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A JUSTIÇA QUE QUEREMOS EM MOÇAMBIQUE

Das fábulas de Fedro, retiro uma expressão para caracterizar o meu

constrangimento aqui, hoje, onde me ponho em bicos de pés, atrevidamente, perante

entidades para quem não estou habilitado a me dirigir.

A fábula falava de um pintor que expôs a sua obra num local público para escutar as

críticas de quem passasse. De entre muitos que teceram apreciações à obra, passou um

sapateiro que começou, como era seu mister, por criticar a feiúra dos chinelos de uma

figura de um dos quadros. O artista apreciou a crítica incisiva do sapateiro. Este porém,

entusiasmou-se e passou a tecer comentários depreciativos sobre outros pormenores

acima dos chinelos. O autor não gostou e encolerizado, afastou o nosso crítico com esta

enfática frase: “Não suba o sapateiro para além dos chinelos.” É com este

constrangimento que aqui venho falar-vos, tendo bem presente que não devo subir além

dos chinelos, entenda-se a metáfora.

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Lei, direito e justiça são conceitos que ao longo da história dos grupos sociais

organizados ganharam uma dependência entre si de tal forma que, não raras vezes,

esbatem as suas fronteiras, compenetrando-se e influenciando-se reciprocamente.

Não quero considerar um presente envenenado o convite que o Meretíssimo Juiz

Presidente do Tribunal Judicial da província de Maputo me endereçou, pois a amizade

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que cultivamos assim não permite. Contudo, os amigos às vezes, por confiança

inexplicada, colocam em situações muito difíceis aqueles a quem dedicam a sua

amizade.

Pediu-me o Juiz Paulino que falasse perante platéia sabida, sobre “ a justiça que

queremos em Moçambique”. Estou perante Juízes, Governantes, Magistrados, Agentes

da Lei e Ordem e Investigadores Criminais. Com certeza que devem reconhecer que as

minhas competências situar-se-ão apenas ao nível de uma reflexão académica eivada de

algum sentimento empírico que o exercício da cidadania me concedem. Peço-vos pois

indulgência e que o déficit do tempo que ireis dispender a ouvir-me seja debitado ao

próprio Juiz Paulino.

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Minhas senhoras e meus senhores,

Durante muitos séculos, ao longo da história da humanidade, os filósofos

retiraram dos códigos ético e metafísico que de entre outros, sedimentam o

comportamento das sociedades, quaisquer que elas sejam, a substância reguladora,

anichada nas mentalidades, a que designavam de Justiça, na acepção mais pura de

“adequado”, “aceite”, “ajustado”, “consensual” para todos. Era essa substância aferitiva,

retirada do conjunto de outras substâncias dos códigos sociais acima mencionados, tais

como a moral, a virtude, o pudor e demais que sustentavam as regras de obrigação,

interdição e punição, o que permitia que socialmente se garantisse a identificação dos

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limites até onde podia ir o comportamento dos elementos da sociedade,

reconhecidamente como adequado, não merecedor de punição ou censura.

Platão considerava que quem devia governar a cidade ideal eram os sábios,

considerando ele sábio, o filósofo. Ora, numa sociedade estratificada como a preconizada

por Platão, que ia dos escravos que não contavam, passando pelos comerciantes,

militares até aos sábios, naturalmente que a justiça que ele defendia, no plano da

filosofia, só podia recair de uma forma estratificada sobre os vários grupos por ele

determinados. Por isso, quando Aristóteles, discípulo de Platão, caracteriza o cidadão

justo, diz que é aquele que cumpre as leis e respeita a igualdade que deve existir entre os

homens. De que igualdade falará Aristóteles? Sublinho aqui o alcance elástico do

conceito igualdade. Certamente que em Aristóteles, a igualdade referida era de acordo

com a condição de cada um, isto é, cada igual era igual ao seu igual e todos os iguais

eram iguais entre si. Assim e logo à partida, se infere que a lei também era igual para os

iguais. Deste modo, a justiça e a igualdade são conceitos que devem ser encarados numa

perspectiva de constante movimentação, moldando e adaptando-se às filosofias e

ideologias de cada momento histórico e cada conjuntura sócio-política.

Nas sociedades de poder horizontal, por exemplo, em que o Chefe é primus inter

pares, isto é, o mais capaz de entre os pares, tal que só é chefe dos caçadores, o melhor

caçador, ou seja, é chefe de cada sector de actividades sociais, económicas, culturais e

até religiosas, o melhor desse sector e finalmente o chefe dos chefes, aquele que todos os

chefes reconhecem como o melhor de entre todos. Aqui, a aplicação da lei é consensual,

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pois os iguais de cada sector de actividades e a seguir todos os iguais da cúpula

participam na resolução dos pleitos e na interpretação dos valores transgredidos e na

mensuração das penas em caso de punição. Por isso mesmo, neste tipo de exercício de

poder, que não é nem virtual nem residual e arcaico, as igualdades são visíveis. Contudo,

trata-se de organizações sociais de extensão limitada, longe da complexidade dos estados

tal como hoje entendemos.

Entretanto, quando o poder é vertical, é chefe não aquele que melhor faz, mas

sim quem melhor discurso produz sobre como fazer. Do acto passou-se para a palavra.

Se voltarmos o olhar, veremos que retomamos o discurso de Platão na sua forma

simplificada. Este dizia que o poder devia ser exercido pelos sábios, agora o poder é

exercido por aqueles que se organizam e avocam o direito de se considerarem sábios.

São eles que constroem impérios, repúblicas ou monarquias, colónias ou protectorados,

holdings, parcerias mais ou menos forçadas e para exercer o poder estabelecem regras,

que vão desde simples regulamentos e outras disposições mais aprofundadas que se

configuram em leis, com as mais diversas categorias. O poder vertical institucionaliza-se

por áreas e sectores que concorrem para o mesmo fim, para garantir a coesão de

comando do grupo social com a utilização de diversos estratagemas, normalmente

chamados de regime. O sábio de Platão confunde-se com o político de hoje, embora

reconheçamos diferenças essenciais, pois o sábio de Platão efectivamente era filósofo e o

político de hoje, nem sempre é sábio.

Quando os estados se estabelecem e se organizam através de vários mecanismos

institucionais sistémicos, ficam constrangidos a produzir leis que lhes permitem gerir as

pessoas e bens que constituem a razão de ser desse mesmo estado. Ora, o conceito

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direito ganha semanticamente substância nestas condições, isto é, na presença de um

ordenamento jurídico de que as constituições são o paradigma mais evoluído desse

mesmo ordenamento jurídico. As constituições são a lei mãe, donde emanam todas as

outras disposições legais que regulam o funcionamento das instituições, organismos e

comportamento das pessoas singulares e colectivas. Sabemos da história que as

constituições surgiram na Europa com as revoluções burguesas do capitalismo liberal

emergente. Nestas condições uma questão se coloca: quando pronunciamos a palavra

direito a que é que nos referimos?

Recuando algumas linhas nesta dissertação, apresentei o que era o meu ponto de

vista sobre a ligação sócio-cultural dos conceitos justiça e igualdade. Chegados aqui,

importa fundamentalmente indagar se podemos continuar a naturalizar também uma

continuidade conceptual desses dois conceitos face ao sentido filósfico que o termo

direito pode possuir.

À partida, direito pressupõe ordenamento, seja natural ou institucional, o que o

anicha de imediato numa determinada organização, qualquer que seja a sua natureza,

pressupondo sempre uma cadeia de comando para administrá-lo. A justiça, porque

advém de uma sedimentação de códigos sociais, reveste-se de um sentimento sócio-

cultural consensual. Assim, as leis deveriam inspirar-se no sentimento de justiça que os

grupos sociais têm para si de modo a garantir o direito de bem estar e de igualdade dos

cidadãos; e nunca em leis constitucionais inspiradas em ordenamento jurídico de culturas

e civilizações exógenas. Mas voltando ainda atrás, vimos que já Aristóteles ao levantar a

questão da justiça e do respeito pela igualdade em sociedades estratificadas, de imediato

se impunha a questão de que nestas condições, em termos de respeito pela igualdade,

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havia que considerar que alguns são mais iguais que outros, o que em última

consequência, para todas as inferências filósoficas, como por exemplo a de liberdade,

acesso à riqueza, à educação, à saúde ou até mesmo à habitação, para falarmos dos

direitos mais básicos de que deve beneficiar-se um cidadão, alguns são mais iguais que

os demais, no usufruto desses desideratos. Nestas circunstâncias, falar de Justiça torna-se

um exercício de difícil abordagem. Em primeiro lugar devo inferir que a Justiça que se

espera de que eu fale é aquela que se confunde com a ordem estatal e tribunalística

existente no País. A minha tendência porém é a de forçar a aproximação do conceito

Justiça ao sentimento de avaliação sócio cultural consensual sobre o comportamento dos

cidadãos perante os códigos sociais tendo em conta duas facetas, uma a de prevenir

transgressões dos valores e outra de natureza distributiva dos bens materiais entre os

elementos da própria sociedade. Se bem que a Justiça tribunalística respaldada pelos

códigos forenses possa eventualmente servir-se daquele pressuposto como fonte de

inspiração, ela aparece na essência como suporte ao direito estabelecido pela legalidade

avocado pelo estado através de leis por si estabelecidas. Paralelamente podemos dizer

que apesar das diferenças na sua essência e natureza, a justiça tribunalística persegue a

mesma metodologia da justiça sóciocultural, isto é, a prevenção, a punição e equidade

na distribuição, mas perante leis estabelecidas pela cadeia de comando e não a partir do

consenso garantido pela sedimentação dos valores sociais.

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Senhoras e Senhores,

“Que Justiça queremos para Moçambique?”

Só o facto de a questão ser colocada de uma forma plural e colectiva, denota uma

demanda que exige uma reflexão aprofundada. Quem somos nós? A nossa existência

como estado decorre de um processo de ocupação territorial de uma potência estrangeira.

Somos um País de origem colonial. Os portugueses vieram e num processo histórico

atribulado foram ocupando, de uma forma mais ou menos arbitrária, como aliás o fizeram

todas as restantes potências coloniais, os territórios africanos, aglutinando igualmente, de

uma forma acriteriosa, grupos étnicos e linguísticos, por um lado, como também

separando-os conforme os seus interesses estratégicos em face da correlação de forças

então existentes, plasmando assim novas realidades de contornos difusos e destino

imprevísivel. Estes episódios ocorreram há mais ou menos um século, isto é, nos finais

do século 19. Com este facto da história da humanidade, a África sofria um segundo

golpe profundo que marcará de uma forma essencial o devir do continente: refiro-me em

primeiro lugar ao cruel e intenso tráfico de escravos que durou três séculos, que de

África transferiu para as Américas, sobretudo, milhões dos mais activos e válidos filhos

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deste continente, cortando cerce as condições de uma normal evolução da capacidade

organizativa e de produção. O impacto do tráfico de escravos no tecido sócio-económico

africano não carece de comprovação. África debilitou-se tendo permitido que a segunda

fase de desestruturação, o colonialismo, tivesse penetrado facilmente, embora com

algumas bolsas de resistência. Não importa aqui referir que quer no tráfico de escravos

quer no estabelecimento do colonialismo, os europeus contaram certamente com

cumplicidades locais. Esta questão poderá merecer uma bordagem em outro forum que

não este.

No conjunto dos conceitos básicos da epistemologia das ciências sociais e antroplógicas,

respiguemos a definição do que se entende como grupo social, isto é, uma colectividade

que ocupa um espaço de uma forma mais ou menos permanente ou delimitada, que

tendo criado alguma tradição de convivência comum, estabeleceu interesses colectivos

solidários, redistribuindo tarefas para a sobrevivência colectiva e individual. Retiramos

ainda que este desiderato permite que o grupo crie de uma forma natural, códigos de

conduta que enformam o modo de pensar, de agir e de lidar com a natureza,

estabelecendo um denominador comum de mundividência cristalizada a que chamamos

de mentalidade.

A mentalidade é o monitor do comportamento do indivíduo na colectividade. A forma

como, colectivamente ou individualmente os elementos do grupo social exprimem a sua

relação comportamental, permite fixar as marcas de identidade que quando cristalizadas

determinam aquilo a que se designa de cultura. É assim que, num longo processo de

sedimentação, se formam as sociedades e em última instância as civilizações. As ciências

sociais e antropológicas procuram também definir quando é que com a ocorrência de

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fenómenos de grandes perturbações se manifestam sinais de interrupção do processo

que garante a estabilidade dos grupos sociais mesmo conhecendo momentos de

renovação de protagonistas decorrentes da natural condição de vida e morte do ser

humano. Quando essa perturbação atinge níveis em que interrompem ou ameaçam

garntir a continuidade do grupo social, estaremos perante fenómenos de genocídio. A

África viveu pois, na sua história mais recente, dois momentos de genocício humano,

económico, social e cultural, através do tráfico de escravos e depois com a implantação

do colonialismo e a desestruturação das comunidades através dos fenómenos de

assimilação, aculturação ou mesmo repressão.

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Senhoras e Senhores,

O Nacionalismo Africano tem o mérito de ter percebido que a reposição da nossa

identidade e dos nossos valores não podia ser feita sem a eliminação do colonialismo, a

causa principal da sua perturbação. Do ponto de vista da reflexão teórica, o Nacionalismo

Africano movimentava-se entre dois pólos, um centrífugo e outro centrípeto. O

fenómeno centrífugo visava, em primeiro lugar, o afastamento do colonialismo e de

todas as formas de dominação que o mesmo trouxe. E o centrípeto, em segundo lugar,

visava o resgate, a busca de tudo quanto foi espezinhado pelo colonialismo, o retorno à

africanidade. Ainda do ponto de vista teórico, era suposto que seria do equilíbrio entre o

movimento de rejeição e o de busca das raízes que sairia o novo africano, pronto a gerir

o que de melhor herdou da sua convivência com o dominador e o melhor que pode

resgatar das suas raízes.

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No entanto, o que verificamos hoje em África é que ainda estamos a tentar

encontrar esse ponto de equilíbrio entre o movimento centrífugo e o movimento

centrípeto. Os países africanos que acederam à independência a partir da década de 60

do século XX seguiram diversos tipos de processos: uns negociaram com as potências

coloniais as suas independências, outros ascenderam à independência porque as próprias

potências coloniais se aperceberam da inevitabilidade das mudanças e apressaram-se a

salvaguardar os seus interesses. Outros ainda, tiveram que encetar duras batalhas contra

as suas potências coloniais, chegando mesmo a recorrer à luta armada. Assim, aquilo

que em teoria poderia eventualmente ser visualizado como sendo um processo normal

de busca de equilíbrio para o futuro de África, se verifica na prática que se tornou num

processo deveras complexo.

Se revisitarmos a história de África desde o final da Segunda Guerra Mundial,

havemos de encontrar um sem número de debate de ideias que visavam a melhor forma

de colocar a África no concerto das nações respeitadas no mundo. Desde as ideias pan-

africanistas, passando pelo negritudinismo, desembocando na autenticidade ou nas teorias

assimilacionistas, o que se buscava não era mais do que os contornos da identidade

Africana na modernidade. O surgimento de reflexões sobre os benefícios e ou malefícios

trazidos pela Globalização, penso que o debate anterior não terminou, afunilou apenas o

foco.

O grande problema é que a política e o discurso político se sobrepuseram à

reflexão cultural à volta deste debate. Assim, encontraremos nomes como Nkuame

Nkuruma, Abdule Nasser, Julius Nyerere, Sekou Touré, Leopold Senghor, como os

nomes mais citados na história de África, sendo todos eles politicos. Ouso desafiar os

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presentes a procurarem um antropólogo, um sociólogo, um historiador que tenha

apresentado ideias de impacto continental e que tenha encontrado eco com a mesma

dimensão e difusão. Teremos eventualmente também um Samir Amin, um Mazui, um

KZerbo, que os próprios políticos mal conhecem, pois raramente citam ou referem as

suas ideias. Já não falo dos escritores, de entre os quais temos três prémios nobel.

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Senhoras e Senhores,

José Luís Cabaço, sociólogo moçambicano, na introdução a sua tese de

doutoramento, narra a história de Jonasse Asslam, um quadro de sucesso sediado em

Maputo e que tem o seu pai, o Sr. Asslam, algures na província do Niassa. Os nomes de

Jonasse e Asslam remetem-nos para referência a judaísmo, Jonas, e islamismo, Asslam.

Contudo, eles frequentam a igreja cristã. No entanto o pai de Jonasse, o Sr. Asslam, tem

seis esposas. É um homem respeitado, considerado ancião da sua aldeia. Por outro lado, o

Dr. Jonasse, pós-graduado nos EUA, é casado com uma nigeriana, tem uma casa na

Sommerchield e uma quinta nos subúrbios da cidade de Maputo e goza de todos os

confortos que a vida urbana de Maputo concede aos seus cidadãos mais abastados.

Jonasse tem 2 filhos que estudam na Escola Americana. Quando a família Jonasse visita

o velho Asslam na província do Niassa, toda a aldeia vai cumprimentar o menino Jonasse

porque ele representa o orgulho e a projecção que todos eles desejariam para si e para os

seus. Jonasse sujeita-se a todos os rituais de boas vindas, de visitas aos antepassados e de

cumprimentos aos mais velhos da família uterina. Não sente nenhum constrangimento

em se integrar neste processo, é como se tivesse encontrado o equilíbrio entre os dois

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mundos a e devemos pertencer, o que os nacionalistas rejeitaram e o mundo que

tentaram resgatar. Os filhos do casal e a esposa nigeriana porém não se integram neste

processo. Esta porque os seus valores não se cruzam com os valores da província de

Niassa e as crianças porque consideram aquilo algo muito estranho e qu nada lhes diz.

Com esta pequena história, pretende o socioólogo José Luís Cabaço discutir uma

questão muito simples. Quando falamos de moçambicanidade, quais os contornos que

pretendemos dar à ideia de se ser moçambicano?

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Senhoras e Senhores,

Há diversos factores que no seu conjunto concorrem para definir o ser

moçambicano.

Do ponto de vista político e administrativo, ser moçambicano está consignado na

Constituição. E duma forma geral é ter nascido em Moçambique, de pai ou mãe

moçambicano. A lei da nacionalidade regulamenta a condição da aquisição ou perda da

nacionalidade. Do ponto de vista geográfico temos um território com cerca de

800.000Km2, com recursos naturais, rios, montes, mares, cerca de 20 milhões de

habitantes, com cidades, vilas ou aldeias e um determinado índice de riqueza ou pobreza.

Do ponto de vista histórico, sabemos que resultamos como estado, da luta contra o

colonialismo português e que temos 30 anos de independência, procurando consolidar a

nossa identidade. Do ponto de vista sociológico, sabemos que a maior parte da

população moçambicana vive nas zonas rurais, trabalha a terra, lida directamente com a

natureza, extraindo dela a forma de sobrevivência, utilizando metodologias e técnicas

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básicas sem recurso às novas tecnologias. E finalmente, do ponto de vista antroplógico

sabemos que somos um país multi-étnico, multilíngue, multicultural, no qual o

denominador comum da maioria é ser negro de origem Bantu, havendo outros grupos

minoritários quanto à origem ou raça.

São estes elementos que deverão ser considerados factores básicos que

qualquer actor que tenha intervenção activa na política, na ciência e em todos os outros

sectores, incluindo o cultural e económico, deverão ter em conta quando quer se referir à

questão da moçambicanidade.

Todos estes factores congregando-se demonstram-nos que a moçambicanidade

para ser sentida um dia por todos como um sentimento de identidade e factor de

identificação deve passar por um processo de sedimentação cultural a partir do equilíbrio

que se buca e que referi linhas atrás. Quando atingimos a independência, os contornos da

moçambicanidade era a construção do homem novo. Num discurso neo-platônico, o

homem real que viveu o colonialismo para atingir a perfeição que a justeza da luta lhe

impunha, devia procurar o seu ideal num mundo livre de injustiças. A mudança para o

neo-liberalismo da ordem política e económica propõe-nos uma moçambicanidade

difusa, uma espécie de mito que só se concretiza no plano do discurso, do tipo “ Digo,

logo existo”.

E há de ser com a interiorização desses contornos que podemos voltar a falar de

justiça sem que o tal conceito caia em saco roto. Se me permitirem, para tornar o meu

texto menos denso utilizando as metodologias tradicionais de conto e proveito, deixem-

me narrar três histórias vividas moçambicanamente:

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1. Anita era uma rapariga pré-adolescente que nasceu e sempre viveu na sua

aldeia no interior da província de Tete. Como todas as raparigas da sua idade, Anita

acedeu às várias etapas da vida desde a fase familiar à socialização através dos ritos de

passagem da sua comunidade. Aos 11 anos, o Governo da República, obedecendo ao seu

plano, com base no programa estratégico da expansão da rede escolar, após a fase de

reposição das escolas destruidas pela Guerra, implantou uma escola de nível básico na

aldeia de Anita, com 8 salas de aulas, equipamento suficiente, bem como os professores

necessários. Houve banjas com a comunidade para explicar as vantagens de os pais

enviarem os filhos para a escola e encorajava-se também o envio das raparigas. Os pais

da Anita aderiram e ela foi inscrita, assim como muitas outras jovens daquela aldeia, mas

não todas, porque o número de salas e de professores não era suficiente para que isso

acontecesse. Portanto, uma parte ficou de fora, seguindo o normal ciclo de passagem do

dia a dia e a outra foi para a Escola, entre elas a nossa Anita.

Acabado o ciclo básico impunha-se aos jovens irem para a sede do distrito em

que aquela aldeia se inseria ou abandonar os estudos. A Anita não seguiu para o distrito.

Voltou para o seio da sua família e da comunidade, procurando reintegrar-se nos ciclos

da vida da aldeia. Naturalmente que estava desfazada e começou a sentir-se estranha. Aos

quinze anos, não se sentindo totalmente membro da sua comunidade, Anita resolve por

sua conta e risco ir atrás da Escola. Escalou o distrito e daqui aportou na capital da

província. Mas Anita não encontrou a Escola que procurava, aquela Escola que conheceu

lá na sua aldeia. Encontrou outra Escola, a Escola da vida. Entrou na prostituição e na

droga. Caiu na malha da polícia, levada a tribunal e condenada nos termos da Lei.

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2. Sulemane vivia na aldeia do distrito de Meluco, Cabo Delgado. Sulemane era

agricultor e comerciante. Funcionava também como grossista, comprando a produção

dos camponeses seus vizinhos que depois vendia aos comerciantes de outras capitais dos

distritos e até na capital, Pemba. Sulemane comprou uma camioneta em terceira mão,

mas que o ajudou a fazer crescer o negócio, passando a ostentar alguns sinais de riqueza

exterior. Começou a circular na aldeia que Sulemane estava a enriquecer, graças a

feitiçaria.

Os aldeões resolveram dissipar as dúvidas consultando um feiticeiro. Este

confirmou que Sulemane utilizava artes mágicas que punham toda a gente da sua aldeia

a trabalhar para si, durante a noite, e que era por isso que de dia toda a gente estava

cansada, não rendendo nos seus próprios afazeres. Perante estas evidências foram

consultados os líderes comunitários que decidiram que Sulemane devia pagar

indeminização ao povo. Sulemane teve que se desfazer dos seus bens para pagar e hoje

vive miserável na cidade de Pemba.

3. Alberto Campira era um aldeão que vivia numa aldeia de distrito de

Cheringoma, província de Sofala. Desempregado compulsivo dos Caminhos de Ferro,

por força da Guerra, passou a trabalhar a terra com a sua família. Campira tinha cinco

filhos menores. A partir de um determinado momento, o casal Campira perdeu três dos

cinco filhos num espaço de seis messes. Os irmãos aconselharam-no a procurar as razões

daquelas mortes junto do seu adivinho. Este apontou a sogra de Campira como a

feiticeira que estava a dizimar os netos. Os irmãos de Campira foram e mataram a velha.

O Secretário da aldeia reportou o caso do assassinato ao Administrador do Distrito, que

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levou os valentes irmãos ao tribunal, que por sua vez os julgou e condenou por

homicídio voluntário. A população da aldeia achou a condenação injusta e uma afronta

aos seus valores , enfurecida, voltou-se contra o Secretário da aldeia que teve de fugir

para não sofrer consequências mais graves.

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Minhas senhoras e meus senhores,

A Justiça que queremos em Moçambique exige antes de tudo que se enquadre em

nós próprios. Começando com as nossas Escolas de Direito, as nossas Escolas de

Formação Policial, que ainda não demonstraram que a fonte do conhecimento da

essência de se ser moçambicano está no domínio de instrumentos que lhes permitam não

ferir os códigos sociais que ao longo do tempo se sedimentaram nesta busca incessante

do equilíbrio entre os dois pólos que constituem a nossa essência de sermos africanos na

modernidade, isto é, com uma universalidade virada para a herança que transportamos

das nossas origens coloniais e uma singularidade que é a de termos as raízes bem

enterradas neste solo pátrio.

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Senhoras e Senhores,

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É simples e reiteradamente um exercício preguiçoso repetir que a administração

da Justiça no nosso País anda mal. O que em última análise aquilo que os analistas mais

atentos têm compreendido é que nas condições em que está construído o nosso estado,

outra coisa não seria de esperar. Não depende da competência nem da honestidade dos

seus dirigentes. Tomemos como referência o que se diz de mal sobre a cadeia de

comando do nosso estado, considerando os sistemas dos três poderes, o Legislativo, o

Executivo e o Judicial, adoptados da ordem política saída da revolução burguesa

europeia, de que a Revolução Francesa é o paradigma. Sem qualquer critério hierárquico,

todos dirão que o sistema instituído no nosso país favorece a impunidade, o nepotismo, a

corrupção, a incompetência e não serve os objectivos para o que foi criado. Esta

assepção é consenual e os estudos de opinião pública feitos por entidades oficiais e

privados assim o confirma. Quer isto dizer que o cidadão de uma forma generalizada não

nutre respeito nem confia nas instituições estabelecidas para a governação da sua vida.

Por outras palavras, estamos perante um estado com instituições desmoralizadas.

Algumas mais, outras menos. Por isso, antes de perguntar que justiça queremos, por que

não perguntar que Estado queremos?

Se o discurso de base é promover a equidade, eliminar as desigualdades e

promover a justiça como ponto de partida, a primeira etapa é não considerar que os

males que grassam no sector da administração da justiça se devem à maldição que

desabou sobre este sector, nem pensar que o grosso dos cidadãos desonestos deste País

assaltaram e dominaram este sector de governação no nosso regime político.

Olho para esta platéia e vejo pessoas que me merecem apreço e vislumbro

semblantes de quem quer fazer algo que contribua para que, cada vez mais, o seu

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desempenho permita melhorar os resultados do seu trabalho, de modo a moralizar o

sector.

Contudo, o sistema foi montado de tal forma que adivinho, sem ser bruxo, que

daqui a um ano, quando cerimónia semelhante for realizada, teremos provavelmente as

mesmas apreensões, as mesmas promessas e as mesmas frustrações.

Do meu ponto de vista, o mal é do sistema no seu todo. Estamos a vestir um fato

que não foi devidamente confeccionado para nós. Volto às nossas Escolas de Direito.

Vejamos os seus planos de estudo. Passemos aos Tribunais e analisemos os códigos aí

aplicados e apreciemos o exercício dos seus actores, juízes, magistrados, advogados, réus,

testemunhas, oficiais e outros.

Olhemos para o nosso sistema prisional e não deixemos de apreciar as relações que os

nossos agentes da Lei e da Ordem se estabelece com o público em geral.

Permitam-me que adopte aqui a expressão popularizada pelo Presidente da República

para vos dizer que para mim, os protoganistas de todos os sectores aqui apontados

acabam por parecer que se movimentam num palco gigante onde representam uma peça

sobre governação cujo título será exactamente “O espírito de deixa andar”. Mas este

estado de faz de conta não é exclusivo ao sector que aqui é matéria da minha

intervenção. Um juiz que negoceia uma sentença fá-lo porque o sistema lhe permite e ao

mesmo tempo não se identifica com o papel que lhe deram a desempenhar. Ele não é

muito diferente daquele professor de direito que negoceia a nota da cadeira de Código

Processual Penal ou Civil. Como não é diferente daquele polícia prisional que negoceia

a soltura. E em última análise, não é diferente daquele ministro que só apõe a sua

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assinatura num negócio de estado após garantirem uma percentagem , posta na sua conta

bancária no exterior. São todos actos da mesma natureza, são actos de profunda injustiça.

____________// ____________

Senhoras e Senhores,

A minha dissertação vai longe e mais tempo poderia tomar-vos, mas no essencial

aquilo que gostaria de deixar aqui, como resultado das minhas refelexões sobre a matéria,

é o seguinte:

1. Todos sabemos que somos um país com dois ordenamentos sócio-culturais bem

distintos, a ordem urbana que está no comando da governação e a ordem rural que

representa o fundamental da nossa natureza universal e singular, isto é, homens e

africanos.

2. Não temos sabido gerir com a devida competência as várias transições que se nos

impõem como realidade sócio-cultural criada nas condições em que histórica, geográfica

e sociologicamente surgimos, muitos de nós não sabe, não quer saber e nem se preocupa

com isso, é como se vivéssemos num comboio que está a atravessar uma ponte

interminavelmente e que entretanto, enquanto não chega ao outro lado, há que ir gerindo

em permanente situação de transição.

Aqui o fundamental do discurso sobre a governação das nossas vidas transporta um

sentido de transição e mudança. Somos nómadas em nós próprios.

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3.Somos tão transitórios que nos falta coragem de sermos menos radicais nas medidas

que tomamos, mesmo para corrigir fenómenos muito graves nas nossas vidas, é como se

quiséssemos deixar tudo para melhores tempos. Adiar tudo transformou-se numa forma

de cultura. Aqui veremos disposições para aplicar mais tarde, adoptamos decisões que

temos preguiça de implementar. Apontamos com clareza o que está mal, mas falta-nos o

fôlego para agir em direcção oposta.

4.Duma forma ou doutra, estamos na governação deste país, com vinte milhões de

africanos, cuja maioria não entende os nossos actos, a nossa fala, nem o rumo que

traçamos. Não nos preocupamos em nos aproximar para criar o equilíbrio que libertará

os nossos filhos desta trajectória.

Em contrapartida, governamos este país com a cabeça em Paris, Londres ou Nova

Yorque, em vez de a ter na Manhiça, Mopeia ou Macomia.

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Minhas senhoras, meus senhores,

A justiça que queremos em Moçambique vai resultar de uma nova atitude. Vamos

conhecer o nosso país, o nosso povo, os seus valores, as adversidades que temos, mas

que reforçam a nossa cidadania. Vamos transformar este conhecimento em escola que

crie o tal cidadão não travesti. Que a liberdade democrática não seja uma dádiva, mas

um direito de cidadania. Que as nossas escolas falem de nós e que a cadeia de

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comando, ao governar os sistemas montados saibam que o cidadão sabe o que está a

contecer.

Enquanto isto não acontecer, quem se atreve a atirar a primeira pedra ao sistema

de administração da Justiça em Moçambique?

Muito Obrigado!

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