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Mil Hortas na África Vade-mècum Photo © Paola Viesi
Mil Hortas na África Vade-mècum Photo © Paola Viesi
Mil Hortas na África Vade-mècum Photo © Paola Viesi

Mil Hortas na África

Vade-mècum Photo © Paola Viesi
Vade-mècum
Photo © Paola Viesi

Este vade-mecum fui realizado com o apoio de

Resumo

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1.

Introdução

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1.1

Mil hortas boas, limpas e justas

3

1.2

As hortas como partilha de experiências, solidariedade, conhecimentos

3

1.3

Como envolver os jovens partindo dos saberes das pessoas idosas

5

2.

Sugestões para a criação de uma horta Slow Food

7

3.

Sugestões para a gestão agronomia das hortas

8

3.1

Tipo de produtos

10

3.2

As sementes

12

3.3

Rotação dos cultivos

13

3.4

Cultivos associados

14

3.5

Adubação, recuperação da fertilidade e proteção do solo

15

3.6

Controlo biológico e integrado de insetos, pragas e ervas daninhas

16

3.7

Sugestões para a gestão da água

19

4.

Sugestões para a gestã ecômica da horta

19

4.1

Sugestões para as hortas comunitárias

20

4.2

Sugestões para as hortas escolares

20

5.

Sugestões de atividades educacionais

22

5.1

Objetivos educacionais do projeto Mil hortas na África

24

5.2

Um exemplo de atividade didática na horta

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6.

Sugestões para a comunicação

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Contatos ùtiles

O presente manual apresenta a filosofia e os objetivos gerais do projeto, incluindo também uma série de dicas e informações práticas.

Photo © Oliver Migliore

As mil hortas serão modelos concretos de agricultura sustentável, atentos às diversas realidades (ambiental, socioeconómica e cultural) e que possam ser replicados facilmente.

1. INTRODUÇÃO

1.1 Mil hortas boas, limpas e justas

Na África, as hortas podem representar uma fonte importante de alimentos saudáveis, e

uma integração da renda para as comunidades locais.

O projeto das mil hortas baseia-se na filosofia Slow Food, visando criar, junto com

as comunidades locais, modelos concretos de agricultura sustentável, atentos às diversas realidades (ambiental, socioeconómica e cultural) e que possam ser replicados facilmente.

O projeto prevê a realização de:

hortas escolares: cultivadas pelos alunos junto com seus professores

hortas comunitárias: administradas por uma comunidade que compartilha trabalho e

produtos

hortas familiares: grupos de hortas administradas pelas famílias, que fazem parte de uma comunidade

A horta Slow Food é realizada segundo a filosofia do bom, limpo e justo.

Uma horta boa

• garante produtos frescos e naturais

• valoriza os produtos locais

• preserva as receitas tradicionais

• permite obter produtos processados de qualidade (quando houver produtos excedentes)

Uma horta limpa

• respeita o meio ambiente

• utiliza solo e água de forma sustentável

• preserva a biodiversidade

Uma horta justa

• é uma experiência comunitária, que aproxima gerações diversas e contextos sociais diversos (por exemplo, professores, estudantes e agricultores).

• favorece o conhecimento e as competências dos agricultores, de modo a melhorar sua autonomia e autoestima.

• favorece a soberania alimentar, oferecendo às comunidades a possibilidade de escolher o que cultivar e comer.

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SEGURANÇA ALIMENTAR / SOBERANIA ALIMENTAR

A segurança alimentar é definida como o direito de todas as pessoas ao acesso a uma al- imentação em quantidade suficiente, em condições higiênicas adequadas, para atender

os requerimentos nutricionais para a sobrevivência e a manutenção da saúde (FAO,

1996).

A soberania alimentar é o direito das pessoas de decidir seu próprio sistema alimentar e

produtivo, de ter acesso a alimentos saudáveis, que respeitem suas culturas, produzidos

de

forma ecológica e sustentável. É por isto que se diz que quem trabalha com produção

de

alimentos, deve voltar a ser “soberano”: ou seja deve decidir o que semear, que ani-

mais criar, que técnicas utilizar.

A produção de alimentos deve preservar a saúde e respeitar as tradições culturais. Deve

ser voltada para uma gastronomia viva, que reflita a história e as tradições de um povo. Deve respeitar a integridade ecológica do meio ambiente, preservando água e terra.

Só garantindo a soberania alimentar é que se pode tomar o caminho rumo a segurança alimentar.

A abordagem do projeto “Mil Hortas na África” está ligada aos princípios da agroecologia. Baseia-se de fato nos conhecimentos da agricultura local, na aplicação de técnicas (tradicionais e modernas) apropriadas às diversas condições agropedoclimáticas, na

correta gestão dos recursos naturais (biodiversidade, solo e água), na justiça social. Contrariamente à abordagem da agronomia convencional, a agroecologia destaca

a importância da biodiversidade, a correta gestão de solo e água, a interação entre produções vegetais, animais, solo.

A

iniciativa destina-se às comunidades do Terra Madre, convivia, associados Slow Food,

e

aos demais grupos (associações, escolas, organizações

)

interessados em participar

do projeto.

Envolve todas as camadas sociais, mas sobretudo: pequenos produtores, estudantes e

professores e, acima de todos, as mulheres, pois na maioria das vezes são elas que têm

a

responsabilidade principal da alimentação das famílias.

O

projeto realiza-se nos países que contam com uma presença já sólida da rede do

Slow Food: Costa do Marfim, Egito, Etiópia, Guiné-Bissau, Quênia, Madagascar, Mali, Marrocos, Mauritânia, Moçambique, Senegal, Serra Leoa, África do Sul, Tanzânia, Uganda. Serão pouco a pouco envolvidos outros países.

Hoje em dia, em muitos países africanos já existem inúmeras organizações (associações, cooperativas de agricultores, ONGs, etc.) que realizam hortas e promovem formas de agricultura sustentável. O projeto Mil Hortas na África parte dessas experiências positivas, promove novas iniciativas, reúne em rede todos os grupos envolvidos, aprofundando aspectos como a produção das sementes ou o uso de técnicas agronômicas sustentáveis.

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1.2Ashortascomopartilhadeexperiências,solidariedade,

conhecimentos

“A horta é como uma viagem, se aprendem muitas coisas, inclusive dos companheiros de viagem: nós estamos aprendendo muito com as crianças.”

John Kyobe, professor do colégio de Mukuno, Uganda

Um dos pontos-chave do projeto das Mil Hortas na África é a integração da experiência agrícola, o trabalho comunitário compartilhado, e as atividades de educação/divulgação.

Cada horta Slow Food não é um projeto isolado, mas se coloca na comunidade como experiência de partilha. Aproxima gerações diversas, podendo trocar conhecimentos, fortalecendo o espírito de solidariedade e amizade.

Ao mesmo tempo cada horta faz parte da rede das hortas Slow Food, presente em todo

o continente africano.

A troca se dá dentro de cada comunidade, entre comunidades do mesmo país, e de países

diversos. Os coordenadores nacionais do projeto desempenham um papel fundamental para garantir uma partilha abrangente.

Todas as pessoas envolvidas no projeto, de comunidades a coordenadores, a filosofia do Slow Food e uma produção de alimentos bons, limpos e justos.

Todas as experiências es os conhecimentos (sobre sustentabilidade ambiental, qualidade

dos alimentos locais

de informações, encontros, visitas entre as comunidades, etc.

são colocadas em rede através de seminários regionais, trocas

)

1.3 Como envolver os jovens partindo dos saberes das pessoas idosas

“Se olharmos para a pirâmide da população africana, vemos que a maioria são jovens. Sem o envolvimento dos jovens, não poderá haver um futuro para a agricultura na África”.

Edward Mukiibi, coordenador hortas Slow Food, Uganda

“Durante anos, os ocidentais nos explicaram que tudo aquilo que estávamos a fazer estava errado, que as nossas técnicas eram ineficientes, os nossos produtos tinham

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que ser substituídos por cultivos mais produtivos. Agora nos dizem o contrário. Durante

o último encontro do Terra Madre, disseram que a nossa história é importante e que

precisamo resgatar os saberes dos nossos antepassados, ser orgulhosos das nossas raízes, cultivar os nossos grãos, os produtos que os nossos pais selecionaram. São palavras novas, que não estávamos acostumados a ouvir.”

Roger Bello, representante de Camarões em Terra Madre 2010

Fazendo a horta, os jovens podem aprender, com os idosos, como cultivar as variedades locais, como lutar com remédios naturais contra as pragas, como conservar as sementes, como viver uma vida mais saudável, curar o planeta, etc.

Além disso, o projeto valoriza o papel e os saberes das mulheres, que sempre foram as guardiãs da horta e das receitas tradicionais.

AS ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS E A AGRICULTURA

A agricultura vai ser uma das atividades que mais sofrerão das alterações climáticas.

As alterações climáticas provocarão aumento das temperaturas, secas e inundações mais frequentes, podendo prejudicar as safras e o bem-estar das comunidades que têm

a agricultura como sua fonte principal de renda.

Na África, as regiões áridas ou semiáridas se tornarão ainda mais secas, e nas regiões equatoriais, e em algumas regiões do Sul, o clima se tornará cada vez mais úmido.

A agricultura pode ser responsável tanto pelo agravamento do problema, como também

pode contribuir a reduzi-lo sensivelmente, lutando contra as alterações climáticas.

A desflorestação, a monocultura, a queima do terreno, o uso de fertilizantes químicos (cuja produção necessita de uma grande quantidade de combustíveis fósseis) são práticas

agrícolas não sustentáveis, que liberam grandes quantidades de gás na atmosfera, o principal responsável pelas alterações climáticas.

Uma agricultura sustentável reduz a dependência de combustíveis fósseis (evitando os produtos químicos), favorece a retenção de umidade e gás carbônico no solo, defende da erosão e retarda o processo de desertificação (graças ao cultivo de árvores e arbustos e, de modo especial, leguminosas), utiliza menos água, privilegia os cultivos mais resistentes, capazes de se adaptarem às secas.

Uma agricultura sustentável, portanto, mitiga as alterações climáticas, preservando as comunidades locais de seus efeitos negativos.

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2. SUGESTÕES PARA A CRIAÇÃO DE UMA HORTA SLOW FOOD

Antes de começar a preparar uma horta, é preciso avaliar bem onde vai ser criada.

É importante observar para compreender onde a horta pode ser criada, qual o clima,

o tipo de solo, a exposição, onde há água, o que cresce no terreno que se pretende cultivar.

A observação, e um pouco de bom senso, são os pontos de partida para criar uma horta

Slow Food.

Alguns elementos que não devem ser esquecidos:

• um recipiente (de barro, concreto, plástico

sementes de boa qualidade não geneticamente modificados, se possível vindos de

outros agricultores,

• uma parcela de terra com terreno de boa qualidade, sem muitas pedras, exposta ao sol durante grande parte do dia

• uma área para a compostagem, que não deve ser muito distante da horta, para que

a compostagem possa ser facilmente transportada, mas que também não pode ser excessivamente distante, para não favorecer a presença de insetos;

• um espaço para a sementeira, que deve estar a uma distância mínima de 30-50 metros da horta, para que os parasitos presentes na horta não ataquem as sementes;

• um caminho para se deslocar dentro da horta sem pisar nas mudas. O caminho, na

temporada seguinte, poderá ser cultivado, favorecendo a rotação, sem que o terreno se

empobreça;

• uma cerca para manter os animais à distância, que pode ser feita com diversos

tipos de plantas (a mandioca, por exemplo, que além de defender a horta, também dá frutos que podem ser consumidos; o vetiver, útil para afastar os insetos nocivos; cactus com espinhas, para que as cabras não se aproximem; leguminosas arbóreas, como a caliandra, que produz folhas que também podem ser usadas como forragem e lenha para queimar), com madeiras, bambu, etc. Na margem das hortas podem ser cultivadas

flores, para atrair os insetos úteis para a polinização e/ou inimigos naturais dos insetos

nocivos;

• alguns cartazes de sinalização, para que as pessoas não entrem na horta, e sobretudo

para dar informações sobre a horta do Slow Food: os cartazes podem ter o nome da escola, falar da filosofia do projeto Slow Food, informar sobre as formas de cultivo da horta, e os eventuais patrocinadores.

) para recolher a água

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A cerca pode ser feita com diversos tipos de plantas, madeiras, bambu, etc. Se a

A cerca pode ser feita com diversos tipos

de plantas, madeiras, bambu, etc. Se a cerca

é bem construída, também pode servir como

suporte para variedades de trepadeiras (por exemplo a aboboreira, como na foto)

servir como suporte para variedades de trepadeiras (por exemplo a aboboreira, como na foto) Dois exemplos

Dois exemplos de cartazes

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3. SUGESTÕES PARA A GESTÃO AGRONÔMICA DAS HORTAS

OS PRODUTOS QUÍMICOS SINTÉTICOS: POR QUE SÃO PERIGOSOS PARA AS PESSOAS, O MEIO AMBIENTE E A ECONOMIA DA HORTA Para a fertilização e a defesa de pragas e infestantes, as hortas Slow Food privilegiam o uso de substâncias naturais, e não químicas sintéticas. Nas comunidades onde os produtos químicos forem muito utilizados nos cultivos, objetivo da projeto será também acompanhar as comunidades, para reduzir e, paulatinamente, eliminar os produtos químicos. Objetivo final será uma maior sustentabilidade ambiental das atividades agrícolas.

Muitas vezes, os produtos químicos sintéticos são considerados uma solução rápida e eficaz para a luta contra pragas, para fertilizar o solo, etc.

Na verdade, os produtos químicos são perigosos para as pessoas, a terra e também para

a economia da horta.

• são altamente tóxicos e perigosos para as pessoas que os manuseiam e utilizam na

horta

• para alcançar os efeitos desejados, é preciso saber utilizar os produtos químicos

segundo as doses corretas: são necessárias competências técnicas específicas, e os agricultores acabam dependendo da ajuda de especialistas

• muitos produtos químicos sintéticos são altamente tóxicos e, se não forem utilizados segundo as doses corretas, provocam graves danos ao solo, à água, à safra e aos consumidores das hortaliças tratadas

• os produtos químicos podem matar todos os insetos presentes na horta, tanto os

nocivos, como os insetos úteis para a polinização e o controlo natural de pragas

• a curto prazo, os produtos químicos sintéticos afetam a sustentabilidade econômica da horta: são caros e exigem gastos elevados de quem cultivar uma pequena horta

• os produtos químicos sintéticos também afetam a sustentabilidade econômica a

longo prazo: é preciso continuar comprando-os anualmente e podem empobrecer o

solo, reduzindo a quantidade e qualidade da safra e, consequentemente, a renda do agricultor

• com o passar do tempo, reduzem a fertilidade do solo, gerando dependência de um maior número de produtos químicos sintéticos

• as estações agressivas de algumas regiões da África podem provocar a perda dos

produtos químicos utilizados na horta, sem que tenham produzido o efeito desejado

As substâncias naturais (como as substâncias extraídas do vetiver, dos fixadores de nitrogênio, da calêndula africana), pelo contrário:

• não são perigosas para a saúde dos agricultores e das pessoas que comem as hortaliças tratadas

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• são conhecidas há gerações e seu uso é um patrimônio da cultura local

• não são tóxicas: pelo contrário são capazes de enriquecer o terreno, purificar a

água, preservar o solo, afastar pragas e doenças, melhorar o crescimento de plantas associadas

• não afetam a sustentabilidade econômica da horta: se encontram na natureza, ou, se

for preciso, devem ser compradas uma única vez, pois duram vários anos, podendo ser reproduzidas graças às sementes

As substâncias naturais são eficazes se colocadas num sistema integrado que prevê uma rotação de cultivos, associações e uso de variedades tradicionais (bem adaptadas, mais resistentes às secas e às pragas).

3.1 Tipo de produtos

Na horta podem ser cultivados diversos tipos de produtos alimentares (hortaliças, legumes, tubérculos, frutas) e não alimentares (ervas aromáticas e medicinais, plantas tintórias, plantas ornamentais, plantas úteis para o melhoramento do solo, a gestão de pragas e árvores florestais para a produção de madeira e árvores para a fixação do nitrogênio). Pode se tornar útil também a criação de animais (de granja, cabras, ovelhas, bovinos, suínos, etc.), que comem os resíduos vegetais e produzem esterco.

Na horta é importante privilegiar os cultivos de produtos tradicionais da região. As variedades tradicionais são as mais apropriadas ao clima e ao terreno, e oferecem o máximo de seu potencial na região em que se adaptaram ao longo dos séculos, graças ao trabalho do homem. Por isto são mais resistentes, e precisam de menores intervenções externas (adubos e defensivos), sendo por isto mais sustentáveis, tanto do ponto de vista meio ambiental, como do ponto de vista econômico. Também desempenham um papel importante para a preservação da biodiversidade e para a valorização da cultura e das tradições alimentares das comunidades.

Para os produtos não tradicionais, é fundamental fazer escolhas atentas, avaliando as variáveis climáticas (temperaturas, chuva, etc.) e do solo, além das necessidades nutricionais.

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Dois exemplos de produtos tradicionais (na Tanzânia). Os cartazes indicam o nome local e cientifico da planta

Os cartazes indicam o nome local e cientifico da planta DEFINIÇÃO DE PRODUTO TRADICIONAL O adjetivo
Os cartazes indicam o nome local e cientifico da planta DEFINIÇÃO DE PRODUTO TRADICIONAL O adjetivo

DEFINIÇÃO DE PRODUTO TRADICIONAL

O adjetivo “local” nos informa muito pouco sobre a história e a tradição de um

território. Variedades localmente melhoradas podem ser cultivadas e o mesmo pode ser feito com híbridos introduzidos recentemente e produtos externos à cultura de um lugar.

Um produto tradicional, no entanto, possui uma forte associação com o território, considerado não somente como um espaço climático e ambiental mas como um meio cultural e histórico. Não trata-se portanto de uma simples alusão a um “onde”, mas de um “como”: o produto é parte da cultura, para a qual possuem um papel fundamental, preponderante, as tradições, os consensos comunitários, os aspectos espirituais ou religiosos, as técnicas de cultivo e transformação, as receitas.

O produto cultivado localmente é tradicional somente se faz parte da cultura e da tradição das comunidades locais.

Algumas vezes a área geográfica (origem) de um produto tradicional coincide com

o local de domesticação (o café da floresta de Harenna em Etiópia, por exemplo,

é tradicional desta área mas também foi domesticado no planaltos etíopes), mas normalmente os produtos foram domesticados em outras nações e continentes e, antes de se adequar ao clima em determinadas áreas, fizeram percursos muito longos (por exemplo, o tomate menten é tradicional de Guiné Bissau, mas foi domesticado nos Andes).

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3.2 As sementes

A agricultura industrial baseia-se em um número limitado de novas variedades, muitas vezes híbridas, propriedade de umas poucas multinacionais. 90% do mercado mundial das sementes de milho, por exemplo, são sementes híbridas controladas por três multinacionais.

Na África também, as sementes locais (tradicionalmente autoproduzidas) têm sido substituídas progressivamente por variedades patenteadas que devem ser compradas a cada ano. Trata-se de um fenômeno recente, que corre o risco de se expandir a grande velocidade, afetando a vida e o trabalho de comunidades rurais que durante milênios selecionaram e multiplicaram as sementes na própria terra.

É fundamental recuperar estes antigos saberes: junto com a terra e a água, as sementes garantem o futuro dos agricultores.

Em primeiro lugar, é importante recuperar as sementes tradicionais e locais, que podem ser procuradas junto aos bancos de sementes das comunidades rurais; os agricultores que cultivam e conhecem as variedades tradicionais; os institutos de pesquisa que protegem a biodiversidade do país, guardando sementes de diversas variedades.

A sementeira é um viveiro onde, a partir das sementes, se preparam as mudas para todos os tipos de hortaliças. Pode ser realizado numa pequena parcela de terra, num caixote ou em outro material reciclável (caixas de ovo, garrafas, latas, bandejas de isopor

feita, por exemplo, com uma mesa levantada (por exemplo, areia) e mantida ao abrigo da

feita, por exemplo, com uma mesa levantada (por exemplo, areia) e mantida ao abrigo da chuva

Como mostram as fotos, a sementeira pode ser do nível do solo, preenchida com material inerte

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e dos raios diretos do sol, com uma cobertura de folhas, de esteiras ou de outro material.

furadas no fundo, etc.). Pode ser realizada em qualquer momento do ano.

Deve ser levantada do nível do solo (por exemplo apoiando a caixa em tijolos, ou colocando-a numa mesa), para evitar que as raízes se desenvolvam no terreno abaixo da sementeira. Se se realiza numa caixas de madeira ou plástico, é necessário cobrir o fundo com um pano (por exemplo juta) para reter a terra e deixar filtrar a água.

A sementeira é aquecida naturalmente pela luz do sol. Deve ser mantida ao abrigo da

chuva e dos raios diretos do sol, com uma cobertura de folhas, esteiras ou de outro material, até quando não brotarem as mudas.

A terra utilizada para as sementeiras deve ser sã (isto é sem parasitas e esporos),

adubada com fertilizantes orgânicos, peneirada e com adição de areia, para favorecer uma boa drenagem. A composição ideal é de duas partes de “terra de horta” e uma parte

de areia.

Conforme o tipo, as sementes deverão ser espalhadas no solo e cobertas com terra (bem peneirada) ou enterradas levemente, exercendo uma leve pressão com o dedo. No final serão regadas por aspersão, para evitar que se disperdam.

É importante que as sementes não estejam muito perto uma da outra: as mudinhas

precisam de espaço e luz para crescerem. As plântulas muito próximas uma da outra poderão inclusive desenvolver podridão radicular.

É difícil prever quantas sementes irão germinar: isto vai depender das propriedades genéticas da semente, de seu grau de amadurecimento (no momento da colheita), de

a presença de doença, de como foi guardada a semente. Elementos que favorecem a

germinação são a temperatura (geralmente uma temperatura ideal é entre 18 e 24°C),

a umidade (constante, sem excessos), o bom equilíbrio entre luz e sombra (a maioria

das sementes prefere a escuridão, ou a sombra, mas há exceções), e a justa oferta de oxigênio (que se obtém enterrando as sementes bem levemente ou cobrindo com terra bem peneirada).

É importante deixar de lado pelo menos a metade das sementes, no caso de não

germinação. Quando as mudinhas tiverem nascido (antes que as raízes comecem a se desenvolver excessivamente), deverão ser transplantadas no campo. É uma operação delicada, pois as mudas são muito frágeis. Cuidar bem de não quebrar as raízes durante o transplantio.

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Assim que forem transplantadas, as mudinhas deverão ser regadas. O ideal é fazer o transplantio à tardinha, quando a temperatura for mais fresca, para evitar que recém transplantada, a plântula fique ao sol um dia inteiro.

3.3 Rotação dos cultivos

É importante prever a rotação dos cultivos na horta, evitando cultivar a mesma espécie durante vários anos e sempre na mesma parte da horta (por exemplo plantar tomates onde na safra anterior havia tomates). A rotação é importante pois alterna plantas que empobrecem o terreno, com plantas que o enriquecem, melhora a estrutura do terreno e interrompe o ciclo vital dos parasitas ligados a um determinado cultivo ou de ervas daninhas.

O caminho pode ser cultivado no começo de cada nova temporada seguinte, favorecendo a rotação, sem que o terreno se empobreça. Em cada fileira se cultiva uma variedade diferente. É importante prever a rotação dos cultivos em cada fileira em cada época de semeadura. As fileiras onde são cultivadas as hortaliças devem ser ligeiramente levantadas do solo, de forma que a água não estagne e não murchem as raízes

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3.4 Cultivos associados

É importante associar, na horta, dois ou mais cultivos. Escolhendo-os bem, se reduz ao mínimo a competição entre eles, favorecendo a ajuda mútua entre diversos cultivos.

Algumas plantas podem fixar o nitrogênio, outras podem atrair os insetos benéficos ou afastar os insetos nocivos, outras ainda podem ser um suporte para outros cultivos (como no caso do milho com o feijão). Também existem plantas capazes de captar a energia solar ainda que posicionadas abaixo de outros cultivos: é o caso da abóbora, que consegue captar a luz graças à folhagem.

da abóbora, que consegue captar a luz graças à folhagem. Dois exemplos de cultivos associados A

Dois exemplos de cultivos associados

A arte dos horticultores é experimentar as associações de cultivos em sua parcela, encontrando as melhores combinações em função do clima e da vegetação específica, da prevalência de pragas e infestantes.

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3.5 Adubação, recuperação da fertilidade e proteção do solo

Para resolver os problemas de perda de nutrientes, erosão e salinização, podem ser utilizados diversos métodos naturais.

Biofertilizantes: são fertilizantes de origem natural. Ricos em substâncias orgânicas,

melhoram a estrutura do solo, não gerando problemas de salinização e erosão, e nutrindo as plantas. Entre eles:

vermicompostagem ou minhocultura: obtida a partir de esterco, papel, papelão,

resíduos de outros cultivos. Graças à ação da minhoca que ingere a mistura de detritos,

a digere e expele como fertilizante

compostagem: obtido graças à ação de micro-organismos que metabolizam os

resíduos biodegradáveis, resíduos de cultivos e de forragem, esterco, terra e água

esterco líquido: obtido colocando o esterco na água

Os biofertilizantes não são concentrados como os fertilizantes minerais: para garantir uma quantidade suficiente e melhorar a estrutura do terreno, devem portanto ser utilizados em maior quantidade. Podem ser espalhados antes da semeadura, ou do transplantio das plântulas. Para não prejudicar os cultivos, é importante que sejam bem utilizados e somente quando estiverem no grau certo de amadurecimento.

Adubação verde: alguns cultivos podem ser enterrados. No solo vão se decompondo produzindo vários efeitos: podem enriquecer o terreno, melhorar sua estrutura, interromper

o ciclo vital de insetos e pragas, etc. As leguminosas podem ser utilizadas para adubação verde, as crucíferas (rábano, mostarda), as gramíneas e as brassicáceas (couves, etc.)

Acolchoado: a cobertura do solo com feno, palha, folhagem o outro materiais. Controla as ervas infestantes, retém a umidade, preserva o solo da erosão, se transforma em fertilizante orgânico na hora de se decompor.

É muito importante controlar uma oferta adequada de água, para evitar a erosão do terreno quando chove. Pequenos canais construídos com tijolos de argila, por exemplo, podem servir para canalizar a água e recolhê-la em piscinas, onde pode ser conservada para a irrigação.

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3.6 Controlo biológico e integrado de insetos, pragas e ervas daninhas

É fundamental prevenir o ataque de insetos e prigas, de várias formas:

• mantendo o solo saudável

• escolhendo cultivos que se adaptaram à região e ao clima ao longo dos séculos

• selecionado sementes não infectadas e não infestadas

• diversificando os cultivos da horta (biodiversidade)

• adotando a rotação e associação de cultivos

• adubando corretamente o solo

• administrando corretamente a irrigação

• administrando corretamente tempos e espaços para a semeadura

Além dos métodos preventivos, é preciso fazer controles constantes no campo, para identificar eventuais problemas fitossanitários, intervindo quanto antes, com métodos de defesa e luta contra insetos, pragas e ervas daninhas.

Controlo biológico: efetua-se usando inimigos naturais, que podem atacar os insetos nocivos, eliminando-os ou mantendo sob controlo a sua população. Os inimigos naturais podem ser comprados (produzidos em laboratório em universidades e centros de pesquisa), mas, muitas vezes, se encontram na natureza.

Controlo microbiológico: alguns produtos bacterianos (ou extratos de fungos) são nocivos para os insetos danosos, outros inibem o desenvolvimento de micro-organismos que provocam pragas. Distribuídos em cultivos como um normal produto antiparasitário, são inócuos para o homem e demais animais de sangue quente. (por exemplo: Tricorema, Bacillus thuringensis, Bauveria Baussiana, NPV virus, nematodi Stemeumema etc.).

Inseticidas de origem vegetal: alguns produtos tradicionais – como o extrato de tabaco (contendo nicotina), neem (contendo azadiractina), pimenta malagueta, alho, gengibre, baobá, urtiga, etc. – são muito eficazes para o controlo de insetos danosos.

Antiparasitários de origem mineral ou outra origem: alguns produtos tradicionais são à base de minerais – como enxofre, arame, carbonato de cálcio, etc. – ou de outros componentes: sabão, óleo, cinzas, etc.

Armadilhas: existem vários tipos de armadilhas, por exemplo as cromotrópicas (que coletam os insetos atraídos por líquidos ou superfícies coloridas), Malaise, com hormônios (por exemplo as armadilhas à base de feromônios femininos que servem para coletar os machos dos insetos danosos – como o fitófago Cylas phormicarus -, reduzindo o número de acasalamentos e a densidade da população).

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3.7 Sugestões para a gestão da água

É fundamental uma correta gestão da água.

Antes de mais, é preciso privilegiar as variedades mais resistentes, mais adequadas ao clima e mais resistentes à falta de água. Algumas espécies híbridas são mais produtivas que as variedades tradicionais, mas precisam de muita água.

É importante seguir o ciclo das estações, sem pretender uma produção doze meses

ao ano. Uma correta gestão da água pode prolongar a safra, mas não se deve chegar a situações extremas.

É preciso recolher a água da chuva, criando reservas (com reservatórios de vários tipos, tanques, recipientes etc.) que podem permitir a irrigação da horta.

A própria preparação do terreno desempenha uma função importante: as árvores devem ser plantadas num buraco, com um pequeno fosso em volta que retenha a água na zona das raízes. As camas onde são cultivadas as hortaliças (especialmente as verduras de folha), pelo contrário, devem ser ligeiramente levantadas do solo (aproximadamente 10 cm), de forma que a água não estagne e não murchem as raízes.

É preciso também se preocupar com a distribuição da água. É melhor distribuir, com regularidade, pequenas quantidades de água.

Dois exemplos de colheita da água: um recipiente e um tanque para

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recolher a água da chuva através de telhado (direccionada por calhas)

da água: um recipiente e um tanque para 16 recolher a água da chuva através de

Se a horta não for muito grande, poderão ser utilizados regadores, que poderão ser criados com materiais recicláveis (por exemplo garrafas de plástico), que deverão ser lavadas bem antes do uso. Ou também poderão ser implementados sistemas de irrigação localizada (por gotejo), que podem ser construídos com tubos de plástico com furos (que, porém, são caros, não se encontram facilmente, e além disso, deterioram-se rapidamente ao sol), ou com materiais baratos, ou até materiais reciclados.

Um exemplo de irrigação por gotejo: garrafas de plástico penduradas em cima, com um pequeno furo na tampa que deixa sair gotas de água – durante a noite – não diretamente sobre as plantas, mas no terreno entre uma planta e outra (onde crescem as raízes).

Um exemplo diferente de irrigação por gotejo no solo: um pote de barro, uma latinha ou uma garrafa enterrados, com pequenos furos que deixam sair a água, pouco a pouco.

Um exemplo de irrigação por gotejo com materiais recicláveis
Um exemplo de irrigação por gotejo
com materiais recicláveis

É importante evitar a irrigação por sulcos (através de pequenos canais que distribuem

a água na horta): com a evaporação e à absorção no terreno do sulco, pode haver uma perda de água de até 50%.

São muito úteis as cercas vivas, que dão sombra e retêm a água com suas raízes. Se realizadas com vetiver, as plantas das cercas desempenham também uma função repelente contra os insetos. Uma ou duas vezes por ano, é possível diluir compostagem ou esterco líquido na água, fazendo com que o terreno, pouco a pouco, absorva os nutrientes através da irrigação (a chamada fertigation).

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PORQUE DEVE SER EVITADA A “CORTA E QUEIMA”

A prática da queima dos terrenos, antes dos cultivos, oferece poucas vantagens e

inúmeros problemas. Queimar a vegetação aumenta parcialmente a fertilidade do terreno, mas só temporariamente, pois a longo prazo a queima empobrece o solo, podendo até ser causa de desertificação, tanto nos ambientes tropicais como mediterrâneos. Nos ambientes tropicais e muito chuvosos, os elementos nutritivos são guardados na biomassa viva.

A queima:

• reduz drasticamente os organismos capazes de assimilar e imobilizar os elementos

nutritivos em forma mineral

• causa a perda de substâncias orgânicas importantes para a fertilidade do solo, como gás carbônico disperso no ar durante a combustão

• altera as relações entre mineralização e absorção de substâncias orgânicas, deixando

no

terreno uma quantidade excessiva de elementos minerais.

O

resultado imediato é um aumento da fertilidade química do solo, mas a erosão

provocada pelas chuvas tropicais, ao longo do tempo, subtrai do ecossistema uma parte de matéria, reduzindo a potencial produtividade. No ambiente mediterrâneo, acontece o mesmo fenômeno de empobrecimento dos terrenos, embora com ritmos menos intensos.

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4. SUGESTÕES PARA A GESTÃO ECONÔMICA DA HORTA

Os produtos da horta podem ser destinados a usos diversos:

• são recursos alimentares importantes para quem cultivar a horta (consumo familiar)

• permitem trocas com parentes, vizinhos, etc.

• podem ser cozinhados e consumidos nas cantinas escolares

• podem ser vendidos diretamente (frescos, processados, ou cozinhados nas ruas)

• nas épocas do ano em que houver uma produção excedente, é possível processar e comercializar produtos de qualidade (molhos, conservas de frutas, farinhas, etc.)

Um uso atento dos produtos também pode garantir a sustentabilidade econômica da horta ao longo do tempo.

4.1 Sugestões para as hortas comunitárias

Há vários escoamentos para os produtos cultivados nas hortas comunitárias. Em primeiro lugar, os mercados locais, onde as comunidades podem vender diretamente os produtos frescos, escolhendo formas diversas de comercialização. Em Rabat, no Marrocos, por exemplo, os clientes reservam semanalmente uma cesta com os produtos de temporada.

De modo geral, é mais fácil vender os produtos se as comunidades e as famílias já os conhecem. Há atividades que podem ajudar a valorizar as variedades locais.

Por exemplo, algumas comunidades organizam pequenos eventos na horta: apresentam os produtos, explicam as várias formas de prepará-los, cozinham e comem todos juntos.

Como o Slow Food já fez na Tanzânia e no Marrocos, podem ser publicados livros de receitas, úteis para divulgar os produtos locais e estimular as pessoas a utilizá-los na cozinha.

Além disso, a rede do Slow Food pode ajudar a encontrar novos escoamentos para os produtos das hortas comunitárias, promovendo contatos com restaurantes e cozinheiros do Terra Madre locais, comprometidos a valorizar os produtos tradicionais em seus cardápios.

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4.2 Sugestões para as hortas escolares

Os produtos da horta escolar podem ser preparados e consumidos na cantina escolar, ou vendidos no mercado local, segundo decisão da escola. Se a colheita for vendida, os lucros poderão servir para cobrir as taxas escolares dos alunos, comprar material escolar, ferramentas para a horta, etc.

5. SUGESTÕES DE ATIVIDADES EDUCACIONAIS

A horta é uma ferramenta importante para a educação.

Cultivar a horta oferece a possibilidade de, por exemplo, conhecer melhor as variedades de hortaliças locais, aprender a usar solo e água de forma sustentável, diversificar a alimentação, cultivar com métodos que respeitem o meio ambiente.

Na horta o trabalho é de grupo, e se aprende em conjunto, graças à troca com toda a comunidade.

Além disto, na horta é possível desenvolver várias atividades didáticas. As escolas

e as comunidades podem organizar cursos teóricos e práticos de gastronomia, para

que crianças e jovens possam conhecer os produtos locais e as tradições alimentares. Podem também organizar degustações dos produtos da horta, festas e outras iniciativas, para comunicar a toda a comunidade a importância do consumo local.

A horta tem uma ligação com a saúde do homem e do meio ambiente, e oferece a

possibilidade de sensibilizar a comunidade sobre temas diversos: o papel das plantas medicinais e das hortaliças frescas no tratamento da malária ou das pessoas com HIV;

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a importância da correta eliminação dos resíduos; a preservação do ambiente, fora e dentro da horta; os possíveis riscos da queima do terreno, e também a razão pela qual é melhor não utilizar esta prática, etc.

Na horta escolares é possível estudar muitas matérias, graças a sua forte valência interdisciplinar: é possível ensinar história explicando a contaminação gastronômica; geografia, através da origem dos produtos; matemática e geometria são indispensáveis para planejar a horta e calcular o valor da produção, e a aprendizagem de um idioma estrangeiro se torna mais fácil, fazendo referência a uma experiência prática conhecida.

FAST FOOD / SLOW FOOD

O “fast food”, ou seja a refeição rápida, tornou-se, em anos recentes, um tipo de

alimentação cada vez mais frequente. Quando se fala de “fast food”, pensa-se imediatamente a um hambúrguer com batata frita, uma bebida em latinha, numa das muitas lojas das cadeias presentes no mundo inteiro. A comida servida nesses locais caracteriza-se por uma produção, processamento e consumo que não valoriza os produtos e os sabores locais, mas que – pelo contrário – oferece um produto (o hambúrguer, por exemplo) padronizado, com o mesmo sabor no mundo inteiro. Não se trata apenas de reduzir a riqueza de sabores. Não valorizando os produtos locais, não se valoriza a economia local e o trabalho dos agricultores que preservam produtos típicos do país e muitas vezes únicos ao mundo. Além disso, o “fast food” é prejudicial para a saúde. Trata-se de produtos que geralmente têm qualidade insuficiente de muitos ingredientes (muitos elementos fritos, gordurosos, salgados e adoçados), e quantidade insuficiente de nutrientes importantes (sais minerais, amido, fibras e vitaminas). A difusão do “fast food” corresponde a um aumento do diabete, da obesidade, das doenças cardíacas.

O

Slow Food promove alimentos bons e de qualidade, que valorizam os cultivos e

as

culturas locais. Segundo o Slow Food, a comida deve ser:

boa: o bom sabor é o resultado da competência de quem produz, da escolha das

matérias primas, e dos métodos de produção que não modificam as características

naturais;

limpa: o meio ambiente deve ser respeitado e as práticas agrícolas, de

processamento, e consumo sustentável não devem ser descuidadas. Todas as etapas da cadeia agroalimentar, incluído o consumo, devem, de fato, defender os

ecossistemas e a biodiversidade, preservando a saúde do consumidor e do produtor;

justa: a justiça social é outro elemento importante: as condições de trabalho

devem respeitar o homem e seus direitos; gerar uma renda idônea, através da busca de economias globais equilibradas; promover a solidariedade, o respeito pelas diversidades culturais e as tradições.

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5.1 Objetivos educacionais do projeto Mil hortas na África

Divulgar os princípios e as práticas da agroecologia

Aprender a planejar e a cultivar hortas que valorizam o princípio do bom, limpo e justo

Conscientizar jovens, professores e toda a comunidade para que aprendam a utilizar com cuidado água, terra e demais bens comuns

Aprender a considerar a agricultura numa perspectiva de médio e longo prazo, respeitando os direitos e as exigências das gerações futuras

Começar a considerar os resíduos como possíveis recursos aproveitáveis, não

desperdiçando os recursos disponíveis, seguindo os exemplos dos ciclos fechados presentes na natureza

Redescobrir a biodiversidade local como elemento para defender o meio ambiente e como fonte para uma alimentação variada durante o ano inteiro

Valorizar os produtos locais e tradicionais, a cultura gastronômica da região

Aprender a promover os produtos locais no mercado

Aprender a selecionar, recuperar, reproduzir e trocar entre agricultores as sementes melhores das próprias plantas

Construir uma comunidade em torno das hortas escolares, comunitárias e familiares

As comunidades do projeto Mil Hortas na África são formadas por coordenadores nacionais, responsáveis locais, professores, estudantes, cozinheiros, horticultores, artesãos, líderes de convivium, detentores de saberes tradicionais ligados a ervas e medicinas (por exemplo curandeiros e parteiras), agrônomos, etc. O envolvimento de pessoas com competências diversas produz uma experiência que é produtiva, educativa e de enriquecimento pessoal e cultural. Os encontros e a valorização de profissões diversas contribui para desenvolver o sentimento de pertença a uma região e suas tradições, além de fortalecer o sentimento de autoestima.

Promover a colaboração, em nível local, entre organizações, operadores e associações

já presentes e ativos, sobre os temas da educação alimentar, agroambiental e gastronômica

Aprender a trabalhar em grupo (a organizar, dirigir, motivar)

Promover a transmissão dos saberes, dos idosos aos jovens

Incentivar a curiosidade em relação aos alimentos, antes de tudo, treinando os

sentidos

Conhecer o alimento em seus aspectos, questionando suas características, e como

foi cultivado e processado, nos permite compreender a relação com o meio ambiente,

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Photo © Paola Viesi

a importância para o organismo e o crescimento, para a cultura e a identidade de um

povo

Aproximar-se da comida com prazer

Promover as características nutricionais dos alimentos e a qualidade superior dos produtos tradicionais (em termos de vitaminas, proteínas, sais minerais)

Incentivar modelos de educação baseados na aprendizagem indutiva: através da

observação e da experiência prática na horta, se aprende a teoria, e os conceitos abstratos se tornam mais claros

Desenvolver atividades interdisciplinares em torno da horta sobre a comida, a cultura

e

o meio ambiente.

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5.2 Um exemplo de atividade didática na horta

Retirada do livro “O Prazer da Horta” do Slow Food Editore

do livro “O Prazer da Horta” do Slow Food Editore Objetivos: • conhecer gostos, usos e

Objetivos:

• conhecer gostos, usos e costumes gastronômicos e comportamentais dos membros da própria família

• atribuir valor simbólico e cultural às hortaliças

Participantes:

valor simbólico e cultural às hortaliças Participantes: crianças (idade: de 9 a 13 anos) Material necessário
valor simbólico e cultural às hortaliças Participantes: crianças (idade: de 9 a 13 anos) Material necessário
valor simbólico e cultural às hortaliças Participantes: crianças (idade: de 9 a 13 anos) Material necessário

crianças (idade: de 9 a 13 anos)

hortaliças Participantes: crianças (idade: de 9 a 13 anos) Material necessário para cada participante: • caderno
hortaliças Participantes: crianças (idade: de 9 a 13 anos) Material necessário para cada participante: • caderno

Material necessário para cada participante:

de 9 a 13 anos) Material necessário para cada participante: • caderno ou bloco • lápis
de 9 a 13 anos) Material necessário para cada participante: • caderno ou bloco • lápis
de 9 a 13 anos) Material necessário para cada participante: • caderno ou bloco • lápis

• caderno ou bloco

• lápis de cor

Realização:

• caderno ou bloco • lápis de cor Realização: Preparar, entregar e explicar a ficha aos

Preparar, entregar e explicar a ficha aos participantes. Cada participante utilizará a lista de perguntas para entrevistar seus familiares, transcrevendo as respostas no caderno. Cada participante completará cada entrevista com:

• o retrato da pessoa entrevistada;

• o desenho da verdura favorita.

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Photo © Paola Viesi

quem
quem
quem Lista de perguntas:

Lista de perguntas:

quem Lista de perguntas:

nome

verdura favorita

 

preferência – cru ou cozido

lembrança ligada a esta verdura

quando é que prefere comê-la?

receita (ingredientes e modo de preparo)

• receita (ingredientes e modo de preparo) Um exemplo de entrevista • quem: o meu pai
• receita (ingredientes e modo de preparo) Um exemplo de entrevista • quem: o meu pai

Um exemplo de entrevista

(ingredientes e modo de preparo) Um exemplo de entrevista • quem: o meu pai • nome:
(ingredientes e modo de preparo) Um exemplo de entrevista • quem: o meu pai • nome:

• quem: o meu pai

• nome: Carlo

• verdura favorita: ervilha

• preferência: crua ou cozida? Cozida

• lembrança ligada a esta verdura: quando eu ia para a casa do meu amigo Mauro

• quando é que prefere comê-la? Com os amigos

• receita: omelete com ervilhas

• ingredientes: 100 gramas de ervilha, 2 ovos, salsa, sal e pimenta do reino

• modo de preparo: bata os ovos

sal e pimenta do reino • modo de preparo: bata os ovos Informações adicionais: Depois de

Informações adicionais:

• modo de preparo: bata os ovos Informações adicionais: Depois de completar a coletânea de receitas,

Depois de completar a coletânea de receitas, cada participante poderá escolher e preparar uma receita.

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6. SUGESTÕES PARA A COMUNICAÇÃO

O Slow Food irá desenvolver, junto com os coordenadores africanos do projeto, as

ferramentas de formação e comunicação mais eficazes, para explicar as formas de criar uma horta boa, limpa e justa e para comunicar os avanços do projeto “Mil hortas na

África”.

Serão realizados e distribuídos nas várias comunidades:

• o manual traduzido nos idiomas locais (swahili, árabe, etc.)

• livros em quadrinhos, pôsteres, fotos e desenhos

• vídeos das atividades realizadas na horta

Localmente, serão envolvidas emissoras de rádio comunitárias, televisão, jornais

Vão ser organizadas festas de inauguração das novas hortas, envolvendo inteiras comunidades.

Todos os instrumentos de comunicação e as atualizações serão publicados no website

da Fundação Slow Food: www.slowfoodfoundation.org

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na África

CONTATOS ÚTILES

Responsáveis do projeto Mil Hortas na África

África do Sul Jeunesse Park park@trees.org.za - tel. +27 117846399

Sithandiwe Yeni sithandiwe@spp.org.za - tel. +27 214485605

Costa do Marfim Yeo Yacouba yeoyac@yahoo.fr - tel. +225 07321781

Egito Aurelia Weintz aureliaweintz@gmail.com

Etiópia Tichafa T. Makovere Shumba

bog55chimbwa@hotmail.co.uk

tel. +251 913544164

Beth Cullen beth.cullen@labatafantalle.org tel. +251 913883164

Ulumma Uke Getu etiopia@cissong.org tel. c/o Enrico Castelli +251 912214133

Guiné Bissau Leandro Pinto Junior

coajoq_2000@hotmail.com

tel.+245 6623590

Quênia Jane Gathoni Karanja

jane_karanja2001@yahoo.com

tel.+254 715639223

John Kariuki Mwangi j.kariuki@slowfood.it - tel. +254 712843776

Peter Wasike Namianya penami78@yahoo.com - tel. +254 711219873

Madagáscar Heritiana Andriamalala herinestor@yahoo.fr - tel. +261 327507546

Mali Ahmed Sekou Tidiane Camara ramacas2@yahoo.fr - tel. +223 75280748

Mauritânia Nedwa Moctar Nech nedwa.nech@yahoo.fr - tel. + 222 22306973

Marrocos Lhoussaine El Rhaffari elrhaffari@yahoo.fr - tel. +212 55574497

Moçambique Celeste Elias Zunguza kulima@tvcabo.co.mz - tel. +258 828529670

Senegal Ibrahima Seck iseckman@yahoo.fr - tel. +221 772584098

Philippe Zingan zingan23@hotmail.com - tel. +221 776477541

Serra Leoa Abdul Koroma slafu2011@yahoo.com - tel. +232 76824913

Alpha Sensi

alfa.sensi@yahoo.com

Musa Tholley tholleym@yahoo.com - tel. +232 76774590

Tanzânia Titus Kimolo Bwitu bwi285@yahoo.com - tel. +255 713907909

Helen Nguya helennguya@yahoo.com

Sandra Gasbarri rucoladoro@yahoo.it - tel. +255 766008615

Uganda Edward Mukiibi ediemukiibi@gmail.com - tel.+256 753858173

Estes contactos são actualizados até o 04/2011. Novidades dos novos países y pessoas envolvidos no projeto serão enviadas regularmente.

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na Itália

Departamento África, Slow Food

Coordenação

Serena Milano s.milano@slowfood.it - tel. +39 0172 419625 - fax +39 0172 419725

Responsáveis dos projetos Slow Food (por cada país)

Michela Lenta m.lenta@slowfood.it - tel. +39 0172 419724 - fax +39 0172 419725 Países: Egito, Líbia, Tunísia, Argélia, Mali, Marrocos, Mauritânia, Guiné, Sierra Leoa, Libéria, Sudão, Somália

Velia Lucidi v.lucidi@slowfood.it - tel. +39 0172 419 681 - fax +39 0172 419 725 Países: Cap-Vert, Senegal, Gâmbia, Mali, Costa do Marfim, Niger, Tchad, Angola, Zâmbia, Malawi, Moçambique, Zimbábue, Botsuana, Namíbia, Suazilândia, Lesoto, São Tomé, África do Sul

John Kariuki Mwangi j.kariuki@slowfood.it - tel. +254 712843776 País: Kenya

Francesco Impallomeni f.impallomeni@slowfood.it - tel. +39 0172 419712 - fax +39 0172 419725 Países: Etiópia, Uganda, Tanzânia, Madagascar, Eritreia, Burundi, R. D. Congo, Congo, Gabão, Guiné Equatorial, Camarões, Nigéria, Benin, Togo, Gana, Burquina Faso, República Centro-africana, Djibuti

Coordenação do projeto Mil hortas na África

Marta Messa m.messa@slowfood.it - tel. +39 0172 419767 - fax +39 0172 419725

Comunicação e fundraising do Projeto Mil hortas na África

Elisabetta Cane ortiafrica@terramadre.org - tel. +39 0172 419756 - fax +39 0172 421293

Departamento Imprensa Slow Food Paola Nano p.nano@slowfood.it - tel. +39 0172 419645 - fax. +39 0172 413640

Departamento Comunicação Fundação Slow Food para a Biodiversidade Eleonora Giannini e.giannini@slowfood.it - tel. +39 0172 419767 - fax. +39 0172 419725

Departamento Educação Slow Food Itália Annalisa D’Onorio a.donorio@slowfood.it - tel. +39 0172419696 - fax. +39 0172419750

Agrónomos Slow Food Cristiana Peano (Facultad de agronomia de la Univesidad de Turin) cristiana.peano@unito.it - tel. +39 011 6708660

Francesco Sottile (Facultad de agronomia de la Univesidad de Palermo) fsottile@unipa.it - tel. +39 091 23861200

Paola Migliorini (Universidade de Ciências Gastronômicas, Italia) p.migliorini@unisg.it - tel. +39 0172458573

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Photo © Paola Viesi

O presente manual representa um ponto de partida, e não de chegada, no caminho de realização das hortas Slow Food. Será integrado com as contribuições dos coordenadores e das comunidades, identificando, em cada país, as práticas melhores e mais apropriadas para as diversas realidades ambientais, sociais e culturais.

Notas

Photo © Oliver Migliore

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