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O SARGENTO DE MILÍCIAS

Fernando Magarian de Freitas

Extensão da obra Memórias de Um Sargento de Milícias, de Manuel de Almeida.

São Paulo

2011

TERCEIRA PARTE

1 - AMEAÇA

O Leonardo, tão logo estava enfim casado com Luisinha, ainda na mesma

semana da cerimônia na Sé, saiu-se para a casa de seu pai, a fim de receber sua herança de direito de seu perecido padrinho. Recebera de Leonardo-Pataca uma carta deste assunto ainda antes do casório, mas decidiu-se que seria ocasião de

tratar tais negócios após a celebração.

Pois chegando ao seu destino, Leonardo soube que seu pai não estava em casa, e soube pela sua desafeta madrasta, filha da comadre. Trocou poucas palavras e logo foi-se retirando, para evitar rinha, porém virou-se e escutou Chiquinha, em tom de zombaria.

- Qual! Abandonou o pai por causa de birra, e só volta agora em situação de ver- se apatacado! Há de fazer-se justiça!

- Te curo, lambisgóia!, devolveu Leonardo; Eu bem sei que só se interessou por seu marido atrás de seus dotes!

Ofendida, a Chiquinha ainda retrucou.

- E que pensas que quer sua esposa? A rapariga só lhe aprecia as patacas! Que mais haveria de ver em um sargento de milícias?

Desta vez já fora de controle, pois esta ofensa atingia não só ao nosso Leonardo, como também ao Leonardo seu pai, o Pataca, ele avançou-lhe com o punho cerrado. Ouvindo a gritaria, porém, a comadre chegou na rua a tempo de acudir a filha do primeiro murro de seu afilhado, quase filho.

- Que há, homem!?, disse; Fale! Que acontece?

-Eu hei de dar fim nessa víbora!, respondeu Leonardo; hei de dar fim!, e foi-se embora sem querer saber de mais perguntas.

A Chiquinha fez da tal ameaça um grande acontecimento.

- Viste, mãe? O que diz aquele que sempre proteges!? Triste é a filha que não goza da proteção de sua mãe!, e entrou-se resmungando.

A comadre sentiu-se feliz por interromper a malha, mas astuta como era

não deixou de se preocupar com os dizeres do afilhado. Bem sabia ela que Leonardo era homem de gênio forte, e falou com seriedade sobre dar fim na Chiquinha.

2 A MORTE DE DISCÓRDIA

Leonardo andou depressa, mas encontrou no caminho, na frente da Sé, um amontoado de gente. Logo viu que dentre eles estavam muitos da vida militar, entre granadeiros e soldados da milícia. Aproximou-se para ter com um conhecido seu que lá estava, e trocando algumas palavras descobriu que havia sido assassinado em serviço um certo granadeiro naquela tarde, há pouco. Alguma prosa mais serviu para que descobrisse, também, que o citado granadeiro era seu pai, o Leonardo-Pataca.

Deixemos aqui nosso Leonardo com seus iguais para voltar ao que se passou entre o dia do casório e os acontecimentos narrados há pouco. Assim que acabou-se a celebração foram-se, Leonardo e Luisinha, para a casa da D. Maria. Ficou acertado que ali ficariam por então, até que Leonardo acertasse suas coisas de herança com o pai. D. Maria e Luisinha insistiram que eles fossem logo para seu próprio lugar, sendo elas bem arranjadas de riqueza, mas o sargento, orgulhoso que era, recusou-se prontamente.

Assim estavam Leonardo e Luisinha, quando aquele saiu-se em direção à casa de seu pai para receber o que era seu e agora descobria que jazia morto o homem. Leonardo abalou com a notícia, mas não sentiu-se verdadeiramente triste pela notícia, como sentira-se quando da morte de seu padrinho. Mesmo assim chorou lágrimas fingidas ao chegar na casa da D. Maria, para não ser insensível às mulheres que já lá estavam, especialmente à comadre, que grande apreço mostrava por Leonardo-Pataca.

O dia seguinte seguiu-se de enterro e luto, respeitosamente, conforme a

tradição. Depois do enterro seguiram-se alguns mais chegados do falecido na casa da D. Maria. Em meio a algumas conversas de canto, a comadre falava à anfitriã o que acontecera na casa da Chiquinha.

- Há de haver guerra, falava a comadre; há de haver!

- A herança é do Leonardo de direito, a senhora sabe, respondeu D. Maria.

- Eu sei, eu sei, mas há de haver mais rinha! Maldita herança!

- Eu hei de tomar a causa do homem. Bem sabeis que eu gosto de uma demanda!

- Deus ajude que não seja preciso!

A comadre ficou a noite para amparar os lutuosos, e assim foram todos

dormir.

3 DESAVENÇA

Poucos dias depois do enterro saiu cedo o Leonardo para ter com a Chiquinha sobre sua herança, e saiu decidido a resolver a questão. Chegou e foi recebido pela comadre, que já o esperava e, atenta, antecipou-se a recebê-lo. A Chiquinha logo apareceu, sem fazer questão de tratar bem o hóspede. O Leonardo logo falou.

- Cá estou para receber a herança de meu padrinho, trate de entregar-me!

A viúva, porém, não estava disposta a desfazer-se da riqueza, e logo

retrucou, em tom agressivo.

- Pois desfaça-se de esperanças que a riqueza era de meu falecido marido e pertence, portanto, a mim!

- Ladra!, gritou Leonardo, que não esperava tamanho cinismo, e avançou sobre ela.

A comadre, mais uma vez se adiantando, tratou de tentar apartar, mas

desta vez foi ela também vítima de alguns golpes que erraram o alvo. Os que acertaram, porém, o fizeram em cheio. Chiquinha logo correu, vendo que o enteado não estava de farra, e a comadre levou o Leonardo de volta à casa da D. Maria, e também inteirou esta da situação. D. Maria não tinha mais dúvida: era

caso de demanda!

O Leonardo evitou falar do acontecido em casa, por mais que a Luisinha

mostrasse-se incomodada, e apressou-se a sair para o trabalho. Ao fim do dia, na volta para casa, encontrou a Vidinha, antigo amor, no caminho. Trocaram algumas palavras, que lhe valeram saber que esta agora era do primo que tanto rivalizou com ele próprio. Antes de seguirem seus caminhos também trocaram olhares que um bom observador perceberia serem de desejo. E foram-se embora.

O dia seguinte o Leonardo passou todo pensando na Vidinha. E todo esse

resto de semana. Agiu frio com a esposa e a D. Maria, e estas concordaram que

era por ocasião da morte do pai e da briga que teve com a madrasta. Poucos dias depois, ele decidiu que ia passar na casa da Vidinha no fim do dia.

4 ANTIGOS AMORES

Leonardo seguiu-se para a casa de Vidinha, como já decidira fazer. Era fim de tarde, e logo chegou lá ouviu a bela voz da morena a cantar modinhas da época lá dentro. Esperou até que acabasse aquela cantoria que lhe deliciava os ouvidos até chamar-lhe a atenção, discretamente, sem que ninguém mais percebesse. Ela assim que o viu foi atendê-lo.

- Qual! Que fazes aqui?

- Vim ver-te, respondeu Leonardo, que era, como seu pai, grande vítima dos truques de seu coração; estava saudoso de ti!

- Qual!

conseguir disfarçar o interesse naquela visita.

qual! És um homem casado!, a Vidinha respondeu gaguejando, sem

Em pouca conversa saíram-se os dois em silêncio, deixando apenas os vizinhos a comentar.

- Um homem tão bem apessoado, que não segura a própria mulher! A rapariga é safa!, dizia uma sobre o primo de Vidinha.

Passaram os dois escondidos pelos cantos da cidade, e foram-se embora. Repetiram o feito algumas vezes nos dias que se seguiram. Naquela mesma noite, ao chegar, a D. Maria, atenciosa e cordial, foi contar ao Leonardo que já tomava em seu lugar uma demanda pela herança que sua era de direito.

- O procurador há de trazer para mim esta vitória, fique tranqüilo, homem!, dizia

ela. O Leonardo fingiu interesse, mas mal queria saber de herança a esta altura:

estava novamente apaixonado pela Vidinha, e pouco lhe importava o resto.

Depois de algumas semanas, passado e muito o tempo do luto, Luisinha não mais entendia o comportamento frio do marido. Este negava que qualquer coisa estava errada, mas a rapariga, boa observadora, logo desconfiou de alguma coisa. D. Maria, que muito apreço tinha pelo Leonardo, tratava de desfazê-la dessa idéia.

Mas a Luisinha já não sentia-se feliz com a vida que levava. Tal como se sentira um dia aprisionada pelo falecido marido José Manuel, sentia-se desconfortável morando em lar que não o seu. Insistia para o marido que

morassem logo em outro lugar. O Leonardo, que cada vez menos desprendia atenção à esposa, e cada vez mais via a Vidinha, inventava mil desculpas para desfazê-la dessa idéia. A Luisinha insistia que eles podiam ir-se embora, e não estava errada, pois ela própria tinha riquezas, e o Leonardo em seu posto de sargento o Leonardo levava boas patacas, mas que gastava todas em satisfazer seu desejo pela amante.

A situação se tornou tal que a Luisinha ousou até mesmo culpar a D. Maria, que demorava a ganhar a demanda para seu marido. Logo a casa de D. Maria estava em pé de guerra: Leonardo, porém, mal percebia o que se passava com sua família.

5 TRAIÇÕES

Depois de algum tempo de desavença a Luisinha mostrou-se mais tranqüila, e assim ficou por muitos dias. O Leonardo mantinha o seu romance secreto com a Vidinha, e a D. Maria e a comadre concentravam-se em ganhar a herança para do padrinho.

Aconteceu que, passado bastante tempo, uma noite chegou o Leonardo à casa e não encontrou sua esposa. Isso o tomou de uma atenção que há muito não dava à Luisinha. A D. Maria, que estava em casa e mostrava-se muito nervosa, disse não saber onde estava a menina, e desconversava, mas como não era boa mentirosa o Leonardo logo percebeu que ela omitia alguma coisa.

Algumas horas depois chegou à casa Luisinha. Respondendo às indagações do marido, ela falou ter ido à Sé tratar de assuntos da igreja. O Leonardo, que herdou do seu pai grande ciúme, estava convencido de estar a Luisinha o traindo. Naquela noite o sargento agrediu violentamente a esposa.

Passado pouco tempo chegou à casa de D. Maria a comadre, também com aparência nervosa. Falou de lado à anfitriã.

- Já contaste o fato ao Leonardo?

- Não tive ocasião, respondeu a D. Maria, e em tão poucas palavras quanto conseguiu contou à comadre o que acabara de se passar.

Entrando, a comadre tratou de acalmar o afilhado. Assim que julgou conveniente, fez que a D. Maria contasse o tal fato.

- Há de conter os nervos, homem. A viúva de seu pai ganhou a demanda e a

herança de seu padrinho, disse D. Maria; A vitória esteve tão próxima, e então

esvaiu-se; Parece ter ela conseguido um muito bom defensor: ficará com toda a riqueza.

O Leonardo não ligava realmente para essa herança, apenas se importava

com seu amor e da Vidinha, que estavam a esta altura em ardente chama. Mas o sargento se encontrava naquela noite em nervos inflamados, e tão logo ouviu sobre a herança de seu padrinho, não se conteve, e saiu-se em direção à casa da Chiquinha, correndo, sem que a comadre conseguisse impedi-lo.

6 EXPLICA-SE OS ACONTECIMENTOS

Eis então o que aconteceu de fato: o Leonardo herdou de seu pai não só o ciúme, mas também a má sorte de ter sua honra ofendida pela esposa, e estava mais do que certo ao suspeitar que Luisinha o traía. Mas não só ela: o dito amante era ninguém menos que Tomás, amigo de infância do Leonardo, o companheiro de diabruras da Sé.

Ocorreu que Luisinha, tão logo percebeu que era traída, e tinha tal confirmação da D. Maria, que não era boba, foi-se certo dia atrás de Leonardo a fim de flagrá-lo. Lá, onde o Leonardo encontrou a Vidinha, encontrou também a Luisinha o Tomás, que também por lá vivia. Este sentiu-se arder de desejo, e esta sentiu-se arder de vingança, e saíram-se o dois a amar. É justo dizer que o Tomás não soube, de princípio, que a Luisinha era mulher do Leonardo, e quando o descobriu já era tarde demais: mesmo a Luisinha, que a princípio foi movida apenas pela vingança, agora achava-se apaixonada por ele.

É fato que Tomás não tem boa sina: algum tempo depois, já não tão acesa

a paixão por Luisinha, embora a dela estivesse ainda muito acesa, ele conheceu

uma viúva chamada Chiquinha, e apaixonou-se ainda mais fortemente por esta. Ela, porém, não lhe prestava interesse. Ocorre que Tomás era dono de notável poder de persuasão, e ofereceu-se para assumir uma certa demanda da tal Chiquinha: no desenrolar do processo esta rendeu-se aos seus encantos, mas Tomás não quis desfazer-se da Luisinha, por ter-lha ainda bom afeto, e ficou a ver as duas. No fim do processo, Tomás ganhou a causa para a Chiquinha. Esta Chiquinha era, com efeito, a viúva do Leonardo-Pataca.

7 TRAGÉDIA

O Leonardo corria, agora, para a casa da Chiquinha. Lá chegando, sabendo estar ela sozinha, logo entrou abrupta e violentamente. Chiquinha estava

mesmo sozinha, excluindo sua filha e irmã do Leonardo que nada mais era que uma criança. Ele, que estava de fato fora de si, só balbuciou as seguintes palavras antes de avançar sobre a Chiquinha com brutais murros e pontapés.

- Eu falei que havia de dar-lhe fim, víbora!

Chiquinha tentou safar-se, sem sucesso. Após alguns minutos de golpes de mãos, pés, cadeiras e outros objetos, a viúva jazia no chão, ensangüentada em alguns pontos do corpo, e o Leonardo, em aparência animalesca e medonha, encarava aterrorizado o resultado de suas ações. Ao olhar para o corpo de sua madrasta e para o bebê que assistia a tudo ali por perto, o sargento só conseguia lembrar-se do golpe de seu pai que o fez voar alguns metros tantos anos atrás. O Leonardo tinha dado fim na Chiquinha. Desatou a correr da casa, não muito antes da chegada da comadre e da D. Maria.

8 O SARGENTO DE MILÍCIAS

O Leonardo parou na casa de D. Maria, mas apenas para ensacar os

pertencer e as riquezas que possuía guardadas e sair-se novamente, largando, e até ignorando, sua esposa Luisinha na casa. Ele seguiu até a casa da Vidinha,

onde não faz grande questão de discrição: gritou seu nome até que ela viesse atendê-lo, não sem a atenção de toda a casa e de toda a vizinhança.

- Larguei minha esposa!, disse ele a sua amada; Larguei-a! Vim buscar-te, venha comigo e viveremos felizes, eu e a senhora!

O sargento nitidamente não percebia qual o estado assustador em que se

encontrava, mas a Vidinha percebia, e encontrava-se aterrorizada.

- Qual! O que lhe passou, homem?! Que é isso?! Não vou a lugar nenhum, ficarei e me casarei em um mês! Qual! como vens até minha casa e atrai a atenção de todos! Não tens juízo?

Desiludido, o Leonardo pôs-se em prantos, desta vez, verdadeiros, como era totalmente entregue aos caprichos do coração. Dormiu na praça aquela noite e enfiou-se num cortiço já na seguinte. Continuou a exercer sua função militar, sempre evitando deslocar-se para as bandas onde viviam sua antiga família. Soube por cochichos que Vidinha casara-se com seu primo, e Luisinha, seu primeiro amor, vivia com o Tomás na que era agora sua casa: pois descobriu também, muito triste, que a D. Maria falecera de ataque no coração. A comadre, que um dia tivera-lhe tanto apreço, não podia porém superar o assassinato de sua filha, e apesar de não entregá-lo ao Vidigal por tal crime, nunca reatou a relação.

A herdeira do Leonardo-Pataca, irmã do Leonardo, foi viver com a Luisinha, e por ela ser criada. O Leonardo também ouviu que a comadre, incapaz de viver sozinha na casa da desgraça de sua família, haveria de ir-se também morar com o casal, mas nunca soube se isso de fato ocorreu. Até o fim de sua vida, o Leonardo apenas conheceu a vida militar, nunca mais sendo capaz de sentir afeto por outro. Ele, que era de fato um homem das coisas amorosas, viveu sua vida e encerrou-a sozinho, sem jamais receber nos braços um herdeiro ou sentir o calor do amor novamente.