Sunteți pe pagina 1din 20

WALLER CHAVES DA COSTA

Do Estado de Natureza ao Estado Civil


em John Locke

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em


Filosofia da Universidade Federal de Goiás, para obtenção do
título de Mestre em Filosofia.
Área de Concentração: Filosofia Política
Orientador: Dr. Joel Pimentel Ulhôa

Goiânia
2003
2

SUMÁRIO

RESUMO: v

ABSTRACT: vi

INTRODUÇÃO:
1. Apresentação: 1
2. Vida e Obra de John Locke: 6
3. As Influências de Filmer e Hobbes:
13

CAPÍTULO I – HOBBES E O ESTADO DE NATUREZA:

1. Sobre a Noção de Estado Natural:


22
2. O Enfoque de Thomas Hobbes:
34

CAPÍTULO II – O ESTADO DE NATUREZA EM JOHN LOCKE:

1. A Questão da Experiência: 62
2. A Lei Fundamental da Razão:
66
3. Sobre o Poder Paterno:
83
4. A Instituição da Propriedade Privada: 101

CAPÍTULO III – O ESTADO CIVIL EM JOHN LOCKE:

1. Estado de Guerra e Ofensa à Propriedade:


129
2. O Poder Executivo da Lei da Natureza: 135
3

3. A Criação da Sociedade Política: 145

CONCLUSÃO: 158

BIBLIOGRAFIA: 161

3. A CRIAÇÃO DA SOCIEDADE POLÍTICA:

3.1. A noção de carência e o inconveniente maior do


estado de natureza:

Uma coisa que a própria experiência permite que o


homem conheça é que a vida em estado natural é carente de uma série
de coisas. Não por outro motivo, Locke inicia o capítulo em que fala da
instituição da sociedade com a noção de carência.

No estado natural proposto por Locke, o homem não é


um bicho solitário e desprendido de seus semelhantes, mas antes, um
ser carente. Não porque o queira, mas por determinação de seu próprio
Criador, eis que, conforme a Escritura (Gn, c. 2, v. 18), o próprio Deus é
quem diz não ser bom que o homem fique só:

Tendo Deus feito o homem uma criatura tal que, segundo seu próprio juízo,
não lhe era conveniente estar só, colocou-o sob fortes obrigações de
necessidade, conveniência e inclinação para conduzi-lo para a sociedade,
assim como proveu de entendimento e linguagem para perpetuá-la e dela
desfrutar. (Locke, 2001, p. 451– 2T, § 77)

A partir de tal proposição, ou seja, a de que o homem é


um ser naturalmente carente, Locke recorre à figura da sociedade
conjugal para apresentar duas noções fundamentais em sua teoria: a) a
de que toda sociedade tem uma finalidade específica; e b) a de que o
poder reitor de cada sociedade se limita por tal finalidade:
4

Porém, como os fins do matrimônio não exigem que o marido esteja investido
de tal poder [um poder absoluto sobre a mulher], a condição da sociedade
conjugal não lho concede, por não ser de modo algum necessário para esse
estado, (...) nada sendo necessário a nenhuma sociedade que não seja
necessário aos fins para o qual ela foi formada. (Locke, 2001, pp. 455-456 –
2T, § 83) – grifos meus.

Na filosofia política de John Locke, o estado natural é


pautado pela luta que cada homem empreende em prol de sua
preservação, o que resulta, como vimos, na existência de um direito
natural à propriedade privada. O maior inconveniente de um tal estado
é a parcialidade na aplicação (enforcement) da lei fundamental da
natureza, nos casos em que a propriedade privada (incluídos os direitos
à vida e à liberdade) sofre qualquer tipo de turbação, ou seja, nos casos
de deflagração do estado de guerra.

A parcialidade na aplicação da lei fundamental da Razão


tem fulcro na própria essência dos homens, esta coisa de que todos os
seres humanos participam, algo a todos os homens imanente, que
atesta e certifica a natural igualdade entre todos. Para Locke, no estado
de natureza já há propriedade privada, embora não exista qualquer
autoridade comum. Assim, cada homem tem o direito de resolver os
conflitos que envolvem a sua propriedade privada, situação que tenderia
para a perpetuação dos conflitos, pois que, cada um sendo juiz de sua
própria conduta, é improvável que alguém se condene para preservar os
interesses alheios. Ora, é justamente esta perspectiva hobbesiana que
Locke pretende evitar, o que é feito com base em duas assertivas: a) os
homens tem direito natural à propriedade privada; b) o fim específico da
sociedade política é a proteção de tal propriedade:

O sinal inequívoco do surgimento da sociedade civil é quando todos os


indivíduos transferiram para a sociedade ou para o corpo coletivo seu poder
individual de exercer a lei da natureza e de proteger sua propriedade. Esse é o
pacto social, que é justo para todos, uma vez que todos fazem o mesmo
sacrifício com vistas aos mesmos benefícios. Instaura-se, com ele, um juiz
5

terreno, dotado de autoridade para resolver todas as controvérsias e reparar


os danos que venham a atingir qualquer membro da sociedade política, como
passa a ser denominada. (Laslett, 2001, p. 157)

3.2. A finalidade da sociedade política:

Como visto, o estado natural lockeano não é destituído de


poder político1, embora, para a superação dos inconvenientes já
apontados, seja necessário que tal poder se transfira das mãos de todos
os membros da comunidade para as mãos de uma autoridade comum,
que passará a ser a titular exclusiva do direito de fazer leis com a
finalidade de regular a propriedade privada2.

Em Locke, mesmo após a instituição da sociedade


política, o poder político segue limitado por sua finalidade original, qual
seja, a proteção da propriedade privada, que é um direito natural. Por
isto, a lei civil, assim entendida a manifestação suprema do poder da
commonwealth, tem o objetivo específico de favorecer o desenvolvimento
daqueles que a ela se sujeitam:

Pois a lei, em sua verdadeira concepção, não é tanto uma limitação quanto a
direção de um agente livre e inteligente rumo a seu interesse adequado, e não
prescreve além daquilo que é para o bem geral de todos quantos lhe são
sujeitos. Se estes pudessem ser mais felizes sem ela, a lei desapareceria por si
mesma, e mal mereceria o nome de restrição a sebe que nos protegesse de
pântanos e precipícios. (Locke, 2001, p. 433 – 2T, § 57)

Mas, apesar dos inconvenientes, o estado natural

1
Political Power is that Power which every Man, having in the state of Nature, has given
up into the hands of the Society, and therein to their Governours, whom the Society hath
set over it self, that it shall be imployed for their good, and the preservation of their
Property. (Locke, 2000, p. 381 – 2T, § 171)
2
Political Power then I take to be a Right of making Laws with Penalties of Death, and
consequently all less Penalties, for the Regulating and Preserving of Property, and of
employing the force of the Community, in the Execution of such Laws, and in the defence
of the Common-wealth from Foreign Injury, all only for the Publick Good. (Locke, 2000, p.
268 – 2T, § 3)
6

lockeano nada tem a ver com o inferno proposto por Hobbes. Para
Locke, o estado natural é razoável em todos os sentidos: nem tão bom a
ponto de não precisar ser suplantado, nem tão insuportável a ponto de
fazer com que os homens chancelem a intervenção absolutista3.

A representação do estado natural como permeado por


fatos bons e ruins é preponderante para a teoria lockeana sobre o
Governo Civil. Em primeiro lugar, os homens nascem livres e donos de
suas próprias pessoas, além de terem direito natural a acessar e se
apropriar de todas as coisas que a natureza (ou Deus) ofereceu à raça
humana, o que é um fato bom. Por outro lado, a própria constituição dos
homens a todos nos impede de considerar a vida neste mundo como
fácil e isenta de preocupações, o que é um fato ruim: muito cedo, cada
homem percebe que, na busca das conveniências necessárias a uma
vida segura e confortável, terá de despender sua energia, pois, por
abundante que sejam os bens a todos legados pela mão espontânea da
natureza, poucos são os bens cuja utilidade deriva de sua mera
existência, sendo pequeno, quando não nulo, o valor que se dá ao fruto
ainda dependurado no galho ou à terra não cultivada.

Entra em cena, neste ponto, a Razão, uma faculdade da


mente que permite ao homem entender a relação entre o fato empírico
do trabalho e a individuação da propriedade privada: pelo dispêndio de
sua energia laboratícia, parte integrante de sua propriedade privada em
sentido lato, o homem cria ou aumenta o valor do bem naturalmente
dado a todos, o que lhe defere a posse do bem trabalhado. Em outras
palavras, pode-se dizer que aquele que laborou para a aquisição ou
melhoria de um bem é retribuído com a titularidade exclusiva de sua
posse.

Todavia, a despeito das faculdades racionais, Locke


3
He does not want to suggest too bad a picture of the state of nature, because he wants
to argue that are definite conditions on the state’s exercise of political power. (...) On the
other hand, Locke does not want the state of nature to be so good that there is no obvious
reason why people would ever wish to leave it. (Thomas, 1995, p. 24)
7

admite que homens sempre haverá que ofenderão o comando da lei


fundamental da Razão, realizando alguma conduta contrária à regra da
máxima preservação da Humanidade. Ao assim agirem, tais homens
ofendem não apenas os interesses privados de suas vítimas, mas os
interesses de todos os membros da comunidade, que têm um direito
natural de seguir suas vidas sem que sejam molestados com contínuas
ameaças à sua propriedade privada.

Conclui-se, portanto, que, quando estipula ser a


preservação da propriedade os fins da sociedade política, Locke aceita
que as relações econômicas não só antecedem as relações políticas,
como também definem seus contornos. No que tange à finalidade do
Estado, pode-se dizer que a Política está a serviço da Economia, ou seja,
o estado civil existe para potencializar o estado natural, que é, no fim
das contas, o estado meramente econômico, em que nada havia a não
ser o natural comércio entre os homens, de onde deriva a própria noção
de propriedade privada:

O “estado de natureza” em abstrato dos teólogos é preenchido, em Locke, com


um conteúdo concreto. É o local das relações econômicas entre os indivíduos
e representa muito bem a descoberta de um plano econômico das relações
humanas, distinto do plano político. Ou ainda, o estado de natureza significa
a individuação do momento econômico como momento precedente e
determinante do político. A sociedade natural, isto é, a sociedade em que os
homens vivem conforme as leis naturais – não impostas mais ou menos
arbitrariamente por uma autoridade – se transforma em uma sociedade
dominada pelas leis da livre concorrência, elas também naturais. (Bobbio,
1997, pp. 205-206)

Se as relações entre os homens, mormente pelo que diz


respeito ao direito à propriedade privada, ou seja, ao uso e gozo dos
bens a todos dados em comum, contam com uma natureza peculiar
própria, é de se esperar que tais relações não devam ser pervertidas no
estado civil. É assim que Locke logra estabelecer os limites ao exercício
do poder civil, por parte do Estado:
8

Delineia-se, assim, um contraste, que terá muitas conseqüências, entre a


sociedade econômica – como sociedade natural – e a sociedade política – como
sociedade artificial – , que se sobrepõe à primeira, e só é aceitável se essa
sobreposição não a deforma, mas apenas a regula. Nesta resolução da
sociedade da natureza em sociedade das relações econômicas, a economia
funciona como estrutura básica, a política como superestrutura. Como
veremos (...), não há dúvida de que, para Locke, a política deve estar a serviço
da economia. Neste primado do econômico, que é também o natural, residem
a característica e a modernidade do jusnaturalismo fundado pelo filósofo
inglês. (Idem, ibidem)

3.3 Consentimento e Renúncia. As noções de


Encargo, Confiança e Mandato:

O poder político existe para regular a propriedade


privada, a qual se legitima já no estado natural. A passagem para o
estado civil tem, então, a finalidade específica de garantir aos homens
que, em casos de ofensa ou ameaça de ofensa à sua propriedade
privada, a execução da lei fundamental da natureza deixará de ser
passível de execução por todos e cada homem, para que o seja pelo
Governo escolhido nos termos dispostos pela commonwealth. Neste
ponto, a interpretação costumeira é no sentido de que Locke “separa o
processo do pacto, que cria uma comunidade, do processo subsequente
pelo qual a comunidade confia o poder político a um governo – embora
possam ocorrer ao mesmo tempo, trata-se de dois processos distintos.”
(Laslett, 2001, p. 166)4
4
Locke proposes a two-way process by which government is formed. In the first stage
each person makes a compact with every other wishing to quit the state of nature
whereby it is agreed to surrender her executive power of the law of nature, and to make
it over to all those (as a collectivity) who have entered this compact. (...) The formation of
the community leaves things incomplete, and calls for second stage in order to establish
the civil society. The parties to the original compact are aiming for a remedy to the
“inconveniencies” of the state of nature: they need a common, agreed interpretation of the
law of nature, impartially enforced. So their collective executive power of the law of
nature must be exercised by a formally constituted authority. This will be referred to as
the ‘government’, though Locke does not, of course, have in mind a specific
9

Após a instituição da sociedade política, os homens


passam a contar com uma legislação formal, por haverem transferido à
pessoa exclusiva do Governante o poder de executar a primitiva lei
fundamental da natureza, bem assim o poder de executar tantas
quantas outras leis o Poder Legislativo venha a promulgar. Falar da
gênese do estado civil em Locke significa, portanto, retornar ao
momento de instituição da lei civil, ou seja, ao momento em que o poder
político deixou de pertencer a todos e foi transferido à(s) pessoa(s)
escolhida(s) pela commonwealth.

O poder político é o poder que cada homem tem, no


estado de natureza, de escolher os meios que julgar convenientes para
que se garanta, ou se restabeleça, nos casos de consumação da ofensa,
a eficácia da lei fundamental da Razão. É este poder político, ou seja,
este direito de escolha dos meios que, ao ingressar no estado civil, o
homem renuncia à sociedade, ainda que apenas nos casos em que ela
possa garanti-lo.5

O homem nasce livre, sua liberdade fundando-se na


igualdade, igualdade ligada ao fato de a todos os homens caber, no
estado de natureza, a mesmíssima quantidade de direitos. Mas para
que qualquer um desses direitos deixe de lhe pertencer, ou seja, para
que seu natural direito de executar a lei fundamental da razão seja
transferido para a sociedade política, impõe-se a adesão de seu
consentimento:

Mas, seja como for, esses homens, evidentemente, eram de fato livres e
qualquer que seja a superioridade que alguns políticos atribuiriam hoje a
qualquer deles, eles mesmo não a alegavam, mas eram, por consentimento,

administration, but rather a constitutional form of government. (Thomas, 1995, pp. 25-
26)
5
O exemplo clássico de uma situação em que é impossível ao Estado garantir a
preservação do indivíduo colhe-se nos casos que o Direito Penal catalogou como
“legítima defesa”. Apesar da exclusividade da jurisdição estatal para promover a
persecução, o processo e a execução penais, não é razoável exigir que um homem não
revide a agressão injustamente praticada contra si.
10

todos iguais, até que, pelo mesmo consentimento, estabeleceram governantes.


De modo que todas as sociedades políticas tiveram início a partir de uma
união voluntária e no mútuo acordo entre os homens que agiam livremente
na escolha de seus governantes e formas de governo. (Locke, 2001, p. 474 –
6
2T, § 102)

Mais ainda: o homem, além de livre, é também um ser


racional, não podendo ceder direitos naturais sem os quais sua
preservação seria ainda mais difícil, ou seja, aqueles cuja perda
importaria em ofensa à própria lei fundamental da razão. Deriva daí a
noção de encargo, segundo a qual, após criar o corpo político, o que
cada homem cede à sociedade política não é a plenitude de seus
direitos, todos indo parar agora nas mãos do Estado, mas apenas
aqueles direitos específicos a que todos e cada um dos homens decidem
renunciar.

É por esta noção, mais que por qualquer outra, que


Locke se afasta do absolutismo hobbesiano. As metáforas do mandato e
do cheque em branco bem exemplificam a diferença.

Para Hobbes, ao contratarem, uns com os outros, a


criação do Leviatã, os homens passam a outro homem (pois que o
Soberano não pode jamais ser conduzido por coisas ou animais) um
cheque em branco, ou seja, o mais executável dos título de crédito, para
que ele, Soberano, possa lhes cobrar, pela segurança e paz ofertadas, o
preço que bem lhe convier. O problema da proposta hobbesiana é que,
na prática, o Soberano é livre para causar tantos males quantos
possam infestar a mente de quem se encontra no exercício do poder,
mente que, por ser humana, não é isenta do erro e da arbitrariedade.

6
Now as Locke assumes that in the state of nature persons are ‘owners’ of their
executive power of the law of nature, there is no way in which these powers can end up
in other hands except by each person consenting to such a transfer. Although Locke
thinks that there is good reason why the executive power of the law of nature should
come to be in the hands of a single authority, that authority would not be legitimate
unless the original owners of the executive power of the law of nature consented to
relinquish it. Thus Locke is committed to giving a contract argument for legitimate
government. (Thomas, 1995, p. 25)
11

Juridicamente falando, a doutrina de Locke é mais sutil:


ao contratarem a instituição de um corpo que lhes possa garantir a
execução imparcial da lei fundamental da natureza, os homens
terminarão, em um segundo instante, por envolver a pessoa a quem se
defere o poder político da sociedade, ou seja, o chefe do Governo, em
uma outra espécie de contrato: o contrato de mandato.

Neste ponto, a tradução para o Português dos


comentários de Laslett se refere à figura de um depósito, sugerindo que
Locke pretendia, com o uso do termo trust, evitar que o governante da
sociedade política pudesse reclamar quaisquer benefícios em seu nome
pelo exercício do governo:

Para que se firme, ou se compreenda, um contrato, é preciso que as partes


envolvidas obtenham dele alguma vantagem, o que, aplicado à política,
significaria que o governo deve obter do exercício da governança alguma
vantagem a que os governados estariam obrigados a conceder. Ora, é
exatamente isso que Locke pretendia evitar a todo custo. Embora as pessoas
estejam contratualmente vinculadas uma à outra, o povo não está
contratualmente submetido ao governo, e os governantes se beneficiam do
exercício da governança apenas na qualidade de pares do “corpo político”. São
meros delegados do povo, fiéis depositários que podem ser afastados caso não
correspondam à confiança neles depositada. (Laslett, 2001, p. 166)

Todavia, esta acepção de trust como encargo, ou seja,


como a responsabilidade que prende o depositário à coisa depositada
sob sua guarda, é apenas um dos significados do substantivo
originalmente escolhido por Locke para representar a relação entre
Governo e governados:

trust. I. s. confiança, fé; guarda, cuidado, custódia; responsabilidade; crédito;


(com., fin.) truste; (com.) consórcio; (jur.) fideicomisso; (jur.) curadoria; (com.,
jur.) depositário, curador. (Houaiss, 1974, p. 573)

Penso que Locke faz uso do termo para significar não o


encargo em si mesmo, mas a confiança que a “maioria” deposita no
Governo em relação à sua atuação em prol do bem comum. A despeito
12

da opinião de Laslett, pode-se afirmar que o pacto proposto por Locke é


um contrato que vincula também a pessoa do Governante, pois que o
mandato é uma espécie de contrato, embora, via de regra, implique em
obrigações apenas ao mandatário.7

De todo modo, é difícil concordar com a proposta de um


Governo que receba um cheque em branco para estipular o preço que
bem lhe convenha pela segurança buscada no pacto societatis
hobbesiano.

No pacto proposto por Locke, o Governante atua como


representante da vontade da maioria8, mas nunca além dos limites
impostos por uma lei natural e normativa, a lei fundamental da razão,
que prega a preservação da humanidade, bem assim a conservação da
propriedade privada.

3.4. A questão da maioria:

Vimos, por todo o trabalho, que Locke é um dos grandes


defensores do individualismo, ou seja, um filósofo que sempre realça a
importância e a dignidade do indivíduo no complexo jogo das relações
políticas. Neste último tópico da dissertação, enfrentarei o problema da
conciliação entre tal proposta individualista e a carga coletivista trazida
pela noção de maioria.

No item anterior, foi dito que na passagem do estado de


natureza para o estado civil, os homens renunciam ao seu direito
7
A favor dessa interpretação, as definições de ambos os institutos jurídicos,
constantes do Código Civil Brasileiro recém promulgado. Ao tratar do mandato, o
Código diz que “Opera-se o mandato quando alguém recebe poderes para, em seu
nome, praticar atos ou administrar interesses. A procuração é o instrumento do
mandato.” (art. 653). Ao tratar do depósito, o mesmo diploma reza que “Pelo contrato
de depósito recebe o depositário um objeto móvel, para guardar, até que o depositante
o reclame” (art. 627).
8
Maioria formada pelas pessoas tributáveis, ou seja, pelos proprietários., conforme se
viu no item 4 do capítulo II.
13

natural de executar a lei fundamental da natureza nos casos de ofensa


à propriedade privada lato sensu, ou seja, nos casos de deflagração do
estado de guerra. Renunciar, todavia, é verbo transitivo direto e
indireto, exigindo dois objetos distintos.

Sabendo-se a que se renuncia, resta buscar saber a favor


de quem se renuncia o poder executivo da lei fundamental da natureza:
à commonwealth, corpo que tem a característica de ser único.
Pois quando um número qualquer de homens formou, pelo consentimento de
cada indivíduo, uma comunidade, fizeram eles de tal comunidade, dessa
forma, um corpo único, que se dá apenas pela vontade e determinação da
maioria. (Locke, 2001, p. 469 – 2T, § 96) – grifos meus.

Ainda que Locke não demonstre o mesmo rigor


mecanicista de Hobbes, neste ponto ele admite que, na dinâmica das
relações sociais, este corpo único representado pela sociedade política
(commonwealth) não é inerte, agindo em uma certa direção.

Como então conciliar a noção de um corpo único no meio


de tantas pressões individuais? Isto foi parcialmente respondido no item
4.6 do capítulo anterior, em que revelei a ideologia capitalista por trás
do discurso lockeano: na verdade, as múltiplas pressões capazes de
reunir os homens em sociedade se resumem, no fim das contas, às
pressões de uma maioria formada pelas pessoas tributáveis, ou seja,
pelos proprietários do capital (terra e dinheiro). O consentimento desta
maioria de proprietários é o que orienta a sociedade política, ou seja,
dirige o seu Poder:

Pois sendo aquilo que leva qualquer comunidade a agir apenas o


consentimento de seus indivíduos, e sendo necessário àquilo que é um corpo
mover-se numa certa direção, é necessário que esse corpo se mova na direção
determinada pela força predominante, que é o consentimento da maioria; do
contrário, torna-se impossível que aja ou se mantenha como um corpo único,
uma comunidade única, tal como concordaram devesse ser os indivíduos que
nela se uniram – de modo que todos estão obrigados por esse consentimento
a decidir pela maioria. (Locke, 2001, p. 496 – 2T, § 96) – grifos do original.
14

Revela-se, assim, que, entre os muitos vetores que


pautam a vida social, a maioria é a força dominante, no sentido de ser a
força resultante de todas, que move a própria sociedade política, que
como vimos, é única9.

Sociedade política e maioria são, portanto, noções


siamesas na filosofia política de Locke: uma não existe sem a outra.
Todavia, a questão da maioria é uma das que mais chamam a atenção
dos comentadores, pelo fato de impor a difícil antinomia entre o caráter
individualista da propriedade privada em Locke, e o coletivismo trazido
pela noção de maioria. Com Macpherson, pode ser dito que

Esse individualismo [o de Locke] é necessariamente coletivismo (no sentido de


afirmar a supremacia da sociedade civil sobre qualquer indivíduo). Porque
afirma que uma individualidade que só pode ser plenamente realizada pelo
acúmulo de propriedades, e portanto, somente realizada por alguns, e apenas
à custa da individualidade dos outros. Para permitir o funcionamento de uma
sociedade dessas, a autoridade política precisa ter superioridade sobre os
indivíduos; porque se assim não for, não pode haver garantia de que as
instituições da propriedade essenciais para essa espécie de individualismo
terão sanções adequadas. (Macpherson, 1979, p. 267)

Conclui-se, portanto, que a contradição entre


individualismo e coletivismo em Locke não é senão aparente:

A noção de que o individualismo e o “coletivismo” são as duas pontas opostas


de uma escala ao longo da qual podem ser arrumados os estados e as teorias
de estado, indiferentemente ao estágio de evolução social em que aparecem é
superficial e ilusória. O individualismo de Locke, que é o de uma sociedade
capitalista emergente, não exclui, mas ao contrário, requer a supremacia do
estado sobre o indivíduo. Não é uma questão de mais individualismo, ou de
menos coletivismo; antes, quanto mais rematado o individualismo, mais
completo é o coletivismo. (Macpherson, 1979, p. 268).

9
The Majority having, as been shew’d, upon Mens first uniting into Society, the whole
power of the Community... (Locke, 2000, p. 354 – 2T, § 132)
15

CONCLUSÃO:

Como dito na introdução, esta dissertação sobre a


filosofia política de John Locke pretendia refazer o caminho que levou
os homens a migrar do estado natural para o estado civil, até o ponto
da construção da sociedade civil. Ao seu cabo, é possível perceber que
Locke logra êxito em seu projeto de refutação não só ao patriarcalismo,
mas a toda e qualquer proposta absolutista.

Além de uma bem lançada ideologia colhida nos ventos


de seu momento histórico, as lições do Segundo Tratado importam em
uma teoria que de fato consegue, partindo de um conceito de homem
como um ser naturalmente político e racional, estabelecer uma
sociedade com uma finalidade específica. Em outras palavras, Locke
logra êxito em seu projeto de justificar a hipótese de um Poder Civil
limitado.

No estado de natureza de Locke, são precárias as


tentativas de se suplantar as eventuais manifestações do estado de
guerra, haja vista que, por serem livres e iguais, não se pode esperar
que os homens sejam imparciais no julgamento de suas próprias
causas. Com efeito, quando um homem ofende a propriedade privada
alheia, ofende também a lei da Razão, o que significa que já renunciou
ao seu uso, situação que defere ao ofendido o direito até mesmo de
exterminar sua vida, eis que, não havendo limite para a irracionalidade
do ofensor, tampouco se há de exigi-lo por parte do agredido inocente.

Assim, em Locke, o estado de natureza carece de um


mecanismo de regulação da propriedade. É este o problema que Locke
se propõe a resolver: por ser privada, a propriedade não pode ser
regulada por uma justiça igualmente privada.

O caráter privado, no sentido de “pertencente a cada


16

homem individualmente”10, da noção de propriedade é a fonte da


parcialidade na execução da lei fundamental da natureza, ou seja, é a
matriz de todo o problema do estado natural. Para contornar tal
problema, Locke postula a instituição de uma justiça comum, ou, nos
termos da Teoria Geral do Processo, uma jurisdição comum: acima de
quaisquer dois contendores, há de haver um terceiro vértice, ou seja,
um árbitro comum habilitado a dizer um direito também comum.

Quer se utilize o termo justiça comum ou jurisdição


comum, o que Locke deixa assentado é que o fim do estado de guerra,
ou seja, “a solução da lide”, há de ser ditado por um Poder Comum, não
mais exercido pelos indivíduos que alegam ser os detentores da
propriedade privada no caso concreto, em que no mínimo um dos
contendores age contrariamente à lei fundamental da razão. Esta é, em
resumo, a ponte que Locke estabelece, uma ponte entre o caráter
privado da noção de propriedade, e o caráter público da noção de
governo.11

Contrariamente a Filmer e à teocracia anglicana, e em


defesa da então florescente burguesia proprietária, Locke afirma que o
poder da sociedade política não deve se direcionar para o bem de um
único indivíduo, nem mesmo o da pessoa do Magistrado, mas apenas
para o bem público. Em outras palavras, por ser essencialmente útil e
necessário aos homens (notadamente aos proprietários do capital), o
Poder Civil deve servir ao bem comum:

A propriedade, cuja origem se encontra no direito que tem o homem de


utilizar qualquer das criaturas inferiores para a subsistência e conforto de
sua vida, destina-se ao benefício e vantagem exclusiva do proprietário, de
forma que este poderá até mesmo destruir, mediante o uso, aquilo de que é
proprietário, quando exija a necessidade; já o governo, cuja finalidade é a

10
Embora não exclusivamente.
11
Mais uma vez, ressalte-se o aproveitamento dessa idéia na teoria geral do processo:
a vedação da auto-tutela significa reconhecer que os interesses privados de cada
homem abalam seu julgamento acerca das contendas nas quais ele se vê envolvido.
17

preservação do direito e da propriedade de cada um, preservando-o da


violência e da injúria dos demais, destina-se ao bem dos governados. (Locke,
2001, pp. 299-300 – 1T, § 92)

Partindo do senso comum e da observação dos fatos à


sua volta, orientando-se rumo à preservação dos direitos naturais do
indivíduo, enfeixados, todos, no chamado direito à propriedade, Locke
estabelece um pensamento político contido em uma conhecida
expressão idiomática da língua inglesa: an Englishman’s home is his
castle, ou seja, a casa de um homem é onde ele tem privacidade e
segurança para ser livre. Assim, apenas sob a égide de um Estado que
efetivamente proteja sua propriedade privada, e não no estado natural,
ou, menos ainda, sob as asas de um soberano absoluto, é que o homem
pode, finalmente, “existir como seu próprio Monarca.”

Em resumo: para Locke, a sociedade política, bem como


seu Governo, têm uma finalidade específica, que é a de proteger a
propriedade privada individual. Ressalte-se, porém, a presença de uma
ideologia capitalista que acaba por deferir aos proprietários, e apenas a
eles, o comando da commonwealth.12

FIM

12
Os indivíduos que têm os meios de realizarem suas personalidades (isto é, os
proprietários) não precisam se reservar direitos em oposição à sociedade civil, de vez
que a sociedade civil é dirigida por e para eles. Tudo o de que precisam é insistir em
que a sociedade civil, ou seja, a maioria deles mesmos, é superior a qualquer governo,
porque senão um determinado governo poderia sair da linha. (Macpherson, 1979, p.
267)
18

BIBLIOGRAFIA:

Obras de John Locke:

1973 Carta Acerca da Tolerância. In Coleção Os Pensadores,


Vol. XVIII, Abril Cultural, São Paulo, 1973.
1973 Ensaio Sobre o Entendimento Humano. In Coleção Os
Pensadores, Vol. XVIII, Abril Cultural, São Paulo,
1973.
1977 A Letter Concerning Toleration. In The Great Books,
University of Chicago, Chicago, 1977.
1979 An Essay Concerning Human Understanding. Oxford
University Press, Oxford, 1979.
2000 Two Treatises of Government. Cambridge University
Press, Cambridge, 2000.
2001 Dois Tratados Sobre o Governo. Ed. Martins Fontes,
São Paulo, 2001.

Obras de Thomas Hobbes:

1979 Leviatã. In Coleção Os Pensadores, 2.ed, Abril


Cultural, São Paulo, 1979.
1997 Leviathan. Norton Critical Editions, London, 1997.
1998 Do Cidadão. 2a ed., Martins Fontes, São Paulo, 1998.

Outras Obras:

ARISTÓTELES.
1975 Política. Ed. Universidade de Brasília, Brasília, 1975.
19

BOBBIO, Norberto.
1997 Locke e o Jusnaturalismo. Ed. Universidade de
Brasília, Brasília, 1997.

DESCARTES, René.
1973 Discurso do Método. In Coleção Os Pensadores, Abril
Cultural, São Paulo, 1973.

HECK, José Nicolau.


2000 Anacronismo e Modernidade em Thomas Hobbes. Ed.
UFG, Goiânia, 2000.

HORNBY, A S.
1989 Oxford Advanced Learner’s Dictionary Of Current
English. Oxford University Press, Oxford, 1989.

HOUAISS Antonio et alli.


1974 Dicionário Barsa das Línguas Portuguesa e Inglesa,
Appleton-Century-Crofts, New York, 1974.

LASLETT, Peter.
2000 Introduction and Notes to Locke’s Two Treatises of
Government, Cambridge University Press, Cambridge,
2000.
2001 Comentários aos Dois Tratados Sobre o Governo Civil,
Livraria Martins Fontes Editora, São Paulo, 2001.

MACPHERSON, C.B.
1979 A Teoria do Individualismo Possessivo de Hobbes até
Locke, Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1979.
20

PLATÃO.
1972 A República. Fundação Calouste Gulbekian, 7a ed.,
Lisboa, 1972.

THOMAS, D.A. Lloyd.


1995 Locke on Government. Routledge, New York, 1995.

ULHOA, Joel.
1996 Rousseau e a Utopia da Soberania Popular. Ed. UFG,
Goiânia, 1996.

YOLTON, John.
1996 Dicionário Locke. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro,
1996.