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O PRESENTE

– Tiaguito! Tiaguito!
Sim, a mãe chamava-o assim desde que se lembrava, excepto quando se portava
mal, isto é, quando a mãe achava que ele se portava mal, momento em que se passa-
va a chamar Tiago Manuel. Mas ele gostava desse nome, Tiago; de Tiaguito, nem por
isso. Com catorze anos, o nome já tem a sua importância, já ganhou uma força muito
especial.
– Tiaguito!
Já para o pai e o avô, que vivia também lá em casa, Tiago era como o chamavam e,
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se tivesse irmãos ou irmãs, seria igual: «As coisas (e as pessoas) devem ser chamadas
pelos seus nomes», costumava dizer o pai, que falava pouco e era uma pessoa muito
directa.
– Tiago Manuel, não te chamo outra vez!
Isto é um sinal de alarme e Tiago lá se levantou da cama onde estava a ler o jornal
da escola e foi ter com a mãe, sentada a coser mais um par de meias.
– Chegou isto da tua tia para ti.
Tiago pegou no pequeno pacote: era mole e pouco maior do que um dossiê A4,
daqueles que usava como cadernos diários.
– Lá dentro está uma carta da tua tia. Vê o que é. E depois escreve a agradecer.
Uma prenda da tia que vivia na Bélgica era sempre boa notícia. Chocolates, um cd,
de vez em quando, uma camisola de jogador de futebol: era capaz de ser isso, uma
camisola desportiva. Tiago gostava de aparecer na rua e na escola com uma camisola
nova, daquelas que ninguém tinha, a marca pouco importava. Ali, em Vila Nova da
Fortaleza, tinha muitos amigos, da mesma idade e mesmo mais velhos, que olhavam
para as T-shirts e para os sapatos que às vezes usava. Ele fingia que nem fazia ideia de
onde vinham, mas sabia bem que eram as prendas que a tia da Bélgica lhe mandava.
Ao abrir o embrulho confirmou que era uma camisola, mas de manga curta, uma
T-shirt de cores castanhas e amarelas, sem nenhum símbolo ou desenho, mais ou
menos comprida. Nunca tinha visto nenhuma assim e já se estava a imaginar a entrar
na sala de aula com ela vestida.
Abriu a carta da tia e, depois dos desejos de saúde e de boas notas na escola (era
sempre assim), vinham umas linhas escritas pela Léa, prima já nascida lá, que falava
um português cheio de erros, pior que duas raparigas ucranianas que andavam lá na
escola. Léa já tinha quase 15 anos e eles os dois não se davam muito bem. Sempre
que ela e a família vinham a Portugal ficavam lá em casa para poupar para o inverno,
diziam, e ele tinha de dormir na sala. Bem, isso até não era problema, sempre via
mais televisão, mas tinha de aguentar as
2 perguntas embirrentas e insistentes dela.
Como algumas que vinham na carta:
«Já puseste a T-shirt? Sabes o que é um
magazine do mundo? Aí já há comércio
’équitable’ ou justo? Vocês aí têm
destas T-shirts? Acho que não! Podes
falar comigo no msn?» E pronto! Lá
estava ela a dar erros! Pôr em vez
de vestir! Magazine do mundo? O
que era isso? É a maneira de dizer
aí como se fosse outro planeta ou
estivesse muito longe, ou o primo
vivesse numa terra atrasada! E sabia
lá o que era Comércio Justo! O que
um primo tem de aturar! E o que era
«équitable»?
À T- shirt estava atada uma etiqueta que, além de falar em algodão ecológico, dizia
ter sido feita no Bangladesh, pela Ywca. Quem seria ou o que seria Ywca? Uma mulher
do Bangladesh? Uma fábrica? E onde fica o Bangladesh? O avô devia saber, depois
perguntava. Mas agora ele tinha outra ideia.
– Mãe, queres que vá ao super comprar pão?
– Sim, já percebi, queres ir mostrar a camisola nova! O dinheiro está em cima do
frigorífico. Traz um pão regional, não tragas pão branco que faz mal. E não te demores.
Escreve à tua tia!
Ainda a ouvir a voz da mãe, vestiu a T-shirt, desceu as escadas com pressa, chegou
à porta da rua e atrasou o passo. Caminhou pela rua devagar: afinal (a mãe tinha ra-
zão), o que era importante era andar com calma, para que a rua, toda a Vila Nova, o
concelho, Portugal inteiro o vissem bem, mesmo muito bem...

***
A etiqueta falava, num francês que o Tiago foi entendendo, em comércio «équitable» 3
e não em Comércio Justo. No dicionário estava que «équitable» quer dizer «equitativo»,
ou seja (outro dicionário), «que tem equidade; justo; recto». Pronto, tudo bem, mas o
que era uma T-shirt justa? Comércio equitativo e Comércio Justo era a mesma coisa?
A Léa tinha falado no messenger... Talvez ela lhe quisesse dizer mais... A biblioteca
da escola estava aberta e os computadores ligados. Entrou e sentou-se no computa-
dor mais ao fundo, aquele que está atrás da pilha de livros sempre por arrumar. Ali
estava mais protegido dos olhares da contínua e, se entrasse alguém, podia logo
fechar o msn. Foi clicando e escreveu o nick da prima. Nada. Quando a gente quer,
quando a gente precisa de alguma coisa, nada! Deixou uma mensagem e tirou a
etiqueta da T-shirt do bolso. Era de um papel diferente, meio acastanhado, com
um símbolo esquisito. Havia uma palavra que o Tiago não sabia traduzir e, a seguir,
écologique (que era ecológico, isso era fácil) do Bangladesh, que o avô tinha dito ser
rodeado pela Índia, na Ásia.
Longe!
Por debaixo de COMMERCE
EQUITABLE vinha escrito FAIR TRADE. FAIR era
4 justo e TRADE era troca, venda, comércio. Então equita-
tivo queria dizer justo. A Léa talvez tivesse razão. Mas por que foi a tia
comprar uma roupa de tão longe em Bruxelas? Devia ter sido cara! Em Bruxelas não
havia T-shirts mais baratas? No dia seguinte, Tiago lá estava, todos os intervalos, no
computador atrás dos livros. No terceiro intervalo teve uma surpresa: a Léa dizia-lhe,
numa mensagem, que estaria à espera dele à tarde, por volta das quatro. Às quatro
menos um quarto, lá estava o primo a querer falar com a prima que, pontualmente,
apareceu. Primeiro, foi difícil para ele entender tudo quanto ela dizia, não só por
causa do português que escrevia mas porque as abreviaturas no msn não eram iguais
em Portugal e em França. Ainda assim, o Tiago ficou a saber o que queria, para já,
depois de ter agradecido o presente. Commerce équitable é como se diz nos países
que falam francês; os que falam inglês dizem Fair Trade e, nos que falam português,
Comércio Justo. Vinha tudo a dar mais ou menos ao mesmo; esta T-shirt e outras
roupas, nem todas, eram feitas com algodão biológico do Bangladesh e tinha sido
fabricada na Europa (o que Tiago achou estranho, mas tudo bem). Ywca não sabia o
que era mas ia ver (a prima que sabe tudo não sabia esta! Boa!) Os produtos do Co-
mércio Justo eram mais justos (obrigado!), quem os faz recebe mais dinheiro porque
não há tantos intermediários, ou seja, pessoas, empresas, que estão entre quem faz e
quem compra e que só pioram a vida dos produtores e clientes, fazendo aumentar os
preços; no Comércio Justo, os produtos poderiam ser (ou não) mais baratos, porque
a economia é complicada (esta parte a Léa não explicou bem) mas são sempre bons,
têm qualidade e são diferentes. Há muitos produtos à venda, desde chá e café, até
roupa, chocolate, instrumentos musicais e artesanato. Como é justo, este comércio
não permite que as mulheres e os homens sejam mal pagos, nem que trabalhem
crianças, como na Índia. Na escola dela havia um Clube de Comércio Equitable (em
Portugal, se houvesse, teria de ser Comércio Justo) onde os próprios alunos compra-
vam e vendiam produtos, como a T-shirt que a mãe dela tinha enviado ao primo e
que, se ele não gostasse, podia trocar, mas era difícil (o Tiago não disse que tinha
achado a camisola muito gira, isso talvez fosse dar demasiada confiança à prima, mas
não falou em trocar). A Léa achava que ela era uma «consumidora responsável» por-
que ela e as amigas diziam aos pais para comprar produtos do Comércio Equitable ou
Justo porque, além de todo o resto, respeitam o ambiente e a ecologia, o que é muito
importante (isto já o Tiago sabia, não era só ela...). A mãe, ou seja, a tia, comprava café
e chocolates – caros mas muito bons e que não há no supermercado – num magazine 5
do mundo perto de casa (aqui o Tiago acabou por perceber que a magazine era uma
loja, palavra que a Léa desconhecia, o que o inchou de prazer por ensinar à prima,
uma palavra nova); havia lojas do mundo em Portugal? Nem ela nem ele sabiam res-
ponder a esta pergunta. Combinaram voltar a falar deste Comércio no dia seguinte.
Antes disso, o Tiago ia falar com uma «stôra» de Geografia. Ele sabia que já tinha fala-
do em consumo e em ecologia na Europa e na Ásia. O Bangladesh não ficava na Ásia?
Tinha umas dúvidas a pôr àquela «stôra»...

***
Nesse dia, em casa, houve uma conversa especial. A certa altura, o pai, muito sério,
disse:
– Comércio Justo, Tiago?
O filho bem se esforçava a argumentar. Necessitava de se lembrar bem da conversa
que tinha tido com a professora; mas conseguiu, ainda assim, dizer dois ou três
argumentos à mesa, no final do jantar (o avô, meio a rir, com o gosto de ver o neto
entusiasmado, até desligou a televisão, por alguns momentos, para a ligar logo de
seguida, por causa da telenovela, claro!). Disse o Tiago que a professora lhe tinha
falado nos ténis que são feitos na Índia (mesmo ali, à volta do Bangladesh – piscadela
para o avô) e na China por crianças e adolescentes da idade dele e muito mal pagos!
A mãe lembrou que tinha visto na televisão uma notícia sobre isso, mas não era na
China, era no Minho, cá no nosso Portugal e a situação tinha metido a polícia! Tiago
engoliu em seco, mas não deu parte de fraco, fingindo que nada disso era novidade.
No comércio convencional, na Ásia, mesmo os adultos, trabalham em média, 10 a
12 horas por dia. Férias e subsídio de Natal, nem pensar! O pai, chefe de turno numa
6 fábrica de pneus, coçou a cabeça. Por um instante, pensou no que seria um Natal
sem o 13º mês e franziu as sobrancelhas. O avô, fazendo de conta que estava meio
distraído com o guardanapo, sorria. A mãe começava a organizar os pratos e fez a
pergunta que já estava na cabeça de todos:
– E isso é mais barato?
Tiago quis responder o que lhe apetecia: «Mesmo que não seja mais barato é mais
justo!» Mas, dentro da sua cabeça, uma campainha tocou e avisou-o do perigo que é
falar de uma ideia difícil sem explicar muito bem tudo e com calma. Lembrou-se do
que a professora lhe tinha dito:
– Diz a minha «stôra» que sim, algumas coisas são mais baratas, outras custam o
mesmo e algumas podem ser mais caras mas, ao menos, sabemos que o ambiente
não sofre (ou sofre menos) e que as pessoas que trabalham também não sofrem (ou
sofrem menos). Além disso, o dinheiro das vendas vai quase todo para quem trabalha
e serve para construir escolas e hospitais para os produtores e seus familiares. A
Léa diz que é consumidora responsável, porque sabe tudo isto e a tia compra café e
chocolates muito bons, mesmo sendo um pouco mais caros do que no supermercado.
Tiago viu uma troca de olhares entre avô, mãe e pai, que avançou:
– É justo.
A mãe, levantando-se exclamou:
– Não sei, ainda tenho de falar com a tua tia, Tiaguito. Ainda não lhe escreveste a
agradecer, Tiago Manuel. Levantem a mesa!
Então, o avô – a inclinar-se para ligar a televisão – devolveu a piscadela ao neto e
este sentiu que tinha ganho uma batalha. Mas a guerra ainda estava no princípio!

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A LOJA

«Ywca é uma sorte de cooperativa, com 250 mulhe-


res do Bangladesh.» O Tiago levou um dia a perceber
esta mensagem que a Léa lhe tinha deixado no
msn. Teve a esperteza de perguntar à «stôra» de
Francês e ficou a saber: a Léa, naquele seu
português, a que começava a achar alguma
piada, queria dizer que Ywca é uma espécie
de cooperativa. Pronto, mistério resolvido.
Só com mulheres? Bem, desde que fizessem
8 roupa fixe como aquela T-shirt, tudo bem.
Mas não deixava de ser um outro mistério:
onde estavam os homens? O pai, à vezes,
ia comprar batatas e verduras a uma
cooperativa perto de casa e havia mulheres
e homens. Será que no Bangladesh não há homens suficientes? Que andam eles a
fazer? As perguntas começavam a acumular-se e o Tiago pensou que estas não as
faria à Léa, tinha de ser ele, um dia, a desvendar estes enigmas que o mundo tem.
Lá longe e ali mesmo, ao pé de casa. Por exemplo, uma vez, ao voltar da escola, deu
consigo a olhar para uma montra de uma loja de artigos desportivos de um pequeno
centro comercial. Foi mesmo ver uma das etiquetas, para ver com os seus próprios
olhos, a diferença. Havia muitos artigos, muitas T-shirts, de desporto e não só, todas
muito parecidas e nenhuma com as cores da sua. As etiquetas pouco diziam, embora
indicassem o país de origem: Espanha, Taiwan, China. Mas tudo aquilo que via na
loja não era Comércio Justo: roupa, sapatos, bolas de futebol, de andebol e outras.
Se o Comércio Justo era isso mesmo, justo, então por que não havia mais lojas a
vender produtos justos? Por que havia tanto produto “injusto”? Aquela das crianças a
trabalhar, quer na Índia quer no Minho, como tinham dito a Léa e a mãe, ainda andava
a dançar na sua cabeça. Este país, este mundo precisa de uma volta!
Com a biblioteca mais vazia, à tarde, depois do intervalo grande, voltou ao
computador e tentou encontrar lojas do mundo em Portugal, um pouco por querer
mesmo saber, um pouco para poder responder à Léa. Encontrou três que falavam de
outras e chegou à conclusão que havia umas dez, no total, o que já era bem bom. E
que cada loja estava sempre ligada a uma associação que defendia o Comércio Justo,
tal como lá fora. Estavam espalhadas de Norte a Sul, por exemplo, no Porto, em Braga,
em Lisboa, em Almada e ali mesmo no Castelo Velho, perto de Vila Nova da Fortaleza!
Tinha de pedir ao pai, ou à mãe para lá ir, conforme os dias... De repente, o msn abre
uma janela e aparece a Léa a perguntar por ele! Tiago teve um pequeníssimo, mas
firme, aperto no estômago! Há com cada uma... A Léa vinha dizer, depois daquelas
perguntas do outro dia, que tinha falado a uma amiga
que tinha falado com a irmã que trabalhava, em
part-time, numa Loja do Mundo (notava-se 9
que Léa escrevia a palavra loja
com vaidade). Essa irmã
tinha ido ver na net que
havia mais de duas
mil lojas na Europa
inteira, sobretudo na
Alemanha e França!
E na Itália e Holanda
também. Na Bélgica
havia quase trezentas!
Em Espanha quase cem!
E Portugal, quantas
tinha? Sentiu-se bem e
mal. Bem, porque podia
responder que sim, que
em Portugal já havia;
mal, porque só tinha descoberto dez! Se noutros países havia tantas, o que estavam
os portugueses à espera? Era uma coisa que funcionava! Despediu-se rapidamente,
prometendo novas mensagens para daí a muito pouco tempo.

***
Dois ou três sms a combinar com o pequeno grupo de amigos e pronto, estavam
todos juntos, o Tiago e os outros três com quem o Tiago dava voltas a pé, no bairro,
entre o centro comercial, a escola e o jardim municipal. Ficaram logo a saber o que o
preocupava. Depois de contada toda a história, houve uma fase em que Tiago teve
de ouvir algumas piadas sobre ele e a prima, mas isso acabou por passar. O Gigas (o
mais alto) disse que era fixe montar uma cena daquelas na escola, só para mostrar aos
«stôres» que eles até sabiam fazer outras cenas. E era uma cena fixe ir vender coisas
que mais ninguém tinha.
– Vender, hum? – quem perguntava era o Nhoca, de óculos na ponta do nariz
– Vender onde, hum, no refeitório? Nas escadas? Nas aulas, hum?
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O Tiago apressou-se a falar, para que o desânimo de Nhoca não contagiasse os outros:
– Não, ‘tás maluco?! Era giro, se a gente pudesse montar no pátio, ou na sala de
convívio uma banca, uma mesa com coisas diferentes e, ao mesmo tempo, estávamos
a fazer mossa no comércio injusto ou seja, comércio convencional.
– Era uma fixe!
– Quer dizer, – entrava o Santos, outro a pôr problemas – arranjas as coisas, chegas
ali à sala onde se junta mais pessoal e vendes, não? Isso não é assim tão fácil! Primeiro,
tens de ir buscar as coisas. Ir buscá-las onde? Calma aí! É preciso falar com alguém que
nos ensine a fazer as contas das vendas. Para já, não falamos ainda com o Executivo.
Achas que nos vão deixar fazer isso?
Afinal, o Santos até nem tinha falado mal, tinha até feito quase o plano todo: pri-
meiro era preciso ver se os profs e o Executivo alinhavam; depois era preciso ir à Loja
do Mundo ali mais perto e falar com alguém que os ajudasse; só faltava montar a
banca e vender! Não parecia muito difícil!
– Hum? Não percebi nada, hum!
– Vai ser uma cena fixe!
Desceram a rua animados com as novas ideias. Eram pensamentos que nunca ti-
nham atravessado as suas cabeças: os profs, bem conversados, até poderiam entrar na
aventura. O Tiago já sabia qual a primeira «stôra» com quem falar. E na Loja do Mundo
onde iam, podiam fazer as perguntas todas.

***
Embora os pais, e mesmo o avô, tivessem dito que sim, que podiam ir à loja, Tiago pen-
sou que, desta vez, se conseguisse, era melhor ir com a «stôra» e com os amigos. Podia?
– Podes.
A professora só esteve livre dois dias depois (não foi muito difícil convencê-la) e
acompanhou o Tiago, o Nhoca, o Gigas e o Santos à loja do Castelo Velho, na condição
de serem eles a fazer as perguntas que quisessem. Como já tinham telefonado antes, 11
estavam à espera deles e, assim, fizeram uma pequena visita guiada. Afinal, foi a
«stôra» quem fez mais perguntas e o Tiago abria bem os olhos para (perceber) melhor.
Nunca se sabia, se no dia seguinte ia ter alguma conversa lá em casa ou com a Léa,
e não queria que lhe faltassem argumentos. Reparou no que havia à venda: além de
alimentos variados (café, chá), havia chocolates e aquelas barras energéticas, compotas
e outros doces em frasco. Brincos, pulseiras, coisas que a Léa devia gostar, cestos e algu-
ma roupa, garrafas de vinho e instrumentos de música. Tudo alinhado por secções e,
com cada produto, um papel atado ou colado, uma etiqueta maior ou mais pequena,
onde se explicava a origem dos produtos e a matéria-prima utilizada. A luz era suave e
a loja não era muito grande. Quatro pessoas andavam a ver as prateleiras e uma outra
estava a ser atendida por uma senhora num balcão de madeira, onde estava a caixa.
Via-se que o senhor da loja, com um nariz comprido, já estava habituado a responder
às perguntas que lhe faziam. Contava tudo com calma, ao mesmo tempo que ele e a
professora bebiam um chá «justo», sentados nuns bancos baixinhos. Aos rapazes tinha
sido oferecida uma bebida fresca mas tinham recusado (excepto o Gigas: «Fixe!»), não
era timidez, era mais uma de calma, como diria o Santos.
«Mas como tinha aparecido o Comércio Justo?», quiseram saber eles. O senhor
do nariz comprido passou a mão pela cabeça e explicou que «comprar um mesmo
artigo aqui ou no Japão ou comer uma refeição igual na Rússia ou nas Américas,
aparentemente é uma coisa boa, mas trazia consigo desigualdades. E os primeiros a
lucrar eram as grandes empresas (mesmo muito grandes), quase todas elas com sede
no hemisfério norte. E quantas empresas desse tipo há? Muito poucas. Por isso, pode-
-se dizer que há muito na mão de poucos, o que é uma injustiça. Além disso, atrás do
poder económico vem o político e, sabendo que algumas dessas grandes empresas
têm mais poder e influência que muitos países, imagine-se como as injustiças andam
umas atrás das outras! Há um exemplo muito fácil de perceber: o café é cultivado no
hemisfério sul, como toda a gente sabe». O Nhocas fez que sim com a cabeça: o Tiago
quase que se desmanchou. «Pois quem decide o preço de cada quilo de café não são
aqueles que têm o trabalho de o plantar, cuidar, colher e tratar. São outros. Quem?
As tais grandes empresas, com sedes em Londres, Paris, Nova
Iorque, Frankfurt, Chicago, ou Zurique. Todas
no Norte. Pagam o que o
12 mercado
internacional manda, sem olhar às condições de trabalho. Pagam quando querem,
sem pensar em escolas, na saúde ou no ambiente.»
O Santos abria muito os olhos.
«Até agora, todos nós, quando fazíamos compras, pensávamos só no produto que
queríamos adquirir e pouco, ou mesmo nada, na sua origem ou em quem os tinha
feito. Com o Comércio Justo, somos obrigados ou levados a pensar mais sobre tudo
o que envolve o que se compra, quer seja para comer, vestir, calçar, etc.. Pensamos
no sítio em que foi feito, em que condições de trabalho, se se respeitou o ambiente,
tudo isso; a ligação entre quem faz e quem compra é maior ou, como na maior parte
dos casos não existe, passa a existir. E será esse conhecimento e a consciência da sua
justiça que fará de nós consumidores mais responsáveis, isto é, sabedores da justiça
do preço que vamos pagar.»
(Será que a Léa saberia explicar isto desta maneira?)
«Por isso é que, muitas vezes, podemos comprar mais caro mas por um preço mais
certo, mais equilibrado, mais justo.» 13
O Gigas pensou (mas teve vergonha de falar, o que era «uma cena má», ele sabia,
mas era assim) que quem comprava coisas do Comércio Justo eram aqueles que
queriam mudar as regras do comércio como existia hoje, ou seja, injusto. E, para
melhor, muda-se sempre!
«De facto, há muitas lojas que vendem produtos do Comércio Justo na Europa,
que começou na Holanda em 1969. Em Portugal há, até hoje, cerca de uma dezena.
Mas também há produtos de Comércio Justo à venda noutros sítios (havia de dizer
isso à mãe). Agrada-nos muito essa ideia de uma venda na escola, até porque isso
faz lembrar outra hipótese que é a de garantir a continuação do trabalho, isto é, em
vez de ser um dia apenas – e estamos quase no Dia Mundial do Comércio Justo, que
é no segundo sábado de Maio –, podemos pensar, se quiserem, na formação de um
clube que se dedique não só a vender mas a pensar um pouco nestes assuntos. (Que
assuntos?) Os preços justos e injustos, a solidariedade entre todos, a importância da
ecologia... No fundo, a filosofia que está na base destas ideias.
Um último aspecto: é preciso ser claro e dizer que o Comércio Justo exige esforço e
alguma teimosia. Mas mudar formas antigas de pensar, nunca se consegue, num abrir
e fechar de olhos.»
– E as outras escolas do concelho? Também poderiam ser contactadas – lembrou a
professora.
– Sim, sim, não só as do concelho como as do país inteiro; aliás, tal como nós
podemos dar apoio nas vossas actividades, cada associação e cada loja pode apoiar
um (ou mais) clube escolar dedicado ao Comércio Justo.
O Santos erguia as sobrancelhas, muito sério.

***
Nunca o Tiago tinha pensado que aquela visita fosse tão importante. Lá em casa,
ao jantar, nesse dia e nos seguintes, fez um brilharete a contar o que tinha sabido e
aprendido. Até porque, na Loja do Mundo, tinham-lhes dado uns papéis a explicar
14 mais pormenores, também referidos pelo senhor (como é que ele se chamava?) que
os tinha recebido: «Afinal, o que é um preço justo?» Ainda se lembrava da resposta:
«É um preço que cobre os custos de produção, isto é, quem faz fica com dinheiro
para poder fazer mais, mas ainda sobra para uma vida digna dessas mesmas pessoas,
incluindo fins sociais: escolas, casas, centros de saúde, etc.» Mas, e a ecologia, seria só
teoria? «Realmente, o respeito pelo ambiente é um dos princípios básicos do Comér-
cio Justo. Nos produtos agrícolas biológicos, há ainda uma margem, ou seja, um boca-
do do dinheiro que serve para ajudar a conservar o meio ambiente, de modo a que
não se estrague e se mantenha por muitos anos».
Com tudo isto, não admira que algumas coisas sejam ao mesmo preço ou mais
caras do que as outras, tal como dissera a professora. Para se ser comprador de
produtos justos, é preciso saber bem onde gastar o dinheiro e, ao mesmo tempo,
não comprar nada que não seja muito ou mesmo nada preciso; assim, aumenta-se
a responsabilidade de quem vai às compras. Devia ser isto que a Léa chamava de
consumo responsável, quer dizer, comprar menos para comprar melhor. Era preferí-
vel comer um chocolate mais caro (mas diferente e, se calhar, mais saboroso, com
chocolate mesmo) do que outros baratuchos, que sabem a sabão castanho, mesmo
que tenham um papel mais colorido e vistoso a embrulhá-los. Mais ainda, havia a
garantia de que não havia crianças a serem exploradas. A mãe concordava com isto,
«É verdade, Tiaguito», mas custava-lhe pagar mais por trezentos gramas de café,
quando podia comprar mais barato no super da esquina. Isso de ser consumidor
responsável podia sair um pouco mais caro, era certo. Exigia uma vontade forte,
obrigava a um conhecimento maior do mundo, era preciso ter...
– Coragem! – interrompeu o pai – As coisas devem ser chamadas pelos nomes.

***
Então, tudo isto queria dizer, que havia, em toda a Terra, pessoas a pensar em como
se podia combater os preços injustos e tudo o que eles traziam consigo: a exploração
do trabalho de mulheres, de crianças (e de homens, também, claro). Isto queria
dizer que na Índia, e em mais sítios na Ásia, no Brasil, na Europa e, portanto, cá em
Portugal, havia gente que se preocupava com o ozono, com a água e com o aumento
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da temperatura global da Terra. Mas também em tornar a
vida mais justa para tantas outras pessoas, em Vila Nova da
Fortaleza, Castelo Velho, Lisboa, Bruxelas ou Bangladesh.
E isso podia ser feito por exemplo, através de clubes nas
escolas e de lojas do mundo, para que pudéssemos dizer que
éramos solidários. Como é que se escrevia solidariedade
em francês? Se o telemóvel tivesse dicionário... Mas
a biblioteca tinha um: queria fazer uma boa figura
quando falasse com a prima.
O CLUBE

Era espanhol, chamava-se Paco e morava numa terra perto de Sevilha, com um
nome difícil de dizer. O Tiago, pelo menos, achava que sim. O msn dele estava sempre
aberto, devia ser daqueles que nunca desligava o computador. Quer fosse de manhã,
ou de tarde, o Paco tinha o msn ligado. Se tivesse computador em casa, o Tiago tam-
bém nunca o desligaria.... a não ser que houvesse uma voz a dizer «Tiago Manuel»!
(Ainda não tinha escrito à tia, a agradecer!) Mas promessas eram promessas e o 8º ano
não estava acabado. O computador prometido só chegava quando passasse para o
10º e depois então... depois já poderia falar com o Paco, com o Renzo, de Itália e com
a Léa, claro. Aliás, era ela que lhe tinha arranjado estes contactos, com a ajuda da tal
16 amiga que tinha falado com a irmã que trabalhava numa Loja do Mundo. Mas falar
com o Renzo era muito secante! Mal se percebia o que escrevia e ele, apesar de dizer
sempre bene bene, também não percebia grande coisa. Assim, ficou com o Paco. Com
este, ao menos, podia falar mais (que si, que si!) e já tinha uma certa experiência de
adaptação de palavras... Em Espanha, o Comércio Justo estava muito mais avançado
do que cá. Como trabalhava numa loja de Comércio Justo, como voluntário, Paco
sabia muito sobre alguns produtos, sobretudo, como importá-los, isto é, como fazer
com que as prateleiras da loja ficassem cheias, para depois vender. O Tiago não perce-
beu bem o que era ser voluntário e quando compreendeu que era trabalhar duas
horas, à terça e quinta, sem receber um euro que fosse, ficou pasmado. E não era só
o Paco: ele, o irmão e outro amigo (mais velhos) tomavam conta da loja nesses dias e
faziam as contas. A Associação de Comércio Justo local arranjava mais pessoal, volun-
tário ou não, para manter a loja aberta durante a semana até mesmo ao sábado, todo
o dia, fechando lunes – Lua? Dia da lua!? – que é como eles chamam à segunda-feira.
O senhor da loja que tinham visitado nunca lhes falou disso, em voluntários da loja, se
calhar não precisa... Uma pergunta para fazer mais tarde.
Entretanto, a ideia do clube, na escola, lá ia andando mas não tão depressa quan-
to o Tiago gostaria. («Parece que há uma reunião na escola e que a ideia do clube tem
de ser aprovada por essa e por outra reunião ainda maior...») O Tiago não percebe
bem o que se passa. A professora que o acompanha nestas andanças farta-se de lhe
explicar o que o Conselho Pedagógico ou a Assembleia de Escola fazem, etc., etc.,
mas nem o Tiago nem os outros aceitam que se demore tanto tempo para fazer uma
cena tão fixe, como diz o Gigas. Até mesmo ele está a perder a paciência. Tiago, num
momento de mais fraqueza, confessa isto mesmo à prima. Esta diz-lhe que na escola
dela foi a mesma coisa, que ela ainda não estava metida naquilo no princípio, mas que
ouvia os outros a queixarem-se. Só depois de muito tempo é que as coisas ficaram
resolvidas. E havia ainda outros problemas. Quais? Primeiro, os profs vão dizer que
sim, mas depois não se encontra nunca um sítio, uma sala para pôr as coisas; depois,
há pessoal que entra e sai logo a seguir. Tinha tido um da turma dela que, quando
viu que aquilo dava algum trabalho e não dava saídas à noite, foi-se logo embora.
Há sempre gente para ajudar a montar a banca mas, para arrumar ninguém aparece.
Tiago achou aqueles pontos importantes mas, se fosse só isso... Ele acreditava que
a loja que tinha visitado, já era uma boa ajuda. Outra, tinha sido a «stôra», claro, que 17
numa tarde, mais o Gigas, o Santos e a Cris (uma curte entre estes dois? Não sei...),
tinha escrito umas duas ou três páginas daquilo a que chamava, com cara e voz de
professora, O PROJECTO! Se era projecto ou não, o Tiago não sabia. Tinha de haver um
papel com as coisas mais ou menos explicadas, está certo, mas para quê complicar? A
certa altura, a prof perguntou onde é que se iam guardar as coisas? Se era a loja que
vinha trazer os produtos, ainda assim, tinha de haver um sítio onde fossem guardados
os papéis, as canetas, um pequeno cofre com o dinheiro, um pano com o nome do
clube (uma «stôra» de Visual ia fazê-lo com os alunos dela). O Tiago, avisado pela Léa,
já tinha uma solução e avançou:
– O «stôr» de Informática diz que se pode utilizar um armário da sala de Info
enquanto não arranjarmos outro sítio!
A pouco e pouco, a aventura começava a tomar forma e já não era possível andar
para trás. O Clube de Comércio Justo da Escola de Vila Nova da Fortaleza ia ser uma
realidade e não havia ninguém que impedisse o Tiago e o seu grupo de...
– Pára, Tiago!
A prof colocava-lhe a mão à frente da cara para o fazer
parar, num momento em que o Tiago ia a correr já nem
sabia para quê. Quase a derrapar, estacou, ao ver o rosto
sério da professora.
– O Conselho Executivo autoriza a formação do CCJ –
Clube de Comércio Justo, mas só depois de ver como corre
a primeira venda. Tem de se fazer uma boa divulgação,
arranjas uns balões, fazem uns panfletos, qualquer
coisa. Se a actividade não tiver êxito, temos de pensar
melhor nisto. E outra coisa, tal como está no Projecto que
escrevemos (outra vez o projecto...), não basta vender 5
quilos de chá e 3 de café. Tens de saber mostrar a todos
– alunos, funcionários, professores e pais – como a venda
é especial, primeiro porque estamos numa escola, que é
18 diferente de um mercado ou de uma loja e, depois, porque
a venda é apenas mais um passo para abrir a consciência das pessoas, neste caso,
especialmente dos alunos.
(Todos gostavam daquela «stôra», mas quando se punha a fazer discursos...)
As notícias, afinal de contas, não eram más de todo. Sem ver o sorriso que se ia
formando na cara da professora, Tiago voltou a correr, agora com mais força: a que
horas abria a biblioteca? «Será que o computador lá do fundo está ligado»?

***
«Minha mãe, pede para dizeres à tua, que está a pensar ir aí em août. Todo o mun-
do vai. Papa vai dias mais tarde por causa do trabalho» Août? Ah, Agosto, tudo bem.
Agosto? Léa em Vila Nova em Agosto? Tiago, de repente, não sabia já em que mês
estava. Era Abril e, para o segundo sábado de Maio, dia do Comércio Justo no mundo
inteiro, nem faltava um mês! E os testes! E as aulas? Calma aí, dizia o Santos, calma
aqui podia dizer o Tiago, embora com menos convicção. Mas mesmo quando estava
a estudar, as imagens vinham bater-lhe na cabeça: e se a venda falhasse? Já tinham
feito os panfletos, uns cartazes no bar e no refeitório, até tinham ido à secretaria e à
reunião dos pais anunciar a venda justa do Clube. Teve de fazer um esforço para não
pensar nisso, para já. O mais importante, naquele momento, era ter boa nota no teste
seguinte, de Português, porque o computador continuava prometido.

***
Às vezes, era uma grande confusão, mas era um acontecimento de cada vez que a
Léa, o Paco e o Tiago se juntavam no msn. O português de Vila Nova sentia-se maior,
capaz de alcançar o mundo inteiro, embora estivesse apenas a falar com Espanha e
Bélgica. Mas punha-se a pensar se não poderia falar com outros contactos, no msn
ou fosse onde fosse, fazer um chat com Inglaterra, Holanda, Suíça. O problema era
a língua, pois, isso era. Mas... e o Brasil? Não havia tantos países a falar português?
Angola e Moçambique? E tudo isto graças ao Comércio Justo! Será que havia Comér-
cio Justo em Angola? E em África? A maior parte das coisas que tinha visto na loja
que visitara era da América Latina. As guerras africanas não deixavam que houvesse 19
produtos justos? Isso não seria bem assim, porque também havia problemas na
Europa, no Kosovo (o tio Eduardo da GNR, o outro irmão da mãe, tinha lá estado a
prestar serviço), sem falar da Ásia, Timor-Leste, de onde o tio Eduardo (o tio Eduardo
já conhecia meio mundo!) tinha trazido uns panos com cores que deu à mãe. Haveria
Comércio Justo em Timor-Leste? Sentia-se quase como o tio Eduardo: capaz de viajar
e conhecer o mundo todo, capaz de dizer coisas sobre este e aquele país, estas e aque-
las pessoas, as mulheres das roupas do Bangladesh, os homens agricultores chineses
das montanhas Wuyuan ou os artesãos africanos do Zimbabwe, segundo os papéis da
Loja do Mundo do Castelo Velho. Agora entendia melhor este nome: Loja do Mundo.
Deve haver, ou vai haver, um dia, numa cidade qualquer, uma loja onde há coisas à
venda de todos os continentes, mas todas “justas”: comida, roupa, sapatos, artigos
de desporto, cd’s com música fixe, «cenas loucas», adivinhem quem disse isto!? E
pensar que em todos esses lugares havia pessoas que tinham formado associações,
cooperativas, todas elas a trabalhar para que este mundo desse a tal volta, para que
houvesse menos gente tão pobre e todos tivessem acesso à saúde, à escola e direito
a uma casa. Se cada loja que existe pudesse ser um princípio de uma outra... Se cada
clube que se forma numa escola pudesse ajudar a formar outro noutra escola, longe
ou perto, tanto faz... «O que é longe para mim,» pensava o Tiago, «é perto para outros
e vice-versa». Um rapaz com catorze anos do Bangladesh deve achar que Vila Nova da
20 Fortaleza fica no fim do mundo! E qual é a capital do Bangladesh? E se a «stôra» lhe
pergunta? Pior, e se a Léa lhe pergunta?!

***
Chegou o mês de Maio e, com ele, um sábado especial, o segundo. A loja de
Castelo Velho e a escola juntaram-se e com o apoio da Câmara Municipal e da Junta
de Freguesia, celebrou-se o Dia Mundial do Comércio Justo. A Cris, o Santos e o
Gigas ajudaram e até o Nhoca («Queres que eu faça o quê, hum, diz lá... ») ajudou a
transportar as mesas para a sala de convívio, local escolhido para fazer a venda justa.
O sol estava de frente, sobretudo durante a manhã, o que era um problema para
quem estava na banca (a luz feria os olhos!) mas iluminava os produtos de uma manei-
ra tal que parecia que tinham chegado da Nicarágua ou do Chile nesse mesmo dia,
quando afinal tinham vindo de Espanha ou de Itália há mais tempo.
Quando houver mais lojas vai ser preciso mais coisas à venda, isso é uma certeza.
E produtos muito diferentes uns dos outros, que o Tiago tinha conseguido ver na
net, noutras lojas “justas” de outros países e que, afinal, também havia em Portugal;
alguns até com nomes estranhos: espanta-espíritos, pau de chuva, guiro, massajador
‘pijat’, djembe, didgeridoo. Muitos destes artigos, segundo dizia o sr. Gonzaga, eram
muito difíceis ou impossíveis de encontrar nas lojas normais, muito menos nos super-
mercados ou nos centros comerciais, mesmo nos maiores.
Foi muito importante, para a Direcção da escola, ver os funcionários, os professores
e os pais (incluindo os do Tiago – «Ai, Tiaguito, sempre conseguiste!» – e mesmo o avô,
como não podia deixar de ser) animados em volta dos produtos. Bebiam café ou chá e
alguns até se chegaram a abanar com o som de um cd com música da Guatemala («É
um bocado esquisito ver os profs a dançar», dizia o Gigas ao Santos, «mas, iá, fixe, tudo
bem...»). Ao mesmo tempo que iam vendendo, iam lendo as etiquetas e explicando o
que era o Comércio Justo. Havia quem fizesse perguntas mais difíceis e o Santos ou o
Tiago olhavam logo para o sr. Gonzaga ou para os «stôres» e eles resolviam a questão.
A ideia de comerciar de forma justa estava a entrar na cabeça de toda aquela gente
que lá esteve. Talvez fossem falar disto a outros e, com um pouco de imaginação,
podia-se pensar num movimento maior de pessoas a consumir responsavelmente, a 21
perguntar, nas lojas normais, se este ou aquele produto respeitava a ecologia, se tinha
sido feito por menores de idade, se o baixo preço se ficava a dever à exploração de
mão de obra, em países muito frágeis do ponto de vista económico e por isso, sujeitos
a intervenções estranhas e estrangeiras que conduzem, quase sempre, a situações
incríveis. O Tiago e o grupo dele iam à escola, comiam e dormiam bem: e se tivessem
de trabalhar no campo ou numa fábrica de manhã até à noite, sem direitos nenhuns,
só deveres, só com a certeza de um salário baixíssimo?
O Comércio Justo tinha a vantagem de poder entrar, de forma fácil e natural, no
dia a dia de toda a gente, porque todos precisamos disto e daquilo, todos somos con-
sumidores. Mas nem sempre somos responsáveis nas nossas escolhas, isso era preciso
admitir; e quando se admite que é preciso mudar, então estamos no bom caminho.
Tem de se dizer que, depois do almoço, não houve tanto movimento, apesar de
muitos pais terem comparecido, e o que valeu foi a banda do ZengaMeu, que fez uns
números de hip-hop durante a tarde e animaram a festa. O ZengaMeu, aluno do 11º
ano, tinha gostado da ideia e quis participar.
Os três professores que estavam a ajudar na descarga dos produtos acharam bem
mas o Tiago esqueceu-se de pedir autorização; chegou a ter medo que houvesse
bronca mas, afinal, não teve razão para o susto.
O Executivo, dias depois, chamou o Tiago e os outros. Foram elogiados pelo
trabalho que tiveram antes e durante aquele sábado. Antes, porque tinham sabido
publicitar e depois porque nunca se lembravam de um sábado tão concorrido,
quer dizer, com tanta gente tão diferente na escola. Até um polícia (a PSP tinha
sido convidada a estar presente), ao fim da tarde, tirou o barrete e comeu biscoitos
indianos. O Santos sorriu. O Gigas e o Nhoca olharam um para o outro, a rir. Estavam
todos contentes e mais contentes ficaram quando souberam que podiam formar
o tal Clube de Comércio Justo, para fazer mais coisas, talvez projectar um
filme, uma festa-convívio, enfim, uma iniciativa qualquer desse género.

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EPÍLOGO
O SEGREDO

« A capital do Bangladesh é Dahka, então não sabiam?» O Gigas e o Nhoca


encolheram os ombros. Tinham-se lembrado de perguntar qual era a capital mas,
afinal, o nome da capital de um país tão pequeno e tão longe «não é assim tão
importante, iá?».
– Longe para vocês, pertinho para eles, os que lá moram!
Nesse momento, passavam por uma montra e viram-se reflectidos no vidro. O
Nhoca ajeitou os óculos para ver melhor. Ficaram todos os três a olhar-se, especialmen-
te para as T-shirts que tinham ganho no dia da venda justa, quando ainda estavam no 23
8º. Eram as três do Bangladesh, todas de cores diferentes.
– Se há um país que faz roupa com umas cores tão fixes, é porque tem alguma
importância – consentiu o Gigas.
A Léa, depois de ter passado quase dois meses lá em casa – o Tiago não admitia,
mas tinha saudades dela – não se cansou de dizer que o primo era muito «superrrrr» e
que «o Portugal está bom», agora também tinha mais escolas e lojas justas, tal como
na terra dela e noutras.
O CCJ ia muito bem: tinham contactado, com êxito, outras escolas do concelho
e havia já ideias, mas o Tiago tinha um projecto (tinha aprendido esta palavra com
a «stôra») secreto, tão secreto que ainda não tinha dito nada a ninguém, nem aos
melhores amigos. Pediu para falar com a tal professora e, depois de algumas pergun-
tas feitas só para ganhar coragem, falou na hipótese de se organizar uma visita de
es-tu-do (martelou estas sílabas) a outros CCJ de outras escolas, a outras associações
e lojas do mundo, «por exemplo, na Bélgica, por exemplo, a Bruxelas». A professora
prometeu pensar no assunto. Logo a seguir, entrou na sala de professores, pousou a
mala e os livros e contou a uma colega o que o Tiago lhe propusera.
– Vê lá tu que agora quer ir a Bruxelas! É que o rapaz anda mesmo interessado nisto
do Comércio Justo!

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