È fundamental ao humano. No

prÛximo capÌtulo terei a chance de me ocupar mais detidamente da import‚ncia dessa

perspectiva na continuidade do pensamento de Lacan.

Antes, para concluir, lembremos o Esquema L. Esse esquema, que se apresenta

simplificado na quest„o preliminar, o esquema do AlÈm do princÌpio do prazer, È a

56

topologia 14 lacaniana do inconsciente nesse momento de seu ensino. … a topologia de um

inconsciente estruturado pelo discurso contÌnuo do Outro, resultando que em S, em Das Es,

encontre-se o sujeito em sua abertura, um sujeito que n„o sabe o que diz, mas que se

reconhece na unidade de a, acreditando que esse eu seja ele, e em , seus semelhantes.

que esse eu seja ele, e em aí , seus semelhantes. ì… a partir da ordem

ì… a partir da ordem definida pelo muro da linguagem que o imagin·rio toma sua

falsa realidade, que È, contudo, uma realidade verificada. O eu, tal como o entendemos, o

outro, o semelhante, estes imagin·rios todos, s„o objetos. … verdade que eles n„o s„o

homogÍneos ‡s luas ñ e, a cada instante, corremos o risco de esquecer istoî (LACAN,

1985:307).

O esquema de Lacan È uma forma de nos fazer lembrar aquilo que a cada instante

podemos nos esquecer.

14 ìAo fim desses anos de crÌtica, eis-nos, pois, armados de um certo n˙mero de termos e de esquemas. A espacialidade destes ˙ltimos n„o deve ser tomada no sentido intuitivo do termo ìesquemaî, mas num outro sentido, perfeitamente legÌtimo, que È topolÛgico ñ n„o se trata de localizaÁıes, e sim de relaÁıes de lugares, interposiÁ„o, por exemplo, ou sucess„o, seq¸Ínciaî(LACAN,1995:10).

57

Capitulo II ñ Puls„o de morte: a supress„o da hi‚ncia

No primeiro capÌtulo, provocado pelo texto da ìQuest„o preliminarî, ocupei-me em

mostrar o estatuto que o simbÛlico e o imagin·rio apresentavam para Lacan naquele

momento de sua elaboraÁ„o.

Assim, deparamo-nos com um simbÛlico contÌnuo e um

imagin·rio que na especificidade do humano È experimentado de maneira atravessada por

esse simbÛlico. SimbÛlico e imagin·rio se tensionam, deixando uma hi‚ncia impossÌvel de

se recobrir na qual podemos localizar o real, o resto n„o apreensÌvel.

ìOs sujeitos vivos animais s„o sensÌveis ‡ imagem de seu tipo. Ponto absolutamente essencial graÁas ao que a criaÁ„o viva toda n„o È uma imensa suruba. Mas o ser humano tem uma relaÁ„o especial com a imagem que lhe È prÛpria ñ relaÁ„o de hi‚ncia, de tens„o alienante. … aÌ que se insere a possibilidade da ordem da presenÁa e da ausÍncia, ou seja, da ordem simbÛlica. A tens„o entre o simbÛlico e o real esta aÌ subjacente. Ela È substancial, se consentirem em dar ao termo subst‚ncia seu sentido puramente etimolÛgico. Trata-se de um upokemeÔnonî(LACAN,

1985:403).

Essa afirmaÁ„o presente quase ao final do semin·rio 2 de certa maneira sintetiza o

que desenvolvemos atÈ ent„o, delimitando um pouco esse estatuto do aparelho psÌquico

estabelecido por Lacan nos anos 50 e suas conseq¸Íncias para a concepÁ„o do que se pode

chamar de humano. Aquilo que caracteriza o humano e que se repercute na constituiÁ„o do

aparelho psÌquico se d· na tens„o alienante de uma hi‚ncia, hi‚ncia que È fruto da

articulaÁ„o entre o simbÛlico e o imagin·rio.

Ser·

necess·rio

agora,

no

segundo

capÌtulo,

avanÁar

na

investigaÁ„o

das

repercussıes clÌnicas que tal concepÁ„o de real, simbÛlico e imagin·rio apresenta. Ou seja,

investigar que estatuto ter· esse aparelho psÌquico que tem sua topologia no Esquema L e

que, como lembrado no capÌtulo anterior, veio substituir para Lacan, o ìEsquema ”ticoî

58

que ele mesmo produziu e que por sua vez substituiu os esquemas de Freud do ìProjetoî e

da carta 52.

1. O sujeito e o Eu: modelos para entender o descentramento

ConvÈm mais uma vez lembrar que um ponto por demais ressaltado por Lacan È o

descentramento existente entre o sujeito e o Eu. Embora no primeiro capÌtulo a import‚ncia

desse descentramento j· tenha sido abordada, gostaria de retom·-lo com alguns modelos,

que funcionam como um exercÌcio de pensamento proposto por Lacan e que nos permite

vislumbrar a import‚ncia que ele depositava nessa idÈia, e o papel organizador que essa

disjunÁ„o simbÛlico/imagin·rio tem na seq¸Íncia de suas elaboraÁıes. A partir de agora,

contudo, tentamos dar uma dimens„o e uma aplicabilidade mais clÌnica a essa disjunÁ„o.

1.1 O impasse imagin·rio

Lacan nos propıe um modelo que nos permita pensar a dimens„o imagin·ria do Eu

e, podemos dizer, o imperativo lÛgico de seu descentramento do sujeito. Ele sugere que

pensemos em maquininhas, ìpara as quais somos capazes de fornecer, graÁas a Ûrg„os

intermedi·rios

de

todo

o

tipo,

uma

homeostase

e

algo

que

se

assemelha

a

desejosî(LACAN, 1985:70). Essas m·quinas seriam construÌdas inacabadas, bloqueadas, sÛ

podendo constituir-se finalmente como um mecanismo em si mesmo ao perceber uma outra

m·quina, totalmente semelhante, mas que numa experiÍncia anterior j· teria adquirido sua

unidade. Dessa maneira, cada m·quina estaria condicionada ‡ percepÁ„o do est·dio

alcanÁado pela outra. Lacan assinala que isso corresponde ao elemento de fascinaÁ„o.

Com este modelo, ele nos mostra como que uma m·quina estaria totalmente

alienada na outra. Ou seja, aquilo para o que se dirigir a primeira m·quina sempre estar· na

59

dependÍncia daquilo para o que vai se dirigir a outra. O que resulta disso È um impasse que,

lembra Lacan, È prÛprio ‡ constituiÁ„o do objeto humano. … isso que ele chama de dialÈtica

do ci˙me: ìum eu, inteiramente pendente da unidade de um outro eu, È estritamente

incompatÌvel com ele no plano do desejoî (LACAN, 1985:71).

Essa incompatibilidade se deve ao fato de que serei eu ou ele quem ter· um objeto

desejado, o que exatamente por isso faz desse objeto desejado um objeto temido, ele tem de

ser de um ou de outro produzindo uma situaÁ„o de rivalidade. Essa rivalidade inaugural È

meramente virtual, mas exemplifica muito bem a necessidade de um terceiro. Para que a

primeira maquininha inacabada, alienada na outra que j· se fez unidade, possa chegar a um

bom termo, para que elas n„o se destruam no ponto de convergÍncia de seu desejo, que

nesse momento inaugural virtual, pelo menos no que diz respeito a esse desejo, fez delas

um sÛ e mesmo ser, seria necess·rio que a primeira maquininha pudesse dizer ‡ outra:

ì-Desejo isto!î, o que havendo sujeito se transformaria em ìTu, outro, que Ès minha

unidade, desejas istoî(1985:71).

Lacan faz uma ressalva ao nos dizer da impossibilidade desse modelo. Afirma que

esse momento virtual inaugural n„o acontece jamais, pois o humano j· se funda na

linguagem.

A brincadeira das m·quinas, contudo, permite-nos perceber a especificidade

apresentada pela noÁ„o de inconsciente que ele elabora. Esse terceiro È encontrado no

inconsciente, ìl· onde deve estar situado para que o balÈ de todas as maquininhas se

estabeleÁa, ou seja, acima delas

î(1985:72).

No Semin·rio 4 encontramos o mesmo

encadeamento de idÈias, quando ele se refere ao primeiro encontro com o simbÛlico da

crianÁa, conforme desenvolvemos no capÌtulo I, com o surgimento da pergunta do desejo, a

partir do enfrentamento da presenÁa/ausÍncia da m„e. Posteriormente poderemos ver como

que em Schreber, seja no vazio que se abre com a presenÁa/ausÍncia da m„e, seja no

60

impasse imagin·rio na relaÁ„o com Deus que sua tem·tica delirante aponta, esse modelo

das maquininhas pode ser bastante esclarecedor 15 .

1.2 A atemporalidade da mensagem simbÛlica

Vimos no primeiro capÌtulo que o simbÛlico tem um estatuto contÌnuo, irracional.

Esse contÌnuo da frase simbÛlica permite-nos operar com a idÈia de atemporalidade do

inconsciente. Para melhor entendÍ-la Lacan nos convida a pensar a partir do modelo

fornecido pelas calculadoras.

Ele diz que as pessoas n„o acreditam que as m·quinas de calcular tÍm memÛria 16 , e

que isso se deve ao desconhecimento de que a memÛria humana È constituÌda de tal

maneira que coloca em causa, a cada instante, as imagens que teriam sido feitas na

memÛria atÈ ent„o. Retornando ‡s m·quinas diz que para que estas se recordem no

momento de cada pergunta, das perguntas que lhes foram feitas anteriormente, elas foram

construÌdas de modo a manter a primeira experiÍncia sempre circulando nela no estado de

mensagem. Em seguida nos apresenta o exemplo:

ìSuponham que eu mande um telegrama daqui ao Mans, ao encargo do Mans de reenvi·-lo a Tours, de l· a Sens, de l· a Fontainebleau, e de l· a Paris, e assim indefinidamente. Quando chego ao rabo da minha mensagem È preciso que a cabeÁa ainda n„o o tenha alcanÁado. … preciso que a mensagem tenha o tempo de girar. Ela gira depressa, ela n„o p·ra de girar, fica dando voltasî (LACAN. 1985:117).

Esse modelo permite-nos esclarecer a afirmaÁ„o de que o inconsciente È o discurso

do outro. N„o se trata, segundo Lacan, de uma abstraÁ„o, nem do outro da dÌade, o

correspondente, ou do outro como escravo. O discurso do outro

15 Lacan retomar· esse modelo posteriormente utilizando-se n„o mais de m·quinas, mas do cachorro da experiÍncia de Pavlov, especialmente nos Semin·rios 11 e 24.

16 … preciso lembrar que essa liÁıes foram dadas em 1954, ainda nos primÛrdios dessas m·quinas calculadoras.

61

ìÈ o discurso do circuito no qual estou integrado. Sou um dos seus elos. … o discurso de meu pai, por exemplo, na medida em que meu pai cometeu

Estou

condenado a reproduzi-las porque È preciso que eu retome o discurso que

faltas as quais estou absolutamente condenado a reproduzir

ele me legou, n„o sÛ porque sou o filho dele, mas porque n„o se para a î

cadeia do discurso

(LACAN, 1985:118).

Portanto, dizer que o Inconsciente È o discurso do outro, com letra min˙scula

mesmo, mostra a heranÁa que tal definiÁ„o tem da idÈia de intersubjetividade. … possÌvel

perceber que lentamente Lacan vai promovendo esse pequeno outro a grande Outro,

quando exclui a idÈia do semelhante na referÍncia a esse discurso, salientando que È um

discurso que se perpetua, dando-lhe uma envergadura mais transcendental.

Aqui se tornam tambÈm mais claras as razıes que o levaram a dizer que o Esquema

L

È o esquema do AlÈm do princÌpio do prazer. A persistÍncia contÌnua da frase simbÛlica È

o

que estabelece o discurso que o sujeito se vÍ forÁado a repetir. Assim, a circulaÁ„o da

mensagem esta

intimamente

ligada ‡s noÁıes de compuls„o

‡ repetiÁ„o

e supereu

(LACAN, 1985:118).

Para deixar isso mais claro Lacan nos remete ‡ tragÈdia de …dipo. O inconsciente de

…dipo seria aquele discurso fundamental, que embora estivesse escrito desde sempre, que

embora todos o conhecÍssemos, era ignorado por …dipo. Tal ignor‚ncia n„o impediu que

ele

fosse

desse

discurso

um

joguete.

Assim,

todo

o

valor

da

tragÈdia

estaria

no

desvelamento desse discurso, que seria a realidade, realidade, contudo, desconhecida por

…dipo.

1.3 O trÌodo

Lacan vai nos explicar que È nessa persistÍncia da mensagem em seu circuito

ininterrupto que se encontra o sentido do que Freud chama de ìPuls„o de morteî. Para ele,

62

a idÈia de que a Puls„o de morte definiria o fim do ìPrincÌpio do prazerî pela dissoluÁ„o

concreta do cad·ver È muito abusiva. A puls„o de morte È algo ìmenos absurdo, menos

antibiolÛgico, menos anticientÌficoî(LACAN, 1985:107).

A libido se dirige de volta ‡ morte por um caminho nem um pouco direto. Ela o faz

pelos caminhos da vida. Aqui retomo a citaÁ„o de Lacan: ì

a m·quina se mantÈm, ela

desenha uma certa curva, uma certa persistÍnciaî (1985:108). Seria exatamente essa

persistÍncia a grande descoberta da psican·lise, ou seja, a discord‚ncia radical das condutas

essenciais do homem com relaÁ„o a tudo o que ele vive. ì… algo que vai aos saltos, aos

pulosî (1985:113). Assim, como disse no capÌtulo anterior, a libido mantÈm um ideal que

poderia atÈ ser chamado de teÛrico, totalizante. A persistÍncia da mensagem, do discurso

contÌnuo do Outro, topologizada no Esquema L, em discord‚ncia com o Eu, È esse

impossÌvel retorno, que por sua vez È a forÁa motriz da puls„o de morte.

Essa impossÌvel sÌntese do homem levou Freud a escrever o AlÈm do princÌpio do

prazer, pois sua experiÍncia clÌnica havia lhe ensinado que n„o seria possÌvel transformar o

inconsciente em consciente, que n„o seria possÌvel transformar em memÛria tudo que se

apresentava como repetiÁ„o na vida de um homem, e que aquilo que n„o havia como ser

dito, e que permanecia, portanto, sendo repetido, seria talvez a parte mais importante de sua

sexualidade (FREUD, 1920:31). Para Lacan, a disjunÁ„o entre o imagin·rio e o simbÛlico,

a resistÍncia que o imagin·rio representava ao livre tr‚nsito da frase simbÛlica, seria o

respons·vel pela manutenÁ„o da hi‚ncia articulada em uma estrutura de discurso, esse

impossÌvel percebido por Freud.

O Esquema L busca mostrar essa disjunÁ„o, em que ìa resistÍncia e a significaÁ„o

do inconsciente correspondem uma com a outra que nem o avesso e o direito, que aquilo

que funciona segundo o princÌpio do prazer no sistema dito prim·rio aparece como

63

realidade no outro e inversamenteî (1985:155). Para desenhar esse esquema, Lacan inspira-

se no mecanismo das v·lvulas eletrÙnicas, precursoras dos transistores.

As v·lvulas eletrÙnicas ou termiÙnicas inspiram-se no efeito termiÙnico, em que h·

uma emiss„o de elÈtrons por um metal aquecido, efeito que foi descoberto por Thomas

Edson em 1883. Basicamente trata-se de um filamento que È aquecido dentro de uma

ampola sob v·cuo (a presenÁa de ar impede a emiss„o de elÈtrons) e de um ‚nodo que

quando polarizado positivamente faz com que os elÈtrons emitidos pelo aquecimento do

filamento sejam atraÌdos pelo potencial positivo do ‚nodo, fazendo circular uma corrente

pelo circuito. Se o ‚nodo for polarizado negativamente, ele repelir· os elÈtrons emitidos

pelo filamento e n„o haver· corrente pelo circuito. Isto È o que na pr·tica se chama diodo

retificador (SOARES, 2006b).

que na pr·tica se chama diodo retificador (SOARES, 2006b). A figura (a) traz o sÌmbolo padr„o

A figura (a) traz o sÌmbolo padr„o para representar o diodo. Os elÈtrons circulam do

filamento F (ou catodo na figura (b)) em direÁ„o ao ‚nodo P. Gostaria de frisar a

import‚ncia desse modelo, na medida em que o diodo È respons·vel pela criaÁ„o de uma

corrente contÌnua.

Ao

longo

desta pesquisa,

o termo

ìcontÌnuoî j·

nos mostrou a

import‚ncia e prevalÍncia nesse momento da elaboraÁ„o lacaniana, e aqui o vemos tambÈm

associado ‡ idÈia de continuidade, de ausÍncia de interrupÁ„o. Entretanto, na verdade, È o

modelo do trÌodo o que vai ser utilizado por Lacan. ìTodos aqueles que manipularam r·dio

conhecem isso ñ uma v·lvula trÌodo ñ quando aquece no catodo, os eletronzinhos vÍm

bombardear o ‚nodo. Se houver algo no intervalo a corrente elÈtrica passa ou n„o conforme

64

isso se positive ou negative. Pode-se realizar uma modulaÁ„o da passagem da corrente ‡

vontade ou, mais simplesmente, um sistema de tudo ou nadaî (LACAN, 1985:156).

um sistema de tudo ou nadaî (LACAN, 1985:156). Nesta figura podemos perceber que entre o catodo

Nesta figura podemos perceber que entre o catodo e o anodo existe um terceiro elemento, a

ìgrade de controleî, que faz a regulaÁ„o apontada por Lacan. Essa grade corresponderia ‡

resistÍncia da funÁ„o imagin·ria do Eu. O Eu desempenha, no modelo lacaniano do

esquema L, uma funÁ„o de obst·culo, de filtro ao discurso do inconsciente. N„o se trata de

uma relaÁ„o de negativo a positivo; se n„o houvesse essa relaÁ„o de atrito, iluminaÁ„o,

aquecimento, os efeitos de comunicaÁ„o no nÌvel do inconsciente n„o seriam apreensÌveis.

Podemos ent„o entender o Esquema L como o esquema em que a corrente contÌnua

do Inconsciente circula, mas È modulada pela grade reguladora do Eu, que ‡s vezes deixa,

‡s vezes n„o deixa passar a mensagem.

circula, mas È modulada pela grade reguladora do Eu, que ‡s vezes deixa, ‡s vezes n„o

65

2. Mais de uma maneira de morrer

Vimos que a disjunÁ„o estabelecida entre o simbÛlico e o imagin·rio, representada

no Esquema L por Lacan, apresentava para ele fundamental import‚ncia. O fascÌnio da

imagem, se experimentada como no modelo das maquininhas, sem a intervenÁ„o da

dimens„o simbÛlica, precipitaria o sujeito no desastre, no colabamento da reduÁ„o ao outro.

Da

mesma

maneira,

uma

existÍncia

meramente

simbÛlica

lanÁaria

o

sujeito

numa

indiferenÁa, num desconhecimento absoluto, na inapreensibilidade da experiÍncia do

inconsciente. Assim, essa hi‚ncia constituinte e constituÌda pela disjunÁ„o do simbÛlico e

do imagin·rio, do sujeito e do Eu, mostra ser inquestion·vel quando se pensa na estrutura.

O real aqui j· se apresentava como intrat·vel.

2.1 A SÌndrome de Cotard

A libido, em seu ideal totalizante, buscaria o ultrapassamento dessa hi‚ncia. AÌ est·,

como j· disse, a ìintencionalidadeî da puls„o de morte. Vencer o impossÌvel demarcado

pela disjunÁ„o entre o simbÛlico e o imagin·rio representaria esse encontro com a morte.

Esse encontro poderia ocorrer por duas vias.

Uma via seria aquela que se encontra desenvolvida no modelo das maquininhas. Por

essa via o sujeito se reduziria a n„o ser nada alÈm do que sua prÛpria imagem. Como

exemplo dessa morte remeto-me ‡ citaÁ„o de Lacan sobre a melancolia:

ìNo meio deste mundo miraculoso, encontramos velhÌssimas senhoras, velhÌssimas solteironas, cuja primeira declaraÁ„o junto a nÛs È - N„o tenho boca. Elas nos informam que tampouco tÍm estÙmago, e que, ademais, n„o morrer„o nunca. Em suma, elas tÍm uma relaÁ„o muito grande com o mundo das luas. A ˙nica diferenÁa È que, para estas velhas senhoras, vÌtimas da sÌndrome chamada Cotard, ou delÌrio de negaÁ„o, no final das contas, È verdade. Aquilo a que elas se identificaram È uma imagem ‡ qual falta toda e qualquer hi‚ncia, toda e qualquer aspiraÁ„o, todo vazio do desejo, isto È, o que constitui propriamente a propriedade do

66

orifÌcio bucal. Na medida em que se opera a identificaÁ„o do ser ‡ sua pura e simples imagem, n„o h· tampouco lugar para a mudanÁa, ou seja, para a morte. … justamente disto que se trata na tem·tica delas ñ elas, ao mesmo tempo, est„o mortas e n„o podem mais morrer, elas s„o imortais ñ como o desejo. Na medida em que aqui o sujeito se identifica simbolicamente com o imagin·rio, realiza, de certa maneira, o desejoî. (LACAN, 1985:299-300-grifos nossos).

Lacan desenvolve essa interessante elaboraÁ„o sobre a melancolia logo apÛs expor

suas idÈias sobre o silÍncio dos planetas. Dessa forma, como ele nos disse, essa senhoras

n„o conseguem se fazer outro para elas mesmas, se arredondam, transformam-se como que

em planetas.

A

partir

dessa

problem·tica

reduÁ„o

ao

imagin·rio,

podemos

entender

a

preocupaÁ„o de Lacan em retomar a import‚ncia do simbÛlico contrapondo-se ‡ pr·tica

psicanalÌtica dos pÛs-freudianos que se afirmava naquele tempo. A ìPsicologia do Egoî

sustentava que a capacidade de sÌntese do Ego seria o objetivo da an·lise. Integrar o sujeito

com o Eu, reduzir a an·lise ‡ relaÁ„o imagin·ria do sujeito com esse primitivo outro que ele

È, È fazer desse sujeito algo redondo, um corpo circular como um planeta, sem furo, sem

diferenÁas e, portanto, sem mudanÁas. Mas, lembra-nos Lacan, ìa experiÍncia nunca È

levada atÈ seu derradeiro tÈrmino, n„o se faz o que se diz fazer

GraÁas a Deus, os

tratamentos falham, e È por isso que o sujeito se salvaî (1985:305).

Caberia ressaltar que para Lacan o Eu seria a apariÁ„o mais prÛxima, mais acessÌvel

da morte, sendo a relaÁ„o entre o Eu e a morte bem estreita. Como no humano o Eu,

embora imagin·rio, constitui-se preso ‡ trama simbÛlica, ele est· na conjunÁ„o entre esse

discurso comum e aquilo que È sua realidade psicolÛgica. Nesse ponto de desvio que a

relaÁ„o

imagin·ria

presentifica.

apresenta no

homem produz-se a

hi‚ncia

por onde

a

morte se

67

Essa afirmaÁ„o sobre o imagin·rio ser· importante no prÛximo capÌtulo, onde a

quest„o da funÁ„o da forma e da beleza ser· um pouco mais desenvolvida.

2.2 A tragÈdia de …dipo

Essa referÍncia ao discurso comum dirige-nos ‡ outra via em que a libido, em sua

busca totalizante, pode encontrar a morte. Trata-se da via em que o ser se reduz a n„o ser

nada mais que esse discurso comum que o atravessa, o ser se reduz ‡ sua frase simbÛlica.

ìA ˙ltima palavra da relaÁ„o do homem a este discurso que ele n„o conhece È a morteî

(LACAN, 1985:263).

…dipo È aquele a quem Lacan recorre para nos permitir melhor apreender a relaÁ„o

do sujeito com o discurso. Afinal, foi …dipo quem realizou plenamente seu destino, e tal

realizaÁ„o resultou em sua prÛpria dilaceraÁ„o. … nesse momento final de sua vida, que È

relatado por SÛfocles em ì…dipo em Colonaî, que ele profere a frase assinalada por Lacan:

ìSer· que È no momento em que n„o sou nada È que me torno um homem?î (S”FOCLES,

1990:123). … aÌ, segundo Lacan, ìque comeÁa o para alÈm do princÌpio do prazer. Quando a

fala realizou-se completamente, quando a vida de …dipo passou inteiramente para dentro de

seu destino

î

(LACAN, 1985:290). Nesse momento revela-se a ausÍncia de qualquer

sentimento humano. Na medida em que os sentimentos tÍm estatuto imagin·rio, sua

ausÍncia aponta para o fato de que o que quer que aconteÁa nesse momento, acontece ‡

revelia do imagin·rio.

Acompanhemos o seguimento que Lacan d· a este ponto.

Ele alerta que na frase em quest„o, a palavra homem n„o tem qualquer significaÁ„o.

O que est· em jogo È a realizaÁ„o do destino de …dipo, destino que foi anunciado pelos

or·culos a seus pais muito antes de ele ter nascido, e que desde que …dipo foi exposto

68

pendurado por um pÈ, ele o realiza. Tudo estaria desde ent„o escrito, e …dipo o realiza atÈ o

fim, atÈ que o assuma por seu ato.

Ressalta ainda o momento em que …dipo, respondendo ao coro, diz que na verdade

n„o pode ser considerado respons·vel pelo que se passou. Afinal, afirma que foi o povo de

Tebas que teria lhe dado a mulher como recompensa por ele tÍ-los livrado da Esfinge, e

que, quanto a Laio, ele n„o sabia quem era, e teria lhe espancado por ter sido forÁado a

isso 17 (LACAN, 1985:289).

Embora o momento em que …dipo se mutila explicite a assunÁ„o de sua culpa, para

Lacan, em um tempo bem anterior ele j· havia aceitado seu destino, mais precisamente no

momento em que aceitou ser rei. Pois, como rei, ele atraiu para a cidade todas as maldiÁıes,

tudo de acordo com as ordens dos deuses. E para Lacan, È absolutamente natural que tudo

recaia sobre …dipo j· que ele È o nÛ da fala, e apesar dele se achar inocente, aceita seu

destino atÈ o fim j· que se dilacera, vindo posteriormente pedir que em Colona o deixem

deitar-se no recinto sagrado das EumÍnides, realizando a fala atÈ o fim 18 .

Essa posiÁ„o central de …dipo na fala ilumina-se ainda mais, pois enquanto ele

busca seu descanso em Colona, em Tebas, as maldiÁıes perpetradas apÛs o seu exÌlio fazem

com que tentem busc·-lo novamente, o que aparece de forma explÌcita na fala de Ismene:

ìSegundo dizem, os tebanos v„o querer-te

vivo ou apÛs a morte, pois o salvar·sî.

17 Minha cidade ofereceu-me um prÍmio por meus serviÁos, que eu preferiria em tempo algum ter recebido dela

(SOFOCLES,1990:132)

Digo-te; quando o matei e massacrei agia sem saber Sou inocente diante da lei, pois agi sem premeditaÁ„o (1990:133).

18 Sendo inclusive a aceitaÁ„o de seu destino o que revela a dimens„o do herÛi tr·gico.

69

ìDizem que seu sucesso depende de tiî.(1990:123)

AmeaÁada, Tebas mandaria seus s·bios e embaixadores, enfim, seus representantes

para trazer de volta …dipo. Ao ficar sabendo que ser· visitado pelos representantes de

Tebas, ele profere a citada frase em que expressa a constataÁ„o de que quando encontra o

seu nada È que adquire algum valor.

Para Lacan, ì…dipo em Colonaî pode ter seu tema reduzido ‡ frase proferida pelo

coro:

ìMais vale, no final das contas, n„o ter nascido

î.

ì…dipo em Colona, cujo ser se acha todo inteiro na fala 19 formulada por seu destino,

presentifica a conjunÁ„o da morte com a vidaî.

2.3 O horror do Sr. Valdemar

Lacan nos oferece ainda um outro exemplo para deixar bem claro o que pensa sobre

essa conjunÁ„o da vida com a morte, dessa reduÁ„o do ser a sua fala.

Trata-se do conto de Edgar Allan Poe, ìO caso do senhor Valdemarî.

Nesse conto o narrador, em primeira pessoa, nos diz que durante os ˙ltimos trÍs

anos esteve interessado na pr·tica do magnetismo, e que meses antes teria lhe ocorrido o

pensamento de que ninguÈm havia ainda sido magnetizado in articulo mortis. Foi a partir

desse pensamento que o Sr. Ernesto Valdemar lhe pareceu uma boa escolha. J· o conhecia,

j· o havia hipnotizado algumas vezes, com alguns insucessos a bem da verdade, mas isso

era debitado a seu prec·rio estado de sa˙de, o que inclusive era o fator que aguÁara a sua

19 Ao longo dos semin·rios desse perÌodo Lacan utiliza-se, de maneira eventualmente pouco clara, dos termos fala, discurso comum, mensagem, frase contÌnua.

70

lembranÁa quanto ‡s possibilidades do magnetismo diante da morte. Para a surpresa de

nosso narrador, o senhor Valdemar aceitou de pronto a experiÍncia quando esta lhe foi

sugerida.

O fato È que apÛs alguns meses, conforme o combinado, vinte e quatro horas antes

da previsÌvel morte do Sr. Valdemar, P (È a forma como o narrador se nomeia) È chamado

para executar sua experiÍncia. Bem prÛximo de seus ˙ltimos suspiros, o Sr. Valdemar È

magnetizado atravÈs de alguns passes.

Como conseq¸Íncia, mesmo com sua morte, o Sr. Valdemar, ou melhor, o cad·ver

do Sr. Valdemar, deitado em seu leito, continua sua fala.

ìQuero dizer que o som era de uma dicÁ„o distinta

maravilhosamente distinta

mesmo, e arrepiante. O Sr. Valdemar falava, evidentemente respondendo ‡ pergunta que eu

lhe havia feito poucos minutos antes. Perguntara-lhe, como se lembra se ele estava

adormecido 20 . Ele agora respondiaî:

ì_ Sim

1985:63).

N„o

Estava adormecido

E agora

agora

estou mortoî (POE,

Por quase sete meses o Sr. Valdemar mantinha o mesmo estado, a mesma fala e um

corpo ainda agregado. Finalmente, apÛs esse perÌodo decidem despert·-lo. ApÛs algumas

tentativas escutam da mesma horrenda voz:

ì-

Pelo

amor

depressa

acorde-me

ìEnquanto

eu

de

Deus!

Depressa,

depressa

FaÁa-me

dormir

ou

ent„o,

Depressa

Afirmo que estou morto!î (1985:64).

fazia

rapidamente

os

passes

magnÈticos,

entre

ejaculaÁıes

de

ëMorto!í, ëMorto!í, irrompendo inteiramente da lÌngua e n„o dos l·bios do paciente, todo

seu corpo, de pronto, no espaÁo de um ˙nico minuto, ou mesmo menos, contraiu-se

20 A cada instante, antes da morte, P indagava ao Sr. Valdemar se ele dormia.

71

fracionou-se, absolutamente podre, sob minhas m„os. Sobre a cama, diante de toda aquela

gente, jazia uma quase lÌquida massa de nojenta e detest·vel putrescÍnciaî (POE, 1985:65).

O conto de Poe ilustra de maneira fant·stica essa conjunÁ„o da vida e da morte,

mostrando-nos que j· no Semin·rio 2 o tema das duas mortes, que viria a ser desenvolvido

com mais detalhes por Lacan no Semin·rio 7, j· lhe era bem caro.

GostarÌamos de assinalar, contudo, que para o desenvolvimento de nosso tema neste

trabalho, o conto do senhor Valdemar explicita algo que nos outros dois exemplos, da

melancolia e da tragÈdia de …dipo, embora presente, poderia passar desapercebido. Essa

reduÁ„o do ser ‡ fala, ao discurso comum, essa conjunÁ„o entre a vida e a morte apresenta-

se como que eternizada, atemporal. Tal acento se faz necess·rio, pois o que vimos

desenvolvendo como o eixo organizador do pensamento de Lacan nos anos 50, È o estatuto

contÌnuo do simbÛlico em disjunÁ„o com a imagin·ria unidade, presentes no Esquema L.

A atemporalidade dos trÍs exemplos serve para expor esse estatuto incomensur·vel,

indeterminado do simbÛlico e a dimens„o mortÌfera de seu encontro, seja pela idÈia de

imortalidade dos melancÛlicos, seja pelo destino desde sempre traÁado de …dipo, seja pela

fala ainda que morto do Sr. Valdemar. Nesses exemplos, a realizaÁ„o simbÛlica da imagem

ou a reduÁ„o do ser ‡ fala mostram seus efeitos nefastos, reforÁando o imperativo lÛgico da

disjunÁ„o presente no Esquema L.

3. O Esquema L e a lÛgica estrutural

Como vimos ao longo deste capÌtulo, a partir da disjunÁ„o do simbÛlico com o

imagin·rio, e da hi‚ncia real subjacente a essa disjunÁ„o, Lacan monta um esquema

topolÛgico inspirado no funcionamento de uma v·lvula trÌodo. Ele ainda nos oferece uma

sÈrie de modelos para que a estrutura do Esquema L se esclareÁa.

72

A partir do modelo das maquininhas È possÌvel entender

melhor os efeitos

devastadores que surgem em determinadas relaÁıes humanas, que dominadas pelo fascÌnio,

evoluem para situaÁıes catastrÛficas, no destempero da paix„o ou da agressividade. Fica

patente como È fundamental a intervenÁ„o do terceiro termo, que nesse momento se

apresenta como a mensagem contÌnua simbÛlica, para evitar os efeitos t„o graves dessa

fascinaÁ„o.

A partir da referÍncia ‡ SÌndrome de Cotard apreende-se como que no humano

reconhecer-se como outro È t„o importante para a suportabilidade de uma vida um pouco

mais afastada da morte. E finalmente as referÍncias ‡ tragÈdia de …dipo e ao conto do Sr.

Valdemar nos mostram os efeitos bastante inquietantes da reduÁ„o ‡ frase simbÛlica.

O que queremos fundamentalmente ressaltar com essa breve recapitulaÁ„o È que as

vicissitudes da clÌnica para as quais esses modelos funcionam como analogia, est„o

intimamente

ligadas

‡s

ìdeformaÁıesî

e

atravessamentos

dessa

estrutura

b·sica

do

Esquema L, decorrentes da tentativa da libido seja de fazer Um com o imagin·rio, seja de

completar o simbÛlico. Sigamos agora com Lacan numa apreciaÁ„o estrutural e por que n„o

dizer clÌnica do Esquema L.

3.1 O sonho da injeÁ„o de Irma

O sonho da InjeÁ„o de Irma, o sonho inaugural de Freud, ganha, segundo Lacan, um

aspecto todo diferente se pensado a partir do trÌodo. Assim, no sonho È possÌvel perceber

dois elementos inconscientes: um È a revelaÁ„o da fala criadora que se constitui no di·logo

com Fliess, portanto o eixo simbÛlico, e o outro È o elemento transversal, iluminado pela

corrente da fala que passa, o eixo imagin·rio. Neste, o que vai estar inicialmente em jogo

no sonho È a quest„o das relaÁıes de Freud com uma sÈrie de imagens sexuais femininas,

73

tensionadas que est„o por sua relaÁ„o conjugal, e que tÍm um car·ter eminentemente

narcÌsico.

PorÈm, mais alÈm do narcisismo estar· em jogo a fala que esse sonho deseja passar,

pois um sonho, antes de qualquer coisa, tem como desejo fazer passar uma mensagem

(LACAN, 1985:163).

3.1.1 As circunst‚ncias do sonho

Sabemos que Irma era paciente de Freud e amiga da famÌlia. Essa proximidade,

ressalta Lacan, implica em dificuldades no que diz respeito ‡ contratransferÍncia. E na

verdade, Freud encontrava-se realmente em dificuldades com sua paciente, pois havia para

ele uma recusa de Irma em melhorar. Para ele nesse momento, ainda bastava a revelaÁ„o do

sentido inconsciente de um conflito para que esse se debelasse. Irma, embora apresentasse

uma melhora de seus sintomas, apresentava a persistÍncia de alguns, particularmente a

propens„o a vÙmitos.

ìEsse tratamento terminara com Íxito parcial; a paciente ficara livre de sua ang˙stia histÈrica, mas n„o perdera todos os sintomas som·ticos. Nessa ocasi„o, eu ainda n„o discernia com muita clareza quais eram os critÈrios indicativos de que um caso clÌnico de histeria estava afinal encerrado, e havia proposto ‡ paciente uma soluÁ„o que ela n„o parecia disposta a aceitarî (FREUD, 1972:113, Vol. IV).

A persistÍncia dos sintomas de Irma, de acordo com o que ‡ Època pensava Freud,

somente poderia ser explicada por uma ìdesobediÍnciaî. Ele havia h· pouco tempo